2nd of August

Dualismo Material, ou Apresentando O Grande Ininteligível


Abigail Hensel e Brittany Hensel são duas moças bem humoradas, cheias de vida, nascidas em 7 de março de 1990 em Minnesota, Estados Unidos.

Cresceram em New Germany, Minnesota, estudaram em escola luterana, andam de bicicleta, digitam rápido o teclado, correm, e recentemente conseguiram carteira de motorista. São duas personalidades distintas.

Um detalhe sobre Abigail e Brittany é que as duas moças compartilham um só corpo, e a aparência exterior é de um corpo humano dotado de duas cabeças.

Vídeo.

Cada lado desse corpo é controlado por um desses dois cérebros.
O corpo funciona muito bem, tem por exemplo três rins, dois intestinos, três pulmões, um fígado, um par de ovários, um útero, uma bexiga, uma vagina e uma uretra; e só passou por uma cirurgia preventiva quando Abigail e Brittany estavam com 12 anos de idade.

Isso não é evolução, mas dá um exemplo de como a natureza pode ser flexível.
Tão flexível, que, quem sabe, em milhões de anos um réptil pode virar um ser humano.

Há pessoas que, imersas numa sociedade teísta como a brasileira, diriam que seria injusto culpar “Deus” (o deus dos cristãos) pela condição das gêmeas. Isso com a idéia de que essa condição é necessariamente ruim ou horrenda.

Caso fosse de fato uma condição ruim e horrenda, não é injusto culpar uma certa definição de “Deus” que diz que este ser é ao mesmo tempo perfeitamente bom, onisciente, onipotente, e onipresente.
Como já indicou Epicuro, ao menos um problema ético emana dessa definição, e a única resolução para a questão do mal de Epicuro, à parte negar a existência de tal ser, seria mudar este conceito (definição). Isso não é uma falsa dicotomia, dado que a mudança de definição traz em si todas as outras alternativas à negação.

Mas a condição das gêmeas não é necessariamente um tormento. Achar que Brittany e Abigail sofrem um tormento é ignorar que elas vivem muito bem, como eu já informei. E achar que a condição delas é horrorosa é impor sobre elas uma estética própria, que é irrelevante a elas.

Pensar que a condição das duas implica um tormento horroroso é ter um demasiado centrismo em si mesmo, ao ponto de aplicar a outrem indevidamente os seus valores. Mas aplicar indevidamente valores a outrem nunca pareceu ser um problema entre religiosos, não é?

Muitos religiosos justificariam a condição de Brittany e Abigail por um argumento liberal de que o livre arbítrio não é atributo apenas dos indivíduos, mas também um atributo da própria matéria.

Me parece forçoso aplicar uma dicotomia implícita de determinismo / livre arbítrio à matéria, dado que ela não é só uma coisa nem outra. E me parece que ao menos que uma coisa muito louca esteja acontecendo aqui, deixar a Natureza chafurdar em si mesma promiscuamente, de modo a originar uma emergência de contingências que de forma não-determinística geram uma mente (ou duas mentes num corpo só, como é este caso) é incompatível com saber de antemão que esta mente surgiria, com todas as suas particularidades e limitações que podem determinar toda a sua trajetória (inclusive idéias de pecado, de beleza, de bem e mal, etc.).

E quanto à opinião dos espíritas, segundo a qual a condição dos corpos é resultado do que fez o espírito em vidas passadas?

Não tenho nenhuma opinião firme sobre isto, mas me basta desconfiar que a memória é algo que se perde na morte do corpo e é irrecuperável. Me basta desconfiar também que a personalidade não é herdada mas sim construída pacientemente durante a vida.
É lamentável que existam sistemas de crença que defendem que a moral deve ser apreendida de um grande teatro cósmico que me lembra os experimentos de Pavlov ou de B. F. Skinner.

Esta plasticidade da vida, que permite casos como o dessas irmãs americanas, é de certa forma uma pista de que o universo não está sob o controle de um deus. Por que não considerar, como deveria fazer uma mente racional, que essa possibilidade existe e não é fraca?

Me parece anti-racional descartar de antemão a hipótese de não haver qualquer tipo de divindade a nos olhar.

Desviantes existem porque as “leis” naturais permitem exceções, principalmente aquelas que se referem a entidades complexas como animais. E pessoas “anômalas” existem porque o homem é só mais um animal, e é uma amostra ínfima do universo que o cerca.

Pergunto uma coisa importante: Qual é o motivo para supor qualquer espécie de antropocentrismo ou antropomorfismo ao universo/natureza?

Assim como as gêmeas, o Universo não merece que enfiemos nele os nossos valores.

Aliás, qual é o motivo de propor esse deus ouroboros, uma cobra que devora a si mesma pelo rabo? (Uma entidade que tem características – como uma mente – que se originam de causação distal em relação a certos fenômenos, que é capaz de criar ou alterar esses próprios fenômenos. Ou seja, há evidências de que a mente humana surgiu no decorrer da evolução, e a evolução é um processo biológico que depende da existência da matéria, então por que creditar o atributo mente a um deus anterior à própria matéria? Esse ciclo que se completa com a mente divina criando a matéria que é o que eu chamo de deus ouroboros, comendo seu próprio rabo.)

Para os que pensam que Deus existe e é intangível e inefável, entretanto criam para ele altares, há uma expressão de Peter Medawar, que ele usa num comentário errôneo sobre os sonhos (em Induction and Intuition in Scientific Thought):

“Utter nonsensicality”, que traduzo como “Ininteligibilidade ulterior”. É isso que penso ser o atributo mais comum de qualquer coisa que consideremos sob a luz das capacidades de nossas mentes. Tudo isso que me cerca é de uma ininteligibilidade ulterior.

Sobre tudo isso que me cerca, que às vezes chamo de Universo, apenas o tolero, e o contemplo. Não merece altares, pois não cultuo algo ininteligível. Cultuo o que compreendo, ou o que mesmo não compreendendo me é acessível. Em vez de altares, sou todo dedicação a quem ou o que penso que tem merecimento: ciência, filosofia, Epicuro, Carl Sagan, Bertrand Russell. Têm merecimento porque tornam o mundo menos ininteligível para mim, portanto menos digno do meu temor.

