14th of July

Gênero continua não sendo construção social: resposta à crítica


O artigo da Daphna Joel no PNAS (ver meu texto sobre gênero não ser construção social) alega que não há forma objetiva de classificar cérebros em masculino e feminino. Três respostas a essa alegação vieram. Em uma delas, os mesmos dados em análise multivariada permitem prever o sexo da pessoa cujo cérebro está sendo analisado com 70% de acerto. Eu falei em particular com alguns cientistas especialistas no assunto do gênero cerebral, e a opinião foi que o PNAS falhou em publicar aquele artigo com análise que parece ter sido escolhida a dedo para gerar o resultado que um grupo ideológico quer.

A melhor resposta que meu curto artigo recebeu simplesmente PREFERE acreditar em Joel APESAR DISSO. O que revela que quando é para ser politicamente correto e agradar os colegas de crença, o suposto interesse em dar uma avaliação imparcial morre rapidinho.

Sobre eu ter escolhido a definição de “construção social” do Paul Boghossian, foi em reconhecimento ao trabalho dele de separar joio de trigo nas alegações de construção social que parecem suficientemente ambíguas para se adequarem à afirmação que for mais conveniente no momento. Definições de “construção social” que aceitam que há também causas biológicas no gênero são anomalias dentro da vasta literatura construtivista, boa parte da qual merece o rótulo de pseudociência, como discutido num volume recente de filosofia da pseudociência editado pelo filósofo Massimo Pigliucci. De qualquer forma, nem faz muito sentido escolher o termo “construção social”, ao pé da letra, se você acredita que o fenômeno em questão é em parte o resultado de fatores biológicos.

Eu uso os termos “sexo” e “gênero” livremente não porque não sei da distinção geralmente feita entre eles. Mas porque rejeito a dicotomia “Nature vs. Nurture” implícita neles, que não é mais adequada.

As críticas justas ao meu texto são essas:
– Curto demais para assunto tão complicado.
– Deveria conter uma definição de trabalho de gênero. Mas eu posso responder que definições completas são teorias e que o propósito de discutir as evidências mais recentes é justamente começar a formar uma ideia mais clara do que é gênero. Conhecimento que as hipóteses de acadêmicos construtivistas estão atrapalhando, por seu compromisso frequente com o pós-modernismo e sua rejeição implícita da navalha de Hume e de facetas da racionalidade como objetividade e imparcialidade, valores indispensáveis na ciência.

Eu considero a comparação que fiz de gênero e castas indianas muito mais adequada para ilustrar que gênero não é construção social enquanto castas o são. Mas por algum motivo a crítica ignorou isso e se focou apenas na comparação com o dinheiro.

