15th of January

“Negacionistas” não são a maior ameaça à compreensão pública de ciência Sobre a apresentação enviesada do que realmente fica do caminho de um público mais bem informado


O termo “negacionismo” não é nenhum termo técnico que resulte de pesquisa sobre as atitudes das pessoas em relação às proposições dos cientistas. Se “negacionistas” são pessoas que continuam acreditando em alguma falsidade mesmo diante de evidências abundantes de que é mesmo uma falsidade, “negacionistas” são raros. A maioria das pessoas que têm interesse de ignorar alguma conclusão baseada em dados suficientes e argumentos cogentes ignora o que não quer ouvir da ciência através da desenfatização de evidências.

Temer o “negacionismo” em vez do “desenfatizacionismo” é um erro análogo ao de quem tem mais medo de leões do que do Aedes aegypti no Brasil. O leão pode parecer uma fera medonha em vídeo, e podemos encontrar casos de pessoas mutiladas e mortas por suas presas. Mas é raríssimo por aqui, especialmente algum leão livre para andar pelas nossas ruas. Já o Aedes é comum, a picada não dói, produz apenas uma coceirinha, mas o resultado da picada pode ser dramático: Chikungunya, Zika e Dengue Hemorrágica. Assim como temos mais mosquitos que leões, temos muito mais desenfatizadores de evidências, que desenfatizam por vieses diversos – especialmente religiosos e políticos – do que criacionistas de terra jovem e terraplanistas no campo dos negacionistas.

Por exemplo, um colunista da Carta Capital, como bom membro caricato da turma da “justiça social”, respondeu a mim, quando divulguei mais resultados sobre diferenças cerebrais e comportamentais entre homens e mulheres, que “ninguém nega que há diferenças fisiológicas”. Fisiológicas! E quando eu disse que a coisa vai muito além de “fisiologia”, ele prontamente se pôs a esticar o que quer dizer “fisiologia” para incluir neurociências e ciências cognitivas dentro dela. É assim que se desenfatiza o que não se quer ouvir.

E isso vem de todos os lados. São truques lógicos que as pessoas tendem a usar para manter intactas as suas crenças quando elas conflitam com fatos. É uma tendência tão terrível quanto ubíqua. No grande campo de quem estuda as contribuições de natureza (genética) e cultura (ambiente) para o comportamento humano, há um enorme medo de se estar cometendo algum “ismo” horrível ao se atribuir qualquer papel à genética. Então temos um estranho fenômeno: até entre os pesquisadores da genética, há um duplo padrão de rigor para explicações hereditárias e explicações de cunho sócio-cultural-ambiental: para as primeiras lembra-se o tempo todo que correlação não implica necessariamente causa; já para as últimas, é perfeitamente aceitável fazer conclusões causais pelas portas dos fundos das correlações. São dois pesos e duas medidas de rigor: uma que afaga nossos vieses, outra que é uma arma contra nossos percebidos adversários.

E é importante saber que os desenfatizadores ou aplicadores de dois pesos de rigor não são só os leigos: eles circulam na academia, estão entre os cientistas, entre as pessoas que deveriam dar exemplo de rigor intelectual e vigilância contra seus próprios vieses.

Em 2002, Caspi e colaboradores descobriram, por exemplo, que um alelo associado à baixa atividade da enzima Monoamina Oxidase A (MAO-A), que atua no cérebro, estava também associado a tendências violentas dos indivíduos que o carregavam. Interessantemente, os dados indicavam que alguns portadores do alelo não tinham essas tendências, especialmente quando não criados por famílias abusivas. Concluiu-se, então, que era um gene que predispunha seus portadores a comportamentos violentos, mas somente se recebessem um gatilho ambiental de serem criados por progenitores violentos. “Que ótimo”, celebrou a comunidade de pesquisa. “Aí está um exemplo excelente do enorme papel do ambiente ao mediar os recursos genéticos”. Mas o problema é que a hipótese de este ambiente familiar ser causa importante e direta do fenótipo violento, no caso, sequer havia sido testada. Apesar disso, os autores estavam contentes em eleger esta causa como a explicação mais plausível. Pouco se discutiu outra hipótese: além de herdar o ambiente violento, as crianças também estavam herdando os genes dos pais violentos, de modo que poderia haver uma “correlação ativa” de um ambiente com um genótipo, em que o ambiente é causado por esse genótipo paterno, e o mesmíssimo genótipo nas crianças repetiria as tendências violentas e o ambiente violento, num ciclo vicioso de base genética mais importante que os efeitos ambientais. É uma hipótese. Mas é uma hipótese mais feia do que dizer às pessoas que no fim das contas o que importa realmente é o ambiente (que é o que geralmente querem ouvir). Daí um duplo padrão de rigor, a depender de a hipótese sob análise favorecer genes ou ambientes como fontes causais do que se observa. Daí uma desenfatização seletiva de evidências, ao gosto do freguês.