(Não estou falando em apreciação estética, isso eu tenho para com as coisas independente de sua ininteligibilidade.)

Para mim, o grande erro dos místicos é fingir para si mesmos que estão desfrutando de gotas de compreensão, quando na verdade estão se perdendo em labirintos de antropização do que não é antrópico.

O que é antrópico, o que é cogito ergo sum, é uma amostra limitadíssima de tudo o que me cerca. Portanto, concluo que é no mínimo altamente fadado a equívoco aplicar essa amostra ao resto do universo, no sentido de pensar que o universo tem de conter em seu cerne ou ser governado por algo dotado de razão, mente, e conceitos de estética e ética.

Em termos mais técnicos (não que eu esteja fazendo ciência aqui), tentar afirmar “Deus existe” é algo que vai cair lá onde se aceita a hipótese nula na maioria das vezes, e mais afastado da hipótese alternativa quanto mais a definição de “Deus” for próxima da definição de “Homem”.

Abigail, Brittany e o Universo estão em seu pleno direito: apenas são. Se são bonitos ou feios, bons ou ruins, não compete a nós decidir. Mas para mim, sempre há beleza na autonomia, na complexidade e na emissão de luz própria. Não somos capazes de compreendê-los totalmente. Mas podemos ouvir o que têm a dizer, por mais diferentes que sejam de nós.
(Constelação de Gêmeos)
1st of August

Aging and Immortality in Biology


Human beings (and other animals) age and die for these probable reasons:

1 – The inaccurate replication.

We carry in each of our cells the chromosomes, long strands of DNA wound up into proteins. The ends of these strands are made of short-sequence repeats, and their assembly is known as telomere. When cells replicate in mitosis (the rate of replication differs from tissue to tissue – skin and gut cells renew every week or so, while neurons may last a lifetime), the DNA must be copied and inherited by daughter cells. Every cell carries in DNA the information which stands for the whole body.

But for molecular reasons, in each mitosis the telomeres shorten up. Imagine the telomeres are cushions protecting genes between one another. These cushions get thinner and thinner as replications go by, to the point that genes can be affected. If genes are affected, further replication and survival of the cells becomes jeopardized (what can be observed in elders, e. g., in scarceness of their defense cells).
If genes are deteriorated because they lack telomere protection, problems emerge. For instance, the cell may lose control over replication and it brakes loose. Maddened promiscuous replication of cells is famously known as cancer. This is one of the reasons why elderly people are more susceptible to cancer.

For a tumor to appear, it is not strictly necessary that replication-related genes are affected. The process may be triggered by mutation in specific receptor genes alone, those which allow the cell to perceive its neighbors. That is to say, a cell in solitude is a dangerous cell.

2 – The decay of biological structures

This second reason is intimately related to the first one. The very phenomenon of breathing (and by obvious extension, eating, since breathing is connected to food energy intake) causes decay to the tissues. By decay I mean mutation. Every woman who buys anti-wrinkle cosmetics has heard about free radicals – and these are produced due to bad reception of electrons at the end of respiratory chain in mitochondria. Free radicals are so damaging that natural selection favored cells owning peroxisomes, organelles capable of tackling them. These radicals interact with DNA and change it, causing mutations, spoiling genes which control cells and tissues. Mutations can also be caused by many other circumstances.

As our body is always renewing itself, and needs energy (food and respiration) in order to do so, it has no means to avoid gradual gathering of mutations throughout the tissues in the course of decades. This means stem cells (which give birth to themselves and to tissue-function-specialized cells all over the body) diverge from the ancestral type, and this ancestral type is the fertilized egg from our mothers.
When diverging from their ancestor, these cells may start misproducing elastin and collagen, then wrinkles thrive and skin slackens. They may overproduce melanin and bring about dark spots on the skin. May damage the brain and provoke diseases such as Parkinson’s and Alzheimer’s. And so cells keep up the noble art of aging.
Smart solutions
It is well known that our bodies are largely a result of natural selection, so there have been also genes selected during evolution because they diminish this biological decay in some ways. But they are not perfect, for evolution mainly privileges effective means to surviving until reproduction happens and offspring grants another chance to the lineage. Old age is not common in nature, so not many ways to restore genetic integrity to longer lasting have appeared. Some genes “detect” virus infection and cancer conspiracy, and oblige the cell to cease its activity, brake its DNA and dissolve into vesicles later “eaten” by defense cells. This is called apoptosis. Furthermore, defense cells can also detect carcinogenic activity in other cells and induce this programmed death to them. There are ways to thicken telomeres (namely, reconstruction from telomerase activity), mastered by stem cells such as those that produce sperms and eggs (gametes). Thus, although gametes are vulnerable to mutations, it is an evolutionary advantage that individuals are born from a single cell, for this grants at least in youth and reproductive age minimal resemblance among copies of genes in the various cells of the organism, so that they “agree” with each other, and work in harmony as a choir to be judged by natural selection, until the inexorable forces of aging hijack and shatter this agreement once again.

“Nothing in Biology makes sense except in the light of evolution”, said Dobzhansky in 1973, and now the statement has never been so truthful. It may be concluded that cancer is a microevolutionary process, in which the selection unit is the cell.

As Homo sapiens descended from bacteria, and bacteria are “immortal” beings (for there is no senility among them), cancerous cells from people can return to this condition of perpetual replication. This may happen because the only “purpose” of living beings, if it may be called this way, is to copy themselves.

On immortality

In Biology researches there are well known cell lines named HeLa. They are immortal, and carry an altered human genome.

HeLa stands for Henrietta Lacks, a woman who died in 1951. Scientists extracted tumor cells from Henrietta and bred them in culture medium. Nowadays, these cells sum up to tons, spread all over the world in laboratories. They caused Mrs. Lacks’s death, in a genetic takeover. Today, HeLa cells are not exactly human. Instead of 46 chromosomes, they can bear 82 chromosomes into their nuclei. Evolution and natural selection have acted upon them, so that they are particularly good at keeping their telomeres intact (if they don’t do so, they die out). If by any odds a HeLa cell produces a gamete, the different number of chromosomes prevents it from fertilizing with a human gamete.

