16th of December

Por que não faço parte do Movimento Zeitgeist


O email abaixo, que mandei para a lista da diretoria da LiHS meses atrás, explica por que eu não acredito no Movimento Zeitgeist.
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Peter Paul Rubens – A queda de Ícaro (1636)
Muito pouco cético e científico, pelo que estou vendo. Não se esqueçam que é o autor da série Zeitgeist, aquela do monte de falácias.
No dia em que humanismo secular depender de uma pregação dogmática como a do Zeitgeist eu pulo fora.
” Nossa missão é alcançar um sistema social que funcione sem dinheiro ou política, ao mesmo tempo em que permita que a superstição desapareça por conta própria conforme a educação avança. Ninguém [EXCETO OS FILMES ZEITGEIST, APARENTEMENTE] tem o direito de dizer aos outros em que acreditar, pois nenhum ser humano tem a compreensão completa de nada. Entretanto, se prestamos atenção aos processos naturais da vida, vemos então como podemos nos alinhar com a natureza e assim nosso caminho fica mais claro.”
Utopia de anarquista. O mal do anarquista é pensar que ideias fechadinhas vão ser digeridas e aceitas por todos os seres humanos da mesma forma, que todos vão mudar pela linda arte da persuasão, e que então vão largar suas crenças antigas e ultrapassadas, inclusive comportamentos nocivos, sem precisar de nenhum tipo de Estado.
Na cabeça utópica do anarquista, a motivação natural vai levar à realização de tudo o que precisa ser feito no mundo. A ‘novidade’ é: muitos trabalhos são insuportavelmente difíceis e cansativos, e nada melhor substitui o dinheiro (esta “ficção” útil de poder alcançar mais que os outros mortais) para fazer esta motivação ir até onde ela não iria naturalmente. O dinheiro é uma promessa de mais liberdade e poder que encontra resposta num anseio das pessoas, e isso, quer queiram os zeitgeististas ou não, é algo provavelmente inato no ser humano.
Se eles pensam que podem mudar isso, isso faz deles eugenistas.
“o crescimento populacional é tão ruim assim? A resposta é: de uma perspectiva científica, o planeta pode suportar muito mais pessoas se necessário, desde que façamos uso da alta tecnologia. 70% da superfície do nosso planeta é coberta por água e as cidades no mar (um dos muitos projetos de Jacque Fresco) são o próximo passo.”
Projetos que podem demorar séculos para gerar cidades viáveis, e no percurso trazer inúmeras mortes por falhas da tecnologia.
Muito, mas muito mais fácil mesmo, é admitir que o crescimento populacional É SIM um problema já HOJE, e é um problema maior ainda para a riqueza de espécies no planeta. Para resolver isso, vai bastar dar mais educação às pessoas (isso os zeitgeististas sugerem), legalizar o aborto, e oferecer a elas carreiras que atendem a seus anseios – sejam estes ter apenas mais dinheiro, ou (como no meu caso) saber mais sobre algum assunto por pura curiosidade, ou construir uma família, ou simplesmente ter uma ordem na vida que preencha a rotina antes que a morte venha.
Seres  humanos lutaram por séculos antes que essa luta incessante por interesses em conflito fosse feita com menos sangue. A resposta para este problema foi batizada de dinheiro, não de “ouça minha filosofia e veja como é sensata”. O Irã ouve o Brasil porque tem relações comerciais, e não porque está interessado nas nossas filosofias morais.
Ninguém foi convencido a ser capitalista. O capitalismo é o único sistema econômico que não precisou de teórico para surgir. Até morcegos e macacos medem a troca de favores e punem quem não arca com suas dívidas. Macacos, inclusive, não gostam de observar um outro recebendo mais comida – e eu andei lendo no livro de “orientação ao ativista” deles que eles alegam que a inveja é puramente cultural e passada por doutrinação.
É melhor guiar o capitalismo para que seja menos nocivo, sendo realista de que ele provavelmente surgiu de um misto entre necessidades inatas e sistemas culturais, do que aparecer com mais um sistema dogmático tentando converter a humanidade, como fez Marx, e como está fazendo o Zeitgeist pelo visto, dizendo que o futuro é a linda anarquia tecnológica apolítica.
Enfim, o vídeo do Movimento Zeitgeist sobre as Eleições 2010 ( http://www.youtube.com/watch?v=hBSiuwM4kuc&feature=player_embedded ) é um chamado a escolher o tal do “método científico” para guiar a sociedade, e extinguir a “política” porque os políticos supostamente são inúteis.
