25th of May

Abandonando as redes sociais: um guia incompleto Razões para cuidar do próprio jardim ignorando quantos olhos são postos nele


“Você não pode simplesmente dizer ao seu cérebro ‘Ignore a mulher bonita, ela não vem com o carro’ e esperar que ele obedeça, de forma que, no futuro, pode ficar tranquilo que quaisquer sentimentos ternos que você tem para com uma marca de carro em particular são baseados inteiramente na economia de combustível ou no desempenho. Você deve persistir na superação racional [dos seus instintos], toda hora.”
— Joseph Heath, Enlightenment 2.0, 2014. Tradução livre.

“O Twitter, é claro, por causa dos limites que impõe no comprimento da mensagem, é completamente contrário ao debate racional. Ele encoraja o equivalente verbal da briga de tapas. A incrível ‘necessidade de velocidade’ que o Twitter impõe é também catastrófica do ponto de vista da racionalidade. Então, o fato de que jornalistas e comentaristas políticos passam horas todo dia tuitando e lendo tweets não pode ser uma coisa boa. Os blogs têm muito mais potencial (…) [de fazer melhor].”
— Joseph Heath, Enlightenment 2.0, 2014. Tradução livre.

Li o livro citado acima no ano passado e, desde então, tomando outras opiniões, considerei a questão das redes sociais com graus variados de autocrítica e concordância com o diagnóstico negativo de Joseph Heath. É tempo suficiente para uma decisão. Decidi que Heath está certo. E esta semana desativei o Facebook (o que eu tinha feito muitas vezes antes em protesto contra a censura dessa rede) e também Twitter (o que eu nunca tinha feito em dez anos de presença lá). Não importa quanto tempo eu investi em alguma coisa: o tempo não é razão para continuar fazendo quando já concluí que é mais danosa à racionalidade do que uma ferramenta que a promove. Na verdade, dada a finitude da vida, o tempo que investi numa atividade em última análise reprovável é motivo adicional para parar imediatamente.

Certa vez, fui chamado de “divulgador do conhecimento” ou “ativista do conhecimento” (foi há alguns anos, daí a imprecisão) por uma pessoa que não gostava de mim. Pois eu gostei da alcunha, tanto que planejo me tornar justamente isso, se possível. Continuar em redes sociais, que provavelmente são mais danosas que condutivas ao conhecimento ou à racionalidade, seria uma mácula nesse propósito.

Discutamos, então, se é verdade que as redes sociais atrapalham a racionalidade. Para entender isso, precisamos discutir o que é, afinal, a razão. É uma discussão surpreendentemente rara, apesar de muitos declararem publicamente que estão do lado da razão (provavelmente para pavonear virtudes e uma boa imagem independente de realmente fazerem isso). Há páginas com milhões de seguidores alegando existir em prol da racionalidade, que jamais publicaram uma só resposta para a pergunta “o que é razão?”. A resposta, é claro, pode ser variada e vir de diferentes tradições de estudo, o que não significa que não seja una e anti-relativista. Na lógica e na filosofia, usar da razão é formular bons argumentos, evitar falácias, respeitar as premissas nas conclusões, além de usar de clareza em vez de obscuridade, explicação e justificação em vez de mera retórica. As ciências cognitivas adicionaram alguns detalhes, discutidos no primeiro capítulo do livro citado: razão é um processo análogo a um algoritmo cujo processamento é serial em vez de paralelo (distribuído), lento em vez de rápido (e o parâmetro de rapidez aqui são os sistemas rápidos da nossa mente, como o de reconhecimento de faces), depende da memória de curto prazo para organizar um conjunto limitado de diferentes elementos, e, é claro, depende da concentração focada e às vezes incômoda (pois, como é lenta, o trabalho é duro especialmente em problemas complexos), o contrário da qual é a distração hedonista. Vários desses aspectos dependem da consciência, mas a razão também pode usar o processamento difuso e inconsciente para ajudar a resolver problemas — contanto que se tenha dedicado ao problema antes disso a atenção focada e consciente. Defende-se, também, talvez com menos consenso, que a razão é uma atividade melhor feita por mais de uma cabeça, no que ela dependeria da linguagem. A tal ponto que a origem da razão e sua parte consciente é hipotetizada por alguns como uma conversa entre as duas partes de uma “mente bicameral”.

