28th of April

Sobre as difamações


Sobre constantes difamações a mim nas redes sociais, me perguntar não ofende nem um pouco. Mas lembrem-se que os responsáveis por nossas próprias crenças somos nós mesmos, e quem adota crenças (sobre pessoas ou causas ou coisas) com evidência insuficiente, pouco argumento e muita irritação coletiva, sofre as consequências de sua própria falta de pensamento crítico. Meus textos falam por mim.

Prints descontextualizados e tentativas de assassinato de reputação por seguidores dogmáticos de ideologia, não. Um exemplo: quando soube que a Lei João Nery será o tema da parada LGBT, comentei “oba! Funcionou [a petição]!”. Usaram exatamente esse comentário meu para me acusar de ser transfóbico. É evidência suficiente? Outra pessoa, afiliada ideologicamente à “teoria queer” (da qual discordo simplesmente porque é fundada em determinismo cultural), irritou-se porque, quando eu pedi que ela desse um exemplo de sociedade com um número alto de gêneros, tipo dez ou mais, ela alegou que essa sociedade era o Brasil. Extasiado diante da hilariedade dessa alegação, eu fiz uma lista de falsos gêneros brasileiros além dos já conhecidos, incluindo “Chico Buarque” (não sei vocês, mas eu adoraria ser do gênero Chico Buarque). A pessoa falhou em me dar um exemplo histórico de cultura com um número exorbitante de gêneros. Se o número de gêneros não é exorbitante em todas as culturas já estudadas, então há limites para o número de gêneros que os humanos podem desenvolver em suas culturas, e alegarei que parte desses limites são biológicos. Ou seja, é plausível um número bem maior que dois gêneros, só que esse número não pode ser infinito. Pois, se for alegado que pode ser infinito, na minha opinião isso esvazia o conceito de “gênero” como categoria social, ou seja, altera o sentido do termo sem qualquer justificação, tornando-o mais próximo de “personalidade”.

Portanto, uma discordância de ideias foi o motivador de um desses prints para tentar me difamar. Outro print, em que falo da “seita dos batatinhas” é explicitamente uma referência a seguidores dessa ideologia, e não pessoas trans em geral. Basta procurar no Google e verão quem está usando o termo e para quê.

De onde tiro essas ideias? Uma das minhas fontes é a acadêmica feminista Martha Nussbaum e suas críticas à Judith Butler. Já traduzi alguns parágrafos de um artigo dela e postei no Facebook. Estou tentando passar meu “academicismo” em cima da “vivência das mulheres” e da “vivência das pessoas trans”? Não, estou exercendo minha liberdade individual de julgar ideias por seus méritos. Ademais, e a vivência da Martha Nussbaum, como mulher e filósofa, vão jogar no lixo? Responsabilizem-se pelas consequências problemáticas de suas ideias injustificadas. Beijinho no ombro.

18th of April

Feminismo igualitário vs. Feminismo sectário


Dois tipos de negacionistas do segundo sexismo, por David Benatar*

Argumentos mostrando que há um segundo sexismo levantam objeções de duas principais direções. Mais abundantes, ao menos dentro da academia, são objeções de algumas (mas não todas) feministas. Do outro lado vêm objeções de alguns conservadores. Em cada caso, quem faz a objeção nega que existe tal coisa de segundo sexismo ou que é tão comum quanto eu defenderei que é.
Considere, primeiro, negacionistas do segundo sexismo das fileiras feministas. Feministas, evidentemente, não são um grupo monolítico. Há muitas formas de categorizar variedades de feminista, mas para meus propósitos somente uma distinção é crucial. É a distinção entre aquelas feministas que são motivadas por e interessadas em igualdade dos sexos e aquelas feministas cuja principal preocupação é a promoção das mulheres e meninas. Algumas feministas – aquelas do segundo tipo – provavelmente dirão que essa é uma distinção sem diferença. Dirão que a igualdade dos sexos é promovida pelo avanço dos interesses das pessoas do sexo feminino**, e vice-versa. Estão (apenas) parcialmente corretas. Promover a igualdade entre os sexos de fato frequentemente coincide com a promoção dos interesses das mulheres. É assim quando as mulheres são injustamente discriminadas. Entretanto, porque os homens, como defenderei, são às vezes vítimas de discriminação injusta, a promoção da igualdade de gêneros vai demandar às vezes a promoção de interesses de homens em vez de interesses de mulheres.
Podemos nos referir às feministas que são fundamentalmente preocupadas com a igualdade dos sexos como feministas igualitárias, e àquelas feministas que estão basicamente preocupadas apenas com a promoção dos interesses de mulheres e meninas como feministas partidárias***. As últimas são o equivalente feminista daqueles ativistas dos direitos dos homens [masculinistas] que estão interessados apenas em promover os interesses e proteger os direitos de pessoas do sexo masculino. Feministas corretamente criticam essa posição, mas feministas partidárias não percebem que a profissão míope dos interesses de um sexo que é característica de tais (mas não outros) defensores de direitos dos homens é similar à sua própria posição. Essa crítica não se aplica a feministas igualitárias. Nada do que eu digo deve ser hostil ao feminismo igualitário. Na verdade, eu endosso essa forma de feminismo. Defensores dessa posição reconhecerão que se opor ao segundo sexismo é uma parte do projeto geral de se opor ao sexismo e promover a equidade de gêneros. O que eu direi será antagônico apenas ao feminismo partidário.
Ao fazer a distinção entre feministas igualitárias e partidárias, eu não aleguei que feministas igualitárias devem reconhecer que existe um segundo sexismo. Obviamente, o compromisso com a igualdade dos sexos não implica em crer que homens são vítimas de alguma discriminação injusta. O objetivo deste livro é defender que pessoas do sexo masculino são, de fato, vítimas de sexismo. O que estou argumentando agora é que não há nada nessa alegação que seja inconsistente com o feminismo igualitário.
Ao distinguir feminismo igualitário de feminismo partidário, eu não provei que há feministas partidárias. A distinção também não prova que há feministas igualitárias, mas é a categoria de feministas partidárias que algumas feministas poderiam alegar que é vazia. Pretendo mostrar em muitos pontos ao longo desse livro que há, de fato, feministas desse tipo. Há algumas, mas não muitas, feministas que explicitamente esposam o que eu chamei de feminismo partidário. Muito mais comumente, entretanto, muitos daqueles que professam o feminismo igualitário escorregam para uma forma partidária de feminismo. Interpretam as evidências como provando que pessoas do sexo feminino são vítimas de discriminação mesmo quando não são – e mesmo quando são na verdade pessoas do sexo masculino que são as vítimas da discriminação. Também se engajam em racionalizações para atingir a conclusão em qualquer exemplo em particular de que são interesses femininos que devem prevalecer.
Não pretendo identificar feministas específicas como igualitárias. Uma razão para isso é que é difícil a este ponto determinar quem são as feministas igualitárias reais. Quase todas as feministas escrevendo sobre a discriminação por sexo trataram da discriminação contra pessoas do sexo feminino. É difícil saber se qualquer feminista específica ignorou a discriminação contra pessoas do sexo masculino simplesmente porque ela ou ele não estava ciente do problema. O que acontecerá quando forem informadas ainda está para ser visto. Uma vez que sua atenção for chamada, suas opções (amplamente definidas) parecem ser essas:
(1) Podem aceitar que há alguma discriminação errada contra pessoas do sexo masculino (e se juntarem a mim em opor-se a ela).
(2) Podem fornecer bons argumentos sobre por que, ao contrário do que eu digo, pessoas masculinas não são vítimas de qualquer tipo de discriminação errada.
(3) Podem rejeitar a conclusão de que pessoas do sexo masculino são vítimas de discriminação errada mas falhar em fornecer boas razões para essa conclusão e, em vez disso, se engajar nas familiares racionalizações que discutirei mais tarde.
(4) Podem declarar que não estão interessadas na discriminação contra homens e meninos mesmo se ela existir.
As primeiras duas opções são compatíveis com o feminismo igualitário, enquanto as duas últimas ou sugerem (opção 3) ou declaram explicitamente (opção 4) o feminismo partidário. Em parte por essa razão, as pessoas na terceira categoria são propensas a dizer que estão, na verdade, na segunda. Não desejo prejulgar como pessoas em particular responderão. Porque muitas feministas que professam ser igualitárias escorregam para uma forma partidária de feminismo quando confrontadas com argumentos de que há um segundo sexismo, muitas vezes não se pode facilmente dizer (antecipadamente) quais daqueles que professam estar interessados na igualdade dos sexos de fato o estão.
Nem preciso identificar feministas igualitárias específicas (ou discutir seu trabalho enquanto feministas igualitárias) para amparar meu argumento. O feminismo igualitário é uma posição possível e uma posição que muitas pessoas professam. A questão sobre quem de fato ocupa esse espaço intelectual (e político) não é relevante para determinar se há um segundo sexismo. Nem é relevante para mostrar que o reconhecimento e a oposição ao segundo sexismo é compatível com a posição que chamei de “feminismo igualitário”.
Como no caso das feministas, conservadores também não são de um único tipo. Alguns dos que chamam a si mesmos de “conservadores” podem não ter objeções às posições que defenderei. Isso porque alguém pode ser conservador num campo mas não em outro. O conservadorismo econômico, por exemplo, não implica em conservadorismo religioso. Os conservadores que protestarão contra meus argumentos serão mais provavelmente aqueles que endossam (o reforçamento dos) papeis de gênero e em consequência o tratamento diferenciado dos sexos ao qual eu me oponho. Arguirão que muitas das desvantagens que as pessoas do sexo masculino sofrem não são exemplos de sexismo, porque as pessoas do sexo masculino devem suportar esses fardos ou ao menos que não é injusto que tenham de suportá-los. Esses conservadores – a quem podemos chamar de conservadores de papeis de gênero – pensam a mesma coisa sobre vários fardos que mulheres suportam, o que faz deles aliados desleais para feministas partidárias que também negam que há um segundo sexismo. De fato, conservadores de papeis de gênero podem achar parte do que defenderei – especialmente contra feministas partidárias – bem agradável. Podem, por exemplo, concordar que há os dois pesos e duas medidas que eu demonstrarei que existem na posições das feministas partidárias.
Deve estar claro, entretanto, que minha posição não é conservadora sobre papeis de gênero. Enquanto poderia haver diferenças em média em algumas características psicológicas entre os sexos (discutirei de forma mais aprofundada no Capítulo 3), eu não penso que essas justifiquem todos os tratamentos diferenciais dos sexos que os conservadores de papeis de gênero endossam. Por eu pensar que o segundo sexismo deve ser condenado junto ao sexismo mais amplamente reconhecido, estou defendendo mudanças – fazer as coisas de forma diferente da que foram feitas historicamente. Isso não é ser conservador de forma alguma.
Ao defender a posição de que há um segundo sexismo, responderei a críticas de ambos feministas partidários e conservadores de papeis de gênero. Entretanto, meus argumentos se direcionarão mais comumente contra os primeiros. Isso não é porque sou mais contra sua posição, mas em vez disso porque é a posição mais comum na academia.
Não poderia enfatizar mais, no entanto, que eu não estou criticando todas as feministas. Descobri que esse fato é frequentemente esquecido (ou, em leituras menos generosas, ignorado) mesmo quando é dito claramente. Infelizmente, o partidarismo e outros excessos ideológicos do feminismo são generalizados e eu devotarei muita atenção a demonstrar os problemas em tais posições. Ao fazê-lo, entretanto, não devo ser interpretado como alguém que rejeita o feminismo na sua forma mais autêntica e igualitária.
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Notas da tradução
* David Benatar é professor de filosofia na Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul. http://en.wikipedia.org/wiki/David_Benatar Este texto é uma seção do Capítulo 1 (Introdução) de seu livro Benatar, David. The second sexism: discrimination against men and boys. John Wiley & Sons, 2012. As notas foram ocultadas.
** Traduzi “females” como pessoas do sexo feminino. No inglês, a distinção entre sexo feminino/masculino e gênero feminino/masculino é facilitada pela possibilidade de usar os termos “female”/”male” e “feminine”/”masculine”. Mas, no português, a tradução literal de “female” para “fêmea” e “male” para “macho” perde o sentido substancialmente, pois as pessoas associam essas palavras ou a outros animais, ou, no caso de “macho”, o termo é usado para pessoas já com um sentido sexista de atribuição automática de virtudes ao gênero masculino.

*** “Partisan feminist” poderia ter outras traduções, como “feminista sectário” ou “feminista sequaz”. Usei “sectário” no título da minha tradução, confesso, para atrair leitores e leitoras. Benatar, é claro, está sendo neutro em gênero quando se refere a feministas, graças à língua inglesa, o que é difícil de fazer em português sem apelar para acresção arriscada de palavras como “pessoas feministas”. Optei por generalizar feministas no feminino, na maioria das vezes, por convenção. Lembrar que em todos os casos em que se diz “as feministas”, há, inclusive na academia, homens envolvidos (mesmo que não gostem de chamar a si mesmos de feministas).

Leia também:
O preconceito de associar um sexo/gênero automaticamente a virtudes e vícios
– Sobre gêneros e deterministas culturais
Três citações feministas
– Vieses implícitos e o feminismo racionalista de Jennifer Saul
– Você é machista, homofóbico(a), transfóbico(a), racista? Muita calma nessa hora!

10th of April

Três citações feministas


“Uma recusa a reconhecer a plena humanidade das mulheres, e uma inabilidade correlata de apreciar a total individualidade de cada mulher, de fato é o cerne do sexismo (e, mutatis mutandis, do racismo). Então, é perturbador que muitas mulheres na academia, hoje, em vez de serem recebidas como participantes plenas da vida da mente, encontram-se sutilmente ou não tão sutilmente encorajadas a se confinarem ao gueto de colarinho cor-de-rosa de “women’s issues” e “abordagens feministas”; como é [também perturbador] ouvir os ecos de estereótipos sexistas antigos na filosofia feminista contemporânea: que a ética feminista focar-se-á no cuidar em vez de no dever, ou na virtude em vez de na justiça; ou que lógica é um empreendimento masculinista; ou que a epistemologia feminista deve enfatizar a conectividade, comunidade, emoção, confiança, o corpo, etc.”
– Susan Haack, “After my own heart”, 2008.
“Muitos homens são muito mais oprimidos que muitas mulheres, e qualquer feminista que esteja determinada a apoiar mulheres em todas as situações certamente encontraria algumas onde seu apoio a mulheres em vez de homens aumentaria o nível de injustiça no mundo. (…) Nenhuma feminista cuja preocupação com mulheres venha de uma preocupação pela justiça em geral pode jamais legitimamente permitir que seu único interesse seja a vantagem das mulheres.”
– Janet Radcliffe Richards, “The Sceptical Feminist”, 1994.
“O que sinto que devemos querer dizer é algo tão óbvio que é propenso a escapar à atenção completamente, ou seja: não que toda mulher seja, em virtude de seu sexo [apenas], tão forte, inteligente, artística, sensata, diligente etc. quanto um homem qualquer que possa ser mencionado; mas que uma mulher é tanto um ser humano comum quanto um homem, com as mesmas preferências individuais, e com a mesma medida de direito a gostos e preferências de um indivíduo. O que é repugnante a todo ser humano é ser pensado sempre como um membro de uma categoria e não como uma pessoa individual. (…) O que é irrazoável e irritante é assumir que todos os gostos e preferências que se tem hão de ser condicionados à categoria à qual se pertence. (…) 
Ocasionalmente imbecis e editores de revistas chamam-me para dizer algo sobre a escrita de romances policiais “do ponto de vista de uma mulher”. A tais demandas pode-se apenas dizer ‘Vá embora e não seja tolo. Isso equivale a perguntar qual é o ângulo feminino num triângulo equilátero’. (…)
Mesmo onde as mulheres têm conhecimento especial, elas podem discordar entre si como outros especialistas. Por acaso médicos nunca entram em rusgas ou cientistas nunca discordam? Seriam as mulheres não-humanas, ao ponto de se esperar que engatinhem todas juntas num rebanho como ovelhas?”
– Dorothy Sayers, “Are women human?”, 1938.
23rd of August

Relatório do senador Pedro Taques sobre a reforma do Código Penal: desastroso e mentiroso.


Saiu o relatório do senador Pedro Taques (PDT/MT) sobre a reforma do Código Penal. É desastroso e mentiroso.
– Mantém aborto como crime e fala que zigoto “já vislumbra a energia vital”. Que é isso, alquimia? Vitalismo é doutrina morta e enterrada em biologia.
– “cientista jamais poderá afirmar que um nascituro, por mais jovem que seja, não está vivo.” Isso também vale para tumores. Pedro Taques quer que a lei proteja tumores? Então por que, quando quer defender proteção a fetos ao ponto de criminalizar mulheres (e condená-las à morte por fazerem escolhas sobre seu próprio útero), usa coisas que fetos compartilham com tumores?
– Pedro Taques defende determinismo genético. Que na fecundação definem-se “características físicas, aptidões intelectuais”. Agradeço a ele por provar com esse relatório obscurantista e retrógrado sobre aborto que os “pró-vida” defendem determinismo genético, coisa que eu já disse antes: http://lihs.org.br/aborto
– O relatório cita um filósofo dizendo que permitir que a mulher possa escolher antes que se desenvolva cérebro diminuiria a proteção sobre crianças e idosos. Isso é absurdo. Ninguém alega que crianças e idosos são menos conscientes. A declaração de Cambridge de 2012 diz que até outras espécies têm consciência, como crianças e idosos não teriam? Argumento falacioso e falsa preocupação.
– Também invoca a sagrada vontade da ditadura da maioria para continuar criminalizando o aborto. Em direito de minoria (neste caso minoria em poder) não se mete vontade autoritária de maiorias. E certamente a maioria que elege apenas 8% de parlamentares mulheres não é imparcial e justa para decidir sobre status legal do aborto.
– “No entanto, o argumento da laicidade não tem autêntica relação com a questão do aborto.” Oh claro que não… somos todos idiotas.
– “presença de vida humana desde concepção não depende de crença religiosa. É fato biológico.” Tanto quanto presença de vida em tumores.
– Uma manchete sobre o relatório: “Novo Código Penal torna assassinato de gays mais grave.” Pouco importa, continua assassinando mulheres.
– O relatório dedica uma seção sobre autonomia da mulher a culpá-la por não prevenir gravidez. Ja isso é ignorância sobre como baixa probabilidade de falha de métodos anticoncepcionais atua num numero exorbitante de milhões de mulheres sexualmente ativas. E para variar, como nossa cultura machista adora fazer, se o método falhou a culpa é sempre da mulher.
– O relatório do senador Pedro Taques também alega que fetos de 12 semanas podem ver e ouvir. Confirmei com colega médica: É MENTIRA. Minha colega médica faz doutorado aqui em Cambridge justamente com funções cerebrais em recém-nascidos. Mentir é feio, Pedro Taques.
O relatório falacioso está no link a seguir, e a parte sobre aborto a partir da página 152.
Meus argumentos pela defesa da vida através da descriminalização do aborto, seguindo a recomendação do Conselho Federal de Medicina: http://lihs.org.br/aborto
30th of May

O preconceito de associar um sexo/gênero automaticamente a virtudes e vícios


1895/1900 (catálogo de von Gloeden)
O único critério confiável e respeitoso para julgar se alguém é mulher ou homem é a autoidentificação (que não é apenas uma declaração qualquer, mas uma consistente e fidedigna expressão de como a pessoa se sente e se vê).

Todos os outros critérios comumente usados falham:
nem toda mulher tem seios,
nem todo homem tem barba,
nem toda mulher tem vagina,
nem todo homem tem pênis (existem mulheres e homens trans, rotulados com um gênero com o qual nunca se identificaram intimamente; mulheres com agenesia vaginal e homens que perdem o pênis em acidentes),
nem todo homem tem voz grave,
nem toda mulher tem voz fina, etc.

É bom lembrar que usar “masculinidade” de forma honorífica, como um elogio ao caráter, é uma forma de sexismo. Assim como mudar propositalmente o gênero de um homem para o feminino em palavras de insulto, veiculando a ideia de que a feminilidade é uma coisa ruim ou infectada com a qual se pode ferir alguém. Não é uma virtude nem um vício ser mulher ou homem. É apenas um fato da natureza e da identidade das pessoas.

É normal que pessoas eroticamente atraídas por características ‘masculinas’ usem ‘masculinidade’ como elogio estético, mas só pode ser um fruto de uma valorização extrema ao masculino que alguém diga “este é homem!” ou pergunte “você não é homem, não?” quando quer se referir a virtudes como a coragem, que certamente não é atributo exclusivamente masculino, mas característica de parte da humanidade: as pessoas corajosas, que podem ser homens ou não.

Feministas criticam associações injustas de gêneros a virtudes e vícios, e tratamento desigual, pela óbvia injustiça que traz. Se você ainda insulta homens falando “olha como ela é brava” ou coisas similares, você pode até não se sentir sexista (não se sentir faz parte da razão do preconceito ser tão ubíquo), mas está reproduzindo e praticando o sexismo.

A única coisa que faz um homem ser “mais homem” é engordar. A única coisa que faz uma mulher ser “menos mulher” é emagrecer.

Além disso, existem pessoas que não se sentem nem uma coisa nem outra: se sentem algo entre homem e mulher, ou algo que não se encaixa numa categoria nem em outra, ou sentem que são as duas coisas ao mesmo tempo. Dada a variação da humanidade, não me surpreende que isso seja possível. Como tratar essas pessoas? Da forma que quiserem.

A essência da polidez não é seguir regras estanques, mas tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas.

26th of August

Feministas, vamos parar de difamar a psicologia evolutiva?


Leda Cosmides, pesquisadora da área da psicologia evolutiva
De um feminista da área de ciências naturais para feministas com dúvidas ou ideias pré-concebidas sobre a psicologia evolutiva. Publicado antes no meu Facebook.

Feministas, vamos parar de difamar a psicologia evolutiva? Vamos deixar de julgar um programa de pesquisa pelo modo como é retratado na mídia?

Nós bem sabemos que a mídia está mais interessada em Femen e Valerie Solanas do que em pensadoras e movimentos sérios, por que esperaríamos que as notícias do tipo "aponta estudo" seriam retratação justa da área da psicologia evolutiva?

Já notei que muitas pessoas têm, digamos, uma posição de reservas quanto a qualquer coisa que se diga a favor da psicologia evolutiva ou da investigação de bases biológicas que contribuem com recursos alternativos aos recursos culturais para a manifestação dos nossos comportamentos.

Para julgar a psicologia evolutiva de forma justa, no mínimo é preciso ler material original, especialmente de Steven Pinker e Gary Marcus, que são os divulgadores consagrados da área. Não julguem a psicologia evolutiva pela opinião de leigos e blogs (inclusive o meu). Esta é uma atitude nada recomendável, que lembra bastante o modus operandi dos mesmos preconceitos que o feminismo busca combater.

Por muitos anos, com alguma razão, feministas da academia se entrincheiraram na área das humanidades, e lidaram apenas com autores dessas áreas – especialmente antropologia, sociologia, ciência política, estudos feministas, e uma parte da filosofia. Essas áreas, apavoradas com o cientificismo e a miopia social de alguns profissionais das ciências naturais, acabaram gerando uma comunidade minoritária de intelectuais que franzem o cenho à menor referência à investigação científica da natureza humana. Pior, têm náuseas até que alguém ouse usar esse conceito – "natureza humana", como se o ser humano fosse um ser inefável, semi-divino, infinito, incomensurável, sem nada em seu repertório que se repita de uma pessoa para outra ou de uma cultura para outra.

Não foi apenas tentando catalogar algo de diferente, mas também tentando investigar algo de universal, que Margaret Mead partiu para Samoa, fez suas investigações e publicou "Coming of age in Samoa", com argumentos que auxiliaram feministas para apontar que a opressão sexual feminina no ocidente não era algo universal, dado que, argumentou Mead, as meninas eram bem sexualmente resolvidas e passavam pela adolescência tranquilamente em Samoa. Antropólogos que duvidaram dela tentaram fazer o mesmo, achar algo de universal na variação. Talvez seja um erro tentar achar algo de universal na cultura (especialmente com uma amostra tão pequena quanto duas culturas), mas não é um erro tentar achar algo universal no que se convencionou chamar de comportamento, dado fatos incontestes de comportamentos claros e distintos como a capacidade dos bebês de chorar e mamar.

Não vejo por que não podemos dizer que nossa capacidade de chorar e mamar quando somos bebês faz parte da natureza humana, assim como faz parte da natureza humana nossa capacidade de aprender uma cultura, viver nela e transformá-la.

O ser humano é o único grande primata de origem africana que na primeira infância já é capaz de ENSINAR além de aprender.*

Não há mais motivo para se entrincheirar na suposta e simplória dicotomia entre natureza e cultura (nature and nurture), numa época em que estudamos evolução cultural como fazem os antropólogos Boyd e Richerson, sem medo de determinismo biológico, muito menos de determinismo cultural.

Não há motivo para repetir discursos irracionalistas lamentáveis como certos textos da Julia Kristeva em que ela diz que a física dos fluidos não evoluiu tanto quanto a dos sólidos porque fluidos são o arquétipo do feminino e a física é sexista.** Não numa época em que temos a filósofa Susan Haack, que não apenas denuncia o irracionalismo anticiência quanto disseca, expõe e desanca o cientificismo como ele merece.

E por isso tudo, não há razão alguma para simplesmente e preguiçosamente taxar a psicologia evolucionista como sexista, fechando os olhos para suas descobertas, para o debate franco e produtivo dentro dela. Isso também, repito, é preconceito.
A psicologia evolutiva busca estudar comportamentos que têm bases biológicas, especialmente aqueles cujas bases biológicas foram moldadas pela seleção natural. Isso não é novo, a primeira tentativa foi do próprio Darwin em "A expressão das emoções" (1870). Não é à toa que nós sabemos reconhecer sinais de "propensão à agressão" na face de um cão raivoso, e muitos desses são exatamente os mesmos que nós expressamos em momentos de raiva. Cultura nenhuma determinou isso: é uma das marcas indeléveis de nossa ancestralidade animal.

As facetas da natureza humana desvendadas por áreas como genética psiquiátrica, ciências cognitivas e psicologia evolutiva*** podem ser tanto boas quanto ruins. Muitas vezes são forças que agem sobre o mesmíssimo alvo: filhos ou cônjuges, por exemplo. Não há qualquer obrigatoriedade em reconhecer como aceitável ou inevitável algo que é natural: isso seria falácia naturalista. Se, e somente se (e isso ainda não foi estabelecido) o estupro for natural e isso for demonstrado, não significa que também não seja igualmente natural a aversão a ele. Comportamentos devem ser julgados bons ou ruins pelas consequências que trazem ao bem estar de indivíduos, e não por sua naturalidade codificada nos genes ou em programas mentais construídos pela seleção natural.

O feminismo simplesmente não pode ignorar isso. Feminismo trata de pessoas e a igualdade entre elas, nada mais relevante para o feminismo que saber de onde vieram e como são essas pessoas, há quanto tempo estão aqui, e que defeitos de fábrica – ou vantagens de fábrica – elas têm.
_____
* Dean et al. (2012) Identification of the Social and Cognitive Processes Underlying Human Cumulative Culture. Science 335, 1114-1118.
** Sokal & Bricmont (2006) Imposturas Intelectuais.
http://criticanarede.com/imposturas.html
*** A psicologia evolutiva é também comumente chamada de “psicologia evolucionista”.