4th of March

Memética com refri e fritas


No último capítulo do livro “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins, um conceito importante é introduzido: o meme.

O termo meme surgiu como uma analogia ao gene. Da mesma forma que o gene seria a unidade mais básica da informação do DNA, acumulada durante 3,8 bilhões de anos de descendência com modificação dos seres vivos terrestres, o meme seria a unidade replicante básica da cultura. Cultura pode ser vista como o conjunto de informações que não estão presentes no DNA e são passadas através de aprendizado, e se encontram armazenadas na memória ontogenética dos cérebros, nos livros, nos sites, nos artefatos de engenharia, etc.

A Biologia Molecular sabe muitas coisas sobre um gene: que seqüências de nucleotídeos indicam onde começa e termina, e onde será cortado (editado) caso o ser vivo seja dotado do tal “Splicing Alternativo”, como o gene é transcrito para RNA e traduzido na seqüência de aminoácidos, etc.

As neurociências não têm ainda tanto a dizer sobre unidades de memória ontogenética. Sabemos que órgãos e comportamentos estão ligados à memória: hipotálamo e hipocampo são centros de organização e armazenamento, o sono é uma sucessão de eventos de consolidação.

Obviamente, não se pode apontar ainda o que exatamente na memória corresponde aos memes. Mas a Memética ajuda a elucidar a evolução das culturas assim como a Genética elucida a evolução biológica. Se a segunda pode ser entendida como a alteração na freqüência de genes através das gerações, a primeira pode ser entendida como a alteração na frequência de memes através do tempo (com nível substancial, mas não obrigatório, de hereditariedade).

O meme pode ser definido como uma idéia, um hábito, um “algoritmo” artificialmente construído, uma forma de pronúncia, e seu conjunto pode ser visto como blocos sustentados sobre bases que já possuímos.

Por exemplo, Noam Chomsky propõe um “órgão da linguagem” inato que consiste em nossa predisposição a falar. Alguns experimentos, como o do faraó Psamético I relatado por Heródoto, poderiam mostrar como uma língua nasce a partir de um conjunto de seres humanos que nunca tiveram contato com nenhuma outra língua. O “órgão da linguagem” não seria constituído por memes, mas por genes. Alguns genes, como o Foxp2, foram associados à linguagem.
Sobre a base do órgão da linguagem é que se sustentam os memes da língua, que dependem de aprendizado e conhecimento acumulado na cultura: como chamar um alimento rico em amido de trigo de “pão” ou “bekos” (como relatado do experimento do faraó).

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A Filologia já trabalha com a hipótese memética (sob outras designações) há tempo.
Antropólogos, por exemplo, usam palavras similares de várias línguas para dizer se há uma língua ancestral comum entre elas, e, por conseguinte, uma cultura ancestral comum entre as culturas que apresentam essas línguas.

E isso corresponde muitas vezes ao padrão de distribuição de populações humanas previsto por análises biológicas (biogeográficas).
Por exemplo, em 2007 foi publicado um artigo de Kumar e colaboradores mostrando similaridades genéticas entre populações asiáticas falantes das línguas da família lingüística austro-asiática.

O meme se replica usando mentes, assim como um vírus só se replica usando o metabolismo de uma célula. Os genes do vírus, assim como um gene isolado no genoma humano, não se replicam por si mesmos – a partícula viral solitária, mesmo num ambiente rico em nutrientes biológicos, é inerte, diferente de uma célula bacteriana. (O modo como os genes passaram a ser, em conjunto, verdadeiramente auto-replicantes, é uma questão a ser respondida no contexto da origem da vida.)

Memes, assim como genes, também podem se extinguir: toda a língua da cultura Xi Xia, destruída por Gêngis Khan, bem como o modo como se lêem suas escrituras, como se pronunciam seus signos, são exemplos de memes extintos.
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História e exemplos

Uma parte fundamental dos memes tem origem há cerca de 150 a 200 mil anos na África, junto com o surgimento do Homo sapiens. Alguns dos memes são muito antigos, como vestir roupas (data do Pleistoceno), e o uso de ferramentas, enquanto outros são muito recentes, como gritar “ah eu tô maluco!” no estádio de futebol (este último tem caído vertiginosamente no pool mêmico nos últimos cinco anos).

É possível traçar esboços de clados de memes lingüísticos, melhor ainda, de etimologia das palavras (dado que é difícil saber o quanto mudou o significado por trás do termo).

Por exemplo, a palavra do inglês contemporâneo thwart (atravessar, barrar, frustrar).

Segundo o site YourDictionary.com, thwart tem origem na língua germânica comum. Talvez impossível saber que forma tinha inicialmente.

Mas os descendentes do ancestral comum da palavra thwart se encontram em todas as línguas germânicas (definições em inglês entre parênteses).
No alemão, zwerch. (“athwart”)
No norueguês, tvers. (“over”)
No sueco, tvär. (“crossways”)
No dinamarquês, tværs.(“across”)

Com um estudo mais aprofundado, talvez seja possível para o filologista traçar como cada uma dessas formas se aparenta com outras, e é proposto também que essas palavras compartilhem parentesco com o torquere do latim (contorcer), que teria nos dado também palavras da raiz de tortuoso.

Por mais imprecisas que sejam essas hipóteses, a idéia principal é que isso mostra como os memes evoluem com o passar das gerações.

Como pode acontecer também com genes, nem sempre a forma encontrada numa dada população é fruto de seleção.

Tvär é tão bom quanto tværs, o mesmo pode ser dito quanto às diferenças quanto ao uso e significado dessas palavras. A explicação mais parcimoniosa é que essas formas se encontram como são hoje em suas respectivas línguas porque houve DERIVA do meme – estão aí por fatores estocásticos, resultantes de aleatoriedade.

A hipótese de deriva diz que a palavra (ou o meme) se encontra como está porque

1 – Os fundadores da primeira população falante da língua em questão (por exemplo, o norueguês) pronunciavam “por acaso” essa palavra de um modo um pouco diferente de como costumava ser pronunciada na cultura de seus pais. Isso é o efeito do fundador. (Pensem em como se pronuncia a letra R em “porta” dependendo da região do Brasil.)Esse modo de pronúncia já direcionou mudanças com o passar das gerações de modo à palavra atual ser tvers.

2 – Dentro da população que falava a língua germânica comum, outros modos de pronúncia foram desaparecendo, porque as pessoas que os usavam não tinham muita visibilidade social. Permaneceu a pronúncia mais usada na primeira população da Noruega e esta se assemelhava mais a tvers. Isso é o efeito do gargalo de garrafa (bottlenecking).(Pensem em como é considerado “deselegante” que apresentadores de telejornal pronunciem poRRta como se faz no interior de São Paulo e em Uberlândia.)

A diferença entre os dois efeitos é que o 1 parte de uma baixa freqüência do meme para uma alta freqüência do meme conforme a população falante da língua norueguesa cresceu. (A cultura se expandiu.) E o 2 presume que a presença do meme atual se deve mais à extinção de outros memes.

Além dos fatores estocásticos, pode ter acontecido também seleção.

Não estamos falando de seleção natural, dado que estamos tratando de cultura.

A seleção dentro da Memética acontecerá de acordo com princípios lamarckistas, pois uma pessoa pode deixar de usar memes durante sua vida e pode adquirir novos memes, além de poder criar novos memes. Uso e desuso.

Falando denovo em palavras, como uma palavra que se encontra hoje em alguma língua pode ter sido selecionada?

É aí que entra o que os linguistas chamam de “lei do menor esforço” – passar mais informação pronunciando menos fonemas, o que pode ter uma vantagem dependendo da cultura analisada.

Exemplo de palavra que mudou de acordo com a lei do menor esforço a seguir.

Na língua inglesa predominam palavras curtas, monossílabos, dissílabos e trissílabos principalmente no uso coloquial. Algumas palavras grandes comuns em línguas latinas como o português são consideradas palavras “difíceis” (aquelas de menor uso, mais freqüentes em dicionários que em uso coloquial).
No Brasil o uso da palavra “adquirir” é comum, mas nos EUA é raro o uso da forma “acquire”, sendo preferida o sinônimo condicional “get” (que também substitui como sinônimo muitas outras palavras maiores, como “understand”).

No português brasileiro, diríamos que um viciado vai para a clínica de reabilitação. No Reino Unido, “clínica de reabilitação” é simplesmente rehab.

Rehab tem uma origem muito clara, que é rehabilitation – uma palavra grande para os padrões da língua inglesa. De acordo com a “lei” do menor esforço, aposto que “rehab” é muito mais utilizada pelo falante coloquial do que “rehabilitation”, portanto há seleção do meme que diz respeito à utilização dessa palavra.
Principalmente depois da música “Rehab” de Amy Winehouse. 😀

Estou falando do surgimento de novidades evolutivas culturais no nível dos memes, mais particularmente nos memes que dizem respeito ao uso de palavras para expressar significados.

Outra fonte de novidade evolutiva é mutação.

Como um meme sofre mutação?

Dou mais um exemplo para tentar compreender:

Os memes referentes a fast food cresceram muito no século XX. Tomemos a expressão “Cheese Burger”.

Burger já é uma forma mutada. Sofreu seleção da “lei” do menor esforço a partir do ainda usado hamburger.

Hamburger também é uma forma mutada, não na grafia mas no significado – no passado era usado apenas para designar algo ou alguém originário da cidade alemã de Hamburgo.

Agora a forma derivada usada em lanchonetes brasileiras por aí: X-burguer.
O X vem da pronúncia levemente incorreta (mutação!) da palavra cheese, que é idêntica ao nome da letra no português. Por isso, de acordo com a lei do menor esforço, que serve também para a grafia, Cheese virou X (mutação!).
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Música como caso especial de complexo de memes

Se o “órgão da linguagem” de Chomsky é a base genética sobre a qual se fundam os memes da língua, haveria bases genéticas para sustentar os memes da música?

Estamos, acredito, pré-dispostos geneticamente para encontrar padrões sonoros e vocalização para reforçar sentimentos e estimular um mesmo estado mental para um conjunto de mentes ao mesmo tempo.

O conhecimento é precário quanto a como essa pré-disposição teria surgido. Temos apenas hipóteses, entre elas, a de que a música surgiu para nós como a cauda do pavão: seleção sexual. Mas não se observa (aparentemente) diferença de aptidão musical entre homens e mulheres, e isso traz um problema para esta hipótese, dado que apenas o macho teria o que se chama de “display” (exibição) a sofrer a atuação da seleção sexual.

A nossa musicalidade pode ter sido também um subproduto de outras aptidões. A vocalização, a produção de som em geral é muito útil e tem papéis claros na evolução: espécies com comunicação interindivíduos têm claras vantagens evolutivas: agregar os filhotes em volta da mãe, afastar predadores e competidores, etc.

O nosso cerebelo, antes ligado apenas ao equilíbrio e habilidades motoras, foi descoberto como um região encefálica importante durante a interação com a música.

Uma notícia da Nature diz que “culturas africanas que têm cantos similares tendem a ser geneticamente próximas”, um indício de que existe mesmo esta pré-disposição:
http://www.nature.com/news/2007/071210/full/news.2007.359.html

Assim, se há bases genéticas para formas de se fazer música, a letra de “Garota de Ipanema”, por exemplo, seria um meme (ou conjunto de memes) sustentado por essas bases.

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Fontes e Bibliografia Relacionada
Alberts, Bruce et al. Molecular Biology of The Cell. Garland Science, 2002.
Dawkins, Richard. O Gene Egoísta.
Dennett, Daniel. A Perigosa Idéia de Darwin.
Kumar, Vikrant et al. Y-chromosome evidence suggests a common paternal heritage of Austro-Asiatic populations. BioMed Central, 2007.
Ridley, Mark. Evolução.
YourDictionary.com

27th of February

Panteísmo, Wittgenstein e o vestuário feminino


No site de relacionamentos Orkut discuto freqüentemente sobre religião, que, por minha orientação epicurista e minhas preocupações filosóficas, é obviamente um assunto muito importante para mim.

As questões que tratam da origem, futuro, e natureza do universo e da nossa existência sempre serão muito relevantes. E as religiões pretendem explicar essas coisas. Portanto, me interesso por elas. E as julgarei na medida do possível.

Surgiu certa vez uma discussão sobre Panteísmo, baseada primariamente numa afirmação de Richard Dawkins, de que o Panteísmo seria um “ateísmo sexuado” (sexed-up atheism).

Por mais infeliz que possa parecer esta alegação (e de fato é infeliz, uma vez que expõe a opinião de muitas pessoas de uma forma que elas não gostam), não está de todo equivocada. Penso até que, dadas as devidas explicações, é não apenas compreensível mas defensável.

Explico-me com uma compilação do que disse naquele site:

Se o deus panteísta se confunde com o universo ou a energia, decidir chamá-lo ou não de deus é uma simples questão semântica, de gosto mesmo.

Não é muito diferente de chamar de Chapolim Colorado ou de Apolônio.

