21st of October

E se os biólogos fossem criacionistas?


Vamos supor o seguinte: que toda a literatura científica foi queimada por uma ditadura extremista mundial. Os biólogos teriam como referência apenas boatos sobre pesquisas com animais, plantas e microorganismos. Os evolucionistas foram queimados na fogueira.

Depois de um século de nova pesquisa, a que conclusão os novos biólogos – todos no princípio defensores da tese do Design Inteligente – chegariam?

No momento inicial, a nova biologia suporia que a inteligência do Designer é perfeita, digamos, de 100%, pois a complexidade do corpo humano é incrível, e é admirável como cada molécula, cada tecido e cada órgão trabalham com harmonia.

Mas aí, não sem muito arranca-rabo, alguns grupos de pesquisa apontam que o corpo humano está vulnerável ao câncer por motivos totalmente aleatórios para os quais não há nenhuma defesa totalmente eficaz no genoma humano. Outros apontam que o Designer não nos deu muita superioridade para o combate natural do câncer em relação a outros animais.

Por esse motivo, a inteligência atribuída teoricamente ao Designer cai para 80%. Admite-se que sua capacidade criativa está propensa a erro, e há maculação da criação.

Outros biólogos descobrem um monte de órgãos vestigiais em diversos animais (dedinho da cobra) e plantas (nervuras principais em carpelos), genes desligados no genoma humano sem função nenhuma, e orquídeas enganando vespas, e diminuem a inteligência atribuída ao Designer para 60%. Afinal, além de permitir maculação da criação, ele permite que sua criação contenha excessos não muito favoráveis a si mesma.

Tempos depois, mais ousadia: descobre-se que existem fósseis parecidos com os seres vivos atuais, mas não tanto, e descobre-se a datação deles. Conclui-se que o Designer, além de não se decidir por uma criação acabada, faz ajustes todo o tempo, e os ajustes levam muito tempo para fazer grande diferença.
Em meio a muita pancadaria em congressos e periódicos, os novos biólogos decidem diminuir a inteligência do Designer para 40%.

Um fulaninho ousado escreve uma obra extensa sobre casos em que a criação diminuiu sua complexidade. Peixes cavernícolas e toupeiras perderam olhos, parasitas ficaram cada vez mais simples para executar basicamente reprodução e alimentação.
Para quê o Designer seria indeciso a ponto de optar por um design clean de repente? Por que uma cauda de pavão e um vírus ao mesmo tempo?
Propõe-se diminuir a inteligência do Designer para 20%. Com dissidência e desistência de trabalhar cientificamente, mas outros motivos fizeram essa concepção teórica ser forçosa e inevitável.

Os novos biólogos observam que muitos genes parecem ter tido ancestral comum. Um regulador de transcrição parece ser uma enzima que teve áreas inativadas pelas já conhecidas mutações (ex: Galactoquinase de Saccharomyces cerevisiae). No sistema sangüíneo ABO, tudo aponta que os indivíduos de sangue O nada mais são que mutantes para alelos de A e B. Pigmentos da retina apresentam ancestralidade entre si.

Por causa desses cuidados tão obtusos fica difícil não admitir, finalmente, que a inteligência do Designer é zero. É claro que os dissidentes que desistiram de trabalhar cientificamente nunca concordarão com essa conclusão dos novos biólogos.

Um Designer totalmente burro tem nome. Se chama Seleção Natural.

6th of October

Ateísmo assintótico versus Ateísmo dogmático


Assíntota é uma curva que se aproxima de um eixo cartesiano, ou de um dado valor de uma coordenada cartesiana, mas só o atinge no infinito. Ou seja, nunca o atinge formalmente.

Freqüentemente, muitas pessoas com uma idéia esclarecida a respeito das religiões, filosofias e ciências cometem o equívoco de atacar a ateísmo dos “brights” com argumentos que servem para derrubar o ateísmo dogmático.
Por exemplo, alegam que o ateísmo é uma religião, e que a atitude de gente como Richard Dawkins é inaceitável porque ele supostamente estupra toda a Epistemologia e a Teoria da Ciência ao tentar enfiar seu ateísmo dentro da Ciência, e espalhá-lo de maneira análoga à pregação dos evangélicos.

Em “Deus, um delírio” (Cia. das Letras, 2007), Dawkins em momento algum diz que está provando que Deus não existe. Ele apenas aponta, de maneira lógica, a improbabilidade de cada uma das hipóteses teístas.

Epistemologicamente Dawkins é bem resolvido. Não é necessário que ele opte por uma vertente da filosofia da ciência em sua argumentação, embora a definição popperiana de hipótese seja adequada para o livro dele. O assunto que Dawkins trata está muito aquém disso tudo. Indutivismo ou Dedutivismo, as conclusões científicas baseadas em qualquer uma dessas vertentes são bem distinguíveis (gritantemente distinguíveis) das conclusões religiosas baseadas “em fé”.

Dawkins considera a maior parte das hipóteses de divindade como hipóteses científicas, e elas são mesmo!
Para Popper, a hipótese científica pode ter qualquer origem (contanto que tente explicar a natureza), e será refutada pelas evidências angariadas na observação. Não existe religião que não recorra à natureza e ao universo físico para apontar evidência para a existência de seus mitos – mesmo que esse apelo se restrinja historicamente, ou de outras formas. Ciência e Religião não estão completamente separadas como já se propôs. Também a separação dos tais NOMA de Stephen Jay Gould (Ciência e Religião como magistérios que não se sobrepõem) está fortemente refutada por Dawkins.

Vejam com que ardor a Igreja Católica perseguiu a evidência do Santo Sudário, até a exaustão. Se houvesse essa separação realmente, a Igreja Católica simplesmente contemplaria o Santo Sudário com desinteresse admirador.
Se a separação fosse verdadeira, para verificar se os milagres de Fátima são significativos e diferem de qualquer outro placebo, os cientistas devem dizer “NÃO VAMOS TOCAR NISSO, ISSO É FÉ!”

Há inúmeros outros exemplos da fome religiosa por evidências. Os muçulmanos juram que Maomé subiu aos céus, Budistas descrevem um comportamento estranho de animais frente à figura de Sidarta Gautama. Animistas, por definição, fabricam divindades prosopopaicas todo o tempo. Mongóis que cultuam Gêngis Khan como deus atribuem o sucesso bélico do líder à vontade do “Céu Azul” (captado pelos olhos, não pelo órgão da fides quae creditur descrita por Paul Tillich).
Boa parte das afirmações religiosas são sim hipóteses científicas, e como tais devem ser devidamente verificadas quando possível.

A alegação comum de que os objetos de fé são obtidos apenas através do ato de ter fé em si é uma hipocrisia.

As características atribuídas a divindades até hoje partiram direta ou indiretamente de antropomorfismo.
Até mesmo o conceito básico de a divindade possuir inteligência, ou capacidade criativa, é um antropomorfismo, porque a inteligência criativa a que temos acesso e conhecimento é apenas a inteligência humana (é claro que outros vertebrados podem apresentar inteligência criativa notável, mas por comparação com o humano ignorarei respeitosamente este fato).
A inteligência e capacidade criativa humanas estão fundamentadas, pelo que se pode inferir de todas as pesquisas psicológicas e neurocientíficas, no cérebro.

Não há motivo para não atribuir o surgimento do cérebro humano à ação da evolução, não importa se exclusivamente pela seleção natural, ou por outros mecanismos evolutivos como a seleção sexual. Não há qualquer outra forma de surgimento do cérebro humano que seja tão plausível quanto a evolução. Isso tem como conseqüência, também, o surgimento da mente humana por processos puramente naturais.

Baseando-se nisso, torna-se desnecessário propor que haja uma inteligência que tenha surgido por acaso no universo. Seria astronomicamente improvável, exponencialmente mais improvável que o surgimento da nossa inteligência pela evolução cumulativa.

Se há uma divindade, ela precisa ter evoluído, e é muito pouco plausível que a evolução biológica atinja algo como a onisciência, onipotência e onipresença. Muito menos a capacidade criativa de alterar ou criar o âmago da matéria e da energia.

Se em algum lugar do universo existe uma entidade super inteligente, e com uma capacidade criativa notável, é pouco provável que seja onipresente, onisciente e onipotente. Menos provável ainda que tenha a capacidade de ouvir orações de milhões de seres humanos, de respondê-las ou atender os desejos.

Mentes surgem através da evolução. Mentes perfeitas são inacessíveis à evolução.

Quanto mais poderes são conferidos a uma divindade, menos provável ela é.

Todos os relatos de existência de divindades já produzidos pela humanidade têm mais caráter disciplinador que explicador da natureza. Além disso, as explicações naturais que as religiões já produziram muitas vezes se mostraram falseáveis, e foram de fato falseadas pela prospecção científica dos últimos séculos.

O caráter disciplinador das divindades, e outros aspectos atribuídos a elas, revelam criatividade humana restrita a conjunturas culturais. Nenhum conhecimento foi antecipado pela revelação. A capacidade de predição das religiões no campo natural é praticamente nula.

Tudo o que se espera, em qualquer tribo, é que surja um dia um pajé que para acalmar os ânimos CRIE divindades para explicar os fenômenos da natureza, e eventos históricos que muitas vezes nunca aconteceram.

A causa primeira de John Locke é um espaço que pode ser preenchido por qualquer coisa – inclusive matéria inerte.
Como sempre, preencher esse espaço com uma entidade perfeita preocupada com nossas vidas é fruto de seleção de explicações com base em apetite emocional, não fruto de reflexão racional, muito menos de informação empírica.

O argumento teleológico de William Paley se revelou, após Darwin, uma ilusão. Não é necessário um artífice para fazer surgir formas criativas no mundo natural. E a cada dia fica mais aparente que não é necessário Artífice Inteligente, também, para fazer surgir vida, nem surgir mente.

