28th of December

Entrevista à Vice sobre Olavo de Carvalho


Como de praxe no meu blog, publico na íntegra minhas respostas a perguntas de jornalistas, já que o trabalho deles requer usar pouco do que digo em resposta a entrevistas. Publiquei na íntegra, por exemplo, uma entrevista sobre genética do comportamento a O Diário, e outra entrevista à BBC sobre ateísmo. Agora, na íntegra, o que eu disse à Vice sobre Olavo de Carvalho. Usaram muito pouco do que está a seguir na matéria original.

VICE: Entre artigos em jornais e postagens em redes sociais, Olavo de Carvalho já acusou o evolucionismo de ser “o pai do comunismo e do nazismo” e que, ao contrário do criacionismo, “não pode ser provado, nem refutado”. Qual sua opinião a respeito? Qual dessas declarações considera a mais descabida ou sem sentido? Apontaria outra(s)? Qual(is)?

EV: É uma afirmação descabida que denuncia uma confusão fundamental entre questões de fato e julgamentos de valor (que filósofos reais não fazem), e, além disso, é uma tentativa de uso da falácia de culpa por associação para tentar desacreditar uma teoria muito bem embasada em evidências, especialmente hoje, com a genética molecular. Por muitos séculos, os marinheiros sofreram com o escorbuto, que é o resultado de deficiência de vitamina C. Durante todo esse tempo, eles carregaram genes para a produção de vitamina C no próprio corpo, mas um deles, o gene GLO, foi desligado por uma mutação. Todos os primatas antropoides carregam essa mutação, que ocorreu no nosso ancestral em comum milhões de anos atrás, e, por isso, se postos num ambiente pobre em vitamina C como uma caravela portuguesa do século XVI, também sofreriam de escorbuto. Já os cães e gatos não sofreriam, pois produzem a própria vitamina C. Evidências como essa são a razão do domínio inconteste da teoria da evolução sobre todas as ciências biológicas. Darwin jamais leu Marx, apesar de serem contemporâneos, e, como mostrado num livro biográfico chamado “A Causa Sagrada de Darwin” (Desmond & Moore, 2009), Darwin não apenas descendia de dois avós abolicionistas, como era contra o racismo e a escravidão, e portanto também seria contra qualquer outra forma de opressão racial como as premissas do nazismo. Mesmo se Darwin tivesse sido uma má pessoa, isso em nada afetaria a teoria da evolução. Se ele não tivesse nascido, a pessoa famosa por ter proposto a teoria seria Alfred Russell Wallace, co-descobridor independente da seleção natural.

Olavo também já afirmou que Darwin plagiou o próprio avô Erasmus na proposição da teoria, mas Erasmus apenas escreveu um poema chamado Zoonomia em que defendia ideias similares às do francês Lamarck, faltando ali o principal, que era a seleção natural, à qual Darwin chegou como analogia da seleção artificial de pombos, cães e outros animais domesticados. Olavo também escreveu que os biólogos de hoje consideram falsa a seleção natural. Quase sempre que fala de ciência, Olavo não sabe do que está falando. E é algo preocupante para alguém que quer ser reconhecido como filósofo, pois algum contato com a ciência é importante nesse sentido, sendo a ciência uma filha da filosofia.

VICE: Em 2006, o senhor elaborou um abaixo-assinado pela “refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho”. Nele, diz que o colunista “trava uma batalha contra o conhecimento científico, especialmente contra a evolução biológica” e “não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência”. Doze anos depois, o que mudou? A que o senhor atribui o fato de Olavo de Carvalho ser um “negacionista científico”? O que há por trás disso?

EV: Eu tinha 19 anos quando fiz o abaixo-assinado, e hoje me parece uma ideia meio boba fazer um abaixo-assinado pela refutação de erros científicos. O número de assinaturas nada faz pelos argumentos, mas ao menos mostra alguma oposição e protesto pela má escolha de colunista por parte dos jornais. Eu poderia simplesmente ter escrito cartas a esses jornais respondendo às falsidades que Olavo estava divulgando sobre ciência. No entanto, como muitos sabem, produzir bobagens demanda muito menos energia do que refutá-las, e é uma tarefa ingrata sair desmentindo cada falsidade que o professor Olavo emite no mundo. Ainda não sei se ele faz de propósito, provavelmente não, mas deveria aprender a virtude da humildade no campo da ciência.