Hence, HeLa are reproductively isolated from human species, that is to say, HeLa has turned into a new species, properly described as Helacyton gartleri. If the world were made of culture medium, HeLa would spawn itself freely and independently from researchers’s aid. Currently, from studies with very few multicellular species which seem to be rid of senility (such as the hydrozoan Turritopsis nutricula), and from telomere research, we may have some perspective of future breakthroughs on how to elongate human life span. If we manage to do to ourselves what has already been done to the worm Caenorhabditis elegans, humans will live up to about 200 years.
ReferencesHug, N., & Lingner, J. (2006). Telomere length homeostasis Chromosoma, 115 (6), 413-425 DOI: 10.1007/s00412-006-0067-3

VALKO, M., RHODES, C., MONCOL, J., IZAKOVIC, M., & MAZUR, M. (2006). Free radicals, metals and antioxidants in oxidative stress-induced cancer Chemico-Biological Interactions, 160 (1), 1-40 DOI: 10.1016/j.cbi.2005.12.009

Kenyon, C., Chang, J., Gensch, E., Rudner, A., & Tabtiang, R. (1993). A C. elegans mutant that lives twice as long as wild type Nature, 366 (6454), 461-464 DOI: 10.1038/366461a0

Lucey BP, Nelson-Rees WA, & Hutchins GM (2009). Henrietta Lacks, HeLa cells, and cell culture contamination. Archives of pathology & laboratory medicine, 133 (9), 1463-7 PMID: 19722756

28th of June

Envelhecimento e imortalidade na Biologia


O ser humano (e demais animais) envelhece e morre por esses prováveis motivos:

1 – Da imperfeição da replicação.

Os cromossomos que trazemos, que são cada um uma fita longuíssima de DNA enrolada em volta de proteínas, trazem nas pontas dessa fita uma seqüência repetida que em conjunto chamamos de TELÔMERO.

Quando as células se multiplicam no corpo (varia conforme o tecido, as células da pele e do tubo digestivo se renovam em pouco mais de uma semana), esse DNA tem de ser replicado – pois todas as células trazem em seu núcleo a informação de um ser humano inteiro.

Mas, por motivos moleculares, a cada divisão os telômeros de cada cromosso se encurtam. Imaginem que os telômeros sejam almofadas que protegem os genes em seu interior. A almofada vai ficando cada vez mais fina, até que os genes começam a ser afetados. Se os genes são afetados, a replicação fica cada vez mais difícil (isso é observável em idosos, por exemplo nas células de defesa que ficam cada vez mais escassas).

E se os genes são afetados, ou seja, vão sendo deteriorados porque não contam mais com a proteção dos telômeros, outros problemas podem aparecer. Por exemplo, a célula pode perder as rédeas que evitam sua replicação desenfreada.

Uma célula desregulada que se replica promiscuamente é o que origina o famoso câncer. Por isso, pessoas mais velhas são mais susceptíveis a câncer.

A alteração nesses genes nem precisa ser especificamente nos genes que controlam o ciclo celular (o ciclo de mitose, no qual uma célula-tronco gera células-filhas se dividindo ao meio).

Basta que sejam mutados genes que controlam receptores que fazem a célula perceber suas vizinhas, ou seja, se ela se encontrar “solitária”, ela já vira um tumor (câncer).

2 – Do decaimento das estruturas biológicas

Esse outro motivo é intimamente relacionado ao primeiro.

O próprio ato de respirar (por extensão óbvia, comer, já que respirar é aproveitar a energia adquirida na alimentação) traz decaimento aos tecidos. Por decaimento entenda-se mutação. Toda mulher que compra cosméticos preocupada com rugas já ouviu falar em radicais livres – e eles são gerados justamente pelo mal recebimento de elétrons ao final da cadeia respiratória das mitocôndrias.

São tão prejudiciais os radicais livres que nossas células foram selecionadas, ao longo da evolução, de modo a apresentar organelas específicas para combatê-los, chamadas peroxissomos. Os radicais livres podem interagir com o DNA e alterá-lo, ou seja, causar mutações, alterar os genes que controlam o funcionamento das células e tecidos.

Mas, como nosso corpo sempre se renova, e precisa de energia (respiração e alimentação) para fazer isso, não tem como evitar mutações que vão se acumulando pelos tecidos ao longo de décadas.

Isso quer dizer que as células tronco, que originam a si mesmas e a células especializadas em diferentes funções pelo corpodivergem de seu tipo ancestral, e este tipo ancestral é o zigoto, a única célula que é o começo de todos nós, que surge da fecundação do óvulo pelo espermatozoide.

Ao divergir do tipo ancestral, as células de nossos corpos podem passar a produzir mal a elastina e o colágeno, fazendo as rugas aparecerem.

Podem sofrer defeitos na produção de melanina e originar as pintas pela pele.

Podem prejudicar o cérebro provocando mal de Parkinson ou de Alzheimer.

E por aí vão fazendo seu trabalho na nobre arte de envelhecer.

Como nossos corpos são resultado da seleção natural, existem genes que evoluíram de modo a evitar esse decaimento biológico de algumas formas, que não chega à perfeição porque a evolução favorece modos eficazes de garantir a sobrevivência até que aconteça a reprodução e a prole garanta a continuidade da linhagem.

Alguns desses genes, ao “detectarem” que a célula pode estar infectada por vírus ou se tornando cancerígena, fazem com que ela cesse sua atividade, quebre seu DNA e se dissolva em vesículas que são “comidas” pelas células de defesa. Isso é apoptose, também chamada de morte celular programada, que está acontecendo a todo minuto em algum lugar no corpo.

Além disso, células de defesa podem também detectar essa atividade conspiradora de um câncer e induzir essa morte celular programada.

As células tronco com maior poder de regenerar os telômeros são as que produzem os gametas (espermatozóide e ovócito).

Assim, embora gametas também sejam sujeitos a mutação, é evolutivamente vantajoso que outros indivíduos nasçam a partir de uma única célula, porque isso garante ao menos na juventude e idade reprodutiva que as células dos tecidos desse jovem tenham genes mais parecidos entre si, portanto “concordam” entre si, e trabalham harmoniosamente, e são submetidos como um “coro” à força da seleção natural, até que as forças inexoráveis do envelhecimento comecem a quebrar essa concordância e essa harmonia novamente.