Finalmente, um aspecto importante da razão, mal compreendido tanto por seus defensores quanto pelos detratores, é que os resultados de sua aplicação não têm garantia perfeita de serem verdadeiros: é apenas mais provável que sejam verdadeiros do que se tivessem sido fruto de atividades arracionais ou irracionais. Já os frutos dessas últimas, quando são verdadeiros ou corretos, com frequência o são por acidente, justamente pela sua independência da razão.

As redes sociais atentam contra vários desses aspectos da razão, com exceção possível de seu aspecto social, que é mais controverso. Elas usam de dispositivos projetados para a distração hedonista. Acabo de notar, por exemplo, que eu já havia desligado o bate-papo do Facebook anos atrás, pois mesmo quando estava usando a rede para publicar textos analíticos eu era interrompido por mensagens privadas, além das notificações. Além de a velocidade das redes sociais também ser incompatível com a relativa lentidão da razão, também não deve ser saudável para a memória de curto prazo. A memória de curto prazo mais útil à razão é a capaz de reter as mesmas informações por muito tempo, não a acostumada com dezenas, centenas, milhares de fotos, frases de efeito e jogos de disputa de hierarquia que se vê todos os dias nas redes sociais. Como sabe quem já se sentou para fazer trabalhos analíticos que duram horas, meses ou anos, um bom pensamento arrebatado por uma distração pode equivaler a horas ou dias de trabalho perdido. Não há moda educacional que derrube esse fato insofismável: produzir conhecimento exige foco e memorização.

Não tenho intenção de sugerir aqui que tudo o que fazemos de valor é na mais concentrada das atividades racionais. Mas é inegável que o poder viciante (metafórico ou literal, a depender da pesquisa) das redes sociais toma preciosas horas quando se mergulha nelas. Alguém poderia responder, como é comum nos nossos tempos, que as motivações que aqui apresento para abandonar e recomendar o abandono das redes sociais são insinceras ou incompletas. Insinceras não são, mas é verdade que são incompletas. Toda pessoa é em alguns sentidos uma estranha para si mesma, e faz coisas que escapam à sua própria percepção. Certamente há motivações minhas que têm a ver com como eu me vejo em hierarquias, pois, apesar de ter acumulado supostos milhares de seguidores em cada página ou plataforma, ao menos nas que tinham meu nome minha base de “seguidores” estagnou após a resposta ao Malafaia: assim, com inveja ou rancor ou alguma outra motivação feia para expressar em público, decidi sair. É possível que seja parte do caso, sim. Mas apenas parte. O que eu disse acima sobre a incompatibilidade aparente entre razão e redes sociais se sustenta ao menos em parte independente das minhas outras possíveis motivações. E há algo adicional que posso dizer: os números são ilusões, ao menos no Facebook. São praticamente mentiras. Afinal, é o Facebook que controla o que seus usuários verão em suas “linhas do tempo”, é até mesmo o próprio Facebook que controla quais são as memórias dignas de lembrança de coisas ditas ou feitas anos antes na própria plataforma. O YouTube, do qual eu não saí pois vejo lá potencial de publicar conteúdo audiovisual que eu mesmo respeite, cada vez mais está também transformando em ilusão o botão de “inscrito” e até mesmo o sino de notificações, pois deseja controlar o que é visto por seus usuários mais do que eles próprios ao clicarem nesses botões.

Estou ciente de que pago um preço pela minha decisão: para alguém que deseja atingir um público ao escrever e produzir conteúdo, é praticamente um tiro no pé. Especialmente agora, quando sou ostracizado por denunciar os vieses políticos de outros divulgadores. Mas toda pessoa de princípios que não caiu no completo cinismo está disposta a fazer sacrifícios em nome desses princípios.

Ainda posso mitigar os efeitos das minhas decisões: como fiz no Xibolete, estou adicionando a este blog uma newsletter para que pessoas que gostam ou se interessam pelo que produzo recebam o conteúdo deste blog por email. Às que gostam, peço que também considerem patrocinar este trabalho para que ele seja feito mais e melhor. Obrigado. Agradeço também a todos os que me apoiaram até aqui, nos dez anos deste blog.

