10th of July

O senso do ridículo e o bairrismo do @ZeroHora


Sou mineiro, e depois de morar quatro anos em Brasília vim fazer pós-graduação em Porto Alegre, há pouco mais de um ano. Jamais encontrei, na UFRGS, qualquer sinal explícito de resistência à minha presença como “estrangeiro”. Mas no comportamento de alguns, especialmente fora da universidade, o bairrismo se manifesta.
O termo “bairrismo” é daqui mesmo. Alguns poderiam chamar de etnocentrismo, provincianismo. Consiste no sentimento de que seu pedacinho de chão no qual viceja a cultura sob a qual você cresceu é necessariamente melhor que qualquer outro, se não no mundo, ao menos no Brasil. Alguns gaúchos, inclusive, apesar de falarem a língua portuguesa e terem praticamente as mesmas referências culturais que você e eu temos quanto à TV e o comportamento na infância, não se consideram brasileiros. Por que? Por que não. Ser brasileiro é feio, mesmo que isto esteja nos seus documentos e na língua que você fala.
A melhor arma contra o comportamento preconceituoso do provinciano (porque provincianismo também é preconceito, para não dizer ilusão ou irrelevância) é a paródia. Por isso eu recomendo o site de “notícias” O Bairrista: combatendo o etnocentrismo local com muito bom humor.
Recebi na minha caixa de correio por engano (ou alguma promoção) uma edição do maior jornal do Rio Grande do Sul, o Zero Hora do grupo RBS. Folheando o jornal (edição de 24 de junho), fui pego de surpresa com demonstrações escancaradas de bairrismo. A que mais me chamou a atenção foi a carta abaixo, publicada com algum destaque numa parte do jornal dedicada a uma série de reportagens sobre gaúchos vivendo fora do RS. A chamada da série chama as pessoas que nasceram no RS e saíram de “colonizadores gaúchos” (sic).
Eis a carta da  leitora:

“Conhecimento, um bem permanente

Meu nome é Patrícia Gasparetto de Medeiros, nasci no dia 1º de janeiro de 1986, em Taquari, e vivi até os 17 anos em Bom Retiro do Sul. Aos 14 anos comecei a trabalhar como babá, e aos 16 ingressei em uma fábrica de sapatos. Sou filha única, mas meus pais não tinham condições de pagar faculdade – minha mãe era merendeira e meu pai trabalhava como amarrador de carga.

Em junho de 2003, decidi morar com uma tia em Campo Grande (MS). Não sabia que seria tão difícil deixar o Rio Grande do Sul, a família, os amigos. Chorei por dois anos, com muitas saudades. Eu sabia que, se fosse para estar longe de quem amava, teria que fazer “valer a pena”. Aproveitei e me dediquei aos estudos, já que assim poderia vencer na vida. Como minha mãe sempre diz: a única coisa que ninguém nos tira é o conhecimento adquirido.

Em junho de 2004 passei no curso de Administração na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Naquele momento senti a alegria da conquista, mas também a tristeza de saber que nos quatro anos seguintes não voltaria a morar no Rio Grande. Campo Grande foi me “adotando”, e em 2007 fui trabalhar no setor de agronegócios do Sebrae. Minha função, viajando por todo estado, é levar conhecimento, ajudar na organização de grupos e incentivar o agronegócio competitivo e sustentável.

Em 2009, me formei, e na colação de grau fui homenageada como melhor aluna da turma. Não esperava, e sei que este reconhecimento foi consequência do fazer “valer a pena” por estar longe da minha terra e da minha gente.

Hoje, pós graduanda em Gestão Estratégica de Negócios, sou casada com um sulmatogrossense e considero o Mato Grosso do Sul meu segundo lar. Não deixo de visitar, todo final de ano, o Rio Grande do Sul e ver as pessoas que amo, trazendo sempre na bagagem um pouco de lá. Acredito que temos que abrir portas para que Deus escolha a melhor forma de nos abençoar.”

