29th of January

Richard Dawkins e J. K. Rowling alvos de justiceiros sociais na mesma semana Ninguém está a salvo da polícia do pensamento


Nos últimos dois dias, Richard Dawkins e J. K. Rowling foram alvos de acusações injustas no Twitter.

Dawkins postou uma animação satírica em que a extremista feminista canadense “Big Red” toca um piano enquanto um “islamista”* canta. É um comentário político bem atual sobre os eventos do reveillon em Colônia, Alemanha, em que várias mulheres foram atacadas e até estupradas por um grupo de imigrantes muçulmanos. O hábito de assédio coletivo por fundamentalistas muçulmanos tem nome: taharrush gamea, que é literalmente “assédio coletivo” em árabe. Esses homens premeditam um ataque em que passam a mão, roubam, mordem, assaltam e até estupram mulheres. Diz-se que o taharrush foi usado como arma contra manifestantes políticas na praça de Tahrir durante a revolução egípcia. Muitas publicações feministas, diante do ocorrido, consideraram uma prioridade maior “respeitar” a cultura desses imigrantes e reclamar da “islamofobia” do que defender as mulheres alvos do taharrush. É disso que trata a paródia que Dawkins compartilhou.

A forma como Dawkins compartilhou, aliás, não poderia ter sido mais cuidadosa. Ele diz que, enquanto ele mesmo é feminista (no sentido igualitário), há uma minoria de extremistas no feminismo que merecem a crítica.

Pois não adiantou para um encontro de céticos britânico. Por tuitar a crítica, Dawkins foi “desconvidado” como palestrante. A justificação, soando meio incoerente, diz que o motivo tem a ver com o vídeo ser “ofensivo” enquanto o encontro é a favor da liberdade de expressão inclusive de opiniões ofensivas. Justificaram o desconvite com um apelo contrário ao “discurso de ódio” (sem definir o que é isso nem por que o vídeo é isso). Um fiasco para quem alega apoiar o racionalismo, e mais um sinal de que tendências autoritárias e dogmáticas são encontradas nas melhores das intenções.

Um dia depois do episódio de Dawkins, foi a vez de J. K. Rowling ficar no banco dos réus da polícia do pensamento. Com base num print aparentemente forjado, uma política eleita britânica, Natalie McGarry, acusou Rowling de apoiar a “misoginia” e o assédio de mulheres no Twitter. Rowling respondeu pedindo evidências disso repetidamente. Só muitas horas depois McGarry pediu desculpas e fechou seu Twitter. Ora, não é preciso muito mais que ler os livros de Rowling para saber da implausibilidade da alegação de McGarry.

Notem que os dois episódios são conectados ao “feminismo”. Ou a pessoas que alegam estar agindo a favor das mulheres e contra o sexismo. Mas percebe-se uma pressa em interpretar mal, uma exigência cheia de soberba para que os outros peçam desculpas não acompanhada de qualquer vontade de explicar como e porquê estão errados. O modus operandi é o uso de jargão: Dawkins está desconvidado em nome do “discurso de ódio” e Rowling merece acusações difamatórias públicas por falar com uma persona non grata (“unperson”?) num print como se ela pudesse ser responsabilizada pelas ações (assumidas) de outrem. Começa-se com intenção de fazer ativismo e termina-se emulando o comportamento de autoritários em distopias.

Feministas de pensamento claro, comprometidas de fato com melhorar as condições das relações de gênero, precisam recuperar seu movimento das mãos de “feministas” corporativistas de gênero e justiceiras sociais.

* Em inglês está se popularizando uma distinção entre muçulmano, praticante do Islã, e “islamista”, que é quem acha que o Islã precisa ser imposto à sociedade e ao Estado, que quem não acredita no islã é má pessoa, etc. Talvez esses termos possam funcionar em português também, mas esse esclarecimento é necessário pois “islamista” ainda é sinônimo de “muçulmano”.