Outro exemplo, mais recente, foi a manifestação dos especialistas quando se perguntou a eles por que, nas notas mais altas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), há mais pessoas do sexo masculino do que do feminino. O viés de desejabilidade social, que alguns chamam de politicamente correto, dita aqui que é perigoso e arriscado dizer que há razões biológicas para mulheres e homens diferirem quanto à inteligência, ou que a nota do Enem poderia refletir, além do esforço dos estudos, também inteligência. Daí os especialistas usam linguagem de tabu:

“‘A explicação não deve ser buscada na Biologia, embora cérebros de homens e mulheres não sejam iguais. Mas isso não afeta a cognição, em áreas do raciocínio lógico, muito menos na inteligência’, diz o professor titular de neurociência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Roberto Lent. Para ele, o que mais influencia são as posições da família e os estereótipos da sociedade.” (Do Estadão, ênfase minha.)

A afirmação de que a diferença (em média) dos cérebros de homens e mulheres não afeta a cognição na inteligência é falsa. Que fique claro: na média do QI há nenhuma ou pouca diferença entre homens e mulheres. Mas homens variam mais em QI que as mulheres (e QI é uma medida de inteligência com amplo apoio em evidências replicadas, é uma das áreas de maior replicação da psicologia). A variação na inteligência é uma coisa mensurável, e essa medida da variação (variância) é maior entre homens que entre mulheres. O que se espera disso é que, quando se seleciona a porção das maiores notas do Enem, haja mais  homens, pois a variação das mulheres se concentra mais em torno da média.

O fenômeno da maior variação no sexo masculino em várias características, especialmente as relacionadas ao sexo e ao sucesso reprodutivo, tem explicações evolutivas. Ou seja, tem boas explicações biológicas que têm a ver com a seleção sexual e o papel do sexo feminino de sustentar a prole enquanto dentro do útero.

Isso não quer dizer que alguma diferença social é explicada em todo ou em parte majoritária pela biologia. Isso precisa ser testado, de preferência sem tabus. O método da herdabilidade é um bom método para prospectar inicialmente a partição de variâncias explicáveis por biologia ou cultura, e é um método largamente ignorado por construtivistas sociais, que preferem se fechar numa bolha fazendo estudos “qualitativos”. Deixar a biologia de fora em dados como esses do Enem é aplaudir a ignorância, e estabelecer que a biologia não deve ser buscada é papel de pregador moralista, não de cientista. Nós podemos ter a discussão paralela de que os resultados podem inspirar más aplicações que potencialmente afetam a vida de indivíduos. Mas é obscurantismo não separar a discussão moral da busca desinteressada pela verdade. Jogar fora a navalha de Hume é voltar a um estado pré-científico e pré-iluminista, é tomar partido da proverbial Igreja da época da Renascença em vez de ficar do lado de Galileu.

A compreensão pública da ciência é mais afetada por milhões de pequenas picadas dos mosquitos da representação enviesada de resultados, da desenfatização de dados e evidências que estão em dissonância com os interesses dos divulgadores, pesquisadores e do público, do que por negacionistas teimosos que batem o pé diante de evidências de que estão errados. E quem fala contra os vieses do próprio enxame é alvo de ostracismo, quando não silenciamento.

5th of December

Transexuais: resumão do resumão


– A pesquisa ainda está só no começo, o que mostra irresponsabilidade no ativismo da área, que decreta como verdades inquestionáveis coisas que ainda estão sendo pesquisadas.

– Um dos pesquisadores mais respeitados da área é o Dr. Ray Blanchard. Ele classifica trans “masculinas para femininas” como em dois tipos principais (não descartando que pode haver outros tipos)¹:

1. Transexual homossexual. Esse tipo se encaixa na narrativa ativista de pessoas que “nascem no corpo errado”. Há evidência disso? Algumas. Há alguns núcleos do hipotálamo em que pessoas nascidas com pênis que querem ser aceitas como mulheres (mulheres trans) são mais parecidas com mulheres nascidas com vagina do que com homens.² No entanto, as poucas evidências disponíveis não apontam somente nessa direção, embora pareçam apontar mais nessa direção do que ao contrário. Há um estudo indicando que há certos aspectos do cérebro de mulheres trans que se assemelham mais aos cérebros dos homens.³

Há razões teóricas que levam à previsão de que transexuais desse tipo existam: machos variam mais que fêmeas. Tanto que há machos que se distanciam tanto da média dos machos que são na verdade fêmeas. Isso é corroborado pela maior incidência de transexuais masculino->feminino do que feminino->masculino.

2. Autoginecófila. A autoginecofilia é um termo que em sua raiz indica um “amor por si mesmo quando mulher”. Esse tipo de transexual rompe com a narrativa dos ativistas sobre “corpo errado”. A razão de as autoginecófilas quererem ser mulheres é sexual, neste caso é uma identidade que vem de uma orientação sexual. Elas preferem mulheres, e querem ser mulheres. Talvez, uma forma branda disso são homens que sentem tesão em se vestir de mulher. É simplificação dizer que isso é um “fetiche” porque as autoginecófilas estão propensas a querer fazer intervenções cirúrgicas para ficarem mais femininas. Por exemplo, um caso relatado pela pesquisadora Alice Dreger é de uma autoginecófila que chegou a ter raspado cirurgicamente o osso acima dos olhos (osso frontal) e sentiu um prazer enorme quando foi tomar banho e o xampu entrou em seus olhos.4 A atenção ao sexo do corpo é tamanha que ela percebeu, como poucas pessoas sabem, que esse osso age como um “guarda-chuva” nos olhos de muitos homens quando tomam banho. Há algo de similaridade entre elas e os “modificadores corporais” de outros tipos.