Esse argumento era um dos mais fortes ao qual a Teologia poderia recorrer para aumentar a quota de possibilidade de existência das divindades. Hoje, o que se propõe na Teologia Liberal é uma passividade mórbida. Não se espera que Deus responda ou atenda a orações, espera-se, cruzando os dedos, que ele exista e que a fé por si só seja uma garantia disto.

Anselmo da Cantuária, Agostinho e Tomás de Aquino têm sido ressuscitados para tentar elevar a quota de possibilidade, mas sem efeito. Argumentos antigos, perdidos em formulações lógicas brilhantes sem muita aplicação empírica, em nada ajudarão na derrocada do argumento teleológico da teologia natural.

Portanto, não há mais motivos para acreditar em Deus (seja qual for) do que há para acreditar em Papai Noel ou na Fada do Dente.
O único problema de Papai Noel e da Fada do Dente é que eles não são suficientemente volatilizados e sublimados para o intangível. Quem faz e continua fazendo isso com o Javé da Bíblia são os teólogos cristãos. Vêem a Bíblia como um documento vergonhoso porque ela foi amplamente refutada pela ciência, pela história, e não se revelou superior a qualquer outro texto sagrado antigo ou relato de Pajé.

___

Para fins de esclarecimento, é necessário evitar que se trave uma discussão com divergências puramente semânticas.
Percebo que, quando há reclamação do desejo de Dawkins de que as religiões sumam, provavelmente está sendo levando em conta o enriquecimento cultural advindo delas. Quanto a isso, duvido que Dawkins deseje realmente que sumam coisas como a arte feita sob inspiração religiosa, e a manifestação cultural religiosa em geral.
Se é nesse sentido que ele fala, então ele não merece respeito nesse ponto. Mas isso não invalida o argumento da improbabilidade dos deuses.

Bertrand Russell também disse desejar que não houvesse religião. Mas, com certeza, dado que ele era um apreciador da arte e um pacifista, ele não se referia à parte culturalmente enriquecedora que se encontra no termo. Russell se referia, como Dawkins parece se referir, ao conhecimento construído por causa da fé. Ao dogma cristalizado em afirmativas que interferem na natureza. Russell se refere, mais ainda, à certeza cega que as religiões muitas vezes alegam ter.

Para evitar essa confusão semântica, me refiro especificamente a fé e ao dogma quando falo de religião.

Se o ateísmo em questão deriva de uma certeza, sim, ele será uma pregação e um dogma. Mas não é o caso do ateísmo baseado na improbabilidade das divindades, que é um ateísmo não-absoluto, mas “assintótico” em direção à assertiva aparentemente absoluta (apenas aparentemente).

Justamente por não ser uma religião, o ateísmo é concluído a partir da negação de todas as religiões, e é exatamente isso o que ele faz. O que eu questiono aqui é a crença amplamente espalhada de que os dogmas religiosos, e a fé, só podem ser anulados por outros dogmas ou fés. Não é verdade. Quando o argumento da improbabilidade divina é aceito, a fé e o dogma não são anulados por substituição, mas por consideração racional acerca de quais partes do logicamente possível se concretizam no mundo natural.

E quem melhor explica o mundo natural é a Ciência.

Portanto, Dawkins está agindo como cientista ao falar sobre ateísmo, assim como agem como cientistas os teóricos da evolução e da historiografia, mesmo com suas limitações em relação a outras áreas. Todavia, não se conclui a partir da argumentação de Dawkins que a Ciência leva invariavelmente ao ateísmo.

Se deuses são improváveis, não há nada de incoerente em concluir o ateísmo a partir disso, assim como um biólogo qualquer decide se são equinodermos ou lampréias os animais mais próximos dos mamíferos.

Ateísmo assintótico não é religião e pode ter origem na análise dedutivista de hipóteses teístas.

O conhecimento científico é neutro, e não nega Deus. Como Dawkins não pretende provar a não existência, não nega Deus a partir de ciência. Não é possível observar dois universos, um contendo Deus e outro não contendo para ver qual é a diferença.

Entretanto, a partir de Filosofia, é possível considerar qual das possibilidades é mais plausível: haver ou não haver Deus. E, mesmo Filosofia, tendo base no que se sabe em Ciência. O que Dawkins faz não é vincular suas conclusões diretamente às conclusões que se faz quando se testa cientificamente, por exemplo, a eficácia de um novo medicamento.
O que ele faz, repito, é botar as cartas na mesa – avaliar o quão provável é a existência de cada Deus que já se propôs.

O que é negado pela ciência é o que não pode ser considerado como objeto de experimentação empírica. Mas pode ser considerado hipótese, e como tal, pode ser comparado às teorias já estabelecidas. E nesse ínterim, é possível avaliar sua probabilidade.

Por exemplo, é possível, na Filogenética, considerar os graus de parentesco de dois seres vivos com base no método da Parcimônia, mesmo que não se conheça sua história diretamente. As conclusões da filogenética têm um “grau de convicção”, digamos, menor que as conclusões científicas obtidas a partir de objetos de estudo completamente testáveis.
A Biologia, depois que se tornou uma ciência histórica, teve de aprender a lidar com certezas menores que a certeza de que “estômatos abertos aumentam a transpiração da planta”.

Daniel Dennett propõe que, para saber se uma forma de vida pode ser atingida pela evolução, devemos considerá-las em três instâncias: a possibilidade lógica de ela existir, a possibilidade biológica de ela existir, e a possibilidade de as formas atuais chegarem até ela. Dragões são logicamente possíveis. Mas são biologicamente possíveis? Os tecidos biológicos existentes nos vertebrados atuais podem sustentar uma labareda de fogo? Se sim, há caminhos possíveis de isso ser atingido?

Não existem extraterrestres no bestiário científico. Mas, porque pensava cientificamente e ceticamente, Carl Sagan chegou à conclusão de que eles eram razoavelmente prováveis, e que seria muito mais surpreendente que a vida na Terra estivesse sozinha.

Quando alguém nega a existência de deuses, não está fazendo ciência, nem experimentos, com certeza. Mas está pensando cientificamente, como Carl Sagan. Mesmo que seja Filosofia. O método científico depende de assertivas filosóficas, como o empirismo. É necessário crença no empirismo para levar o conhecimento científico a sério.

____________
O DOGMATISMO

O marxismo diversas vezes se transformou em religião, com livro sagrado e profeta.
De ateus que influenciaram a Revolução Francesa, pode-se citar muitos poucos, talvez apenas Diderot. Os outros filósofos, como Rousseau e Voltaire, eram deístas. Os revolucionários, principalmente os jacobinos radicais, personificados em Robespierre, criaram uma nova religião para substituir o cristianismo – em que eles adoravam a Deusa Razão (uma notória deturpação das idéias desses pensadores) e queimavam em praça pública o espantalho do Ateísmo.

Portanto, a religião não sumiu na Revolução Francesa, um período notório de surgimento de bases atuais da civilização. A religião, naquela época, foi substituída por outra com derrame de sangue.

O ateísmo que Dawkins propõe é, ao estilo do de Russell, um ateísmo de livre-pensamento, de cura da tendência humana de Dogmatismo Irracional. Por isso mesmo, é extremamente positivo que Dawkins peça que paremos de chamar crianças de pais muçulmanos de muçulmanas.

Entre ateus dogmáticos, que fariam de fato uma pregação, talvez estejam Mencken, Feuerbach, e até Nietzsche. Na “Genealogia da Moral”, Nietzsche praticamente constrói um mito explicativo num estilo quase bíblico.

Não há evidência científica da não-existência de divindades. Mas, dependendo do que está sendo chamado de Deus, a indiferença generalizada do universo ao sofrimento humano bastaria para refutar um Deus benevolente, mas não um Deus Malteísta.
Não há Fé no ateísmo assintótico porque a Fé é uma crença diferenciada. Cremos no empirismo, mas não significa que temos fé nele.

Se ninguém nunca tivesse visto um gordo numa população de mil habitantes, não significa que não existem gordos (ausência de evidência não é evidência de ausência, como dizia Carl Sagan). Mas até não aparecer o milésimo primeiro que seja gordo, eu continuaria AGORDISTA se houvesse um bom argumento de improbabilidade da existência de gordos.

Um cientista precisa ser um São Tomé. Precisa quantificar e ter sob seus sentidos o seu objeto de estudo. E além disso, esse “São Tomé” precisa ter competência para avaliar a probabilidade de suas hipóteses serem falsas ou verdadeiras antes mesmo de expô-las a teste, quando for possível expô-las.

A Ciência permanece porque tem o método e porque funciona. As religiões permanecem porque – além de serem culturalmente enriquecedoras – oferecem explicações que atendem ao apetite emocional das pessoas por um universo humanizado.

***

_______________________
Post Scriptum – Contexto social do ateísmo, e a Fé acompanhada de outras ilusões
_______________________

Bertrand Russell é ainda melhor que Dawkins na questão de posicionar o ateísmo epistemologicamente:

“Em ciência há muitos assuntos sobre os quais as pessoas concordam; em filosofia não há nenhum. Portanto, embora cada proposição em uma ciência possa ser falsa, e é praticamente certo que há algumas que são falsas, ainda assim nós seremos sábios em construir nossa filosofia sobre a ciência, porque o risco de erro na filosofia é com certeza maior que na ciência.”

Atomismo Lógico

“Um ateu, como um cristão, acredita que podemos saber se há ou não há um Deus. O cristão acredita que podemos saber que há um Deus; o ateu, que podemos saber que não há.
O agnóstico suspende seu julgamento, dizendo que não há bases suficientes para a afirmação ou para a negação. Ao mesmo tempo, um agnóstico pode acreditar que a existência de Deus, embora não impossível, é muito improvável; ele pode até acreditar que é tão improvável que não merece consideração na prática.
Neste caso, ele não está longe do ateísmo. Sua atitude pode ser aquela que um filósofo cuidadoso teria para com deuses da Grécia antiga.
Se me pedissem que eu provasse que Zeus e Posêidon e Hera e o resto dos Olímpicos não existem, eu me acharia perdido para encontrar argumentos conclusivos. Um agnóstico pode pensar que o Deus Cristão é improvável como os do Olimpo; neste caso, ele está, para propósitos práticos, em concordância com os ateus.”

