11th of November

Reducionismo: só o meu pode


Alguns físicos acreditam que tudo pode ser reduzido aos termos teóricos da física, como onda, partícula, supercordas ou similares. Não se trata exatamente de afirmar que tudo o que existe no fundo é feito disso, mas de alegar que tudo o que existe pode ser entendido falando apenas disso. Não por acaso, biólogos se incomodam: como redescrever a teoria da evolução em termos de ondas, partículas, etc., sem falar em organismos, populações, genes, ambientes? Não parece possível, e se for possível não parece útil. Seres vivos são feitos das coisas que a física descreve, mas para entender como mudam com o tempo é preciso mencionar algo mais que simplesmente as coisas que a física descreve, e quem faz isso é a biologia. O mesmo vale para a sociologia, que precisa falar em sociedades, indivíduos, relações sociais.

Não é difícil ver por que esse reducionismo teórico é um reducionismo ganancioso e errado, porque atrapalha em vez de ajudar na construção de conhecimentos. É claro que isso não significa que biólogos e sociólogos podem sair inventando qualquer coisa, inclusive conceitos que contrariam os conceitos da física.

Na academia, o reducionismo ganancioso desses alguns físicos (há filósofos que também o defendem) é majoritariamente rejeitado. Mas há outro reducionismo teórico ganancioso que, em alguns círculos, é aceito com louvor, ensinado, e vira moeda corrente no vocabulário de muitas pessoas.

Estamos falando do reducionismo ganancioso nascido entre estudiosos de crítica literária. Todo tipo de conhecimento descrevem como “narrativa”. A teoria da evolução é apenas uma “narrativa”. Quando não falam em narrativa, falam em “linguagem”. Se um físico diz uma coisa e um sociólogo diz outra oposta, não há como decidir quem está certo, estão falando “linguagens” diferentes. É coincidência que é justamente quem trabalha com livros e romances quem costuma tentar reduzir gananciosamente (e erroneamente) as coisas a “narrativas” e “linguagens”? Claro que não, assim como não é coincidência que boa parte de quem quer descrever tudo em função de termos teóricos da física é físico.

O paroquialismo de alguns físicos é perfeitamente análogo ao paroquialismo de alguns linguistas e outros especialistas das letras.

Está na hora de rejeitar outro reducionismo ganancioso: o reducionismo linguístico/narrativo presente na obra de gente como Michel Foucault e Judith Butler.

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P.S.: “Reducionismo” de modo algum é uma coisa ruim. É uma coisa boa, em termos de conhecimento, que tenhamos conseguido reduzir várias das funções do rim aos seus néfrons. É importante saber disso: que algumas propriedades de um fenômeno qualquer podem ser compreendidas pela redução a seus componentes. Mas reducionismo ganancioso é outra coisa: é aquele reducionismo sem justificação, que quer abraçar o fenômeno sem razão. Daniel Dennett diz que o behaviorismo radical é “reducionista ganancioso” com fenômenos psicológicos, por exemplo. Foi dele que peguei o termo. Há também reducionismo teórico (do qual tratei aqui) e reducionismo ontológico (dizer que seres vivos nada mais são que organizações complicadas de átomos é um reducionismo ontológico e está provavelmente correto).

28th of September

Carta aberta sobre conhecimento e política no Brasil


Conhecimentos deveriam se complementar mutuamente. As ciências naturais e as ciências sociais deveriam se sobrepor com o mínimo de inconsistências, como um mapa de estradas e um mapa de topografia do mesmo território se sobrepõem. Ou, como se seus problemas fossem palavras cruzadas, as palavras já resolvidas pelas primeiras deveriam servir como pista para preencher as lacunas que ainda faltam para as últimas, e vice-versa.

Enquanto é previsível que diferentes vocabulários e verdades emerjam de diferentes grupos de pesquisa na mesma área ou em áreas diferentes, seria estranho que uma ciência mais jovem e mais baseada em tentativa e erro tivesse não apenas vocabulário diferente para falar do mesmo território, mas negação peremptória de ciências mais maduras e suas descobertas, especialmente as corroboradas amplamente.

Quando há essa negação peremptória, essas áreas já estão em conflito e então alguma comparação de garantia epistemológica se faz necessária. Em outras palavras: há que se perguntar “de onde tiraram isso”?

No ano passado, bati de frente nas redes sociais, errando no tom mas acertando no propósito, com uma mestranda da filosofia política e blogueira de revista semanal, quando julguei que ela estaria fazendo afirmações tanto em seu trabalho de divulgação quanto em seu trabalho acadêmico que estavam em franca contradição com conhecimentos ou com o escopo da minha área, a biologia. Numa dessas ocasiões, a blogueira nega dogmaticamente que em “qualquer hipótese” a biologia possa contribuir para o entendimento do fenômeno misterioso que chamamos de consciência – e essa blindagem seria completa, já que ela alega que isso ocorre se a consciência fizer “jus à sua definição” (sic), ou seja, que por definição haveria impedimentos à investigação biológica da consciência.

Conheço pessoas que estão trabalhando com neurônios piramidais que disparam de forma errática justamente nos momentos de vigília consciente, e, em 2012, foi em um evento de neurociências e ciências cognitivas que foi publicada a “declaração de Cambridge” sobre a consciência, em que os cientistas alertam à população que vários dos seres vivos dos quais fazemos uso são seres conscientes. Tudo isso largamente baseado em conhecimentos da biologia. Não são desconhecidas, portanto, indicações de relevância da biologia para investigações desse fenômeno. O filósofo John Searle, que trabalha com filosofia da mente, acredita que a consciência “é um fenômeno biológico como a fotossíntese”. Considero que seja possível, embora implausível, que nada de biológico ou dentro do escopo da biologia exista na consciência. Mas está claro que, para ter tanta certeza de que em hipótese alguma a biologia pode contribuir, no mínimo alguma onisciência e presciência é necessária. Pergunto-me “de onde ela tirou isso?”, e nas respostas possíveis não parece haver presciência, mas noções pré-ciência. Uma visão desdenhosa ou até hostil ao conhecimento científico, portanto.

Respostas minhas a ataques à ciência como esse não são novas, na verdade, desde a graduação venho elaborando essas respostas, a mais famosa das quais foi a Silas Malafaia. Mas não se limita a Silas Malafaia a atitude contraditoriamente ao mesmo tempo desdenhosa contra a ciência mas deturpadora e aproveitadora sobre seu prestígio. Leitores lembrarão de livros como “Imposturas Intelectuais”, de Alan Sokal e Jean Bricmont, e “Higher Superstition”, de Paul Gross e Norman Levitt, dedicados a responder a coisas assim. Também entendo que ocorre por vezes (tanto entre acadêmicos quanto em leigos) uma supervalorização da ciência ao ponto de diminuir à irrelevância outras investigações. Não é minha posição, tanto que traduzi um artigo da filósofa Susan Haack que define claramente e critica o cientificismo.