“Nada na Biologia faz sentido senão à luz da evolução”, disse o grande geneticista Theodosius Dobzhansky, e não é à toa. Até ao se falar em desenvolvimento e envelhecimento é necessário que se entenda a evolução.

Conclui-se que o câncer é um processo microevolutivo, em que a unidade de seleção é a célula.

Como o ser humano é um “tataraneto” de bactérias, e as bactérias são seres “imortais” (pois não existe entre elas a senilidade), que se reproduzem por bipartição, as células cancerígenas das pessoas podem retornar a essa condição ancestral de replicação indefinida.

E isso pode acontecer simplesmente porque o único “propósito” dos seres vivos, se é que se pode chamar isso de propósito, é fazer cópias de si mesmos.

3 – Da imortalidade

São bem conhecidas nas pesquisas da Biologia as células HeLa. São células imortais, com um genoma humano alterado (claro, afinal são câncer).

HeLa de Henrietta Lacks, uma mulher que morreu em 1951.

O que os cientistas fizeram foi pegar as células cancerosas de Henrietta e colocar em meio de cultura. Hoje, essas células juntas, em vários laboratórios pelo mundo, se somam em toneladas.
Elas causaram a morte da Sra. Lacks, foi um verdadeiro “golpe de estado” genético.

Hoje são algo diferente de uma célula de ser humano. Em vez de 46, podem ter até 82 cromossomos. E, por nada menos que seleção natural, as células HeLa têm um meio de preservar intactos os seus telômeros!

(Se não tiverem, são eliminadas pela seleção natural porque não se reproduzirão indefinidamente.)

Se uma célula HeLa gerar um gameta (o que não acontece hoje), o número diferente de cromossomos EVITA que esse gameta seja fecundado por um gameta de uma pessoa.

Portanto, a linhagem HeLa se isolou reprodutivamente da espécie humana.

Portanto, as células HeLa são uma espécie nova, descrita com o nome Helacyton gartleri (não Homo sapiens).

Se o mundo fosse feito de meio de cultura (e pode ser mesmo em alguns lugares), a espécie HeLa viveria independente da ajuda dos cientistas.

Hoje, a partir de estudos com pouquíssimas espécies multicelulares que aparentam não ter senilidade, e a partir do estudo do encurtamento do telômero, poderemos encontrar formas de aumentar o tempo de vida do ser humano. Se conseguirmos fazer conosco o que já foi feito com o verme Caenorhabditis elegans, chegaremos a viver até por volta dos 500 anos.

O segredo de uma vida mais longa parece estar em evitar os radicais livres, e isso inclui comer menos. Animais cuja dieta teve corte de calorias (cerca de 30%) podem viver até 50% mais.

Para alongar o tempo de vida do ser humano será necessário entender mais sobre como algumas salamandras são capazes de fazer membros amputados crescerem de volta, e como algumas hidras (animais aquáticos simples parentes das águas-vivas) conseguem regenerar a forma de seu corpo inteiro mesmo após serem dilaceradas num liquidificador.

Viver mais e melhor será o futuro graças à pesquisa em biologia, e nada disso poderia ser feito sem a teoria da evolução como pilar sustentador dessa ciência.

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Créditos das imagens:

Dercy Gonçalves: Andréa Farias / Wikimedia Commons
Cromossomo: ADRIAN T SUMNER / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Fecundação: EYE OF SCIENCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Células HeLa com adenovírus: SCIENCE SOURCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY
C. elegans: SINCLAIR STAMMERS / SCIENCE PHOTO LIBRARY

Referências:

Hug, N., & Lingner, J. (2006). Telomere length homeostasis Chromosoma, 115 (6), 413-425 DOI: 10.1007/s00412-006-0067-3

VALKO, M., RHODES, C., MONCOL, J., IZAKOVIC, M., & MAZUR, M. (2006). Free radicals, metals and antioxidants in oxidative stress-induced cancer Chemico-Biological Interactions, 160 (1), 1-40 DOI: 10.1016/j.cbi.2005.12.009

Kenyon, C., Chang, J., Gensch, E., Rudner, A., & Tabtiang, R. (1993). A C. elegans mutant that lives twice as long as wild type Nature, 366 (6454), 461-464 DOI: 10.1038/366461a0

Lucey BP, Nelson-Rees WA, & Hutchins GM (2009). Henrietta Lacks, HeLa cells, and cell culture contamination. Archives of pathology & laboratory medicine, 133 (9), 1463-7 PMID: 19722756

9th of June

Vida após a vida? Espíritos e reencarnação à luz da evolução


Vivemos num país cada vez mais dependente de tecnologia e de conhecimento científico, entretanto, a esmagadora maioria das pessoas, inclusive dentro das universidades, vivem num mundo intelectual povoado de artefatos destoantes do modo de pensar que produzem essa tecnologia e esse saber.

Esses artefatos podem ser agrupados no que se chama popularmente de fé. E fé merece respeito. Se ter fé é optar por incoerência filosófica, se é criar um bunker protegido de todos os lados contra a prospecção da razão, se é aplicar esperanças e forte carga emocional a possibilidades improváveis, ainda assim merece respeito. Pois respeito é, antes de tudo, tolerância. Respeitar é ter a atitude de Voltaire, de lutar pelo direito de expressão do outro com todas as forças, não importa quanto erros o outro cometerá.

Nenhum problema, portanto, que a fé seja tão sedutora para tantas pessoas ao ponto de diminuir a importância da razão em suas vidas. A própria razão, fraca como é, só existe para atender a nossos desejos, como dizia Bertrand Russell. O que há de precioso no conhecimento advindo da razão é sua funcionalidade. Por isso a ciência, como magistério eminentemente racional, consegue produzir tecnologia. Disso não se conclui que a explicação mais racional e mais científica para um dado problema é uma verdade absoluta. Tampouco não ser verdade absoluta dá mais confiabilidade e crédito à fé como método de busca da verdade.

O problema começa quando os partidários da fé resolvem tentar justificá-la com uma caricatura de razão. Quando tentam justificar a “certeza” de uma religião fingindo que ela é uma ciência.

