30th of janeiro

O pior texto do meu blog Um exercício de falibilidade e revisão crítica de opinião


29th of janeiro

Olavo de Carvalho, Charles Darwin e Pseudofilósofos Uma análise de um texto de um dos "filósofos" mais populares do Brasil, com réplica e tréplica


Resposta do Olavo (ao vídeo acima):

Minha tréplica:

29th of janeiro

Richard Dawkins e J. K. Rowling alvos de justiceiros sociais na mesma semana Ninguém está a salvo da polícia do pensamento


Nos últimos dois dias, Richard Dawkins e J. K. Rowling foram alvos de acusações injustas no Twitter.

Dawkins postou uma animação satírica em que a extremista feminista canadense “Big Red” toca um piano enquanto um “islamista”* canta. É um comentário político bem atual sobre os eventos do reveillon em Colônia, Alemanha, em que várias mulheres foram atacadas e até estupradas por um grupo de imigrantes muçulmanos. O hábito de assédio coletivo por fundamentalistas muçulmanos tem nome: taharrush gamea, que é literalmente “assédio coletivo” em árabe. Esses homens premeditam um ataque em que passam a mão, roubam, mordem, assaltam e até estupram mulheres. Diz-se que o taharrush foi usado como arma contra manifestantes políticas na praça de Tahrir durante a revolução egípcia. Muitas publicações feministas, diante do ocorrido, consideraram uma prioridade maior “respeitar” a cultura desses imigrantes e reclamar da “islamofobia” do que defender as mulheres alvos do taharrush. É disso que trata a paródia que Dawkins compartilhou.

A forma como Dawkins compartilhou, aliás, não poderia ter sido mais cuidadosa. Ele diz que, enquanto ele mesmo é feminista (no sentido igualitário), há uma minoria de extremistas no feminismo que merecem a crítica.

Pois não adiantou para um encontro de céticos britânico. Por tuitar a crítica, Dawkins foi “desconvidado” como palestrante. A justificação, soando meio incoerente, diz que o motivo tem a ver com o vídeo ser “ofensivo” enquanto o encontro é a favor da liberdade de expressão inclusive de opiniões ofensivas. Justificaram o desconvite com um apelo contrário ao “discurso de ódio” (sem definir o que é isso nem por que o vídeo é isso). Um fiasco para quem alega apoiar o racionalismo, e mais um sinal de que tendências autoritárias e dogmáticas são encontradas nas melhores das intenções.

Um dia depois do episódio de Dawkins, foi a vez de J. K. Rowling ficar no banco dos réus da polícia do pensamento. Com base num print aparentemente forjado, uma política eleita britânica, Natalie McGarry, acusou Rowling de apoiar a “misoginia” e o assédio de mulheres no Twitter. Rowling respondeu pedindo evidências disso repetidamente. Só muitas horas depois McGarry pediu desculpas e fechou seu Twitter. Ora, não é preciso muito mais que ler os livros de Rowling para saber da implausibilidade da alegação de McGarry.

Notem que os dois episódios são conectados ao “feminismo”. Ou a pessoas que alegam estar agindo a favor das mulheres e contra o sexismo. Mas percebe-se uma pressa em interpretar mal, uma exigência cheia de soberba para que os outros peçam desculpas não acompanhada de qualquer vontade de explicar como e porquê estão errados. O modus operandi é o uso de jargão: Dawkins está desconvidado em nome do “discurso de ódio” e Rowling merece acusações difamatórias públicas por falar com uma persona non grata (“unperson”?) num print como se ela pudesse ser responsabilizada pelas ações (assumidas) de outrem. Começa-se com intenção de fazer ativismo e termina-se emulando o comportamento de autoritários em distopias.

Feministas de pensamento claro, comprometidas de fato com melhorar as condições das relações de gênero, precisam recuperar seu movimento das mãos de “feministas” corporativistas de gênero e justiceiras sociais.

* Em inglês está se popularizando uma distinção entre muçulmano, praticante do Islã, e “islamista”, que é quem acha que o Islã precisa ser imposto à sociedade e ao Estado, que quem não acredita no islã é má pessoa, etc. Talvez esses termos possam funcionar em português também, mas esse esclarecimento é necessário pois “islamista” ainda é sinônimo de “muçulmano”.

– Vídeo “feministas amam islamistas”: https://www.youtube.com/watch?v=ecJUqhm2g08
– Big Red: https://www.youtube.com/watch?v=mpNapJK1uMg
– Taharrush gamea: https://en.wikipedia.org/wiki/Taharrush_gamea
– Sobre Dawkins e seu tweet: http://www.washingtonexaminer.com/richard-dawkins…/…/2581704
– Sobre o policiamento do pensamento de J. K. Rowling: https://twitter.com/EliVieira/status/692840130826997761

28th of janeiro

Autismo: teoria e prática Uma entrevista com Andréa Werner Bonoli


Uma conversa entre uma mãe de autista (Andréa Werner Bonoli, mãe do Theo) e um geneticista para servir de guia a todas as pessoas afetadas e interessadas. Blog da Andréa: http://lagartavirapupa.com.br Patrocine vídeos de divulgação científica como este com um dólar ou mais por mês em: http://patreon.com/elivieira