– A maioria das crianças que manifestam disforia de gênero (desconforto com o sexo do próprio corpo) na infância não se torna transexual na vida adulta.5 A disforia se resolve sozinha e boa parte delas se revela gay na puberdade. É por isso que é preocupante a onda de intervenção hormonal em “crianças trans”. Obviamente, uma minoria não resolve a disforia sem passar por terapia com hormônios sexuais e cirurgias, mas é melhor que isso só aconteça na vida adolescente/adulta.

– Alguns pesquisadores acreditam que, por causa da politização e atenção exagerada que o tema está ganhando, algumas pessoas com transtornos de personalidade, especialmente no espectro do autismo, podem se convencer de que têm disforia e desejam transicionar.6 É um fenômeno novo, similar à epidemia de bulimia dos anos 90: até o criador do termo “bulimia” acredita que ele ter criado o termo e o diagnóstico foi algo que CAUSOU que cada vez mais casos aparecessem. Evidência de que é coisa nova: essas pessoas geralmente não manifestaram disforia nenhuma na infância. Algumas se arrependem, e esse arrependimento às vezes termina em tragédia.

– Pela ignorância diante da falta de pesquisas e pelo emburrecimento que a politização causa, o tema está cada vez mais delicado. Os profissionais de saúde tentam seguir o pragmatismo de que o que fizer a pessoa sofrer menos é o melhor. Mas muitas vezes esses profissionais ignoram que há efeitos colaterais nos tratamentos de transição. E que coisas como a voz alterada por hormônios jamais voltam a ser o que eram antes. Ou seja, as profissões da saúde podem causar danos ao se politizarem: seja com a paranoia ultraconservadora de que isso tudo é plano do “globalismo” e da “ideologia de gênero”; seja com a empatia sem cérebro do ativismo que quer que tudo seja decidido com base na subjetividade do paciente, até quando essa subjetividade é volúvel, transtornada e mudará no instante seguinte.

 

Referências:

1 – Nuttbrock, Larry, et al. “A further assessment of Blanchard’s typology of homosexual versus non-homosexual or autogynephilic gender dysphoria.” Archives of sexual behavior 40.2 (2011): 247-257.

2 – Bao, Ai-Min, and Dick F Swaab. “Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders.” Frontiers in Neuroendocrinology 32, no. 2 (April 2011): 214–26. https://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007.

3 – Luders, Eileen, et al. “Regional gray matter variation in male-to-female transsexualism.” Neuroimage 46.4 (2009): 904-907.
APA

4 – Dreger, Alice. Galileo’s Middle Finger: Heretics, Activists, and One Scholar’s Search for Justice. Penguin Books, 2016.

5 – American Psychological Association. “Guidelines for psychological practice with transgender and gender nonconforming people.” American Psychologist 70.9 (2015): 832-864. http://dx.doi.org/10.1037/a0039906

6 – Marchiano, Lisa. O preocupante caso da transexualidade socialmente contagiosa. Xibolete, 2017. https://xibolete.uk/trans

26th of November

“Xadrez Verbal” me faz ataques pessoais por causa de uma crítica construtiva


Ganhei de presente um texto no Xadrez Verbal, cuja metade é dedicada a me fazer ataques pessoais. Estou lisonjeado, mas não vou responder na mesma moeda, vou explicar o que houve, para quem quer saber e vem me perguntar (geralmente incrédulo) por que estou sendo tão “inflexível” e “chato”.

O Nerdologia versão história fez um vídeo sobre a revolução comunista de 1917. Eu elogiei o vídeo (pois é), mas disse que caberia chamar o que houve em outubro daquele ano (novembro no atual calendário) de “golpe bolchevique”, ou “golpe de outubro”. Afinal, foi uma manobra de um partido que tinha ganhado minoria de votos, os bolcheviques, planejada a portas fechadas.

Eu passei referências que chamam o golpe bolchevique de golpe, e ainda passei que o termo utilizado pelos próprios bolcheviques se traduz melhor como “golpe de outubro”, e que curadores do Hermitage Museum em São Petersburgo chamam também de golpe (exatamente com esse mesmo argumento de que os próprios bolcheviques chamavam assim, e que a tradução para “revolução de outubro” é mais produto de propaganda soviética do passado do que de um interesse em traduzir os termos de forma precisa – afinal, existe uma palavra cognata para “revolução” na língua russa, e não foi a usada pelos bolcheviques).

Meu outro ponto foi sobre o uso da língua como soberano na determinação do sentido das palavras. Remova os atores e pergunte ao falante do português comum que nome tem uma tomada de poder planejada a portas fechadas por um partido que obteve minoria de votos. “Golpe” será um dos termos usados. “Revolução”, dificilmente.

