1st of December

Exibicionismo Moral


Trechos do artigo “Exibicionismo Moral” (Moral Grandstanding), de Justin Tosi e Brandon Warmke.

“Este artigo examina o exibicionismo moral, uma proeminente forma de fala moral repugnante, e considera suas implicações morais.”

“Afirmamos basicamente que alguém está praticando exibicionismo moral quando faz uma contribuição para o discurso moral público com a meta de convencer aos outros de que é ‘moralmente respeitável’. Com isso, queremos dizer que o exibicionismo [moral] é um uso da fala moral que tenta fazer com que os outros cheguem a julgamentos desejáveis sobre si mesmo, isto é, que é alguém digno de respeito e admiração porque tem alguma qualidade moral — por exemplo, um compromisso impressionante com a justiça, uma sensibilidade moral altamente afinada, ou poderes de empatia sem paralelos. Exibir-se [moralmente] é transformar a própria contribuição ao discurso público num projeto de vaidade.”

“[S]uspeitamos que o exibicionismo funciona com frequência (mas não sempre) como uma forma de silenciar um rival ao apresentar o exibicionista como moralmente respeitável por contraste implícito. Assim, o exibicionismo [moral] funciona como uma tentativa de silenciar ou desacreditar outros participantes ao comunicar que suas opiniões não são dignas de consideração ou engajamento porque são defendidas por alguém que não é moralmente respeitável, ou que é menos que isso.”

Os autores classificam manifestações do exibicionismo moral, que são essas, em tradução livre:

– “Acumulação”: o exibicionista não acrescenta nada à discussão, mas se manifesta para se alinhar com a pressão social do grupo para o qual ou com o qual faz exibicionismo.

– “Radicalização”: os exibicionistas morais se engajam em competições implícitas de quem sugere a punição mais severa aos delitos morais percebidos, por exemplo, ou quem faz a afirmação mais “surpreendente” alinhada com determinada causa, para intensificar o sinal da exibição. É a corrida armamentista do lacre/mitagem mais impressionante que o lacre/mitagem alheio.

– “Falsificação”: os exibicionistas morais, para intensificar o sinal de sua exibição moral, forjam problemas morais que não existem, ou forjam a gravidade de problemas morais que existem. Como dizem os autores: “Onde algumas alegadas injustiças escapam ao radar moral de muitos, elas não são perdidas pelo olho clínico dos moralmente respeitáveis”, ou seja, dos exibicionistas morais.

– “Ultraje excessivo”: a ideia, aqui, é que a pessoa que demonstrar o maior grau de ofensa subjetiva com algum suposto problema é a que possui a maior capacidade de observação de problemas morais.

Os autores concluem que o exibicionismo moral, ubíquo na era da informação, é na maior parte moralmente problemático e não deveria, na maioria dos casos, ser praticado.

Na minha opinião, a maior arma contra o exibicionismo moral é a ridicularização. Quanto mais exibicionistas morais nós permitimos entre nós, mais contra-exibicionistas eles atraem, e somos todos arrastados para sua espiral descendente de masturbação psicológica disfarçada de insight.

26th of January

Santos Morais Por que a santidade moral não é desejável


por Susan Wolf 

 Não sei se existem santos morais. Mas se existem, fico feliz por nem eu nem aqueles com quem mais me preocupo estarmos entre eles. Por santo moral estou me referindo a uma pessoa cuja totalidade de ações é tão moralmente boa quanto possível, isto é, uma pessoa que é tão moralmente digna quanto se pode ser. Embora em breve eu vá reconhecer a variedade de tipos de pessoas que poderiam satisfazer essa descrição, parece-me que nenhum desses tipos serve como um ideal pessoal inequivocamente convincente. Em outras palavras, creio que a perfeição moral, no sentido de santidade moral, não constitui um modelo de bem-estar pessoal pelo qual seria particularmente racional ou bom ou desejável para um ser humano lutar.

Fora do contexto da discussão moral, isso vai parecer para muitos uma coisa óbvia. Mas, dentro desse contexto, a conclusão, se for aceita, será aceita com algum desconforto. Pois, dentro desse contexto, geralmente é assumido que se deve ser tão moralmente bom quanto possível e que os limites que há para a impressão da moralidade sobre nós são delimitados por facetas da natureza humana das quais não devemos nos orgulhar. Se, como eu acredito, os ideais que são deriváveis do senso comum e das teorias morais filosoficamente populares não apoiam essas presunções, então algo tem de mudar. Ou precisamos mudar nossas teorias morais de formas que as façam gerar ideais mais palatáveis, ou, como discutirei, precisamos mudar nossa concepção do que está envolvido na afirmação de uma teoria moral. (…)

[O santo moral] terá os valores morais comuns em um grau incomum. Será paciente, ponderado, equilibrado, hospitaleiro, caridoso tanto no pensamento quanto na ação. Ele terá grande relutância em fazer julgamentos negativos de outras pessoas. Terá cuidado para não favorecer algumas pessoas sobre outras com base nas propriedades que elas não poderiam não ter.

[S]e o santo moral está devotando todo o seu tempo a alimentar os famintos, curar os enfermos e arrecadar dinheiro para a Oxfam, então necessariamente ele não está lendo romances vitorianos, tocando oboé, ou melhorando suas habilidades no tênis. Embora nenhum desses interesses ou gostos na categoria contendo essas atividades possa ser alegado como sendo um elemento necessário numa vida bem vivida, uma vida na qual nenhum desses possíveis aspectos de caráter são desenvolvidos pode parecer uma vida estranhamente estéril. (…)

Por exemplo, uma inteligência cínica ou sarcástica, ou um senso de humor que aprecia esse tipo de inteligência nos outros, requer que se tome uma atitude de resignação e pessimismo para com os defeitos e vícios a serem encontrados no mundo. Um santo moral, por outro lado, tem motivo para tomar uma atitude oposta a isso – ele deve tentar ver o melhor nas pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida tanto quanto possível, tentar melhorar situações desagradáveis enquanto houver qualquer esperança de sucesso.

Um interesse em algo como a cozinha gourmet será, por razões diferentes, difícil para um santo moral aceitar de bom grado. Pois parece-me que nenhum argumento plausível pode justificar o uso de recursos humanos envolvidos em produzir um paté de canard en croute contra fins beneficientes alternativos possíveis para os quais esses recursos poderiam ser aplicados. Se há uma justificação para a instituição da alta cozinha, é uma que depende da decisão de não justificar cada atividade contra alternativas moralmente benéficas, e essa é uma decisão que um santo moral jamais faria. (…)

Um santo moral precisará ser muito, muito gentil. É importante que ele não seja ofensivo. A preocupação é que, como resultado, ele terá de ser enfadonho, ou sem humor ou sem graça. (…)

Parece que, quando observamos nossos ideais para pessoas que atingem variedades não-morais de excelência pessoal em conjunto com ou coloridas por alguma versão de alta tonalidade moral, procuramos nos nossos baluartes de excelência moral por pessoas cujos feitos morais ocorrem em conjunto com ou são coloridos por alguns interesses ou características que têm uma baixa tonalidade moral. Em outras palavras, parece que há um limite para quanta moralidade podemos aguentar.

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Leia o artigo completo, em inglês, em:
Wolf, Susan. “Moral saints.” The Journal of Philosophy (1982): 419-439.
http://philosophyfaculty.ucsd.edu/faculty/rarneson/Courses/susanwolfessay1982.pdf