Informações citadas:

PECS, Sistema de Comunicação por Troca de Figuras https://en.wikipedia.org/wiki/Picture_Exchange_Communication_System (sem tradução para o português na Wikipédia)

Sobre tratamentos charlatanescos com “cândida” / água sanitária, uma reportagem investigativa da BBC expondo os responsáveis: http://www.bbc.co.uk/news/uk-england-london-33079776

Documentário Le Mur com legendas em português http://www.dragonbleutv.com/pt/documentaires/23-le-mur-ou-la-psychanalyse-a-l-epreuve-de-l-autisme-pt

Sobre o farsante autor do estudo que alegou que vacinas causavam autismo: https://en.wikipedia.org/wiki/Andrew_Wakefield

Revista Time: 4 doenças que estão voltando graças aos antivacinas http://time.com/27308/4-diseases-making-a-comeback-thanks-to-anti-vaxxers/

Referências científicas:

Charlop-Christy, Marjorie H., Michael Carpenter, Loc Le, Linda A. LeBlanc, and Kristen Kellet. ‘Using the Picture Exchange Communication System (pecs) with Children with Autism: Assessment of Pecs Acquisition, Speech, Social-Communicative Behavior, and Problem Behavior’. Journal of Applied Behavior Analysis 35, no. 3 (1 September 2002): 213–31. doi:10.1901/jaba.2002.35-213.

Chevallier, Coralie, Gregor Kohls, Vanessa Troiani, Edward S. Brodkin, and Robert T. Schultz. ‘The Social Motivation Theory of Autism’. Trends in Cognitive Sciences 16, no. 4 (April 2012): 231–39. doi:10.1016/j.tics.2012.02.007.

Faraone, Stephen V., Roy H. Perlis, Alysa E. Doyle, Jordan W. Smoller, Jennifer J. Goralnick, Meredith A. Holmgren, and Pamela Sklar. ‘Molecular Genetics of Attention-Deficit/hyperactivity Disorder’. Biological Psychiatry 57, no. 11 (1 June 2005): 1313–23. doi:10.1016/j.biopsych.2004.11.024.

Gaugler, Trent, Lambertus Klei, Stephan J. Sanders, Corneliu A. Bodea, Arthur P. Goldberg, Ann B. Lee, Milind Mahajan, et al. ‘Most Genetic Risk for Autism Resides with Common Variation’. Nature Genetics 46, no. 8 (August 2014): 881–85. doi:10.1038/ng.3039.

Gottesman, Irving I., and Todd D. Gould. ‘The Endophenotype Concept in Psychiatry: Etymology and Strategic Intentions’. American Journal of Psychiatry 160, no. 4 (1 April 2003): 636–45. doi:10.1176/appi.ajp.160.4.636.

Knickmeyer, Rebecca Christine, and Simon Baron-Cohen. ‘Topical Review: Fetal Testosterone and Sex Differences in Typical Social Development and in Autism’. Journal of Child Neurology 21, no. 10 (10 January 2006): 825–45. doi:10.1177/08830738060210101601.

Taylor, Luke E., Amy L. Swerdfeger, and Guy D. Eslick. ‘Vaccines Are Not Associated with Autism: An Evidence-Based Meta-Analysis of Case-Control and Cohort Studies’. Vaccine 32, no. 29 (17 June 2014): 3623–29. doi:10.1016/j.vaccine.2014.04.085.

18th of junho

O curioso caso de quando o Olavo de Carvalho concordou com a esquerda


Em tempos de renovado espaço na Folha de São Paulo, a última coisa que Olavão quer que nós lembremos é que ele já concordou – e muito – com certa parte da esquerda. Na verdade, ele continua concordando entusiasticamente, como veremos. A história é bem conhecida em círculos intelectuais, e merece mais divulgação para a população em geral.No fim da década de 1990, um movimento mais ou menos difuso de ideias, chamado de “pós-modernismo”, estava em seu ápice. As ideias mais comuns veiculadas por esse movimento não são muito novas – por exemplo, relativismo epistemológico, relativismo moral, redução de problemas intelectuais a quedas de braço de interesses cegos (políticos, pessoais, étnicos, econômicos) em detrimento da confiança iluminista em verdade, objetividade, imparcialidade etc. Evidentemente, para abraçar as últimas não é necessário ser cego para com vieses. No entanto, ao desistir totalmente delas, o pós-modernismo viu-se dando espaço para a aceitação de visões acriticamente pessimistas das capacidades humanas de raciocínio integrativo e ceticismo crítico (em oposição à dúvida teimosa sobre tudo conhecida como ceticismo pirrônico). Até algumas pessoas que não se encaixam totalmente na definição de “pós-moderno”, como Michel Foucault, acabaram caindo em algumas de suas armadilhas – notoriamente, Foucault acabou apoiando a “revolução” dos aiatolás no Irã, e é difícil disfarçar que isso foi por relativismo cultural (que o que é certo ou errado moralmente depende totalmente da cultura em que estamos). O pós-modernismo, se não nasceu totalmente da esquerda, foi alimentado entusiasticamente por seus seios fartos.