Um homem pode vestir um jaleco, pode segurar um tubo de ensaios, pode desgrenhar os cabelos, mostrar a língua e falar palavras difíceis. Mas isso não faz dele um cientista.
Pode ser um polemista, pode citar nomes estrangeiros, pode emitir aparentes paradoxos, mas isso não faz dele um filósofo apoiado na razão.

Percebo que muitas pessoas em geral bem informadas hoje estão deixando de lado dogmas pouco confiáveis, como os tradicionais cristãos, e optando por novas idéias espiritualistas, doutrinas em franca expansão no meio culto como o Espiritismo, porque supostamente estas estão em plena concordância com a ciência.

Pretendo mostrar aqui que o espiritualismo não só é sofrível à luz de um importante conceito central da Biologia, a evolução, como só pode ser aceito como dogma. O dogmatismo, cedo ou tarde, acaba por fracassar como conhecimento racional. Só pode se amparar em fé, se é que se pode dizer que fé é suficiente para amparar qualquer coisa.

Breve histórico e incongruências associadas

Primeiro, o erro mais comum dos espíritas, por causa das obras de Rivail (Kardec), é associar o termo Evolução à idéia de progresso, de melhoramento.
Este conceito pode fazer sentido na crença religiosa, mas não tem nada a ver com a teoria científica da evolução. Nem com o fato da evolução biológica.

Na época do lançamento da primeira edição do Livro dos Espíritos, em 1857, ainda tinham grande influência sobre os naturalistas da França as idéias de Jean-Baptiste de Lamarck (o principal livro de Lamarck, Philosophie Zoologique, foi publicado em 1809).
Para Lamarck, todas as formas vivas evoluíam marchando para a perfeição, e surgiam por geração espontânea, e o homem era o que mais se aproximava da perfeição neste planeta.
Desnecessário dizer que tudo isso consta no Livro dos Espíritos (e outras obras espíritas como A Gênese): geração espontânea, e evolução como progresso.

Ambas foram abandonadas pela moderna Teoria da Evolução há mais de 100 anos.

Primeiro, porque Francesco Redi e Louis Pasteur mostraram que não acontecia geração espontânea. Claro, quem acreditava fanaticamente na geração espontânea persistiu até o fim, procurando lacunas no conhecimento da Biologia para preencher com a geração espontânea. No mesmo ano da publicação da obra mais famosa de Darwin (Origem das Espécies), em 1859, Pouchet publicou um livro de quase 700 páginas tentando desesperadamente salvar a geração espontânea e o princípio vital – sem sucesso.

O século XIX foi um período de explosão de pensamentos religiosos que a Igreja Católica sempre reprimiu na Europa. Acontecia uma substancial secularização das instituições sociais, que tinha se intensificado nas chamadas revoluções burguesas dos EUA e da França. O Tribunal do Santo Ofício estava fora de moda, então Kardec e outros espiritualistas tinham liberdade para expressarem suas crenças “heréticas”.

As obras de Kardec refletem acuradamente o que estava à disposição na época para quem tinha vontade de saber respostas dos cientistas (que não necessariamente são resposta da ciência, ou seja, não necessariamente são amparadas por evidência).

Soa ridículo supor que os “espíritos superiores”, que supostamente respondiam as perguntas de Kardec, ficassem atentos às publicações de Lamarck ou de um naturalista evolucionista qualquer cujas idéias não tinham sofrido o choque com Darwin.
O que é mais racional e mais econômico é supor que os médiuns, ou o próprio Kardec, eram leitores curiosos das mais altas especulações científicas de sua época, inclusive hipóteses evolucionistas como a de Lamarck. Ou seja, não só da época, mas do país específico em que Kardec morava.

No ano seguinte à publicação do Livro dos Espíritos veio a publicação conjunta de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, um evento de pouca visibilidade para o público leigo. E finalmente, em 1859, Darwin publicou o seu longo trabalho de décadas no livro “Sobre a origem das espécies pela seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”, apelidado carinhosamente de “Origem das Espécies”.

Neste livro já se nota o erro das crenças Lamarckistas das quais se apropriou Kardec (ou, para os mais crédulos, das quais se apropriaram os “espíritos superiores”): não há modo natural de definir superioridade e inferioridade na natureza, nem qualquer escala de prioridade ou qualquer conceito ético/estético de que nutrem os humanos para elogiar a si mesmos (neste caso em particular, o conceito de perfeição). O homem está sujeito às intempéries que governam os outros seres vivos (muito mais no século XIX – o próprio Darwin, em vida, perdeu filhos para patógenos egoístas que usam o corpo humano como substrato para sua reprodução. Não era raro famílias ricas perderem crianças assim).

Outra provável influência sobre Kardec (ou os médiuns que o enganaram) foi um evolucionista do século XVIII, o Conde de Buffon (Georges-Louis Leclerc), também francês, que viveu no século XVIII.
O conde de Buffon influenciou notadamente Lamarck. Então, se Lamarck foi a fonte primária do Espiritismo, Leclerc também o foi indiretamente.

Inclusive Leclerc especulou sobre ancestralidade comum entre o homem e os grandes primatas africanos, o que foi retomado depois por Darwin. A ancestralidade comum foi abandonada por Lamarck – em favor da “escala evolutiva”, ou “grande corrente dos seres”, que colocasse, é claro, o homem no topo.

Outras prováveis influências sobre Kardec foram Herbert Spencer (que advogava idéias deploráveis que vieram a ser conhecidas erroneamente como “Darwinismo Social”) e Auguste Comte (que intencionalmente ou não semeou idéias equivocadas sobre método científico que inspiraram dogmatismos religiosos de adoração da ciência em alguns de seus seguidores).

Conclui-se que a última resposta a ser racionalmente invocada para a “codificação” espírita é de que teria sido respondida por gente morta, já que as obras espíritas refletem bem idéias da época acessíveis a pessoas vivas.

A única coisa que sobrou de Lamarck na obra de Darwin foi o uso e desuso e um pouco de herança de caracteres adquiridos. Mas logo esses conceitos também caíram com o advento da Genética no século XX. Ou seja, Darwin fez quase tudo o que era possível fazer pela Teoria da Evolução com o aparelhamento e idéias da época.

Hoje, evolução biológica é definida como apenas mudança, a mudança que ocorre nas formas, nas freqüências dos genes nas populações. Indivíduos não evoluem, apenas populações. Portanto, não faz sentido um espírita achar que uma pessoa é “mais evoluída” que outra.