‘O que é um Agnóstico?’ – 1953

“Um credo religioso difere de uma teoria científica ao alegar que incorpora uma verdade eterna e absolutamente certa, enquanto a ciência está sempre testando, esperando que a modificação em suas teorias atuais será mais cedo ou mais tarde necessária, e ciente de que seu método é logicamente incapaz de chegar a uma demonstração completa e final.”

Religião e Ciência (1935)

Só não me considero agnóstico porque penso que agnosticismo é a crença na eqüiprobabilidade de hipóteses acerca da existência de divindades. Não acho que as positivas são eqüiprováveis à(s) negativa(s). Por isso, por conveniência, e para deixar minha opinião clara, me declaro ateu.

Não há muito respeito pelos ateus.
Respeita-se muito, todavia, o silêncio. Há irritação porque alguns desses ateus partiram para o debate em vez de se manterem no tão prezado silêncio.
Há adoração dos sábios religiosos semi-agnósticos até pelo seu próprio silêncio, pois nem mesmo se arriscam a dar uma opinião clara sobre o que acreditam.
E além de respeitar o silêncio demais, respeitam o dogma. Acham que não se deve discutir o dogma, por isso até os ateus calados, supostamente todos dotados de fé, devem evitar o debate.

O que se estimula é a pieguice e o silêncio que vem predominando há séculos. Fora alguns poucos núcleos em filosofia, a maior parte da humanidade sequer cogita discutir dogmas.

Muitas pessoas inteligentes que querem defender passionalmente suas religiões provavelmente cresceram em meio a esse hábito injustificado, e querem mantê-lo irracionalmente atacando os ateus que defendem abertamente sua opinião. Mas estes merecem até agradecimento por ao menos levar o debate onde supostamente ele não deve entrar.

A irracionalidade de uma opinião inculcada desde a infância costuma ser mais forte que qualquer argumentação, e é essa irracionalidade o alvo dos ateus modernos.

Gould é um magnífico teórico evolucionista, sim. Conheço poucos livros de não-ficção tão gostosos de ler como os de Gould.

Mas isso não vai ajudar com a honrosa porém falha tentativa de Gould de separar Ciência e Religião de uma maneira tão frouxa. O que ele propõe (os NOMA) é infactível, e até dissimulado.
Como eu disse várias vezes, os dogmas religiosos não têm origem em fé pura. Pouquíssima coisa na Religião tem origem na pura fé.

O que a separação absoluta entre ciência e religião faz é fomentar o silêncio. Fomentar o silêncio para justificar um respeito excessivo pelo dogma.

Respeito entusiasticamente aqueles que acreditam num Deus mas o restringem a uma realidade metafísica. Entretanto, infelizmente, isso não refuta totalmente a improbabilidade. Digo sim infelizmente. É infeliz que os deuses não estejam logo ali no firmamento. Infeliz e trágico. Entretanto, seria insincero da minha parte acreditar neles porque quero, ou porque isso me faz mais confortável.

É difícil isolar a fé dos dogmas que a cercam.
Entretanto, já foram feitas tentativas na Teologia.

Segundo Paul Tillich, pode-se dividir a fé em modus operandi e alvo crido. O alvo crido é o que eu chamo de dogma.
Fé é ser “incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito”. É uma releitura, me parece, do argumento ontológico de Anselmo da Cantuária. Só que com acréscimos psicanalíticos, e outros acréscimos.

O argumento ontológico, apesar de ter fundamentação lógica perfeita, não garante que esse “incondicional” e “infinito” é uma divindade. Garante apenas que tem de haver “algo maior do que o qual nada pode ser pensado”.

Nesse caso, se uma pessoa desenvolve sua fé apenas através do argumento ontológico (ou da causa primeira), ela poderá atribuir as características que “quiser” (que acha que são defensáveis, ou que reflete suas impressões sobre a vida, a moral e a natureza) ao incondicional, e essas características vão para o dreno da metafísica. Nisso, se o incondicional é julgado como um Deus, a pessoa constrói um “conhecimento” baseado em pura fé.

Não estou certo se tenho mais exemplos. O “Céu Azul” dos mongóis tem origem empírica, como eu apontei. Entretanto, não se fundamenta apenas no sensível como um dogma religioso. Para se constituir como dogma religioso, o “Céu Azul” precisa conter os famosos “mistérios” (que caíram no gosto dos católicos).

Mistérios nesse sentido, que são adorados por si mesmos como se trouxessem o selo “contém divindade”, têm origem na pura fé. Em outras palavras, os mongóis são “incondicionalmente tocados” pelo Céu Azul, apesar da contaminação empírica.

Mas para Anselmo e Tillich, O Céu Azul não seria suficientemente maior ou infinito, portanto é uma idolatria – e o que está acontecendo quando as “idolatrias” são denunciadas? Volatilização para o intangível. Fuga do sensível. Sublimação para o infinito.

O que Anselmo e Tillich fazem sem perceber é tornar o Cristianismo uma gordura localizada, um peso morto.

Ora, se o “Céu Azul”, ou Zeus, ou Anúbis, ou Thor, ou a Homeopatia, ou o Marxismo, ou o Ateísmo Dogmático são idolatrias, o que impede o Cristianismo de ser uma idolatria?

Se cada um desses elementos que eu citei são dogmas advindos em alguma medida do sensível, da empiria, de evidências histórico-naturais, não deixam de ser idolatrias também coisas como acreditar em

– Ressurreição de Cristo,
– ascenção corpórea de Maria aos Céus,
– milagres de Fátima,
– comprovação científica dos milagres professada pela ICAR,
– Dilúvio Universal
– ascenção corpórea de Maomé aos Céus,
– criação especial do homem a partir de barro,
– criação especial da mulher a partir da costela,
– memória da água,
– salvação da humanidade a partir da ditadura do proletariado,

etc.

As características atribuídas ao intangível (maior, incondicional, causa-primeira) são contaminadas pela empiria na vasta maioria dos dogmas religiosos.
Portanto, ao interferir na natureza, os dogmas religiosos podem ser avaliados em princípio pela Ciência. Se não em experimentação, em inferência baseada no conhecimento científico já produzido. Na noção intuitiva de probabilidade já conhecida na Filogenética e na Historiografia.

Sou ateu porque penso que o conhecimento advindo da fé pura que citei não difere das idolatrias mais antigas.

Porque o Deus intangível é, no fundo, nada mais que uma personificação do universo (conclusão prosopopaica).
Há trinta mil anos, algum homem da minha idade, que nunca tinha pensado em ter fé antes na vida, pode ter ouvido um trovão, e bem depois de ter batido num velho por um ovo suculento de avestruz. Ao se lembrar dos cuidados de seus pais já mortos, atribui ao trovão uma bronca pelo seu comportamento errado de acordo com os padrões morais da tribo. Pronto, nasceu um deus.

Alguém ouve a história do trovão, e a conta em desenhos dentro de uma caverna. Eu vou até lá, “traduzo” os desenhos para o português, mas não cito claramente que a voz de deus era na verdade um trovão. Nasce a minha bíblia.

Eu leio e releio, bastante satisfeito, a nova bíblia. Como não cogito tentar explicá-la através do trovão, eu falo em infinito, em incondicional, e em causa primeira. Pronto. Nasceu a minha teologia.

Escolas vão ser obrigadas a ensinar meu gênesis na aula de ciência, meus filhos serão condicionados a cumprir meus rituais e se ligarem emocionalmente à minha religião. Nasce um câncer na civilização e um escravizador de mentes.
Faço músicas, construções, poesias em homenagem ao meu mito. Nasce mais uma fonte de riqueza cultural – para a qual se paga um preço.

Não é nada surpreendente que muitas religiões associem falta de fé e ateísmo ao mal. Como eu mostrei na minha analogia, muitas vezes o ateísmo sequer é cogitado. Faz parte da imunologia ideológica das religiões ligá-lo ao “lado negro da força.”

Análise de proposições comuns:

(1) Hebreus 11.1: “Fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.”

(2) Fé é ser incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito.

(3) É necessário definir fé.

(4) Religiosos, ateus e agnósticos possuem fé invariavelmente.

(5) A Ciência abre mão da fé.

(6) Há seletividade feroz dentro do meio científico quanto ao que se propõe como hipótese, e é uma seletividade idêntica à aversão dos religiosos pelos ateus.

___

(1) e (2) são definições alternativas que, embora não mutuamente exclusivas, se focam em aspectos diferentes e levam a diferentes conclusões sobre haver ou não haver fé no ateísmo [assintótico – daqui para frente é a este ateísmo que me referirei].

Segundo (1), não há fé no ateísmo. Pois ele não se baseia em um “firme fundamento” (dogma) nem em “prova das coisas que não se vêem” (fé como modus operandi, e dogma denovo). Se baseia numa conclusão probabilística intuitiva baseada na “prova das coisas que se vêem” (teorias científicas), que não é uma conclusão absoluta, mas uma aposta confiante.

Evidências científicas que apoiem a conclusão absoluta de William Paley serão suficientes para derrotar o ateísmo.

Segundo (2), há fé no ateísmo. Não só no ateísmo, como em qualquer outra coisa – culinária, cinema, jogo de xadrez. O “toque do incondicional” implica uma espécie de ‘obsessão’, ou um arrebatamento emotivo, e virtualmente todos os seres humanos estão propensos a isso. Levando em conta que o “verdadeiramente” é subjetivo e relativo.

(3), (4) e (5) revelam que há problemas nas duas definições anteriores. Quer dizer que, para saber o que é fé, cada pessoa tem de contar com sua própria experiência.
Segundo a minha experiência como ex-católico, existem sim pessoas sem fé. E, na Igreja, os fiéis são exortados a terem mais fé. Se fé pode ser quantificada, pode atingir o valor nulo.