Em última análise, simplesmente não se identifica com algo pessoal, uma mente. Ao menos para Einstein (não sei se para Spinoza também), no que ele dizia, não parecia em nada com algo dotado de mente. Era mais um grande cômputo, autômato ou computador, o grandioso “maior do que o qual nada pode ser pensado” de Anselmo de Canterbury.

Com a diferença de que Anselmo achava que podia provar que era um deus pessoal, e que era benevolente, onipotente e onisciente. O máximo que Anselmo conseguiu provar é que tinha de haver algo maior que tudo, em que a energia como um todo se encaixa muito bem sem ter que se preocupar com nossa vida sexual como o Deus de Anselmo fazia.

“Ateu” significa, obviamente, não acreditar em divindade.
Mas nada impede um ateu ser um “panteísta”, no sentido de buscar inspiração em todo o universo material como se fosse uma entidade divina, sabendo, por ser ateu, que na verdade não é.

Dependendo da definição aplicada a teísta e ateísta, a afirmação acima pode parecer descartável pela Lógica formal.

Por isso talvez seja proveitoso trazer à tona algo de Wittgenstein.

Wittgenstein abandonou o atomismo lógico de Bertrand Russell (que propõe que existem proposições lógicas básicas irredutíveis que tornam a lógica algo universal).
Porque com os seus “jogos de linguagem”, ele concluiu que uma lógica universal não se aplicaria a casos que exemplificam a plasticidade da linguagem em figuras que enriquecem o discurso, como metáforas.

Portanto, não haveria para Wittgenstein uma Lógica universal.
A própria lógica seria “contingente” ao respectivo jogo de linguagem.

O que pretendo dizer com isso é que não há necessariamente contradição em ser panteísta e ateísta ao mesmo tempo. Não porque eu estou dando uma de homem-bomba e estou jogando tudo para o relativo como fazem os néscios pós-modernos.

Não. É porque, como eu já tentei expressar, não há consenso quanto à definição do termo Deus.

Se posso tirar tudo de sobrenatural do termo, posso sim ser panteísta. Mas, do modo como a maioria da humanidade interpreta o termo, ainda sou um ateu.

Ele olhariam para o deus que eu apresento e dirão “mas quê? É isso que você acha que é Deus?? Quero um que me torne rico!”

A “lógica” que me proibiria de ser ateu e panteísta ao mesmo tempo é formalmente impecável (ateu sem deus não é panteísta com deus). Entretanto… percebe-se a questão semântica: estou trabalhando com no mínimo duas definições de deus ao mesmo tempo: a que eu escolheria se fosse panteísta, e a que se identifica nas religiões e me torna ateu – sem que eu tenha mudado minha opinião.

Por isso mesmo penso que não há nada mais inútil e confuso, em termos práticos, que ser teísta defendendo o panteísmo, sabendo que o deus contido nessa opinião nada tem a ver com o que deus significou na maior parte da História.

De acordo com o pensamento de Wittgenstein denovo, a definição que mais vale é aquela consensual no jogo de linguagem – e a que está ganhando em número (hoje) com certeza não é a definição panteísta.

Também a definição de ateu que estou usando envolve mais do que rejeitar crença em deus(es): envolve minha percepção materialista filosófica, e meu respeito pelo modo científico de se obter conhecimento a ponto de eu rejeitar outras formas como igualmente confiáveis.

Se o panteísmo é um ateísmo disfarçado, é também um teísmo sublimado.

Um teísmo em que um conceito original de um deus pessoal foi evaporando para se identificar com o universo em si mesmo.

Temos que levar em conta as origens do conceito de deus. Houve um tempo em que se tratava sim de um barbudo sentado logo ali numa nuvem.

Recapitulando, estou usando duas definições de deus – a panteísta (impessoal) e a teísta (pessoal).

A segunda predomina em número, isso é óbvio – e não é argumento ad populum, é constatação.

Usando os jogos de linguagem de Wittgenstein, mesmo que para si mesmo um panteísta use o Chapolim Colorado (deus) dele, isso é irrelevante num jogo de linguagem em que a definição funcional e consensual é a segunda.

Ou seja, nestes termos, a lógica predominante neste jogo de linguagem dita que o panteísta é na verdade um ateu nu e cru. Um panteísta não se sente um ateu porque sabe exatamente o que é Deus para ele. No entanto, repito, o conceito consensual de deus que existir em sua sociedade permite que ele seja tratado como um ateu (quando tratamos a humanidade como um todo, com seu número incomensurável de comunidades e jogos de linguagem, não teremos um consenso).

Porque o panteísta, aos olhos do conceito consensual, está usando indevidamente um vestido (a palavra deus) para botar numa mulher feia (o universo), enquanto todo mundo só veste a mulher bonita (o deus pessoal) com esse vestido.

Também seria correto dizer que um ateu não pode ser panteísta – mas para isso toma-se a premissa de que há pelo menos duas definições fixas aí: ateu e deus.

Por complicado que possa parecer, a linguagem é maleável para cada pessoa, mesmo que isso gere discordância.

Para deixar claro, o que eu citei de Wittgenstein pode ser resumido em duas coisas:

1 – A Lógica não deveria ser tratada como universal, por isso não haveria o Atomismo Lógico de Russell que valeria para toda e qualquer inteligência. (Minha opinião sobre isso é irrelevante para o entendimento do assunto tratado.)

2 – Uma das coisas que impede a universalidade absoluta da lógica é a plasticidade de conceitos, e a alteração instantânea e “temporária” de conceitos em figuras de linguagem.

Evitei dizer antes: tenho esperanças de o atomismo lógico ainda ser defensável. Mas preciso aprender muito para tentar defendê-lo. Uma vez que temos conceitos claros, a lógica também é funcional e defensável. Mas, como eu já disse, a lógica não consegue abraçar toda a plasticidade do discurso.
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“Dubitando ad veritatem pervenimus.”
Marco Túlio Cícero

20th of December

Foucault e os rótulos


Em vários assuntos, especialmente em religião, já encontrei diversas pessoas evitando serem classificadas. Tudo bem, uma vez que se tenha insegurança quanto a não saber o suficiente, é natural que se evite um “rótulo” (o que equivale a estar indeciso sobre o voto no começo de uma campanha eleitoral – algo muito saudável).

Mas algumas delas mostravam uma compreensão acurada do assunto, o que mereceria uma classificação. Mesmo que não tivessem opinião, existem classificações ou rótulos para descrever este estado mental também – como cético, agnóstico.

Por que então tanta aversão a rótulos? Isso virou um clichê em papos-cabeça de mesa de bar, quase um chavão batido.
Percebo certa injustiça (e, confesso, a frivolidade dessa opinião me incomoda) e me proponho a defender os rótulos.

Diz-se, por exemplo, que não se deve rotular porque cada pessoa “é um universo distinto”.
Mas só por isso?

Eu e Drauzio Varella somos universos distintos, mas mesmo assim podemos receber o rótulo “brasileiros”.

Eu e Francisco Quiumento somos universos distintos, mas recebemos de bom grado o termo “evolucionista”, e o rótulo “ateu”, assim como Drauzio Varella.

Ser universo distinto não justifica uma aversão por “rótulos”.

Se não se escolhe um rótulo, é porque não se tem opinião firme sobre nada – o que infelizmente aparenta ignorância demais. Ou então, é porque se quer evitar debate sabendo antecipadamente que não se conseguirá defender uma dada opinião.

Se seguirmos o conselho de abandonar rótulos, não sairemos muito do lugar. Se eu não posso classificar minha opinião em uma categoria, ou numa palavra só que sintetize o que penso sobre determinado assunto – que é o rótulo – será muito difícil que se estabeleça uma comunicação se eu tiver que explicar tudo desde o princípio para cada novo interlocutor.

Rótulos servem para isso, entre outras coisas. Subestimam a totalidade de uma pessoa? Sim, se têm a pretensão de explicar todas as suas facetas. “Brasileiro” não explica todas as minhas facetas, apenas diz onde nasci, e pode prever por exemplo com que tipo de coisa eu já entrei em contato.

Mas se uma pessoa resolve tomar o rótulo “brasileiro” como se dissesse que eu adoro futebol, esta pessoa estaria redondamente enganada, pois eu sou quase que completamente indiferente a esse jogo.

O problema do rótulo é a interpretação a respeito dele que foge do escopo do rótulo. Se sou ateu, não significa que como criancinhas no jantar, não significa que sou imoral, e não significa que sou incapaz de amar.

O problema do rótulo não é ser classificado por ele, e sim não compreendê-lo.
Não é evitando ser classificado que vou conseguir fazer as pessoas entenderem minha opinião.

Evitar rótulos pode ser de motivação puramente emocional, e nesse caso é compreensível e ninguém deve pisar no calo.

Uma pessoa que pode exemplificar a aversão por rótulos é Michel Foucault (1926 – 1984), um não-confesso filósofo.

Em “Verité, pouvoir et soi.” (entretien avec R. Martain, Université du Vermont, 25 de octobre 1982.Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris:Gallimard, 1994, vol. IV, pp. 777-783, por Wanderson Flor do Nascimento.), eis a resposta de Foucault a uma pergunta:

– Se tem colado em você muito regularmente o rótulo de “filósofo”, mas também de “historiador”, de “estruturalista” e de “marxista”. Sua cátedra no Collège de France se intitula “história dos sistemas de pensamento”. O que isto significa?

“Não penso que seja necessário saber exatamente o que eu sou. O mais interessante na vida e no trabalho é o que permite tornar-se algo de diferente do que se era ao início. Se você soubesse ao começar um livro o que se ia dizer no final, você crê que teria coragem de escrevê-lo? Isso que vale para a escrita e para uma relação amorosa, vale também para a vida. O jogo vale a pena na medida em que não se sabe como vai terminar.

Meu campo é a história do pensamento. O homem é um ser pensante. A maneira como ele pensa está ligada com a sociedade, a política, a economia e a história e também está relacionada com categorias muito gerais, olhares universais e com estruturas formais. Mas o pensamento e as relações sociais são duas coisas bem diferentes. As categorias da lógica não estão aptas a dar conta adequadamente da maneira que as pessoas pensam realmente. Entre a história social e as analises formais do pensamento há um caminho, uma pista – bem estreita, talvez – que é o caminho do historiador do pensamento.”

O trecho em negrito me lembrou Wittgenstein. Mas Wittgenstein também denunciava a superfície sem atrito, escorregadia, que o uso distorcido das palavras pode se tornar na filosofia. “Abaixo a tergiversação”, diria ele.

Se Foucault acredita mesmo em abandonar completamente os rótulos, está criando para si seu próprio “jogo de linguagem” (termo de Wittgenstein), e está se isolando – o que não é raro na história da filosofia.

Mas eu sou do time dos rótulos, sou do time dos que não querem entrar nas torres de marfim, querem se misturar ao resto, aos outros rótulos, e no fim, meu rótulo será uma colcha de retalhos e não fará diferença tê-lo ou não tê-lo como um grão de areia em meio a um deserto. Mas se eu não tenho meu rótulo, sou um grão de areia mais igual a todos os outros, e não posso ser destacado para um olho que procure ao acaso.

Enfim, melhor que abandonar os rótulos é depurá-los. Foucault não pode ter a arrogância de se ver livre dos rótulos, se ele não os quer, vão dá-los a ele para compreendê-lo.
***

OUTROS ERROS DE FOUCAULT
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Os comentários abaixo se referem à seguinte entrevista de Foucault:
http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/amitie.html

Me parece que Foucault concorda com os sexólogos que vêem a amizade entre duas pessoas do mesmo sexo como “homoerótica”.

A teoria da conspiração de que as instituições modernas lutam para extinguir a amizade é absurda. Só se for lá na França.

Das conversas que tenho com meus amigos homossexuais, não percebi que eles tratem amizades e parceria romântica como a mesma coisa. Me parece que entre eles a distinção é exatamente a que existe também nas relações heterossexuais (ou heteroeróticas se amizade entre pessoas de sexos diferentes também pode ser tratada dessa forma).

Não vejo razão alguma para considerar que a amizade está sendo atacada, e nem vejo razão para associar a amizade nos tempos antigos a relações eróticas em que não importava se existia sexo ou não.

Não duvido que duas mulheres, por exemplo, com tendências homossexuais possam desenvolver uma forte amizade para se manterem conectadas apesar de sua “caretice” de se fingirem heterossexuais.

Mas se Foucault generaliza isso, está indo longe demais e está escorregando no chão não-áspero, ou como se diz vulgarmente, tá viajando na maionese.

Amizade para mim é aquela de Epicuro, em que duas pessoas simplesmente se admiram mutuamente, ou têm idéias parecidas, ou querem anular o tédio de terem de se relacionar com as pessoas só por razões sexuais, profissionais ou de outras conveniências sociais.

Como diz Arnaldo Jabor em um texto que virou música da Rita Lee, “amor sem sexo é amizade”.

9th of December

Analogias



A ciência é um cachorro imortal.

O dono costuma achar que o controla enquanto o possui, e que o animal vai sempre se curvar aos seus caprichos. É um cão leal e obediente, mas tem algo de misterioso e independente.
Quando o dono antigo morre, o cachorro imortal vai para um dono novo, e lá o cão vai ter alimento, conforto e fará as tarefas que o dono quiser.

