20th of September

Rachel Dolezal: resultado de abuso infantil, pós-modernismo e redes sociais


Assisti ao documentário “O Caso Rachel Dolezal”, disponível na Netflix. Reconta a história da americana branca que atraiu a ira da maioria dos ativistas raciais americanos, e também de seus críticos, ao dizer que é negra. Por todo o ano de 2016 Dolezal foi alvo de escárnio público, além de alguns comentários anônimos ameaçadores nas redes sociais. Nos Estados Unidos, em que grande parte do ativismo aceitou o antigo critério racista de “uma única gota de sangue” na ancestralidade como suficiente para uma identidade negra, como se a condição de ser negro fosse uma contaminação hereditária em vez de uma origem participante na miscigenação, não seria de se surpreender que Dolezal fosse aceita por muito tempo como negra. Outros americanos que se dizem negros são tão brancos quanto Dolezal. O ativista Shaun King é um deles.

Shaun King, ativista antirracismo que se diz negro.

A polícia e a imprensa local acusaram Dolezal de forjar crimes de ódio contra si mesma ao presidir uma seção local da NAACP, Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [sic], uma das mais importantes organizações do ativismo racial nos Estados Unidos. Alguns colegas de Dolezal na associação estranhavam que ela recebesse tanta correspondência de ódio que não era tão intensa para os presidentes anteriores com tonalidade de pele mais escura.

Até aqui, parece que há mesmo motivo de sobra para detestar Rachel Dolezal. Como mostra o documentário, ela tentou, com bastante coragem e diligência, restaurar a sua reputação e se fazer entendida. Falhou repetidamente: toda vez que aparecia na imprensa, só aumentava a quantidade de comentários negativos contra ela. Lançou um livro, mas o livro vendeu menos de 600 cópias no lançamento. Dolezal, mãe solteira de três filhos, estava tendo dificuldades de pagar o aluguel. Até que veio o documentário, e, dessa vez, ela conseguiu: o documentário tem sucesso em mostrá-la como um ser humano na maior parte benigno e bem intencionado, embora a veracidade dos “crimes de ódio” contra ela anteriores à revelação de suas origens continue em aberto.

Dolezal cresceu numa família chefiada por um casal de fundamentalistas religiosos que usavam a vara na educação dos filhos como manda a Bíblia. O casal sempre deixou claro para Rachel, filha biológica mais nova, que ela quase matou a mãe no parto. No registro de nascimento, consta Jesus Cristo como parteiro. Pelos depoimentos de Rachel e também sua irmã adotiva negra, ela sempre foi tratada como inferior ao irmão mais velho. A irmã de Rachel mostra marcas persistentes de açoites dados pelos pais adotivos. Estranhamente, o “filho” mais velho de Rachel era um de seus irmãos adotivos negros. Para piorar a situação, as duas irmãs acusam o irmão mais velho de abuso sexual, e antes do escândalo estava tramitando uma ação judicial contra ele por isso, o que pode ter motivado os pais a vir à imprensa para expor a filha ativista como falsa negra e testemunha não confiável no caso. Quando contempla a possibilidade de voltar a se declarar branca, Rachel chora, dizendo que isso seria voltar a ser alvo da punição de seus pais.

Rachel Dolezal é, portanto, uma pessoa com problemas de identidade resultantes de abuso infantil. Mas, evidentemente, não seria assim se raça não fosse tratada como um ponto tão saliente da identidade nos Estados Unidos, cultura que a cerca. Também provavelmente não seria assim se ela tivesse conhecimentos mais objetivos sobre raça. Em vez disso, ao buscar saber mais, o que ela encontrou foi pós-modernismo: raça é uma construção social, dizem os abundantes livros sobre o tema. Se é assim, por que não poderia ser simplesmente adotada, mudada como uma peça de roupa? É adágio do pós-modernismo, movimento intelectual difuso da esquerda acadêmica, declarar todo tipo de coisa construção social. A mania é tamanha que já foi documentada em livro por Ian Hacking e, no caso da raça, é repetida até por geneticistas que deveriam saber melhor. Ao estudar a estrutura genética da humanidade, os geneticistas decidiram abandonar o termo “raça”, para se afastarem da história eugenista da própria genética. No entanto, são distinguíveis cinco ou seis grandes “estruturas” da população humana, de distintas origens geográficas, que num mundo menos politicamente correto ou traumatizado pelo racismo poderiam sem problemas ser chamadas de raças, como já são seus correlatos no senso comum. Mas não param no construcionismo social as marcas de confusão pós-moderna na cabeça de Rachel Dolezal. Ela também usa o relativismo epistemológico e abusa de subjetivismo: se sinto que sou negra, sou negra, não importa que o grupo seja definido por um fenótipo que eu não tenho, e que o nome do grupo seja o nome de uma cor que não está na minha pele. Negações da realidade como essa têm amplo apoio na intelectualidade relativista e subjetivista do mundo acadêmico — ou teria, se fossem coerentes com essas ideias. Não são coerentes, pois essas ideias são um verniz de destacamento e tudo-vale em cabeças que na verdade se comportam com muito engajamento político e absolutismo moral cheio de certezas inabaláveis. Daí inventarão complicações para negar a identidade negra escolhida de Dolezal, ou praticarão seu costumeiro autoritarismo censor, como fizeram com Rebecca Tuvel, uma acadêmica que tentou ser coerente analisando o caso com essas ideias.