Não é necessário optar por nada sobrenatural para justificar algo no homem, sejam as emoções, seja o olho, seja o cérebro.

A afirmação comum de que Espiritismo é Ciência não se sustenta. Além de o Espiritismo não estar de acordo com a citada teoria central da Biologia moderna, não está de acordo também com outras áreas do conhecimento científico, como a Astrofísica e a Química – mas isso é assunto para astrofísicos e químicos.

Dogmas espiritualistas à luz da evolução

Munidos agora deste conhecimento, que interpretações podemos fazer de conceitos básicos do Espiritualismo e do Espiritismo?

Por exemplo, como surgiria na história da vida uma entidade paralela, imaterial, que não influi na reprodução de quem a possui, apenas na sobrevivência – que seria uma sobrevivência eterna?

Como já dizia Darwin, o homem traz consigo a marca indelével de sua ancestralidade. Ou seja, ainda temos características de bactéria, de protozoário, de peixe, de réptil, de mamífero primitivo, de primata ancestral. Estas características estão entre coisas que até comumente supomos que são exclusivas nossas – como cultura, mente, memória, sentimentos, etc. Ou seja, de exclusivas, em última análise, essas características não têm qualitativamente nada.

Traríamos conosco, no espírito, características de nossos ancestrais também? Até hoje não vi nenhum espiritualista supor coisa parecida, como se o espírito já nascesse do jeito que é (com ou sem atuação de criação divina), já dotado de mente por exemplo. Mas não precisamos de interferência divina para explicar como uma bactéria originou um homem. Aliás, cada vez mais não precisamos de explicações sobrenaturais para traçar conjeturas prováveis de como a matéria inerte originou a primeira célula bacteriana.*

Aí começa mais um problema para os espiritualismos.

As características presentes nos animais, incluindo o homem, surgiram por dois processos:
1 – Seleção natural, quando conferem ao organismo em que estão mais sucesso reprodutivo (adaptação).
2 – Acaso, quando se fixaram na população por acompanharem os sobreviventes, não necessariamente sendo responsáveis por maior eficiência em sua reprodução (deriva genética).

Por exemplo, o olho. Quem tem olho tem mais chances de encontrar alimento, e é mais eficiente em escapar de predadores. Portanto, tem mais descendentes.

Hoje, o estágio inicial do surgimento do olho pode ser traçado a uma proteína sensível à luz (portanto, algo muito simples – proteínas e seus blocos construtores são produzidos livremente no universo sem a presença de vida). Existem outras proteínas parecidas com esta, que não são sensíveis à luz. Portanto, basta mutação numa proteína ancestral para que a proteína se torne sensível à luz (grosso modo).

O início do olho, nesta proteína, já tinha a característica 1. E o início do espírito?

O início do espírito precisaria ser ao menos mortal. Esse proto-espírito precisaria se replicar, passar herança para descendentes – e os que sobrevivessem por mais tempo precisariam ser selecionados. Mas segundo o Espiritismo, espíritos não se reproduzem, apenas reencarnam e marcham para o progresso.

Além disso, uma grande inconsistência do espírito como entidade natural (ou sobrenatural, mas dá na mesma dado que ele interage com a matéria viva) é a questão da energia.

A evolução biológica vem acontecendo na Terra há 4 bilhões de anos.
Os seres vivos lutam com todos os genes para estocar energia (ou usá-la para ter maior sucesso na reprodução), pois não é coisa de fácil acesso, e boa parte da evolução só aconteceu porque eles tiveram que lutar por energia. As florestas só têm árvores altas por causa disso.

Espíritos são improváveis de aparecerem no curso da evolução porque:
1 – Seres vivos precisam ser econômicos no gasto de energia, e a manufatura de um espírito pós-mortem num estágio inicial é um gasto desnecessário que seria eliminado, enquanto o gasto de energia na produção de uma prole não é desnecessário, na verdade é o que fundamenta a própria existência desses seres.

2 – Entidades capazes de sofrer evolução precisam ser replicáveis, e essa replicação precisa ser imperfeita em algum grau, e as variações que são fruto dessa replicação precisam ser selecionadas pelas condições do meio-ambiente. As características que levaram as variações sobreviventes a sobreviverem precisam ter, ao menos em sua base, alguma garantia de hereditariedade pela replicação.

O tipo de espírito proposto no Espiritismo, capaz de reencarnação, teria grande limitação para esses pré-requisitos, então teríamos o ridículo de ele ser gravemente retardado no curso da evolução e oferecer um tempo de “sobrevida” curto, além de inútil.

Imaginem um homem que morra, depois de ter vivido 90 anos justamente por causa da seleção natural atuando em seus ancestrais, se encontre fora do corpo num espírito de bactéria, que vive apenas um segundo porque após aparecer nas primeiras formas vivas, há bilhões de anos, o espírito apenas reencarnou e reencarnou, como água que se infiltra em diferentes substratos mas não deixa de ser água.

A energia tende sempre a se transformar para estados inacessíveis à realização de trabalho, ou seja, aumenta a entropia (“desordem”). Essa é uma das razões por que nossos corpos, após décadas de vida, se encontram exaustos, cessam seu equilíbrio dinâmico e cedem à decomposição.

O que garante que a forma de energia do espírito, diferente de toda e qualquer outra forma de energia conhecida, seja imune ao aumento da entropia? Uma mente não pode ter como base algo tão estático e sem o equilíbrio dinâmico de um corpo – pensar consome alimento,consome ligações entre carbonos. A mente, por definição uma entidade organizada, mantém sua organização às custas da desorganização que causa no ambiente ao seu redor.

Em outras palavras, espíritos precisariam se alimentar.

Para responder a esses argumentos, os espiritualistas precisariam explicar a origem do espírito a partir de evolução, e a termodinâmica do espírito como a manutenção de uma entidade em equilíbrio dinâmico, que é capaz de se manter invulnerável ao aumento de entropia interna através de aumento de entropia global. Em outras palavras, o único tipo de espírito plausível fisicamente, é um que coincida com o “simulacro” (conceito de Epicuro) que é nosso próprio corpo, em que há entrada e saída de energia, assim como um rio é uma forma constante a ser apreendida de movimentos incessantes. Um rio não é sempre o mesmo.