Em meu otimismo, pensei que a postura anticiência da blogueira e outras pessoas das ciências sociais fosse a exceção na área ou entre ativistas como ela. Mas encontro cada vez mais motivos para pensar que o ceticismo contra a razão e a ciência já é dominante nas ciências sociais e no ativismo no Brasil, com estudantes dessas áreas saindo da universidade pensando que fatos não existem, que teorias científicas são apenas mitos particulares de uma cultura, que qualquer posição pode ser defendida bastando ter para com ela fervor moral, pois “pressupostos epistemológicos” podem ser conjurados ex nihilo sem precisar de justificação argumentada e baseada em premissas ao menos tentativamente universais.

Vivemos hoje em sociedades cada vez mais dependentes da tecnologia e do conhecimento científico. Até mesmo para espalhar ideias céticas contra ciência e conhecimento objetivo e ideias excessivamente subjetivistas e mágicas, afinal de contas, usa-se preferencialmente a internet, que não resulta desse tipo de pensamento. Talvez por essa contradição, cresce o cinismo contra as humanidades, como exemplificado nas recentes decisões do Japão visando a cortar fundos para essas áreas. Uma decisão lamentável e que não faz bem à sociedade japonesa.

Enquanto a face pública das humanidades no Brasil continuar sendo de “afrontas artísticas” ao senso comum, pelo prazer de chocar os conservadores e entediar o resto, enquanto for mais a respeito de pregar algo “segundo fulano” do que analisar criticamente se o que fulano disse se sustenta com evidências e argumentos, os conservadores continuarão marcando gols como vêm marcado desde as últimas eleições.

A atitude dadaísta, seja na arte, seja no pensamento acadêmico, contraditória e desdenhosa de instrumentos de investigação que rechaçam contradições, mais simpática à astrologia que à biologia, mais afeita às obscuridades que à clareza, vai ferir as humanidades mais que o pânico anticomunista dos conservadores. Pois enquanto comunistas (ao menos os clássicos) ao menos costumam tentar responder aos conservadores apelando para princípios universais de igualdade e justiça social, tendo alguma chance no debate público, os adeptos do novo dadaísmo sequer tentam fazer isso, negando portanto a legitimidade dos conservadores de participar desse debate público, e frequentemente fetichizando a resposta violenta e a imposição autoritária de suas pautas com desculpas esfarrapadas como “reação do oprimido”.

Ou o progressismo redescobre o conhecimento e a razão, ou vai continuar perdendo feio no ambiente público para as forças conservadoras do país. Dada a atual prioridade de levar pessoas que defendem esse conjunto de ideias danosas ao estrelato, tenho desesperança de que isso vá acontecer no curto prazo e perco eu mesmo o interesse de ajudar em movimentos em que a segregação e a atribuição de privilégios epistemológicos de acordo com características pessoais de quem argumenta estão sendo a palavra de ordem. Sem humanidades não há progresso para a humanidade. Quando humanidades não acreditam em qualquer forma de progresso pela força da verdade e da investigação, quando fecham os ouvidos a outras áreas e caem em exercícios circulares de contemplação do próprio umbigo, a profecia de não existir progresso é autocumprida.

25th of April

Quando é justificado aceitar consensos?


Ninguém dispõe de tempo, capacidade ou memória para saber de tudo. Então, frequentemente, precisamos confiar ou em pessoas que consideramos informadas sobre um assunto, ou em consensos, como substituição a ir atrás das evidências e fazer a investigação por nós mesmos. Este é um fato frequentemente ignorado por céticos que recomendam fazer investigação para descobrir a verdade sobre cada mínima coisa.
Não vou tratar da sabedoria de uma autoridade, mas do consenso. Quando se justifica usar consensos para dar peso a uma posição?
Faço uma distinção entre consenso genuíno, que pode e deve ser usado para justificar uma opinião, e consenso enviesado, que não pode nem deve. A confusão entre os dois tipos de consenso é terrível porque, quando se aceita o enviesado, dá-se força de autoridade a erros, perpetuando uma conclusão errônea que desencoraja a busca por outras conclusões; ou faz-se coisa pior.
Um consenso é formado pela convergência de opiniões. A diferença entre consenso genuíno e consenso enviesado está no processo pelo qual essa convergência acontece. No genuíno, as partes convergentes são investigadores independentes, o que significa que não têm interesse nem ganham recompensa por concordar com outras partes. No consenso enviesado, há conflito de interesses: o seu interesse em descobrir a verdade e o interesse das partes em expressar concordância entre si que dá a elas algum dividendo, algum ganho, mesmo sendo algo abstrato como o ganho de contatos políticos pelo pensamento de coalizão, mesmo sendo algo tão simples quanto agradar aos amigos.
O consenso genuíno é um bom indicador para uma verdade que você mesmo não tem tempo, capacidade ou vontade de pesquisar por si. É uma heurística boa para se informar. Mas é preciso deixar claro que não substitui formas mais diretas de ter acesso à verdade. Exemplos que preenchem esse tipo de consenso são os consensos de especialistas independentes investigando algum fenômeno natural, como o aquecimento global antropogênico. (Atenção: não significa que só por ser ciência o consenso será genuíno. Supor isso automaticamente é cientificismo. http://lihs.org.br/cientificismo )
O consenso enviesado pode ser interesseiro: disseram isso porque foram pagos pelas petroleiras, porque querem votos, porque são dogmáticos e não querem aceitar uma crítica que mostra que o que acreditam é falso, porque estão no mesmo grupo de pesquisa e querem o prestígio acadêmico de estarem certos nessa questão. E também pode ser fruto de vieses compartilhados: decidiram assim porque compartilham um erro em comum, um viés cognitivo, um preconceito. É bom notar que as evidências de viés no consenso devem ser investigadas também, e confiar em consensos adicionais a respeito do viés contido em outros consensos é aumentar a probabilidade de cair em erro.
Os efeitos do consenso genuíno são bons: economia de tempo e energia para tomar decisões ou aprender sobre alguma coisa. Os efeitos do consenso enviesado podem ser devastadores: ele é a forma intelectual, e talvez a base psicológica, da atitude linchadora.
19th of January