O cão imortal está sempre mudando a pelagem, mas sua anatomia interna continua basicamente a mesma. Quando a tarefa requisitada pelo dono ameaça a vida do cachorro imortal, o canino se recusa a executá-la.
Se o dono tenta forçar o cachorro a realizar a tarefa impossível, o canino foge de casa. O dono, frustrado com a fuga do cãozinho imortal, pode substituí-lo por cães mortais, lobos ferozes, gatos desobedientes, pássaros impossíveis de se capturar, mas nunca consegue um animal tão útil quanto o cão imortal.

Mas o cachorro imortal também comete travessuras contra o dono.
Sem querer, ao abanar o rabo, derruba e estilhaça louças finas que não tinham utilidade nenhuma mas embelezavam a casa. As louças finas são os dogmas religiosos.
Na calada da noite, o cãozinho mata as galinhas que estavam sendo cuidadas há meses. As galinhas são as hipóteses formuladas com todo o cuidado e carinho, mas que não sobrevivem à mordida do cão imortal.

O cachorro imortal não ama nem odeia o dono, mas faz qualquer tarefa que o dono quiser contanto que a tarefa não ameace sua própria vida (pode até ameaçar a vida do dono, mas não a sua própria). O cão pode ser usado para o bem ou para o mal, mas nunca para mudar sua anatomia interna básica, nem para achar sempre o que foi esperado em vez do que é capaz de encontrar com seu faro fino.

Uma vez que o dono tenha morrido, ou que o cachorro imortal tenha fugido de casa, este pode ou não achar um dono novo. Se não acha um dono novo, pode hibernar por tempo indeterminado. Pacientemente espera, até que um dono novo se desocupe de sua coleção de louças finas, e de sua criação de cães mortais, gatos, lobos, pássaros ariscos e galinhas despreocupadas. Espera até que o novo dono o encontre e o considere o bicho de estimação ideal por causa de toda a sua força e beleza perenes.

Um dono do cachorro imortal pode ser uma pessoa, uma civilização, uma instituição ou uma corrente filosófica.
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A religião é uma velhinha simpática.

Uma velhinha carinhosa, acolhedora, sorridente e bonitinha. Nos recebe em sua casa, nos faz guloseimas apetitosas, e adora uma conversa acanhada e superficial.

Falar ou permanecer em silêncio não faz muita diferença para a visita, o importante para a velhinha é que a visita retribua o sorriso, elogie a comida e ouça o que a velhinha diz balançando a cabeça afirmativamente. A velhinha adora falar, conta muitas histórias e sempre tem conselhos a dar – e muitos conselhos se parecem com ordens.

A velhinha é solitária ou tem pouquíssimas amigas também velhinhas parecidíssimas com ela.
E entre elas adora falar mal de outras velhinhas que são diferentes – às vezes as condena ferozmente, às vezes se refere a elas com eufemismos maliciosos num tom aparentemente amigável.

Se a visita contraria a velhinha, no mínimo será convidada a se retirar pela anfitriã, que fará cara feia. Se a vizinhança não estiver olhando, a velhinha contrariada pode se voltar contra a visita com uma faca de cozinha na mão. E a velhinha não pensará duas vezes antes de ferir ou até matar a visita insolente.

A velhinha morre, e com ela morrem suas últimas visitas, mas ninguém chora sua morte. Afinal, sempre haverá outras velhinhas, parecidas ou diferentes da defunta, mas sempre oferecendo guloseimas, comida deliciosa porém não muito saudável, e uma agradável conversa superficial abundante em conselhos e histórias explicativas para qualquer coisa.

Por mais amáveis que sejam, as velhinhas nunca confiam em nenhuma outra velhinha, mesmo que seja uma amiga. Todas as velhinhas são viúvas que desejam reencontrar seus maridos. E para elas desejar é poder, e desejo é verdade. Os maridos falecidos são uma constante na conversa das velhinhas, e elas falam deles com uma nostalgia contagiante. Mas nenhuma delas tem certidão de casamento para mostrar, nem qualquer coisa que descarte a possibilidade de elas terem sido na verdade solteiras a vida inteira.

Para que suas vidas tenham sentido, as velhinhas tentam controlar as vidas de seus visitantes, e para isso podem viciá-los em guloseimas. Tentam convencer suas visitas de que não há velhinha melhor nem guloseima mais gostosa em todo o mundo, o que convence a maioria dos visitantes a ensinar seus filhos a visitar exclusivamente sua velhinha de preferência.

Cada velhinha conta uma história diferente, e velhinhas amigas contam histórias parecidas. Mas nenhuma velhinha filmou sua história acontecendo, e nenhuma história é isenta de ser afetada pela senilidade da velhinha.

Velhinhas não gostam muito do cachorro imortal, pois são fabricantes de louças finas. Procuram evitá-lo ou até mesmo eliminá-lo.
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“Obit anus, abit onus.”
Schopenhauer

23rd of November

Preto, branco, e tons de cinza – o caso do racismo que não parecia racismo


Como estou na Universidade de Brasília, que, se não me engano, foi pioneira na implantação de Cotas para negros, vou colar aqui uma discussão travada num grupo de emails do Centro Acadêmico de Biologia (Grupo CABio no Yahoo!) sobre um incidente que foi noticiado nacionalmente na TV.

O incidente ao qual eu me refiro foi o incêndio no quarto dos africanos.
Relato da Secretaria de Comunicação da UnB:

“Na manhã de 28 de março de 2007, comunidade da Universidade de Brasília iniciou suas atividades assustada com a violência sofrida por estudantes africanos moradores da Casa do Estudante Universitário (CEU) na madrugada anterior. Eles acordaram por volta das 4h com as portas de seus alojamentos incendiadas e com muita fumaça no interior dos quartos. Grande parte deles escapou das chamas saindo pelas janelas dos apartamentos. O fogo atingiu quatro apartamentos. A primeira medida tomada pela UnB foi acionar as polícias Civil e Federal e remover as vítimas da CEU.”

Um ou dois dias após o incidente, certos estudantes saíram fazendo barulho pelo Campus protestando contra “racismo”. No dia 29 de março, apareceu no Grupo CABio uma mensagem com o título “TERRORISMO NA UNB“. Eu me recusava a aceitar a correlação automática que fizeram entre racismo e o atentado, e a classificação que fizeram do atentado como “terrorismo”.

Sugeri
que o autor do email estaria sendo dramático demais, como os outros estudantes que fizeram o protesto que vi em frente ao Restaurante Universitário (RU), ao que ele respondeu ” Sim Eli, estou sendo dramático sim. Mas acho que a situação exige que sejamos dramáticos”. A discussão seguiu assim (email meu):

“OK, seja dramático. Quanto a isso, só posso emitir minha humilde opinião de que a dramaticidade é o limiar da irracionalidade, e a irracionalidade tende à interpretação deturpada dos fatos. Da mesma forma alguns moradores da CEU (Casa do Estudante Universitário, onde aconteceu o incêndio) poderiam declarar “a resistência à socialização dos africanos da CEU vem de longa data…”.

É o que vi alguns moradores afirmarem, e palavras assim merecem tanto crédito quanto o que foi dito sobre os africanos terem de enfrentar a animosidade injustificada dos outros moradores há tempos. Não vou entrar no mérito da questão, é impossível saber quem tem razão, e é possível mesmo que seja um mosaico de razão entre as partes.

Terrorismo não é qualquer ação deletéria de um grupo. Este grupo precisa estar filiado a um rótulo particular (nazista, muçulmano) que é a suposta antítese de um rótulo-alvo (judeu, cristão), e as pessoas sob este rótulo-alvo muitas vezes não pertencem verdadeiramente a ele, até porque a classificação do terrorista é obtusa e obscura para seus próprios fins. Não há razão para achar que na UnB existe um grupo de pardos (como o suspeito que você citou) ou de quaisquer pessoas filiadas a uma ideologia particular que vise o contrangimento dos negros e/ou estrangeiros. Mas se houver, não duvido que seja uma pequena célula de tolos baderneiros confusos, que é diferente de uma organização terrorista.

Também não vi consistência na conclusão apriorística de que o atentado foi racista. No dia do ataque alguns já saíram dizendo “vem gritar conosco contra o racismo porque botaram fogo nos apartamentos dos africanos”. Por que se encontra esse tipo de lógica irracional na UnB? Foi aí que liguei o acontecido às cotas. Penso que elas têm responsabilidade na criação de tensão que leva certas pessoas a pensarem que se um negro sofre alguma coisa na UnB só pode ser resultado de racismo. (Veja bem, não estou falando que fizeram o atentado por causa das cotas!) Por isso acho que a primeira manifestação (que vi no RU) só pode ter sido irracional e crédula. Até aquele ponto nada havia sido apurado para corroborar a tal conclusão, e acho que ainda não há. Se houver, ou quando houver, quero ser informado, pois serei um defensor passional da ação contra o preconceito no caso se as evidências apontarem para ele.

Discriminar é separar, segregar, classificar. Vejam se há homogeneidade suficiente entre as etnias africanas para jogá-las num balaio e chamar todos de negros. É uma classificação inútil baseada num aspecto morfológico simplório. Eu sou um mestiço, mas antes disso, sou um cidadão que merece tantos direitos quanto os outros. Nunca vou me engajar em qualquer programa para assistência de mestiços, e pouco me importa se o IBGE me classifica como branco, mestiço, pardo ou coisa assim. Me importa é se vão se fazer algo pelos estudantes pobres, não interessa a morfologia deles. Sinceramente, Eli”

Apareceu então um texto de um estudante de Relações Internacionais, disponível na íntegra neste link.
Eis minha resposta a este email, citando trechos do aluno de REL em amarelo:

“Novamente a lógica distorcida. Denovo a afirmação de que se foram só os apartamentos dos africanos atacados isso significa que o que eles têm em comum como vítimas é só a cor da pele, e que essa é a única característica que têm em comum que foi alvo dos que fizeram o ataque. Não é. A hipótese de xenofobia é sim tão plausível quanto a de racismo, se não melhor.

“Novamente o racismo aparece como um tabu insuperável, procuram-se outros motivos que explique o racismo, e agora o da xenofobia, tudo com o intuito em negar o fato de sermos racistas.”

Que FATO é este? Eu não nego que existe o interesse de negar cegamente que existe racismo, até por ingenuidade, e às vezes por interesse ideológico também. Também me pergunto por que é que há esse interesse de dizer que somos todos racistas e que isso é um fato.

“de etnia negra” – e novamente a simplificação da heterogeneidade dos povos africanos em favor de uma classificação do senso comum nem um pouco criteriosa. Não se devia usar o senso comum arbitrariamente como régua de criação de políticas públicas também.

“Os movimentos sociais que defendem as cotas e outras medidas afirmativas para os negros, indígenas e mulheres precisam se valer de políticas que assegurem a identidade destes grupos, já que são elas que, de alguma forma, por causa do preconceito, do racismo, da xenofobia e afins, os impossibilitam de fazerem jus aos mesmos direitos universais a que poucos têm acesso.”

Assegurar a identidade não precisa ser segregação. Uma vez vi um cartaz de um movimento negro com citações de vários escritores em defesa da igualdade étnica. Nenhum dos escritores, até onde sei, era não-negro. Será que esse tipo de segregação está mesmo ajudando a identidade de alguém? O movimento feminista chegou a extremos tais que provocam até risos. Afirmou-se até que a Mecânica dos Fluidos é machista nas suas teorias. Em vez de ficar fazendo barulho irritadiço, eu aconselharia um fomento maior à socialização, e um pouco mais de estudo sobre o que é pertencer a uma etnia afinal, ou até mesmo o que é pertencer a um sexo, o que é pertencer a uma nação.

“mas são os veículos pelos quais nosso racismo jogado pra debaixo do tapete acha para se locomover entre nós disfarçadamente, através da pecha de discurso lógico e racional, nunca racista.”

O que posso concluir do trecho acima é que o racismo é uma força etérea, uma entidade sobrenatural, quase um demônio, e vaga entre nós sob diversas formas, e é capaz até de possessão ideológica. É muito comum em debates demonizar a opinião “adversária”, transformá-la num boneco de Judas que fica mais fácil de ser surrado.
O que muito pouca gente quer é analisar os fatos com um pouco menos de paixão e um pouco mais de ceticismo. Daqui a pouco vou ler respostas a este email (se é que alguma aparecerá) ao estilo “ideologia X, ame-a ou deixe-a”.
Ou “se não está comigo está contra mim”. Nesse caso eu abraçarei de bom grado o rótulo e sacrificarei alguns bodes ao meu racismo etéreo que se esconde no âmago mais profundo do meu epitélio intestinal. Esperançosamente, Eli”

Eis que a Polícia Federal encerrou o caso o tratando como XENOFOBIA, e não Racismo.

Se há algo que pode ser aprendido deste caso, é que tanto as cotas quanto o racismo cassificam as pessoas em PRETO e BRANCO, ignorando, para seus próprios fins, inúmeros e problemáticos tons de cinza.

