31st of December

Não é água, é úgua


Estamos acostumados com a ideia de que a água é H2O e apenas isso, com boas razões. Duzentos anos atrás, se você perguntasse a cientistas / filósofos naturais se a água é infinitamente divisível, muitos responderiam que sim. Hoje sabemos que as moléculas dotadas de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio são o limite do que podemos considerar água, e que, havendo divisões além disso (como na eletrólise), o resultado não será água, mas outra coisa.

Podemos dizer que H2O é o limite ontológico da água nas dimensões espaciais.

Mas podemos dizer também que ainda não sabemos tudo sobre o que é água, pois não temos teorias completas do seu comportamento em condições de turbulência. A turbulência dos fluidos ainda é uma coisa que deixa os físicos perplexos.

Sabemos mesmo, então, que água é só H2O? Essa é realmente a definição de água? Aqui não há escapatória para problemas filosóficos como a definição de definição. Teorias científicas são um esforço de definir da melhor forma possível o que são as coisas que elas descrevem. Se um ser de um universo paralelo nos perguntar o que é água, mas exigir saber como a água se comporta em condições de turbulência, passaremos alguma vergonha.

Recorro ao exemplo da água quando estou pensando em propriedades humanas como sexo, sexualidade, comportamento político, autoengano, motivações explícitas, motivações inconspícuas, valores estéticos, etc.

Façamos a seguinte analogia: dada a dificuldade de gerar agora uma definição da água que dê conta da turbulência, faria algum sentido dizer que temos sim uma definição completa de água, mas que em condições de turbulência temos outra coisa que não é água, mas “úgua”? A invenção do termo “úgua” para separar o conceito de água “bem comportada” do conceito de água sob turbulência parece uma manobra intelectual no mínimo desnecessária.

Penso que a invenção de termos como “gênero” é quase perfeitamente análoga ao que descrevi sobre a “úgua”. Temos o fenômeno sexo, que nada na biologia impede que tenha implicações comportamentais, sociais e culturais. Algumas pessoas tomam a “turbulência” das relações sociais e da herança cultural e consideram que seria melhor separar sexo de “gênero”. Eu discordo, é uma atividade intelectual que não nos ajuda a ter boas definições de sexo, que precisam tomar por completo suas dimensões “bem comportadas” e “turbulentas”.

Outras analogias são uma tentativa de separar entre orientação sexual e identidade de gênero (compreendo os efeitos didáticos, mas não está claro que é uma distinção com diferença); padrão de beleza de atração sexual e “biofilia”; enfim, todas as instâncias em que algum instinto humano pode ter expressões bem além das que os genes podem influenciar de forma direta e determinante.

A ideia por trás do problema é chamada pelos filósofos de “partir a natureza em suas juntas”, ou seja, fazer descrições que não fazem distinções inúteis com motivações políticas, ideológicas ou outras; mas apenas distinções conceituais que correspondem a diferenças reais.

20th of September

A beleza é uma construção social ou temos bases biológicas para achar alguém bonito? Resposta a pergunta de leitor


Comece por partir o que você quer dizer com “beleza”. Atratividade facial e de corpos é algo que tem influência clara da biologia. Através das culturas as pessoas valorizam essas coisas de acordo com suas orientações sexuais e de acordo com os sinais de dimorfismo sexual da face e do corpo. Mulheres mais atraentes têm rostos delicados e uma razão entre cintura e quadril próxima de 0.7.* Homens mais atraentes têm rostos mais másculos e uma certa razão entre ombros e quadril (aquela história de “ombros largos”). Além, é claro, de outros sinais dimórficos claros como timbre da voz.**

Também vemos beleza em objetos e paisagens. O biólogo E. O. Wilson especula que a preferência estética por certo tipo de paisagem montanhosa com sinais de água disponível, que ele chama de “biofilia”, foi moldada pela seleção natural.*** Isso é difícil de confirmar. Mas dificilmente existe preferência ou comportamento com zero de herdabilidade, com nenhuma participação dos genes. Eles formam a arquitetura do nosso cérebro e a base sobre a qual as culturas trabalham. Na verdade, a descoberta de que não há comportamento sem influência dos genes, mesmo que pequena, é uma das maiores descobertas replicadas várias vezes na genética do comportamento.****

Muita gente gosta de apontar quadros antigos com pessoas gordas como prova de que a estética dos corpos é completamente contingente à cultura. Também estatuetas do Neolítico como a Vênus de Düsseldorf. Mas é perfeitamente possível que genes também interfiram de acordo com as condições ambientais em que tipo de corpo é considerado atraente. Até em bactérias alguns genes (especialmente em estruturas chamadas “operons”) mudam sua expressão em resposta a estímulos ambientais.

Não há um determinismo genético no sentido de um gene para cada preferência. Comportamentos nunca são influenciados por um único gene. Mas também não há determinismos culturais dessas coisas. Culturas não existem num vácuo divino acima da nossa natureza animal. Nós somos geneticamente programados para a cultura e culturalmente moldados na nossa biologia. Existe a natureza humana.

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* Referências:

Cunningham, Michael R., et al. “Their ideas of beauty are, on the whole, the same as ours”: Consistency and variability in the cross-cultural perception of female physical attractiveness.” Journal of Personality and Social Psychology 68.2 (1995): 261.

Singh, Devendra. “Adaptive significance of female physical attractiveness: role of waist-to-hip ratio.” Journal of personality and social psychology 65.2 (1993): 293.

** Referências:

Hughes, Susan M., and Gordon G. Gallup. “Sex differences in morphological predictors of sexual behavior: Shoulder to hip and waist to hip ratios.” Evolution and Human Behavior 24.3 (2003): 173-178.

Hughes, Susan M., Franco Dispenza, and Gordon G. Gallup. “Ratings of voice attractiveness predict sexual behavior and body configuration.” Evolution and Human Behavior 25.5 (2004): 295-304.

*** Wilson, Edward O. Biophilia. Harvard University Press, 1984.

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