Também não é possível ignorar, no caso de Dolezal, o fenômeno das redes sociais. Ela diz que as redes sociais são a última forma de continuar “no mundo” após ser ostracizada, mas isso obviamente não é verdade. Insistir na identidade controversa não deixa de ser uma forma de narcisismo, bem compatível com o show de egos das redes sociais, um ambiente tóxico para a saúde psicológica de qualquer um.

Mas não é preciso complicar. Num mundo mais racional, raça é uma coisa simples: um conjunto de fenótipos correlacionados e ligados a certas origens geográficas de distintos grupos humanos, sem fronteiras muito definidas, especialmente em caso de miscigenação. Não é uma “cultura”, embora algumas variantes culturais também possam estar correlacionadas a variantes raciais.

O caso Dolezal e tantos outros mostram uma linha imatura de pensamento do ativismo racialista em que, na esperança de eliminar o viés antinegros em todas as suas facetas, busca-se adotar marcas de fenótipo negro (incorretamente chamadas de “cultura”) como honoríficas. Se Dolezal se diz negra por adotar uma suposta “cultura” negra, por que precisa do acessório do cabelo de textura mais típica do fenótipo negro? Isso não é cultura, é biologia. Nesse ativismo imaturo, pensa-se que o remédio contra um viés antinegros é um viés pró-negros excessivo, que termina por tratar negros com condescendência infantilizante e que alimenta a identidade de coalizão racial, o que por tabela mantém vivo o racismo. Para diminuir o racismo ao mínimo possível, é necessário jogá-lo fora junto com esse tipo de ativismo e esse tipo de coalizão. As verdadeiras ferramentas antirracismo estão no estímulo a outros tipos de identidade social que não a raça: time de futebol, religião, partido político, associação de moradores, etc. O problema é que essa solução respaldada pela ciência não tem o mesmo sucesso em dar carreiras para ativistas, e ativistas profissionais naturalmente não gostarão de soluções que tornam as suas carreiras obsoletas.

Se depender da obsessão com a raça tanto de racistas quanto de antirracistas, Dolezal continuará sofrendo em sua confusão identitária.

P. S.: Por que o foco em raça mantém vivo o racismo?

“Estudos anteriores estabeleceram que as pessoas codificam a raça de cada indivíduo que encontram, e o fazem através de processos computacionais que parecem ser tanto automáticos quanto obrigatórios. Se verdadeira, essa conclusão seria importante, porque a categorização dos outros por sua raça é uma pré-condição de tratá-los diferentemente de acordo com a raça. Aqui, relatamos experimentos que, usando medidas discretas, mostram que a categorização de indivíduos pela raça não é inevitável, e apoiam uma hipótese alternativa: que a codificação pela raça é na verdade um produto reversível de um maquinário cognitivo que evoluiu para detectar alianças de coalizão.

Os resultados mostram que os indivíduos codificam afiliações de coalizão como uma parte normal da representação de pessoas. De forma mais importante, quando pistas de afiliação a coalizões não seguem nem correspondem mais à raça, os indivíduos reduzem marcadamente a medida da categorização dos outros peça raça, e de fato podem parar totalmente essa categorização.

Apesar de passar a vida inteira usando raça como um preditor de alianças sociais, menos de quatro minutos de exposição a um mundo social alternativo foram suficientes para diminuir a tendência a categorizar pela raça.

Esses resultados sugerem que o racismo pode ser um constructo volátil e erradicável que persiste apenas se for ativamente mantido através da associação a sistemas paralelos de aliança social.”

Este é o resumo do artigo de 2001, publicado na PNAS, de Robert Kurzban, John Tooby e Leda Cosmides (ênfases minhas). Os resultados do artigo foram replicados com sucesso em 2014 por Wouter Voorspoels e colaboradores.

O estudo sugere que a política identitária racialista, que é o tratamento da raça como um fator saliente de identificação social, é diretamente responsável pela manutenção e perpetuação do racismo, não importa quão boas sejam as intenções.

A maioria dos ativistas anti-racismo está enganada. Como dizia o próprio Milton Santos muito antes desse estudo ser publicado, insistir em uma identidade “afrobrasileira” em vez de apenas brasileira não é algo que ajuda a combater o racismo realmente. Sem falar no governo categorizando as pessoas pela raça e as tratando difereciadamente com base nisso…

E mais: o desdém dos intelectuais pelas atividades de coalizão populares que nada têm a ver com raça está, desse ponto de vista, completamente errado também. Quanto mais as pessoas se identificarem como torcedoras de times de futebol, membros da associação de bairro e até igrejas, membros de algum clube besta pra se sentirem importantes, melhor. Isso do ponto de vista de combater o racismo, que não parece ter bases biológicas diretas. As bases indiretas são um tribalismo genérico que pode ser aplicado a qualquer coisa.

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