26th of August

Feministas, vamos parar de difamar a psicologia evolutiva?


Leda Cosmides, pesquisadora da área da psicologia evolutiva
De um feminista da área de ciências naturais para feministas com dúvidas ou ideias pré-concebidas sobre a psicologia evolutiva. Publicado antes no meu Facebook.

Feministas, vamos parar de difamar a psicologia evolutiva? Vamos deixar de julgar um programa de pesquisa pelo modo como é retratado na mídia?

Nós bem sabemos que a mídia está mais interessada em Femen e Valerie Solanas do que em pensadoras e movimentos sérios, por que esperaríamos que as notícias do tipo "aponta estudo" seriam retratação justa da área da psicologia evolutiva?

Já notei que muitas pessoas têm, digamos, uma posição de reservas quanto a qualquer coisa que se diga a favor da psicologia evolutiva ou da investigação de bases biológicas que contribuem com recursos alternativos aos recursos culturais para a manifestação dos nossos comportamentos.

Para julgar a psicologia evolutiva de forma justa, no mínimo é preciso ler material original, especialmente de Steven Pinker e Gary Marcus, que são os divulgadores consagrados da área. Não julguem a psicologia evolutiva pela opinião de leigos e blogs (inclusive o meu). Esta é uma atitude nada recomendável, que lembra bastante o modus operandi dos mesmos preconceitos que o feminismo busca combater.

Por muitos anos, com alguma razão, feministas da academia se entrincheiraram na área das humanidades, e lidaram apenas com autores dessas áreas – especialmente antropologia, sociologia, ciência política, estudos feministas, e uma parte da filosofia. Essas áreas, apavoradas com o cientificismo e a miopia social de alguns profissionais das ciências naturais, acabaram gerando uma comunidade minoritária de intelectuais que franzem o cenho à menor referência à investigação científica da natureza humana. Pior, têm náuseas até que alguém ouse usar esse conceito – "natureza humana", como se o ser humano fosse um ser inefável, semi-divino, infinito, incomensurável, sem nada em seu repertório que se repita de uma pessoa para outra ou de uma cultura para outra.

Não foi apenas tentando catalogar algo de diferente, mas também tentando investigar algo de universal, que Margaret Mead partiu para Samoa, fez suas investigações e publicou "Coming of age in Samoa", com argumentos que auxiliaram feministas para apontar que a opressão sexual feminina no ocidente não era algo universal, dado que, argumentou Mead, as meninas eram bem sexualmente resolvidas e passavam pela adolescência tranquilamente em Samoa. Antropólogos que duvidaram dela tentaram fazer o mesmo, achar algo de universal na variação. Talvez seja um erro tentar achar algo de universal na cultura (especialmente com uma amostra tão pequena quanto duas culturas), mas não é um erro tentar achar algo universal no que se convencionou chamar de comportamento, dado fatos incontestes de comportamentos claros e distintos como a capacidade dos bebês de chorar e mamar.

Não vejo por que não podemos dizer que nossa capacidade de chorar e mamar quando somos bebês faz parte da natureza humana, assim como faz parte da natureza humana nossa capacidade de aprender uma cultura, viver nela e transformá-la.

O ser humano é o único grande primata de origem africana que na primeira infância já é capaz de ENSINAR além de aprender.*

Não há mais motivo para se entrincheirar na suposta e simplória dicotomia entre natureza e cultura (nature and nurture), numa época em que estudamos evolução cultural como fazem os antropólogos Boyd e Richerson, sem medo de determinismo biológico, muito menos de determinismo cultural.

Não há motivo para repetir discursos irracionalistas lamentáveis como certos textos da Julia Kristeva em que ela diz que a física dos fluidos não evoluiu tanto quanto a dos sólidos porque fluidos são o arquétipo do feminino e a física é sexista.** Não numa época em que temos a filósofa Susan Haack, que não apenas denuncia o irracionalismo anticiência quanto disseca, expõe e desanca o cientificismo como ele merece.

E por isso tudo, não há razão alguma para simplesmente e preguiçosamente taxar a psicologia evolucionista como sexista, fechando os olhos para suas descobertas, para o debate franco e produtivo dentro dela. Isso também, repito, é preconceito.
A psicologia evolutiva busca estudar comportamentos que têm bases biológicas, especialmente aqueles cujas bases biológicas foram moldadas pela seleção natural. Isso não é novo, a primeira tentativa foi do próprio Darwin em "A expressão das emoções" (1870). Não é à toa que nós sabemos reconhecer sinais de "propensão à agressão" na face de um cão raivoso, e muitos desses são exatamente os mesmos que nós expressamos em momentos de raiva. Cultura nenhuma determinou isso: é uma das marcas indeléveis de nossa ancestralidade animal.

As facetas da natureza humana desvendadas por áreas como genética psiquiátrica, ciências cognitivas e psicologia evolutiva*** podem ser tanto boas quanto ruins. Muitas vezes são forças que agem sobre o mesmíssimo alvo: filhos ou cônjuges, por exemplo. Não há qualquer obrigatoriedade em reconhecer como aceitável ou inevitável algo que é natural: isso seria falácia naturalista. Se, e somente se (e isso ainda não foi estabelecido) o estupro for natural e isso for demonstrado, não significa que também não seja igualmente natural a aversão a ele. Comportamentos devem ser julgados bons ou ruins pelas consequências que trazem ao bem estar de indivíduos, e não por sua naturalidade codificada nos genes ou em programas mentais construídos pela seleção natural.

