24th of novembro

Acomodacionismo, o vilão oculto


Um dos problemas políticos negligenciados do Brasil se chama acomodacionismo. O Conselho Federal de Medicina acomoda a homeopatia como especialidade médica, a página do Ministério da Saúde comemora o dia da homeopatia como se fosse coisa mais eficaz que placebo, para acomodar suposta “medicina” alternativa. Por alguma razão, a prática da “urinoterapia”, o ato de sorver urina na esperança de curar alguma doença, é deixada de fora das tais “alternativas”, me pergunto qual é o critério.

Personalidades públicas respeitadas, na inocência da ignorância sobre o desdém da comunidade internacional de pesquisa em psicologia para com a psicanálise (freudiana, lacaniana, junguiana e demais denominações), promovem frequentemente a psicanálise e seus produtos – entre eles a “filosofia” de Slavoj Zizek e de Judith Butler, por exemplo. Afinal, por que não podemos acomodar práticas sem qualquer evidência de eficácia, ou ideias sem qualquer sinal de coerência com o resto do conhecimento ou qualquer sinal de terem passado no crivo da crítica? Ceticismo é coisa de chato. Pensamento crítico só é crítico se for acomodacionista.

Acomodemos tudo. Um deputado propôs um projeto criacionista? Vamos ouvir o que esse pessoal do “design inteligente” tem a dizer sobre isso – afinal, usam uma palavra em inglês na ideologia deles, então deve ser ciência! Uma hora, acomodando o PMDB e Kátia Abreu, teremos políticas públicas de esquerda (que supostamente seriam coisa boa para setores desfavorecidos da população, como indígenas). Uma hora, acomodando homeopatia, teremos medicina de respeito. Uma hora, acomodando charlatanismos intelectuais, teremos uma classe intelectual antenada. Continuem sonhando, Pollyannas.

24th of janeiro

Sim, macroevolução já foi observada em laboratório


“Crocopato”, imaginado pelo criacionista Kirk Cameron e imortalizado nesta imagem do Worth1000.
Os criacionistas não diferem de uma substancial parte dos leigos em ciência na questão da “síndrome da escala intermediária”. Ou seja: se não é uma coisa na escala imediata da percepção, então se dá pouca importância, ou se compreende mal, ou se tem pouca vontade de compreender. É mais ou menos por esse motivo que sempre que se fala em biologia, o último reino que as pessoas costumam lembrar é o Monera.

A acusação da moda dos criacionistas é que não existiriam evidências de “macroevolução”, ou seja, de grandes mudanças, mas apenas de “microevoluções”, ou seja, aceitam que a seleção natural ou outros mecanismos evolutivos possam criar a diferença entre duas populações de uma mesma espécie, mas não entre diferentes espécies. Esta acusação assume várias formas, a mais estúpida é “não se observou evolução em laboratório” (e geralmente a pessoa está imaginando algo como um crocodilo virando um pato). 
O melhor exemplo de macroevolução em laboratório é justamente do reino Monera. Então juntam-se dois bloqueios: não se aceita como evidência porque não se quer (a capacidade humana para ignorar o que não se encaixa em sua visão de mundo é enorme), e não se aceita porque não é um “crocopato”, mas um ser bem distante da escala a que estamos acostumados: células com o comprimento na escala de um metro dividido por um milhão de partes.
O exemplo é este: um experimento de 22 anos acompanhou passo a passo o surgimento de novas adaptações em linhagens da bactéria Escherichia coli ( http://en.wikipedia.org/wiki/E._coli_long-term_evolution_experiment ). Quando digo passo a passo, quero dizer que congelaram um amostra de cada geração. Depois de mais de 20 mil gerações, uma das linhagens submetida a condições de desnutrição (falta de carbono) apresentou uma novidade: a capacidade de extrair o carbono que precisa de moléculas de ácido cítrico, na presença de oxigênio.
Para dar uma ideia do tamanho desta mudança, é preciso saber duas coisas: (1) classicamente, espécies (unidades taxonômicas operacionais) de bactérias são definidas por seu metabolismo, ou seja, pela capacidade de consumir ou não certas substâncias em condições controladas. (2) A incapacidade de metabolizar o ácido cítrico do meio de cultura é uma das coisas que permite a um microbiologista dizer a diferença entre esta bactéria, que é geralmente inofensiva e é encontrada naturalmente em fezes, e a Salmonella, famosa por ter linhagens que causam intoxicação alimentar.
Um microbiologista desinformado, ao se deparar com essa linhagem de Escherichia coli que resultou desse experimento de evolução em laboratório, estaria tão confuso ao tentar identificá-la quanto um ornitólogo que topasse com um tucano exibindo mamas, ou quanto um botânico que visse uma samambaia produzindo frutos.
É, portanto, macroevolução (não foi apenas uma mutação, a seleção natural precisou trabalhar com mais do que isso para fazer uma mudança desse tipo). E tempo não faltou: 22 anos são verdadeiras eras geológicas para bactérias. Em gerações humanas, daria 500 mil anos. Portanto o sr. Darwin continua certo: grandes mudanças precisam de grande tempo, geralmente. E grandes mudanças são, em princípio, o resultado de pequenas mudanças acumuladas, embora possam ser mais que isso.
Criacionistas não são apenas pessoas que acreditam que Deus criou os seres vivos (Deus pode muito bem ter criado as espécies usando a evolução, por que não?): são pessoas que fazem uma salada de religião com ciência, em que a primeira leva vantagem, e a segunda sai machucada. E essa invenção de que não há evidência que sustente a macroevolução é, como mostrou esse experimento e mostram muitas outras evidências, no máximo um palpite desinformado, e, como sugeri, contaminado com a “síndrome da escala intermediária”.
Não vou ofender os cegos dizendo que o pior cego é o que não quer ver, concluo dizendo que a pior crença é aquela em franca contradição com o que pode ser lido na natureza.
(Publicado no meu extinto Facebook em abril de 2013.)
24th of janeiro

