21st of April

Manifesto Isentão Como se afastar das tribos políticas


Aqui estamos, divididos em tribos políticas em perene disputa. A disputa não é de se estranhar: as vagas para o poder e o uso de recursos são limitadas. O que é de se estranhar são as tribos.

Talvez “tribo” não é o termo mais adequado, pois as tribos são agrupamentos geralmente pequenos e baseados na capacidade do indivíduo de formar uma rede de cerca de 150 contatos contínuos e estáveis em sua memória. Em contraste, as tribos políticas costumam ser bem maiores e mais complexas, envolvendo milhares, às vezes milhões de membros. Sua aliança é mais informal que formal, feita mais de declarações públicas de crença do que de contratos e carteirinhas. Com o perdão da escolha imperfeita de termos, falemos um pouco mais das tribos políticas.

Como apontaram pensadores, as crenças compartilhadas das tribos políticas não têm nexo lógico entre si. O que quer dizer que elas não são realmente, como pensam outros, organizadas em torno de crenças fundamentais das quais as outras crenças são deduzidas, nem mesmo em torno de um cerne de “valores”. Com o passar do tempo, os tais valores fundamentais podem até se inverter dentro de uma tribo política.

Essas afirmações podem parecer radicais. Mas, para testar se são verdadeiras, tomemos uma das definições mais populares que buscam enraizar tribos políticas em crenças ou valores fundamentais: Norberto Bobbio propôs, por exemplo, que a esquerda se organizaria em torno de uma preocupação com a igualdade, enquanto a direita se organizaria em torno de uma preocupação maior com a liberdade. Se isso é verdade, por que a esquerda está envolvida na criação de programas de “ação afirmativa” que desenfatizam a igualdade perante a lei (cotas raciais nas universidades, cotas de gênero nos partidos; e leis que, em vez de seguir a tradição de tipificar imparcialmente a conduta, mencionam “pelo nome” quem a faz e quem é o alvo), enquanto a direita está envolvida em restringir liberdades como o uso de drogas recreativas tão danosas quanto o álcool ou o tabaco?

Houve experimentos sociais que também provam essas contradições: o socialismo que vem para abolir diferenças entre classes, e termina por criar uma estratificação entre membros do partido mais funcionários públicos e o resto da população empobrecida. A defesa da família, tradição, propriedade e caridade privada em vez de programas de assistência estatais, que decide arbitrariamente que não é família se for chefiada por duas pessoas do mesmo sexo, não é tradição se afrontar seus brios religiosos, não é propriedade se pertencer à igreja (originando isenções de impostos) e não é caridade, mas abuso infantil, se quem adotar a criança for homossexual.

As tribos políticas são muito boas em apontar a hipocrisia umas das outras, enquanto ignoram a sua própria. A hipocrisia é tão comum que é quase um aspecto definidor das tribos políticas. E há pessoas que fazem carreiras como comentaristas políticos nessa atividade fácil de achar a próxima hipocrisia na tribo política do outro. Há hipocrisia porque as tribos não são, como já discutido, racionais.

As tribos políticas são reais e nós podemos, com alguma frequência, classificar algumas pessoas como membros de uma ou outra, especialmente quando estão dispostas a declarar lealdade a uma ou outra. O que não é real é que as tribos políticas sejam fruto de deliberações racionais, em vez de instintos “de manada” e irracionalidades. Desse modo, elas devem ser abandonadas.

Disso não se conclui que a saída é a apatia política. Há dados empíricos de que o engajamento político é inversamente proporcional à deliberação racional sobre problemas políticos: os mais engajados são justamente os mais fanáticos. São esses fanáticos que, talvez para pavonear virtudes que não têm e parecerem menos fanáticos do que de fato são, desejam que todas as pessoas sejam classificáveis em alguma tribo política fácil de “entender” e estereotipar de um modo que seja um insulto à tribo alheia e um elogio à tribo própria. O excessivo engajamento dos fanáticos leais às suas tribos serve como motivo para os mais racionais (e portanto mais apartados das tribos) se engajarem. E, quando isso acontece, fanáticos de todas as tribos políticas atacam o engajamento que não é leal a nenhuma delas, como é exemplificado pelo surgimento do xingamento “isentão”. Daí este “manifesto isentão”, intitulado ironicamente, mas sincero em chamar pelo maior engajamento dos isentões.

Talvez mereça mesmo uma alcunha pejorativa quem quer se fingir de isentão enquanto se encaixa perfeitamente, em suas ações e expressões, em alguma tribo política. Queremos, para contrabalançar a irracionalidade política, que quem é genuinamente isentão se engaje. Rascunhemos no que consiste a atitude isentona genuína, que demanda trabalho e não é para preguiçosos:

  • Gaste menos tempo tentando decifrar a que tribo política pertence uma opinião, e mais tempo julgando a opinião por seus méritos. Pode parecer contra-intuitivo ignorar as tribos dessa forma, mas na verdade essa é a parte mais importante, e que envolve o maior volume de trabalho. Nem sempre será fácil avaliar os méritos da opinião: pode ser que os dados sejam insuficientes, ou que você precise achar algum filósofo obscuro que tratou com rigor do assunto e pouca gente conhece. Familiarizar-se com filosofia (a filosofia rigorosa, não a oracular que se deixa confundir com literatura ou historiografia), aqui, é salutar.
  • Declare ignorância quando há evidências insuficientes para concluir por um lado ou por outro. Mas aplique o mesmo padrão de exigência para todas as opiniões: às vezes você saberá de pronto a origem tribal de uma opinião, e, caso tenha sido simpático a essa tribo política no passado, poderá ter o viés de exigir menos dela. E, se foi ou ainda é especialmente hostil a essa tribo, poderá exagerar nas suas exigências de evidências e bons argumentos.
  • Engaje-se politicamente. Será muito difícil declarar lealdade a algum partido, dada a tendência de todos os partidos de formarem tribos políticas. Mas o engajamento isentão é aquele baseado em propostas: “esta proposta é melhor, e eis o porquê”. O apoio a candidatos a cargos eletivos deve ser totalmente baseado no compromisso desses candidatos com essas propostas. O fato de dar razões para suas escolhas, em vez de baseá-las em apelos à autoridade, apelos à maioria, apelos às boas intenções e pavoneamentos de virtudes, já servirá para lhe caracterizar como isentão. Mas, cuidado: existem razões postiças baseadas em vieses diversos que a nossa mente tem de fábrica. Leia este livro, por exemplo, para melhor entendê-los.

Ser isentão não é ser perfeito, destituído de erros. Reconhecer a própria falibilidade, inclusive, é uma das virtudes isentonas. A atitude isentona deverá formar um mosaico de crenças que é só seu, baseado nas informações que você obteve, formando um espectro de convicção — da alta dúvida à alta certeza — de acordo com quantas evidências e bons argumentos você tem relacionado a cada uma dessas crenças, não de acordo com os ganhos sociais que você terá se declarar a sua fé em uma ou outra crença para agrado de alguma tribo política. Em outras palavras, quanto mais inclassificável politicamente você for, melhor estará como isentão.

***

P.S.: Neste “manifesto” foram citadas apenas as grandes tribos políticas “direita” e “esquerda”. Mas não é nem de longe, como insinuado, uma lista exaustiva das tribos. Grupos que começam com reais princípios e valores, e dedução de crenças com base neles, podem logo degenerar em tribos políticas. Um sinal dessa degenerescência é que os princípios e valores escolhidos de partida eram parciais, escolhidos a dedo de um universo em que há outros tão importantes quanto esses. Outro sinal é a proliferação de termos rotulantes para identidade política. “Eu sou não-sei-o-quê-ista com tendências fulanistas e uma pitada de qualquercoisismo” não é algo que tipicamente sairia da boca de um isentão. Termos rotulantes da identidade são um sintoma de tribalismo político.

 

15th of January

Algumas idéias são tão absurdas que somente intelectuais acreditariam nelas


Exemplo: “o pessoal é político” e “tudo é político”.

Há vários comportamentos nossos que não parecem políticos em nenhum sentido. Nós investigamos coisas, de crimes a sequências de DNA. Investigação não parece política. Inventamos receitas, praticamos esportes, criamos e consumimos arte, escrevemos e lemos sobre história, buscamos parceiros românticos. Nada disso parece necessariamente político.

Cada uma dessas coisas pode ser *politizada*, e o verbo “politizar” sugere que as transformamos em política quando originalmente não o eram.

Talvez é isso o que se quer com a afirmação de que tudo é político: politizar coisas porque quem afirma isso está obcecado com política – e para quem só pensa em martelo, tudo é prego. Assim, quem tem pouco interesse em investigar, cozinhar, assistir a jogos, em arte pela arte em vez de “arte de protesto”, história e romance pode tornar essas coisas interessantes para si, politizando-as.

Mas isso tem um preço. Quando se investiga algo por interesse político, frequentemente a politização atrapalha na isenção da investigação. Quando politizam seu time de futebol, querem frequentemente o voto da torcida, não necessariamente vê-lo ganhando. Quando toda arte que se faz é para “lacrar” na mensagem ativista ou dar uma lição nas feministas, quem perde é a arte, pela limitação de tema.

Quem perde com essa história absurda de que tudo é política somos todos nós, que quando adotamos a idéia passamos a valorizar menos outras coisas pelo seu valor intrínseco e mais pela sua utilidade política.

Felizmente, é mesmo absurdo. As afirmações acima são tão inteligíveis quanto “o pessoal é científico” ou “tudo é culinária”. Claro, apesar de ser absurdo está muito popular. Mas não esqueçamos que já foi popular na comunidade médica européia que para salvar uma pessoa de afogamento o melhor método é soprar fumaça em seu ânus.

28th of September

Carta aberta sobre conhecimento e política no Brasil


Conhecimentos deveriam se complementar mutuamente. As ciências naturais e as ciências sociais deveriam se sobrepor com o mínimo de inconsistências, como um mapa de estradas e um mapa de topografia do mesmo território se sobrepõem. Ou, como se seus problemas fossem palavras cruzadas, as palavras já resolvidas pelas primeiras deveriam servir como pista para preencher as lacunas que ainda faltam para as últimas, e vice-versa.

Enquanto é previsível que diferentes vocabulários e verdades emerjam de diferentes grupos de pesquisa na mesma área ou em áreas diferentes, seria estranho que uma ciência mais jovem e mais baseada em tentativa e erro tivesse não apenas vocabulário diferente para falar do mesmo território, mas negação peremptória de ciências mais maduras e suas descobertas, especialmente as corroboradas amplamente.