O caso do rato zumbi


Na madrugada do dia 10 de janeiro, durante minhas férias em Minas Gerais, meu cunhado acordou com um rato andando nas costas dele. Deu um chute no rato, e voltou a dormir. Eu acordei às 6 da manhã com um ruído perto da minha cabeça. Achei que era ruído de rato roendo alguma coisa, mas na verdade era a respiração forte do rato ferido. Só mudei de cama e não fiz nada. Mataram o bicho algumas horas depois.
Quando isso acontece, podem ter certeza que não é comportamento normal de rato. Ratos são muito inteligentes e evitam proximidade com predadores. As adaptações desses roedores para escapar de predadores são tão profundas que quando um rato aprende um novo cheiro ameaçador, a aversão a esse novo cheiro pode passar para as próximas duas gerações através de marcações epigenéticas ( http://www.nature.com/neuro/journal/v17/n1/full/nn.3603.html ).
O que, então, pode fazer um rato perder o medo e se arriscar andando nas costas do meu cunhado? Lavagem cerebral! Feita por um parasita, o protozoário Toxoplasma gondii. Esse parasita altera o cérebro dos ratos e faz com que percam o medo dos predadores e até se ofereçam para eles. Por quê? Porque assim os protozoários podem infectar os predadores também. O comportamento suicida do rato é uma adaptação de seu parasita, um produto da seleção natural que permite que o protozoário tenha mais sucesso em se reproduzir e sobreviver. 
As alterações que o Toxoplasma faz nos cérebros dos ratos são definitivas: mesmo após um tratamento que mata os parasitas, o cérebro e o comportamento dos ratos parasitados permanecem alterados. ( http://www.huffingtonpost.com/2013/09/19/mice-fear-cats-infection-parasite_n_3953158.html ) É possível também que o Toxoplasma, ao infectar humanos, esteja associado a alguns transtornos psiquiátricos ( http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1560245/ ). E isso, apesar de assustador, não é tão surpreendente assim, pois nós compartilhamos muitas semelhanças com seus roedores hospedeiros intermediários. Não somos imunes a sermos vítimas da lavagem cerebral dos parasitas. 
E eu acho tudo isso muito lindo.
(P.S.: Apesar de eu ter usado apenas o nome “rato”, enquanto o espécime que me despertou provavelmente era do gênero Rattus, os experimentos laboratoriais citados são feitos com camundongos, do gênero Mus. Mas “camundongo” não é muito usado coloquialmente.)
Toda a glória do ciclo de vida do Toxoplasma.
13th of January

Observações sobre a genética do comportamento – entrevista completa a’O Diário


Publicaram ontem n’O Diário, de Maringá, uma entrevista minha sobre genética do comportamento, que pode ser lida aqui. O risco desse tipo de entrevista é que, no processo de edição, muitas vezes se perdem informações que o entrevistado considera importantes. Por isso, peço licença à Ana Verzola e seu editor, autores das perguntas, para publicar as respostas completas aqui. Fiquei contente com a qualidade da edição, mas não estaria fazendo meu trabalho bem se eu não reclamasse do subtítulo e do resumo que escolheram.
Ao contrário do sugerido, eu não garanto que “a maior influência vem [sempre] do ambiente”, nem que conhecimento nunca vem do DNA.
Eu não posso garantir que “a maior influência vem do ambiente” porque isso depende do fenótipo comportamental sob análise. Para uns comportamentos pode ser verdade, mas para outros não será. Eu não acho, por exemplo, que os fatores ambientais sejam preponderantes na determinação do choro dos bebês, afinal, podemos dizer que a esmagadora maioria dos bebês humanos chora, independentemente da cultura em que estão. Se o ambiente é preponderante (e posso estar errado quando a achar que não é), só poderia ser então um ambiente tão compartilhado pelos bebês quanto sua intimidade genética.
Minha objeção ao subtítulo é que eu afirmei que conhecimento não vem do DNA no contexto específico de uma resposta sobre conhecimento político. Mesmo que a grande maioria do que se chama de conhecimento tenha conteúdo puramente cultural (informação aprendida), existem alguns conhecimentos que são a priori, e entre esses pode haver alguns que vêm, sim, ao menos em parte “do DNA”. Enfim, esses são os preciosismos que eu não conseguiria dormir sem elaborar. A entrevista completa está abaixo.
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OD: O que caracteriza a genética do comportamento?

EV: A genética do comportamento pode ser vista como uma aplicação da genética de características multifatoriais ou complexas a um assunto específico que é o comportamento. Definir comportamento pode ser um pouco anti-intuitivo para alguns, porque o que profissionais da área consideram comportamentos nem sempre é o que se vê popularmente como tal. O choro de um bebê, por exemplo, é considerado um comportamento. Também o ato de sucção no peito da mãe na hora da amamentação. Muitos movimentos musculares podem ser comportamentos, mas não se pode sinonimizar comportamentos a movimentos musculares sempre: reflexos como o da rótula, quando um médico bate um martelinho no joelho do paciente, raramente são vistos como comportamentos.

OD: A genética do comportamento é, em termos, um assunto bastante recente. O que as pesquisas já avançaram nessa área?

EV: Não sou especialista, apenas trabalhei com genes associados ao comportamento humano no mestrado. Mas pelas minhas leituras, creio que a atual maior contribuição dos geneticistas do comportamento é ao debate conceitual sobre as origens do comportamento humano. Juntaram evidências suficientes de que na maior parte dos assuntos comportamentais, genética não pode ser ignorada. Nós não somos tábulas rasas, folhas em branco sobre as quais o ambiente e a cultura escrevem, mas também não somos autômatos escravos da determinação genética – não se encontram facilmente comportamentos, ao menos fenótipos típicos dignos do nome, em que tudo é determinado por um único gene. O que parece estar mais próximo da verdade é que uma rede de genes atua em cada comportamento, cada um com um efeito de pequeno a moderado sobre propensões comportamentais. Assim como um bolo é mais que a soma de seus ingredientes, porque precisa do ambiente de um forno para crescer, os comportamentos não devem ser vistos como um resultado inevitável de uma receita genética. Para dar um exemplo específico, foram encontradas algumas variantes da enzima monoamina oxidase A (MAO-A) associadas a comportamento anti-social, porém, as evidências sugerem que muitas pessoas só manifestam essa propensão genética num ambiente abusivo. Isso também pode ser verdade para alelos que predisponham pessoas à psicopatia.

OD: Muito se fala de fatores hereditários no campo de psicopatologias que podem influenciar no comportamento das gerações futuras. Isso realmente pode se confirmar?

EV: O transtorno psiquiátrico com o maior valor de herdabilidade (uma medida da participação dos genes na herança de uma característica) já encontrado é o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Isso significa que se você tem TDAH, a chance de o transtorno aparecer nos seus filhos é maior do que se você tiver um outro transtorno psiquiátrico qualquer. Não é uma sentença: é uma probabilidade. Saber desse tipo de coisa é importante porque te deixa informado sobre que tipo de educação deve dar a seus filhos, e não puni-los por coisas que podem não estar sob o controle consciente deles. 

OD: No caso da dependência do álcool ou drogas mais pesadas, há uma chance maior de que os descendentes de usuários estejam mais sujeitos a desenvolver esses vícios?