Se pode atingir o valor nulo, é possível não ter fé, e o ateísmo é uma possibilidade real de não-fé.

Até mesmo Jesus Cristo, no evento em que andou sobre as águas, acusou seus discípulos de serem homens de pouca fé. Portanto, se levam seu livro sagrado a sério, os cristãos precisam considerar que a mente humana é capaz de diminuir a fé em si mesma, e até anulá-la, e a fé não é um órgão inato como Paul Tillich alega.

A fé é, portanto, uma construção cultural, no desenvolvimento ontogenético.

Se (5) é verdade, a comparação apresentada em (6) não faz sentido.
Pois comparou-se a imunologia ideológica religiosa contra o ateísmo e as exigências básicas de apresentação de idéias científicas que não consistem em rejeição a priori.

Resumindo:

– Mentes surgem na evolução e são improváveis, por isso divindades são improváveis.

– As análises “profundas” da fé feitas pela Teologia não excluem a possibilidade forte da fé ser uma mera ilusão respeitada por ter raízes profundas historicamente e biologicamente.

– Crer não é sempre ter fé, e a noção quantitativa existente nas religiões, quanto a ter “mais” ou “pouca” fé abre espaço para a ausência de fé como possibilidade real.

– A Intuição emana da Razão, ao contrário da Fé. O cientista Peter Medawar, em “Induction and Intuition in Scientific Thought” discorre mais sobre o papel da intuição na ciência como ato humano independente de fé.

– Existem ateus que têm fé na não existência de Deus. Ateus dogmáticos, e eu não sou um deles.

– Probabilidades são acessíveis à razão. Isso se dá pela intuição matemática com profundas raízes cognitivas. Sabemos “calcular” a velocidade de um carro antes de atravessar uma faixa de pedestres, e para isso não pedimos auxílio à calculadora ou às fórmulas matemáticas.

– Ninguém prova que X não existe, só se pode analisar qual é a probabilidade de X existir. Se há ou não há um sapo azul voador na Amazônia, e em que medida esta entidade é mais ou menos provável que a Fada Sininho, são coisas capazes de sofrer análise da intuição probabilística.

– O Cristianismo não é justificável como superior a qualquer outra idolatria.

– A fé por si só não garantirá que um ou outro dogma advindo dela seja superior a qualquer outro dogma.

– Os dogmas religiosos são contaminados por empiria, seja constante ou restrita ao passado, e isso permite sua análise filosófica à luz das teorias científicas.

– O ateísmo que chamo de assintótico é possível como conclusão “frouxa”. Essa frouxidão está presente em toda e qualquer conclusão, em maior grau nos dogmas religiosos, em menor grau nas teorias científicas.

_______________

Reconheço minha ignorância quanto a grande parte do que já foi feito na Epistemologia, Filosofia e Ciência, mas se tem alguma coisa digna de valor no que aprendi no pouco que li nessas três áreas é saber argumentar e evitar estratégias intelectualmente desonestas.

LITERATURA RECOMENDADA (autor – obra):
Anselmo da Cantuária – Proslógio
Paul Tillich – Dinâmica da fé
Richard Dawkins – Deus, um delírio
Daniel Dennett – A perigosa idéia de Darwin
Peter Brian Medawar – Induction and Intuition in Scientific Thought

28th of September

Nahor de Souza Jr. na UnB – o bom, o mau e o feio


Hoje foi apresentada, a partir das 13h na UnB, uma palestra com o título “Ciência e Religião são Compatíveis?”, pelo Dr. em Geologia Nahor Neves de Souza Júnior.

Eu e Silvia Gobbo (doutora em Paleozoologia) estivemos presentes para defender o evolucionismo.

Durante a palestra a Silvia refutou contumazmente as afirmações criacionistas de Nahor no campo da Paleontologia e da Arqueologia.
Silvia, acostumada com a maneira franca de dar palestras dentro da Paleontologia, interrompeu intermitentemente o Nahor, o que causou o protesto de alguns alunos de graduação e do engenheiro Rui Vieira, um dos veteranos da Sociedade Criacionista Brasileira.

Eu também o interrompi por três vezes, mas deixei meus argumentos principais para depois da palestra (nessa hora a Silvia também teve a oportunidade de falar).

Na primeira vez que o interrompi foi para defender os ateus, pois ele alegou que todos os ateus acham que o universo físico é totalmente submetível à prospecção científica.

Na segunda vez, perguntei se não era contraditório que ele reclamasse da “omissão” da comunidade científica para com os “princípios do protestantismo” sendo que (como eu tinha a impressão) ele tinha dito no início da palestra que as cosmovisões dos cientistas convivem e não interferem nas pesquisas. Ele respondeu que não fez esta última alegação (talvez esteja certo quanto a isso). Deu a entender que os cientistas cristãos são superiores em termos de coerência aos demais cientistas.

Na terceira vez, perguntei se ele tinha referências de pesquisas científicas que corroborassem a afirmação de que a prática da circuncisão diminui a incidência de câncer em judeus. Ele respondeu que sim, e alegou que a secreção que o pênis produz entre o prepúcio e a glande é cancerígena (esmegma). Em resposta eu franzi o cenho, não sei se é verdade que o esmegma é cancerígeno, mas não me pareceu plausível.

(Não me parece muito inteligente por parte do Artífice criar esmegma cancerígeno.)
_______

Pois bem, a palestra começou de uma forma bem cuidadosa, e o Dr. Nahor pôde demonstrar sua admirável habilidade retórica, e seu conhecimento substancioso em ciência, patrística e escolástica, metodologia científica indutivista e dedutivista; além de conhecimentos bíblicos e suas experiências pessoais com o cristianismo.

Isso eu tive a oportunidade de elogiar, e compartilhar (a inspiração emocional da Bíblia na infância). Isso foi o bom.

Quando Nahor disse que os cientistas cristãos tinham excelentes qualidades, como a curiosidade, perguntei a ele se isso não seria problemático com a afirmação de Agostinho de que a curiosidade é uma doença. O palestrante disse que discorda da escolástica nesse ponto.

_____

Foi dito também que a Bíblia merece status de literalidade, como os seis dias da criação. Eu comentei que isso não é recomendável, dado que Javé tem atitudes análogas ao terrorismo nos eventos da destruição de Jericó e do massacre perpetrado por Sansão. Eu disse também que a Bíblia afirma que pensamos com o coração, o que já é refutado pela ciência.

Nahor disse que todos os povos relatavam desastres antigos, e que isso é uma evidência da ocorrência do Dilúvio Universal. Eu refutei dizendo que os mongóis, por exemplo, não relatam coisas assim. Lembrei que há muitos textos sagrados por aí, como as Vedas, o Corão, etc., e que dar privilégio à Bíblia é fruto de acidente cultural e deliberação irracional, não de reflexão racional.
Reclamei, por esses motivos, que o nome da palestra é equívoco, pois Nahor se ateve ao cristianismo, e não só ao cristianismo, à sua vertente particular que implica criacionismo. Sugeri que da próxima vez ele usasse “Ciência e religião bíblico-cristã são compatíveis?”.

Relatei também que o hábito dos judeus de não cumprimentar mulheres por elas estarem “sujas” por causa da menstruação (como diz o Torá) é inaceitável e não tem bases na microbiologia. Isso refutou o que ele disse anteriormente, que a Bíblia antecipou a microbiologia em recomendações de higiene.

Incentivar o fanatismo religioso, privilegiar a Bíblia injustificadamente e fingir isenção na análise de religião e ciência: isso foi o mau.

____

Por fim, apontei que Nahor, durante a palestra, usou apelos à autoridade, que consistem numa falácia lógica.
Chamei a atenção para o fato de que o Deus de Aristóteles não é o Deus do cristianismo, mas é derivado do Theos de Platão, que não é um artífice (um criador), mas uma espécie de “máquina” intermediária entre as idéias e os objetos. Nahor concordou.

Nahor, durante a palestra, citou muito Newton – tanto como um apelo à autoridade quanto como um exemplo de suposta conciliação entre ciência e religião. Eu disse a ele que Newton tentou calcular a profundidade do inferno em que sua mãe se encontrava, e que isso era literal para Newton, portanto Isaac Newton não é a pessoa mais adequada para conciliar ciência e religião.

Lembrei a Nahor que durante a palestra ele diversas vezes usou argumentos de incredulidade pessoal. Por exemplo, ele disse não acreditar que o experimento de Urey e Miller concedia evidências à abiogênese primordial, porque nunca tinha visto uma gradação entre aminoácidos, proteínas e seres vivos nos estratos geológicos.

Eu disse que se alguém colocar moléculas orgânicas num recipiente fechado com água, depois de pouco tempo a molécula seria degradada e isso pode ser explicado pela segunda lei da Termodinâmica. Disse que ele deveria levar em conta que os animais fossilizados eram uma minoria ínfima, e que a partir da observação dessa minoria é possível imaginar o que acontecia a todos.

Nahor disse ter preferência pelo indutivismo, e eu citei Karl Popper, que refutou o indutivismo do próprio Newton, porque as hipóteses que chegaram a Newton podem ter tido origens místicas, e não origem nos dados observados como alega o próprio Newton.

Popper mostrou que as hipóteses científicas podem ter qualquer origem, inclusive religiosa, e que o que as refuta e as descarta é a observação empírica.

Nahor, finalmente, passou adiante o relato sobre a visita de Dobzhansky ao Brasil e a suposta conversa que Dobzhansky teve com uma aluna de História Natural. Que Dobzhansky teria dito que “foi longe demais”. Eu convidei todos a ir longe demais: visitar o laboratório de biologia evolutiva da UnB, onde trabalho, e entrar em contato com a Teoria da Evolução.

Desafiei o Criacionismo e o Design Inteligente a explicar os dedos vestigiais que algumas cobras têm, bem como a possibilidade de aborto de fetos Rh+ em mães Rh-, e a semelhança de carpelos e pétalas com folhas. Principalmente explicar onde está a inteligência criadora nesses fatos, que evidenciam claramente a evolução – e o histórico “hábito” de trabalhar a partir de coisas já existentes: arcos branquiais viraram mandíbulas, e o osso sesamóide radial virou polegar no panda.