Em primeiro lugar, a existência dessa coisa chamada método científico é bastante questionável*. Os conhecimentos científicos são julgados, no fim, pelas previsões que fazem (o que inclui tecnologia), mas todas as tentativas filosóficas do século XX falharam em estabelecer que há um critério único de se fazer ciência, uma tábua da lei da ciência. Um dos maiores desafios a dito método científico é que a observação pura, sem impregnação de teoria, simplesmente não existe. Como diz o filósofo Elliott Sober, para observar se uma galinha está morta, é preciso já ter uma teoria sobre o que é uma galinha e uma teoria sobre o que é a morte. Ciências são conhecimentos que resolvem problemas fazendo previsões, e, neste sentido, pode-se dizer que a política é uma ciência e o sistema de leis e fiscalizações que o Estado mantém e os zeitgeististas acham tão inútil pode ser uma “teoria científica do melhoramento social”.
Esta nova ideologia dos ateus-anarquistas-apolíticos-ambientalistas-zeitgeististas me parece sofrer dos mesmos problemas do cientificismo, da eugenia e do futurismo. Bertrand Russell, no livro Icarus, critica algumas dessas ideologias.
O vídeo que passei acima é de uma ingenuidade monumental. É fácil frustrar as altas esperanças dos zeitgeististas: é só lembrar que os cientistas também não têm respostas para boa parte das perguntas que eles notam tão alegremente que os políticos não sabem responder. Ser cientista não significa saber lidar com problemas complexos de gestão social, e extinguir a classe política não cria a sociedade perfeita que eles criaram em suas animações 3d.
Ser cientista significa saber quais perguntas podem ser feitas hoje, para as quais é possível dar soluções, previsões, modelos. Isso se aproxima, de algumas formas, à atividade dos filósofos, que usam à exaustão suas capacidades analíticas e racionais para saber que respostas e soluções a filosofia pode oferecer.
Se eu estiver errado quanto a tudo o mais, ainda assim o movimento Zeitgeist estará errado por sua megalomania apressada. O prazo mínimo para conseguirem certas coisas que pregam é não de dez ou vinte anos, mas de 100, 200, 500 anos. Ser pessimista em matéria de prazo para implantação de novidades científicas funciona para coisas com a magnitude de construir cidades inteiras sob a água para compensar pela falta de espaço em terra. Basta lembrar do quanto erraram pessoas como Arthur C. Clarke em algumas previsões que fizeram (2001 com robôs com capacidades cognitivas por exemplo).
Sendo estes os prazos efetivos para a implantação das transformações que pregam, resta perguntar: a simples motivação altruísta, que dizem que será a substituta perfeita para a “cenoura pendurada” do dinheiro, será suficiente para manter as pessoas trabalhando conscientemente para extinguir a classe política e implantar a sociedade do método científico, mesmo estas pessoas sabendo que morrerão sem ver resultado significativo  no prazo de suas vidas?
Eu, que sou um cientista em formação, tenho noção de que poderei morrer sem ver algumas das respostas mais relevantes na minha área de atuação. Para isso não ser motivo para me desmotivar, persigo assumidamente os atrativos que a minha profissão tem a oferecer: alguma saciação para a curiosidade que sempre me acompanhou, desafios no lugar de tédios, prestígio social, e algum dinheiro (provavelmente não muito) que poderei usar para acumular coisas quaisquer que me interessem. Não estou fingindo ser o baluarte da pesquisa desinteressada, sou um curioso ganhando dinheiro pra trabalhar nas perguntas que mais atiçam a luxúria de saber. Sem a luxúria ou sem o dinheiro, não estaria fazendo nada disso.
O que se pode inferir do discurso do Movimento Zeitgeist é que esperam eliminar as luxúrias e invejas das pessoas, por alguma coisa que eles muito dificilmente admitiriam que se parece com a eugenia cientificista, convencendo quem eles pensam ser tábulas rasas a fazer o maior dos sacrifícios para eles, que é dedicar toda uma vida a uma promessa que não estaremos aqui para ver se concretizar.
Eu também quero as futuras gerações vivendo em lindas cidades tecnológicas e ecologicamente sustentadas, em que tudo funciona tão perfeitamente que leis e políticos não são necessários. Não significa que o que eu quero é possível, muito menos que será atingido através de filmes na internet.
Abraço,
_______
Eli

* Para um resumo sobre o fracasso em estabelecer um conjunto de regras que valessem para todas as ciências, ou seja, um método científico, sugiro: ler “Breves considerações sobre a natureza do método científico”, de Antonio Augusto Passos Videira, em “Estudos de História e Filosofia das Ciências” – Cibelle C. Silva (org.), 2006, pp. 23-40.

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