P.S.: O vídeo abaixo do Dr. Cal Newport tem argumentos adicionais que complementam este texto.

17th of February

Nicholas Shackel: A Vacuidade da Metodologia Pós-modernista


Trechos do artigo original:

“Muitas das doutrinas filosóficas defendidas por pós-modernistas foram redondamente refutadas, mas as pessoas continuam a ser convertidas por um conjunto de dispositivos desonestos usados no proselitismo pós-moderno. Está ficando cansativo repetir refutações do mesmo tipo para cada nova aparição dessas várias manobras. Por essa razão, em vez de dar um novo grupo de refutações específicas, oferecerei em vez disso meu pequeno museu de suas manobras retóricas, cada exibição rotulada em ordem, cada rótulo gravado com um nome, cada nome contribuindo para um vocabulário de rejeição [do pós-modernismo].
Por ‘pós-modernistas’ refiro-me não apenas a autointitulados pós-modernistas como Lyotard e Rorty, mas também a pós-estruturalistas, desconstrucionistas, adeptos do Programa Forte em Sociologia do Conhecimento, e feministas anti-racionalistas. Uno-os sob o termo porque, filosoficamente, estão unidos por uma doutrina cética sobre a racionalidade (que confundem erroneamente com uma descoberta profunda): a saber, que a racionalidade não pode ser uma restrição objetiva sobre nós mas é qualquer coisa que a fizermos ser, e o que a fazemos ser depende do que valorizamos. Oponentes são vistos como disfarçando sua construção de interesse próprio da racionalidade por trás de uma visão metafisicamente inflada da racionalidade na qual assume-se que a Razão com R maiúsculo transcende os egos meramente empíricos de seres racionais.
Nomeemos essa doutrina cética. Que tal ‘logofobia’? O termo tem muito de recomendável. Condescendente, com petição de princípio, evitando pensar mais a fundo, assegurando evasão fácil da questão meramente gradgrindiana a respeito da verdade ou falsidade da doutrina, permitindo a nós passar logo para a diversão de maldizer os logofóbicos. O que mais se poderia querer de um termo?
Infelizmente, sou um racionalista empedernido e renunciei aos prazeres dos truques sofísticos. Em vez disso batizei a doutrina de ‘alogosia’, para passar sua negação da objetividade da razão, e seus seguidores de ‘alogósicos’, dos quais os pós-modernistas são apenas os exemplares mais recentes. Não discutirei essa doutrina aqui, mas explorarei alguns de seus absurdos.”

Dois dos dispositivos desonestos pós-modernos identificados por Shackel:

1. Truísmos de Troll. Consiste em afirmações vagas o suficiente para serem ao mesmo tempo trivialmente verdadeiras enquanto carregam interpretação alternativa que veicula uma falsidade empolgante. Exemplo: a afirmação de que a ciência é socialmente construída é trivialmente verdadeira, mas com ela frequentemente quer-se alegar que o modo como essa construção se deu é totalmente arbitrário, não contendo verdade objetiva inescapável, e que o fato de ser uma construção implica que haveria necessariamente outros modos de construir. Uma falsidade empolgante veiculada por uma verdade trivial e enfadonha.
2. Doutrinas de Mota e Terreno. Castelos de mota eram um tipo de construção medieval em que havia uma torre de pedra construída sobre uma colina frequentemente artificial (a mota) cercada por um terreno contendo construções (tipicamente um castelo) delimitado por um muro ou uma vala. A parte desejável e útil é o terreno, o espaço imediato da mota, frio e úmido, é um mal necessário para manter a segurança do terreno. Na estratégia desonesta em questão, o terreno é o conjunto de proposições desejáveis pelos seus defensores mas fracamente defensáveis. A mota representa proposições facilmente defensáveis mas indesejáveis para esses proponentes. Quem defende uma doutrina filosófica estilo mota-e-terreno quer explorar o terreno livremente, mas quando é pressionado por críticos vai bater em retirada para a mota. Um exemplo de doutrina mota-e-terreno é a doutrina de Michel Foucault sobre a verdade. O terreno dificilmente defensável é a proposição de que verdade é poder, que facilmente se expõe a críticas demolidoras mesmo sendo desejável para Foucault. A mota é que com “verdade” Foucault quer dizer outra coisa que não se identifica com a verdade, outra coisa em que a afirmação se torna trivialmente aceitável. No entanto, o que Foucault estava oferecendo era uma teoria da verdade, não uma teoria de alguma outra coisa arbitrariamente rotulada com o termo ‘verdade’, convenientemente ressignificado. Quando o escrutínio crítico se afrouxa (os ‘inimigos’ tentando atacar o ‘terreno’ se retiram), o novo sentido de ‘verdade’ desaparece e os defensores da doutrina voltam a pensar que verdade é poder, uma ideia falsa mas empolgante.
(Shackel esclarece o dispositivo de “mota e terreno” aqui: blog.practicalethics.ox.ac.uk/2014/09/motte-and-bailey-doctrines/ )
Depois de classificar outras estratégias, a conclusão do filósofo é que o destino dos pós-modernos é um buraco negro de absoluto irracionalismo auto-refutante em que todas as proposições são igualmente aceitáveis.

