28th of December

Entrevista à Vice sobre Olavo de Carvalho


Como de praxe no meu blog, publico na íntegra minhas respostas a perguntas de jornalistas, já que o trabalho deles requer usar pouco do que digo em resposta a entrevistas. Publiquei na íntegra, por exemplo, uma entrevista sobre genética do comportamento a O Diário, e outra entrevista à BBC sobre ateísmo. Agora, na íntegra, o que eu disse à Vice sobre Olavo de Carvalho. Usaram muito pouco do que está a seguir na matéria original.

VICE: Entre artigos em jornais e postagens em redes sociais, Olavo de Carvalho já acusou o evolucionismo de ser “o pai do comunismo e do nazismo” e que, ao contrário do criacionismo, “não pode ser provado, nem refutado”. Qual sua opinião a respeito? Qual dessas declarações considera a mais descabida ou sem sentido? Apontaria outra(s)? Qual(is)?

EV: É uma afirmação descabida que denuncia uma confusão fundamental entre questões de fato e julgamentos de valor (que filósofos reais não fazem), e, além disso, é uma tentativa de uso da falácia de culpa por associação para tentar desacreditar uma teoria muito bem embasada em evidências, especialmente hoje, com a genética molecular. Por muitos séculos, os marinheiros sofreram com o escorbuto, que é o resultado de deficiência de vitamina C. Durante todo esse tempo, eles carregaram genes para a produção de vitamina C no próprio corpo, mas um deles, o gene GLO, foi desligado por uma mutação. Todos os primatas antropoides carregam essa mutação, que ocorreu no nosso ancestral em comum milhões de anos atrás, e, por isso, se postos num ambiente pobre em vitamina C como uma caravela portuguesa do século XVI, também sofreriam de escorbuto. Já os cães e gatos não sofreriam, pois produzem a própria vitamina C. Evidências como essa são a razão do domínio inconteste da teoria da evolução sobre todas as ciências biológicas. Darwin jamais leu Marx, apesar de serem contemporâneos, e, como mostrado num livro biográfico chamado “A Causa Sagrada de Darwin” (Desmond & Moore, 2009), Darwin não apenas descendia de dois avós abolicionistas, como era contra o racismo e a escravidão, e portanto também seria contra qualquer outra forma de opressão racial como as premissas do nazismo. Mesmo se Darwin tivesse sido uma má pessoa, isso em nada afetaria a teoria da evolução. Se ele não tivesse nascido, a pessoa famosa por ter proposto a teoria seria Alfred Russell Wallace, co-descobridor independente da seleção natural.

Olavo também já afirmou que Darwin plagiou o próprio avô Erasmus na proposição da teoria, mas Erasmus apenas escreveu um poema chamado Zoonomia em que defendia ideias similares às do francês Lamarck, faltando ali o principal, que era a seleção natural, à qual Darwin chegou como analogia da seleção artificial de pombos, cães e outros animais domesticados. Olavo também escreveu que os biólogos de hoje consideram falsa a seleção natural. Quase sempre que fala de ciência, Olavo não sabe do que está falando. E é algo preocupante para alguém que quer ser reconhecido como filósofo, pois algum contato com a ciência é importante nesse sentido, sendo a ciência uma filha da filosofia.

VICE: Em 2006, o senhor elaborou um abaixo-assinado pela “refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho”. Nele, diz que o colunista “trava uma batalha contra o conhecimento científico, especialmente contra a evolução biológica” e “não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência”. Doze anos depois, o que mudou? A que o senhor atribui o fato de Olavo de Carvalho ser um “negacionista científico”? O que há por trás disso?

EV: Eu tinha 19 anos quando fiz o abaixo-assinado, e hoje me parece uma ideia meio boba fazer um abaixo-assinado pela refutação de erros científicos. O número de assinaturas nada faz pelos argumentos, mas ao menos mostra alguma oposição e protesto pela má escolha de colunista por parte dos jornais. Eu poderia simplesmente ter escrito cartas a esses jornais respondendo às falsidades que Olavo estava divulgando sobre ciência. No entanto, como muitos sabem, produzir bobagens demanda muito menos energia do que refutá-las, e é uma tarefa ingrata sair desmentindo cada falsidade que o professor Olavo emite no mundo. Ainda não sei se ele faz de propósito, provavelmente não, mas deveria aprender a virtude da humildade no campo da ciência.

O professor não é exatamente um “negacionista” da evolução, ele alega que é neutro a respeito da sua veracidade. No entanto, jamais chegou a mim qualquer crítica dele aos criacionistas, o que levanta dúvidas sobre esse suposto agnosticismo. Há ao menos um motivo que explica a desconfiança dele contra a comunidade científica e o mundo acadêmico em geral, que é a prevalência de opiniões de esquerda nesse meio. Segundo uma pesquisa de Mitchell Langbert deste ano, há 21 professores de esquerda na biologia para cada professor de direita nas 51 melhores universidades americanas. Nas humanidades a desproporção é ainda maior, na sociologia é 44 para 1, e zero professores de direita (Republicanos) foram achados na área da comunicação e da antropologia entre mais de 5 mil amostrados. Não creio que a biologia precise refletir a proporção de opiniões políticas da população em geral, mas a quase ausência de discordância política em áreas que formam jornalistas e sociólogos gera um problema sério, pois são áreas mais destacadas das evidências empíricas, em que a popularidade entre os colegas às vezes é o mais importante critério de julgamento da qualidade do trabalho. Olavo tem razão em se preocupar com isso, mas Jonathan Haidt e a organização Heterodox Academy fazem um trabalho melhor que ele em analisar o problema.

Não creio que não haja valor algum na obra dele; algumas coisas que ele afirma sobre uma aprovação de autoridades ao declínio nos padrões de arte e cultura me parecem corretas. Algumas críticas à esquerda que ele faz são pertinentes. Mas, se eu fosse um conservador, eu preferiria mil vezes ler Roger Scruton, Thomas Sowell, John Kekes e Burke a ler o Olavo, pois o ruído de teorias da conspiração, grosserias e ataques à ciência seria muito menor.

VICE: Considerado o mentor intelectual de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho já indicou, até o momento, dois ministros: Ricardo Vélez Rodríguez, da Educação, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Quais as chances de essas e outras teorias pseudocientíficas, como o criacionismo, por exemplo, serem incorporadas, aos poucos, ao currículo escolar ou, quem sabe, influenciar as decisões do futuro presidente? Por quê? 

EV: Intelectuais adoram exagerar a sua importância no mundo. Acho um enorme exagero creditar a Olavo de Carvalho alguma parte importante na eleição de Jair Bolsonaro, ao menos uma parte tão importante quanto as descobertas da Lava Jato e a recessão econômica resultante das péssimas políticas econômicas do PT, por exemplo. Sobre as nomeações, é importante ver caso a caso, se é verdade que o indicado foi indicado por competência. É importante lembrar ao presidente eleito que essa foi a promessa: nomear ministros por competência, e não por alinhamento ideológico. E parece que às vezes ele se esquece da promessa. Na minha opinião, Olavo acertou numa dessas indicações e errou na outra. Então ele geralmente tem a mesma probabilidade de acerto que o lançamento de uma moeda.

6th of November

Na íntegra: falando à BBC sobre ateísmo


A BBC Brasil me entrevistou para uma matéria sobre ateus, e, como é compreensível, pouco do que eu disse ao repórter André Bernardo foi publicado. Como de praxe aqui no meu blog (vide esta entrevista sobre genética do comportamento e esta outra sobre “apropriação cultural”), seguem abaixo as perguntas e minhas respostas na íntegra.

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1. Segundo o Censo de 2010, 0,39% da população brasileira, o que corresponde a cerca de 740 mil pessoas, se declaram ateus ou agnósticos. O senhor diria que, na prática, esse número é bem maior? Por que é tão difícil ser e, principalmente, assumir-se ateu no Brasil?

Sem dúvidas o número é bem maior, especialmente naquelas subculturas brasileiras em que os ateus, especialmente os mais jovens, precisam se esconder de suas famílias e comunidades, com medo de serem postos para fora de casa e ostracizados. Mas eu não esperaria um número exorbitantemente maior, digamos, superior a 10%, pois as condições que levam ao ateísmo orgânico são bem particulares e ainda insuficientes no Brasil. Ateísmo orgânico é como o sociólogo Phil Zuckerman chama a perda de fé de ateus em sociedades em que não houve história de ateísmo forçado pelo Estado. O maior exemplo são os países escandinavos. Há muitos ateus lá porque há uma educação de boa qualidade difundida, e porque as pessoas têm vidas mais confortáveis. Segundo um estudo publicado na revista científica PNAS, há uma relação forte entre a crença em um deus punitivo e poderoso e condições ambientais estressantes, como o deserto. O Javé dos monoteísmos surgiu exatamente nesse contexto, era uma explicação e um consolo diante de uma natureza inclemente para os povos do oriente médio.

2. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, realizada em 2008, mostrou que 17% dos brasileiros odeiam os ateus, 25% têm antipatia e 29% são indiferentes. A que o senhor atribui isso? Teria alguma explicação?

Isso vem diretamente da insistência da maior parte dos religiosos, em especial cristãos, em ensinar que não há uma vida moral sem Deus, o que é uma posição cuja fraqueza já havia sido apontada por Sócrates no diálogo Êutifron. Insistir nela, portanto, é ensinar apenas parte do cânone cultural ocidental. O apresentador de TV Datena disse que os ateus que estavam ligando para o programa dele para responder a uma enquete sobre a existência de Deus estavam ligando dos presídios. Acabou tendo de pagar indenização a um ateu que se sentiu caluniado. A insinuação de que os ateus não têm norte moral é constante nas igrejas cristãs, e talvez é uma ideia difícil de largar porque faz parte do que atrai seguidores. Ninguém quer ser má pessoa, então alegar que seu produto principal de venda é a bondade em pessoa é uma boa estratégia, especialmente se essa fabricação publicitária é ensinada a crianças sem capacidades críticas de questioná-la, por incontáveis gerações. O problema dessa ideia é que ela é falsa. Quem hoje trabalha profissionalmente com a vanguarda do pensamento ético, que são os filósofos eticistas, geralmente nem acredita em Deus. É o caso do filósofo Peter Singer, que praticamente fundou o movimento pelos direitos dos animais, para diminuir a tortura e o sofrimento a que os submetemos. É verdade que há ateus antiéticos, mas a maioria dos ateus é gente bem educada e preocupada em fazer a coisa certa, por vários motivos, incluindo o respeito a si mesmo. Ademais, fazer a coisa certa com intenção de ganhar recompensas após a morte é algo que parece interesseiro. As pessoas buscam fazer a coisa certa por motivos desvinculados de suas crenças religiosas ou irreligiosas: a moralidade é indispensável na vida e eu duvido que qualquer pessoa consiga viver sem ocasionalmente ser insultada pelo que é errado ou ficar desejosa do que é certo. Qualquer ser pensante precisa lidar com noções de certo e errado, assim como precisa lidar com noções de verdadeiro e falso. Não é preciso procurar muito para achar pessoas que são exemplos de vida ética e não acreditam em Deus, assim como é fácil achar o mesmo entre os religiosos.

3. Há relatos de ateus e agnósticos que, aqui ou lá fora, chegaram a sofrer perseguição. Você já foi vítima de preconceito ou discriminação por assumir publicamente que não acredita em Deus?

Não teria caso claro em que fui discriminado por ser ateu – até porque quem quer discriminar faz isso facilmente sem ser notado, por exemplo me negando oportunidades e oferecendo a quem acredita em Deus. Desconfio que já aconteceu, mas é impossível provar. Eu criei uma paródia da famosa formiga evangélica “Smilingüido”, porque sempre achei meio desonesto mostrar para as crianças apenas as partes bonitas e com mensagens corretas da Bíblia, escondendo as partes ultrajantes e horrendas. Criei uma paródia e chamei de “Smilinguarudo“, que é uma formiga linguaruda porque mostra justamente as partes difíceis de justificar, como quando Deus, protegendo os sentimentos feridos do profeta Eliseu, mandou duas ursas para matar e esquartejar mais de quarenta moleques que o tinham chamado de “careca”. A melhor interpretação que conseguiram me dar disso é que a tradução é inexata e que não eram moleques, eram homens adultos insultando Eliseu. Quer dizer então que se foram homens adultos, Deus está correto em pagar insultos verbais com esquartejamento por ursas? E por que eram ursas fêmeas? Eu desenhei essa cena e publiquei no Facebook. A editora responsável pelo personagem parodiado prometeu me processar. Em resposta, eu me limitei a dizer que minha paródia é protegida por Deus e pelo artigo 47 da lei nº 9.610/1998, que protege as paródias. Não digo que esse caso foi de discriminação por eu ser ateu, mas ilustra bem o quanto a crítica incomoda quando mensagens supostamente sagradas se mostram estranhas, imorais e malucas.

4. Há quem chega ao cúmulo de pensar que, por não acreditarem em Deus, os não crentes são menos confiáveis e solidários que os crentes. O que você pensa disso? De onde vem essa distorção?

Vem de ignorância sobre ética, de não pensar detidamente com rigor no que se está falando. O diálogo de Sócrates com Êutifron terminou num dilema: ou nós sabemos o que é certo e errado porque temos capacidade de detectá-lo por nós mesmos, e os deuses também têm essa capacidade e por isso nos recomendam usá-la, ou dependemos dos deuses para apontar o que é certo e errado, botando a autoridade dos deuses na frente da nossa capacidade de raciocinar eticamente. Se o mal no mundo é uma doença e o remédio são as boas ações éticas, as boas ações éticas são boas por suas propriedades intrínsecas, e não porque eventualmente foram comandadas por alguém, ainda que este alguém seja onipotente, onisciente e onipresente. Esta me parece ser a solução ótima para o dilema de Êutifron. A alternativa, que é depender da autoridade de Deus, só adia o problema de entender o que é certo e errado, e além disso nos bota numa posição subserviente e infantilizadora. Muito mais interessante que girar em círculos em torno da autoridade de Deus sobre a moralidade é ouvir os filósofos sobre objetividade e subjetividade na ética, sobre meta-ética. É um campo em que o progresso é possível se arregaçarmos as mangas e deixarmos de lado a autoridade de Deus. Prova disso é que nossa cultura mudou de ideia sobre a permissibilidade da escravidão, e não é possível alegar que a religião foi protagonista dessa mudança, porque a Bíblia autoriza a escravidão em várias passagens, em ambos os testamentos.

5. Já houve algumas campanhas ateístas no Brasil, certo? “A fé não dá respostas. Só impede perguntas” é uma delas. O que pode ser feito para combater a ojeriza contra ateus e agnósticos?

Não achei essas campanhas efetivas porque se valiam de slogans que, como qualquer frase de efeito, são cheios de furos. Sabe quem mostraria que sua fé o levou a várias perguntas e respostas, refutando essa frase? Isaac Newton, que fez ciência só até por volta dos 30 anos e depois só cuidou de teologia. Também não gosto do tom inflamatório, embora eu aprecie um pouco de sarcasmo. Para obter mais tolerância, creio os ateus têm muito a aprender com os gays. Embora para muita gente ainda seja difícil lidar com gays e lésbicas fazendo carícias públicas, até quem tem ojeriza contra eles costuma reconhecer que eles estão dentro de sua liberdade num país laico. Em Bangladesh, recentemente, blogueiros ateus começaram a ser assassinados a machadadas e facadas. Já foram dez mortes de ateus e secularistas desde 2013 só nesse país. O mesmo tratamento que o Estado Islâmico dispensa a gays ele dispensa também a ateus, com diferença somente na forma de execução. A maioria dos religiosos, dos muçulmanos aos católicos, desaprova essas intolerâncias extremadas. Mas será que alguns não praticam formas mais brandas de intolerância? Uma intolerância não deixa de ser intolerância porque não mata ninguém. Pintar todos os ateus como gente imoral ou perdida no niilismo é algo desonesto pois há inúmeros exemplos do contrário para qualquer um que quiser honestamente procurar. Alguns vão alegar que ateus dizem que todo religioso é burro e intelectualmente preguiçoso, mas eu sei que isso não é verdade e até já li teologia do Alvin Plantinga, que é melhor defendida racionalmente que o ateísmo de muitos ateus. É claro que eu, ateu, acredito que estou certo e darei argumentos defendendo meu ateísmo, e considero irracional quem nem tenta defender sua crença diante de críticas e acha até errado que alguém queira criticar. Cada um dá uma desculpa diferente para ter fé, e é incrível como muitos religiosos parecem ter desistido de argumentar racionalmente pela fé nos tempos modernos, quando Tomás de Aquino, por exemplo, acreditava que poderia firmar a existência de Deus e todo o cristianismo em premissas inquestionáveis. Talvez foi porque ele falhou que hoje se recorre tanto ao subjetivismo e ao relativismo para defender a fé? Debates à parte, creio que ateus têm parte da responsabilidade por sua difamação, quando se acovardam de se afirmar e dizer o que pensam em público. É bom para todos nós de todas as fés ou faltas de fé que a sociedade seja plural e nenhuma discordância seja varrida para debaixo do tapete só porque algumas pessoas são incompetentes para discordar sem exaltar os ânimos ou querer punir os discordantes. O Estado Islâmico é um lugar chato e opressivo onde todo mundo pensa igual (ou age como se pensasse). Deve servir de exemplo para sociedades como a brasileira serem o exato oposto: um lugar em que as pessoas são livres para não acreditar em Deus, para expressarem seus pontos de vista (e até se ridicularizarem). A liberdade de expressão é uma boa ideia porque difunde as ideias corretas e também as erradas, nos forçando a defender as primeiras e mostrar por que duvidamos das últimas. Tratar as ideias corretas como dogmas inquestionáveis levanta dúvidas sobre sua correção, pois o que precisa desse tipo de proteção são ideias frágeis diante da crítica. E tratar as ideias erradas como tabus imencionáveis levanta dúvidas sobre nossa real capacidade de mostrar que essas ideias são de fato erradas. Religiosos acreditam que o ateísmo é falso? Então não têm por que vilipendiar os ateus: se o ateísmo for falso, ele se dissolverá diante da luz da verdade no debate aberto, franco, rigoroso e democrático. O mesmo vale para a religião. Quem confia em sua posição defenderá as liberdades individuais de todos.

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13th of February

Um ano da ‘resposta de geneticista a Silas Malafaia’: uma entrevista


Fez um ano que publiquei a resposta ao Silas Malafaia. Eu cheguei a receber o convite de uma produtora do programa da Gabi sobre dar uma entrevista, ela disse que a Gabi gostou do meu vídeo. Depois retirou o convite, disse que a Gabi pensava que era melhor deixar o assunto morrer do que insistir nele me convidando para o programa. Acho que não é problema contar isso um ano depois. Eu não achei ruim que o convite inicial foi retirado. Defendo muita coisa que arrepia os pudores da maioria dos brasileiros, não sou conhecido, e me ter no programa dela seria um risco para ela – especialmente por depender de audiência.
Uma ironia: Silas Malafaia espalhou por muitas mídias que a nota da Sociedade Brasileira de Genética explicitamente em apoio aos meus argumentos na verdade concordava com ele. Ocorre que aquela nota foi 90% escrita por mim. Começou como uma carta aberta que mandei a vários geneticistas de renome, e quando a SBG resolveu fazer sua própria nota oficial, contactou especialistas em genética do comportamento humano, e esses especialistas me contactaram.
13th of January

Observações sobre a genética do comportamento – entrevista completa a’O Diário


Publicaram ontem n’O Diário, de Maringá, uma entrevista minha sobre genética do comportamento, que pode ser lida aqui. O risco desse tipo de entrevista é que, no processo de edição, muitas vezes se perdem informações que o entrevistado considera importantes. Por isso, peço licença à Ana Verzola e seu editor, autores das perguntas, para publicar as respostas completas aqui. Fiquei contente com a qualidade da edição, mas não estaria fazendo meu trabalho bem se eu não reclamasse do subtítulo e do resumo que escolheram.
Ao contrário do sugerido, eu não garanto que “a maior influência vem [sempre] do ambiente”, nem que conhecimento nunca vem do DNA.
Eu não posso garantir que “a maior influência vem do ambiente” porque isso depende do fenótipo comportamental sob análise. Para uns comportamentos pode ser verdade, mas para outros não será. Eu não acho, por exemplo, que os fatores ambientais sejam preponderantes na determinação do choro dos bebês, afinal, podemos dizer que a esmagadora maioria dos bebês humanos chora, independentemente da cultura em que estão. Se o ambiente é preponderante (e posso estar errado quando a achar que não é), só poderia ser então um ambiente tão compartilhado pelos bebês quanto sua intimidade genética.
Minha objeção ao subtítulo é que eu afirmei que conhecimento não vem do DNA no contexto específico de uma resposta sobre conhecimento político. Mesmo que a grande maioria do que se chama de conhecimento tenha conteúdo puramente cultural (informação aprendida), existem alguns conhecimentos que são a priori, e entre esses pode haver alguns que vêm, sim, ao menos em parte “do DNA”. Enfim, esses são os preciosismos que eu não conseguiria dormir sem elaborar. A entrevista completa está abaixo.
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OD: O que caracteriza a genética do comportamento?

EV: A genética do comportamento pode ser vista como uma aplicação da genética de características multifatoriais ou complexas a um assunto específico que é o comportamento. Definir comportamento pode ser um pouco anti-intuitivo para alguns, porque o que profissionais da área consideram comportamentos nem sempre é o que se vê popularmente como tal. O choro de um bebê, por exemplo, é considerado um comportamento. Também o ato de sucção no peito da mãe na hora da amamentação. Muitos movimentos musculares podem ser comportamentos, mas não se pode sinonimizar comportamentos a movimentos musculares sempre: reflexos como o da rótula, quando um médico bate um martelinho no joelho do paciente, raramente são vistos como comportamentos.

OD: A genética do comportamento é, em termos, um assunto bastante recente. O que as pesquisas já avançaram nessa área?

EV: Não sou especialista, apenas trabalhei com genes associados ao comportamento humano no mestrado. Mas pelas minhas leituras, creio que a atual maior contribuição dos geneticistas do comportamento é ao debate conceitual sobre as origens do comportamento humano. Juntaram evidências suficientes de que na maior parte dos assuntos comportamentais, genética não pode ser ignorada. Nós não somos tábulas rasas, folhas em branco sobre as quais o ambiente e a cultura escrevem, mas também não somos autômatos escravos da determinação genética – não se encontram facilmente comportamentos, ao menos fenótipos típicos dignos do nome, em que tudo é determinado por um único gene. O que parece estar mais próximo da verdade é que uma rede de genes atua em cada comportamento, cada um com um efeito de pequeno a moderado sobre propensões comportamentais. Assim como um bolo é mais que a soma de seus ingredientes, porque precisa do ambiente de um forno para crescer, os comportamentos não devem ser vistos como um resultado inevitável de uma receita genética. Para dar um exemplo específico, foram encontradas algumas variantes da enzima monoamina oxidase A (MAO-A) associadas a comportamento anti-social, porém, as evidências sugerem que muitas pessoas só manifestam essa propensão genética num ambiente abusivo. Isso também pode ser verdade para alelos que predisponham pessoas à psicopatia.

OD: Muito se fala de fatores hereditários no campo de psicopatologias que podem influenciar no comportamento das gerações futuras. Isso realmente pode se confirmar?

EV: O transtorno psiquiátrico com o maior valor de herdabilidade (uma medida da participação dos genes na herança de uma característica) já encontrado é o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Isso significa que se você tem TDAH, a chance de o transtorno aparecer nos seus filhos é maior do que se você tiver um outro transtorno psiquiátrico qualquer. Não é uma sentença: é uma probabilidade. Saber desse tipo de coisa é importante porque te deixa informado sobre que tipo de educação deve dar a seus filhos, e não puni-los por coisas que podem não estar sob o controle consciente deles. 

OD: No caso da dependência do álcool ou drogas mais pesadas, há uma chance maior de que os descendentes de usuários estejam mais sujeitos a desenvolver esses vícios?

EV: Há um grupo de pesquisa em genética psiquiátrica na UFRGS dedicado a estudar a genética da drogadição. A maior parte da pesquisa desenvolvida ali, e creio que no resto do mundo, está passando de um estágio inicial de procurar por “genes candidatos” cujas variantes poderiam hipoteticamente estar associadas ao alcoolismo ou tabagismo, para um próximo estágio em que variações no genoma completo e nos genes que interagem com os genes candidatos são levadas em consideração. Alguns resultados positivos mostram um papel do sistema cerebral de sinapses baseadas em dopamina, o que é bem interessante, pois é um neurotransmissor que atua no dito “mecanismo de recompensa” cerebral, importante na sensação de prazer. Se um indivíduo é dotado de variantes que o fazem propenso a se viciar a certa substância, novamente este comportamento se manifestar nos seus descendentes dependerá do contato e da cultura que há ao redor dessa substância. É preciso lembrar que você herda 50% dos genes do pai, e 50% da mãe. Somente na herança de características de padrão de herança mendeliano dominante todos os filhos apresentam a característica de um dos pais, e esse tipo de característica é muito rara, geralmente patológica, e virtualmente a totalidade dos comportamentos não seguem padrões mendelianos de herança (dependentes de relações de dominância e recessividade entre dois alelos de um gene).

OD: O que o meio cultural vivenciado pode desencadear no indivíduo? Se retiramos uma pessoa de determinado ambiente ainda criança, é possível resgatá-la de um meio prejudicial – no caso de famílias violentas, negligência materna, entre outros fatores – ou em algum momento da vida ela poderá reproduzir aquele comportamento?

EV: Como descoberto para o caso do gene da MAO-A, certas propensões só se manifestam diante de gatilhos ambientais, então no caso de uma criança portadora de alelos associados à propensão à agressividade, o ambiente familiar faz toda a diferença. A cultura nos influencia profundamente. Há experimentos comparando, por exemplo, americanos do norte e do sul, mostrando diferenças até fisiológicas na resposta a ser insultado ou desafiado, por exemplo, que são respostas rápidas, inconscientes, e de fundo predominantemente cultural. Há uma obra famosa da literatura britânica, de Charles Dickens, que conta a história de um menino chamado Oliver Twist, um órfão que, apesar de crescer num ambiente social decrépito, desenvolve virtudes notáveis. Não se pode atribuir o sucesso de Oliver à sua genética, ou apenas a ela. Indivíduos podem decidir usar de violência como protesto, por exemplo, por viver numa situação de desigualdade social. Genes são recursos, e não mestres, do comportamento, especialmente o não-patológico (e definitivamente não se deve patologizar toda forma de violência).

OD: Uma pesquisa feita na Universidade de Louisiana envolvendo 742 voluntários que foram submetidos por cinco meses a um programa de exercícios mostrou que algumas pessoas tiveram uma melhora no condicionamento físico em até 40% a mais que os outros participantes – nenhuma das pessoas envolvidas no estudo praticava regularmente atividade física. Esse desempenho tem relação com a genética do comportamento?

EV: Não necessariamente. Isso pode ter mais a ver com variantes genéticas relacionadas ao metabolismo. As pessoas variam quanto à capacidade de ganhar massa muscular, massa adiposa, quanto ao uso de calorias. Num ambiente de carestia, quem tem metabolismo lento e queima poucas calorias por dia tem clara vantagem sobre quem tem um perfil mais atlético e ativo. Numa situação de opulência, os primeiros têm mais chances de obesidade que os últimos. Essa variação pode ser meramente de genética do metabolismo. No entanto, certos comportamentos, como o comportamento de comer mais ou menos, ceder mais ou menos à tentação dos sabores calóricos, também podem influenciar. Há poucos estudos sobre esses comportamentos na genética, mas é possível afirmar que alguns casos de obesidade são altamente influenciados pelas variantes genéticas associadas aos comportamentos em torno dos hábitos de comer.

OD: Alguns representantes religiosos – como Silas Malafaia e Feliciano – abusaram em seus discursos de justificativas “genéticas”, como você mesmo rebateu no vídeo e em uma entrevista. Malafaia disse que não há correlação da homossexualidade com o gene e Feliciano, por outro lado, disse que a violência era ainda ligada ao “gene africano”. Há uma predisposição genética para o comportamento preconceituoso?

EV: Boa pergunta! Vou aproveitar a oportunidade de demonstrar humildade científica e dizer que eu não sei, mas gostaria muito de saber. Às vezes, um comportamento é complicado demais para se delimitar numa análise de associação a variantes genéticas, então ele é quebrado em partes chamadas “endofenótipos”, que seriam mais sujeitos à influência genética. Uma revisão dos cientistas Peter Hatemi e Rose McDermott, de 2012, sugere que há alguns endofenótipos em comportamentos políticos que podem estar sob moderada influência genética. O endofenótipo mais influenciado geneticamente, cuja variação pode ser 60% da responsabilidade de genes, chamaram de “conhecimento político / sofisticação”. Se esses dois pastores tiveram azar na loteria genética relacionada a isso, nada impede que estudem um pouco mais tanto sobre política quanto sobre genética para deixar de dizer bobagem em público. Afinal, se a curiosidade por conhecimento político tem algo de genético, o conhecimento político em si é feito de livros e não de DNA.

OD: Durante as manifestações que tomaram as ruas do Brasil no ano passado, pequenos grupos tiveram comportamentos antissociais praticando atos de vandalismo, violência, entre outras ações prejudiciais à comunidade mas defendidas do ponto de vista ideológico daqueles participantes. A razão pelo qual essas pessoas agiram dessa forma era motivada somente por um impulso dito político?

EV: Na mesma revisão de Hatemi e McDermott, apontam como moderadamente influenciado pelos genes o comportamento político de “atitudes autoritárias”. Porém, apontam como muito pouco influenciado pelos genes o comportamento de “senso de dever cívico”, portanto o último é possivelmente mais moldável pela educação. Talvez se o senso de dever cívico fosse algo mais presente na formação dos policiais que as atitudes militaristas de lidar com “inimigos”, não teríamos observado aquele show de horrores. O mesmo vale para a menos importante violência dos ditos “vândalos”. Não se deve botar a culpa na genética pelo autoritarismo, pois para uma pessoa propensa a defender autoritarismo manifestar isso é preciso também o ingrediente da ignorância. Sou a favor de uma polícia desmilitarizada e menos ignorante – em ambos os sentidos que se costuma usar de ignorante (bruto e desinformado).

OD: Em uma sociedade ainda regida pelo patriarcado, além de algo enraizado e implícito na nossa cultura, existe alguma outra explicação para uma postura machista e de superioridade perante as mulheres?

EV: Homens e mulheres cis (ou seja, que se identificam com o gênero com o qual são rotulados ao nascer, ao contrário de homens e mulheres trans, e pessoas que não se sentem contempladas nessa dicotomia) têm algumas diferenças comportamentais, especialmente quanto à propensão à violência física. Mas não acredito em botar a culpa na testosterona e seus receptores e fatores de transcrição associados pelo machismo. O machismo não é uma sentença genética, é um sexismo que nasce da ignorância e da falta de reflexão ética sobre a humanidade compartilhada pelas pessoas independentemente de suas identidades de gênero. Como no caso citado acima sobre atitudes autoritárias, se houve propensão genética a certas atitudes e “endofenótipos” frequentemente associados ao machismo, isso não significa que outros comportamentos que atuem como remédio não possam ser estimulados pela cultura e pela educação.

OD: Como a genética do comportamento explica a predisposição de algumas pessoas em praticar, por exemplo, esportes radicais?

EV: As pessoas podem variar quanto a (1) alelos que influenciem na resposta ao ácido lático – mais dor ou menos dor após exercícios intensos – neste caso pode ser que a influência sobre o comportamento seja indireta, que a base genética seja puramente associada ao metabolismo, e esse metabolismo aja como um ‘condicionador’ sobre a resposta de prazer ou dor ao exercício; (2) alelos relacionados à resposta prazerosa ou desprazerosa a situações de perigo e descargas de adrenalina e noradrenalina. O papel da noradrenalina no sistema de recompensa cerebral (prazer) já foi indicado por evidências e há até sugestões de que esse sistema seja usado no tratamento de vícios químicos. Eu não diria que “praticar esportes radicais” seja algo com influência particularmente predominante dos genes (basta pensar em quantas inovações culturais foram necessárias para este hábito aparecer), mas pode conter “endofenótipos” mais claramente influenciados por genes.

OD: Algumas pesquisas mostram que praticantes de esportes radicais se expõe a um determinado risco pois a sensação da recompensa supera o medo. Isso é um fator genético ou está associado ao meio?

EV: Os métodos da genética do comportamento são populacionais. É muito difícil hoje em dia tomar casos individuais e atribuir a uma coisa ou outra. Meu palpite é que a melhor hipótese sempre será um balanço entre as duas coisas. Até porque as duas coisas (genes e ambiente) não são dois pólos opostos, mas dois rótulos simplificadores para a complexidade da realidade. O ambiente de um feto pode ser a genética da mãe. Hoje sabemos que nossa genética como populações e espécie foi mudada pela pressão seletiva de hábitos alimentares como o consumo de leite e amido. Crianças são geneticamente propensas ao aprendizado (especialmente da língua) e ao ensinamento da cultura logo nos primeiros anos de vida. Somos seres biologicamente moldados para a cultura e culturalmente moldados em nossa biologia.

OD: Que tipos de comportamento estão associados a fatores genéticos? O ditado filho de peixe peixinho é pode ser traduzido para filho de chato chatinho é?

EV: É difícil encontrar um comportamento que se possa dizer que é completamente isento de influência genética. O celibato poderia ser um deles, por razões óbvias. Mas eu poderia dizer que as pessoas variam, hipoteticamente, quanto à sua propensão genética de resistir à tentação de fazer sexo, então um celibatário de sucesso poderia estar negando uma contribuição genética que está ali. Quanto a ser “chato”, não me parece nem um pouco claro o conceito do que é ser “chato”: a chatice de um é a diversão de outro.

OD: A genética, de forma geral, tem evoluído muito, atingindo um nível de conhecimento até pouco impensável? Até onde a genética pode chegar?

EV: Não é possível mais uma única mente humana abrigar hoje o volume de conhecimento já produzido pela genética. Dificilmente o que já foi produzido em genética do comportamento, que só tende a crescer conforme as técnicas de associação a variantes moleculares e de “peneiragem” dos fenótipos e endofenótipos vão evoluindo. A genética, como toda ciência madura, é um edifício construído e mantido coletivamente. E por ser um empreendimento de humanos que pode ser sobre humanos, não pode estar ausente de discussões sobre ética. Os limites tecnológicos e os limites éticos decidirão onde a genética pode chegar. Porque “poder” tem dois sentidos: ser capaz de fazer, e ser capaz de arcar com as consequências em fazer.
17th of November

Entrevista comigo para o blog Grito na Janela


Momento egotrip: há três meses minha amiga Renata Escobar, do blog Grito na Janela, me entrevistou. Eis a íntegra da entrevista abaixo. guarujaEli Vieira é biólogo formado pela UnB, mestrando em genética e biologia molecular pela UFRGS, presidente da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), criador do Evolucionismo.org, editor do Bule Voador e autor de alguns blogs pessoais. E ele tem apenas 23 anos. Eli, como surgiu o seu interesse pela biologia e, especialmente, por Evolução? Um primo mais velho me contou há alguns meses que, certa vez, quando eu era bebê, ele foi visitar meus pais com a família e guardou na memória algo engraçado sobre mim. Eu estava, segundo ele, engatinhando pelo chão da cozinha, quando de repente parei e comecei a observar uma formiga que passava. Ele se distraía, mas sempre que olhava pra mim lá estava eu com minhas fraldas, ainda acompanhando a jornada da formiga atentamente, só observando-a por minutos a fio. Brincar com formigas, plantas, cachorros e gatos foi uma constante na minha infância. Era uma cidade bem pequena, Lagamar (MG), e ainda é. A casa tinha um quintal amplo, um pessegueiro ao lado de um muro onde eu e minhas irmãs sentávamos para comer pêssego com sal, sibipirunas enormes em que a gente subia, goiabeiras, limoeiros, pés de mexerica, hortaliças, etc. Havia um córrego bem próximo de casa, meio poluído com esgoto doméstico, em que minhas irmãs e eu fazíamos jornadas com os amiguinhos da vizinhança para as partes despoluídas e brincávamos de pescar piabas com peneiras grandes. Botávamos as piabas num aquário, mas elas sempre morriam por falta de oxigênio. Eu andava com meus amigos pelas ruas da cidade, tinha muito verde na escola e na praça, e no fim do ano caçávamos cigarras. Também frequentávamos a fazenda e ríamos dos nossos primos de Brasília que confundiam cana com bambu e jabuticaba com amora. Na fazenda eu vi siriemas, araras, anus brancos e pretos, ouvi o canto de um pássaro misterioso que lembra a campainha de um telefone, vi micos e quatis, comi gabiroba, pequi e angá, tomei leite recém-tirado da vaca, e inclusive testemunhei o ritual do preparo da famosa pamonha, e todo o procedimento de abate e preparo de animais para consumo da carne e de outros derivados como o sabão de banha, que também tem todo um ritual para ser preparado – pequenas amostras de um jeito antigo de viver que está sumindo. Meu pai, pecuarista e funcionário do Banco do Brasil, descendente de uma dinastia de fazendeiros que plantavam até o algodão de suas próprias roupas, sempre tentou me passar um pouco do conhecimento popular sobre a fauna e a flora do Cerrado, e incentivou minha escolha de carreira. Minha mãe, cantora de talento, religiosa e politicamente engajada, sobrinha e filha de uma série de velhinhos (descendentes de índios e escravos) que tinham sempre uma erva para todo mal que nos afligia, é uma exímia cozinheira mineira – o que também demanda conhecimentos populares de biologia – e também sempre apoiou minhas decisões. Por isso tudo, tenho uma certa experiência empírica com a mãe natureza como ela se manifesta na savana central do Brasil. É esta a base afetiva da minha escolha pela biologia. Considero esta base afetiva extremamente importante – hoje mexo com moléculas e programas de computador, mas tenho sempre em mente o espanto daquele bebê que eu fui, observando o mistério daquele serzinho preto fazendo uma odisseia pelo azulejo da cozinha. Houve também a presença dos livros e da TV, que me deram a base racional para fazer esta escolha de carreira. Eu gostava das fábulas de Esopo, mas também adorava folhear as enciclopédias (saudosas nestes tempos de internet). Ir à biblioteca à tarde era um programa de diversão. Quando criança eu lia bastante os quadrinhos da Turma da Mônica, meus vizinhos adoram contar uma anedota sobre eu ter sumido até me encontrarem atrás de uma porta lendo os quadrinhos. Lembro-me de ter lido também algumas revistas de divulgação como a Ciência Hoje e de ter me maravilhado com o livro didático de biologia de Amabis e Martho. Eu gostava de vários programas da TV Cultura, como o “Olho Vivo” e o “Gato Zap”, que mostravam documentários curtos sobre a natureza. Quando entrei na internet pela primeira vez (acho que foi no ano 2000), o primeiro site que visitei foi o da TV Cultura. Também assistia aos programas infantis famosos dos canais maiores (embora nunca tenha achado graça no falatório interminável da Xuxa, da Angélica e da Mara Maravilha) – mas o conteúdo que eles dão para as crianças é como doce: gostoso, porém pouco nutritivo. Foi o sinal fraco, intermitente e frequentemente interrompido da TV Cultura, além de breves menções à pesquisa científica nos telejornais dos outros canais, que tiveram peso nas tantas horas que passei vendo televisão. O resultado foi que por volta dos 8 anos eu já afirmava com convicção que queria ser “cientista”. Poderia não ter muita ideia do que isso significava, mas era algo como alguém que desvendava mistérios e encontrava soluções, cujo trabalho era comentado depois na TV. Meu interesse por evolução começou na quinta série do ensino fundamental, numa escola pública de Patos de Minas, para onde nos mudamos no ano anterior. Uma professora iluminada chamada Dona Cidinha nos ensinou tudo o que já poderíamos aprender de classificação lineana e introduziu a teoria da evolução. Não lembro como ela fez, mas lembro ter visto desenhos dos tentilhões de Darwin num livro e ter pensado no assunto repetidamente durante o recreio. Tudo o que ela precisava era de giz para desenhar no quadro negro e a nossa atenção no que ela tinha para dizer – depois que ela contou sobre a lombriga solitária que ela mesma expeliu, nunca mais me esqueci da Taenia solium. Então, sem mais delongas, creio que dá para achar já na minha infância razões pelas quais a biologia seria a melhor das ciências para o garoto quietinho e tímido que dizia que queria ser cientista. Ao longo da sua vida acadêmica, alguma vez você teve dúvida das suas escolhas profissionais? Poucas. Antes do vestibular, mas bem antes, considerei a possibilidade de fazer física. Quando passei para biologia, ainda pensava em fazer física depois e ter os dois diplomas. Agora acho inviável me formar em física – vontade não falta, mas a vida é curta, e fazer outra graduação seria perda de tempo quando posso estudar os assuntos de física que me interessam sozinho. Há quem tenha talento suficiente para ser biólogo e físico ao mesmo tempo, mas este alguém não sou eu. Entretanto, essas separações definidas entre disciplinas são um tanto ilusórias. Biólogos usam técnicas, teorias e conceitos da física corriqueiramente. Quanto à evolução, meus veteranos de biologia na UnB me conheciam como o calouro que queria fazer estágio em evolução no primeiro semestre. Consegui entrar para o Laboratório de Biologia Evolutiva, mas foi no terceiro semestre, e fiquei lá até o fim da graduação. Trabalhei com as ótimas professoras Rosana Tidon e Nilda Diniz. Também estagiei por um ano no Laboratório de Neurociências e Comportamento, com o professor Valdir Filgueiras Pessoa, que admiro muito. Meu projeto hoje é em evolução molecular, que estou tentando juntar com genética do comportamento. Não deixa de ser um projeto interdisciplinar e uma sequela dos interesses que manifestei nos estágios durante a graduação. Dúvidas e dificuldades eu tive e tenho muitas, mas acho que estou seguindo uma linha bem definida. Não tenho grandes crises existenciais sobre o que pretendo fazer na carreira, ao menos nas generalidades. Você já se tornou conhecido no meio dos blogueiros-cientistas e aproveita, como poucos, os recursos da internet oferecidos para divulgação do conhecimento. Qual o retorno por seu enorme investimento de tempo e trabalho? Tive um retorno acadêmico com o Evolucionismo.org, porque o incluí como resultado no meu terceiro projeto de iniciação científica. Mas isso foi na graduação. Agora é um projeto voluntário e pessoal, tanto meu quanto do Rodrigo Véras. Ganho apenas a satisfação de pensar que curiosos como eu têm mais uma fonte de informação para se deliciar – mais um “Gato Zap” para quem quiser ver. A história da nossa origem e nossa humilde posição na árvore da vida é uma história impressionante, detesto pensar que exista alguém procurando saber mais sobre evolução biológica no Google e se depare apenas com a torcida do contra, dos dogmáticos anticientíficos como os fundamentalistas da Lepanto e da Montfort. Era assim para as buscas da palavra-chave “evolucionismo” em 2008 e começo de 2009, antes de eu criar o blog. Agora, felizmente, o termo foi resgatado na internet por mim no Evolucionismo.org e por outros que têm contato com a produção científica do conhecimento em suas fontes primárias, como o pessoal do ScienceBlogs.com.br e da rede ResearchBlogging.org . Outro ganho que eu tenho é menos nobre, desfruto do prazer sádico, do schadenfreude, de pensar em todos os criacionistas que sapateiam para ignorar o conteúdo do meu blog e o consenso científico em torno do fato de que nós e as outras milhões de espécies de seres vivos deste planeta viemos de um processo natural de descendência com modificação. Não prometo optar pela via politicamente correta quando se trata de expor a nudez dos mentirosos e desonestos de plantão. Adauto Lourenço e Enézio de Almeida não me deixariam tergiversar nesta questão – o primeiro é mentiroso, o segundo é desonesto, como já mostrei por aí. Além da biologia, Eli Vieira também se interessa por filosofia e humanismo secular. Como leitora dos blogs e sites em que participa, sei de suas opiniões sobre religião, criacionismo, laicismo e ateísmo. Eli, você “sofre” ou percebe algum tipo de preconceito ou descaso das pessoas com quem convive por suas opinões e posicionamento diante de tais assuntos? Dentro de universidades nunca fui discriminado por isso. Para perceber o grande preconceito que existe na população brasileira contra descrentes como eu, preciso sintonizar no programa do Datena ou ler as pesquisas de opinião. Sei que nem todos os ateus desfrutam do ambiente privilegiado de uma boa universidade federal, em que não importa sua opinião sobre religião, mas apenas sua capacidade de desenvolver um trabalho intelectual. Já ouvi casos de discriminação contra ateus em entrevista de emprego e até em violência num bar. No máximo um ou outro colega estranha meu engajamento na Liga Humanista Secular do Brasil e no Bule Voador. Mas basta lembrar à pessoa que existe a bancada evangélica, que a Igreja Católica acobertou a pedofilia e que a Record pertence à Igreja Universal que ela logo percebe a necessidade dos ateus se firmarem como grupo político. Não é segredo para ninguém que eu acredito mais na humanidade do que no tão conjurado fantasmão amorfo requentado do panteão dos cananeus pelos hebreus da idade do bronze, que é a entidade central das mitologias cristã, judaica e muçulmana. Acredito mais na humanidade porque percebi que todos os valores que aprendi com minha família e meus amigos independem completamente de existir um deus ou não, ainda que eles acreditem no contrário. Quem duvida disso que me diga: que frase moralmente aceitável não poderia ser dita por um ateu? Um ateu pode dizer “eu amo as pessoas”, pode dizer “eu odeio quem maltrata as crianças” e pode dizer “quero que a fome e a violência sejam banidas deste país”. Nenhuma frase moralmente aceitável com implicações práticas precisa assumir que Deus existe. Logo, a moral depende apenas de nós, é uma linguagem que entendemos e falamos com as emoções. Além disso, Deus é visto pela maioria das pessoas que nele acreditam como uma entidade mental, que é capaz de ler pensamentos, atender a pedidos, entender a linguagem humana e criar coisas a partir de um planejamento. É uma pessoa com poderes infinitos e sem corpo. É um fantasma antropomórfico. Tenho tantos motivos para acreditar numa mente gigantesca e fantasmagórica quanto tenho motivos para acreditar em qualquer outra função biológica inflada para o gigantesco e o fantasmagórico: o sagrado ciclo de catálise enzimática, a santa germinação da semente cósmica ou a magnífica pena etérea que a todos perpassa com suas barbas e bárbulas espirituais. Se acham ridículo dizer que o universo veio da ramificação das bárbulas de uma pena invisível, ou da quebra da quiescência de uma semente titânica ou da incessante ação de um grupo de enzimas mágicas, também deveriam achar ridículo achar que o universo veio do planejamento da mente divina; porque mentes, tanto quanto penas, sementes e enzimas, são resultados contingentes da evolução. Separo bem as duas atividades que gosto de fazer na internet através de dois conceitos de Platão: doxa e episteme. Doxa é opinião, é um campo de disputa, principalmente a respeito de assuntos sobre os quais uma resposta definitiva não é possível de ser aferida por outros meios que não a argumentação. O Bule Voador e o Tetrapharmakos in Vitro (meu blog pessoal) são blogs doxásticos. Quem não aceita uma opinião (doxa) é quem discorda. Episteme é conhecimento, é crença justificada. E sabe-se que é “justificada” porque não depende apenas de argumentação. Por exemplo, a evolução biológica é justificada porque temos evidências diversas que vão do nosso próprio DNA aos inúmeros fósseis documentados, sem falar na construção teórica científica com alto poder preditivo e explicativo que a acompanha. O Evolucionismo é um blog epistêmico. Quem não aceita um conhecimento (episteme) é apenas ignorante ou relutante. Sou doxasticamente ateu e epistemicamente biólogo evolutivo. Ser ateu é ter uma opinião em particular, ser evolucionista é apenas estar informado. Por isso não preciso alegar que todo evolucionista precisa ser ateu, nem que todo ateu precisa ser evolucionista. É uma ideia preciosa para os tempos de hoje, em que a tolerância é moeda rara no mercado. Eli Vieira, muito obrigada pelo bate-papo no Grito na Janela; desejo-lhe muito sucesso pessoal e profissional. Por favor deixe-nos seus contatos para divulgação e fique à vontade para dizer o que mais lhe vier à mente. Fico muito lisonjeado com a atenção e o carinho, saiba que são mútuos. Desejo o melhor pra você também. É muito fácil achar o que ando fazendo na internet: Evolucionismo.org, BuleVoador.com.br e EliVieira.com – este último é o Tetrapharmakos in Vitro. Este nome pomposo misturando grego e latim resume quase tudo o que eu disse nesta entrevista com um trocadilho duplo: – “in vitro” (latim para “em vidro”) é um termo comum da biologia, que se refere aos procedimentos feitos em laboratório em instrumentos como o tubo de ensaios. O trocadilho está em associar o tubo de ensaios a “ensaios” de texto. – Tetrapharmakos é o grego para “quatro curas” ou “cura em quatro partes”. O trocadilho aqui é que não há “fármaco” nenhum para ser posto “in vitro” – as quatro curas são recomendações filosóficas para a vida plena, derivadas da filosofia do grande Epicuro de Samos. E elas são: (1) não temer os deuses [porque quase certamente nenhum deus existe]; (2) não temer a morte [porque um sentido para a vida finita pode ser construído e a morte é apenas o incognoscível]; (3) saber que a felicidade é possível [pois depende do atendimento de necessidades humanas]; e (4) saber que podemos escapar à dor do corpo e da mente. Investigar nossa própria natureza é um passo crucial para perseguir essas metas. Sendo inegável nossa condição de animais primatas humanos baseados em carbono, a biologia tem muito a contribuir para quem quer saber o que é necessário saber para viver plenamente e construir sua obra, qualquer que seja ela – ideias, famílias, um mundo melhor. Como estas e outras crenças precisam ser medidas, dissecadas, comparadas e julgadas, a filosofia é indispensável. E é por isso que faço tudo o que faço. Abraços eucarióticos! Beijos euarcontoglires! Adoro estas saudações informadas!