__________
Post Scriptum
__________

A seguir uma resenha por mim apresentada à disciplina “Evolução Humana”, no primeiro semestre de 2008, na Universidade de Brasília.

Diz respeito a um artigo “científico” do século XIX tipicamente racista:

“On the Skin, the Hair, and the Eyes, as Tests of the Races of Man”, de John Crawfurd (Transactions of the Ethnological Society of London, 1868)

Acertadamente, Crawfurd identifica grande dificuldade de classificar grupos humanos com base apenas na coloração da pele. Entretanto, paradoxalmente, o autor realiza uma incessante descrição obtusamente subjetiva dessa característica morfológica, sugerindo apenas no final que raças podem ainda ser defensáveis apesar das dificuldades. Usa termos como marrom, marrom-amarelado, marrom-avermelhado, vermelho, marrom-claro, preto, amarelo, e – o que é de pasmar – “fair” (que significa tanto “claro” quanto “belo” no inglês); apesar de admitir que existem problemáticas gradações de coloração em cada população, e se exime de propor uma classificação objetiva – então como sustentar tantas afirmações (por exemplo, de que “esquimós são tão escuros quanto malaios”)?
O mesmo, neste trabalho, é descrito com alguma variação em padrões quanto à textura e cor do cabelo, posição dos olhos, e distribuição de pêlos pelo corpo e barba. Ainda critérios com alto grau de subjetividade, que não são fundamentos sólidos para apoiar as afirmativas e conclusões de Crawfurd (nada garante que não existam cabelos do tipo “lã de carneiro” também entre europeus, além de africanos como alegado).
O autor declara a inexistência de evidências para uma “raça nativa preta ou marrom” habitando no passado a Europa. Isso o tempo pôde curar, com a moderna Genética de Populações aplicada à Evolução Humana. Mas, para evitar a conclusão de parentesco entre brancos e negros, o autor alega também que não há fundamento nenhum para acreditar nisso, o que já está desatualizado para seu tempo, pois já estava publicado o “Origem das Espécies” – portanto, bases poderiam apoiar a hipótese de ancestralidade comum e habitação antiga de negros na Europa, por mais desacreditada que fosse.
Um erro crasso de Crawfurd, que também não pode ser justificado pela época em que o trabalho foi escrito, é classificar tanto as supostas raças humanas quanto outros animais em “superiores” e “inferiores”. O próprio autor entra em contradição – haveria uma única raça ou várias raças dentro da Europa? E, novamente, como acreditar na palavra de Crawfurd sobre um povo ser mais escuro que outro, quando o próprio admite que é difícil propor um método objetivo de classificação que distinga uma “raça” da outra?
A asserção de que os ameríndios são predominantemente homogêneos na cor da pele, dos nativos da Terra do Fogo aos Esquimós (Inuits), é enormemente irresponsável, mesmo de um ponto de vista subjetivo. Crawfurd parece ter feito grandes conclusões a partir de amostras viciadas, e pretende mostrar que há maior heterogeneidade entre os povos da Europa – provavelmente porque foram os povos em que ele pôde demorar-se mais em observar.
Além disso, Crawfurd faz conclusões pouco parcimoniosas e demasiado crédulas sobre, aparentemente, dados escassos, quando afirma que não há relação entre cor da pele e incidência de luz solar. Embora a relação não seja perfeita, ela existe (e poderia ser testada pelo autor), e Crawfurd não tinha evidências suficientes para dispensar esta hipótese com tanta segurança quanto foi demonstrada.
Crawfurd erra também em estimar o futuro. Proclama que o problema de entender a distribuição de cores de pele é inescrutável, também sem boas razões.
O exemplo usado do leão e do tigre poderia ser mais desenvolvido pelo autor. Afinal de contas, mesmo no século XIX não seria difícil ver que é muito difícil que leão e tigre se intercruzem, enquanto o cruzamento entre as “raças” humanas acontece e é viável.
Se a natureza distingue “menos definitivamente” as “raças” humanas por cor, não seria simplesmente porque não há raça humana, apenas polimorfismo morfológico de uma espécie homogênea? Crawfurd evita este raciocínio, o que é lamentável para uma mente que deveria estar aberta à típica prospecção científica já comum no século XIX.
21st of November

Duelo com Olavo de Carvalho


No dia 30/06/2006 elaborei o seguinte abaixo-assinado na internet:
“Pela refutação das imposturas intelectuais de Olavo de Carvalho ao exibir sua ignorância sobre a Ciência.
À imprensa brasileira:

O colunista Olavo de Carvalho, que se diz filósofo, trava uma batalha em seus artigos contra o conhecimento científico, especificamente contra a evolução biológica.

O colunista não parece estar minimamente credenciado ou capacitado para falar de ciência. Mas todavia o faz, e levianamente. Age de má fé ao dizer coisas como

“o evolucionismo mistura pedaços de boa ciência com o apelo quase irresistível do ódio anti-religioso, portador de ofertas sedutoras como a liberação sexual, o casamento gay, a satisfação de todas as exigências do feminismo enragé e a distribuição estatal de drogas para os aficionados.”

“Quando Darwin ainda não existia nem como espermatozóide, Immanuel Kant já havia notado que toda teoria evolutiva das espécies animais esbarraria no problema das séries infinitas, insolúvel por definição. Os evolucionistas não perceberam isso até hoje, mas não estão nem aí. Para o seu nível de exigência intelectual, esse problema é demasiado “metafísico”.”

“A brutalidade crescente das proclamações dogmáticas evolucionistas não é mera coincidência: ela vem junto com a instauração progressiva de uma Nova Ordem global cujo discurso legitimador é eminentemente de ordem “científica”. Prepotência globalista e autoritarismo científico são uma só e mesma coisa. A pretensão ao poder mundial absoluto tem de passar pelo desafio preliminar de dar à profissão científica uma autoridade final comparável à dos concílios. Por exemplo, é preciso impor à população a mentira idiota de que a falta de provas científicas de alguma coisa é prova cabal da inexistência dessa coisa. Esse preceito, para se sustentar de pé, exige a anuência geral a dois axiomas psicóticos: (1) a ciência já sabe tudo; (2) nada do que ela vier a descobrir amanhã pode impugnar o que ela diz hoje. “

Não é preciso estar num curso de ciências biológicas para notar a absoluta ignorância contida nessas afirmações.

No Brasil criou-se um hábito de dar voz a leigos mais que a especialistas, e Olavo de Carvalho é um exemplo-mor desta situação no que se refere à compreensão pública da ciência neste país. Afirma que “a Astrologia é um elemento obrigatório, por isto quem não a estudou, não estudou nada, é um analfabeto, um estúpido.” Se é estupidez não compreender pseudo-ciências como a Astrologia, mais grave é não compreender suficientemente teorias científicas comprovadas como a Evolução Neodarwinista e jactar-se disso ao emitir falácias contra a mesma. O conhecimento científico muito provavelmente já salvou a vida deste homem, e precisa ser divulgado, não caluniado desta forma.

Por essas razões, os abaixo-assinados solicitam a publicação de refutações contra tais afirmações de Olavo de Carvalho; e maior espaço para a compreensão pública da ciência e seu método, principalmente nas mesmas publicações em que Carvalho emitiu tais alegações.”

___

Por razões logísticas, o abaixo-assinado nunca chegou às mãos dos publicadores das colunas de Olavo. Mas devo meus calorosos agradecimentos às seguintes pessoas:

Assinatura
Comentário do abaixo-assinado
Profissão (na época)
Ricardo Richard Vieira
A desonestidade de Olavo de Carvalho me assusta.
Sistemas de Informação
Deneau Dantas

Allysson Allan de Farias
Vamos acabar com pseudos-cientistas que ultrapassam a barreira da liberdade de expressão, ante uma sociedade leiga e dogmática
Biologia/Eng. Produção
Adriano Atuati aka NightHiker

Designer grafico / redator
Leandro
NÃO à censura! Mas SIM ao direito de resposta!
Estudante
Jorge Pinto Filho

Estudante
Luciano

Biólogo
Vitor Bathaus

Estudante
Ivan Eugênio da Cunha
Se essa é a maneira de tirar os artigos desse publicador de pseudociência de circulação, eu estou dentro.
Estudante
Marcelo Tomanik

Professor
Juliana Capitani

Estudante
Deivi Alan

Analista de Sistemas
José J.V.Carvalho

Biólogo
Rodrigo
ele está sendo desonesto.
Biólogo
Rafael Nicacio Correa
Não gosto de fanáticos religiosos!
Estudante
Sérgio João da Silva

Estagiário em Marketing
Erika Regina Manoel Andreeta
Em pleno acordo com o texto.
Física
Carlos Gabriel Gomes Gordo Stecca

Estudante
Humberto Francis Caetano
Jornalista da mentira e da “fe”. Triste que tenhamos que ler tanta tolice.
funcionario publico
Heron Sampaio da Cruz

Estudante
Frederico A. Ferreira

Funcionário público
André Ramalho Ortigão Corrêa

Estudante
Leonardo Dallacqua de Carvalho

Estudante
David G. Borges

Biólogo
Fernando Kokubun

Físico
Thales Henrique Guimarães e Silva

Estudante
Paulo de Oliveira Enéas

Tradutor
Alysson Ramos Artuso

Físico
André Herkenhoff Gomes

Universitário
Edson Luiz Kunde
A ciência quer seu direito de resposta!
PPP
Gabriel

Empresário
Anderson Luiz Raasch
a próxima crítica que surgir ao evolucionismo deveria, ao menos, vir acompanhada de alguma sugestão. Esse cara ganha pra tentar derrubar o pouco conhecimento científico de que atualmente dispomos. É preciso mais do que poesia para refutar-se de uma teoria.
Estudante
Yuri Suzano Silva

Estudante
Alberto Ricardo Prass

Físico
Gustavo Bueno Gregoracci

Biomédico
Lucas Yoshio Muraguchi
Autor ridiculo,qualquer estudante de ensino medio sabe mais que ele, e bem mais livre de preceitos
Estudante
josé alberto s do amarante jr

Estudante
Kátia Alessandra Rezende Weber

Bióloga
Guilherme Mauro Germoglio Barbosa

Estudante
Christopher D. Klein

Médico
Marco Tulio Todeschini Coelho
Olavo de Carvalho eh soh um velho caduquinho que simplesmente n sabe o que diz. Por isso, n deve ser levado a serio.
Estudante
Alexandre Coelho

Desenhista industrial
Manoel Almeida

Publicitário
Daniel Magérbio Almino de Lucena
Apóio totalmente esta idéia
Médico
leandro
so falta agora o olavo dizer que a questao se deve à infiltracao comunista nos meios científicos
Economista
Otávio Luciano de Campos

Estudante do Ensino Médio
Ciro Vasconcelos

Autônomo
Gerson Carlos Voigt

Gerente administrativo
Eduardo Santos de Souza

Estudante
Cristiano Besen

Engenheiro Civil
Peterson Leal

Ciências Sociais
ronaldo melo

Professor
Lucas Barros Bonine

Estudante
Victor Neves
sua ignorância sobre pensamento cientifico é evidente ao declarar q a ciência se afirma absoluta.Seus argumento são levianos e tentam deturpar o conhecimento cientifico baseado em sua fé cirstã.
Estudante
Renato Godoi

Estudante de ensino superior
Bruno Rodrigues de Faria

Advogado
Túlio Lima Vianna

Professor de Direito Penal
Lorena Peixoto Nogueira Rodriguez Martinez
Certamente a ciência (que significa ESTUDO) colabora em demasia para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos. Afirmar que estudar (fazer ciência) é ilogismo significa negar a existência da humanidade e de seu intelecto.
Estudante
Gabriel Tavares

Estudante
Robson Fernando B. M. de Souza

Estudante
Valtencir Moraes

Consultor
Eduardo Torres

Eng. Químico
Renan Oliveira Nunes

Estudante
Carlos Daniel Llosa
Pelo visto estudar filosofia demais faz mal à saúde. Saúde mental.
Estudante
Jorge Augusto Mendes Geraldo

Estudante
Bruno Lepri

Estudante
Melissa Weber Mendonça

Estudante
Felipe da Costa Hummel

Estudante
Gustavo Junior Alves

Inventor
Fernando Bianchi

Biólogo
Andrezza Quirino Ramalho de Moura

Estudante
Guilherme Moreira Magnavita
O idiota condena a ciência pois a mesma nada pôde fazer para salvar seu último neurônio
Estudante
Eduardo Costa

Engenheiro Civil
Felipe Dauerbach

Arquiteto
Teresa Cecilia Maraschin Klein

Estudante
Germano Jaeschke Schneider

Dentista
Ana Barros

Estudante
Rogério Marcus Tomaz Gomes

Desenhista
João Zocatelli

Engenheiro
Sergio

Bancário
Sebastiao Rocha A Neto

Empresário
Leandro Teles Rocha

Estudante de Direito
Michel

Estudante
Ana Paula Chermont

Advogada
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Engenheiro de Produção
Lise Fernanda Sedrez

Professora de História
Orlando Augusto Lima de Siqueira

Estudante
Pedro Augusto Pinto

Estudante
Emanuel Diniz Magalhães

Analista de Sistemas
Fabrício

Estudante

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Apareceu certo dia nesta petição a assinatura de um tal Olavo de Carvalho. Usei do endereço eletrônico fornecido pela pessoa, e eis que o duelo começou assim:

Eli (05/07/2006): Sei que você não é Olavo de Carvalho, então por favor não cometa falsidade ideológica ao assinar a petição.