EV: Há um grupo de pesquisa em genética psiquiátrica na UFRGS dedicado a estudar a genética da drogadição. A maior parte da pesquisa desenvolvida ali, e creio que no resto do mundo, está passando de um estágio inicial de procurar por “genes candidatos” cujas variantes poderiam hipoteticamente estar associadas ao alcoolismo ou tabagismo, para um próximo estágio em que variações no genoma completo e nos genes que interagem com os genes candidatos são levadas em consideração. Alguns resultados positivos mostram um papel do sistema cerebral de sinapses baseadas em dopamina, o que é bem interessante, pois é um neurotransmissor que atua no dito “mecanismo de recompensa” cerebral, importante na sensação de prazer. Se um indivíduo é dotado de variantes que o fazem propenso a se viciar a certa substância, novamente este comportamento se manifestar nos seus descendentes dependerá do contato e da cultura que há ao redor dessa substância. É preciso lembrar que você herda 50% dos genes do pai, e 50% da mãe. Somente na herança de características de padrão de herança mendeliano dominante todos os filhos apresentam a característica de um dos pais, e esse tipo de característica é muito rara, geralmente patológica, e virtualmente a totalidade dos comportamentos não seguem padrões mendelianos de herança (dependentes de relações de dominância e recessividade entre dois alelos de um gene).

OD: O que o meio cultural vivenciado pode desencadear no indivíduo? Se retiramos uma pessoa de determinado ambiente ainda criança, é possível resgatá-la de um meio prejudicial – no caso de famílias violentas, negligência materna, entre outros fatores – ou em algum momento da vida ela poderá reproduzir aquele comportamento?

EV: Como descoberto para o caso do gene da MAO-A, certas propensões só se manifestam diante de gatilhos ambientais, então no caso de uma criança portadora de alelos associados à propensão à agressividade, o ambiente familiar faz toda a diferença. A cultura nos influencia profundamente. Há experimentos comparando, por exemplo, americanos do norte e do sul, mostrando diferenças até fisiológicas na resposta a ser insultado ou desafiado, por exemplo, que são respostas rápidas, inconscientes, e de fundo predominantemente cultural. Há uma obra famosa da literatura britânica, de Charles Dickens, que conta a história de um menino chamado Oliver Twist, um órfão que, apesar de crescer num ambiente social decrépito, desenvolve virtudes notáveis. Não se pode atribuir o sucesso de Oliver à sua genética, ou apenas a ela. Indivíduos podem decidir usar de violência como protesto, por exemplo, por viver numa situação de desigualdade social. Genes são recursos, e não mestres, do comportamento, especialmente o não-patológico (e definitivamente não se deve patologizar toda forma de violência).

OD: Uma pesquisa feita na Universidade de Louisiana envolvendo 742 voluntários que foram submetidos por cinco meses a um programa de exercícios mostrou que algumas pessoas tiveram uma melhora no condicionamento físico em até 40% a mais que os outros participantes – nenhuma das pessoas envolvidas no estudo praticava regularmente atividade física. Esse desempenho tem relação com a genética do comportamento?

EV: Não necessariamente. Isso pode ter mais a ver com variantes genéticas relacionadas ao metabolismo. As pessoas variam quanto à capacidade de ganhar massa muscular, massa adiposa, quanto ao uso de calorias. Num ambiente de carestia, quem tem metabolismo lento e queima poucas calorias por dia tem clara vantagem sobre quem tem um perfil mais atlético e ativo. Numa situação de opulência, os primeiros têm mais chances de obesidade que os últimos. Essa variação pode ser meramente de genética do metabolismo. No entanto, certos comportamentos, como o comportamento de comer mais ou menos, ceder mais ou menos à tentação dos sabores calóricos, também podem influenciar. Há poucos estudos sobre esses comportamentos na genética, mas é possível afirmar que alguns casos de obesidade são altamente influenciados pelas variantes genéticas associadas aos comportamentos em torno dos hábitos de comer.

OD: Alguns representantes religiosos – como Silas Malafaia e Feliciano – abusaram em seus discursos de justificativas “genéticas”, como você mesmo rebateu no vídeo e em uma entrevista. Malafaia disse que não há correlação da homossexualidade com o gene e Feliciano, por outro lado, disse que a violência era ainda ligada ao “gene africano”. Há uma predisposição genética para o comportamento preconceituoso?

EV: Boa pergunta! Vou aproveitar a oportunidade de demonstrar humildade científica e dizer que eu não sei, mas gostaria muito de saber. Às vezes, um comportamento é complicado demais para se delimitar numa análise de associação a variantes genéticas, então ele é quebrado em partes chamadas “endofenótipos”, que seriam mais sujeitos à influência genética. Uma revisão dos cientistas Peter Hatemi e Rose McDermott, de 2012, sugere que há alguns endofenótipos em comportamentos políticos que podem estar sob moderada influência genética. O endofenótipo mais influenciado geneticamente, cuja variação pode ser 60% da responsabilidade de genes, chamaram de “conhecimento político / sofisticação”. Se esses dois pastores tiveram azar na loteria genética relacionada a isso, nada impede que estudem um pouco mais tanto sobre política quanto sobre genética para deixar de dizer bobagem em público. Afinal, se a curiosidade por conhecimento político tem algo de genético, o conhecimento político em si é feito de livros e não de DNA.

OD: Durante as manifestações que tomaram as ruas do Brasil no ano passado, pequenos grupos tiveram comportamentos antissociais praticando atos de vandalismo, violência, entre outras ações prejudiciais à comunidade mas defendidas do ponto de vista ideológico daqueles participantes. A razão pelo qual essas pessoas agiram dessa forma era motivada somente por um impulso dito político?

EV: Na mesma revisão de Hatemi e McDermott, apontam como moderadamente influenciado pelos genes o comportamento político de “atitudes autoritárias”. Porém, apontam como muito pouco influenciado pelos genes o comportamento de “senso de dever cívico”, portanto o último é possivelmente mais moldável pela educação. Talvez se o senso de dever cívico fosse algo mais presente na formação dos policiais que as atitudes militaristas de lidar com “inimigos”, não teríamos observado aquele show de horrores. O mesmo vale para a menos importante violência dos ditos “vândalos”. Não se deve botar a culpa na genética pelo autoritarismo, pois para uma pessoa propensa a defender autoritarismo manifestar isso é preciso também o ingrediente da ignorância. Sou a favor de uma polícia desmilitarizada e menos ignorante – em ambos os sentidos que se costuma usar de ignorante (bruto e desinformado).

OD: Em uma sociedade ainda regida pelo patriarcado, além de algo enraizado e implícito na nossa cultura, existe alguma outra explicação para uma postura machista e de superioridade perante as mulheres?

