28th of outubro

FADIG-19: Não há problema em se cansar de falar do vírus e querer tocar a vida


Cansaram do coronga? Não aguentam mais falar em Covid? Pararam de acompanhar os números? Normal. Adam Smith comenta que uma pessoa pode lamentar a morte de milhões e dormir tranquila, mas, se for perder um dedinho amanhã, não dorme hoje. Não é algo a se lamentar sobre as pessoas: é uma limitação a se entender.

Quem não entende isso é quem esposa utopias como sistemas a serem implantados, e ataca “capitalismo” (liberdade econômica) sem entendê-lo. Seres humanos são limitados em preocupações e têm seus interesses em primeiro lugar. Que estejam livres pra praticar seu “egoísmo” é algo bom.

Daí a outra passagem famosa de Adam Smith: não é da boa vontade do padeiro que obtemos o pão. Ele segue o interesse de obter um lucro em cima de transformar farinha em pão. Você segue o seu objetivo de dar parte do que você tem para poder comer o pão. Ganho mútuo, motivações “egoístas”.

A liberdade de poder perseguir interesses “egoístas”, dando em mútuo ganho para quem se envolve nessas trocas, é o que faz uma sociedade produtiva e próspera. O que não a faz produtiva é próspera, em contraste, é ralhar com o padeiro que ele é um suposto monstro por não pagar certo valor mínimo arbitrário para seu assistente de forno.

Quem gosta de gente entende que gente é bicho limitado, que é normal que prefira o próprio filho a uma criança aleatória, que se preocupe mais com própria fome do que com o sofrimento das vacas. Quem quer que mais pessoas tenham uma boa vida quer mais liberdade, não mais interferência.

Não é surpresa, portanto, que, quanto mais uma cabeça se ocupa de utopias e sermões morais, por pensar que é ungida e tem a fórmula mágica do mundo melhor, mais esta cabeça é misantropa. Dos socialistas aos veganos. Observem quantos veganos dizem que gente é parasita do mundo.

Ora, é justamente entre os moralistas, que se ocupam profissionalmente de pensar tudo o que fazemos de errado por botar nossos interesses em primeiro lugar, e entre adeptos de utopias, que faz sucesso o antinatalismo de David Benatar: que seria errado trazer mais pessoas ao mundo.

Não é para dizer que moralistas e utópicos estão sempre errados: seus argumentos às vezes fazem sentido. Mas têm uma incompreensão fundamental da natureza humana, que vêem como infinitamente maleável e capaz de altruísmos artificiais como “posse coletiva dos meios de produção”.

Por que os progressistas identitários querem cancelar Steven Pinker? Aí está a resposta. Pinker, apesar de progressista, é um dos principais críticos da opinião de que seres humanos são uma folha em branco, uma tábula rasa, infinitamente moldável à imagem e semelhança do progressismo.

E não tem coisa que utópicos que não acreditam em limitação humana odeiem mais que ouvir de cientista que o ser humano tem limitações e não há problema nisso.

Então, relaxe: você não é uma pessoa pior porque parou de acompanhar notícias da COVID-19 há semanas ou meses. Ponha a máscara ao sair, passe o álcool gel, e cuide do seu jardim. Assim, o que você fará de bom no mundo será um subproduto do que você faz por si mesmo (seu vizinho verá o jardim e se alegrará — clientes e colegas desfrutarão do fruto do seu trabalho).

Não cobre de si mesmo a tarefa impossível de sofrer junto com multidões ou formular o próximo plano infalível do mundo melhor. Deixe os planos infalíveis para os seres infalíveis.