8th of maio

Parlamento dos Valores


Imaginem uma família orientada total e unicamente pela liberdade. Os pais não forçariam os filhos a nada. Os filhos escolheriam se querem estudar, quando e como. Os pais se considerariam livres para pular a cerca quando e como quiserem, sem consideração por acordos mútuos ou pela estabilidade da relação e o efeito dela sobre os filhos.

A maioria de nós sabe ver que isso não daria certo. Júnior preferiria passar 14 horas por dia jogando Fortnite e zero horas aprendendo a multiplicar números de três dígitos. 

Valores são abstrações que tentamos usar para nos orientarmos num mundo complexo. No momento em que passamos a eleger um valor como soberano sobre todos os outros, nos arriscamos a perder alguma coisa.

Uma família ou sociedade orientada pela adoração da igualdade também daria errado, e temos exemplos dos efeitos nefastos de tentar elevar a igualdade acima dos outros valores: na cova, de fato todos são iguais.

Pensemos num terceiro valor, o mérito. Nós precisamos que haja alguma forma de as pessoas serem recompensadas pela competência. Vários serviços de que dependemos têm sua qualidade dependente de hierarquias de competência. Uma sobrevalorização do mérito pode ser um pouco mais difícil de imaginar como algo negativo, mas é possível: por trás da busca da meritocracia há a competição. Sobrevalorizar o mérito é sobrevalorizar os efeitos da competição. A competição é antagônica da cooperação (em última análise, mas isso não quer dizer que não possam conviver de forma estável). Uma sociedade em que a cooperação é assassinada pela competição é mais um pesadelo distópico.

E temos o outro lado dessa última moeda, que é a valorização exagerada dos aspectos comunais da cooperação. Nós temos sempre preferências. Preferimos cooperar com um grupo seleto. A forma extrema disso é a política identitária: cooperarei apenas com quem partilha de certas características minhas, e tratarei como suspeitos todos os que diferem de mim.

Uma cabeça sã precisa ter dentro de si um parlamento de valores diferentes. Muitas enfermidades mentais de várias formas de ideologia vêm de golpes de um ou mais valores sobre os outros.

7th of março

Em defesa do pseudofilósofo Olavo de Carvalho


Sou contra denunciar Olavo de Carvalho para deletar o perfil dele. Será que não perceberam que a carreira inteira dele é baseada em se fazer de vítima? Num evento de astrologia, antes de sair do Brasil, ele anunciou que estava sendo perseguido pela esquerda. Evidências disso, zero. Então não dêem na internet as evidências que ele não tinha na época.
Deixem o guru dos conservadores em paz. É falando mesmo que ele se enterra – julga-se detentor de refutações contra a mecânica de Newton, a evolução de Darwin, a relatividade de Einstein. É um megalomaníaco, pseudofilósofo, desconhecido na comunidade filosófica internacional, buscas pelo nome dele em indexadores de artigos de filosofia dão zero resultados, tem uma epistemologia tão porca que aceita astrologia como verdadeira, e os melhores defensores que ele tem são sujeitos que oferecem 50 mil reais para seus opositores “refutarem ao menos uma página de seu livro” (sic), e que não conseguem dar uma só tese filosófica original avançada pelo suposto filósofo.
O mais divertido é ele se fazer de pessoa espiritual, conectada com a bondade divina, quando parece mais uma fusão entre a boca suja do Ary Toledo, os valores do Bolsonaro, a conexão com a realidade da Fábia da Física do Petrefiolismo e a arrogância insensata daquele gaviãozinho dos Looney Tunes.
Olavo é o que os americanos chamam de “crank”. O artigo sobre o que é um “crank” na Wikipédia parece uma biografia dele. http://en.wikipedia.org/wiki/Crank_(person)
Literalmente, “crank” é manivela. Deixem a manivela girar o realejo das bobagens infinitas. Até a musiquinha do realejo de um fóssil ideológico político da Guerra Fria, pseudofilósofo cheio de teorias da conspiração, merece espaço. Afinal, precisamos saber que pessoas assim existem e atraem seguidores – digamos que ajuda a refletir sobre o estado da educação no Brasil.
Este post foi patrocinado por FETSI®, o refrigerante adoçado com fetos.

Bônus: Escola Olavo de Carvalho de Argumentação Coprolálica

Estão abertas as inscrições para a Escola Olavo de Carvalho de Argumentação Coprolálica. Garantimos aos alunos que aprenderão os melhores xingos da língua portuguesa para vencer debates.
Ementa:
1. Introdução ao “p* que pariu”.
2. 50 tons de vai tomar no *.
3. Fetos abortados, açúcar mascavo e zero-cal: três sabores de marxismo cultural.
4. Darwin é o * da tua mãe.
5. Newton é o * do teu pai.
6. Einstein é a b***** relativa da tua avó.
Garantimos, como mostra a imagem, carreira de sucesso na área da filosofia, como o famoso Doutor Olavo.
(Título de Doutor Honoris Causa em Filosofia concedido pelo deputado federal Marco Feliciano.)
27th of maio

A importância do pensamento para a continuidade da liberdade


Nós, que acreditamos em democracia e não estamos em nenhum extremo político, devemos combater a retórica nacionalista absurda de que a ditadura foi boa para o Brasil. Devemos combater a ideia de que sem a ditadura militar, teria havido uma ditadura comunista – ninguém sabe disso, e é muita pretensão querer ser vidente do curso da História. Nenhuma suposta ameaça é justificativa para eliminar direitos civis, perseguir a liberdade de manifestação argumentativa e pensamento, aprisionar por razões políticas e torturar pessoas.
Esse papo paranoico é velho e foi usado antes de 64 por Getúlio Vargas para implantar o “Estado novo”, mas, ainda que fosse verdade, ameaças de autoritarismo são combatidas com mais liberdade e democracia, e não com outra forma de regime opressor. A ideia de que fogo só se combate com fogo é uma ideia pueril e uma ode disfarçada à violência.
É de suma importância que direita e esquerda se unam nisso. As trevas do autoritarismo estão sempre à espreita, e infelizmente são praticamente uma tendência natural, especialmente em povo com baixa qualidade de educação. Não pretendo fazer minha versão de papo paranoico, só pretendo lembrar que não é novo na História que eras de paz e liberdade sejam substituídas num piscar de olhos pelo lamentável espírito de manada que acompanha nossa espécie desde seu nascimento.
A razão desse comentário é ter visto o músico Amado Batista ter dito, sobre ter sido preso e torturado pela ditadura militar apenas por ter dado acesso a livros censurados para intelectuais, que ele mereceu a prisão e a tortura. Infelizmente, esse caso atesta que nem mesmo a experiência direta como vítima torna alguém imune a apoiar o autoritarismo. Síndrome de Estocolmo pode ser mais comum do que pensamos, e, afinal de contas, às vezes as classes sociais que mais morrem numa guerra são justamente as primeiras a apoiar o início do conflito.
Daí a importância do pensamento para a continuidade da (pouca?) liberdade que a gente tem.