Foi em resposta a esse modismo da sandice que Alan Sokal, um físico, escreveu um texto no estilo obscuro amado pelos pós-modernos, para ser publicado na revista “Social Text”. O texto abusava de termos científicos, besuntava afirmações loucas com termos da mecânica quântica e termos da moda usados e abusados na época e até hoje (“hermenêutica”, por exemplo, e “semiótica”, que o filósofo John Searle diz – provocando – que nem quem a usa como nome de sua própria profissão sabe direito do que ela trata). A revista aceitou o artigo embusteiro com louvor suficiente de publicá-lo num volume especial sobre ciência. Seguiu-se um chacoalhar raramente visto antes na torre de marfim. Para quem gosta de ciência criticamente (ou seja, sem cientificismo), o artigo falso de Sokal foi um ponto de inflexão para conscientizar a intelectualidade da importância de uma volta aos valores de origem (da própria intelectualidade institucionalizada). O evento, conhecido como “Sokal Hoax”, foi seguido pela publicação do livro “Imposturas Intelectuais”, pelo próprio Sokal em parceria com Jean Bricmont.

Importantemente, o episódio foi precedido pelo alerta de um livro de Paul Gross e Norman Levitt, cujo título, e especialmente subtítulo, dizem tudo: “Higher Superstition: The Academic Left and Its Quarrels with Science” [Superstição Superior: A Esquerda Acadêmica e suas Brigas com a Ciência].

Onde entra Olavo de Carvalho nisso tudo? Ele mesmo um exímio produtor de prosa floreada porém obscura, obscura porém floreada, que seus seguidores se iludem achando que é filosofia, foi um dos primeiros a atacar a defesa de Sokal da racionalidade filosófica clássica e sua filha, a ciência. Não à toa, Olavo é famoso por suas diatribes sobre as teorias de Newton e Darwin, e, é claro, pela frase filosófica “combustível fóssil é o cu da tua mãe”.

O maravilhoso espetáculo de Olavão se juntando a acadêmicos de esquerda no linchamento ao pensamento crítico pode ser lido no próprio site do Sokal: http://www.physics.nyu.edu/sokal/folha.html

A lição a levar para casa é: em todo o seu mundo maniqueísta de esquerda versus direita, comunistas versus capitalistas, Olavo de Carvalho não é sincero quanto ao seu ódio à esquerda. Quando é para atacar ciência e filosofia de fato (que ele nunca praticou na vida, sendo no máximo um bom leitor de Aristóteles), Olavo ama a esquerda de paixão. A beija, a abraça, e fornica com ela.

Post Scriptum

Algumas pessoas protestaram que eu não interpretei corretamente a resenha do Olavo de Carvalho nem levei em consideração supostos elogios que ele fez à empreitada do Sokal. Pois bem, vamos deixar algumas coisas mais claras.

Quando eu digo que Olavo concorda com a parte pós-moderna da esquerda, é no sentido de ele, tanto quanto a última, insistir em ataques às teorias científicas, de forma bem desinformada sobre o que essas teorias dizem (não está na resenha sobre a Sokal Hoax, mas está em vários textos dele); e no sentido de ele tentar reduzir discordâncias de cunho ‘cognitivo’ a conflitos de interesses entre esquerda e direita (está na resenha). Atacar ciência e reduzir problemas intelectuais a conflitos de interesses são duas marcas notáveis de pós-modernismo. Outra marca é um estilo obscuro de escrita que pós-modernos amam e Olavo de Carvalho pratica frequentemente (está na resenha também). Não tomem minha palavra a respeito: basta ler por exemplo o texto dele atacando a teoria da evolução pela seleção natural de Darwin (evidentemente, entender onde Olavo erra requer algum conhecimento da teoria de Darwin e da teoria moderna da evolução): http://www.olavodecarvalho.org/semana/090220dc.html

O fato de ele supostamente ter elogiado o que Sokal fez é claramente pelo único motivo de que ele pensa que Sokal destruiu intelectualmente a esquerda. Ou seja, tenta reduzir a esquerda acadêmica completamente aos erros de sua parte pós-moderna. Isso é tanto desonestidade intelectual, dada a insistência do próprio Sokal (que é de esquerda) que estava criticando erros de uma minoria na esquerda, quanto redução a conflito de interesses. Se o Olavo estiver certo, então Sokal teria de ser pós-moderno sem saber, já que Olavo quer reduzir tudo ao seu maniqueísmo de eixo esquerda-direita.

Ironicamente, pelos motivos expostos acima – volúpia de atacar a ciência sem entendê-la, redução de problemas que devem ser resolvidos no campo do argumento e da evidência a problemas de conflito de interesses políticos (ao tentar igualar esquerda intelectual a pós-modernismo), e obscurantismo de conceitos mal definidos e prosa embotada – quem é pós-moderno sem o saber é o Olavo.

[Editado em 26/08/2016 para incluir meu vídeo comentando em detalhes o texto do Olavo atacando Charles Darwin e a teoria da evolução.]