1st of março

Você é machista, homofóbico(a), transfóbico(a), racista? Muita calma nessa hora!


Uma pessoa disse que a Marília Gabriela seria homofóbica por ter decidido não me convidar para o programa dela. Eu discordo enfaticamente! E também discordo enfaticamente de outras acusações de preconceito que às vezes vejo na internet. Por três razões:
1. Às vezes a lógica é quebrada. Se a Gabi é homofóbica por não me convidar, ela não era homofóbica por convidar as lésbicas Pepê e Neném? Não me convidar é uma premissa muito frágil para acusá-la de ser homofóbica. Como qualquer pessoa (independente de quem seja), ela merece o benefício da dúvida, e só merece ser acusada com evidências convincentes e argumentos convincentes. Alarmismo e denuncismo que passam por cima disso são um grande problema, não uma solução.
2. Se fosse verdade que Gabi é homofóbica, usar o adjetivo como um xingamento seria a última coisa que a faria refletir sobre isso e mudar de crença e atitude. A Gabi, como qualquer outro ser humano, provavelmente reagiria de forma defensiva, fechando-se para as ideias corretas de quem acusou, por causa da acusação, do uso de um “nome feio”. Encurralar pessoas não é educá-las. E se as pessoas não estão sendo educadas a jogar fora sua homofobia, qual é o propósito de acusá-las de sê-lo?
3. A forma mais caridosa de aceitar uma acusação dessas sem as evidências e bons argumentos, contra a Gabi ou contra qualquer outra pessoa, tem um efeito curioso: se a Gabi é homofóbica, quem acusou também é. Porque as pesquisas disponíveis mostram que as pessoas, independentemente de seus grupos, guardam em média vieses contra homossexuais. Inclusive os próprios. Isso não é para aplaudir a homofobia: isso é para educar a respeito de um fenômeno curioso chamado viés implícito.
A filósofa Jennifer Saul dá como exemplo desse fenômeno o que houve com o reverendo Jesse Jackson, que lutou toda a sua vida contra o racismo nos Estados Unidos, quando certa vez se viu, num momento de epifania autocrítica, tendo atitudes desfavoráveis contra negros. No caso, mudar de rota se visse um rapaz negro andando em direção a ele. 
Saul comenta evidências do viés implícito também no caso do sexismo (machismo, misoginia):
“O viés implícito pode vir em muitos tipos diferentes de comportamento. Por exemplo, decisões de contratação. Se você apresentar exatamente o mesmo currículo com um nome masculino ou feminino, há maior chance de o que tem nome masculino receber maior nota, receber convite para entrevista, receber cargo de maior hierarquia e salário e ser contratado do que o currículo com nome feminino. O mais recente estudo de 2012 mostrou que o efeito do viés é igualmente forte em todos os grupos etários, e que é igualmente forte entre homens e mulheres. O viés afeta o modo como interagimos com as pessoas. Tanto homens quanto mulheres são mais propensos a solicitar um homem que uma mulher, mais propensos a interpretar com caridade um comentário incoerente se for de um homem do que se for de uma mulher.”
(Traduzido deste podcast: http://lihs.org.br/bias )
Então, se o exemplo do viés implícito no caso do machismo é análogo aos outros preconceitos, é provável que, neste sentido específico, nós todos possamos ser machistas, ‘LGBT-fóbicos’, racistas. E quem pensa que estar num desses grupos isenta alguém de ter esses vieses, está provavelmente enganado.

Mas (e este é um grande mas), acho injusto usar esses adjetivos apenas por causa da ubiquidade dos vieses implícitos. Penso que as palavras temidas que designam preconceitos e discriminações deveriam ser usadas justamente para identificá-los quando há evidências claras e distintas de que estão ali, no caso específico que você está julgando.


Por que? Porque assim os próprios vieses podem ser combatidos melhor. Inclusive no nível do indivíduo, que ao saber da existência desses vieses, pode lutar para evitar incorrer neles, não baixar a guarda. E falar em vieses é muito mais efetivo para que as pessoas façam isso individualmente, se eduquem, do que encurralá-las e acusá-las. Tanto pior encurralá-las e acusá-las sem evidências convincentes!
Jesse Jackson com certeza deve ter se tornado um ativista melhor depois de sua epifania, alguém mais consciente sobre o quão complicado é algo como o racismo e o que fazer efetivamente para vencê-lo. E nós todos podemos melhorar nossas atitudes éticas se seguirmos este exemplo, de parar, respirar fundo, pensar, repensar, pesar as evidências, antes de sair numa cruzada ineficiente de acusacionismo fadado ao fracasso.
Portanto, se me acusam de qualquer uma dessas coisas, procuro fazer essa distinção entre aceitar a probabilidade de que eu incorro em vieses, e cobrar evidências de que realmente fiz algo motivado por eles ou motivado por coisa pior, como ideias agressivamente preconceituosas ou atitudes claramente discriminatórias. E não espero menos de qualquer outra pessoa, inclusive quem me acusou. Rigor com evidência e argumento é a única coisa que pode garantir justiça.
O que são os vieses implícitos? A filósofa Jennifer Saul ainda quer saber – se são crenças, se são atitudes, qual é sua natureza íntima – é algo em aberto. Pero que los hay, los hay. E é difícil declarar-se livre deles, sem passar por epifanias (no sentido de descobertas, de análises) como a de Jesse Jackson.
2nd of julho

Marco Feliciano reclama que é vítima da homofobia. Ele está, em parte, correto.