Olavo (06/07/2006): “Sei que você não é Olavo de Carvalho”? Que primor de certeza imbecil, no meio de tantas que há na sua cabeça! Você não sabe é coisa nenhuma. Sou o Olavo de Carvalho em pessoa, e não aposte na hipótese contrária que só vai se desmoralizar mais um pouco, se é que é possível pagar mais mico do que você já pagou ao inventar uma petição na qual bancários e comerciários posam de porta-vozes autorizados da “ciência”.
Se vocês querem discutir, por que não nomeiam um representante qualificado, um cientista profissional, para fazer comigo um debate de um contra um, com regras honestas na distribuição do tempo e do espaço concedidos a cada qual? Por que essa palhaçada de clamar coletivamente por uma refutação que nenhum dos signatários tem capacidade nem disposição de fazer? Por que dar voluntariamente mais uma prova de que vocês apostam na força da pressão social e não do argumento racional?

Eli (06/07/2006): Pressão social? Faça-me um favor, caro “Olavo”.
Não posso ter certeza de que é você mesmo.
Mas se for, tenho algo a lhe dizer.

A primeira coisa, é que você tem de aprender a não fazer apelos à autoridade de quem argumenta. O argumento tem que se validar por si mesmo.
O que você disse sobre o evolucionismo e a ciência nem merece resposta, tamanha a sua ignorância.

Se quer insistir nas suas costumeiras calúnias – como a acusação de que os signatários da petição nada têm de entendedores da ciência – muito me desanima. Leia mais uma vez as profissões e notará seu próprio equívoco.

Mas reitero que pouco importam as profissões lá listadas, e sim o mérito da questão: seu comportamento deplorável de falar sobre o que não entende e divulgar negativamente a ciência.

Eu sou um estudante de uma das ciências, a Biologia. Um mero estudante. Mas pude notar a sua ignorância sobre a evolução neodarwinista.

Posso pedir que um pesquisador da minha universidade, com todos os títulos que você quiser, fale com você. Mas posso contribuir para o caso do evolucionismo.

Quando você emitiu aquelas afirmações citadas pela petição, por acaso sabia até que ponto os cientistas têm evidência de que a evolução realmente acontece?
Sabia como acontecem as mutações de código genético quando as enzimas trabalham na replicação do DNA?
Sabia como funciona a permutação, mecanismo que permite eu seja diferente de você apesar de termos um ancestral em comum (no Brasil, ou na Europa, ou na África)? E os genes mutantes como o da anemia falciforme, e os transpósons e retrotranspósons, éxons, íntrons, bactérias resistentes, fósseis, comparação de genomas?

A evolução é de uma obviedade tal que não seria necessário você saber destes detalhes químicos para percebê-la. Mas a tradição o impede. O preconceito o impede.

Caso você se dedicasse a saber mais sobre não apenas este assunto, como outros dentro da ciência que insiste em criticar; duvido muito que continuaria cometendo este tipo de gafe.

18th of November

Da Incerteza


Fome de certeza. É isso que muitos de nós temos ao vagar por este vasto mundo.

Queremos ter certeza de que somos amados incondicionalmente ao menos por uma pessoa que conhecemos, queremos ter certeza de que valerá a pena viver mais um dia, de que nosso esforço terá o resultado que esperamos, de que há coisas que são indiscutivelmente belas e boas.

Entretanto, quando se fala em conhecer, não há como atingir a certeza. Não há como ter certeza de que não se pode atingir a certeza também. O gênio maligno de Descartes, que maquina para enganar nossos sentidos – melhor dizendo, enganar meus sentidos – é uma possibilidade irrefutável.

Como resolver o problema da falta de certeza?

Comecemos pela coerência, que ao menos obedece ao nosso maquinário lingüístico (ou à lógica). Descartes é coerente ao propor que primeiro comecemos a duvidar para então tentarmos encontrar pilares para nosso edifício do conhecimento.

Há que se tomar uma decisão: quem é mais enganador? Os sentidos ou a razão?

Não seria a razão demasiado delirante sem os sentidos, e os sentidos muito pouco informativos sem a razão? Assumamos que sim.

Hume é coerente ao afirmar que nosso conhecimento, ao menos a respeito do universo que nos cerca, advém das nossas impressões. Impressões subordinadas aos nossos sentidos que podem alimentar a razão, e a partir delas a razão faz apostas. Fazer apostas?

Uma pessoa que avalie se é mais ou menos provável ser atropelado fora da faixa ao atravessar uma rua está usando a razão para preservar sua vida, e não depende das estimativas probabilísticas oficializadas em números. Está fazendo uma aposta ao escolher atravessar na faixa ou fora dela.

Fazer apostas para decidir acreditar em algo coerente é o que chamo de Intuição Probabilística.

Aparentemente, a Intuição Probabilística é um componente primevo da cognição humana, associado à razão e independente da fé.

Historicamente esta forma de pensar está associada ao Ceticismo, e um bom exemplo é o pensamento de um dos primeiros filósofos céticos, posterior a Pirro, que é Clitômaco de Cartago (Asdrúbal):

“O chefe seguinte da Academia, após Carnéades (~180 a ~110 B.C.), foi um cartaginês cujo nome verdadeiro era Asdrúbal, mas, ao lidar com os gregos, preferiu chamar a si mesmo de Clitômaco. Diferente de Carnéades, que se ateve a dar palestras, Clitômaco escreveu mais de quatrocentos livros, alguns dos quais em língua fenícia. Seus princípios parecem ter sido os mesmos de Carnéades. Em alguns aspecos, foram úteis.

Esses dois Céticos se opunham à crença em divinação, mágica, e Astrologia, que estava se espalhando cada vez mais. Eles também desenvolveram uma doutrina construtiva, de acordo com graus de probabilidade; embora nunca possamos justicar a certeza, algumas coisas têm mais chance de serem verdadeiras que outras. A probabilidade deveria ser nosso guia na prática, pois é racional agir na mais provável dentre hipóteses possíveis. Esta visão é aquela com a qual a maioria dos filósofos modernos concordaria.” (Russell, Bertrand. A History of Western Philosophy.)

Decidir acreditar em graus de probabilidade em vez de se render a afirmações absolutas não é algo novo na Filosofia e na Ciência. Nas palavras de Bertrand Russell (A History of Western Philosophy):

“A autoridade científica, que é reconhecida pela maioria dos filósofos da época moderna, é uma coisa muito diferente da autoridade da Igreja, pois é intelectual e não governamental. Nenhuma punição incide sobre aqueles que a rejeitam; nenhum argumento prudente influencia aqueles que a aceitam. Prevalece apenas por seu apelo intrínseco à razão. (…) Há ainda outra diferença entre a autoridade científica e a autoridade eclesiástica, esta declara que suas afirmações são absolutamente certas e eternamente inalteráveis: as afirmações da ciência são feitas por tentativa, em uma base de probabilidade, e são consideradas como passíveis de modificação. Isto produz um temperamento bem diferente daquele do dogmático medieval”.

NO EMPIRISMO:

“A Razão, como Locke usa o termo, consiste em duas partes: primeira, um inquérito sobre que coisas conhecemos com certeza; segunda, uma investigação de proposições que aceitam-se sabiamente na prática, embora tenham apenas probabilidade e não certeza a seu favor. ‘Os alicerces da probabilidade’, diz Locke, ‘são dois: conformidade com nossa própria experiência, ou o testemunho da experiência de outro.'”

“Hume não quer dizer com ‘probabilidade’ o tipo de conhecimento contido na teoria matemática da probabilidade, como o de que a chance de atirar dois dados e obter duplo 6 é uma em 36. Este conhecimento não é provável em nenhum sentido especial; tem tanta certeza quanto o conhecimento pode ter. O que preocupa Hume é o conhecimento incerto, tal como o que é obtido de dados empíricos por inferências que não são demonstrativas. Isso inclui todo o nosso conhecimento a respeito do futuro, e a respeito de partes não observadas do passado e do presente. De fato, inclui tudo exceto, por um lado, observação direta, e, por outro, a lógica e a matemática.” (Russell menciona também que essa noção de probabilidade leva Hume a um pensamento cético.)

NO ESTOICISMO (que é uma escola filosófica originada no período helenístico, assim como o Ceticismo):

“Um filosofo estóico, Sphaerus, um discípulo imediato de Zenão, foi convidado uma vez para uma ceia pelo Rei Ptolomeu, que, tendo ouvido a respeito dessa doutrina, ofereceu a ele uma romã feita de cera. O filósofo tentou comê-la, e dele riu-se o Rei. O filósofo respondeu que não sentia certeza de que era uma romã de verdade, mas tinha pensado que seria improvável que qualquer coisa impalatável fosse servida na mesa real. Nesta resposta apelou a uma distinção estóica entre as coisas que podem ser conhecidas com certeza com base na percepção, e as coisas que, com a mesma base, são apenas prováveis. No todo, essa doutrina era sã e científica.”

Na Ciência, há rigor quanto à mensurabilidade de objetos de estudo e reprodutibilidade de resultados. Entretanto, a Intuição Probabilística é usada na manufatura de hipóteses e de conclusões a serem extrapoladas a partir de um dado experimento modesto.
Há também métodos como o da Parcimônia, usado na Filogenética para perceber que histórico evolutivo de dadas espécies biológicas é mais provável de acordo com a navalha de Ockham (Occam).

Pode-se concluir do pensamento de Karl Popper que existem muitas hipóteses científicas possíveis de serem concebidas e passíveis de passar pelo crivo das evidências. O heliocentrismo que chegou a Newton, por exemplo, teve origens obscuras em pensamentos quase místicos de antigos como Aristarco de Samos (c. 310 a.C. ? – 230 a. C.?), que tinham em suas épocas motivos não muito melhores que os motivos para acreditar no geocentrismo.
Como sabemos que uma dada hipótese é ridícula demais para que gastemos nosso tempo pesquisando a respeito dela? Pela probabilidade intuitiva.

E como poderíamos descartar uma concepção irrefutável como a do Gênio Maligno, ou de um idealismo similar (como o que é exibido nos filmes Matrix)?
Não podemos absolutamente, entretanto podemos tentar aplicar a intuição probabilística a esses casos, ou simplesmente avaliar se resolvem os problemas que se propõem a resolver.

Resolver problemas é funcionar. E a Ciência é um conhecimento funcional. A tal ponto que muitas vezes suas teorias se sobrepõem ao conhecimento empírico imediato, e são tão críveis quanto este.

Se há a Verdade, não vejo por que outras atividades cognitivas não-racionais estariam mais próximas dela do que a razão.

Se há a Verdade no mundo sensível, não vejo maneira melhor para atingi-la do que o empirismo.

Se a Ciência está vulnerável para ser concebida como maquinação do Gênio Maligno, sim, está. Mas Popper tem toda a razão quanto a isso não ser tão importante quanto os famintos pela Verdade pensam que é.

Funcionar é maravilhoso por si só. Se não compreendo todas as línguas para conhecer toda a literatura produzida, posso fazer a amostragem de ler apenas o que foi feito nas línguas que domino, o que inclui traduções.
Se não posso sair de casa para correr e fortalecer meu corpo, correr em círculos dentro de casa é melhor que se deixar consumir pelo ócio.

Então, se não há Verdade ou Certeza, é suficiente que eu tenha um conhecimento funcional.
É difícil que fundamentos últimos permaneçam de pé quando até mesmo a Lógica é questionada e classificada como uma contingência (como faz Wittgenstein em suas últimas obras).

Se não há fundamentos universais em conformidade com a Verdade ou a Certeza (se ela “é”), é suficiente que os fundamentos sejam construídos sobre as nossas ilusões e possamos regrá-las mais ainda.

Se não há alicerce para o edifício do conhecimento, que ele seja então uma nave flutuando sobre o caos.

21st of October

E se os biólogos fossem criacionistas?


Vamos supor o seguinte: que toda a literatura científica foi queimada por uma ditadura extremista mundial. Os biólogos teriam como referência apenas boatos sobre pesquisas com animais, plantas e microorganismos. Os evolucionistas foram queimados na fogueira.

Depois de um século de nova pesquisa, a que conclusão os novos biólogos – todos no princípio defensores da tese do Design Inteligente – chegariam?

No momento inicial, a nova biologia suporia que a inteligência do Designer é perfeita, digamos, de 100%, pois a complexidade do corpo humano é incrível, e é admirável como cada molécula, cada tecido e cada órgão trabalham com harmonia.