Referência

Shackel, N. 2005 The Vacuity of Postmodernist Methodology. Metaphilosophy 36, 295–320. (doi:10.1111/j.1467-9973.2005.00370.x)
2nd of July

Oração do racionalista


Análise nossa que estais no cérebro, 
santificado seja vosso fio, 
venha a nós vossas premissas, 
assim na mente como no mundo.
A conclusão de cada dia nos dai hoje, 
perdoai nossas pulsões animalescas, 
assim como nós perdoamos 
a incompletude do conhecimento, 
e não nos deixeis cair em contradição, 
e livrai-nos da filosofia oracular. 
Porém…
22nd of June

Pensamento crítico é irreleFante


O pensamento crítico é como um elefante: todos acham majestoso e bonito, querem ter em casa e mostrar para os vizinhos, mas não querem que pise em seus calos, não querem ter o trabalho de alimentá-lo nem de limpar a bagunça que faz. Sem falar em dar-lhe a liberdade que ele precisa e sem a qual fica doente ou morre.
Queremos que nossos filhos aprendam na escola a elaborar bons argumentos, dizem. Que aprendam a fazer análises afiadas e incisivas, a usar a razão para resolver problemas e responder a paradoxos, para trabalhar com a estética e criar obras que nos apeteçam.
Mas quando nossos filhos usam as mesmas ferramentas intelectuais para questionar nossas crenças religiosas, para denunciar nosso nacionalismo bon vivant, nossas fobias e preconceitos, queremos mais é que essa tal de crítica fique bem longe das escolas.
Não queremos propaganda dessa opção intelectual nas nossas escolas, queremos, presidenta?
Vamos fazer um trato: se você não quer ninguém lembrando que sua fé assistiu impassiva à barbárie durante a História, e que não apenas não evitou nada disso, como na verdade muitas vezes foi tão eficaz para promover a paz e o amor quanto jogar querosene é eficaz para apagar o fogo; não finja que quer ver as crianças aprendendo a pensar criticamente.
Se você acha que recomendações genéricas são suficientes para livrar minorias discriminadas do estigma, se pensa que não apenas é desnecessário dizer o nome que essas minorias têm, como fazê-lo piora as coisas para elas; não finja que quer ver seus filhos exibindo o brilhantismo intelectual de um Einstein.
No mundo da maturidade intelectual, nenhuma ideia é imune ao exame, então se quer mesmo estimular o pensamento crítico, confira se sua sala tem a estrutura necessária para abrigar um elefante.
Para quem não pratica o que prega, pensamento crítico é o elefante na sala.
***
P.S.: Apontamentos aleatórios
– Este post pode ser considerado uma parte da série de analogias animalescas secretadas pelo meu cérebro que começou em dezembro de 2007.
 
– Um membro da LiHS brincou que ele pratica a ideologia do elefantismo: tudo é “irrelefante”. Devo a ele o título deste post, mas esqueci o nome dele, então devo também desculpas.
– Concluí que chamar vândalo de vândalo é xenofobia e chamar cínico de cínico é deturpação. Isso fica de lição para quem exagera na importância que dá a termos em detrimento à importância que têm de fato os conceitos.
– Este post foi escrito num momento de procrastinação, que me envergonha, e me delicia, da forma que só algo errado pode envergonhar e deliciar.