Não conseguir defender o Design Inteligente e o Criacionismo com coerência na Ciência e na Religião: isso foi o feio.

23rd of September

Homeopatia sob ataque


Títulos acadêmicos em Homeopatia rotulados como não-científicos no Reino Unido

Seis universidades [britânicas] atualmente oferecem títulos de bacharelado em homeopatia, apesar do fato de os testes científicos de tratamento a revelarem nada mais que placebo. Muitas dessas universidades se recusaram a revelar detalhes de seus cursos quando contactadas pela Nature e, separadamente, por críticos da homeopatia.

Por Jim Giles

“Enquanto o debate ruge sobre se o Design Inteligente deve ser ensinado em aulas de ciência nos EUA, outro assunto que muitos pesquisadores vêem como pseudociência está reivindicando um status científico no sistema educacional britânico.

A medicina homeopática é um grande negócio, mas dá-la o status de ciência é controverso.
P. MACDIARMID/GETTY

Na última década, várias universidades britânicas começaram a oferecer títulos de bacharel em ciência (BSc) em medicina alternativa, incluindo seis que oferecem BSc em homeopatia, uma terapia em que o ingrediente ativo é diluído tanto que a dose dada ao paciente muitas vezes não contém uma única molécula do ingrediente.
Alguns cientistas se preocupam que tais cursos dêem à homeopatia e aos homeopatas uma credibilidade científica não merecida, e estão em campanha para remover o rótulo.

Muitos cientistas e defensores da medicina baseada em evidências sentem que dar status científico à homeopatia é injustificável. Além do fato de não haver mecanismo conhecido pelo qual esse tratamento possa funcionar, eles alegam que a evidência contra a homeopatia é conclusiva. Das muitas revisões sistemáticas rigorosas conduzidas na década passada, apenas um grupo produziu evidência, no máximo marginal, a favor da homeopatia, com os autores em cada caso afirmando que os dados eram fracos. Muitos revisores não encontraram efeitos, e um estudo proeminente sugerindo que a homeopatia funciona mesmo (L. Linde et al. Lancet 350, 834–843; 1997), o qual é freqüentemente citado pelos homeopatas, teve sua metodologia criticada extensivamente desde sua publicação.

Mas os homeopatas envolvidos nos cursos universitários – ao menos aqueles que falaram à Nature – alegam que ensinam princípios científicos aos estudantes, incluindo a análise crítica de evidências.

Descobrir exatamente o que é ensinado nesses cursos não é fácil. Ben Goldacre, um médico e jornalista londrino, crítico contumaz da homeopatia, diz que muitas universidades se recusaram a deixá-lo ver seus materiais acadêmicos. “Não posso imaginar o que estão ensinando,” diz. “Posso apenas imaginar que estão ensinando que é bom ‘catar-milho’ nas evidências. Isso é totalmente inaceitável.””

Para saber mais (sexto parágrafo adiante):

http://www.nature.com/nature/journal/v446/n7134/full/446352a.html

O buraco é muito mais embaixo do que a grande mídia quer mostrar.

23rd of September

Experiências de quase-morte virtuais


“Illusion mimics out-of-body experiences
Camera trickery shows how easy it is to fool the mind.”

Na Nature: http://www.nature.com/news/2007/070820/full/070820-9.html

por Michael Hopkin

“Cientistas deliberadamente enganaram pessoas para pensarem estar olhando para si mesmas por fora de seus próprios corpos, usando tecnologia de realidade virtual. O achado revela como o cérebro pode ser confundido quando luta para integrar informação confusa advinda dos diferentes sentidos.Pessoas que alegam ter tido experiências de quase morte (EQMs) – mais notoriamente pacientes na mesa de operação ou aqueles que escaparam por pouco da morte – descrevem uma sensação de ter flutuado fora de si mesmos, por exemplo, em direção ao teto de uma sala de operação. Do teto eles observam seus corpos e as atividades ao redor.Tais experiências têm sido apresentadas por espiritualistas como evidência de uma alma. Mas a nova pesquisa mostra que é possível criar uma sensação similar simplesmente enganando a mente.Entender como a mente às vezes se percebe viajando fora do corpo poderia ajudar no desenvolvimento de jogos de computador mais realistas ou sistemas robóticos remotos, ou até mesmo ajudar a entender os cérebros daqueles que alegam experimentar o fenômeno naturalmente, tais como esquizofrênicos e epilépticos.

Você, eu, eu, você

O efeito foi criado em dois experimentos distintos descritos na Science esta semana, ambos usaram um método simples para enganar os voluntários para pensarem que suas mentes tinham sido destacadas de seus corpos. Em casa caso, os participantes usaram óculos de realidade virtual equipados com câmeras apontadas para seus corpos.Em um estudo, dirigido por Henrik Ehrsson na University College London, os voluntários foram então empurrados no peito precisamente no mesmo momento em que um objeto se aproximava da câmera. Nesse cenário, os voluntários se identificaram fortemente com a localização da câmera, pensando que lá se encontravam verdadeiramente – a visão de seus corpos era como a de outra pessoa.No outro experimento, dirigido por Olaf Blanke do Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Lausanne, os pacientes viam uma imagem de suas próprias costas sendo empurradas, enquanto suas próprias costas eram empurradas da mesma forma. Neste exemplo, os voluntários se identificaram fortemente com a imagem de suas costas, pensando que se tratava de sua real localização – novamente fora de seus próprios corpos.

Informação demais

O efeito bizarro acontece porque, embora nos percebamos dentro de nossos corpos, o maquinário experimental tencionava que a informação sensorial fornecida ao cérebro não correspondesse a essa idéia, explica Ehrsson. ‘O cérebro pode se enganar internamente porque está sempre tentando extrair sentido da informação – se a informação é falsa ou errônea, ele poderia conceber uma interpretação errada.’O método não recria a EQM ‘clássica’ – mais impactantemente porque no ambiente do mundo real, não há maneira óbvia de uma pessoa “ver” a si mesma. Mas as pessoas poderiam, talvez, desenhar sua própria imagem mental do corpo para criar o efeito, diz Ehrsson. “Na sala de operação não há um espelho no teto, mas poderia haver um ‘espelho’ na cabeça”, diz ele. Ehrsson e Blanke suspeitam que esta ilusão poderia envolver algum tipo de malfuncionamento em regiões cerebrais tais como o córtex tempoparietal, que integra a informação sensorial.Entretanto, “este novo experimento trouxe finalmente EQMs para o laboratório e testou uma das teorias principais de como elas ocorrem”, comenta Susan Blackmore, uma psicóloga da University of The West of England em Bristol. “Descobrir que EQMs são um fenômeno perfeitamente natural não prova que não há corpo astral, ou alma, ou espírito, mas certamente faz sua invenção ser supérflua.”

Descrença suspensa

O efeito até funciona com manequins plásticos, como descobriu a equipe de Blanke que substituíram a imagem do voluntário pela imagem de uma boneca comprada por 100 francos suíços (83 dólares)(confira o vídeo). Mas quando usaram um simples quadrado de metal como imagem, o efeito de EQM não se materializou, mostrando que o truque só pode ser extendido até aí.Descobrir exatamente como muitos voluntários podem suspender sua descrença será crucial no desenvolvimento de tecnologia para permitir usuários a assumir personagens diferentes, de robôs remotos a avatares de realidade virtual, diz Blanke.Usando informações visuais e táteis apropriadas para transmitir a sensação de estar operando no corpo de um robô ou personagem virtual poderia ajudar com aplicações que vão do projeto Robonaut da NASA, que tem por objetivo controlar robôs na lua, a cirurgiões executando operações pela internet. “Essas aplicações poderiam ser melhoradas se você pudesse ter a ilusão de que realmente está naquele lugar – você poderia agir muito mais intuitivamente,” diz Ehrsson.”

Link para o vídeo:http://www.nature.com/news/2007/070820/multimedia/070820-9.avi

21st of September

Mais um ponto para os materialistas


Rapid Erasure of Long-Term Memory Associations in the Cortex by an Inhibitor of PKM{zeta}

Reut Shema e Yadin Dudai (do Departamento de Neurobiologia, Instituto Weizmann de Ciência, Israel), em parceria com Todd Charlton Sacktor (dos Departamentos de Fisiologia, Farcamologia, e Neurologia do Centro Robert F. Furchgott para Ciência Neural e Comportamental, SUNY Downstate Medical Center, NY, EUA)

conseguiram deletar uma memória de longo prazo em ratos.

Os ratos foram condicionados para sentir náusea ao tomar uma solução de sacarídeo. A injeção da proteína ZIP, que inibe a atividade de outra proteína, a enzima MPK-zeta, causou o esquecimento desse condicionamento nos ratos, tão rápido quanto duas horas após injetada no córtex insular (que processa informação de gosto, entre outras coisas).

Notícia resumida:
http://www.nature.com/nrn/journal/v8/n10/full/nrn2240.html

Abstract do artigo, com link para o artigo inteiro:
http://www.sciencemag.org/cgi/content/abstract/317/5840/951
_________

Esta notícia nos indica que a mente, ao menos sua parte mnemônica, está fundamentada em entidades materiais no cérebro. Uma explicação espiritualista para a mente não é apenas controversa, é desnecessária.

Faço agora uma previsão: a maioria dos espiritualistas e dualistas não vai se abalar. À medida que, nas próximas décadas, a mente for explicada a partir de fundações materiais inequívocas, as hipóteses espiritualistas e dualistas vão fugir da testabilidade, vão se volatilizar em direção à irrefutabilidade empírica, ao que Popper chama de não-falseabilidade.

Isso torna o dualismo só mais uma explicação religiosa, aquém da confiabilidade das evidências, junto com o criacionismo, fadas, duendes, papai noel e a fada do dente.