Dado tudo isso, é muito de se estranhar que historiadores façam escolhas de termos técnicos (em última análise sempre arbitrárias e criticáveis, em biologia por exemplo “evolução” foi uma péssima escolha de termo) que transformem um evento que falantes da língua chamariam de golpe em “outra coisa” (ou seja, criariam confusão abusando da língua desnecessariamente para fazer jargão acadêmico). Eu não planejo tentar mudar o termo “revolução” no caso para “golpe” no jargão já estabelecido, assim como não planejo que “evolução” em biologia volte a ser “descendência com modificação”. Tentar isso seria enxugar gelo. Mas critico essa escolha de termos, especialmente quando “revolução” tem uma conotação mais positiva que “golpe”. Parece uma observação importante, dado que o evento histórico em questão iniciou na prática uma cadeia de eventos (inclusive intelectuais) que culminou na morte de mais de 90 milhões de pessoas ao redor do mundo.

Finalmente, outro ponto meu é que, se formos seguir os conceitos apresentados à risca, fica evidente que os termos escolhidos para outros eventos históricos não estão em conformidade com eles. A definição de revolução do Xadrez Verbal (que ele alega ser “consensual” – me pergunto se historiadores liberais foram consultados) diz, até onde me lembro, que o sistema de governo teria de mudar substancialmente. Primeiro, nenhum critério realmente objetivo para quantificar o quanto mudou é dado. Segundo, quando houve a redemocratização do leste europeu pós-União Soviética, até onde sei ninguém chamou aquilo de revolução mesmo que o sistema tenha mudado dramaticamente.

Por que, em vez de se aferrar a jargão acadêmico, não reconhecer que o uso dos termos pelos falantes de uma língua é soberano em determinar o significado dos termos fora da academia? Por que divulgadores de conhecimento ignorariam o conflito entre definições acadêmicas e definições populares (com uso bem mais frequente) de certas palavras?

Finalmente, para concluir, eu de fato aleguei que isso tudo demonstra um viés político do autor do vídeo, e ainda acredito nisso. Se só uma minoria de historiadores usa “golpe bolchevique”, o fato de que são minoria não é demonstração de que estão errados. Na minha percepção, é uma demonstração de que respeitam um pouco mais como as pessoas comuns usam a língua fora da torre de marfim.

Onde eu errei? A minha alegação de que o termo “bolchevique” era uma “mentira” porque significa “maioria” e obtiveram uma minoria de votos na ocasião parece presumir que eu sei que inventaram o termo com propósitos escusos. Mas o termo é anterior e vem de uma ocasião em que obtiveram apoio majoritário. Dá para ajustar o que eu disse para: “soa mentiroso que um partido que obtém minoria de votos chame a si mesmo de ‘maioria'”. Pronto, problema resolvido. Outro ponto é que eu chamei a instituição formada pelos votos logo antes do golpe de parlamento, quando isso é tecnicamente não verdadeiro, sendo a instituição mais similar a uma assembleia constituinte ou coisa do tipo. Tudo bem, eu observarei meu uso do termo “parlamento” de uma forma mais estrita da próxima vez.

Outra discussão é se a “revolução” foi “popular” e se encaixaria nas definições marxistas de um “proletariado” tomando o poder. Alega-se que foi popular e ‘canônica’ porque os sovietes aos quais os bolcheviques apelaram mais tarde com bastante propaganda eram formados por trabalhadores. Mas os sovietes também eram formados por militares descontentes com a falta de pagamento do czar. Até onde sei, forças armadas não se encaixam em “proletariado”. Aliás, a coisa toda na Rússia e na China foi bizarra até para marxistas mais ortodoxos, pois a previsão (messianismo historicista) é que a “revolução” acontecesse onde o capitalismo estivesse mais avançado: basicamente Reino Unido e Estados Unidos. É por isso que intelectuais de esquerda como Chomsky dizem que o que houve desde o começo foi uma “deturpação de Marx”, começando em Lênin, que também fazia as vezes de intelectual e escrevia livros ridículos xingando todos os cientistas e acadêmicos que pudesse citar de “reacionários” se não concordassem com seu projeto de poder.

Ufa! É isso. Por hoje é só.

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Referências:

William G Rosenberg, um dos historiadores que chamam de golpe. http://www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/240207…

Elena Salomakha, do Departamento de Manuscritos e Documentos do Hermitage Museum, São Petersburgo, fala sobre o resgate do termo “golpe de outubro”: https://www.youtube.com/watch?v=RENlfILCzv8&t=17s

Termo original dos bolcheviques: Golpe de outubro (Октябрьский переворот). Como o termo seria se tivessem chamado de Revolução de Outubro: Октябрьская революция.

10th of November

Por que sou contra a criminalização “da homofobia” Boas intenções escondem um cavalo de Troia de autoritarismo


Começou uma mobilização partidária pela “criminalização da homofobia”.

Trata-se de modificar a lei 7.716/1989* e incluir orientação sexual numa lista de categorias já protegidas. Eu li a lei na íntegra e meu principal problema com ela é este artigo:

Art. 20. [É crime] Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Isso é demasiado vago. O que seria, por exemplo, “incitar o preconceito”? Uma piada que brinque com o estereótipo (preciso) de que homens gays são mais promíscuos seria uma indução ao preconceito?