Quando há essa negação peremptória, essas áreas já estão em conflito e então alguma comparação de garantia epistemológica se faz necessária. Em outras palavras: há que se perguntar “de onde tiraram isso”?

No ano passado, bati de frente nas redes sociais, errando no tom mas acertando no propósito, com uma mestranda da filosofia política e blogueira de revista semanal, quando julguei que ela estaria fazendo afirmações tanto em seu trabalho de divulgação quanto em seu trabalho acadêmico que estavam em franca contradição com conhecimentos ou com o escopo da minha área, a biologia. Numa dessas ocasiões, a blogueira nega dogmaticamente que em “qualquer hipótese” a biologia possa contribuir para o entendimento do fenômeno misterioso que chamamos de consciência – e essa blindagem seria completa, já que ela alega que isso ocorre se a consciência fizer “jus à sua definição” (sic), ou seja, que por definição haveria impedimentos à investigação biológica da consciência.

Conheço pessoas que estão trabalhando com neurônios piramidais que disparam de forma errática justamente nos momentos de vigília consciente, e, em 2012, foi em um evento de neurociências e ciências cognitivas que foi publicada a “declaração de Cambridge” sobre a consciência, em que os cientistas alertam à população que vários dos seres vivos dos quais fazemos uso são seres conscientes. Tudo isso largamente baseado em conhecimentos da biologia. Não são desconhecidas, portanto, indicações de relevância da biologia para investigações desse fenômeno. O filósofo John Searle, que trabalha com filosofia da mente, acredita que a consciência “é um fenômeno biológico como a fotossíntese”. Considero que seja possível, embora implausível, que nada de biológico ou dentro do escopo da biologia exista na consciência. Mas está claro que, para ter tanta certeza de que em hipótese alguma a biologia pode contribuir, no mínimo alguma onisciência e presciência é necessária. Pergunto-me “de onde ela tirou isso?”, e nas respostas possíveis não parece haver presciência, mas noções pré-ciência. Uma visão desdenhosa ou até hostil ao conhecimento científico, portanto.

Respostas minhas a ataques à ciência como esse não são novas, na verdade, desde a graduação venho elaborando essas respostas, a mais famosa das quais foi a Silas Malafaia. Mas não se limita a Silas Malafaia a atitude contraditoriamente ao mesmo tempo desdenhosa contra a ciência mas deturpadora e aproveitadora sobre seu prestígio. Leitores lembrarão de livros como “Imposturas Intelectuais”, de Alan Sokal e Jean Bricmont, e “Higher Superstition”, de Paul Gross e Norman Levitt, dedicados a responder a coisas assim. Também entendo que ocorre por vezes (tanto entre acadêmicos quanto em leigos) uma supervalorização da ciência ao ponto de diminuir à irrelevância outras investigações. Não é minha posição, tanto que traduzi um artigo da filósofa Susan Haack que define claramente e critica o cientificismo.

Em meu otimismo, pensei que a postura anticiência da blogueira e outras pessoas das ciências sociais fosse a exceção na área ou entre ativistas como ela. Mas encontro cada vez mais motivos para pensar que o ceticismo contra a razão e a ciência já é dominante nas ciências sociais e no ativismo no Brasil, com estudantes dessas áreas saindo da universidade pensando que fatos não existem, que teorias científicas são apenas mitos particulares de uma cultura, que qualquer posição pode ser defendida bastando ter para com ela fervor moral, pois “pressupostos epistemológicos” podem ser conjurados ex nihilo sem precisar de justificação argumentada e baseada em premissas ao menos tentativamente universais.

Vivemos hoje em sociedades cada vez mais dependentes da tecnologia e do conhecimento científico. Até mesmo para espalhar ideias céticas contra ciência e conhecimento objetivo e ideias excessivamente subjetivistas e mágicas, afinal de contas, usa-se preferencialmente a internet, que não resulta desse tipo de pensamento. Talvez por essa contradição, cresce o cinismo contra as humanidades, como exemplificado nas recentes decisões do Japão visando a cortar fundos para essas áreas. Uma decisão lamentável e que não faz bem à sociedade japonesa.

Enquanto a face pública das humanidades no Brasil continuar sendo de “afrontas artísticas” ao senso comum, pelo prazer de chocar os conservadores e entediar o resto, enquanto for mais a respeito de pregar algo “segundo fulano” do que analisar criticamente se o que fulano disse se sustenta com evidências e argumentos, os conservadores continuarão marcando gols como vêm marcado desde as últimas eleições.

A atitude dadaísta, seja na arte, seja no pensamento acadêmico, contraditória e desdenhosa de instrumentos de investigação que rechaçam contradições, mais simpática à astrologia que à biologia, mais afeita às obscuridades que à clareza, vai ferir as humanidades mais que o pânico anticomunista dos conservadores. Pois enquanto comunistas (ao menos os clássicos) ao menos costumam tentar responder aos conservadores apelando para princípios universais de igualdade e justiça social, tendo alguma chance no debate público, os adeptos do novo dadaísmo sequer tentam fazer isso, negando portanto a legitimidade dos conservadores de participar desse debate público, e frequentemente fetichizando a resposta violenta e a imposição autoritária de suas pautas com desculpas esfarrapadas como “reação do oprimido”.

