1st of February

Estudei o conservadorismo com um amigo. Ele virou conservador. Eu não. Por quê?


Desde 2014 venho me informando melhor sobre o que é o conservadorismo. Roger Scruton, Edmund Burke, John Kekes e Thomas Sowell são alguns dos nomes que estudei. Um amigo que estudou comigo virou conservador. Eu não. Continuei “laconicamente” liberal. Buscarei explicar aqui o porquê, depois de uma breve discussão terminológica.

A primeira coisa que estou presumindo é que você só está realmente aberto ao liberalismo e ao conservadorismo quando desistiu de achar boas respostas na cartilha batida da esquerda que quase todo mundo conhece: igualdade acima de liberdade. Revolução acima de evolução. Trabalhadores acima de patrões (como se um jogo de soma zero capturasse completamente a natureza dessa relação). Não acredito em “posições políticas com sobrenome”: liberal conservador, conservador nos costumes e liberal na economia, esquerda liberal. Para mim, essas posições com sobrenomes, embora possam ser uma tentativa de dar nuance e variedade ao cardápio, podem ser resultado de um tribalismo estilhaçado e racionalizações sobre posições mínimas mal compreendidas e adotadas pela metade. Mas esse é outro assunto, que não será desenvolvido aqui.

O liberalismo e o conservadorismo oferecem heurísticas mentais diferentes. Heurísticas são receitas para resolver problemas que são imperfeitas, mas que as circunstâncias nos obrigam a adotar. Por exemplo: uma solução heurística para a malária seria secar todos os mangues. Funcionaria, mas não vai realmente à causa do problema, que são mosquitos infectados com o plasmódio. As heurísticas se fazem presentes especialmente quando você tem informações imperfeitas para apontar para a melhor solução, o que em política é a maior parte do tempo.

A heurística do liberalismo é priorizar um valor, a liberdade, num universo de outros valores. É maximizar a liberdade individual. Notem que é implausível que a liberdade sempre seja o valor mais importante em cada situação. É por isso que se trata de uma heurística: uma receita sujeita a erro mas que se espera que funcione na maior parte do tempo. Aqui cabe a famosa analogia conservadora contra o liberalismo: a liberdade é um cavalo que a gente monta. A montaria nada diz sobre o destino para onde devemos ir. Só defender que se tenha a montaria é insuficiente. E o conservadorismo supostamente ofereceria um norte.

A heurística conservadora é outra. Ela diz que, se você não vê razão para a existência de algum hábito, instituição ou crença, isso não significa que não existe razão nenhuma. Podem haver razões não articuladas pelos aderentes. Inovações que substituam esses hábitos, instituições e crenças, portanto, poderiam estar atropelando boas razões para que fiquem como estão. Essas inovações vêm na forma de ideias para reforma social que a heurística conservadora vê como arrogância intelectual e pressa de revolucionários. É isso que chamam de um ceticismo político característico do conservadorismo.

Ambas as heurísticas têm sua sensatez. Se sou liberal e não conservador, é porque considerei a heurística liberal melhor que a heurística conservadora. Devo dar minhas razões para rejeitar o conservadorismo, portanto.

O conservadorismo e o liberalismo ambos resultam do iluminismo (Esclarecimento). O primeiro surgiu com uma reação de Burke aos erros da Revolução Francesa, e o segundo veio das especulações de Locke e posteriores. Como indica a origem, o conservadorismo na verdade é uma receita sobre o que não deve ser feito, não um norte definido.

Por isso, não é realmente um norte para a montaria da liberdade, mas uma cerca: “Não pise para além desta cerca com seu cavalo. Lá há dragões. Coisas terríveis vão acontecer.” Essa cerca independe do terreno sendo cercado. Crenças absurdas podem ser protegidas por essa cerca.