14th of September

Astrologia desmistificada


Kepler trabalhava com horóscopo para ter renda extra, mas deixou para a posteridade o que lhe dava menos lucro. Será que ainda hoje a Astrologia merece crédito por ser emocionalmente, culturalmente e criativamente lucrativa? Para lermos nosso horóscopo com confiança, primeiro a Astrologia terá de enfrentar ao menos as três provas de fogo expostas aqui.

Constelações: areia ao vento?
Constelações: areia ao vento?

Em programas de rádio e de TV, há pouca dúvida sobre a compatibilidade de librianos com arianos, sobre o ascendente e a forma das constelações. Ninguém pensa duas vezes antes de classificar certo comportamento de alguém como típico de quem pertence a tal signo.

Na Universidade de Brasília existe até um “Núcleo de Estudos dos Fenômenos Paranormais” que periodicamente promove debates, e estudos que supostamente validariam o poder de previsão do conhecimento milenar dos Astrólogos.

A Astrologia é para a Física o que a Homeopatia é para a Medicina – uma pedra no sapato, uma irmã bastarda de tempos antigos.

Mas existem três grandes obstáculos, ou impossibilidades à aceitação da Astrologia como um conhecimento científico que goza de evidências a seu favor.

Primeiro, a impossibilidade comportamental.
Os bilhões de seres humanos nesse planeta estão sujeitos a influências culturais (e ambientais) que moldam suas personalidades, e é justo supor que essas influências, ao menos no passado, divergiam conforme a distância em que os grupos humanos se encontravam. Não que seja impossível que um asteca tenha tido uma personalidade similar à de um assírio, mas é mais provável que um asteca tenha se parecido mais com um inca porque o trânsito de informação entre essas culturas era geograficamente mais fácil.
As influências genéticas à personalidade podem ser igualmente complexas e dependentes de contato sexual entre os grupos.
Levanto estes dados apenas para dar uma idéia do quanto as personalidades podem ser complexas, e que classificá-las em número limitado, como os 12 signos, é trabalhoso e bem questionável.

Achar que é possível prever o comportamento de um pisciano em oposição ao comportamento de um leonino é simples ignorância em relação à complexidade cultural da espécie humana.

Segundo, a impossibilidade biológica.
Pouca gente na ciência hoje adota a divisão cartesiana entre mente e cérebro (corpo). Se há um lugar em que a mente está, este lugar é o córtex cerebral, e as pessoas dependem de outros pontos do cérebro para armazenar memória (importante para o sentimento de unidade da personalidade). Enfim, não há mente sem cérebro.
Embora virtualmente todas as pessoas possuam os mesmos lobos cerebrais, e outros pontos anatômicos, no nível das conexões neuronais (e até número de neurônios e tamanho do cérebro) as pessoas divergem muito entre si.
Para que a Astrologia fosse verdade, os astros de alguma forma teriam de limitar as rotas do desenvolvimento das conexões neuronais no feto a 12, ou um número limitado de rotas que até certo ponto determinariam a personalidade das pessoas que tivessem passado por este desenvolvimento controlado cronologicamente (num ciclo anual).
Mas isso não acontece.

O cérebro humano é espantosa e admiravelmente plástico, tanto durante quanto depois do desenvolvimento. É um enriquecimento à nossa natureza que a Astrologia seja falsa.

Em terceiro lugar, a impossibilidade física, que parece mais simples e está conectada às duas outras impossibilidades, principalmente a biológica.

Além de não existir mecanismo conhecido ou concebível de influência dos astros ou constelações sobre o tecido cerebral, os astros e constelações são muito menos estáticos do que os astrólogos pensam.
Estrelas morrem e nascem, tanto que se não tivesse havido a explosão (supernova) de uma estrela “aqui” onde estamos (presume-se que a matéria que nos cerca tenha se mantido razoavelmente coesa em seu trânsito pela galáxia nos últimos bilhões de anos), os planetas não estariam aqui, e não haveriam elementos pesados para permitir a vida.

As constelações são um padrão que muitas vezes só faz sentido visto daqui da Terra (e além disso, esse sentido é atribuído diferentemente por “astrologias” diferentes, como a dos ameríndios), e este padrão muda no decorrer dos milênios – estabelecer padrões absolutos para as galáxias é como jogar um punhado de areia para cima, tirar uma foto dos grãos e depois dar nomes a eventuais desenhos entre eles nas limitações bidimensionais da foto retratando uma configuração efêmera no ar. A Astrologia mistura estrelas com galáxias inteiras, não há um critério de considerar o tamanho do astro, quantidade de luz que ele emite, ou espectros de luz que ele emite.

A Astrologia aos olhos da Física não passa de uma piada gigantesca, como a teoria dos miasmas e a da geração espontânea são uma piada para a moderna Microbiologia.

As dúvidas da Física Teórica hoje, sobre o âmago da matéria, sobre os limites, origem e futuro do universo, são distantes das hipóteses astrológicas.
Não há meio concebível de que coisas estranhas como o comportamento das partículas quânticas possam validar a Astrologia, é extremamente improvável também que as cosmogonias teóricas como o Big Bang o façam.

Embora saibamos que a matéria contida nos tecidos biológicos obedeça à Física Quântica no nível das partículas, é possível fazer muita coisa na Biologia ignorando isso, mesmo nas Neurociências. Assim como é possível fazer muito no lançamento de satélites usando só a física de Newton (ignorando os ajustes de Einstein).
Se os cientistas prestarem tanta atenção a detalhes, ainda assim a Astrologia não vai florescer como ciência.

A Astrologia agora só tem a saída das religiões e pseudociências, que trabalham com possibilidades lógicas improváveis no mundo físico.

Por que então as previsões da Astrologia podem funcionar? Coincidência, vontade de acreditar, e coisas simples disfarçadas de previsão como “queres ser feliz, ter sorte no amor e no trabalho” e “percebes que és diferente das outras pessoas e tens espírito de liderança”. Será difícil achar quem não queira essas coisas e não idealize sua própria personalidade dessa maneira.

Ainda assim, estamos fadados a passar nossas vidas tendo de responder a que signo pertencemos em primeiros encontros com prováveis cônjujes.

14th of September

Carta aberta aos parlamentares


Caros parlamentares,

como cidadão brasileiro e estudante de Biologia pela Universidade de Brasília, gostaria de fazer alguns comentários sobre a quantidade generosa de dinheiro público que Vossas Excelências recebem, como salário e outros benefícios, sem levar em conta o quanto uma parte significativa de Vossas Excelências consegue ganhar por meios, digamos, menos publicáveis.

Não pude deixar de traçar comparações entre este fato e alguns fatos que observamos em outros animais. Não vou mencionar nenhum gado de valor estupendo, nem as interações ecológicas que Vossas Excelências realizam entre si que envolvem sua absolvição compulsória às escuras.

Eu gostaria de ver meus representantes no Poder Legislativo agindo como os Morcegos-Vampiro, por exemplo, que regurgitam sangue para doá-lo para os outros membros do grupo que não conseguiram se alimentar, evitando que morram de inanição. Na política deste país, não consigo ver o que acontece com casais de pássaros que contam com a ajuda de outros adultos para cuidar de seus filhotes.

Os parlamentares brasileiros seriam nobres se se comportassem como o macaco Cercopithecus aethiops, que grita para avisar seus companheiros sobre a presença de predadores, correndo ele mesmo o risco de ser atacado enquanto faz isso.
Mas infelizmente não consigo ver um comportamento tão belamente altruístico em Vossas Excelências.

Pelo contrário.

Parasitas são os seres que se alimentam do trabalho de outros seres, como o carrapato faz grudado no couro de uma vaca. Como não precisa trabalhar muito, o parasita pode evoluir de modo a poupar o máximo de energia para continuar se reproduzindo às custas de seu hospedeiro, se tornando uma criatura simplificada. O vírus, por exemplo, é um parasita extremamente simples, e posso considerá-lo a mais estúpida das criaturas.

Pergunto agora a qual desses seres vivos que citei os parlamentares mais se assemelham ao tratarem a contribuição pública do modo como a tratam.

Aborrecidamente,
Eli Vieira

Cercopithecus aethiops
Cercopithecus aethiops

14th of September

A incerteza da realidade do filme “Quem somos nós?”


Aclamado por movimentos new-age e pretendendo divulgar um novo tipo de conhecimento sintético entre metafísica e física, o filme “What the bleep do we know!?” (EUA, 2005) não conquistou muita coisa além de polêmica e 11 milhões de dólares.
“A ciência, diferente de todos os assuntos, contém em si a lição do perigo de se acreditar na infalibilidade dos maiores professores da geração precedente. (…) Aprenda com a ciência que você deve duvidar dos especialistas. Na verdade, posso definir ciência de um outro modo: Ciência é a crença na ignorância dos especialistas.”

Richard Feynman, 1999

O filme “Quem somos nós?” [“What the bleep do we know!?”] se propõe, entre outras coisas, a uma árdua tarefa: uma grande síntese entre as ciências, as religiões e as filosofias, ao mesmo tempo em que procura mudar o conceito de realidade, ou até mesmo negá-lo. Muito disto com base em interpretação dos conhecimentos adquiridos em Física Quântica, Fisiologia, Neurociências, Química e Astronomia.
Começa com uma referência à teoria do Big Bang, em voga na Astronomia, e discorre sobre o caráter probabilístico da Física Quântica. Mas em pouquíssimos momentos deixa claro de onde vêm conceitos como o Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg e como eles são aplicados.

Todas as afirmações de caráter moral no filme, supostamente inevitáveis à luz da Física Quântica e outras ciências, são estritamente pessoais (embora os autores não o digam) e não são cientificamente verificáveis.