EV: Homens e mulheres cis (ou seja, que se identificam com o gênero com o qual são rotulados ao nascer, ao contrário de homens e mulheres trans, e pessoas que não se sentem contempladas nessa dicotomia) têm algumas diferenças comportamentais, especialmente quanto à propensão à violência física. Mas não acredito em botar a culpa na testosterona e seus receptores e fatores de transcrição associados pelo machismo. O machismo não é uma sentença genética, é um sexismo que nasce da ignorância e da falta de reflexão ética sobre a humanidade compartilhada pelas pessoas independentemente de suas identidades de gênero. Como no caso citado acima sobre atitudes autoritárias, se houve propensão genética a certas atitudes e “endofenótipos” frequentemente associados ao machismo, isso não significa que outros comportamentos que atuem como remédio não possam ser estimulados pela cultura e pela educação.

OD: Como a genética do comportamento explica a predisposição de algumas pessoas em praticar, por exemplo, esportes radicais?

EV: As pessoas podem variar quanto a (1) alelos que influenciem na resposta ao ácido lático – mais dor ou menos dor após exercícios intensos – neste caso pode ser que a influência sobre o comportamento seja indireta, que a base genética seja puramente associada ao metabolismo, e esse metabolismo aja como um ‘condicionador’ sobre a resposta de prazer ou dor ao exercício; (2) alelos relacionados à resposta prazerosa ou desprazerosa a situações de perigo e descargas de adrenalina e noradrenalina. O papel da noradrenalina no sistema de recompensa cerebral (prazer) já foi indicado por evidências e há até sugestões de que esse sistema seja usado no tratamento de vícios químicos. Eu não diria que “praticar esportes radicais” seja algo com influência particularmente predominante dos genes (basta pensar em quantas inovações culturais foram necessárias para este hábito aparecer), mas pode conter “endofenótipos” mais claramente influenciados por genes.

OD: Algumas pesquisas mostram que praticantes de esportes radicais se expõe a um determinado risco pois a sensação da recompensa supera o medo. Isso é um fator genético ou está associado ao meio?

EV: Os métodos da genética do comportamento são populacionais. É muito difícil hoje em dia tomar casos individuais e atribuir a uma coisa ou outra. Meu palpite é que a melhor hipótese sempre será um balanço entre as duas coisas. Até porque as duas coisas (genes e ambiente) não são dois pólos opostos, mas dois rótulos simplificadores para a complexidade da realidade. O ambiente de um feto pode ser a genética da mãe. Hoje sabemos que nossa genética como populações e espécie foi mudada pela pressão seletiva de hábitos alimentares como o consumo de leite e amido. Crianças são geneticamente propensas ao aprendizado (especialmente da língua) e ao ensinamento da cultura logo nos primeiros anos de vida. Somos seres biologicamente moldados para a cultura e culturalmente moldados em nossa biologia.

OD: Que tipos de comportamento estão associados a fatores genéticos? O ditado filho de peixe peixinho é pode ser traduzido para filho de chato chatinho é?

EV: É difícil encontrar um comportamento que se possa dizer que é completamente isento de influência genética. O celibato poderia ser um deles, por razões óbvias. Mas eu poderia dizer que as pessoas variam, hipoteticamente, quanto à sua propensão genética de resistir à tentação de fazer sexo, então um celibatário de sucesso poderia estar negando uma contribuição genética que está ali. Quanto a ser “chato”, não me parece nem um pouco claro o conceito do que é ser “chato”: a chatice de um é a diversão de outro.

OD: A genética, de forma geral, tem evoluído muito, atingindo um nível de conhecimento até pouco impensável? Até onde a genética pode chegar?

EV: Não é possível mais uma única mente humana abrigar hoje o volume de conhecimento já produzido pela genética. Dificilmente o que já foi produzido em genética do comportamento, que só tende a crescer conforme as técnicas de associação a variantes moleculares e de “peneiragem” dos fenótipos e endofenótipos vão evoluindo. A genética, como toda ciência madura, é um edifício construído e mantido coletivamente. E por ser um empreendimento de humanos que pode ser sobre humanos, não pode estar ausente de discussões sobre ética. Os limites tecnológicos e os limites éticos decidirão onde a genética pode chegar. Porque “poder” tem dois sentidos: ser capaz de fazer, e ser capaz de arcar com as consequências em fazer.
6th of November

A ciência é politicamente neutra? Sim e não.


A primeira ambiguidade a ser resolvida é se por “ciência” estamos falando de comunidade científica e cientistas individuais, ou do processo de produção do conhecimento científico, dotado de seus métodos que nada mais são que uma extensão cara e crítica das marcas de confiabilidade de proposições do senso comum, herdada de séculos de investimento de trabalho mental (incluindo o dos filósofos).
Se estamos falando de cientistas em particular, claro que não são neutros, especialmente em assuntos em que afirmação de fatos não é moralmente irrelevante. Não que a orientação política altere os fatos: inventar fatos para acariciar posições políticas é fraude e é coisa condenada na comunidade científica. Mas orientações políticas dizem muito sobre investimentos de atenção e motivações. Podemos apostar que sociólogos que pesquisam experimentalmente diferenças de comportamento ético entre ricos e pobres tendem a ser de esquerda, por exemplo.
No entanto, se estamos nos referindo a teorias estabelecidas e amplamente amparadas evidencialmente e em seus poderes preditivo e explicativo, sim, ciência é politicamente neutra. A teoria da evolução não é de direita nem de esquerda. A hipótese do big bang não é anarquista nem estatista. Teorias científicas produzidas por séculos de investimento de trabalho mental de cientistas são, sim, neutras, até porque as diferentes perspectivas políticas de diferentes cientistas acabam se anulando. E além disso, um conteúdo produzido devido a certa motivação pode ser usado no contexto de outra motivação completamente diversa. Pode-se acusar Arquimedes de ser um apoiador da monarquia ao aceitar um trabalho para descobrir se a coroa do rei é de ouro puro. Alegar que o princípio de Arquimedes é intrinsecamente monarquista seria absurdo porque pode ser e já foi usado para realizar coisas com motivações republicanas.
Podemos pensar nas diferentes orientações políticas e ideológicas dos cientistas como vetores que muitas vezes apontam para sentidos opostos e podem se anular. Para que essa anulação de vetores ideológicos seja melhor, a comunidade científica precisa ser maximamente diversa. Hoje ela já é bastante diversa em nacionalidades e orientações políticas (lembro aqui de um amigo astrofísico que criticou um republicano numa lista de e-mails de astrofísica e teve de lidar com as reclamações dos astrofísicos republicanos). Ainda não é suficientemente diversa em gêneros, por exemplo – há muito a melhorar quanto à presença de mulheres. Nem suficientemente diversa em fontes de financiamento: não é bom para a pesquisa brasileira, por exemplo, que fora de São Paulo o investimento privado seja de pequeno a inexistente. Porque Estado e indústria têm interesses diferentes que podem levar a cabo pesquisas diferentes (por exemplo, um pode ser mais receptivo à pesquisa básica em vez de aplicada que outro), e se só uma fonte de financiamento participa, significa que estamos em primeiro lugar deixando um ponto cego no que pode ser pesquisado mas não atende aos interesses dessa fonte, e em segundo lugar aumentando a probabilidade desses interesses viciarem os resultados, por exemplo ocultando os resultados negativos e só publicando os positivos espúrios sobre alguma nova droga que a indústria queira vender.
Quem, apesar de tudo isso, ainda defende teorias sociológicas fortes da ciência, ou seja, de que o próprio conteúdo do conhecimento e teorias científicos são nada mais que arrotos ideológicos ou de determinadas orientações políticas, já desistiu do racionalismo há muito tempo, e portanto também de debater a questão. Quem acredita viver num mundo em que só existe queda de braço entre interesses particulares, e nenhuma pista de verdade em nenhum lugar (deixando de lado a incoerência que isso provoca), já perdeu o interesse em descobrir se a ciência de fato é neutra ou não, trocando isso por uma afirmação do interesse particular injustificado de que ela (não) seja.
7th of June