O feminismo simplesmente não pode ignorar isso. Feminismo trata de pessoas e a igualdade entre elas, nada mais relevante para o feminismo que saber de onde vieram e como são essas pessoas, há quanto tempo estão aqui, e que defeitos de fábrica – ou vantagens de fábrica – elas têm.
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* Dean et al. (2012) Identification of the Social and Cognitive Processes Underlying Human Cumulative Culture. Science 335, 1114-1118.
** Sokal & Bricmont (2006) Imposturas Intelectuais.
http://criticanarede.com/imposturas.html
*** A psicologia evolutiva é também comumente chamada de “psicologia evolucionista”.

15th of November

Psicologia Evolucionista justifica preconceito, machismo e misoginia?


Quando eu fundei o blog de divulgação científica Evolucionismo, eu passava bastante tempo varrendo órgãos de imprensa convencionais procurando notícias científicas.
“Tu me ergues”, parque Vigeland, Oslo.
O que eu descobri é que notícias de ciência, por falta de preparo de muitos jornalistas, e por falta de interesse dos órgãos em contratar jornalistas especializados como o Reinaldo José Lopes, são eivadas de meias-verdades, oportunidades perdidas para ensinar conceitos importantes, e tentativas frustradas de espetacularizar o que não é um espetáculo noticioso como “homem morde cachorro”.
E não é feito por má fé, é que a receita para fazer notícias não funciona muito bem quando se trata de divulgar descobertas que requerem a compreensão de certas teorias e premissas anteriores.
A psicologia evolucionista (eu prefiro “evolutiva”, ao contrário de profissionais da área no Brasil) sofre bastante nas mãos da imprensa, que tem essa sede de querer noticiar hipóteses ruins de certos profissionais, que costumam estar bastante distantes da prática acadêmica dos melhores psicólogos evolutivos. De vez em quando sai algum livro absurdo alegando coisas tolas sobre diferenças de comportamento entre homens e mulheres e firmando a alegação na nossa história evolutiva.
A primeira distinção que deve ser feita é que as fontes primárias são os artigos publicados em periódicos acadêmicos revistos por pares, não em livros de divulgação. E entre os livros de divulgação, bons autores consagrados devem ser lidos primeiro, na área sendo indispensáveis Steven Pinker e Gary Marcus.
Um centro respeitado de pesquisa em psi-evo é o liderado pelo casal Leda Cosmides e John Tooby na Universidade da Califórnia em Santa Barbara.
Não, a psicologia evolutiva definitivamente não existe para justificar preconceitos e misoginia. Ela existe para gerar hipóteses testáveis sobre que componentes do comportamento humano pode ser explicados e previstos por nossa história evolutiva. O comportamento irracional de parte da população de comer até ameaçar a própria saúde, porque supostamente deriva de uma era em que nossa espécie tinha pouco alimento disponível, por exemplo, começa a ter corroboração em nível molecular.
Outras histórias de sucesso da psicologia evolutiva são explicar por que motivo as estatísticas apontam que filhos adotados sofrem mais nas mãos dos próprios pais do que filhos biológicos (efeito Cinderela); e como funciona o mecanismo psicológico de detecção de parentesco que fundamenta o tabu quase universal do incesto (efeito de Westermarck).
O que a psicologia evolutiva não é:
– alegações de diferença de QI entre negros e brancos;
– alegações de diferença de QI entre mulheres e homens;
– qualquer explicação que descreva um grupo de pessoas como “mais evoluído” que outro.
Há diferenças de comportamento entre homens e mulheres, com raízes evolutivas? É possível que sim. Tanto quanto há diferenças anatômicas entre um grupo e outro. E são diferenças que valem para a maioria estatística, para as quais há exceções e minorias naturais (tanto quanto há pessoas que nascem com genitália ambígua, ou pessoas que desde muito cedo manifestam transexualidade apenas psicológica sem nenhum sinal corporal).
É digno de atenção, por exemplo, que também entre chimpanzés existe uma diferença de preferência de brinquedos entre machos e fêmeas infantes.
Constatar que diferenças existem até na raiz evolutiva e genética dos seres humanos não é justificar preconceitos nem misoginia. Parafraseando Karl Popper, o ideal do igualitarismo simplesmente é cego para as diferenças factuais entre as pessoas, ou seja, promover a igualdade como valor moral não significa ignorar que as diferenças existam entre as pessoas – na verdade é preciso louvar as diferenças, e, ao constatar que alguma variante torna seus portadores vulneráveis, tomar ações afirmativas para elevá-los à igualdade.
Se é algo como não poder andar, criar rampas de acesso para cadeirantes. Se é algo como sofrer violência dentro de casa com mais frequência, criar coisas como a delegacia da mulher e a lei Maria da Penha (sem criar a ilusão de que o grupo masculino não pode ser vítima ocasional de violência doméstica, em menor frequência que as mulheres). Se é algo como menor acesso à educação, facilitar este acesso de uma forma que não diminua o mérito e esforço (sou favorável a cotas econômicas, mas não a cotas raciais).
A psicologia evolutiva existe para o propósito de qualquer outra ciência: desvendar, amoralmente como toda ciência, aspectos de seu objeto de estudo (nossa própria natureza) que possam nos informar melhor em nossas decisões. A psicologia evolutiva é amoral no sentido de funcionar como uma lança funciona (parafraseando Carl Sagan): a lança pode ser usada para matar pessoas ou para caçar e alimentar uma família. A psi-evo pode ser usada para estigmatizar (e quem faz isso geralmente não usa boas fontes) ou para mostrar que tipo de vieses nós como uma espécie temos e o que podemos fazer para viver melhor com eles.