O termo “quântico” vem de quantum (pacote), e é usado desde o modelo atômico de Niels Bohr que demonstrava que orbitais atômicos poderiam ser ocupados com elétrons com valores determinados de energia. Descobriu-se que a elestrofera não é um continuum energético, mas divide-se em quanta de energia. Posteriormente, Werner Heisenberg postulou um princípio de incerteza sobre partículas subatômicas, que diz, grosso modo, que quanto mais se sabe a posição de uma partícula, menos é possível medir sua velocidade, e vice-versa. E que por este motivo existe uma espécie de superposição espacial de uma partícula, e probabilidades diferentes de encontrá-la em determinados pontos.

Este princípio assustou Albert Einstein, que para a defesa de suas acepções científicas, disse que “Deus não joga dados com o universo”. Infelizmente para Einstein, a Física Quântica pôde jogar dados com o universo e verificar empiricamente o princípio da incerteza. Esta ciência também se valeu da descoberta da essência dualista das ondas eletromagnéticas, a qual teve participação de Einstein, e das demonstrações empíricas de que qualquer corpo material pode ter comportamento de onda.

No método científico, existe uma regra-mor sobre os resultados de uma experiência: não se deve extrapolar os resultados. Os resultados de um experimento não são uma panacéia, são uma resposta modesta para uma verificação modesta de uma hipótese. Verificou-se experimentalmente o caráter probabilístico das partículas elementares. Mas isso não quer dizer que tenha sido verificado experimentalmente que bolas de basquete e pessoas se comportam como partículas quânticas. E nesse ponto o filme tropeçou crassamente, como nas cenas do basquete e da multiplicidade da protagonista.

A Física Quântica de fato escandaliza o senso comum que temos sobre a matéria e a energia. Mas como toda ciência, não se propõe a interpretações de caráter moral, ético, político, religioso e comportamental como as que são divulgadas do começo ao fim do filme (os cientistas podem e devem fazê-lo pessoalmente). Há espaço para que se pense a respeito, mas as teorias científicas quânticas dizem respeito às partículas, e não devem ser levianamente aplicadas a outros aspectos da natureza sem a devida experimentação. Toda matéria e energia é resultado das interações quânticas, mas não se vê trabalhos científicos sérios que atestem as afirmações que existem no filme, como a de que o “mundo nos sente” e de que a realidade natural é fruto de nossas mentes. Também são altamente controversas as idéias de que não há limites para se influenciar o corpo com idéias. Nenhum dos autores se preocupou em verificar sua segurança nesta hipótese, dado que nenhum deles tentou andar sobre a água (algo sugerido no filme), entortar talheres com a força do pensamento ou fazer crescer um membro amputado.

É algo extremamente negativo, no filme, que se compare partículas quânticas às decisões das pessoas, às “verdades” e “realidades” e outras facetas humanísticas, pois estas não são do escopo de aceleradores de partículas. Esta interpretação obviamente pessoal gera muita confusão e atribui à Ciência o que não é verificável experimentalmente. A ciência tem de partir do postulado de que os órgãos dos sentidos humanos são confiáveis e de que captam uma realidade física independente da espécie humana. Foi assim que se chegou a muitas coisas que não podem ser captadas pelos sentidos humanos, como ondas de rádio. Novamente, nenhum autor se preocupou em exibir evidências de que o mundo físico é apenas “a ponta do iceberg” num todo de universos paralelos. Essa afirmação também não foi verificada experimentalmente pelos físicos quânticos.

Pode ser muito positivo que haja no filme a divulgação de certos conhecimentos científicos, mas para compreendê-los a fundo os espectadores terão de fazer muito mais do que alugar um DVD.

É curioso que em nenhum momento os autores tenham falado sobre o método científico (ou evidências de suas afirmações). Sobre os mecanismos de obtenção de respostas que os pesquisadores usam. Tem-se a impressão de que os achados são revelações religiosas, ao ponto de desbancar a concepção que as pessoas têm sobre divindades. Não se compara o fisicamente testável com o metafísico. Os dois saem feridos dessa mistura.

É falaciosa a afirmação de que existe um composto químico para cada emoção humana. Novamente, não se apresentaram evidências. É passada a impressão de que cada célula no corpo percebe as emoções de uma pessoa, ou de que cada célula reage a elas. A informação foi obscurecida a tal ponto que as cenas cômicas com animações de células (que defendem a idéia de que as células possuem algum tipo de consciência) chegam a ser constrangedoras para alguém que já estudou os fundamentos de biologia celular e sinalização celular.

A representação e narração sobre as sinapses está em algumas partes equivocada. A transmissão de comandos nervosos não consiste apenas em corrente elétrica mas também em neurotransmissores. “Tempestade elétrica” é um termo mais usado para epilepsia do que para o funcionamento comum do cérebro. As informações transmitidas no filme sobre a relação entre neurônios e a relação do cérebro com o corpo também foram demasiado obscuras. Criticou-se o determinismo, mas ao mesmo tempo ele foi praticado quando sugeriu-se que as pessoas procurassem explicações exclusivamente bioquímicas sobre suas emoções e problemas. Alegou-se que as emoções foram “projetadas”, o que é uma idéia que vai contra a Biologia e não a favor dela. “O observador” não foi devidamente definido embora tenha sido uma constante na argumentação do filme. Se é a consciência humana, é louvável que se encoraje os espectadores à reflexão sobre si mesmos. É natural que o cérebro tenha apenas uma parcela de suas ações executadas voluntariamente, pois se houvesse consciência de todos os seus processos, a energia a ser gasta seria provavelmente insustentável.

A afirmação de que pensamentos e emoções humanas interferem na formação de cristais de gelo é falaciosa e pseudo-científica. Foi dito que a água é um dos “quatro elementos”, mas este modelo de elementos está ultrapassado há séculos e é usado apenas em cultos místicos. Foi infeliz para o filme falar tanto em ciência e sequer explicar que já existem mais de uma centena de elementos descritos, e que a água é formada por dois deles. Para se falar em formação de cristais no gelo, é obrigatório analisar interações intermoleculares, e fez muita falta a explicação exata de quais mecanismos o pensamento humano usaria para influenciar na forma final de um cristal de gelo. Sequer foram apresentadas evidências de que este fenômeno realmente acontece, apenas um relato com apelo à autoridade do autor do experimento.

Falou-se também em “ciência desconhecida”. Se esta é a razão de não apresentarem evidências no filme, apenas apelo à empatia dos espectadores e à autoridade dos autores, só o tempo dirá.

“Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.”

Carl Sagan, 1980

Embora a divulgação científica seja sempre algo muito bem-vindo, é preciso ter critérios para que a informação seja passada corretamente dentro de um contexto que seja o mais imparcial possível. É preciso separar ciência (que usa o método) e pseudo-ciência (que fracassa em aplicar corretamente o método). Também é preciso que se evite confrontos com a metafísica das religiões e filosofias.

Neste filme é passada uma visão perigosa sobre o homem. É uma visão narcisista de um ser humano quase onipotente, de um universo submetido à vassalagem do antropomorfismo ufanista aplicado às suas entranhas. Pois se afirma que a realidade é dependente do que o homem pensa e que tudo o que conhecemos é a combinação de pensamentos e idéias. Esta visão é natural para as religiões, mas pode apenas prestar um desserviço à ciência.

A Ciência é, como o filme tentou demostrar, algo extremamente transformador sem o qual mal se viveria atualmente. Mas a Ciência não é feita do que achamos emocionalmente lucrativo, e sim do que é corroborado empiricamente. Não se propõe a ser uma verdade absoluta, mas uma verdade aprimorável com mecanismos de auto-correção. Teorias científicas amplamente verificadas são tão verdadeiras quanto a necessidade de se respirar. Mas se um indivíduo se propõe a duvidar da verossimilhança deste fenômeno, de seus pulmões e do ar, num misto de credulidade ingênua e ceticismo exacerbado, não haverá muita resposta para ele dentro da ciência. Julgar se outras áreas fornecerão respostas afins, sem um método confiável, é algo estritamente subjetivo.

14th of September

Religião (cristã): o problema da coerência


Por algum tempo eu venho dizendo que moderação nas religiões abraâmicas é como uma galinha chocando os ovos do Godzilla. Os argumentos a seguir explicarão.
__

Se os cristãos moderados propõem que o mito da criação é uma metáfora, não têm onde pôr freios à corrosão ácida que essa ‘metaforização’ vai causar nos relatos bíblicos.

Estarão somente selecionando o que lhes convém para julgar como literal, como a concepção da Virgem Maria (para os católicos), ou a paternidade divina de Jesus.

Metáfora por metáfora, Javé será uma metáfora para as leis da física? A história de Jonas e a baleia é uma metáfora? A história da ressurreição de Lázaro é metafórica? E a da filha de Jairo? E a multiplicação dos pães, o milagre de Canaã, o andar sobre as águas, a aparição para Tomé? Ora, todos esses relatos gozam de tanta santidade e evidências quanto o mito da criação em seis dias, a mulher vindo da costela e o dilúvio universal (os pontos favoritos para metaforizar atualmente).

Os fundamentalistas estão ‘certos’ em dizer que tudo é literal na Bíblia, porque foi assim que sempre funcionou e a metaforização contemporânea seria vista como uma heresia pela maioria dos líderes cristãos que já existiram.
É claro que para fazerem isso os fundamentalistas precisam se resguardar numa patética ignorância (e relutância) quanto aos fatos da natureza e as descobertas científicas.

Desse modo, mais coerentes ainda são os cristãos da chamada “ciência cristã” que se recusam a tomar remédios obtidos pela ciência (a verdadeira) e preferem esperar por milagres para curar coisas como gripe e câncer. Estão sendo coerentes com sua religião, assim como são os homens-bomba com o Islamismo.
Se o Corão incita os seus fiéis a matar os infiéis, quem são os moderados muçulmanos para dizer não?

Desconfio até que existem moderados porque eles não suportam a precariedade de seus próprios livros sagrados e são pessoas sem fé! Se a Bíblia diz que todas as espécies de animais foram botadas numa arca de alguns côvados de comprimento e largura, os moderados precisam ter fé na palavra sagrada! Se o Corão diz para cortar os pés e mãos dos infiéis em lados alternados, os muçulmanos precisam ter fé nisso também.