Marco Feliciano disse que se ele fosse gay estaria sendo vítima de homofobia, com as piadinhas sobre sua chapinha, sua postura, suas sobrancelhas feitas, etc. Estou aqui para defender que ele está, em parte, correto.
Antes de explicar minha posição, alguns esclarecimentos. Não há necessidade de uma pessoa ser gay para ser alvo de homofobia. Há casos emblemáticos disso, como o pai que teve orelha decepada por uma gangue por abraçar o filho, irmãos que foram assassinados por expressar amor fraterno em público, etc. (Favor lembrar que homofobia não se manifesta sempre de forma violenta. Homofobia se manifesta principalmente em pequenas posturas e discursos, e são esses que alimentam o extremismo violento.) A afirmação do Feliciano sobre a necessidade de ser gay para ser alvo da homofobia é só mais uma das amostras do tamanho de sua ignorância e inadequação ao cargo que ele ocupa, na comatosa Comissão de Direitos Humanos e Minorias, apenas por birra.
Por que Marco Feliciano está correto, ao menos em parte? Porque um alvo do ativismo LGBT é a discriminação baseada nos assim chamados “trejeitos”, que seriam supostamente uma indicação da homossexualidade em um homem. Se o Marco Feliciano apresenta alguns dos trejeitos supostamente diagnósticos para a homossexualidade, apontá-los com a intenção de depreciá-lo é, sim, homofobia. Mas na verdade é mais que isso. Intimamente ligado à homofobia está o preconceito de que homens devem se comportar de certa forma e mulheres devem se comportar de outra, ou seja, papéis culturais de gênero, reforçados como norma e usados como matéria-prima do machismo e da misoginia.*
Sim, eu sei que, se fosse verdade que Feliciano é gay, então apontar isso, de forma cômica ou não, seria útil para denunciar uma hipocrisia. Esta hipocrisia não seria coisa nova entre líderes evangélicos pregadores da homofobia (e Feliciano certamente é um deles, nós não esquecemos declarações como “a podridão dos sentimentos homoafetivos…”). Mas a única forma segura de saber se Feliciano é gay é se um dia ele disser que é. Se ele fosse pego num relacionamento com um homem, sequer saberíamos se ele é bissexual ou homossexual, ou, menos provavelmente, um heterossexual externando curiosidades homoafetivas que boa parte dos heterossexuais experimentam em torno da puberdade.
O detector psicológico de homossexualidades, chamado popularmente de “gaydar”, é bastante falho, e usá-lo como desculpa para tentar associar homossexualidade ao Marco Feliciano beira o ridículo. Quem disser que jamais ficou surpreso em saber que certa pessoa é gay ou lésbica estará mentindo, há sempre os casos difíceis ou impossíveis. Então, em vez de brincarmos de adivinhar quem é gay com bola de cristal, deveríamos condenar quem usa “trejeitos” supostamente indicativos de homossexualidade para tentar manchar a imagem de alguém, porque esses não são pejorativos e qualquer discurso que os apresente como tal não passa de preconceituoso.
* Alguns esclarecimentos sobre papéis de gênero e trejeitos: existe uma questão factual, que é se cada grupo humano, sejam lésbicas, gays, homens ou mulheres (trans ou cis), apresentam diferenças em média em algumas características comportamentais não associadas necessariamente à atração sexual ou à identidade de gênero. A resposta é provavelmente sim. Porém, grupos apresentarem diferenças em média não quer dizer que eles não compartilhem grandes interseções em sua variação. Na verdade, todos esses grupos partilham enormes interseções. Logo, não se pode usar sem risco uma média ignorando-se a dispersão da variação e as interseções da variação entre grupos. Tanto que uma das ferramentas estatísticas mais antigas para encontrar diferenças entre três ou mais grupos, o teste ANOVA, leva em conta primariamente a variância entre os grupos, e não simplesmente a média. Grupos com médias extremamente diferentes podem ser indistinguíveis na variação. Por isso, papéis de gênero e heteronormatividade, que usam em parte essas médias entre grupos de forma intuitiva não para dizer como as pessoas são, mas para tentar domá-las em como acham que elas deveriam ser, são coisas falhas não apenas em nível ético, mas também factual. Mais ainda por temperarem essas diferenças médias com invenções de estereótipos absurdas, como por exemplo de que o futebol é uma atividade intrinsecamente “masculina” e que mulheres que o jogam são “menos femininas”.
Por isso fiquem atentos a tentativas de uso de diferenças factuais entre humanos como suporte ao preconceito e à discriminação.