A lei já é vaga o suficiente para ser interpretada de modo a censurar ateus, por exemplo. É por sorte que as associações de ateus não tenham sido censuradas ainda, especialmente a ATEA, que é cheia de deboches. Basta os evangélicos terem sucesso em seu projeto de poder para os ateus começarem a pagar o preço de os juízes, sob influência evangélica, começarem a interpretar a lei dessa forma, e ela dá ampla abertura para interpretações expansivas e injustamente limitadoras da liberdade de expressão. E nem é a única lei problemática que temos para a liberdade de expressão nesse campo específico de críticas às religiões, temos um artigo do Código Penal (208) que diz que é crime

Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.**

Se este artigo não fosse letra morta pelas práticas de agora, eu já estaria na cadeia por ter criado uma paródia do Smilingüido focada nas piores passagens da Bíblia, o Smilinguarudo. Mas não quero depender da boa vontade da jurisprudência atual: quero que na reforma do Código Penal caia o artigo 208, e que também se reveja o artigo 20 desta lei em nome do direito à liberdade de expressão.

Como o que querem é incluir orientação sexual nesse rol de assuntos para os quais a lei daria ‘direito ao cala-boca’, sou contra “criminalizar a homofobia”. Sou a favor de criminalizar, por exemplo, discriminações objetivas como demissões de pessoas por serem LGBT. Mas não as palavras ofensivas de ninguém, pois esse seria o primeiro passo para criminalizar pensamentos.

Quem faz parte de um grupo que demorou muito a ter plena liberdade deveria valorizar um pouco mais a liberdade de todos, inclusive a de dizer coisas ofensivas contra o grupo.

 

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* A lei aqui.

** O código aqui.

28th of October

Simbolismo, um delírio Sobre casos de apego irracional a símbolos acima do que importa mais que eles


O caso recente da assim apelidada “ração humana” do prefeito de São Paulo, João Dória, motivou-me a escrever sobre algo que me incomoda há um tempo: o apego irracional a símbolos.

No caso, o que temos é uma forma que o prefeito encontrou de aproveitar comida prestes a ter a validade vencida e alimentar pessoas muito pobres. O processo envolve a liofilização, que é o congelamento seguido de sublimação (passagem do estado sólido direto para o estado gasoso, sem transição líquida) que prejudica o crescimento das bactérias e prolonga a validade da comida. O resultado, dizem os críticos, parece ração de cachorro ou gato, e por essa semelhança consideram que o que o prefeito está fazendo tem pouco a ver com alimentar famintos ou evitar o desperdício de comida, mas muito a ver com “desumanizar simbolicamente” os famintos. Parece que, para esses críticos, pouco importa as consequências do processo no mundo, devemos prestar atenção numa mensagem simbólica imaginária.

O caso contém claramente o que eu chamei de “sadismo interpretativo”: se uma ação ou expressão leva a uma série de interpretações possíveis, o sádico interpretativo escolherá a pior interpretação possível para ferir o autor da ação ou expressão. É um modus operandi da atividade de interpretar que a irracionaliza para outros fins que não o de descobrir a verdade. No caso, fins políticos, de marcar pontos na disputa tribal política do país, já que Dória é visto como possível pré-candidato à presidência que supostamente seguiria uma linha liberal (como liberal eu rio disso, pois ele não tem tomado medidas liberais com tanta frequência quanto eu gostaria) e de direita (entenda-se “direita” aqui como xingamento da esquerda tradicional, mais que diagnóstico preciso de filiação política).

Por que é sadismo interpretativo alegar que o produto da liofilização é “ração”? Porque existem outras coisas que parecem com o produto. Aqui em casa tenho torrões de carne de soja que são idênticos, por exemplo. Posso começar, em tom acusatório, a alegar que está havendo uma vegetarianização simbólica compulsória dos paulistanos pobres?

Outro exemplo de apego irracional a símbolos é o de alguns religiosos quando respondem com revolta a algum “artista” do tipo performer/arte moderna/arte contemporânea que enfadonhamente profana algum símbolo religioso (se sentindo profundo, original, digno de estar nos museus). Esses religiosos geralmente são parte do mesmo grupo político que valoriza enormemente o direito à propriedade. Se o “artista” comprou as imagens religiosas para profanar, ele está fazendo o que bem entende com uma propriedade sua, não importa o quão simbólica é esta propriedade para outras pessoas. Mas as implicações do direito à propriedade logo são esquecidas para defesa à censura e ao muito imaginário direito de não ser ofendido, de não ter sua religião ridicularizada e/ou criticada. Preciso fazer a ressalva de que nosso antiquado Código Penal diz em seu artigo 208 que é crime, sim, “escarnecer” de símbolos religiosos. Mas é letra morta, ninguém é punido por isso no país porque os juízes vêem um conflito entre esse “direito” das religiões e a liberdade de expressão, favorecendo a última. Mas se certos evangélicos tiverem sucesso em seu projeto de poder, podemos apostar num “reavivamento” desse artigo na muito morosa reforma pela qual o Código Penal supostamente está passando há anos.

Como disse o comediante George Carlin, num trocadilho sem tradução, “I leave symbols for the symbol minded”.