Com todo respeito à Patrícia e a saudade que ela tem de “sua terra” e “sua gente”, a impressão que eu tive da carta publicada pelo Zero Hora é que é necessário um esforço gigantesco de um gaúcho para considerar qualquer outra parte do Brasil um “segundo lar”. É difícil acreditar que as pessoas de Campo Grande sejam tão piores assim que os gaúchos, para este esforço ser necessário. A única explicação que eu tenho para essa dificuldade da Patrícia é o etnocentrismo e o ato de fechar-se culturalmente a um novo ambiente, por mais que ela tenha tentando expressar o oposto.
Mas se você não concorda com a minha interpretação da carta, ainda temos bairrismo escancarado na série do jornal: o gaúcho “se mistura” com o resto do Brasil (ou seja, é ele quem tem o poder de iluminar as outras variantes do Brasil, não o contrário) e o “coloniza” quando sai do Rio Grande do Sul, termo no mínimo infeliz com um ar quase eurocêntrico datado do século XVI.
Todos nós somos em parte produto do meio, e eu estaria mentindo se dissesse que não tem nada na minha terra natal que me agrade. Mas estou com o Fernando Sabino, que dizia que ser mineiro “consiste em não tocar no assunto” – nunca me senti na necessidade de exibir minha “mineiridade” como um galardão. Eu não escolhi nascer onde nasci, por que isso por si deveria ser motivo de orgulho? Ainda que eu tivesse nascido no melhor lugar do mundo, novamente, que motivo de orgulho eu teria, se não fui eu com meu esforço quem melhorou o lugar? Eu penso que orgulho é uma resposta: deve-se usar somente quando alguém tenta fazer você sentir o oposto. Eu deveria começar a usar um “orgulho de ser mineiro” se e somente se um grupo estivesse se esforçando para pintar esta condição como negativa – o que infelizmente acontece a nordestinos não só aqui mas também no sudeste.
Mérito não é genético nem se transmite pelo “sangue”. O RS tem muitos méritos como um lugar para viver e como cultura – mas também tem defeitos. Um amigo cearense, que também veio estudar aqui, me disse que toda vez que conta de onde é, uma parte considerável dos gaúchos abre um sorriso e fecha logo depois, numa demonstração caricata de falsa aprovação.
Numa época em que ainda se fazem tentativas de dividir comunidades em heterossexuais e homossexuais, entre brancos e negros, não parece de muita ajuda que parte dos gaúchos, com a aprovação de parte da imprensa, separe brasileiros em gaúchos e não-gaúchos, creditando mérito apenas aos primeiros.
Ainda tem quem pense aqui que trabalha para pagar aos “vagabundos” que recebem a assistência do Bolsa Família lá no nordeste. Em primeiro lugar, é bom lembrar que não são poucas famílias gaúchas recebendo o Bolsa Família, que segundo o Banco Mundial foi um investimento bem pensado do governo, não um “assistencialismo vazio” nem “sustento para vagabundos”. Em segundo lugar, se for mesmo verdade que as contribuições do RS ajudam o resto do Brasil, não deveria ser isso motivo de orgulho?
Somente o preconceito provinciano, bairrista e separatista de alguns poderia ver algo feio em ajudar o nordeste a se erguer economicamente (se é que há fundamento neste mito de que existe um tubo de tributos saindo do RS e desembocando no NE).
Viva o chimarrão! Mas eu não acho graça em tomar, como muitos gaúchos, e me preocupam os efeitos cancerígenos de tanta água quente goela abaixo. Viva o churrasco! Mas eu só como com acompanhamento de salada, como muitos gaúchos, e também observo que toda carne bem passada também tem um monte de substâncias cancerígenas.
Somente com comedimento chimarrão e churrasco são só fonte de prazer na vida, e somente com comedimento é razoável supor que o Rio Grande do Sul tem vantagens únicas que não se encontram em nenhum outro lugar do Brasil e do Mundo.
Só tenho prazer em ter amigos gaúchos que, à revelia da opinião veladamente manifestada pelo Zero Hora, se orgulham quando com suas próprias mãos ajudam o Brasil a melhorar, sem ligar isso necessariamente ao fato de serem gaúchos, assim como também reconhecem que o RS tem muito a ganhar se abrindo culturalmente ao resto do Brasil.
Bah, tchê! Vamos agregar em vez de separar? Vamos crescer em vez de nos vangloriar?