Curiosidade


Para quem observar de longe, meu trabalho parece chato: lá estou, em quantidades de horas variáveis do meu dia, às vezes zero, às vezes 14 horas, mexendo com códigos num computador, lendo textos soporíferos cheios de jargão. Seria meio difícil para um observador achar o que tem de biologia em ficar de olho vidrado no computador ou anotando coisas. E, sinceramente, às vezes é chato sim, e minha quantidade de trabalho diário depende bastante do meu humor: ou seja, se um prazo tá começando a apertar, o desespero vai me transformar em workaholic.
Mas o pequeno inconveniente de fazer coisas que eu já fiz, como editar planilhas de 200 mil linhas, contar cabelinho de mosca, e tirar números de centenas de artigos que se esforçam em escondê-los no texto, é eclipsado por uma luz, meio de soslaio, que só se vê se focar a atenção.
Não é um canhão de luz gigantesco, não. É uma frestinha, só. Que deixa passar um brilho tremeluzente, meio vago, não tão brilhante que você não consiga ignorar, nem tão penumbroso que não possa te manter acordado à noite. Deram o nome de “curiosidade”, mas acho que o nome não faz jus. Curiosidade soa como uma coisinha boba, banal como, sei lá, usar crocs. Essa coisa não é nada disso. É meio ambígua, te chama com a promessa de um senso de propósito. “Deixa eu ver mais!”, você grita. “Só com esforço”, ela parece responder.
Trabalho com bactérias que infectam insetos, basicamente. Bactérias capazes tanto de matar quanto de dar vida, como uma espécie de deus Shiva infinitesimal. Às vezes parecem mais deuses gregos, submetendo os bichos aos seus caprichos: “que tal infectar uma espécie inteira de vespas, fazer com que se reproduzam sem necessidade de fecundação, ou que precisem estar infectadas com a gente para poderem se desenvolver como fêmeas?”, propõem, como comediantes decidindo o próximo esquete. “Que tal matar os machos enquanto são embriões?”, “Que tal só permitir que o sexo gere prole se os dois estiverem infectados?”, conspiram. Eu ouço, olho pela fresta. “Presta atenção naquilo ali”, me dizem os colegas, que já estavam observando antes de eu chegar, e eu vejo a bactéria indo de zero a 98% de prevalência na população de hemípteros em apenas 6 anos. Certamente uma doença virulenta? Não, as fêmeas infectadas têm mais filhos, vivem mais, crescem mais depressa e até suportam melhor o calor.
As conspiradoras unicelulares guardam a chave de como inimizade pode virar amizade. Parasitas virando mutualistas. Quando não parasitas se fingindo de mutualistas para barrar a entrada de outros parasitas. Tudo isso numa dança de milhões de anos num dos grupos mais diversos do planeta, e essas bactérias podem ter sido as responsáveis pela nascença de um grande número dessas espécies.
Mas não é só sobre bactérias e insetos, é sobre interações de agentes físicos complexos. Saber um pouco disso pode significar que você sabe algo sobre o fenômeno da vida, em qualquer lugar que ele acontecer, qualquer que seja sua natureza mais íntima. A fresta de luz é ambígua, porque ela te encanta com um quase nada, e não revela o todo que esse quase nada indica. A curiosidade – vá lá, usemos o nome tolo – também é meio parasítica, pois inflige custos, mas também é mutualística, concedendo pequenas vantagens. Chega um momento que você percebe que já não vive sem. Como um afídio, que não vive sem Buchnera, mas para isso renunciou a uma parte enorme de suas defesas imunológicas. Era só um passatempo no começo, agora pode bem ser uma razão pela qual vale a pena viver. Despido de um pouco da ingenuidade inicial, você percebe que pela fresta não vão passar todos os segredos, e que mesmo se passassem, não vão caber todos na sua cabeça. O parasita na história pode bem ser você, tentando sugar os humores de um enorme hospedeiro misterioso por uma fresta que na verdade é uma ferida, causada por você. Talvez só o velho hábito de ter tanta gana de querer saber como funciona que disseca, mata, e destrói o que queria entender.
Mas vale a pena tentar de novo, você se convence, e se senta lá, olhando para a fresta, um pouco perplexo, talvez menos perplexo do que originalmente, mas com uma gratidão imensa de ter tido a sorte de ver mais. E por mais que você consiga ignorar aquela luz fugidia e esquecer que ela existe de vez em quando, sempre que lhe vem novamente à mente é instantâneo sentir o que ela te deu e te acompanhará para a cova: uma imensa saudade, parafraseando o Russo, de tudo o que eu ainda não vi.
26th of December

Miguel Nicolelis e o “sabe com quem está falando?”


