21st of January

O que é “construção social”?


“Geralmente, dizer que algo é construído é dizer que não estava ali simplesmente para ser encontrado ou descoberto, mas que foi edificado, trazido à existência pela atividade intencional de alguma pessoa em algum tempo. E dizer que algo foi socialmente construído é acrescentar que foi edificado por uma sociedade, por um grupo de pessoas organizadas de certa forma, com certos valores, interesses e necessidades. Há três maneiras importantes com que um teórico da construção social no qual estamos aqui interessados se afasta ou acrescenta a essa noção perfeitamente comum de construção social.

Primeiro, no sentido comum, são tipicamente coisas ou objetos que são construídos, como casas ou cadeiras; mas nosso teórico não está tão interessado na construção de coisas, mas na construção de fatos – no fato de que algum pedaço de metal é uma moeda, em vez de no pedaço de metal em si.

Segundo, nosso teórico da construção social não está interessado em casos em que, por uma questão contingente, algum fato é trazido à existência pelas atividades intencionais das pessoas, mas apenas em casos em que tais fatos somente poderiam ter sido trazidos à existência dessa forma. No sentido técnico pretendido, em outras palavras, é preciso ser constitutivo de algum dado fato que ele foi criado por uma sociedade se é para chamá-lo de “socialmente construído”. Por exemplo, no sentido comum, se um grupo de pessoas se unem para mover um pedregulho pesado para o topo de uma colina, nós teríamos de dizer que a posição do pedregulho no topo da colina é um fato socialmente construído. No sentido técnico mais exigente do teórico, a posição do pedregulho no topo da colina não é um fato socialmente construído, pois é possível que pudesse ter acontecido puramente através de forças naturais. Por outro lado, que um pedaço de papel seja dinheiro é um fato socialmente construído no sentido técnico, pois é necessariamente verdadeiro que só poderia ter se tornado dinheiro ao ser usado de certas formas por seres humanos organizados como grupo social.

Finalmente, uma alegação típica de construção social envolverá não meramente a alegação de que um fato em particular foi edificado por um grupo social, mas que foi construído de tal forma que reflete suas necessidades e interesses contingentes, e assim, se não tivessem essas necessidades e interesses, poderiam não ter construído esse fato. A noção comum de um fato construído é perfeitamente compatível com a ideia de que uma construção em particular foi forçada, que nós não tínhamos escolha exceto construí-lo. De acordo com Kant, por exemplo, o mundo que experimentamos é construído por nossas mentes para obedecer certas leis fundamentais, entre elas as leis da geometria e da aritmética. Mas Kant não achava que éramos livres para fazer diferente. Pelo contrário, ele pensava que qualquer mente consciente estava limitada a construir um mundo que obedecesse a essas leis.

O teórico da construção social não está interessado, tipicamente, em tais construções obrigatórias. Ele quer enfatizar a contingência dos fatos que construímos, mostrar que eles não precisavam ser assim se tivéssemos feito outra escolha. No sentido técnico pretendido, então, um fato é socialmente construído se e apenas se for necessariamente verdadeiro que ele poderia somente ser obtido através de ações contingentes de um grupo social.”

Boghossian, Paul. Fear of knowledge: Against Relativism and Constructivism. Oxford University Press, 2006. Sinopse em português na revista Crítica: http://criticanarede.com/medo.html

Coisas que acadêmicos das humanidades alegam ser “construção social” e eu duvido:
– Gênero e identidade de gênero.
– Orientação sexual.
– Gostos pessoais quanto a quem o indivíduo considera sexualmente atraente.
– (Padrões de) Beleza (tanto a mais abstrata, de obras de arte e paisagens, quanto a mais humana, de rostos e corpos).

28th of April

“Tudo é narrativa”: um trem muito doido


Para o senso comum, contar histórias é diferente de relatar fatos. As pessoas têm essa intuição. Lá em Minas, onde eu cresci, a primeira coisa é conhecida como “contar um causo”.
Pode ter um fundo de verdade no “causo”, mas a percepção é que não se deve dar muito crédito. O propósito do “causo” é entreter, mais que informar. Se for pra contar como é a melhor forma de fazer uma rapadura, os mineiros não vão querer um “causo”, vão querer uma receita. Vão querer saber o que, de fato, deve ser feito para a rapadura ficar boa. Se querem saber se o padre andou pecando com alguma beata, até pode-se contar um “causo” a esse respeito, mas sabem muito bem que “causo” não basta pra acusar nem saber, de fato, se isso aconteceu. Evidências são necessárias. Só se abre a boca, se é pra acusar publicamente e a sério, quando se tem certeza.
Mas tem uma certa tradição acadêmica que acha que sabe mais que nóis, sô. Acham que tudo é causo. Tudo é uma narrativa. É gente gulosa, que acha que vai explicar tudo sem queimar a pestana.
Trata-se de um reducionismo ganancioso: todas as coisas que as pessoas dizem – teorias, hipóteses, argumentações legais, investigações criminais, receitas de rapadura, tudo é narrativa. Por que? Porque algum doutor disse. Geralmente algum doutor careca da França.
Quando alguns físicos dizem que tudo deve ser entendido com termos teóricos da física, como ondas, partículas ou supercordas, e que todo o resto é postiço, há uma revolta justificada. Ainda que estejam certos quanto à base das coisas ser física (reducionismo ontológico), estão muito longe de estar certos quanto a tudo ter de se reduzir aos termos da física para ser entendido (reducionismo teórico). Basta desafiar um físico a traduzir tudo o que Darwin disse em termos da física, sem mencionar organismos, reproduções ou populações, ou explicar o que é democracia sem falar em povos, cultura, leis e ética, para eles acordarem de seu sono reducionista ganancioso. No entanto, quando a ganância, a gula intelectual, vem do departamento de linguística ou literatura ou filosofia, então não é tolice como a tolice desses físicos: é alta intelectualidade acadêmica. E de repente falar que tudo é “narrativa” vira coisa inteligente.
Uai, esse trem é doidimais.