Ou o progressismo redescobre o conhecimento e a razão, ou vai continuar perdendo feio no ambiente público para as forças conservadoras do país. Dada a atual prioridade de levar pessoas que defendem esse conjunto de ideias danosas ao estrelato, tenho desesperança de que isso vá acontecer no curto prazo e perco eu mesmo o interesse de ajudar em movimentos em que a segregação e a atribuição de privilégios epistemológicos de acordo com características pessoais de quem argumenta estão sendo a palavra de ordem. Sem humanidades não há progresso para a humanidade. Quando humanidades não acreditam em qualquer forma de progresso pela força da verdade e da investigação, quando fecham os ouvidos a outras áreas e caem em exercícios circulares de contemplação do próprio umbigo, a profecia de não existir progresso é autocumprida.

18th of June

O curioso caso de quando o Olavo de Carvalho concordou com a esquerda


Em tempos de renovado espaço na Folha de São Paulo, a última coisa que Olavão quer que nós lembremos é que ele já concordou – e muito – com certa parte da esquerda. Na verdade, ele continua concordando entusiasticamente, como veremos. A história é bem conhecida em círculos intelectuais, e merece mais divulgação para a população em geral.No fim da década de 1990, um movimento mais ou menos difuso de ideias, chamado de “pós-modernismo”, estava em seu ápice. As ideias mais comuns veiculadas por esse movimento não são muito novas – por exemplo, relativismo epistemológico, relativismo moral, redução de problemas intelectuais a quedas de braço de interesses cegos (políticos, pessoais, étnicos, econômicos) em detrimento da confiança iluminista em verdade, objetividade, imparcialidade etc. Evidentemente, para abraçar as últimas não é necessário ser cego para com vieses. No entanto, ao desistir totalmente delas, o pós-modernismo viu-se dando espaço para a aceitação de visões acriticamente pessimistas das capacidades humanas de raciocínio integrativo e ceticismo crítico (em oposição à dúvida teimosa sobre tudo conhecida como ceticismo pirrônico). Até algumas pessoas que não se encaixam totalmente na definição de “pós-moderno”, como Michel Foucault, acabaram caindo em algumas de suas armadilhas – notoriamente, Foucault acabou apoiando a “revolução” dos aiatolás no Irã, e é difícil disfarçar que isso foi por relativismo cultural (que o que é certo ou errado moralmente depende totalmente da cultura em que estamos). O pós-modernismo, se não nasceu totalmente da esquerda, foi alimentado entusiasticamente por seus seios fartos.

Foi em resposta a esse modismo da sandice que Alan Sokal, um físico, escreveu um texto no estilo obscuro amado pelos pós-modernos, para ser publicado na revista “Social Text”. O texto abusava de termos científicos, besuntava afirmações loucas com termos da mecânica quântica e termos da moda usados e abusados na época e até hoje (“hermenêutica”, por exemplo, e “semiótica”, que o filósofo John Searle diz – provocando – que nem quem a usa como nome de sua própria profissão sabe direito do que ela trata). A revista aceitou o artigo embusteiro com louvor suficiente de publicá-lo num volume especial sobre ciência. Seguiu-se um chacoalhar raramente visto antes na torre de marfim. Para quem gosta de ciência criticamente (ou seja, sem cientificismo), o artigo falso de Sokal foi um ponto de inflexão para conscientizar a intelectualidade da importância de uma volta aos valores de origem (da própria intelectualidade institucionalizada). O evento, conhecido como “Sokal Hoax”, foi seguido pela publicação do livro “Imposturas Intelectuais”, pelo próprio Sokal em parceria com Jean Bricmont.

Importantemente, o episódio foi precedido pelo alerta de um livro de Paul Gross e Norman Levitt, cujo título, e especialmente subtítulo, dizem tudo: “Higher Superstition: The Academic Left and Its Quarrels with Science” [Superstição Superior: A Esquerda Acadêmica e suas Brigas com a Ciência].

Onde entra Olavo de Carvalho nisso tudo? Ele mesmo um exímio produtor de prosa floreada porém obscura, obscura porém floreada, que seus seguidores se iludem achando que é filosofia, foi um dos primeiros a atacar a defesa de Sokal da racionalidade filosófica clássica e sua filha, a ciência. Não à toa, Olavo é famoso por suas diatribes sobre as teorias de Newton e Darwin, e, é claro, pela frase filosófica “combustível fóssil é o cu da tua mãe”.

O maravilhoso espetáculo de Olavão se juntando a acadêmicos de esquerda no linchamento ao pensamento crítico pode ser lido no próprio site do Sokal: http://www.physics.nyu.edu/sokal/folha.html

A lição a levar para casa é: em todo o seu mundo maniqueísta de esquerda versus direita, comunistas versus capitalistas, Olavo de Carvalho não é sincero quanto ao seu ódio à esquerda. Quando é para atacar ciência e filosofia de fato (que ele nunca praticou na vida, sendo no máximo um bom leitor de Aristóteles), Olavo ama a esquerda de paixão. A beija, a abraça, e fornica com ela.

Post Scriptum

Algumas pessoas protestaram que eu não interpretei corretamente a resenha do Olavo de Carvalho nem levei em consideração supostos elogios que ele fez à empreitada do Sokal. Pois bem, vamos deixar algumas coisas mais claras.