Certas coisas precisam ser absolutas e não admitem a hipocrisia da moderação ou do meio-termo. Moderados não seguem suas religiões, mas continuam se dizendo pertecentes a elas apesar delas mesmas.

__

Se você se diz parte de uma religião, mas considera certos pontos do que ela diz mera metáfora, então você não é legitimamente parte da religião. Se cada um está livre para considerar este ou aquele ponto uma metáfora, e não há critério quanto até que ponto a metáfora vai, então podemos ter dentro dessa religião um ateu que levou a metáfora até suas últimas conseqüências (o que fica tão coerente quanto o fundamentalismo).

Se há tanto livre pensamento dentro da religião considerada, então ela se desmembrou e se decompôs por dentro. Não é mais uma religião (no sentido restrito de ser uma manifestação coletiva).

Meu ‘problema’ não é com o modo tão comum de interpretar a religião através de acepções pessoais – acho até admirável do ponto de vista de acalmar os ânimos. Meu problema é com a coerência filosófica que resultará disso.

É tradição querer organizar as coisas, e é isso que desejo saber, o que restará a ser organizado se for proposto algo menos que “8 ou 80” quanto às afirmações do cristianismo?

Bart D. Ehrman diz: “os textos podem ser interpretados, e são interpretados (assim como foram escritos) por seres humanos que vivem e respiram, que só podem extrair sentido dos seus textos explicando-os à luz de seus outros conhecimentos (…). Por isso é que ler um texto é, necessariamente, mudá-lo”.

Mas é de se espantar que um ser onisciente e onipotente prefira se manifestar por maneiras tão obscuras. Para mim parece uma pista da falsidade dele, pois o mínimo que eu posso esperar de um ser inteligente (mais inteligente que todos nós) é que ele se expresse com o mínimo de lógica num texto sagrado que não dê espaço para interpretações escusas de caráter íntimo. Afinal de contas, ele criou ou não criou o mundo? Se posso interpretar o mito bíblico como metáfora, o que me impede de interpretar a criação em si como metáfora, algo que não aconteceu literalmente?

Sem essa de ‘linhas tortas’, também. Se Deus quer ser adorado e receber orações, seria lógico que tivesse um comportamento livre de obnubilações. Se ele permite tanta liberdade de interpretação para o que ele disse, então ele permite muitas interpretações referentes à sua própria natureza, a maioria delas, por uma questão estatística, plenamente errôneas e até ofensivas. “Fiéis, podem me subestimar até como uma entidade antropomórfica vingativa que cria primatas a partir de barro, mas o importante é que me adorem e paguem o dízimo”.
_______

CIÊNCIA E RELIGIÃO

Modelos científicos não são completamente destruídos. Eles costumam ser melhorados, como o que aconteceu com Newton, com os modelos atômicos, e até com a teoria da evolução. Coisas como a geração espontânea, por exemplo, nunca chegaram a ser modelos científicos per se, porque não conseguiram excluir alternativas.
Já a religião, quando muda radicalmente, costuma ser por meio da força bruta ou do poder, nunca por causa das evidências.

O que deterá a corrosão ácida que a metaforização está causando?

Qual é a escala de fantasia que estão usando para dizer que certa coisa é fantástica demais para ser literal na Bíblia? Porque a história do messias não é tão fantástica quanto a da criação do gênesis?!

Há muitas limitações biológicas impostas à história da concepção da virgem, e elas podem ser tão numerosas quanto as limitações à criação divina de seis dias.

Se estou sendo radical demais ao exigir um 8 ou um 80, é porque não vi nenhum método confiável apresentado pelos cristãos que seja justo ao julgar o que é metáfora na Bíblia.
_____

TEOLOGIA LIBERAL

Três elementos da Teologia Liberal segundo o bispo anglicano Dom Sumio Takatsu (apenas os parágrafos com número):

(1) “É receptivo à ciência, às artes e estudos humanos contemporâneos. Procura a verdade onde quer que se encontre. Para o liberalismo não existe a descontinuidade entre a verdade humana e a verdade do cristianismo, a disjunção entre a razão e revelação. A verdade deve ser encontrada na experiência guiada mais pela razão do que pela tradição e autoridade e mostra mais abertura ao ecumenismo.”

Traduzindo: “caro fiel, se vire. Se acha que não consegue acreditar ao mesmo tempo em concepção virginal e genética molecular, faça uma sublimação dos dois conceitos, guarde para si, e não me venha com chorumelas. Pode xavecar com religiões que dizem coisas diferentes das que eu digo, não tô nem aí”.

(2) “Tem-se mostrado simpatia para com o uso dos cânones da historiografia para interpretar os textos sagrados. A Bíblia é considerada documento humano, cuja validade principal estar em registrar a experiência de pessoas abertas para a presença Deus. Sua tarefa contínua é interpretar a Bíblia, à luz de uma cosmo-visão contemporânea e da melhor pesquisa histórica e, ao mesmo tempo, interpretar a sociedade, à luz da narrativa evangélica.”

Traduzindo: “Caro fiel, lembre-se acima de tudo que a Bíblia diz coisas bonitas, portanto alguma coisa deve ter de verdade. Se não sabe por que outros documentos humanos como as cartas que você escreveu para a sua namorada não são considerados sagrados, saiba que a Bíblia é velha, chegou primeiro, então merece estar no altar. Interprete a sociedade baseando-se no sermão da montanha, não no massacre de Jericó, por favor”.

(3) “Os liberais ressaltam as implicações éticas do cristianismo. O cristianismo não é um dogma a ser crido, mas é um modo de viver e conviver, caminho de vida.”

Traduzindo: “Caro fiel, apenas se diga cristão porque a gente gosta de ver você fazendo isso. Faça o que é certo como nós dizemos, continue a tomar a hóstia mesmo achando que está só comendo um pedaço de farinha. Quanto a Cristo ser Cristo mesmo, esqueça, coma essa farinha e cale a boca”.

Os postulados da Teologia Liberal não resolvem o problemão de ter um Deus onipotente e onisciente que não se comporta como tal.

Se Deus deixou que um livro de homens como a Bíblia tivesse justificado tanta besteira em nome dEle, então não é ao mesmo tempo bom e intervencionista. Minha linha de argumentação me leva aos clássicos argumentos de Epicuro:

“Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?”

Nos moldes da teologia liberal o conceito de Deus como ser inteligente, dotado de poderes e criador da natureza é um conceito tão oco quanto um unicórnio com essas mesmas características.

Se é para metaforizar o Antigo Testamento dando privilégios de literalidade apenas para o Novo Testamento, ainda teremos o problema de saber se há uma ligação válida entre os dois quando o último cita o primeiro.

Existe a interpretação de que Cristo morreu para lavar o pecado original de Adão e Eva. Se a história de Adão e Eva é uma metáfora, Cristo morreu então em nome de caprichos de estilo literário de seu Pai – o que diminui o feito.

_____

ADAPTANDO EPICURO AO PROBLEMA LITERAL/METAFÓRICO

Deus deseja passar aos homens mensagens explicativas sobre si mesmo e sobre as origens, mas não é capaz de fazer de tal modo que seja uma mensagem literal que não permita interpretações mutuamente excludentes ou refutação com base em evidência? Então não é onipotente.

É capaz, mas não deseja? Então ninguém sabe sobre a sua natureza, nem mesmo que se trata de um ser único ou de um ser que criou o universo.

É capaz e deseja? Então por que os textos sagrados já produzidos pela humanidade são tão etéreos, perdem tanto tempo em homilias, e quase nunca acertam alguma coisa sobre a natureza (revelando assim a limitação de quem realmente os escreveu)?

Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus, e por que sequer o consideramos uma possibilidade plausível quando o único motivo para fazê-lo é nosso desejo de ter um universo aconchegante?

Ou então Deus é apenas algo sem inteligência, a base da matéria e da energia, por isso não é capaz de ditar textos sagrados, nem deseja, nem tem a capacidade de desejar qualquer outra coisa. Algo extremamente simples que deu origem a todo o universo, mas passa longe de ter a inteligência de uma bactéria e a sabedoria de um camundongo.
Me parece que essa é a metáfora para Deus.

Pode-se julgar que é metafórico apenas o que está escrito em linguagem poética na Bíblia?

Não. Isso é subjetivo e seria um método desonesto. O sermão da montanha está em linguagem poética. E então, os bem-aventurados aflitos serão ou não serão consolados? É metafórico, então devo interpretar que os aflitos serão consolados não porque há uma força consoladora que os aliviará, e sim porque o tempo cura a aflição, ou então porque a morte será um consolo porque extinguirá a aflição negativamente.

Cristo andou sobre as águas violando as leis de Newton e acusou os profetas de serem homens de pouca fé. Se a passagem me parece poética, então é metafórica, quer dizer apenas que a fé é um fortificante transformador da personalidade e não um artífice da natureza.
Mas se a passagem não é poética, quer dizer que Jesus violou as leis da Física.

Nenhum problema, afinal ele é o filho de Deus e tinha poder para isso, não é?
OK, ser religioso é acreditar nessas coisas que aconteceriam poucas vezes na história. Mas o que está em discussão aqui é: os religiosos estão dispostos a serem coerentes de modo a acreditar em eventos milagrosos relatados na Bíblia de forma a ignorar sua inconsistência frente à ciência?

Pode existir uma linha contínua de coerência quanto ao modo de considerar um ou outro evento milagroso uma metáfora porque é vergonhosamente inconsistente?
O fato de descartar a literalidade é reflexo de reflexão lógica profunda ou mera seleção com base em apetite?

Dizer que os milagres de Cristo são literais e o dilúvio universal é metafórico só transparece a motivação primordial da religião: humanizar o universo. Julgar que algo é verdade porque é bonito e reconfortante.

Esta motivação, apesar da absurda incoerência, é o que jaz por trás da retórica teológica, da ascenção e queda de dogmas, dos mistérios da fé, dos milagres, e todos os pilares fundamentais do cristianismo.