O professor não é exatamente um “negacionista” da evolução, ele alega que é neutro a respeito da sua veracidade. No entanto, jamais chegou a mim qualquer crítica dele aos criacionistas, o que levanta dúvidas sobre esse suposto agnosticismo. Há ao menos um motivo que explica a desconfiança dele contra a comunidade científica e o mundo acadêmico em geral, que é a prevalência de opiniões de esquerda nesse meio. Segundo uma pesquisa de Mitchell Langbert deste ano, há 21 professores de esquerda na biologia para cada professor de direita nas 51 melhores universidades americanas. Nas humanidades a desproporção é ainda maior, na sociologia é 44 para 1, e zero professores de direita (Republicanos) foram achados na área da comunicação e da antropologia entre mais de 5 mil amostrados. Não creio que a biologia precise refletir a proporção de opiniões políticas da população em geral, mas a quase ausência de discordância política em áreas que formam jornalistas e sociólogos gera um problema sério, pois são áreas mais destacadas das evidências empíricas, em que a popularidade entre os colegas às vezes é o mais importante critério de julgamento da qualidade do trabalho. Olavo tem razão em se preocupar com isso, mas Jonathan Haidt e a organização Heterodox Academy fazem um trabalho melhor que ele em analisar o problema.

Não creio que não haja valor algum na obra dele; algumas coisas que ele afirma sobre uma aprovação de autoridades ao declínio nos padrões de arte e cultura me parecem corretas. Algumas críticas à esquerda que ele faz são pertinentes. Mas, se eu fosse um conservador, eu preferiria mil vezes ler Roger Scruton, Thomas Sowell, John Kekes e Burke a ler o Olavo, pois o ruído de teorias da conspiração, grosserias e ataques à ciência seria muito menor.

VICE: Considerado o mentor intelectual de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho já indicou, até o momento, dois ministros: Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Quais as chances de essas e outras teorias pseudocientíficas, como o criacionismo, por exemplo, serem incorporadas, aos poucos, ao currículo escolar ou, quem sabe, influenciar as decisões do futuro presidente? Por quê? 

EV: Intelectuais adoram exagerar a sua importância no mundo. Acho um enorme exagero creditar a Olavo de Carvalho alguma parte importante na eleição de Jair Bolsonaro, ao menos uma parte tão importante quanto as descobertas da Lava Jato e a recessão econômica resultante das péssimas políticas econômicas do PT, por exemplo. Sobre as nomeações, é importante ver caso a caso, se é verdade que o indicado foi indicado por competência. É importante lembrar ao presidente eleito que essa foi a promessa: nomear ministros por competência, e não por alinhamento ideológico. E parece que às vezes ele se esquece da promessa. Na minha opinião, Olavo acertou numa dessas indicações e errou na outra. Então ele geralmente tem a mesma probabilidade de acerto que o lançamento de uma moeda.

29th of January

Olavo de Carvalho, Charles Darwin e Pseudofilósofos Uma análise de um texto de um dos "filósofos" mais populares do Brasil, com réplica e tréplica


Resposta do Olavo (ao vídeo acima):

Minha tréplica:

18th of June

O curioso caso de quando o Olavo de Carvalho concordou com a esquerda


Em tempos de renovado espaço na Folha de São Paulo, a última coisa que Olavão quer que nós lembremos é que ele já concordou – e muito – com certa parte da esquerda. Na verdade, ele continua concordando entusiasticamente, como veremos. A história é bem conhecida em círculos intelectuais, e merece mais divulgação para a população em geral.No fim da década de 1990, um movimento mais ou menos difuso de ideias, chamado de “pós-modernismo”, estava em seu ápice. As ideias mais comuns veiculadas por esse movimento não são muito novas – por exemplo, relativismo epistemológico, relativismo moral, redução de problemas intelectuais a quedas de braço de interesses cegos (políticos, pessoais, étnicos, econômicos) em detrimento da confiança iluminista em verdade, objetividade, imparcialidade etc. Evidentemente, para abraçar as últimas não é necessário ser cego para com vieses. No entanto, ao desistir totalmente delas, o pós-modernismo viu-se dando espaço para a aceitação de visões acriticamente pessimistas das capacidades humanas de raciocínio integrativo e ceticismo crítico (em oposição à dúvida teimosa sobre tudo conhecida como ceticismo pirrônico). Até algumas pessoas que não se encaixam totalmente na definição de “pós-moderno”, como Michel Foucault, acabaram caindo em algumas de suas armadilhas – notoriamente, Foucault acabou apoiando a “revolução” dos aiatolás no Irã, e é difícil disfarçar que isso foi por relativismo cultural (que o que é certo ou errado moralmente depende totalmente da cultura em que estamos). O pós-modernismo, se não nasceu totalmente da esquerda, foi alimentado entusiasticamente por seus seios fartos.