Quando eu digo que Olavo concorda com a parte pós-moderna da esquerda, é no sentido de ele, tanto quanto a última, insistir em ataques às teorias científicas, de forma bem desinformada sobre o que essas teorias dizem (não está na resenha sobre a Sokal Hoax, mas está em vários textos dele); e no sentido de ele tentar reduzir discordâncias de cunho ‘cognitivo’ a conflitos de interesses entre esquerda e direita (está na resenha). Atacar ciência e reduzir problemas intelectuais a conflitos de interesses são duas marcas notáveis de pós-modernismo. Outra marca é um estilo obscuro de escrita que pós-modernos amam e Olavo de Carvalho pratica frequentemente (está na resenha também). Não tomem minha palavra a respeito: basta ler por exemplo o texto dele atacando a teoria da evolução pela seleção natural de Darwin (evidentemente, entender onde Olavo erra requer algum conhecimento da teoria de Darwin e da teoria moderna da evolução): http://www.olavodecarvalho.org/semana/090220dc.html

O fato de ele supostamente ter elogiado o que Sokal fez é claramente pelo único motivo de que ele pensa que Sokal destruiu intelectualmente a esquerda. Ou seja, tenta reduzir a esquerda acadêmica completamente aos erros de sua parte pós-moderna. Isso é tanto desonestidade intelectual, dada a insistência do próprio Sokal (que é de esquerda) que estava criticando erros de uma minoria na esquerda, quanto redução a conflito de interesses. Se o Olavo estiver certo, então Sokal teria de ser pós-moderno sem saber, já que Olavo quer reduzir tudo ao seu maniqueísmo de eixo esquerda-direita.

Ironicamente, pelos motivos expostos acima – volúpia de atacar a ciência sem entendê-la, redução de problemas que devem ser resolvidos no campo do argumento e da evidência a problemas de conflito de interesses políticos (ao tentar igualar esquerda intelectual a pós-modernismo), e obscurantismo de conceitos mal definidos e prosa embotada – quem é pós-moderno sem o saber é o Olavo.

[Editado em 26/08/2016 para incluir meu vídeo comentando em detalhes o texto do Olavo atacando Charles Darwin e a teoria da evolução.] 

13th of January

Observações sobre a genética do comportamento – entrevista completa a’O Diário


Publicaram ontem n’O Diário, de Maringá, uma entrevista minha sobre genética do comportamento, que pode ser lida aqui. O risco desse tipo de entrevista é que, no processo de edição, muitas vezes se perdem informações que o entrevistado considera importantes. Por isso, peço licença à Ana Verzola e seu editor, autores das perguntas, para publicar as respostas completas aqui. Fiquei contente com a qualidade da edição, mas não estaria fazendo meu trabalho bem se eu não reclamasse do subtítulo e do resumo que escolheram.
Ao contrário do sugerido, eu não garanto que “a maior influência vem [sempre] do ambiente”, nem que conhecimento nunca vem do DNA.
Eu não posso garantir que “a maior influência vem do ambiente” porque isso depende do fenótipo comportamental sob análise. Para uns comportamentos pode ser verdade, mas para outros não será. Eu não acho, por exemplo, que os fatores ambientais sejam preponderantes na determinação do choro dos bebês, afinal, podemos dizer que a esmagadora maioria dos bebês humanos chora, independentemente da cultura em que estão. Se o ambiente é preponderante (e posso estar errado quando a achar que não é), só poderia ser então um ambiente tão compartilhado pelos bebês quanto sua intimidade genética.
Minha objeção ao subtítulo é que eu afirmei que conhecimento não vem do DNA no contexto específico de uma resposta sobre conhecimento político. Mesmo que a grande maioria do que se chama de conhecimento tenha conteúdo puramente cultural (informação aprendida), existem alguns conhecimentos que são a priori, e entre esses pode haver alguns que vêm, sim, ao menos em parte “do DNA”. Enfim, esses são os preciosismos que eu não conseguiria dormir sem elaborar. A entrevista completa está abaixo.
***

OD: O que caracteriza a genética do comportamento?

EV: A genética do comportamento pode ser vista como uma aplicação da genética de características multifatoriais ou complexas a um assunto específico que é o comportamento. Definir comportamento pode ser um pouco anti-intuitivo para alguns, porque o que profissionais da área consideram comportamentos nem sempre é o que se vê popularmente como tal. O choro de um bebê, por exemplo, é considerado um comportamento. Também o ato de sucção no peito da mãe na hora da amamentação. Muitos movimentos musculares podem ser comportamentos, mas não se pode sinonimizar comportamentos a movimentos musculares sempre: reflexos como o da rótula, quando um médico bate um martelinho no joelho do paciente, raramente são vistos como comportamentos.

OD: A genética do comportamento é, em termos, um assunto bastante recente. O que as pesquisas já avançaram nessa área?

EV: Não sou especialista, apenas trabalhei com genes associados ao comportamento humano no mestrado. Mas pelas minhas leituras, creio que a atual maior contribuição dos geneticistas do comportamento é ao debate conceitual sobre as origens do comportamento humano. Juntaram evidências suficientes de que na maior parte dos assuntos comportamentais, genética não pode ser ignorada. Nós não somos tábulas rasas, folhas em branco sobre as quais o ambiente e a cultura escrevem, mas também não somos autômatos escravos da determinação genética – não se encontram facilmente comportamentos, ao menos fenótipos típicos dignos do nome, em que tudo é determinado por um único gene. O que parece estar mais próximo da verdade é que uma rede de genes atua em cada comportamento, cada um com um efeito de pequeno a moderado sobre propensões comportamentais. Assim como um bolo é mais que a soma de seus ingredientes, porque precisa do ambiente de um forno para crescer, os comportamentos não devem ser vistos como um resultado inevitável de uma receita genética. Para dar um exemplo específico, foram encontradas algumas variantes da enzima monoamina oxidase A (MAO-A) associadas a comportamento anti-social, porém, as evidências sugerem que muitas pessoas só manifestam essa propensão genética num ambiente abusivo. Isso também pode ser verdade para alelos que predisponham pessoas à psicopatia.