1st of November

Sexo e Gênero


Assumir que há uma separação definitiva entre sexo biológico e gênero é acreditar erroneamente que uma coisa é 100% genes e outra é 100% ambiente cultural.
Eu não vejo muito sentido na maior parte das afirmações de influência cultural sobre o sexo biológico. Mas há um sentido em que elas poderiam ter um papel: o sentido da pressão seletiva da cultura ao longo dos últimos milênios sobre as bases biológicas do sexo. Essa influência cultural já foi convincentemente estabelecida para coisas como digestão da lactose e do amido – a frequência de alelos associados a isso nas populações humanas dependende da história milenar da cultura da pecuária e da agricultura / coletagem seletiva de raízes e tubérculos. Seria no entanto muito especulativo no momento dizer que a cultura influenciou nas características primárias e secundárias apresentadas por diferentes populações humanas. Nós ainda não sabemos se, por exemplo, o quão peludos os homens são em cada população (uma característica sexual secundária) é resultado de processos casuais (como deriva genética) ou de seleções, incluída entre elas a seleção cultural. Tudo o que estou dizendo portanto é que conforme nossos conhecimentos de evolução gene-cultura no momento, a possibilidade da cultura ter influenciado parte do que compõe o sexo biológico é real. O mesmo que eu disse sobre pelos masculinos pode ser dito sobre tamanho médio de seios, tamanho de pés, formato do rosto, altura, tamanho do pênis, pelos femininos. Há pesquisa sugerindo que nos últimos 50 anos as mulheres americanas foram selecionadas em direção a corpos de menor estatura e mais robustos, o que poderia ser uma preferência cultural. Dado que a pesquisa da Suzana Herculano-Houzel mostra que sem a cultura do fogo nosso cérebro nunca teria o volume e a demanda energética que tem hoje, há bons motivos para desconfiar que há cultura inscrita no sexo biológico, já que a influência da cultura vai tão fundo na natureza humana.
Portanto, não estão totalmente errados aqueles que vêem cultura no sexo biológico. Mas o problema é que exageram o papel da cultura e usam tradições intelectuais anticiência, muitas vezes.
E gênero? Podemos concordar que enquanto sexo está “entre as pernas” (ignorando as características secundárias), gênero está “entre as orelhas”. Aqui novamente o problema é exagerar o papel da cultura ou o papel da biologia. Quem exagera o papel da biologia (na verdade de uma biologia do senso comum distante da pesquisa de ponta) acha que não é possível existir homens nascidos com vaginas e mulheres nascidas com pênis, e isso está errado. Pesquisas iniciais com núcleos do hipotálamo sugerem que isso é não apenas possível como provável dependendo da base genética do feto e de seu ambiente hormonal dentro do útero e nos primeiros meses fora dele. Apesar de tentativas tacanhas de negar as pesquisas, há muita evidência acumulada de diferenças neurobiológicas e comportamentais entre homens e mulheres. Bebês recém-nascidos, cuja mente não se desenvolveu o suficiente para absorver informações culturais como a língua, já apresentam diferenças. O próximo passo é ver se os bebês que apresentam comportamento atípico para seu sexo nessa fase crescem mais tarde com maior probabilidade de serem gays ou transsexuais. Eu apostaria minhas fichas que sim.
Como eu disse em outras oportunidades, somos seres culturalmente moldados em nossa biologia e biologicamente moldados para a cultura. Alegar sem critério nenhum que uma dada característica é “construção social”, ignorando esse fato, é retroceder o conhecimento, não fazê-lo avançar.
30th of May

O preconceito de associar um sexo/gênero automaticamente a virtudes e vícios


1895/1900 (catálogo de von Gloeden)
O único critério confiável e respeitoso para julgar se alguém é mulher ou homem é a autoidentificação (que não é apenas uma declaração qualquer, mas uma consistente e fidedigna expressão de como a pessoa se sente e se vê).

Todos os outros critérios comumente usados falham:
nem toda mulher tem seios,
nem todo homem tem barba,
nem toda mulher tem vagina,
nem todo homem tem pênis (existem mulheres e homens trans, rotulados com um gênero com o qual nunca se identificaram intimamente; mulheres com agenesia vaginal e homens que perdem o pênis em acidentes),
nem todo homem tem voz grave,
nem toda mulher tem voz fina, etc.

É bom lembrar que usar “masculinidade” de forma honorífica, como um elogio ao caráter, é uma forma de sexismo. Assim como mudar propositalmente o gênero de um homem para o feminino em palavras de insulto, veiculando a ideia de que a feminilidade é uma coisa ruim ou infectada com a qual se pode ferir alguém. Não é uma virtude nem um vício ser mulher ou homem. É apenas um fato da natureza e da identidade das pessoas.

É normal que pessoas eroticamente atraídas por características ‘masculinas’ usem ‘masculinidade’ como elogio estético, mas só pode ser um fruto de uma valorização extrema ao masculino que alguém diga “este é homem!” ou pergunte “você não é homem, não?” quando quer se referir a virtudes como a coragem, que certamente não é atributo exclusivamente masculino, mas característica de parte da humanidade: as pessoas corajosas, que podem ser homens ou não.

Feministas criticam associações injustas de gêneros a virtudes e vícios, e tratamento desigual, pela óbvia injustiça que traz. Se você ainda insulta homens falando “olha como ela é brava” ou coisas similares, você pode até não se sentir sexista (não se sentir faz parte da razão do preconceito ser tão ubíquo), mas está reproduzindo e praticando o sexismo.

A única coisa que faz um homem ser “mais homem” é engordar. A única coisa que faz uma mulher ser “menos mulher” é emagrecer.

Além disso, existem pessoas que não se sentem nem uma coisa nem outra: se sentem algo entre homem e mulher, ou algo que não se encaixa numa categoria nem em outra, ou sentem que são as duas coisas ao mesmo tempo. Dada a variação da humanidade, não me surpreende que isso seja possível. Como tratar essas pessoas? Da forma que quiserem.

A essência da polidez não é seguir regras estanques, mas tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas.