15th of janeiro

“Negacionistas” não são a maior ameaça à compreensão pública de ciência Sobre a apresentação enviesada do que realmente fica do caminho de um público mais bem informado


O termo “negacionismo” não é nenhum termo técnico que resulte de pesquisa sobre as atitudes das pessoas em relação às proposições dos cientistas. Se “negacionistas” são pessoas que continuam acreditando em alguma falsidade mesmo diante de evidências abundantes de que é mesmo uma falsidade, “negacionistas” são raros. A maioria das pessoas que têm interesse de ignorar alguma conclusão baseada em dados suficientes e argumentos cogentes ignora o que não quer ouvir da ciência através da desenfatização de evidências.

Temer o “negacionismo” em vez do “desenfatizacionismo” é um erro análogo ao de quem tem mais medo de leões do que do Aedes aegypti no Brasil. O leão pode parecer uma fera medonha em vídeo, e podemos encontrar casos de pessoas mutiladas e mortas por suas presas. Mas é raríssimo por aqui, especialmente algum leão livre para andar pelas nossas ruas. Já o Aedes é comum, a picada não dói, produz apenas uma coceirinha, mas o resultado da picada pode ser dramático: Chikungunya, Zika e Dengue Hemorrágica. Assim como temos mais mosquitos que leões, temos muito mais desenfatizadores de evidências, que desenfatizam por vieses diversos – especialmente religiosos e políticos – do que criacionistas de terra jovem e terraplanistas no campo dos negacionistas.

Por exemplo, um colunista da Carta Capital, como bom membro caricato da turma da “justiça social”, respondeu a mim, quando divulguei mais resultados sobre diferenças cerebrais e comportamentais entre homens e mulheres, que “ninguém nega que há diferenças fisiológicas”. Fisiológicas! E quando eu disse que a coisa vai muito além de “fisiologia”, ele prontamente se pôs a esticar o que quer dizer “fisiologia” para incluir neurociências e ciências cognitivas dentro dela. É assim que se desenfatiza o que não se quer ouvir.

E isso vem de todos os lados. São truques lógicos que as pessoas tendem a usar para manter intactas as suas crenças quando elas conflitam com fatos. É uma tendência tão terrível quanto ubíqua. No grande campo de quem estuda as contribuições de natureza (genética) e cultura (ambiente) para o comportamento humano, há um enorme medo de se estar cometendo algum “ismo” horrível ao se atribuir qualquer papel à genética. Então temos um estranho fenômeno: até entre os pesquisadores da genética, há um duplo padrão de rigor para explicações hereditárias e explicações de cunho sócio-cultural-ambiental: para as primeiras lembra-se o tempo todo que correlação não implica necessariamente causa; já para as últimas, é perfeitamente aceitável fazer conclusões causais pelas portas dos fundos das correlações. São dois pesos e duas medidas de rigor: uma que afaga nossos vieses, outra que é uma arma contra nossos percebidos adversários.

E é importante saber que os desenfatizadores ou aplicadores de dois pesos de rigor não são só os leigos: eles circulam na academia, estão entre os cientistas, entre as pessoas que deveriam dar exemplo de rigor intelectual e vigilância contra seus próprios vieses.

Em 2002, Caspi e colaboradores descobriram, por exemplo, que um alelo associado à baixa atividade da enzima Monoamina Oxidase A (MAO-A), que atua no cérebro, estava também associado a tendências violentas dos indivíduos que o carregavam. Interessantemente, os dados indicavam que alguns portadores do alelo não tinham essas tendências, especialmente quando não criados por famílias abusivas. Concluiu-se, então, que era um gene que predispunha seus portadores a comportamentos violentos, mas somente se recebessem um gatilho ambiental de serem criados por progenitores violentos. “Que ótimo”, celebrou a comunidade de pesquisa. “Aí está um exemplo excelente do enorme papel do ambiente ao mediar os recursos genéticos”. Mas o problema é que a hipótese de este ambiente familiar ser causa importante e direta do fenótipo violento, no caso, sequer havia sido testada. Apesar disso, os autores estavam contentes em eleger esta causa como a explicação mais plausível. Pouco se discutiu outra hipótese: além de herdar o ambiente violento, as crianças também estavam herdando os genes dos pais violentos, de modo que poderia haver uma “correlação ativa” de um ambiente com um genótipo, em que o ambiente é causado por esse genótipo paterno, e o mesmíssimo genótipo nas crianças repetiria as tendências violentas e o ambiente violento, num ciclo vicioso de base genética mais importante que os efeitos ambientais. É uma hipótese. Mas é uma hipótese mais feia do que dizer às pessoas que no fim das contas o que importa realmente é o ambiente (que é o que geralmente querem ouvir). Daí um duplo padrão de rigor, a depender de a hipótese sob análise favorecer genes ou ambientes como fontes causais do que se observa. Daí uma desenfatização seletiva de evidências, ao gosto do freguês.

Outro exemplo, mais recente, foi a manifestação dos especialistas quando se perguntou a eles por que, nas notas mais altas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), há mais pessoas do sexo masculino do que do feminino. O viés de desejabilidade social, que alguns chamam de politicamente correto, dita aqui que é perigoso e arriscado dizer que há razões biológicas para mulheres e homens diferirem quanto à inteligência, ou que a nota do Enem poderia refletir, além do esforço dos estudos, também inteligência. Daí os especialistas usam linguagem de tabu:

“‘A explicação não deve ser buscada na Biologia, embora cérebros de homens e mulheres não sejam iguais. Mas isso não afeta a cognição, em áreas do raciocínio lógico, muito menos na inteligência’, diz o professor titular de neurociência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Roberto Lent. Para ele, o que mais influencia são as posições da família e os estereótipos da sociedade.” (Do Estadão, ênfase minha.)

A afirmação de que a diferença (em média) dos cérebros de homens e mulheres não afeta a cognição na inteligência é falsa. Que fique claro: na média do QI há nenhuma ou pouca diferença entre homens e mulheres. Mas homens variam mais em QI que as mulheres (e QI é uma medida de inteligência com amplo apoio em evidências replicadas, é uma das áreas de maior replicação da psicologia). A variação na inteligência é uma coisa mensurável, e essa medida da variação (variância) é maior entre homens que entre mulheres. O que se espera disso é que, quando se seleciona a porção das maiores notas do Enem, haja mais  homens, pois a variação das mulheres se concentra mais em torno da média.

O fenômeno da maior variação no sexo masculino em várias características, especialmente as relacionadas ao sexo e ao sucesso reprodutivo, tem explicações evolutivas. Ou seja, tem boas explicações biológicas que têm a ver com a seleção sexual e o papel do sexo feminino de sustentar a prole enquanto dentro do útero.

Isso não quer dizer que alguma diferença social é explicada em todo ou em parte majoritária pela biologia. Isso precisa ser testado, de preferência sem tabus. O método da herdabilidade é um bom método para prospectar inicialmente a partição de variâncias explicáveis por biologia ou cultura, e é um método largamente ignorado por construtivistas sociais, que preferem se fechar numa bolha fazendo estudos “qualitativos”. Deixar a biologia de fora em dados como esses do Enem é aplaudir a ignorância, e estabelecer que a biologia não deve ser buscada é papel de pregador moralista, não de cientista. Nós podemos ter a discussão paralela de que os resultados podem inspirar más aplicações que potencialmente afetam a vida de indivíduos. Mas é obscurantismo não separar a discussão moral da busca desinteressada pela verdade. Jogar fora a navalha de Hume é voltar a um estado pré-científico e pré-iluminista, é tomar partido da proverbial Igreja da época da Renascença em vez de ficar do lado de Galileu.

A compreensão pública da ciência é mais afetada por milhões de pequenas picadas dos mosquitos da representação enviesada de resultados, da desenfatização de dados e evidências que estão em dissonância com os interesses dos divulgadores, pesquisadores e do público, do que por negacionistas teimosos que batem o pé diante de evidências de que estão errados. E quem fala contra os vieses do próprio enxame é alvo de ostracismo, quando não silenciamento.

14th of setembro

Muito além do ‘Muito Além do Nosso Eu’ de Miguel Nicolelis, com P.S.


Publicado anteriormente no Amálgama.
A arte da capa também não ajuda.
Em Muito além do nosso eu, de Miguel Nicolelis, somos conduzidos a páginas e mais páginas de um relato exaustivo dos motivos pelos quais o autor está no time correto de neurocientistas. Em algo que lembra aquelas discussões de torcedores do Palmeiras contra torcedores do Corinthians, o autor tenta nos convencer de que os distribucionistas, que acreditam que o cérebro trabalha como um todo integrado de processamento paralelo distribuído em populações de neurônios, ganharão inexoravelmente o debate contra os ingênuos e tolos localizacionistas, que, por acreditarem que existem áreas cerebrais especializadas em certas funções mentais, só podem ser herdeiros da pseudociência de Franz Gall (frenologia), que buscava prever habilidades psicológicas a partir de assimetrias cranianas.
Um exército de metáforas desfila, às vezes num ritmo tão caótico quanto o das tempestades cerebrais de que tanto fala Nicolelis, para nos mostrar que o “reducionismo” está fora de moda e o caminho correto das ciências da mente será o de considerar populações de neurônios como a unidade funcional do cérebro, não o neurônio como tentam nos convencer os desatualizados e obscurantistas livros-texto de neurociência. Leões caçam em bandos, um leão solitário nada pode. A campanha das Diretas Já com multidão de centenas de milhares de manifestantes, que Nicolelis testemunhou in loco, de nada adiantaria se fosse um único manifestante bradando palavras de ordem contra a ditadura militar. E é por isso, além é claro também pelos inúmeros dados experimentais apresentados no livro, que devemos adotar o distribucionismo e suas consequências.
Longe de desmerecer os interessantíssimos dados empíricos apresentados por Nicolelis, já nos primeiros capítulos há uma pedra no meio do caminho, e é uma pedra conceitual: o autor faz um balaio de gatos, para não dizer espantalho, entre a visão localizacionista e a visão “reducionista” do cérebro. O leitor é levado a pensar que existe um time de teimosos que quer reduzir pensamentos a um único neurônio, que é a mesma turba que quer nos arrastar de volta para a frenologia. Temos no mínimo duas posições aqui sobre o funcionamento do cérebro, que devem interagir de modo mais complexo que os pares de estruturas cerebrais cujas conexões foram simuladas em algoritmo pelo cientista em seu trabalho na pós-graduação. Não nos é apresentada evidência, no entanto, das razões pelas quais deveríamos culpar os modernos localizacionistas por associação aos extintos frenologistas, e o autor não parece interessado em fazer a mesma justiça que faz à complexidade de conexões entre estruturas cerebrais para a complexidade de opiniões que podem adotar aqueles que discordam dele.
Da mesma forma que o autor culpa seus adversários por associação ao refugo da história da ciência do cérebro, ele alegremente se associa a gênios como Thomas Young e Albert Einstein.
Nicolelis descreve os prodígios da carreira de Thomas Young (1773-1829) como um baluarte de como deve ser a atitude de um cientista, no exemplo da teoria da percepção de cores que Young apresentou no começo do século XIX (antes da descoberta dos neurônios), propondo que haveria três receptores para cores na retina, o que foi confirmado apenas no século XX. Mas uma provocação interessante é que Thomas Young poderia estar correto por acidente, nessas ironias lógicas que permitem a premissas falsas levar a conclusões corretas. Ele pode ter tirado sua ideia de que há três receptores de cor na retina humana do fato trivial conhecido por pintores de que a variedade de tons usados por um Monet pode ser produzida a partir da mistura de tintas com cores fundamentais. Juntando-se isso à teoria ondulatória da luz (parcialmente incorreta, como se mostrou mais tarde), temos a teoria de Young sobre a percepção de cores.
Diz-se que o filósofo Epicuro de Samos, um atomista como seus antecessores Demócrito de Abdera e Leucipo de Mileto (apesar de nunca ter-lhes dado o devido crédito), diferia deles ao propor que além de o universo se reduzir a átomos e movimento, não é um universo puramente determinístico porque os átomos são capazes de dar guinadas imprevisíveis (cf. Foster et al. 2008). Isso lembra mecânica quântica? Sim, mas alegar que Richard Feynman e outros teóricos da quântica são herdeiros diretos de Epicuro seria no mínimo uma incorreção histórica, no máximo uma especulação baseada em correlação espúria de conclusões.
Considerar-se um “discípulo de Young” e acusar os ditos localizacionistas de serem discípulos de Gall comete exatamente essa injustiça, obscurecendo o que deveria ser um tratamento justo da história e da herança cultural que levou às pesquisas modernas, que de modo algum se divide no time dos corretos contra o time dos errados (exemplificados ao longo do livro em anedotas históricas como a de Golgi versus Cajal), mas numa comunidade comprometida com valores epistêmicos de interrogação honesta da realidade e debates fundamentados nesta secreção acumulada de nossas glândulas racionais nos últimos quatro séculos, chamada corriqueiramente de ciência. Para um tratamento menos futebolístico da história da ciência por parte de um cientista, cf. Gribbin (2003).
O termo reducionismo tem se tornado um xingamento no ambiente acadêmico. Um xingamento nebuloso e por vezes injusto. Como lembra Daniel Dennett (cf. Dennett 1998), o problema não é o reducionismo – encontrar as unidades ontológicas nas quais se ancoram determinado fenômeno natural –, mas oreducionismo ganancioso: atribuir todas as facetas e manifestações deste fenômeno a entidades que não têm, individualmente ou em conjunto, propriedades suficientes para explicar e prever o fenômeno em questão. Dennett cita como exemplo o reducionismo ganancioso de Skinner, com suas altas esperanças de explicar toda a mente como resultado de uma simples sucessão de condicionamentos. O que Nicolelis trata como isolamento da unidade funcional da mente – populações de neurônios – é uma clara e distinta baforada de reducionismo, tanto quanto enxergar o rim como um conjunto de néfrons (o que até o momento não só é visto como correto, como leva nefrologistas a salvar vidas todos os dias nos hospitais). A história dirá qual dos dois reducionismos – o celular ou o populacional – é ganancioso para explicar o cérebro, se algum é. E se as esperanças científicas de Nicolelis se concretizarem, vencerá o reducionismo populacional, e nenhum valor negativo deve ser atribuído a esta redução, pois reduzir neste caso significa tornar inteligível.

Mas há no mínimo dois tipos diferentes de reducionismo (cf. Martínez 2011): o ontológico e o teórico. Se alguém diz que a “unidade funcional” do cérebro é o neurônio, está sendo reducionista ontológico, mas não necessariamente reducionista teórico. Um reducionista teórico acreditaria que tudo o que precisamos saber sobre o cérebro pode ser descrito em termos que envolvem o funcionamento de um neurônio (a teoria só precisa falar do neurônio, e dela derivamos o resto). Parece-me que Nicolelis defende bem razões pelas quais o reducionismo teórico ao neurônio é infrutífero, mas isso não obriga um reducionista ontológico a segui-lo. Motivo muito mais forte para abandonar o reducionismo ontológico ao neurônio é a existência de inúmeras células da glia que crescentemente têm sido mostradas como moduladoras e participantes em transmissão de sinais no sistema nervoso central, mas estas células sequer ganham menção no índice remissivo do livro de Nicolelis. Um sinal de reducionismo a neurônios, ainda que em populações?
Difícil julgar. O autor tem declarado que máquinas jamais poderão simular o funcionamento do cérebro humano, pois sua cantilena holista de que o todo do cérebro é maior que a soma das partes dita que as propriedades emergentes do órgão são irreprodutíveis artificialmente. Eu não apostaria todas as minhas fichas nisso, pois, se alguma lição pode ser derivada da história do “reducionismo” na ciência, é que o vitalismo vai mal das pernas desde que a ureia foi sintetizada por Friedrich Woehler em 1828, e este “neo-vitalismo de propriedade emergente” pode ter o mesmo destino. Reduzimos as propriedades da vida, ontologicamente, à física e à química. Mas não precisamos reduzir teoricamente – ninguém até hoje conseguiu reduzir a seleção natural, por exemplo, a explicações que só mencionam ondas e partículas.
É um problema, aliás, que pesquisadores da área biológica ainda considerem as teorias da física o grande quadro de referência ao qual devem prestar tributo todas as novas teorias em áreas como a neurofisiologia. Nicolelis soa exatamente assim quando constrói uma analogia cerebral da relatividade de Einstein para suas conclusões sobre o funcionamento do cérebro, falando em “continuum espaçotemporal” de neurônios e – o que parece uma derrapada – “princípio da incerteza da neurofisiologia”. Os próprios físicos ainda não sabem como unir o princípio da incerteza de Heisenberg com o universo relativístico de Einstein, juntar as duas coisas numa metáfora neurobiológica não parece prestar um grande serviço de esclarecimento.
Voltando à biologia e ao que chamei de “neo-vitalismo” de Nicolelis, Darwin, a propósito, dizia que a diferença de comportamento (e, portanto, de cérebro) entre o ser humano e os outros animais (especialmente vertebrados, cf. Dalgalarrondo 2011) é mais uma diferença de grau do que de tipo de capacidades e propriedades. Se não há muitos motivos para duvidar que conseguimos simular todos os comportamentos de um verme hoje, talvez não devemos ser tão dogmáticos quanto à incapacidade de simular o cérebro humano num futuro remoto, até porque a pesquisa de ponta de Nicolelis tem mostrado que máquinas podem “ler pensamentos” e traduzi-los em comandos computacionais, fazendo com que um primata em seu laboratório controle um robô do outro lado do mundo. Mas o debate entre defensores da inteligência artificial forte e fraca está longe de estar encerrado.
É importante tomar neurônios conjuntamente, mas nem todas as analogias do livro valem. Uma analogia que me interessa particularmente é a da herança multifatorial/poligênica, usada pelo autor como um exemplo de que os genes também são manifestantes das Diretas Já na democracia da manifestação do fenótipo. Não é bem assim. Em fenótipos complexos como a síndrome de Down, por exemplo, já se mostrou que a importância de cada gene é assimetricamente distribuída pela natureza, de forma que há uma “região crítica” do cromossomo 21 na qual há genes sensíveis à dosagem, como o DYRK1A, que são mais importantes que outros no resultado observado. Outro caso é o do famoso gene FOXP2, cujos estudos evolutivos e funcionais mostraram que também na manifestação da base genética da cognição o “voto” de cada gene não tem igual valor. Se a analogia populacional de Nicolelis tem essas nuances em genética, por que não teria na própria neurofisiologia, admitindo, heresia das heresias, algo de localizacionismo?
Se a história da neurociência pode ser reduzida a dois times – os localizacionistas-reducionistas de um lado, e os distribucionistas-holistas de outro –, parece algo que vale a pena disputar no livro de Nicolelis. Ainda mais quando os próprios autointitulados distribucionistas usam modelos teóricos de mapas somatotópicos (homúnculos cerebrais) que ironicamente lembram uma visão em que há regiões especializadas no cérebro (há no livro até uma imagem do mapa somatotópico provável do Pelé, localizando a área de representação da bola de futebol bem junto ao pé do homúnculo cortical).
Já fui a duas palestras de Nicolelis, em ambas não deixei de me impressionar com as possibilidades abertas pelo seu trabalho, e de me entusiasmar com a retórica Santos-Dumontista que está transformando a vida de crianças carentes no IINN-ELS em Natal. Muito além do nosso eu não deixa a desejar ao passar esta atmosfera mental do autor. Desde milhões de anos atrás nossos ancestrais hominídeos foram muito além de seus eus usando ferramentas, e hoje o trabalho de Nicolelis é de fato um ponto de inflexão em nosso entendimento do que significou, em termos funcionais, este passo em direção a um cérebro capaz de simular mais que um mapa de nossos corpos, mas um mapa de uma representação do próprio mundo em nossas habilidades mais valiosas – incluindo o pincel no cérebro de Da Vinci, o avião no cérebro de Santos Dumont e a bola no cérebro do Pelé.
A excelente linha de pesquisa de Nicolelis faz dele um cientista cotado para o Nobel. Seria mais que um orgulho nacional se ele fosse laureado: seria uma restauração da injustiça histórica contra Carlos Chagas, duas vezes nomeado formalmente, duas vezes nomeado informalmente, mas nunca laureado, em grande parte por causa da ação de grupos de detratores entre seus concidadãos cientistas (cf. Coutinho et al. 1999; talvez isso dê alguma pausa aos detratores mais ferinos de Nicolelis no Brasil). O grande mérito deste livro é mostrar como é a vida de um cientista heterodoxo no Brasil e no mundo. E, se minha humilde opinião de leitor e de biólogo pós-graduando em genética vale de alguma coisa, penso que Nicolelis merece seu Nobel de fisiologia/medicina – ainda que não mereça o de literatura.