Xingaram-me de “geneticista mirim”. Adotei o nome.


Eu fui chamado de geneticista mirim pejorativamente pelo químico criacionista da Unicamp Marcos Eberlin, após minha resposta em vídeo à ignorância de Silas Malafaia. Desde então algumas pessoas, frequentemente retratando erroneamente Eberlin como um geneticista, usaram este ad hominem contra mim.

Quando se trata de biologia, Eberlin é um ótimo químico. E sinto que não posso considerá-lo um bom cientista, ainda que ele “publique bem” para os padrões (frequentemente distorcidos) de fator de impacto e número de artigos, porque no meu entender um bom cientista não pode ser um completo desonesto para com áreas que não domina. 
E ser criacionista ou defensor do cavalo-de-Troia do “design” inteligente não é honesto para com as evidências favoráveis à evolução partindo de praticamente todos os lados da pesquisa empírica, da datação radiométrica na paleontologia à comparação de sintenia de genes na genômica (coisa que fiz com colegas neste artigo: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23412349 – nós mostramos que herdamos a mesma ordem de um grupo de genes em torno de um que codifica para um receptor de dopamina que está presente em todos os nossos parentes até o grupo dos peixes sarcopterígios – e nós somos peixes sarcopterígios). 
Todas as desculpas criacionistas para tapar os ouvidos são furadas, especialmente a martelada alegação de falta de observação ou evidência para a macroevolução ( http://lihs.org.br/macroevolucao ). Silas Malafaia foi me chamar de geneticista mirim e mentir que Marcos Eberlin é geneticista em vários lugares, até no Programa do Ratinho (acreditem, não é nenhuma honra ser citado no Programa do Ratinho). 
Meu blog pessoal, que se chamava meio pomposamente “Tetrapharmakos in vitro” desde que o fundei seis anos atrás, nome que tirei do meu epicurismo ( http://lihs.org.br/epicurismo ); rebatizei prontamente de Geneticista Mirim
O “mirim” foi tentativa de me desqualificar pela idade ou pouca experiência profissional, infantilizando-me. (O que depõe mais sobre a capacidade de debater do Dr. Eberlin.) Pois não tenho problema com a ideia de ser comparado a crianças desde que li “O Mundo de Sofia” de Jostein Gaarder na minha adolescência – o que me abriu os olhos para a importância da filosofia até hoje. Continuo valorizando a filosofia, tenho contato frequente com a filósofa britânica Susan Haack, de quem já traduzi um artigo sobre cientificismo ( http://lihs.org.br/cientificismo ). 
“Mirim” vem do tupi-guarani e significa “pequeno”, até onde sei. Sou pequeno mesmo, na ordem das coisas. Na minha visão de mundo, não sou parte de grandes planos de nenhuma entidade toda-poderosa, não sou importante no universo. Sou pequeno e um dia vou acabar. E quando eu acabar, nada sobrará senão coisas como essas linhas que aqui escrevo. Estou em absoluta paz com minha pequenez e finitude, sou mirim mesmo. E também sou mirim nos genes – fui voluntário como amostra do Projeto Candela, e meus colegas geneticistas trabalhando nele mostraram-me que tenho ascendência indígena (7%), além de africana (20%) e europeia. Ter ascendência indígena me faz pensar bastante, especialmente sobre o processo que não terminou séculos atrás no Brasil – o processo de tomar tudo o que os nativos tinham, inclusive a vida, horror muito bem ilustrado pelo que passam os Guarani-Kaiowá. 
Mirim, sim. Sim, mirim. Geneticista mirim a seu dispor.

(Publicado antes no meu extinto Facebook em setembro de 2013.)

9th of junho

Adauto Lourenço mentindo pelo criacionismo


Já falei sobre esta nobre criatura (?) antes no fomigerado* prêmio TOP FIVE de desonestidade intelectual de criacionistas brasileiros.

* FOMIGERADO = neologismo semelhante a famigerado, mas que deriva de FOME em vez de fama, dadas as circunstâncias de falta de nutrição intelectual do indivíduos considerados.