Mas aí, não sem muito arranca-rabo, alguns grupos de pesquisa apontam que o corpo humano está vulnerável ao câncer por motivos totalmente aleatórios para os quais não há nenhuma defesa totalmente eficaz no genoma humano. Outros apontam que o Designer não nos deu muita superioridade para o combate natural do câncer em relação a outros animais.

Por esse motivo, a inteligência atribuída teoricamente ao Designer cai para 80%. Admite-se que sua capacidade criativa está propensa a erro, e há maculação da criação.

Outros biólogos descobrem um monte de órgãos vestigiais em diversos animais (dedinho da cobra) e plantas (nervuras principais em carpelos), genes desligados no genoma humano sem função nenhuma, e orquídeas enganando vespas, e diminuem a inteligência atribuída ao Designer para 60%. Afinal, além de permitir maculação da criação, ele permite que sua criação contenha excessos não muito favoráveis a si mesma.

Tempos depois, mais ousadia: descobre-se que existem fósseis parecidos com os seres vivos atuais, mas não tanto, e descobre-se a datação deles. Conclui-se que o Designer, além de não se decidir por uma criação acabada, faz ajustes todo o tempo, e os ajustes levam muito tempo para fazer grande diferença.
Em meio a muita pancadaria em congressos e periódicos, os novos biólogos decidem diminuir a inteligência do Designer para 40%.

Um fulaninho ousado escreve uma obra extensa sobre casos em que a criação diminuiu sua complexidade. Peixes cavernícolas e toupeiras perderam olhos, parasitas ficaram cada vez mais simples para executar basicamente reprodução e alimentação.
Para quê o Designer seria indeciso a ponto de optar por um design clean de repente? Por que uma cauda de pavão e um vírus ao mesmo tempo?
Propõe-se diminuir a inteligência do Designer para 20%. Com dissidência e desistência de trabalhar cientificamente, mas outros motivos fizeram essa concepção teórica ser forçosa e inevitável.

Os novos biólogos observam que muitos genes parecem ter tido ancestral comum. Um regulador de transcrição parece ser uma enzima que teve áreas inativadas pelas já conhecidas mutações (ex: Galactoquinase de Saccharomyces cerevisiae). No sistema sangüíneo ABO, tudo aponta que os indivíduos de sangue O nada mais são que mutantes para alelos de A e B. Pigmentos da retina apresentam ancestralidade entre si.

Por causa desses cuidados tão obtusos fica difícil não admitir, finalmente, que a inteligência do Designer é zero. É claro que os dissidentes que desistiram de trabalhar cientificamente nunca concordarão com essa conclusão dos novos biólogos.

Um Designer totalmente burro tem nome. Se chama Seleção Natural.

6th of October

Ateísmo assintótico versus Ateísmo dogmático


Assíntota é uma curva que se aproxima de um eixo cartesiano, ou de um dado valor de uma coordenada cartesiana, mas só o atinge no infinito. Ou seja, nunca o atinge formalmente.

Freqüentemente, muitas pessoas com uma idéia esclarecida a respeito das religiões, filosofias e ciências cometem o equívoco de atacar a ateísmo dos “brights” com argumentos que servem para derrubar o ateísmo dogmático.
Por exemplo, alegam que o ateísmo é uma religião, e que a atitude de gente como Richard Dawkins é inaceitável porque ele supostamente estupra toda a Epistemologia e a Teoria da Ciência ao tentar enfiar seu ateísmo dentro da Ciência, e espalhá-lo de maneira análoga à pregação dos evangélicos.

Em “Deus, um delírio” (Cia. das Letras, 2007), Dawkins em momento algum diz que está provando que Deus não existe. Ele apenas aponta, de maneira lógica, a improbabilidade de cada uma das hipóteses teístas.

Epistemologicamente Dawkins é bem resolvido. Não é necessário que ele opte por uma vertente da filosofia da ciência em sua argumentação, embora a definição popperiana de hipótese seja adequada para o livro dele. O assunto que Dawkins trata está muito aquém disso tudo. Indutivismo ou Dedutivismo, as conclusões científicas baseadas em qualquer uma dessas vertentes são bem distinguíveis (gritantemente distinguíveis) das conclusões religiosas baseadas “em fé”.

Dawkins considera a maior parte das hipóteses de divindade como hipóteses científicas, e elas são mesmo!
Para Popper, a hipótese científica pode ter qualquer origem (contanto que tente explicar a natureza), e será refutada pelas evidências angariadas na observação. Não existe religião que não recorra à natureza e ao universo físico para apontar evidência para a existência de seus mitos – mesmo que esse apelo se restrinja historicamente, ou de outras formas. Ciência e Religião não estão completamente separadas como já se propôs. Também a separação dos tais NOMA de Stephen Jay Gould (Ciência e Religião como magistérios que não se sobrepõem) está fortemente refutada por Dawkins.

Vejam com que ardor a Igreja Católica perseguiu a evidência do Santo Sudário, até a exaustão. Se houvesse essa separação realmente, a Igreja Católica simplesmente contemplaria o Santo Sudário com desinteresse admirador.
Se a separação fosse verdadeira, para verificar se os milagres de Fátima são significativos e diferem de qualquer outro placebo, os cientistas devem dizer “NÃO VAMOS TOCAR NISSO, ISSO É FÉ!”

Há inúmeros outros exemplos da fome religiosa por evidências. Os muçulmanos juram que Maomé subiu aos céus, Budistas descrevem um comportamento estranho de animais frente à figura de Sidarta Gautama. Animistas, por definição, fabricam divindades prosopopaicas todo o tempo. Mongóis que cultuam Gêngis Khan como deus atribuem o sucesso bélico do líder à vontade do “Céu Azul” (captado pelos olhos, não pelo órgão da fides quae creditur descrita por Paul Tillich).
Boa parte das afirmações religiosas são sim hipóteses científicas, e como tais devem ser devidamente verificadas quando possível.

A alegação comum de que os objetos de fé são obtidos apenas através do ato de ter fé em si é uma hipocrisia.

As características atribuídas a divindades até hoje partiram direta ou indiretamente de antropomorfismo.
Até mesmo o conceito básico de a divindade possuir inteligência, ou capacidade criativa, é um antropomorfismo, porque a inteligência criativa a que temos acesso e conhecimento é apenas a inteligência humana (é claro que outros vertebrados podem apresentar inteligência criativa notável, mas por comparação com o humano ignorarei respeitosamente este fato).
A inteligência e capacidade criativa humanas estão fundamentadas, pelo que se pode inferir de todas as pesquisas psicológicas e neurocientíficas, no cérebro.

Não há motivo para não atribuir o surgimento do cérebro humano à ação da evolução, não importa se exclusivamente pela seleção natural, ou por outros mecanismos evolutivos como a seleção sexual. Não há qualquer outra forma de surgimento do cérebro humano que seja tão plausível quanto a evolução. Isso tem como conseqüência, também, o surgimento da mente humana por processos puramente naturais.

Baseando-se nisso, torna-se desnecessário propor que haja uma inteligência que tenha surgido por acaso no universo. Seria astronomicamente improvável, exponencialmente mais improvável que o surgimento da nossa inteligência pela evolução cumulativa.

Se há uma divindade, ela precisa ter evoluído, e é muito pouco plausível que a evolução biológica atinja algo como a onisciência, onipotência e onipresença. Muito menos a capacidade criativa de alterar ou criar o âmago da matéria e da energia.

Se em algum lugar do universo existe uma entidade super inteligente, e com uma capacidade criativa notável, é pouco provável que seja onipresente, onisciente e onipotente. Menos provável ainda que tenha a capacidade de ouvir orações de milhões de seres humanos, de respondê-las ou atender os desejos.

Mentes surgem através da evolução. Mentes perfeitas são inacessíveis à evolução.

Quanto mais poderes são conferidos a uma divindade, menos provável ela é.

Todos os relatos de existência de divindades já produzidos pela humanidade têm mais caráter disciplinador que explicador da natureza. Além disso, as explicações naturais que as religiões já produziram muitas vezes se mostraram falseáveis, e foram de fato falseadas pela prospecção científica dos últimos séculos.

O caráter disciplinador das divindades, e outros aspectos atribuídos a elas, revelam criatividade humana restrita a conjunturas culturais. Nenhum conhecimento foi antecipado pela revelação. A capacidade de predição das religiões no campo natural é praticamente nula.

Tudo o que se espera, em qualquer tribo, é que surja um dia um pajé que para acalmar os ânimos CRIE divindades para explicar os fenômenos da natureza, e eventos históricos que muitas vezes nunca aconteceram.

A causa primeira de John Locke é um espaço que pode ser preenchido por qualquer coisa – inclusive matéria inerte.
Como sempre, preencher esse espaço com uma entidade perfeita preocupada com nossas vidas é fruto de seleção de explicações com base em apetite emocional, não fruto de reflexão racional, muito menos de informação empírica.

O argumento teleológico de William Paley se revelou, após Darwin, uma ilusão. Não é necessário um artífice para fazer surgir formas criativas no mundo natural. E a cada dia fica mais aparente que não é necessário Artífice Inteligente, também, para fazer surgir vida, nem surgir mente.

Esse argumento era um dos mais fortes ao qual a Teologia poderia recorrer para aumentar a quota de possibilidade de existência das divindades. Hoje, o que se propõe na Teologia Liberal é uma passividade mórbida. Não se espera que Deus responda ou atenda a orações, espera-se, cruzando os dedos, que ele exista e que a fé por si só seja uma garantia disto.

Anselmo da Cantuária, Agostinho e Tomás de Aquino têm sido ressuscitados para tentar elevar a quota de possibilidade, mas sem efeito. Argumentos antigos, perdidos em formulações lógicas brilhantes sem muita aplicação empírica, em nada ajudarão na derrocada do argumento teleológico da teologia natural.

Portanto, não há mais motivos para acreditar em Deus (seja qual for) do que há para acreditar em Papai Noel ou na Fada do Dente.
O único problema de Papai Noel e da Fada do Dente é que eles não são suficientemente volatilizados e sublimados para o intangível. Quem faz e continua fazendo isso com o Javé da Bíblia são os teólogos cristãos. Vêem a Bíblia como um documento vergonhoso porque ela foi amplamente refutada pela ciência, pela história, e não se revelou superior a qualquer outro texto sagrado antigo ou relato de Pajé.

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Para fins de esclarecimento, é necessário evitar que se trave uma discussão com divergências puramente semânticas.
Percebo que, quando há reclamação do desejo de Dawkins de que as religiões sumam, provavelmente está sendo levando em conta o enriquecimento cultural advindo delas. Quanto a isso, duvido que Dawkins deseje realmente que sumam coisas como a arte feita sob inspiração religiosa, e a manifestação cultural religiosa em geral.
Se é nesse sentido que ele fala, então ele não merece respeito nesse ponto. Mas isso não invalida o argumento da improbabilidade dos deuses.

Bertrand Russell também disse desejar que não houvesse religião. Mas, com certeza, dado que ele era um apreciador da arte e um pacifista, ele não se referia à parte culturalmente enriquecedora que se encontra no termo. Russell se referia, como Dawkins parece se referir, ao conhecimento construído por causa da fé. Ao dogma cristalizado em afirmativas que interferem na natureza. Russell se refere, mais ainda, à certeza cega que as religiões muitas vezes alegam ter.

Para evitar essa confusão semântica, me refiro especificamente a fé e ao dogma quando falo de religião.

Se o ateísmo em questão deriva de uma certeza, sim, ele será uma pregação e um dogma. Mas não é o caso do ateísmo baseado na improbabilidade das divindades, que é um ateísmo não-absoluto, mas “assintótico” em direção à assertiva aparentemente absoluta (apenas aparentemente).

Justamente por não ser uma religião, o ateísmo é concluído a partir da negação de todas as religiões, e é exatamente isso o que ele faz. O que eu questiono aqui é a crença amplamente espalhada de que os dogmas religiosos, e a fé, só podem ser anulados por outros dogmas ou fés. Não é verdade. Quando o argumento da improbabilidade divina é aceito, a fé e o dogma não são anulados por substituição, mas por consideração racional acerca de quais partes do logicamente possível se concretizam no mundo natural.

E quem melhor explica o mundo natural é a Ciência.

Portanto, Dawkins está agindo como cientista ao falar sobre ateísmo, assim como agem como cientistas os teóricos da evolução e da historiografia, mesmo com suas limitações em relação a outras áreas. Todavia, não se conclui a partir da argumentação de Dawkins que a Ciência leva invariavelmente ao ateísmo.

Se deuses são improváveis, não há nada de incoerente em concluir o ateísmo a partir disso, assim como um biólogo qualquer decide se são equinodermos ou lampréias os animais mais próximos dos mamíferos.

Ateísmo assintótico não é religião e pode ter origem na análise dedutivista de hipóteses teístas.

O conhecimento científico é neutro, e não nega Deus. Como Dawkins não pretende provar a não existência, não nega Deus a partir de ciência. Não é possível observar dois universos, um contendo Deus e outro não contendo para ver qual é a diferença.