13th of October

Feministas radicais difamam a genética


O feminismo radical já é um dos principais propagadores de informações falsas sobre genética.

Há anos encontro, com crescente frequência, alegações de feministas radicais de que o cromossomo Y está desaparecendo (uma falsidade que surgiu na imprensa há algum tempo que não faz o menor sentido), que não passa de um cromossomo X reduzido. (Relembrando, o sexo é determinado geneticamente pela presença de dois XX em mulheres e XY em homens.) Tudo isso é para tentar dar fundamento científico a uma ideologia de supremacia de um sexo sobre outro, propagada em grupos fechados e em universidades. Uma ideologia tão cega e assustadora quanto as ideias de supremacia racial da época da eugenia: ainda bem que essas ideólogas não têm poder para fazer nada com suas ideias tolas.

O cromossomo Y se comporta em algumas partes como um cromossomo homólogo do X, ou seja, tem genes em comum com ele. Sendo assim há alguns genes com um alelo no X e outro no Y. Mas também há genes que só estão no cromossomo Y. Genes essenciais do desenvolvimento do organismo masculino, sem o qual a espécie estaria extinta. O Y tem também regiões não-codificadoras de proteínas, chamadas satélites, que são usadas para testes de paternidade e estudos históricos da linhagem paterna (como o DNA mitocondrial serve para estudos da linhagem materna).

O problema dessas feministas radicais não é só invencionice pseudocientífica sobre cromossomos sexuais: é de lógica. Se o cromossomo Y é apenas um X mutilado, e se isso faz dos homens um sexo inferior; que diremos de todas as mulheres em cujos tecidos um dos cromossomos X está quase completamente inativado e menos funcional que um cromossomo Y? Se mutilação de um X leva à masculinidade, a inativação de um X levaria as mulheres a serem mais masculinas que os homens, nessa pseudogenética maluca, e mais inferiores. É um caso argumentativo de tiro que sai pela culatra. Ao menos é um alívio cômico diante de uma ideologia assustadora.

3rd of October

Duas universidades que resistem à onda autoritária da “justiça social” Lobos solitários das instituições acadêmicas voltam o foco para a verdade apesar da pressão


Como defende o psicólogo social Jonathan Haidt, as universidades devem escolher entre a verdade e a justiça social como seu fim último, pois as duas coisas entram em conflito com frequência.

Mas o que ele não diz é que trocar verdade por justiça social é uma corrupção do próprio conceito de universidade. As universidades surgiram na idade média para investigar a verdade sobre temas diversos, da teologia à astronomia. Claro, no começo ainda estavam sob influência de instituições sociais que não aceitariam verdades inconvenientes, e em certa medida isso é verdade até hoje. Mas o projeto é o universalismo: descobrir coisas que são verdade aqui e em qualquer lugar, hoje e em qualquer tempo. Daí o nome ‘universidade’.

O pós-modernismo é um dos cânceres ideológicos particularmente preocupantes na universidade, pois é explicitamente contra os projetos universalistas. E o conjunto de ideias agrupadas sob o nome “justiça social” , uma preocupação frequente dos pós-modernos, também é uma ameaça ao projeto universitário, porque reage com intolerância a quem resiste, por exemplo, às tentativas de forçar paridades artificiais em áreas de estudo que não são igualmente interessantes para todos, ou a quem sugere que não há evidências suficientes de que a falta de representação estatística perfeita de categorias sociais em cada área resulta majoritariamente ou em qualquer medida de preconceitos malignos e crimes de pensamento de quem já está lá.

No clima politicamente polarizante de hoje, a tendência é que as maiorias “progressistas” que não pensam criticamente sobre a justiça social dentro das universidades forcem ainda mais essas ideias sobre as instituições. Tomando as cotas raciais como exemplo dessas ideias impostas sem justificação suficiente, no Brasil, por exemplo, já vemos que os últimos núcleos de resistência, como a USP, já estão cedendo. Nem mesmo os escândalos com os tribunais raciais universitários, que estão medindo narizes para “avaliar” se alguém é “negro de verdade”, parecem estar servindo para frear a tendência.

Dois dos escândalos das cotas raciais. Quando viralizou a tabela do IFPA, eu propus que só botaram no papel o que estava sendo feito a portas fechadas, com menos precisão na mensuração, em outras instituições. A UFRGS parece confirmar minhas suspeitas.

É uma boa notícia, portanto, quando encontramos alguma instituição universitária que ofereça resistência explícita ao assédio justiceiro social. Temos dois exemplos dos EUA.

1 – Hillsdale College

Esse pequeno centro universitário de Michigan tem cerca de 1800 alunos. Sua base é cristã, mas desde sua fundação em 1844 Hillsdale aceita “todas as pessoas que querem, independente de nação, cor ou sexo, uma educação literária, científica e teológica” (isso é literalmente o que diz o seu documento de fundação, extremamente progressista para 1844). A página sobre a missão da universidade diz:

“Foi a primeira universidade de Michigan, e a segunda nos Estados Unidos, a aceitar as mulheres em igualdade com os homens. Seu corpo discente cosmopolita é formado a partir de lares em 47 estados e 8 países estrangeiros.