OD: Muito se fala de fatores hereditários no campo de psicopatologias que podem influenciar no comportamento das gerações futuras. Isso realmente pode se confirmar?

EV: O transtorno psiquiátrico com o maior valor de herdabilidade (uma medida da participação dos genes na herança de uma característica) já encontrado é o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Isso significa que se você tem TDAH, a chance de o transtorno aparecer nos seus filhos é maior do que se você tiver um outro transtorno psiquiátrico qualquer. Não é uma sentença: é uma probabilidade. Saber desse tipo de coisa é importante porque te deixa informado sobre que tipo de educação deve dar a seus filhos, e não puni-los por coisas que podem não estar sob o controle consciente deles. 

OD: No caso da dependência do álcool ou drogas mais pesadas, há uma chance maior de que os descendentes de usuários estejam mais sujeitos a desenvolver esses vícios?

EV: Há um grupo de pesquisa em genética psiquiátrica na UFRGS dedicado a estudar a genética da drogadição. A maior parte da pesquisa desenvolvida ali, e creio que no resto do mundo, está passando de um estágio inicial de procurar por “genes candidatos” cujas variantes poderiam hipoteticamente estar associadas ao alcoolismo ou tabagismo, para um próximo estágio em que variações no genoma completo e nos genes que interagem com os genes candidatos são levadas em consideração. Alguns resultados positivos mostram um papel do sistema cerebral de sinapses baseadas em dopamina, o que é bem interessante, pois é um neurotransmissor que atua no dito “mecanismo de recompensa” cerebral, importante na sensação de prazer. Se um indivíduo é dotado de variantes que o fazem propenso a se viciar a certa substância, novamente este comportamento se manifestar nos seus descendentes dependerá do contato e da cultura que há ao redor dessa substância. É preciso lembrar que você herda 50% dos genes do pai, e 50% da mãe. Somente na herança de características de padrão de herança mendeliano dominante todos os filhos apresentam a característica de um dos pais, e esse tipo de característica é muito rara, geralmente patológica, e virtualmente a totalidade dos comportamentos não seguem padrões mendelianos de herança (dependentes de relações de dominância e recessividade entre dois alelos de um gene).

OD: O que o meio cultural vivenciado pode desencadear no indivíduo? Se retiramos uma pessoa de determinado ambiente ainda criança, é possível resgatá-la de um meio prejudicial – no caso de famílias violentas, negligência materna, entre outros fatores – ou em algum momento da vida ela poderá reproduzir aquele comportamento?

EV: Como descoberto para o caso do gene da MAO-A, certas propensões só se manifestam diante de gatilhos ambientais, então no caso de uma criança portadora de alelos associados à propensão à agressividade, o ambiente familiar faz toda a diferença. A cultura nos influencia profundamente. Há experimentos comparando, por exemplo, americanos do norte e do sul, mostrando diferenças até fisiológicas na resposta a ser insultado ou desafiado, por exemplo, que são respostas rápidas, inconscientes, e de fundo predominantemente cultural. Há uma obra famosa da literatura britânica, de Charles Dickens, que conta a história de um menino chamado Oliver Twist, um órfão que, apesar de crescer num ambiente social decrépito, desenvolve virtudes notáveis. Não se pode atribuir o sucesso de Oliver à sua genética, ou apenas a ela. Indivíduos podem decidir usar de violência como protesto, por exemplo, por viver numa situação de desigualdade social. Genes são recursos, e não mestres, do comportamento, especialmente o não-patológico (e definitivamente não se deve patologizar toda forma de violência).

OD: Uma pesquisa feita na Universidade de Louisiana envolvendo 742 voluntários que foram submetidos por cinco meses a um programa de exercícios mostrou que algumas pessoas tiveram uma melhora no condicionamento físico em até 40% a mais que os outros participantes – nenhuma das pessoas envolvidas no estudo praticava regularmente atividade física. Esse desempenho tem relação com a genética do comportamento?

EV: Não necessariamente. Isso pode ter mais a ver com variantes genéticas relacionadas ao metabolismo. As pessoas variam quanto à capacidade de ganhar massa muscular, massa adiposa, quanto ao uso de calorias. Num ambiente de carestia, quem tem metabolismo lento e queima poucas calorias por dia tem clara vantagem sobre quem tem um perfil mais atlético e ativo. Numa situação de opulência, os primeiros têm mais chances de obesidade que os últimos. Essa variação pode ser meramente de genética do metabolismo. No entanto, certos comportamentos, como o comportamento de comer mais ou menos, ceder mais ou menos à tentação dos sabores calóricos, também podem influenciar. Há poucos estudos sobre esses comportamentos na genética, mas é possível afirmar que alguns casos de obesidade são altamente influenciados pelas variantes genéticas associadas aos comportamentos em torno dos hábitos de comer.