Entretanto, a partir de Filosofia, é possível considerar qual das possibilidades é mais plausível: haver ou não haver Deus. E, mesmo Filosofia, tendo base no que se sabe em Ciência. O que Dawkins faz não é vincular suas conclusões diretamente às conclusões que se faz quando se testa cientificamente, por exemplo, a eficácia de um novo medicamento.
O que ele faz, repito, é botar as cartas na mesa – avaliar o quão provável é a existência de cada Deus que já se propôs.

O que é negado pela ciência é o que não pode ser considerado como objeto de experimentação empírica. Mas pode ser considerado hipótese, e como tal, pode ser comparado às teorias já estabelecidas. E nesse ínterim, é possível avaliar sua probabilidade.

Por exemplo, é possível, na Filogenética, considerar os graus de parentesco de dois seres vivos com base no método da Parcimônia, mesmo que não se conheça sua história diretamente. As conclusões da filogenética têm um “grau de convicção”, digamos, menor que as conclusões científicas obtidas a partir de objetos de estudo completamente testáveis.
A Biologia, depois que se tornou uma ciência histórica, teve de aprender a lidar com certezas menores que a certeza de que “estômatos abertos aumentam a transpiração da planta”.

Daniel Dennett propõe que, para saber se uma forma de vida pode ser atingida pela evolução, devemos considerá-las em três instâncias: a possibilidade lógica de ela existir, a possibilidade biológica de ela existir, e a possibilidade de as formas atuais chegarem até ela. Dragões são logicamente possíveis. Mas são biologicamente possíveis? Os tecidos biológicos existentes nos vertebrados atuais podem sustentar uma labareda de fogo? Se sim, há caminhos possíveis de isso ser atingido?

Não existem extraterrestres no bestiário científico. Mas, porque pensava cientificamente e ceticamente, Carl Sagan chegou à conclusão de que eles eram razoavelmente prováveis, e que seria muito mais surpreendente que a vida na Terra estivesse sozinha.

Quando alguém nega a existência de deuses, não está fazendo ciência, nem experimentos, com certeza. Mas está pensando cientificamente, como Carl Sagan. Mesmo que seja Filosofia. O método científico depende de assertivas filosóficas, como o empirismo. É necessário crença no empirismo para levar o conhecimento científico a sério.

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O DOGMATISMO

O marxismo diversas vezes se transformou em religião, com livro sagrado e profeta.
De ateus que influenciaram a Revolução Francesa, pode-se citar muitos poucos, talvez apenas Diderot. Os outros filósofos, como Rousseau e Voltaire, eram deístas. Os revolucionários, principalmente os jacobinos radicais, personificados em Robespierre, criaram uma nova religião para substituir o cristianismo – em que eles adoravam a Deusa Razão (uma notória deturpação das idéias desses pensadores) e queimavam em praça pública o espantalho do Ateísmo.

Portanto, a religião não sumiu na Revolução Francesa, um período notório de surgimento de bases atuais da civilização. A religião, naquela época, foi substituída por outra com derrame de sangue.

O ateísmo que Dawkins propõe é, ao estilo do de Russell, um ateísmo de livre-pensamento, de cura da tendência humana de Dogmatismo Irracional. Por isso mesmo, é extremamente positivo que Dawkins peça que paremos de chamar crianças de pais muçulmanos de muçulmanas.

Entre ateus dogmáticos, que fariam de fato uma pregação, talvez estejam Mencken, Feuerbach, e até Nietzsche. Na “Genealogia da Moral”, Nietzsche praticamente constrói um mito explicativo num estilo quase bíblico.

Não há evidência científica da não-existência de divindades. Mas, dependendo do que está sendo chamado de Deus, a indiferença generalizada do universo ao sofrimento humano bastaria para refutar um Deus benevolente, mas não um Deus Malteísta.
Não há Fé no ateísmo assintótico porque a Fé é uma crença diferenciada. Cremos no empirismo, mas não significa que temos fé nele.

Se ninguém nunca tivesse visto um gordo numa população de mil habitantes, não significa que não existem gordos (ausência de evidência não é evidência de ausência, como dizia Carl Sagan). Mas até não aparecer o milésimo primeiro que seja gordo, eu continuaria AGORDISTA se houvesse um bom argumento de improbabilidade da existência de gordos.

Um cientista precisa ser um São Tomé. Precisa quantificar e ter sob seus sentidos o seu objeto de estudo. E além disso, esse “São Tomé” precisa ter competência para avaliar a probabilidade de suas hipóteses serem falsas ou verdadeiras antes mesmo de expô-las a teste, quando for possível expô-las.

A Ciência permanece porque tem o método e porque funciona. As religiões permanecem porque – além de serem culturalmente enriquecedoras – oferecem explicações que atendem ao apetite emocional das pessoas por um universo humanizado.

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Post Scriptum – Contexto social do ateísmo, e a Fé acompanhada de outras ilusões
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Bertrand Russell é ainda melhor que Dawkins na questão de posicionar o ateísmo epistemologicamente:

“Em ciência há muitos assuntos sobre os quais as pessoas concordam; em filosofia não há nenhum. Portanto, embora cada proposição em uma ciência possa ser falsa, e é praticamente certo que há algumas que são falsas, ainda assim nós seremos sábios em construir nossa filosofia sobre a ciência, porque o risco de erro na filosofia é com certeza maior que na ciência.”

Atomismo Lógico

“Um ateu, como um cristão, acredita que podemos saber se há ou não há um Deus. O cristão acredita que podemos saber que há um Deus; o ateu, que podemos saber que não há.
O agnóstico suspende seu julgamento, dizendo que não há bases suficientes para a afirmação ou para a negação. Ao mesmo tempo, um agnóstico pode acreditar que a existência de Deus, embora não impossível, é muito improvável; ele pode até acreditar que é tão improvável que não merece consideração na prática.
Neste caso, ele não está longe do ateísmo. Sua atitude pode ser aquela que um filósofo cuidadoso teria para com deuses da Grécia antiga.
Se me pedissem que eu provasse que Zeus e Posêidon e Hera e o resto dos Olímpicos não existem, eu me acharia perdido para encontrar argumentos conclusivos. Um agnóstico pode pensar que o Deus Cristão é improvável como os do Olimpo; neste caso, ele está, para propósitos práticos, em concordância com os ateus.”

‘O que é um Agnóstico?’ – 1953

“Um credo religioso difere de uma teoria científica ao alegar que incorpora uma verdade eterna e absolutamente certa, enquanto a ciência está sempre testando, esperando que a modificação em suas teorias atuais será mais cedo ou mais tarde necessária, e ciente de que seu método é logicamente incapaz de chegar a uma demonstração completa e final.”

Religião e Ciência (1935)

Só não me considero agnóstico porque penso que agnosticismo é a crença na eqüiprobabilidade de hipóteses acerca da existência de divindades. Não acho que as positivas são eqüiprováveis à(s) negativa(s). Por isso, por conveniência, e para deixar minha opinião clara, me declaro ateu.

Não há muito respeito pelos ateus.
Respeita-se muito, todavia, o silêncio. Há irritação porque alguns desses ateus partiram para o debate em vez de se manterem no tão prezado silêncio.
Há adoração dos sábios religiosos semi-agnósticos até pelo seu próprio silêncio, pois nem mesmo se arriscam a dar uma opinião clara sobre o que acreditam.
E além de respeitar o silêncio demais, respeitam o dogma. Acham que não se deve discutir o dogma, por isso até os ateus calados, supostamente todos dotados de fé, devem evitar o debate.

O que se estimula é a pieguice e o silêncio que vem predominando há séculos. Fora alguns poucos núcleos em filosofia, a maior parte da humanidade sequer cogita discutir dogmas.

Muitas pessoas inteligentes que querem defender passionalmente suas religiões provavelmente cresceram em meio a esse hábito injustificado, e querem mantê-lo irracionalmente atacando os ateus que defendem abertamente sua opinião. Mas estes merecem até agradecimento por ao menos levar o debate onde supostamente ele não deve entrar.

A irracionalidade de uma opinião inculcada desde a infância costuma ser mais forte que qualquer argumentação, e é essa irracionalidade o alvo dos ateus modernos.

Gould é um magnífico teórico evolucionista, sim. Conheço poucos livros de não-ficção tão gostosos de ler como os de Gould.

Mas isso não vai ajudar com a honrosa porém falha tentativa de Gould de separar Ciência e Religião de uma maneira tão frouxa. O que ele propõe (os NOMA) é infactível, e até dissimulado.
Como eu disse várias vezes, os dogmas religiosos não têm origem em fé pura. Pouquíssima coisa na Religião tem origem na pura fé.

O que a separação absoluta entre ciência e religião faz é fomentar o silêncio. Fomentar o silêncio para justificar um respeito excessivo pelo dogma.

Respeito entusiasticamente aqueles que acreditam num Deus mas o restringem a uma realidade metafísica. Entretanto, infelizmente, isso não refuta totalmente a improbabilidade. Digo sim infelizmente. É infeliz que os deuses não estejam logo ali no firmamento. Infeliz e trágico. Entretanto, seria insincero da minha parte acreditar neles porque quero, ou porque isso me faz mais confortável.

É difícil isolar a fé dos dogmas que a cercam.
Entretanto, já foram feitas tentativas na Teologia.

Segundo Paul Tillich, pode-se dividir a fé em modus operandi e alvo crido. O alvo crido é o que eu chamo de dogma.
Fé é ser “incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito”. É uma releitura, me parece, do argumento ontológico de Anselmo da Cantuária. Só que com acréscimos psicanalíticos, e outros acréscimos.

O argumento ontológico, apesar de ter fundamentação lógica perfeita, não garante que esse “incondicional” e “infinito” é uma divindade. Garante apenas que tem de haver “algo maior do que o qual nada pode ser pensado”.

Nesse caso, se uma pessoa desenvolve sua fé apenas através do argumento ontológico (ou da causa primeira), ela poderá atribuir as características que “quiser” (que acha que são defensáveis, ou que reflete suas impressões sobre a vida, a moral e a natureza) ao incondicional, e essas características vão para o dreno da metafísica. Nisso, se o incondicional é julgado como um Deus, a pessoa constrói um “conhecimento” baseado em pura fé.

Não estou certo se tenho mais exemplos. O “Céu Azul” dos mongóis tem origem empírica, como eu apontei. Entretanto, não se fundamenta apenas no sensível como um dogma religioso. Para se constituir como dogma religioso, o “Céu Azul” precisa conter os famosos “mistérios” (que caíram no gosto dos católicos).

Mistérios nesse sentido, que são adorados por si mesmos como se trouxessem o selo “contém divindade”, têm origem na pura fé. Em outras palavras, os mongóis são “incondicionalmente tocados” pelo Céu Azul, apesar da contaminação empírica.

Mas para Anselmo e Tillich, O Céu Azul não seria suficientemente maior ou infinito, portanto é uma idolatria – e o que está acontecendo quando as “idolatrias” são denunciadas? Volatilização para o intangível. Fuga do sensível. Sublimação para o infinito.

O que Anselmo e Tillich fazem sem perceber é tornar o Cristianismo uma gordura localizada, um peso morto.

Ora, se o “Céu Azul”, ou Zeus, ou Anúbis, ou Thor, ou a Homeopatia, ou o Marxismo, ou o Ateísmo Dogmático são idolatrias, o que impede o Cristianismo de ser uma idolatria?

Se cada um desses elementos que eu citei são dogmas advindos em alguma medida do sensível, da empiria, de evidências histórico-naturais, não deixam de ser idolatrias também coisas como acreditar em

– Ressurreição de Cristo,
– ascenção corpórea de Maria aos Céus,
– milagres de Fátima,
– comprovação científica dos milagres professada pela ICAR,
– Dilúvio Universal
– ascenção corpórea de Maomé aos Céus,
– criação especial do homem a partir de barro,
– criação especial da mulher a partir da costela,
– memória da água,
– salvação da humanidade a partir da ditadura do proletariado,

etc.

As características atribuídas ao intangível (maior, incondicional, causa-primeira) são contaminadas pela empiria na vasta maioria dos dogmas religiosos.
Portanto, ao interferir na natureza, os dogmas religiosos podem ser avaliados em princípio pela Ciência. Se não em experimentação, em inferência baseada no conhecimento científico já produzido. Na noção intuitiva de probabilidade já conhecida na Filogenética e na Historiografia.

Sou ateu porque penso que o conhecimento advindo da fé pura que citei não difere das idolatrias mais antigas.

Porque o Deus intangível é, no fundo, nada mais que uma personificação do universo (conclusão prosopopaica).
Há trinta mil anos, algum homem da minha idade, que nunca tinha pensado em ter fé antes na vida, pode ter ouvido um trovão, e bem depois de ter batido num velho por um ovo suculento de avestruz. Ao se lembrar dos cuidados de seus pais já mortos, atribui ao trovão uma bronca pelo seu comportamento errado de acordo com os padrões morais da tribo. Pronto, nasceu um deus.

Alguém ouve a história do trovão, e a conta em desenhos dentro de uma caverna. Eu vou até lá, “traduzo” os desenhos para o português, mas não cito claramente que a voz de deus era na verdade um trovão. Nasce a minha bíblia.