Metas

O Hillsdale College mantém sua defesa do currículo de artes liberais tradicional, convencido de que ele é a melhor formação para lidar com os desafios da vida moderna e que oferece a todas as pessoas de todas as bases não apenas um importante corpo de conhecimento, mas também verdades imemoriais sobre a condição humana. As artes liberais são dedicadas a estimular a curiosidade intelectual dos alunos, a encorajar a mente crítica e bem disciplinada, e a estimular o crescimento pessoal através do desafio acadêmico. São uma janela para o passado e uma entrada para o futuro.

College valoriza o mérito de cada indivíduo singular, em vez de sucumbir à moda desumanizadora e discriminatória das assim chamadas ‘justiça social’ e ‘diversidade multicultural’, que julga os indivíduos não como indivíduos, mas como membros de um grupo, e que coloca um grupo contra outros grupos competidores em lutas de poder desagregadoras.”

2 – Universidade de Chicago

Nas páginas oficiais da missão da Universidade de Chicago, fundada em 1890 e que atende a quase 16 mil estudantes, nada tão explícito quanto a mensagem do Hillsdale College está disponível. No entanto, como noticiou a revista Time em agosto de 2016, a universidade mandou uma carta oficial aos calouros explicando que o campus é um ambiente de livre expressão em que eles poderão ser ofendidos. O decano de estudantes Dr. John Ellison escreveu:

“Membros da nossa comunidade são encorajados a falar, escrever, ouvir, desafiar e aprender, sem medo de censura. A civilidade e o respeito mútuo são vitais para todos nós, e a liberdade de expressão não significa liberdade de assediar ou ameaçar os outros. Você descobrirá que esperamos que os membros de nossa comunidade se engajem em debate rigoroso, discussão e até discordância. Às vezes isso pode ser um desafio para você e até causar desconforto.

Nosso compromisso com a liberdade acadêmica significa que não apoiamos os assim chamados ‘trigger warnings’ [avisos de que o conteúdo de obras e cursos podem causar ‘gatilhos’ emocionais], nós não cancelamos palestras de convidados porque seus tópicos podem se mostrar controversos, e nós não coadunamos com a criação de ‘espaços seguros’ intelectuais onde os indivíduos podem se esconder de ideias e perspectivas que vão de encontro às suas próprias.”

Que essa carta tenha sido controversa e digna de uma manchete na revista Time é algo que diz muito sobre o clima acadêmico dos nossos tempos.

A carta completa da Universidade de Chicago para seus calouros de 2016.

29th of September

A vingança das intuições Sobre os relativismos


– Você pode alegar que não acredita em padrão de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado.

– Pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas quando vê um animal sendo torturado, sente que há algo de realmente errado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim”, “errado para os brasileiros de século XXI”.

– Pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em verdade é positivista antiquado; mas quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais.

From "In a Heartbeat", YouTube.
28th of September

Retirar a homossexualidade da lista de doenças foi decisão moral, e não há problema nisso


A classificação de algum comportamento como “transtorno” em psiquiatria depende de considerações morais. Não há muita novidade nisso. Eu não tenho problema nenhum com isso, pois não sou um não-cognitivista moral, acredito que há sim fatos morais e objetividade em ética (e que ética e moral são sinônimos, apesar de certas distinções sem diferença que só servem para obscurecer). Daí, a meu ver a psiquiatria nada perde como ciência por incluir fatos morais junto a fatos científicos (que continuam separados como ditou Hume).

Pregar que não há fatos morais gera mais problemas epistemológicos que soluções. Mas reconheço que há alguns intelectuais influentes, como Jonathan Haidt, que são não-cognitivistas morais. É por isso que, quando ele discute, por exemplo, que as universidades precisam escolher entre verdade e justiça social como valores, ele veste o jaleco de cientista e age como se a escolha fosse, em último caso, indecidível. Ele claramente favorece mais a verdade, mas sua teoria da psicologia social do comportamento moral traça analogias com crenças dogmáticas religiosas: existe divergência política não porque as pessoas são irracionais na política (como prega Michael Huemer), mas porque um grupo sacraliza mais certos valores que outros, enquanto todos concordam, geralmente, sobre o que é positivo e desejável. Outros, como Haidt, acham muito informativa a proposição de que a política vulgar está enganada ao se polarizar entre bons e maus, que na verdade os grupos adversários apenas valorizam diferencialmente mais uma coisa que outra, mesmo concordando que ambas são boas. Isso também está em Bobbio, que alega que esquerda valoriza igualdade mais que liberdade, e que a direita tem uma quantificação contrária de valorização de ambas. Por ter uma posição análoga sobre valores de grupos sociais, Haidt é relutante em alegar que é objetivamente melhor valorizar a verdade e que quem quer botar “justiça social” em seu lugar está simplesmente enganado.

Talvez alguém que não crê que se pode fazer progresso cognitivo em ética, na direção de respostas objetivamente melhores, tenderá a fazer uma ênfase na navalha de Hume (“é” não implica “deve ser”) e interpretá-la como significando que, se a psiquiatria tem algo a dizer sobre o que é normal ou não, então essa valoração deve ser puramente descritiva e factual, destituída de considerações éticas.