OD: Alguns representantes religiosos – como Silas Malafaia e Feliciano – abusaram em seus discursos de justificativas “genéticas”, como você mesmo rebateu no vídeo e em uma entrevista. Malafaia disse que não há correlação da homossexualidade com o gene e Feliciano, por outro lado, disse que a violência era ainda ligada ao “gene africano”. Há uma predisposição genética para o comportamento preconceituoso?

EV: Boa pergunta! Vou aproveitar a oportunidade de demonstrar humildade científica e dizer que eu não sei, mas gostaria muito de saber. Às vezes, um comportamento é complicado demais para se delimitar numa análise de associação a variantes genéticas, então ele é quebrado em partes chamadas “endofenótipos”, que seriam mais sujeitos à influência genética. Uma revisão dos cientistas Peter Hatemi e Rose McDermott, de 2012, sugere que há alguns endofenótipos em comportamentos políticos que podem estar sob moderada influência genética. O endofenótipo mais influenciado geneticamente, cuja variação pode ser 60% da responsabilidade de genes, chamaram de “conhecimento político / sofisticação”. Se esses dois pastores tiveram azar na loteria genética relacionada a isso, nada impede que estudem um pouco mais tanto sobre política quanto sobre genética para deixar de dizer bobagem em público. Afinal, se a curiosidade por conhecimento político tem algo de genético, o conhecimento político em si é feito de livros e não de DNA.

OD: Durante as manifestações que tomaram as ruas do Brasil no ano passado, pequenos grupos tiveram comportamentos antissociais praticando atos de vandalismo, violência, entre outras ações prejudiciais à comunidade mas defendidas do ponto de vista ideológico daqueles participantes. A razão pelo qual essas pessoas agiram dessa forma era motivada somente por um impulso dito político?

EV: Na mesma revisão de Hatemi e McDermott, apontam como moderadamente influenciado pelos genes o comportamento político de “atitudes autoritárias”. Porém, apontam como muito pouco influenciado pelos genes o comportamento de “senso de dever cívico”, portanto o último é possivelmente mais moldável pela educação. Talvez se o senso de dever cívico fosse algo mais presente na formação dos policiais que as atitudes militaristas de lidar com “inimigos”, não teríamos observado aquele show de horrores. O mesmo vale para a menos importante violência dos ditos “vândalos”. Não se deve botar a culpa na genética pelo autoritarismo, pois para uma pessoa propensa a defender autoritarismo manifestar isso é preciso também o ingrediente da ignorância. Sou a favor de uma polícia desmilitarizada e menos ignorante – em ambos os sentidos que se costuma usar de ignorante (bruto e desinformado).

OD: Em uma sociedade ainda regida pelo patriarcado, além de algo enraizado e implícito na nossa cultura, existe alguma outra explicação para uma postura machista e de superioridade perante as mulheres?

EV: Homens e mulheres cis (ou seja, que se identificam com o gênero com o qual são rotulados ao nascer, ao contrário de homens e mulheres trans, e pessoas que não se sentem contempladas nessa dicotomia) têm algumas diferenças comportamentais, especialmente quanto à propensão à violência física. Mas não acredito em botar a culpa na testosterona e seus receptores e fatores de transcrição associados pelo machismo. O machismo não é uma sentença genética, é um sexismo que nasce da ignorância e da falta de reflexão ética sobre a humanidade compartilhada pelas pessoas independentemente de suas identidades de gênero. Como no caso citado acima sobre atitudes autoritárias, se houve propensão genética a certas atitudes e “endofenótipos” frequentemente associados ao machismo, isso não significa que outros comportamentos que atuem como remédio não possam ser estimulados pela cultura e pela educação.

OD: Como a genética do comportamento explica a predisposição de algumas pessoas em praticar, por exemplo, esportes radicais?

EV: As pessoas podem variar quanto a (1) alelos que influenciem na resposta ao ácido lático – mais dor ou menos dor após exercícios intensos – neste caso pode ser que a influência sobre o comportamento seja indireta, que a base genética seja puramente associada ao metabolismo, e esse metabolismo aja como um ‘condicionador’ sobre a resposta de prazer ou dor ao exercício; (2) alelos relacionados à resposta prazerosa ou desprazerosa a situações de perigo e descargas de adrenalina e noradrenalina. O papel da noradrenalina no sistema de recompensa cerebral (prazer) já foi indicado por evidências e há até sugestões de que esse sistema seja usado no tratamento de vícios químicos. Eu não diria que “praticar esportes radicais” seja algo com influência particularmente predominante dos genes (basta pensar em quantas inovações culturais foram necessárias para este hábito aparecer), mas pode conter “endofenótipos” mais claramente influenciados por genes.

OD: Algumas pesquisas mostram que praticantes de esportes radicais se expõe a um determinado risco pois a sensação da recompensa supera o medo. Isso é um fator genético ou está associado ao meio?

EV: Os métodos da genética do comportamento são populacionais. É muito difícil hoje em dia tomar casos individuais e atribuir a uma coisa ou outra. Meu palpite é que a melhor hipótese sempre será um balanço entre as duas coisas. Até porque as duas coisas (genes e ambiente) não são dois pólos opostos, mas dois rótulos simplificadores para a complexidade da realidade. O ambiente de um feto pode ser a genética da mãe. Hoje sabemos que nossa genética como populações e espécie foi mudada pela pressão seletiva de hábitos alimentares como o consumo de leite e amido. Crianças são geneticamente propensas ao aprendizado (especialmente da língua) e ao ensinamento da cultura logo nos primeiros anos de vida. Somos seres biologicamente moldados para a cultura e culturalmente moldados em nossa biologia.