Ao contrário do que dita a opinião popular, a ciência não depende de grandes gênios. Eles são raridades na História, servem de catalizadores e trampolins para grandes avanços, mas o progresso aconteceria da mesma forma sem eles – só levaria mais tempo. No caso de Newton, por exemplo, não acho que o progresso teria se atrasado muito se ele não tivesse existido. Temos evidência não apenas de descoberta independente do Cálculo (por Leibniz), como de que vários cientistas da época já estavam pensando em alguma força inversamente proporcional ao quadrado da distância entre os corpos sobre os quais atua, como funciona a força da gravitação universal. O mesmo vale para Darwin. Alfred Russel Wallace descobriu independentemente a evolução pela seleção natural, mesmo embora não tivesse as mesmas virtudes de Darwin, que basicamente consistiam em trabalho duro e exaustivo (obsessivo até) e criteriosa e paciente ("painstaking" como se diz na terra dele) persuasão argumentativa. São só dois exemplos de figuras importantíssimas e admiráveis da ciência sem as quais nós teríamos uma ciência não muito diferente (em termos do conteúdo das teorias) da que temos hoje. Isso está em franco contraste com várias culturas ao redor do mundo em que as pessoas têm mania de louvar autoridades individuais. No Brasil, por exemplo, magnatas como Eike Batista são louvados pelo simples fato de acumularem sozinhos um enorme poder. Parece-me que o ótimo cientista Miguel Nicolelis está acumulando sobre si esta figura cultural de "magnata" ou "coronel" ("doutor" no sentido tradicional) ao receber 33 milhões de dinheiro público para fazer um espetáculo midiático e ufanista (onde melhor que na abertura da Copa?) de um método experimental para aliviar os problemas da tetraplegia. (Ver http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ministerio-da-r-33-milhoes-para-projeto-da-copa-do-mundo-,974237,0.htm ) Isso é não apenas um contrassenso diante do modo como a pesquisa científica de fato funciona – mesmo que Nicolelis não trabalhe sozinho, é um absurdo que apenas o grupo em torno dele receba mais que todos os outros neurocientistas brasileiros juntos. Isso é também algo que efetivamente atrasa a pesquisa. Gera conflitos egoicos que se interpõem à colaboração comunitária que é, por direito e de fato, a engrenagem principal da investigação científica. Isso só mostra que ainda somos o país do "sabe com quem você está falando?". Sei com quem estou falando: com o atraso intelectual autoritário, cientificista, ufanista, cego com um otimismo estilo Pollyanna, que acaba sendo um Judas para quem mais põe a mão na massa para fazer a humanidade ir pra frente em termos éticos e epistêmicos.

26th of August

Feministas, vamos parar de difamar a psicologia evolutiva?


Leda Cosmides, pesquisadora da área da psicologia evolutiva
De um feminista da área de ciências naturais para feministas com dúvidas ou ideias pré-concebidas sobre a psicologia evolutiva. Publicado antes no meu Facebook.

Feministas, vamos parar de difamar a psicologia evolutiva? Vamos deixar de julgar um programa de pesquisa pelo modo como é retratado na mídia?

Nós bem sabemos que a mídia está mais interessada em Femen e Valerie Solanas do que em pensadoras e movimentos sérios, por que esperaríamos que as notícias do tipo "aponta estudo" seriam retratação justa da área da psicologia evolutiva?

Já notei que muitas pessoas têm, digamos, uma posição de reservas quanto a qualquer coisa que se diga a favor da psicologia evolutiva ou da investigação de bases biológicas que contribuem com recursos alternativos aos recursos culturais para a manifestação dos nossos comportamentos.

Para julgar a psicologia evolutiva de forma justa, no mínimo é preciso ler material original, especialmente de Steven Pinker e Gary Marcus, que são os divulgadores consagrados da área. Não julguem a psicologia evolutiva pela opinião de leigos e blogs (inclusive o meu). Esta é uma atitude nada recomendável, que lembra bastante o modus operandi dos mesmos preconceitos que o feminismo busca combater.

Por muitos anos, com alguma razão, feministas da academia se entrincheiraram na área das humanidades, e lidaram apenas com autores dessas áreas – especialmente antropologia, sociologia, ciência política, estudos feministas, e uma parte da filosofia. Essas áreas, apavoradas com o cientificismo e a miopia social de alguns profissionais das ciências naturais, acabaram gerando uma comunidade minoritária de intelectuais que franzem o cenho à menor referência à investigação científica da natureza humana. Pior, têm náuseas até que alguém ouse usar esse conceito – "natureza humana", como se o ser humano fosse um ser inefável, semi-divino, infinito, incomensurável, sem nada em seu repertório que se repita de uma pessoa para outra ou de uma cultura para outra.

Não foi apenas tentando catalogar algo de diferente, mas também tentando investigar algo de universal, que Margaret Mead partiu para Samoa, fez suas investigações e publicou "Coming of age in Samoa", com argumentos que auxiliaram feministas para apontar que a opressão sexual feminina no ocidente não era algo universal, dado que, argumentou Mead, as meninas eram bem sexualmente resolvidas e passavam pela adolescência tranquilamente em Samoa. Antropólogos que duvidaram dela tentaram fazer o mesmo, achar algo de universal na variação. Talvez seja um erro tentar achar algo de universal na cultura (especialmente com uma amostra tão pequena quanto duas culturas), mas não é um erro tentar achar algo universal no que se convencionou chamar de comportamento, dado fatos incontestes de comportamentos claros e distintos como a capacidade dos bebês de chorar e mamar.

Não vejo por que não podemos dizer que nossa capacidade de chorar e mamar quando somos bebês faz parte da natureza humana, assim como faz parte da natureza humana nossa capacidade de aprender uma cultura, viver nela e transformá-la.

O ser humano é o único grande primata de origem africana que na primeira infância já é capaz de ENSINAR além de aprender.*

Não há mais motivo para se entrincheirar na suposta e simplória dicotomia entre natureza e cultura (nature and nurture), numa época em que estudamos evolução cultural como fazem os antropólogos Boyd e Richerson, sem medo de determinismo biológico, muito menos de determinismo cultural.

Não há motivo para repetir discursos irracionalistas lamentáveis como certos textos da Julia Kristeva em que ela diz que a física dos fluidos não evoluiu tanto quanto a dos sólidos porque fluidos são o arquétipo do feminino e a física é sexista.** Não numa época em que temos a filósofa Susan Haack, que não apenas denuncia o irracionalismo anticiência quanto disseca, expõe e desanca o cientificismo como ele merece.

E por isso tudo, não há razão alguma para simplesmente e preguiçosamente taxar a psicologia evolucionista como sexista, fechando os olhos para suas descobertas, para o debate franco e produtivo dentro dela. Isso também, repito, é preconceito.
A psicologia evolutiva busca estudar comportamentos que têm bases biológicas, especialmente aqueles cujas bases biológicas foram moldadas pela seleção natural. Isso não é novo, a primeira tentativa foi do próprio Darwin em "A expressão das emoções" (1870). Não é à toa que nós sabemos reconhecer sinais de "propensão à agressão" na face de um cão raivoso, e muitos desses são exatamente os mesmos que nós expressamos em momentos de raiva. Cultura nenhuma determinou isso: é uma das marcas indeléveis de nossa ancestralidade animal.

As facetas da natureza humana desvendadas por áreas como genética psiquiátrica, ciências cognitivas e psicologia evolutiva*** podem ser tanto boas quanto ruins. Muitas vezes são forças que agem sobre o mesmíssimo alvo: filhos ou cônjuges, por exemplo. Não há qualquer obrigatoriedade em reconhecer como aceitável ou inevitável algo que é natural: isso seria falácia naturalista. Se, e somente se (e isso ainda não foi estabelecido) o estupro for natural e isso for demonstrado, não significa que também não seja igualmente natural a aversão a ele. Comportamentos devem ser julgados bons ou ruins pelas consequências que trazem ao bem estar de indivíduos, e não por sua naturalidade codificada nos genes ou em programas mentais construídos pela seleção natural.