Foi em resposta a esse modismo da sandice que Alan Sokal, um físico, escreveu um texto no estilo obscuro amado pelos pós-modernos, para ser publicado na revista “Social Text”. O texto abusava de termos científicos, besuntava afirmações loucas com termos da mecânica quântica e termos da moda usados e abusados na época e até hoje (“hermenêutica”, por exemplo, e “semiótica”, que o filósofo John Searle diz – provocando – que nem quem a usa como nome de sua própria profissão sabe direito do que ela trata). A revista aceitou o artigo embusteiro com louvor suficiente de publicá-lo num volume especial sobre ciência. Seguiu-se um chacoalhar raramente visto antes na torre de marfim. Para quem gosta de ciência criticamente (ou seja, sem cientificismo), o artigo falso de Sokal foi um ponto de inflexão para conscientizar a intelectualidade da importância de uma volta aos valores de origem (da própria intelectualidade institucionalizada). O evento, conhecido como “Sokal Hoax”, foi seguido pela publicação do livro “Imposturas Intelectuais”, pelo próprio Sokal em parceria com Jean Bricmont.

Importantemente, o episódio foi precedido pelo alerta de um livro de Paul Gross e Norman Levitt, cujo título, e especialmente subtítulo, dizem tudo: “Higher Superstition: The Academic Left and Its Quarrels with Science” [Superstição Superior: A Esquerda Acadêmica e suas Brigas com a Ciência].

Onde entra Olavo de Carvalho nisso tudo? Ele mesmo um exímio produtor de prosa floreada porém obscura, obscura porém floreada, que seus seguidores se iludem achando que é filosofia, foi um dos primeiros a atacar a defesa de Sokal da racionalidade filosófica clássica e sua filha, a ciência. Não à toa, Olavo é famoso por suas diatribes sobre as teorias de Newton e Darwin, e, é claro, pela frase filosófica “combustível fóssil é o cu da tua mãe”.

O maravilhoso espetáculo de Olavão se juntando a acadêmicos de esquerda no linchamento ao pensamento crítico pode ser lido no próprio site do Sokal: http://www.physics.nyu.edu/sokal/folha.html

A lição a levar para casa é: em todo o seu mundo maniqueísta de esquerda versus direita, comunistas versus capitalistas, Olavo de Carvalho não é sincero quanto ao seu ódio à esquerda. Quando é para atacar ciência e filosofia de fato (que ele nunca praticou na vida, sendo no máximo um bom leitor de Aristóteles), Olavo ama a esquerda de paixão. A beija, a abraça, e fornica com ela.

Post Scriptum

Algumas pessoas protestaram que eu não interpretei corretamente a resenha do Olavo de Carvalho nem levei em consideração supostos elogios que ele fez à empreitada do Sokal. Pois bem, vamos deixar algumas coisas mais claras.

Quando eu digo que Olavo concorda com a parte pós-moderna da esquerda, é no sentido de ele, tanto quanto a última, insistir em ataques às teorias científicas, de forma bem desinformada sobre o que essas teorias dizem (não está na resenha sobre a Sokal Hoax, mas está em vários textos dele); e no sentido de ele tentar reduzir discordâncias de cunho ‘cognitivo’ a conflitos de interesses entre esquerda e direita (está na resenha). Atacar ciência e reduzir problemas intelectuais a conflitos de interesses são duas marcas notáveis de pós-modernismo. Outra marca é um estilo obscuro de escrita que pós-modernos amam e Olavo de Carvalho pratica frequentemente (está na resenha também). Não tomem minha palavra a respeito: basta ler por exemplo o texto dele atacando a teoria da evolução pela seleção natural de Darwin (evidentemente, entender onde Olavo erra requer algum conhecimento da teoria de Darwin e da teoria moderna da evolução): http://www.olavodecarvalho.org/semana/090220dc.html