Um caso para discussão: a despatologização da homossexualidade. Francisco Razzo citou recentemente, sem muito comentário, um artigo de 2015 de Robert Kinney III, em que este médico argumenta que a decisão de importantes instituições profissionais americanas da psicologia e psiquiatria foi baseada em evidências controversas, artigos obscuros e anedotas. O propósito é mostrar arbitrariedade na decisão dessas instituições, o que sugere que os profissionais poderiam estar sendo igualmente objetivos ao continuar considerando a homossexualidade um transtorno (doença).

O que Kinney não discute o suficiente, no entanto, é que a “normalidade” é ambígua, e traz em si tanto o domínio dos fatos e descrições (o domínio do “é”) quanto o domínio ético (o domínio do “deve ser”). É preciso desambiguar. Mas essa desambiguação ficará do lado da decisão dos psiquiatras e psicólogos (e da OMS).

– Normalidade em fatos: uma característica normal é a que tem uma frequência alta o suficiente para ser considerada comum, em vez de rara. Há arbitrariedade aqui porque o senso comum não é exato, não define o que exatamente é comum ou raro. A escolha fica a gosto do freguês. A homossexualidade está em cerca de 10% dos homens e cerca de 5% das mulheres (Dawood et al. 2009). Isso é comum (normal) ou raro (desviante/aberrante/anormal)? Tudo o que os profissionais precisam é ter consistência, aqui: se esses números estão dentro da normalidade, ou seja, fazem dessa característica algo comum, então outras características com distribuição similar também são normais, comuns.

– Normalidade em ética: normal é uma característica eticamente justificada, aceitável; ou, alternativamente, eticamente neutra, inconsequente. Aqui acontece o debate ético, e é aqui que eu julgo que o não-cognitivismo moral, o absolutismo moral e o relativismo moral atrapalham. Aqui a alegação é que adultos que se sentem atraídos por adultos do mesmo sexo DEVEM ter liberdade para agir em conformidade com seu desejo como adultos heterossexuais fazem (inclusive em instituições seculares que partem desse desejo, como o casamento), e portanto homossexualidade é normal, e é objetivamente bom que seja assim. Aqui, as organizações profissionais da saúde estão tomando uma decisão que é ética, e que é incorporada às suas teorias do bem-estar humano. Quem está incomodado com essa decisão deve argumentar por que a liberdade dos homossexuais é moralmente inaceitável e convencer esses profissionais disso. A tradição anterior que patologizou a homossexualidade não fez isso. A decisão anterior foi simplesmente herdada, junto com leis de criminalização da sodomia como a que existiu no Reino Unido desde o século XVII até a metade do século XX. É meio desonesto que quem crê que homossexualidade é imoral abuse da ambiguidade do termo “normalidade” para alegar que a arbitrariedade na definição do que é “comum” é que é o problema, quando obviamente não é bem assim.

Finalmente, o nosso conceito de “normalidade” já é informado pela pesquisa em genética psiquiátrica. Os níveis “normais” de atenção e atividade são predizíveis a partir de modelos gerados com a variação patológica do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Ou seja, nós já conseguimos antecipar como são as pessoas “normais” a partir do estudo das pessoas “doentes”. O que sugere que a normalidade está dentro da variação da patologia e vice-versa, não havendo uma linha nítida entre uma coisa e outra em psiquiatria, o que está em conformidade com a arbitrariedade factual que comentei acima.

10th of August

Saber antecede fazer Sobre a tendência preocupante de passar o carro na frente dos bois em planos de "mudar o mundo"


Para mudar o mundo para melhor, primeiro é necessário saber como ele é. Por isso, saber antecede fazer, em importância e em sequência razoável. Quem quer forçar as coisas a mudarem em certa direção mas não fez o trabalho de explicar como elas estão e por que devem ir na direção desejada, portanto, está metendo o carro na frente dos bois. Devemos ficar desconfiados de qualquer ativista que não parece ter muita curiosidade pelo assunto do qual trata.

Se alguém quer defender direitos LGBT mas afirma, apesar das evidências coletadas e publicadas na genética, que ser LGBT é puramente cultural e nada tem a ver com genes, esta pessoa é não apenas mal-informada: sua preocupação com a justiça é pouco sincera. Quem se preocupa com justiça para LGBT se preocupa com justiça em geral, e quem se preocupa com justiça em geral tem curiosidade pelos assuntos que tocam a (in)justiça.

Quem quer que pessoas autistas tenham boas vidas arregaça as mangas e busca saber por que elas existem, em vez de cair na primeira teoria da conspiração sobre vacinas serem a causa.

Quem quer que homens e mulheres sejam tratados de forma justa, como seres humanos dignos do mesmo acesso a oportunidades e tratamento respeitoso, não cai na teoria da conspiração de que essas categorias existem apenas porque uma é inerentemente malvada e quer oprimir a outra, inerentemente vítima, como se fossem castas indianas.

E assim por diante. Fervor moral divorciado de curiosidade e interesse pela verdade, mesmo se sincero, é uma receita para o desastre, não uma força para o bem.