::: Muito além do nosso eu ::: Miguel Nicolelis ::: Cia. das Letras, 2011, 504 páginas :::

– LEIA TAMBÉM –

Science: A history (1543-2001), de John Gribbin.
– Martínez, Sergio F. Reducionismo em biologia: uma tomografia da relação biologia-sociedade. In Abrantes, Paulo C. et al. Filosofia da Biologia. Artmed, 2011.
– Coutinho, Marilia; Freire-Jr., Olival & Dias, João Carlos Pinto. The Noble Enigma: Chagas. Nominations for the Nobel Prize. Mem Inst Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Vol. 94, Suppl. I: 123-129, 1999.

Post Scriptum

Perguntei ao Nicolelis pelo Twitter o que ele achou da minha resenha. A resposta e a discussão que se seguiram vieram como uma surpresa para mim.
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P.P.S.:

“Nossa liberdade de duvidar nasceu de uma luta contra a autoridade nos primeiros dias da ciência. Foi uma luta muito profunda e forte: permitir-nos questionar – duvidar – não ter certeza. Penso que é importante que não nos esqueçamos desta luta e percamos assim o que ganhamos.” (1955)
“… foi uma reação que aprendi do meu pai: não tenha nenhum respeito pela autoridade; esqueça quem disse e em vez disso olhe com que ele começa, onde ele termina, e pergunte-se ‘é razoável?’” (1988)
– Richard Feynman

“2) Respondendo ao tom

Nesse nível superior começamos a ver respostas ligadas diretamente ao conteúdo do texto, ao invés de serem ligadas ao autor. A forma mais inferior desse tipo de argumento é discordar do tom utilizado pelo autor no texto. Por exemplo:
“Eu não posso acreditar que o autor rebate o Design Inteligente de maneira tão arrogante.”

Apesar de ser melhor do que atacar o autor, esse ainda é uma forma fraca de divergir. É muito mais importante saber se o autor está certo ou errado do que apontar os dedos para o tom utilizado em seu escrito. Especialmente porque é difícil julgar um tom de maneira isenta. Alguém que está emocionalmente envolvido com determinado tema pode sentir-se ofendido por um determinado tom, enquanto o mesmo pode ter sido percebido como neutro por outros leitores.

Então, se a pior coisa que você pode dizer a respeito de algo é criticar o seu suposto tom, então você não está dizendo muito. O autor é rude, porém correto em seus argumentos? Melhor isso do que ser grosseiro e estar errado. E se o autor está errado em alguma afirmação, aponte onde está o erro e refute.”
Mais sobre a Hierarquia do desacordo de Graham no Bule Voador.