O fato de ele supostamente ter elogiado o que Sokal fez é claramente pelo único motivo de que ele pensa que Sokal destruiu intelectualmente a esquerda. Ou seja, tenta reduzir a esquerda acadêmica completamente aos erros de sua parte pós-moderna. Isso é tanto desonestidade intelectual, dada a insistência do próprio Sokal (que é de esquerda) que estava criticando erros de uma minoria na esquerda, quanto redução a conflito de interesses. Se o Olavo estiver certo, então Sokal teria de ser pós-moderno sem saber, já que Olavo quer reduzir tudo ao seu maniqueísmo de eixo esquerda-direita.

Ironicamente, pelos motivos expostos acima – volúpia de atacar a ciência sem entendê-la, redução de problemas que devem ser resolvidos no campo do argumento e da evidência a problemas de conflito de interesses políticos (ao tentar igualar esquerda intelectual a pós-modernismo), e obscurantismo de conceitos mal definidos e prosa embotada – quem é pós-moderno sem o saber é o Olavo.

[Editado em 26/08/2016 para incluir meu vídeo comentando em detalhes o texto do Olavo atacando Charles Darwin e a teoria da evolução.] 

7th of March

Em defesa do pseudofilósofo Olavo de Carvalho


Sou contra denunciar Olavo de Carvalho para deletar o perfil dele. Será que não perceberam que a carreira inteira dele é baseada em se fazer de vítima? Num evento de astrologia, antes de sair do Brasil, ele anunciou que estava sendo perseguido pela esquerda. Evidências disso, zero. Então não dêem na internet as evidências que ele não tinha na época.
Deixem o guru dos conservadores em paz. É falando mesmo que ele se enterra – julga-se detentor de refutações contra a mecânica de Newton, a evolução de Darwin, a relatividade de Einstein. É um megalomaníaco, pseudofilósofo, desconhecido na comunidade filosófica internacional, buscas pelo nome dele em indexadores de artigos de filosofia dão zero resultados, tem uma epistemologia tão porca que aceita astrologia como verdadeira, e os melhores defensores que ele tem são sujeitos que oferecem 50 mil reais para seus opositores “refutarem ao menos uma página de seu livro” (sic), e que não conseguem dar uma só tese filosófica original avançada pelo suposto filósofo.
O mais divertido é ele se fazer de pessoa espiritual, conectada com a bondade divina, quando parece mais uma fusão entre a boca suja do Ary Toledo, os valores do Bolsonaro, a conexão com a realidade da Fábia da Física do Petrefiolismo e a arrogância insensata daquele gaviãozinho dos Looney Tunes.
Olavo é o que os americanos chamam de “crank”. O artigo sobre o que é um “crank” na Wikipédia parece uma biografia dele. http://en.wikipedia.org/wiki/Crank_(person)
Literalmente, “crank” é manivela. Deixem a manivela girar o realejo das bobagens infinitas. Até a musiquinha do realejo de um fóssil ideológico político da Guerra Fria, pseudofilósofo cheio de teorias da conspiração, merece espaço. Afinal, precisamos saber que pessoas assim existem e atraem seguidores – digamos que ajuda a refletir sobre o estado da educação no Brasil.
Este post foi patrocinado por FETSI®, o refrigerante adoçado com fetos.

Bônus: Escola Olavo de Carvalho de Argumentação Coprolálica

Estão abertas as inscrições para a Escola Olavo de Carvalho de Argumentação Coprolálica. Garantimos aos alunos que aprenderão os melhores xingos da língua portuguesa para vencer debates.
Ementa:
1. Introdução ao “p* que pariu”.
2. 50 tons de vai tomar no *.
3. Fetos abortados, açúcar mascavo e zero-cal: três sabores de marxismo cultural.
4. Darwin é o * da tua mãe.
5. Newton é o * do teu pai.
6. Einstein é a b***** relativa da tua avó.
Garantimos, como mostra a imagem, carreira de sucesso na área da filosofia, como o famoso Doutor Olavo.
(Título de Doutor Honoris Causa em Filosofia concedido pelo deputado federal Marco Feliciano.)