O feminismo simplesmente não pode ignorar isso. Feminismo trata de pessoas e a igualdade entre elas, nada mais relevante para o feminismo que saber de onde vieram e como são essas pessoas, há quanto tempo estão aqui, e que defeitos de fábrica – ou vantagens de fábrica – elas têm.
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* Dean et al. (2012) Identification of the Social and Cognitive Processes Underlying Human Cumulative Culture. Science 335, 1114-1118.
** Sokal & Bricmont (2006) Imposturas Intelectuais.
http://criticanarede.com/imposturas.html
*** A psicologia evolutiva é também comumente chamada de “psicologia evolucionista”.

19th of February

Os alquimistas da Rosacruz estão chegando


rosacrucianismo_cucoHoje, uma pessoa adepta do rosacrucianismo, muito simpática, me adicionou no MSN. Elogiou meu trabalho no Bule Voador e minhas preocupações humanistas, efusivamente.
A conversa durou pouco mais de uma hora. Pediu-me discrição, para não publicar a conversa na internet, o que nem precisava ter pedido. No entanto, não creio que falar sobre a conversa, sem citar o nome da pessoa (nem mesmo revelando seu gênero) transgrida esse pedido. Muito menos divulgar a natureza do que a pessoa me falou.
Dito isto, vamos ao relato. Vou chamar a pessoa de “HW”.HW me perguntou se eu concordava que o universo e o conhecimento científico sobre ele é algo fascinante e adorável. Concordei, com a ressalva de que eu não usaria a palavra “adoração”, pois me parece transmitir um sinal de “subserviência e aprovação absoluta” a tudo o que está associado a isso. Adoração não é desejável, pois claramente o universo pode ser um lugar terrível. Supernovas varrem mundos inteiros, muitos provavelmente dotados de vida, já dizia Carl Sagan em “Variedades da Experiência Científica”.A conversa foi daí para algo que eu temia desde o momento em que HW revelou ser adepto da ordem Rosacruz. Disse para eu considerar a possibilidade de haver uma ciência “mais avançada” do que a que eu conheço. Uma ciência que “utiliza outros métodos, não divulgados na mídia cientifica, ou em artigos academicos atuais”.HW partiu daí para tentar me convencer de que, por ter sido uma “filha” da alquimia, a química de hoje herdou os feitos dos alquimistas. Ao menos se eu tivesse uma mente aberta, insinuou HW, eu poderia aprender que conhecimentos foram gerados pelos alquimistas desde que química se separou da alquimia – a alquimia, supostamente, hoje é muito mais que a “mãe” da química. Os alquimistas estão chegando, são discretos e silenciosos.
Um resumo do que respondi:- Delimitar o que é ciência é tarefa da filosofia da ciência. As teorias filosóficas que fazem isso são conhecidas como critérios de demarcação. Dos critérios de demarcação que conheço, nenhum aprovaria as crenças do rosacrucianismo. Não é fácil propor um critério de demarcação. Filósofos como Popper, Kuhn e Lakatos levaram carreiras inteiras propondo e defendendo seus critérios. Então, é irrelevante se em reuniões ultrassecretas e excitantes os rosacrucianistas aleguem que sua doutrina é uma ciência, pois não basta falar a palavrinha mágica “científico” para transformar alguma ideia em científica.- Apesar de HW alegar que é indiscutível que a alquimia é a mãe da química, respondi que na verdade é bastante discutível. Se adotamos uma interpretação refutacionista da ciência, parte do motivo da química ter se tornado uma ciência foi justamente sua rejeição do pensamento mágico dos alquimistas – uma rejeição de altas esperanças dogmáticas como a pedra filosofal e o elixir da imortalidade. Certos conceitos que não eram propriamente alquímicos, como o flogisto, também precisaram ser rejeitados. Rejeição de ideias à luz de novas observações e teorias é algo muito natural na ciência. Se a química é filha da alquimia, é uma filha muito rebelde, para dizer o mínimo.- “Não tenho intenção de ser hostil”, eu disse. “Mas é supérfluo alegar que o rosacrucianismo é uma ciência.” Perguntei se HW tinha lido este texto do Alex Castro, e se ele não via nenhum paralelo entre o que ele estava fazendo e o que é descrito pelo Alex. HW respondeu que tinha lido, sim, e gostado, mas que não via a semelhança.Aí veio a crème de la crème da discussão: HW pediu que, sob promessa de sigilo absoluto, eu fosse a uma reunião da Rosacruz, onde ele me mostraria……seres de aparência humana com 15 centímetros de altura.Eu disse que eu já sabia que esses seres existem, e nós chamamos de “fetos”. HW respondeu que eram seres que se comunicavam e andavam. Eu trepliquei que seria inútil pedir o meu sigilo, pois na presença de tais seres eu não poderia evitar publicar sobre a existência deles, pois seria um escândalo científico maior que a descoberta do Homo floresiensis – seria impossível evitar que eu quisesse descrevê-los,  nomeá-los e posicionar seu parentesco entre as outras espécies de primatas da família dos hominídeos.Expressei o desdém absoluto que tenho para com sociedades secretas como o rosacrucianismo, que misturam o elitismo quase-eugenista da Mensa com o exclusivismo religioso da ordem DeMolay. Para mim todos esses clubes do bolinha sobrenaturalistas só têm a utilidade de qualquer outro agrupamento humano: o contato social que nos é tão imprescindível quanto o alimento.Conhecimento confiável é conhecimento aberto, aquele que se deixa criticar, aquele que se deixa democratizar. Os únicos “iniciados” de que o conhecimento precisa são os iniciados na arte da curiosidade. Nada mais.O secretismo de grupos como Rosacruz só serve para mostrar que a falsidade se evapora à luz da investigação independente como Drácula ao sol do meio-dia.Fazer parte de uma espécie falível como a nossa obriga qualquer racionalista a adotar uma certa heurística: considerar falsa qualquer proposição, inclusive as feitas pelo rosacrucianismo, até justificação racional, incluindo evidências, que convença pensadores independentes e ideologicamente diversos de que a proposição é verdadeira. De preferência às claras, pois só a luz da investigação independente pode mostrar os defeitos por trás da maquiagem que damos às nossas hipóteses favoritas.Sem esperar por uma explicação mais detalhada de por que não se deve usar a palavra “científico” como se fosse uma palavra mágica para tornar crenças científicas, HW saiu da janela, tão respeitosamente como entrou, logo depois de eu propor uma descrição objetiva dos Pequeninos.
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Os Pequeninos (The Borrowers): Série exibida pela TV Cultura. Adaptada do livro de Mary Norton. Uma família de quatro pessoas minúsculas vive das sobras dos “gigantes” que moram em uma velha mansão, o casal Joe e Victoria Lender (Aden Gillett e Doon Mackichan), e seu filho Peter (Bradley Pierce). Peguei aqui.