OD: Que tipos de comportamento estão associados a fatores genéticos? O ditado filho de peixe peixinho é pode ser traduzido para filho de chato chatinho é?

EV: É difícil encontrar um comportamento que se possa dizer que é completamente isento de influência genética. O celibato poderia ser um deles, por razões óbvias. Mas eu poderia dizer que as pessoas variam, hipoteticamente, quanto à sua propensão genética de resistir à tentação de fazer sexo, então um celibatário de sucesso poderia estar negando uma contribuição genética que está ali. Quanto a ser “chato”, não me parece nem um pouco claro o conceito do que é ser “chato”: a chatice de um é a diversão de outro.

OD: A genética, de forma geral, tem evoluído muito, atingindo um nível de conhecimento até pouco impensável? Até onde a genética pode chegar?

EV: Não é possível mais uma única mente humana abrigar hoje o volume de conhecimento já produzido pela genética. Dificilmente o que já foi produzido em genética do comportamento, que só tende a crescer conforme as técnicas de associação a variantes moleculares e de “peneiragem” dos fenótipos e endofenótipos vão evoluindo. A genética, como toda ciência madura, é um edifício construído e mantido coletivamente. E por ser um empreendimento de humanos que pode ser sobre humanos, não pode estar ausente de discussões sobre ética. Os limites tecnológicos e os limites éticos decidirão onde a genética pode chegar. Porque “poder” tem dois sentidos: ser capaz de fazer, e ser capaz de arcar com as consequências em fazer.
6th of November

A ciência é politicamente neutra? Sim e não.


A primeira ambiguidade a ser resolvida é se por “ciência” estamos falando de comunidade científica e cientistas individuais, ou do processo de produção do conhecimento científico, dotado de seus métodos que nada mais são que uma extensão cara e crítica das marcas de confiabilidade de proposições do senso comum, herdada de séculos de investimento de trabalho mental (incluindo o dos filósofos).
Se estamos falando de cientistas em particular, claro que não são neutros, especialmente em assuntos em que afirmação de fatos não é moralmente irrelevante. Não que a orientação política altere os fatos: inventar fatos para acariciar posições políticas é fraude e é coisa condenada na comunidade científica. Mas orientações políticas dizem muito sobre investimentos de atenção e motivações. Podemos apostar que sociólogos que pesquisam experimentalmente diferenças de comportamento ético entre ricos e pobres tendem a ser de esquerda, por exemplo.
No entanto, se estamos nos referindo a teorias estabelecidas e amplamente amparadas evidencialmente e em seus poderes preditivo e explicativo, sim, ciência é politicamente neutra. A teoria da evolução não é de direita nem de esquerda. A hipótese do big bang não é anarquista nem estatista. Teorias científicas produzidas por séculos de investimento de trabalho mental de cientistas são, sim, neutras, até porque as diferentes perspectivas políticas de diferentes cientistas acabam se anulando. E além disso, um conteúdo produzido devido a certa motivação pode ser usado no contexto de outra motivação completamente diversa. Pode-se acusar Arquimedes de ser um apoiador da monarquia ao aceitar um trabalho para descobrir se a coroa do rei é de ouro puro. Alegar que o princípio de Arquimedes é intrinsecamente monarquista seria absurdo porque pode ser e já foi usado para realizar coisas com motivações republicanas.
Podemos pensar nas diferentes orientações políticas e ideológicas dos cientistas como vetores que muitas vezes apontam para sentidos opostos e podem se anular. Para que essa anulação de vetores ideológicos seja melhor, a comunidade científica precisa ser maximamente diversa. Hoje ela já é bastante diversa em nacionalidades e orientações políticas (lembro aqui de um amigo astrofísico que criticou um republicano numa lista de e-mails de astrofísica e teve de lidar com as reclamações dos astrofísicos republicanos). Ainda não é suficientemente diversa em gêneros, por exemplo – há muito a melhorar quanto à presença de mulheres. Nem suficientemente diversa em fontes de financiamento: não é bom para a pesquisa brasileira, por exemplo, que fora de São Paulo o investimento privado seja de pequeno a inexistente. Porque Estado e indústria têm interesses diferentes que podem levar a cabo pesquisas diferentes (por exemplo, um pode ser mais receptivo à pesquisa básica em vez de aplicada que outro), e se só uma fonte de financiamento participa, significa que estamos em primeiro lugar deixando um ponto cego no que pode ser pesquisado mas não atende aos interesses dessa fonte, e em segundo lugar aumentando a probabilidade desses interesses viciarem os resultados, por exemplo ocultando os resultados negativos e só publicando os positivos espúrios sobre alguma nova droga que a indústria queira vender.
Quem, apesar de tudo isso, ainda defende teorias sociológicas fortes da ciência, ou seja, de que o próprio conteúdo do conhecimento e teorias científicos são nada mais que arrotos ideológicos ou de determinadas orientações políticas, já desistiu do racionalismo há muito tempo, e portanto também de debater a questão. Quem acredita viver num mundo em que só existe queda de braço entre interesses particulares, e nenhuma pista de verdade em nenhum lugar (deixando de lado a incoerência que isso provoca), já perdeu o interesse em descobrir se a ciência de fato é neutra ou não, trocando isso por uma afirmação do interesse particular injustificado de que ela (não) seja.