O único espírito plausível é o corpo. E este, morre. Não “reencarna”, transmite herança em várias cópias diferentes – os descendentes. Não marcha para a perfeição, apenas muda de modo a preservar sua sobrevivência.

A manutenção de um espírito é totalmente contrária a essas regras. Representa um centrismo no indivíduo que é surreal para os mecanismos da evolução.

Em algum momento teria de haver “competição” entre o gasto de energia na produção do espírito e gasto de energia na produção de descendentes. A segunda opção ganha por definição.

O legado de nossa miséria, e o legado de nosso triunfo, só podem ser transmitidos aos nossos filhos, e não a uma forma surreal de nós mesmos que precisa sobreviver à morte do corpo só porque assim a morte parece menos assustadora.

Vida após a morte, e espíritos, e reencarnação, são coisas inverossímeis, improváveis. Não serão desejos e motivações emocionais que mudarão isso. Apenas evidência, e não há muitas perspectivas de que as evidências hoje apontem para outras conclusões.

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NOTA

*Processo de biopoiese, muito diferente de geração espontânea, pois se deu em condições hoje provavelmente ausentes na Terra – ou seja, mecanismos puramente naturais e físicos, num evento extremamente improvável no universo, mas cada vez mais provável conforme consideramos cada condição ambiental que se somou à sua ocorrência. Ou seja, um evento que, por ser natural, só precisa das condições naturais adequadas, como moléculas orgânicas que existem livremente no universo, e a quantidade de energia livre originada na fusão estelar ou fissão radioativa (acrescentei fissão por que há a possibilidade de a vida ter surgido em meio ao calor das fumarolas submarinas, este calor provém da fissão de elementos radioativos). Recomendo sobre esse assunto os livros: “O que é vida?”, de Schrödinger, e “O que é vida? – 50 anos depois”.

29th of May

Elogio ao Hinduísmo


Há no ar uma certa obsessão por Espiritismo e Cristianismo no Brasil. Mencionemos religiões equiprováveis que também merecem atenção apesar do mero acidente de estarem longe daqui.

“O Hinduísmo engloba um conjunto de tradições culturais, sociais e religiosas que se originaram principalmente no subcontinente Indiano. Pode ser chamado de Bramanismo (ou Brahmanismo), pois é a cultura que originou do povo áriano, de cultura Brahmácharya (seguidores de Brahma, o pai, o conceito criador da trindade Hindu).”

(Fonte: Wikipédia)

“Os Hindus acreditam em um espírito supremo cósmico, que é adorado de muitas formas, representado por deidades individuais como Vishnu, Shiva e Shakti. O Hinduísmo é centrado sobre uma variedade de práticas que são meios de ajudar o indivíduo a experimentar a divindade que está em todas as partes e realizar a verdadeira natureza de seu Ser.

O Hinduísmo, como religião, é a terceira maior do mundo, com aproximadamente um bilhão de adeptos (censo de 2005), dos quais aproximadamente 890 milhões vivem na Índia. Outros países com grande população hindu são o Nepal, Bangladesh, África do Sul, Sri Lanka, Ilhas Maurício, Fiji, Guiana, Indonésia, Malásia, Estados Unidos e o Reino Unido.”

É uma das religiões mais antigas do mundo, se não a mais antiga, e em seu ambiente se desenvolveram várias práticas de medicina e filosofia, inclusive registros das primeiras cirurgias plásticas já feitas na História.

Meu elogio ao Hinduísmo tem como propósito não estimular fé nesta religião, mas mostrar que é uma religião muito melhor que as ocidentais em termos de compatibilidade com a ciência, credibilidade (de acordo com critérios de credibilidade bastante usados entre os religiosos ocidentais), e por fim farei uma modesta conclusão.

1 – Compatibilidade com a ciência

Há uma famigerada abordagem feita nas escrituras hoje por causa de sua inconsistência frente a teorias científicas. Principalmente as teorias concernentes à origem do universo, da vida na Terra e o destino de ambos no futuro mais remoto.

A abordagem a que me refiro é a interpretação de que os textos sagrados tratam de metáforas em alguns pontos.

A preocupação dos cristãos (principalmente aqueles filiados à Teologia Liberal, chamados freqüentemente de “moderados”) se direciona principalmente ao livro do Gênesis.
Diz-se, por exemplo, que os seis dias de criação não são literais, mas metafóricos para ilustrar os bilhões de anos que a Astrofísica aponta para a real idade do Universo, e o tempo que a Geologia indica que foi necessário para o surgimento das formas de vida citadas neste livro da Bíblia.

Outros pontos na Bíblia freqüentemente tratados como metáfora são a criação do homem e o Dilúvio Universal.

A Genética, bem como a Teoria da Evolução, apontam que uma espécie não pode surgir apenas com um casal. Se assim acontece, o endocruzamento obrigatório que se sucede leva invariavelmente à extinção da linhagem (e isso eu pude observar na minha própria pesquisa de iniciação científica em moscas).

O problema de compatibilidade nesses pontos com a Ciência não é muito grande para o Hinduísmo. Pois, para os hindus,

“o Universo é grande, cíclico e extremamente velho.

Os Vedas falam de um universo infinito e os Brahmanas mencionam “yugas” (eras) muito grandes. A visão Védica recorrente do universo exige que o próprio universo passe por ciclos de criação e destruição.

Esta visão cíclica se tornou parte da estrutura astronômica desenvolvida por eles e isso fez com que ciclos muito longos, de bilhões de anos, fossem considerados. Os Puranas falam do universo passando por ciclos de criação e destruição de 8,4 bilhões de anos embora também existam ciclos mais longos. Assim, na cosmologia hindu o universo tem uma natureza cíclica.

A unidade de medida usada é a “kalpa”, que equivale a um dia na vida de Brahma, o deus da criação. Uma kalpa tem aproximadamente 4,32 bilhões anos. O final de cada “kalpa”, realizado pela dança de Shiva, é também o começo da próxima kalpa. O renascimento segue à destruição. Shiva é representada tendo na mão direita um tambor que nuncia a criação do universo e na mão esquerda uma chama que destruirá o universo. Muitas vezes Shiva é mostrada dançando num anel de fogo que se refere ao processo de vida e mort e do universo.