E às vezes há dragões mesmo. Às vezes há comunismo cuspindo fogo, esperanças de engenharia social que ignoram a natureza humana, e elas não vêm apenas da esquerda, mas também de liberais (considere, por exemplo, as propostas de reforma da educação do libertário Bryan Caplan e de reforma da democracia do libertário Jason Brennan). E às vezes dá em tragédia, sim, que podemos contabilizar em dezenas de milhões de mortos só no século XX. Apesar de tudo isso, essa disponibilidade ao risco, de cruzar a cerca, ecoa com um antigo conselho: sapere aude. Ouse saber. Lema do iluminismo.

Essa disponibilidade a correr riscos é característica de um ser cognoscente que busca ser livre. Sem riscos, a razão é um mero instrumento de manutenção de estruturas herdadas cuja justificação frequentemente já foi esquecida, se existente — como quer a heurística conservadora.

Levar a razão às últimas consequências, abandonando as tradições se preciso (dentro da própria cabeça, não necessariamente recomendando isso à sociedade), é algo que lembra mais o liberalismo que o conservadorismo. O liberalismo é o filho favorito do Esclarecimento, portanto. Tanto é assim que a afirmação de que o conservadorismo e a esquerda são filhos do iluminismo é mais controversa. Alguns conservadores podem considerar que a real raiz do conservadorismo é o conhecimento de tentativa e erro acumulado nas comunidades tradicionais ao longo das gerações: um pacto entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer, como belamente descreveu Burke; não as ideias do próprio Burke. E muitos consideram que muitas das ideias populares da esquerda são reações ao iluminismo dentro do idealismo alemão e mais tarde dentro da moda pós-moderna que hoje nos dá de presente a péssima moda da política identitária, embora outros considerem a esquerda outra filha do iluminismo, desde Rousseau, que já expressou tantas das ideias que perduram na esquerda até hoje.

Dizer que o liberalismo é o filho favorito do projeto da razão não é o mesmo que xingar conservadores de burros ou de irracionais. Não é o caso, claramente, e há muitos conservadores mais racionais que muitos liberais. Mas isso explica por que o tal ceticismo dos conservadores costuma ser apenas político e poucos deles são ateus ou agnósticos, por exemplo.

Tomemos como exemplo o Caio Coppola. É um cara inteligente, jovem, racional que está merecidamente popular entre os conservadores brasileiros. Na complexa rede de crenças dele, ele abandonou o ateísmo para abraçar um conservadorismo completo que vem com religião. E, o que é mais importante: ele confessa que os motivos dele para abandonar o ateísmo e abraçar a religião não foram racionais.

O fato de ele e outros adotarem uma “teologia do coração” (como dizia Bertrand Russell) é uma evidência a favor da minha tese: preferem a cerquinha segura, preferem não arriscar uma crença ousada como o ateísmo, e explicitamente confessam que, nesse assunto, largaram a “montaria” racional/liberal. Isso não quer dizer que os liberais são ou devem ser na maioria ateus ou agnósticos (a maioria não é), a tese é outra: liberais são mais abertos a novas ideias avançadas racionalmente, não importando tanto assim o risco delas para as tradições.

É por isso, senhoras e senhores, que eu não posso ser um conservador, por mais que critique a esquerda e respeite o conservadorismo. Estou comprometido com o ideal do Esclarecimento (e, portanto, liberdade) em todas as avenidas e vielas. Não abro exceções. Se não há que filosofar, há que filosofar. Desconfio de todas as alternativas.

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P.S.: Alguns que leram meu Manifesto Isentão podem perguntar como é que minha postura de defender abandonar os rótulos e as tribos políticas poderia ser compatível com a minha defesa do liberalismo. A resposta é que, como dito acima, o liberalismo deve ser considerado como um conjunto de ideias que resultam de uma heurística. Ainda assim, é preciso ter cuidado com a adoção do rótulo “liberal” e a participação de grupos que o adotam, pois, como eu disse no manifesto, nenhuma ideologia é imune à tribalização, que é uma tendência natural.