17th of February

Nicholas Shackel: A Vacuidade da Metodologia Pós-modernista


Trechos do artigo original:

“Muitas das doutrinas filosóficas defendidas por pós-modernistas foram redondamente refutadas, mas as pessoas continuam a ser convertidas por um conjunto de dispositivos desonestos usados no proselitismo pós-moderno. Está ficando cansativo repetir refutações do mesmo tipo para cada nova aparição dessas várias manobras. Por essa razão, em vez de dar um novo grupo de refutações específicas, oferecerei em vez disso meu pequeno museu de suas manobras retóricas, cada exibição rotulada em ordem, cada rótulo gravado com um nome, cada nome contribuindo para um vocabulário de rejeição [do pós-modernismo].
Por ‘pós-modernistas’ refiro-me não apenas a autointitulados pós-modernistas como Lyotard e Rorty, mas também a pós-estruturalistas, desconstrucionistas, adeptos do Programa Forte em Sociologia do Conhecimento, e feministas anti-racionalistas. Uno-os sob o termo porque, filosoficamente, estão unidos por uma doutrina cética sobre a racionalidade (que confundem erroneamente com uma descoberta profunda): a saber, que a racionalidade não pode ser uma restrição objetiva sobre nós mas é qualquer coisa que a fizermos ser, e o que a fazemos ser depende do que valorizamos. Oponentes são vistos como disfarçando sua construção de interesse próprio da racionalidade por trás de uma visão metafisicamente inflada da racionalidade na qual assume-se que a Razão com R maiúsculo transcende os egos meramente empíricos de seres racionais.
Nomeemos essa doutrina cética. Que tal ‘logofobia’? O termo tem muito de recomendável. Condescendente, com petição de princípio, evitando pensar mais a fundo, assegurando evasão fácil da questão meramente gradgrindiana a respeito da verdade ou falsidade da doutrina, permitindo a nós passar logo para a diversão de maldizer os logofóbicos. O que mais se poderia querer de um termo?
Infelizmente, sou um racionalista empedernido e renunciei aos prazeres dos truques sofísticos. Em vez disso batizei a doutrina de ‘alogosia’, para passar sua negação da objetividade da razão, e seus seguidores de ‘alogósicos’, dos quais os pós-modernistas são apenas os exemplares mais recentes. Não discutirei essa doutrina aqui, mas explorarei alguns de seus absurdos.”

Dois dos dispositivos desonestos pós-modernos identificados por Shackel:

1. Truísmos de Troll. Consiste em afirmações vagas o suficiente para serem ao mesmo tempo trivialmente verdadeiras enquanto carregam interpretação alternativa que veicula uma falsidade empolgante. Exemplo: a afirmação de que a ciência é socialmente construída é trivialmente verdadeira, mas com ela frequentemente quer-se alegar que o modo como essa construção se deu é totalmente arbitrário, não contendo verdade objetiva inescapável, e que o fato de ser uma construção implica que haveria necessariamente outros modos de construir. Uma falsidade empolgante veiculada por uma verdade trivial e enfadonha.
2. Doutrinas de Mota e Terreno. Castelos de mota eram um tipo de construção medieval em que havia uma torre de pedra construída sobre uma colina frequentemente artificial (a mota) cercada por um terreno contendo construções (tipicamente um castelo) delimitado por um muro ou uma vala. A parte desejável e útil é o terreno, o espaço imediato da mota, frio e úmido, é um mal necessário para manter a segurança do terreno. Na estratégia desonesta em questão, o terreno é o conjunto de proposições desejáveis pelos seus defensores mas fracamente defensáveis. A mota representa proposições facilmente defensáveis mas indesejáveis para esses proponentes. Quem defende uma doutrina filosófica estilo mota-e-terreno quer explorar o terreno livremente, mas quando é pressionado por críticos vai bater em retirada para a mota. Um exemplo de doutrina mota-e-terreno é a doutrina de Michel Foucault sobre a verdade. O terreno dificilmente defensável é a proposição de que verdade é poder, que facilmente se expõe a críticas demolidoras mesmo sendo desejável para Foucault. A mota é que com “verdade” Foucault quer dizer outra coisa que não se identifica com a verdade, outra coisa em que a afirmação se torna trivialmente aceitável. No entanto, o que Foucault estava oferecendo era uma teoria da verdade, não uma teoria de alguma outra coisa arbitrariamente rotulada com o termo ‘verdade’, convenientemente ressignificado. Quando o escrutínio crítico se afrouxa (os ‘inimigos’ tentando atacar o ‘terreno’ se retiram), o novo sentido de ‘verdade’ desaparece e os defensores da doutrina voltam a pensar que verdade é poder, uma ideia falsa mas empolgante.
(Shackel esclarece o dispositivo de “mota e terreno” aqui: blog.practicalethics.ox.ac.uk/2014/09/motte-and-bailey-doctrines/ )
Depois de classificar outras estratégias, a conclusão do filósofo é que o destino dos pós-modernos é um buraco negro de absoluto irracionalismo auto-refutante em que todas as proposições são igualmente aceitáveis.