A seguir, a nova estrepolia do sr. ‘mestre’ Adauto Lourenço. Mas antes, vamos ver de onde ele tirou a informação para distorcer. Ano passado, em comemoração aos 200 anos de nascimento de Charles Darwin e 150 anos de seu magnum opus, a revista científica Nature lançou vários materiais de DIVULGAÇÃO (ou seja, materiais que podem ser entendidos por leigos em biologia [como o Adauto], por terem menos jargão técnico) da evolução biológica, um dos quais, uma compilação de várias pesquisas em biologia evolutiva, eu traduzi e publiquei no Evolucionismo.org com o nome 15 joias da evolução. Nenhum criacionista apresentou qualquer refutação relevante a esta obra de divulgação da revista científica que tem um dos maiores impactos do mundo (existe um número proposto por organizações privadas para avaliar a relevância de publicações científicas, chamado “fator de impacto”, e a Nature é um dos periódicos com o maior fator de impacto). Agora em 2010 a última edição da revista científica Nature veio, como de praxe, lotada de artigos que assumem que a evolução biológica é um fato. Mas o sr. Adauto Lourenço, físico, leigo em biologia, acha que um desses artigos faz o exato oposto de corroborar a evolução: adauto_lourenço_mentira O artigo ao qual o nobre hominídeo se refere tem este título e estes autores:

Experimentally assessing the relative importance of predation and competition as agents of selection
[Tradução livre: Avaliando experimentalmente a importância relativa da predação e da competição como agentes da seleção]

Ryan Calsbeek & Robert M. Cox
(Department of Biological Sciences, Dartmouth College, Hanover, New Hampshire 03755, USA) Eu poderia rebater a coprolalia do sr. Adauto Lourenço com o título do artigo. Mas vou fazer melhor. Traduzo o resumo do artigo que consta na Nature. O resumo já cita vários outros artigos científicos, mas vou omitir os números das citações por estética. Aí vai:

Experimentos de campo que medem a seleção natural em resposta a manipulações do regime seletivo são extremamente raros, mesmo em sistemas onde a base ecológica da adaptação foi estudada extensivamente. A radiação adaptativa [ou seja, o conjunto de sucessivas especiações, sucessivas origens de novas espécies] dos lagartos caribenhos do gênero Anolis tem sido estudada por décadas, levando a previsões precisas sobre a influência de agentes alterativos de seleção natural em campo. Aqui nós apresentamos evidências experimentais para a importância relativa de dois agentes putativos de seleção na formação da paisagem adaptativa em uma radiação insular clássica [desde Darwin sabe-se que ilhas promovem a origem de novas espécies, como no caso dos tentilhões das Galápagos, e neste caso lagartos caribenhos]. Nós manipulamos populações do lagarto marrom Anolis sagrei** em ilhas inteiras, para medir a importância relativa da predação versus competição como agentes da seleção natural. Excluímos ou incluímos aves e cobras predadoras em seis ilhas que variavam de baixa a alta densidade populacional de lagartos, e então medimos as diferenças subsequentes no comportamento e a seleção natural em cada população. Os predadores alteraram o comportamento de empoleirar-se dos lagartos e aumentaram sua mortalidade, mas os tratamentos de predação não alteraram a seleção em características fenotípicas. Alternativamente, aumentar experimentalmente a densidade da população fez crescer dramaticamente a força da seleção de viabilidade favorecendo maior tamanho corporal, maior comprimento de membros e maiores níveis de estâmina. Nossos resultados para A. sagrei são consistentes com a hipótese de que a competição intraespecífica é mais importante que a predação na formação da paisagem adaptativa para características cruciais para a radiação adaptativa dos ecomorfos de Anolis.

** O simpático lagartinho Anolis sagrei, inclusive, consta na sétima das 15 joias da evolução, divulgadas, como disseram os editores da Nature em janeiro de 2009, para mostrar “que a seleção natural é um fato, da mesma forma que é um fato que a Terra orbita o Sol”. Concluo com um recadinho para o nobre euteleostômio Adauto Lourenço: O senhor MENTE. Pior: o senhor MENTE para ganhar dinheiro. Pior: o senhor MENTE para esconder a verdade. Como consegue deitar vossa vazia cabecinha em vosso pobre travesseiro todos os dias à noite e dormir sabendo do fato de que é um MENTIROSO da pior ESPÉCIE? (E aqui, não me refiro à espécie Homo sapiens, cuja maioria de seus constituintes costuma ser mais nobre que o senhor.) Como todos os outros criacionistas que citei no TOP FIVE, o Adauto é um PARASITA da literatura científica. Em vez de produzir por contra própria algum estudo mostrando evidências de que a vida foi criada ou projetada, estes criacionistas distorcem publicações científicas de revistas como a Nature. A verdade precisa da mentira para ser defendida? Se não, quem está com a verdade, os criacionistas ou aqueles que aceitam o fato de que os seres vivos mudam?