– Vídeo “feministas amam islamistas”: https://www.youtube.com/watch?v=ecJUqhm2g08
– Big Red: https://www.youtube.com/watch?v=mpNapJK1uMg
– Taharrush gamea: https://en.wikipedia.org/wiki/Taharrush_gamea
– Sobre Dawkins e seu tweet: http://www.washingtonexaminer.com/richard-dawkins…/…/2581704
– Sobre o policiamento do pensamento de J. K. Rowling: https://twitter.com/EliVieira/status/692840130826997761

23rd of July

Meu comentário que Juremir Machado da Silva censurou


Aguardo seu Magnum Opus de filosofia da ciência ou seu
  bestseller que continuará relevante depois de 30 anos, Juremir.
Fiquei “surpreso” em descobrir hoje que Juremir Machado, colunista do Correio do Povo, fechou os comentários do post em que ele critica Richard Dawkins (veja aqui). Juremir foi bastante ácido com o cientista britânico: “Basta de Dawkins, Modas (sic) passam rápido.”. Pergunto-me se é classificável como moda que “O Gene Egoísta” continue vendendo bem mais de 30 anos após ter sido escrito. Mas OK. Juremir, que deve estar com dor de cotovelo por causa da atuação de Dawkins contra as religiões (contra a qual eu também tenho críticas), resolveu apelar para Paul Feyerabend na crítica dele, enquanto acusava os outros de “modismo” intelectual. Aqui vai meu comentário que Juremir censurou, se recusando a publicar, que talvez motivou fechar os comentários do post:
“Sabe outra moda intelectual que está na hora de passar? O pós-modernismo. Essa neo-ortodoxia que quer matar as ideias de objetividade, imparcialidade e verdade em nome de ideologia. Acusam ciência de ser apenas ideologia porque é isso o que têm, e para quem só tem martelo, tudo é prego.
Em “A estrutura das revoluções cientificas”, segunda edição, Kuhn escreveu um posfácio para tentar responder a seus críticos e se afastar de quem estava usando sua obra para cantar loas ao relativismo epistemológico (a ideia defendida na citação de Feyerabend que você usou). Nesse posfácio, ele citou uma crítica de sua obra que disse que havia uma dúzia de sentidos diferentes para a palavra “paradigma”, pelo uso da qual ele é famoso. Ele então tentou reduzir essa confusão a dois sentidos, mas não fez muita questão de continuar usando a palavra. No modismo pós-modernista, o que mais tem é gente falando “paradigma”. Alguém leva em consideração a confusão por trás disso? Pouca gente. Falar em “paradigmas” soa inteligente, afinal de contas.
‘Os textos de Feyerabend contêm numerosos enunciados que são ou ambíguos ou confusos, que às vezes terminam em ataques violentos contra a ciência moderna: ataques que são simultaneamente filosóficos, históricos e políticos, nos quais julgamentos sobre fatos são misturados com julgamentos de valor’. Alan Sokal & Jean Bricmont, em ‘Imposturas Intelectuais’.
A filosofia da ciência não parou em Feyerabend, Kuhn e Popper. Na verdade, pode-se alegar que nenhuma das ideias pricipais deles é aceita hoje pela maioria de quem trabalha com filosofia da ciência na tradição analítica (a que é mais avessa ao pós-modernismo).
Então, que dizer? Dawkins é um bom divulgador de ciência. Mais que bom, na verdade. Seu ataque pessoal a ele é uma baita irrelevância, e se tem alguém aqui usando modismo ideológico, é você.
Abraço,
Eli Vieira”

* ATUALIZAÇÃO *

Me confundi por um momento achando que na verdade eu não tinha sido censurado pois estava vendo meu comentário no Firefox mas não no Chrome. Na verdade eu fui censurado, sim. O Firefox é que salvou em cache meu comentário, que está “aguardando moderação” desde maio. Veja no print abaixo.