Eu leio e releio, bastante satisfeito, a nova bíblia. Como não cogito tentar explicá-la através do trovão, eu falo em infinito, em incondicional, e em causa primeira. Pronto. Nasceu a minha teologia.

Escolas vão ser obrigadas a ensinar meu gênesis na aula de ciência, meus filhos serão condicionados a cumprir meus rituais e se ligarem emocionalmente à minha religião. Nasce um câncer na civilização e um escravizador de mentes.
Faço músicas, construções, poesias em homenagem ao meu mito. Nasce mais uma fonte de riqueza cultural – para a qual se paga um preço.

Não é nada surpreendente que muitas religiões associem falta de fé e ateísmo ao mal. Como eu mostrei na minha analogia, muitas vezes o ateísmo sequer é cogitado. Faz parte da imunologia ideológica das religiões ligá-lo ao “lado negro da força.”

Análise de proposições comuns:

(1) Hebreus 11.1: “Fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem.”

(2) Fé é ser incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito.

(3) É necessário definir fé.

(4) Religiosos, ateus e agnósticos possuem fé invariavelmente.

(5) A Ciência abre mão da fé.

(6) Há seletividade feroz dentro do meio científico quanto ao que se propõe como hipótese, e é uma seletividade idêntica à aversão dos religiosos pelos ateus.

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(1) e (2) são definições alternativas que, embora não mutuamente exclusivas, se focam em aspectos diferentes e levam a diferentes conclusões sobre haver ou não haver fé no ateísmo [assintótico – daqui para frente é a este ateísmo que me referirei].

Segundo (1), não há fé no ateísmo. Pois ele não se baseia em um “firme fundamento” (dogma) nem em “prova das coisas que não se vêem” (fé como modus operandi, e dogma denovo). Se baseia numa conclusão probabilística intuitiva baseada na “prova das coisas que se vêem” (teorias científicas), que não é uma conclusão absoluta, mas uma aposta confiante.

Evidências científicas que apoiem a conclusão absoluta de William Paley serão suficientes para derrotar o ateísmo.

Segundo (2), há fé no ateísmo. Não só no ateísmo, como em qualquer outra coisa – culinária, cinema, jogo de xadrez. O “toque do incondicional” implica uma espécie de ‘obsessão’, ou um arrebatamento emotivo, e virtualmente todos os seres humanos estão propensos a isso. Levando em conta que o “verdadeiramente” é subjetivo e relativo.

(3), (4) e (5) revelam que há problemas nas duas definições anteriores. Quer dizer que, para saber o que é fé, cada pessoa tem de contar com sua própria experiência.
Segundo a minha experiência como ex-católico, existem sim pessoas sem fé. E, na Igreja, os fiéis são exortados a terem mais fé. Se fé pode ser quantificada, pode atingir o valor nulo.

Se pode atingir o valor nulo, é possível não ter fé, e o ateísmo é uma possibilidade real de não-fé.

Até mesmo Jesus Cristo, no evento em que andou sobre as águas, acusou seus discípulos de serem homens de pouca fé. Portanto, se levam seu livro sagrado a sério, os cristãos precisam considerar que a mente humana é capaz de diminuir a fé em si mesma, e até anulá-la, e a fé não é um órgão inato como Paul Tillich alega.

A fé é, portanto, uma construção cultural, no desenvolvimento ontogenético.

Se (5) é verdade, a comparação apresentada em (6) não faz sentido.
Pois comparou-se a imunologia ideológica religiosa contra o ateísmo e as exigências básicas de apresentação de idéias científicas que não consistem em rejeição a priori.

Resumindo:

– Mentes surgem na evolução e são improváveis, por isso divindades são improváveis.

– As análises “profundas” da fé feitas pela Teologia não excluem a possibilidade forte da fé ser uma mera ilusão respeitada por ter raízes profundas historicamente e biologicamente.

– Crer não é sempre ter fé, e a noção quantitativa existente nas religiões, quanto a ter “mais” ou “pouca” fé abre espaço para a ausência de fé como possibilidade real.

– A Intuição emana da Razão, ao contrário da Fé. O cientista Peter Medawar, em “Induction and Intuition in Scientific Thought” discorre mais sobre o papel da intuição na ciência como ato humano independente de fé.

– Existem ateus que têm fé na não existência de Deus. Ateus dogmáticos, e eu não sou um deles.

– Probabilidades são acessíveis à razão. Isso se dá pela intuição matemática com profundas raízes cognitivas. Sabemos “calcular” a velocidade de um carro antes de atravessar uma faixa de pedestres, e para isso não pedimos auxílio à calculadora ou às fórmulas matemáticas.

– Ninguém prova que X não existe, só se pode analisar qual é a probabilidade de X existir. Se há ou não há um sapo azul voador na Amazônia, e em que medida esta entidade é mais ou menos provável que a Fada Sininho, são coisas capazes de sofrer análise da intuição probabilística.

– O Cristianismo não é justificável como superior a qualquer outra idolatria.

– A fé por si só não garantirá que um ou outro dogma advindo dela seja superior a qualquer outro dogma.

– Os dogmas religiosos são contaminados por empiria, seja constante ou restrita ao passado, e isso permite sua análise filosófica à luz das teorias científicas.

– O ateísmo que chamo de assintótico é possível como conclusão “frouxa”. Essa frouxidão está presente em toda e qualquer conclusão, em maior grau nos dogmas religiosos, em menor grau nas teorias científicas.

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Reconheço minha ignorância quanto a grande parte do que já foi feito na Epistemologia, Filosofia e Ciência, mas se tem alguma coisa digna de valor no que aprendi no pouco que li nessas três áreas é saber argumentar e evitar estratégias intelectualmente desonestas.

LITERATURA RECOMENDADA (autor – obra):
Anselmo da Cantuária – Proslógio
Paul Tillich – Dinâmica da fé
Richard Dawkins – Deus, um delírio
Daniel Dennett – A perigosa idéia de Darwin
Peter Brian Medawar – Induction and Intuition in Scientific Thought

28th of September

Nahor de Souza Jr. na UnB – o bom, o mau e o feio


Hoje foi apresentada, a partir das 13h na UnB, uma palestra com o título “Ciência e Religião são Compatíveis?”, pelo Dr. em Geologia Nahor Neves de Souza Júnior.

Eu e Silvia Gobbo (doutora em Paleozoologia) estivemos presentes para defender o evolucionismo.

Durante a palestra a Silvia refutou contumazmente as afirmações criacionistas de Nahor no campo da Paleontologia e da Arqueologia.
Silvia, acostumada com a maneira franca de dar palestras dentro da Paleontologia, interrompeu intermitentemente o Nahor, o que causou o protesto de alguns alunos de graduação e do engenheiro Rui Vieira, um dos veteranos da Sociedade Criacionista Brasileira.

Eu também o interrompi por três vezes, mas deixei meus argumentos principais para depois da palestra (nessa hora a Silvia também teve a oportunidade de falar).

Na primeira vez que o interrompi foi para defender os ateus, pois ele alegou que todos os ateus acham que o universo físico é totalmente submetível à prospecção científica.

Na segunda vez, perguntei se não era contraditório que ele reclamasse da “omissão” da comunidade científica para com os “princípios do protestantismo” sendo que (como eu tinha a impressão) ele tinha dito no início da palestra que as cosmovisões dos cientistas convivem e não interferem nas pesquisas. Ele respondeu que não fez esta última alegação (talvez esteja certo quanto a isso). Deu a entender que os cientistas cristãos são superiores em termos de coerência aos demais cientistas.

Na terceira vez, perguntei se ele tinha referências de pesquisas científicas que corroborassem a afirmação de que a prática da circuncisão diminui a incidência de câncer em judeus. Ele respondeu que sim, e alegou que a secreção que o pênis produz entre o prepúcio e a glande é cancerígena (esmegma). Em resposta eu franzi o cenho, não sei se é verdade que o esmegma é cancerígeno, mas não me pareceu plausível.

(Não me parece muito inteligente por parte do Artífice criar esmegma cancerígeno.)
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Pois bem, a palestra começou de uma forma bem cuidadosa, e o Dr. Nahor pôde demonstrar sua admirável habilidade retórica, e seu conhecimento substancioso em ciência, patrística e escolástica, metodologia científica indutivista e dedutivista; além de conhecimentos bíblicos e suas experiências pessoais com o cristianismo.

Isso eu tive a oportunidade de elogiar, e compartilhar (a inspiração emocional da Bíblia na infância). Isso foi o bom.

Quando Nahor disse que os cientistas cristãos tinham excelentes qualidades, como a curiosidade, perguntei a ele se isso não seria problemático com a afirmação de Agostinho de que a curiosidade é uma doença. O palestrante disse que discorda da escolástica nesse ponto.

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Foi dito também que a Bíblia merece status de literalidade, como os seis dias da criação. Eu comentei que isso não é recomendável, dado que Javé tem atitudes análogas ao terrorismo nos eventos da destruição de Jericó e do massacre perpetrado por Sansão. Eu disse também que a Bíblia afirma que pensamos com o coração, o que já é refutado pela ciência.

Nahor disse que todos os povos relatavam desastres antigos, e que isso é uma evidência da ocorrência do Dilúvio Universal. Eu refutei dizendo que os mongóis, por exemplo, não relatam coisas assim. Lembrei que há muitos textos sagrados por aí, como as Vedas, o Corão, etc., e que dar privilégio à Bíblia é fruto de acidente cultural e deliberação irracional, não de reflexão racional.
Reclamei, por esses motivos, que o nome da palestra é equívoco, pois Nahor se ateve ao cristianismo, e não só ao cristianismo, à sua vertente particular que implica criacionismo. Sugeri que da próxima vez ele usasse “Ciência e religião bíblico-cristã são compatíveis?”.

Relatei também que o hábito dos judeus de não cumprimentar mulheres por elas estarem “sujas” por causa da menstruação (como diz o Torá) é inaceitável e não tem bases na microbiologia. Isso refutou o que ele disse anteriormente, que a Bíblia antecipou a microbiologia em recomendações de higiene.

Incentivar o fanatismo religioso, privilegiar a Bíblia injustificadamente e fingir isenção na análise de religião e ciência: isso foi o mau.

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Por fim, apontei que Nahor, durante a palestra, usou apelos à autoridade, que consistem numa falácia lógica.
Chamei a atenção para o fato de que o Deus de Aristóteles não é o Deus do cristianismo, mas é derivado do Theos de Platão, que não é um artífice (um criador), mas uma espécie de “máquina” intermediária entre as idéias e os objetos. Nahor concordou.

Nahor, durante a palestra, citou muito Newton – tanto como um apelo à autoridade quanto como um exemplo de suposta conciliação entre ciência e religião. Eu disse a ele que Newton tentou calcular a profundidade do inferno em que sua mãe se encontrava, e que isso era literal para Newton, portanto Isaac Newton não é a pessoa mais adequada para conciliar ciência e religião.

Lembrei a Nahor que durante a palestra ele diversas vezes usou argumentos de incredulidade pessoal. Por exemplo, ele disse não acreditar que o experimento de Urey e Miller concedia evidências à abiogênese primordial, porque nunca tinha visto uma gradação entre aminoácidos, proteínas e seres vivos nos estratos geológicos.

Eu disse que se alguém colocar moléculas orgânicas num recipiente fechado com água, depois de pouco tempo a molécula seria degradada e isso pode ser explicado pela segunda lei da Termodinâmica. Disse que ele deveria levar em conta que os animais fossilizados eram uma minoria ínfima, e que a partir da observação dessa minoria é possível imaginar o que acontecia a todos.

Nahor disse ter preferência pelo indutivismo, e eu citei Karl Popper, que refutou o indutivismo do próprio Newton, porque as hipóteses que chegaram a Newton podem ter tido origens místicas, e não origem nos dados observados como alega o próprio Newton.

Popper mostrou que as hipóteses científicas podem ter qualquer origem, inclusive religiosa, e que o que as refuta e as descarta é a observação empírica.

Nahor, finalmente, passou adiante o relato sobre a visita de Dobzhansky ao Brasil e a suposta conversa que Dobzhansky teve com uma aluna de História Natural. Que Dobzhansky teria dito que “foi longe demais”. Eu convidei todos a ir longe demais: visitar o laboratório de biologia evolutiva da UnB, onde trabalho, e entrar em contato com a Teoria da Evolução.

Desafiei o Criacionismo e o Design Inteligente a explicar os dedos vestigiais que algumas cobras têm, bem como a possibilidade de aborto de fetos Rh+ em mães Rh-, e a semelhança de carpelos e pétalas com folhas. Principalmente explicar onde está a inteligência criadora nesses fatos, que evidenciam claramente a evolução – e o histórico “hábito” de trabalhar a partir de coisas já existentes: arcos branquiais viraram mandíbulas, e o osso sesamóide radial virou polegar no panda.

Não conseguir defender o Design Inteligente e o Criacionismo com coerência na Ciência e na Religião: isso foi o feio.