26th of December

Um YouTuber contra o Utilitarismo


Um YouTuber político da linha libertária ensina seus seguidores a xingar John Stuart Mill e o utilitarismo. Isso gerou um fenômeno curioso, que é um tabu contra essa teoria filosófica e suas filhas com uma frequência não-negligenciável nas redes sociais. Tabu pois tudo o que têm a oferecer são xingamentos, não argumentos sobre o porquê da sua desaprovação.

O utilitarismo clássico teve como fundadores, além de Mill (1806-1873), Jeremy Bentham (1748-1832) e Henry Sidgwick (1838-1900). Todos ingleses. Sidgwick é considerado o mais cuidadoso dos três nessa teoria ética, e, para variar, é o menos conhecido dos três. Os sensatos e moderados geralmente não têm sua sensatez e moderação premiada com a fama.

O que é, então, o utilitarismo (clássico)? É uma teoria metaética, ou seja, que visa a dar diretrizes sobre como chegar a conclusões morais com rigor. Essas diretrizes são que a decisão moral correta visa a diminuir a dor e maximizar o prazer para o maior número possível de pessoas. Ao conjunto dessas duas ações deram o nome “utilidade”, daí “utilitarismo”. Essa ideia pode soar plausível à primeira vista, mas leva a problemas fatais, então basicamente ninguém mais, ao menos entre filósofos, é um utilitarista clássico hoje em dia. É correto selecionar ao acaso um paciente num hospital, ou um visitante saudável que estiver passando por lá, matá-lo, extrair seus órgãos e doar para os pacientes que esperavam por transplante, maximizando a utilidade? Segundo essa teoria, parece que sim, o que conflita com nossa intuição comum de que isso é errado, e uma intuição que parece mais moralmente sólida que as invenções dos três filósofos. O que é o sentido da vida? É aparentemente um problema moral que não parece ser prontamente solucionável com a sugestão metaética de falar só em dor e em prazer. As discussões modernas do problema levam mais à proposta de que o sentido da vida tem a ver com uma “entrega ativa a projetos de valor”, como resumiu o professor Desidério Murcho.

Em certo sentido, o utilitarismo é uma ideia radical. O YouTuber se diz defensor de ideias radicais outras a favor da liberdade. O problema das ideias radicais em geral, como diz a filósofa Susan Haack, é que são na maior parte radicalmente implausíveis.

É necessária uma classificação de ideias como essa entre verdadeiras e falsas, mas às vezes isso turva o fato de que há diferentes formas de estar errado. Há erros tão grotescos que sequer são inteligíveis. Não é o caso do utilitarismo clássico, que foi um erro na direção certa. Digo isso porque, examinando a vida desses três, vê-se logo que sua teoria ou causou ou foi resultado de sua inteligência aliada à sua correção moral.

Mill famosamente foi o primeiro parlamentar a tentar estender direitos plenos às mulheres britânicas. Bentham esteve à frente de seu tempo ao propor que gays tinham liberdade de exercer sua sexualidade e que era imoral a crueldade contra animais. Quanto a Sidgwick preciso confessar que também sou afetado pela falta de fama dele e não sei o suficiente de sua vida.

Então, especialmente no caso de Mill e Bentham, vemos que, ao tentar fundar a ética sobre um alicerce secular e objetivo, eles se libertaram de preconceitos morais de suas próprias culturas e propuseram progressos bem além de seu tempo. Não propuseram o desmembramento de indivíduos inocentes em hospitais nem nenhuma atrocidade do tipo. O que tinham era uma teoria errada por ser incompleta, não errada por ser propositalmente cruel.

Em consequência, propuseram a expansão das liberdades que esse YouTuber alega querer para o Brasil. Se quer mesmo, respeite mais os utilitaristas e pare de criar uma legião de difamadores dos filósofos e da teoria.

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