Referência

Shackel, N. 2005 The Vacuity of Postmodernist Methodology. Metaphilosophy 36, 295–320. (doi:10.1111/j.1467-9973.2005.00370.x)
14th of September

Fucô não é meu Pastô: filósofo Michel Foucault diminuía gravidade da pedofilia para atacar “biopoder”


Da série “Fucô não é meu pastô”: quando, em nome de atacar o “biopoder”, o francês diminuiu a gravidade da pedofilia.
“[É] central na crítica de Foucault o papel que as pretensões epistêmicas das ciências desempenham numa estrutura de raciocínio prático que leva agentes preocupados com sua prosperidade a se tornarem agentes de sua própria opressão. E a parte crucial da “pretensão” é, como notamos antes, que as ciências humanas iluminam a verdade sobre como seres humanos (normais) prosperam em virtude de aderirem às estrituras epistêmicas e metodologias das ciências naturais. Lembre-se também que Foucault, diferentemente de Nietzsche, não contesta a autoridade prática da verdade (isto é, a alegação da verdade para determinar o que *deve* ser feito); em vez disso ele nega que as alegações em questão sejam verdadeiras ou que tenham a garantia epistêmica que esperaríamos de alegações verdadeiras. Então, o projeto de libertação foucaultiano em sua totalidade se volta para o status epistêmico das alegações das ciências humanas. E sobre esse ponto central Foucault não tem, surpreendentemente, quase nada a dizer além de levantar “suspeitas”. Talvez a medicina ou a psiquiatria *contemporâneas* tenham identificado *tipos naturais*, isto é, agrupamentos reais de propriedades patogênicas interconectadas de pessoas. Neste caso, a história de Foucault é a história da ciência de araque do passado recrutada em favor objetivos morais e políticos, uma história cujos contornos gerais são há muito conhecidos, mesmo que Foucault conte aspectos marcadamente novos a seu respeito. Sobre o status epistêmico das ciências humanas *atuais*, tudo o que Foucault nos oferece é uma suspeita, em vez de um argumento. A suspeita é, como argumentamos anteriormente, epistemologicamente importante, mas precisa ser suprida de uma crítica da verdade das alegações em questão.
Mesmo essa suspeita, no entanto, é enfraquecida, infelizmente, pela atitude às vezes cavalheiresca de Foucault para com os fenômenos em questão. Considere a seguinte passagem notável da História da Sexualidade, sobre a qual os devotados seguidores de Foucault raramente comentam:
“Um dia, em 1867, um trabalhador rural da vila de Lapcourt, que era uma pessoa simples, empregado aqui e ali a depender da estação, vivendo da própria subsistência… foi entregado às autoridades. Na fronteira de um campo, ele havia obtido algumas carícias de uma menina, da mesma forma que ele já havia feito e tinha sido observado fazendo pelos moleques da vila ao seu redor… Então ele foi acusado pelos pais da menina frente ao prefeito da vila, entregue pelo prefeito aos gendarmes [guardas], levado pelos gendarmes ao juiz, que o condenou e o entregou primeiro a um médico, e então a outros especialistas. … O que é digno de nota nessa história? A mesquinhez disso tudo; o fato de que essa ocorrência quotidiana na vida da sexualidade da vila, esses prazeres bucólicos inconsequentes, poderiam se tornar, a um tempo, o objeto não apenas da intolerância coletiva mas de uma ação judicial, uma intervenção médica, um exame clínico cuidadoso, e uma inteira elaboração teórica.” (p. 31)
Os mesmos eventos subjacentes podem, é claro, ser descritos de forma bem diferente: que até o tempo daquele incidente, a pedofilia e o abuso sexual infantil haviam sido rotineiramente tolerados – tratados como um “prazer bucólico inconsequente” na expressão alarmante de Foucault – mas gradualmente as pessoas vieram a perceber que homens “simples” sendo masturbados por meninas pequenas não era coisa tão boa (nem tão “inconsequente”), e assim o moderno estudo científico da pedofilia, e seus danos, começou. Por que deveríamos preferir a versão de Foucault à versão alternativa não está claro. Por que não dizer, em vez disso, que no século XIX um certo *tipo* psicológico foi descoberto, a saber, o pedófilo, e que os prejuízos da pedofilia também foram descobertos, mesmo que as versões dessas descobertas do século XIX tenham sido superadas por um século de investigação? Ausente em respostas para perguntas assim, o projeto crítico de Foucault fica em perigo.”

Brian Leiter. “O status epistêmico das ciências humanas: reflexões críticas sobre Foucault”. http://philpapers.org/rec/LEITES

Leia também: “Tudo é narrativa”: um trem muito doido.