O mais notável na cosmologia hindu, que lhe dá uma característica única, é o fato de que nenhuma outra cosmologia antiga usou períodos de tempo tão longos nas suas descrições cosmológicas.”

(Fonte : Observatório Nacional)

O Hinduísmo é superior ao Cristianismo na compatibilidade com a Ciência.
Eles não têm que dar desculpinhas furadas de interpretação de texto, podem dizer apenas que a idade do universo deles tem uma certa margem de erro.

Eles não caem no ridículo dizendo que o universo tem 6 ou 10 mil anos apenas como é possível inferir da Bíblia.

A existência do Hinduísmo data de 4000 a 6000 anos a.C., ou seja, eles já falavam e

ssas coisas muito antes de Jesus Cristo ser um ovócito dentro do ovário de Maria.

Sobre a compatibilidade com a Teoria da Evolução e a conhecida origem do homem também a partir desse processo como se verifica em fósseis na África, também com isso o Hinduísmo não tem muito problema.

Segundo o mito hindu da origem do homem, o primeiro homem foi Matsiendra . Era um peixe que ao ver a deidade Shiva executando sua dança, tentou imitá-la e o efeito foi se tornar homem.

Se é para encarar como metáfora, qual metáfora é melhor? Um peixe dançando (lembrando que a dança de Shiva representa em grande parte o próprio tempo) e virando homem, sabendo-se que a Teoria da Evolução aponta que os peixes que deram origem a nós são os Sarcopterígios; ou uma metáfora nebulosa com barro e sopro?

Ganha a metáfora mais clara. O Hinduísmo não necessita de muitos esclarecimentos se trata isto como uma metáfora.

O Hinduísmo nem mesmo precisa usar de artifícios antropocêntricos como faz o Espiritismo ao tratar da evolução biológica como se fosse um constante melhoramento destinado no passado a atingir uma espécie de pico no homem. Afinal, o peixe apenas dançou e o resultado da dança apenas surgiu, assim como o homem é apenas uma entre várias espécies que a seleção natural moldou.

2 – Credibilidade

Não são poucas as vezes em que se usa a falácia ad populum para dar credibilidade ao Cristianismo. Se muita gente acredita, então é verdade. Com isso também o Hinduísmo não tem problema, pois existem mais de um bilhão de hindus.

Perderia em número para os Católicos, mas ganharia de muitas outras correntes cristãs.

Outra falácia muito usada para dar impressão de credibilidade é o Argumentum ad antiquitatem, segundo o qual algo é verdade porque é dito há muito tempo.

O Hinduísmo provavelmente ganha de todas as religiões que ainda têm fiéis hoje no mundo, pois, como eu já disse, data de 4000 a 6000 anos a.C.

Para os que acreditam na força dessas falácias para dar credibilidade, o Hinduísmo deveria ser seriamente considerado como digno de culto.

3 – Conclusão

É bem curioso que em debates sobre ciência e religiões as pessoas se sintam tão inclinadas a ignorar religiões importantes como o Hinduísmo, o Budismo, o Confucionismo, o Jainismo, e até mesmo os animismos mais antigos que hoje não têm mais muitos fiéis, como a religião do antigo Egito, dos Etruscos, da antiga Núbia, dos Astecas, dos Maias, dos Incas…

O número de religiões é assustadoramente alto, sim. Mas o que garante que uma seja melhor que outra?

Como eu mostrei, se a ciência é uma preocupação há motivos muito bons para, por exemplo, abandonar o Cristianismo e seguir o Hinduísmo.

Será desconfiança minha ou a esmagadora maioria dos religiosos com os quais debato só seguem suas religiões porque por acidente nasceram onde nasceram, foram educados pelos pais que têm, ou toparam com algumas afirmações bonitas sem qualquer compromisso com consistência frente à natureza?

O Hinduísmo aí está para ser analisado, por que não analisar uma boa quantidade de religiões para ver se alguma merece tanta dedicação e fé?

20th of May

Livre arbítrio?


por Leonie Welberg”A questão sobre os humanos terem livre arbítrio tem sido discutida por séculos por filósofos e acadêmicos religiosos, e mais recentemente por neurocientistas. Haynes e seus colaboradores adicionaram lenha ao debate mostrando que a atividade em duas áreas corticais não relacionadas a movimento pode predizer o resultado de uma decisão motora em até 10 segundos antes que um indivíduo se torne consciente da decisão.

Voluntários foram postos num scanner de ressonância magnética funcional e foi pedido a eles que pressionassem um botão com o dedo indicador direito ou esquerdo quando quisessem. Ao longo do experimento os voluntários olharam para uma tela que mostrava uma sucessão de letras, e eles tinham que se lembrar da letra que foi apresentada na tela no momento em que decidiram qual botão apertar. Isso revelou que a maioria das decisões eram conscientemente formadas um segundo antes que a resposta motora fosse executada.

Então, os autores analisaram a atividade em diferentes áreas do cérebro durante o tempo precedente ao pressionamento do botão, usando decodificadores baseados em padrão. Esse tipo de análise pode detectar padrões-‘assinatura’ de atividade que estão associados com uma decisão particular. Os autores acharam tais padrões de atividade na área 10 de Brodmann no córtex parietal (o córtex cingulado pré-cúneo/posterior) – áreas que acredita-se serem envolvidas em função executora e auto-processamento – e os padrões previam com alta precisão qual botão seria apertado. Intrigantemente, as assinaturas apareceram até 7 segundos antes que os voluntários escolhessem conscientemente sua resposta motora. Pela razão de que acredita-se que a resposta hemodinâmica dependente de nível de oxigênio no sangue representa a atividade neuronal ocorrida por volta de 3 segundos antes, esta descoberta sugere que a atividade nas duas áreas codifica as decisões aproximadamente 10 segundos antes que elas entrem na consciência.

Padrões de atividade que foram observados na área motora suplementar e pré-suplementar aproximadamente 5 segundos antes de uma decisão ser consciente predisse seu compasso (timing), indicando que áreas cerebrais diferentes poderiam estar envolvidas na formação da intenção de fazer um movimento e na decisão de quando fazê-lo.
Embora seja difícil imaginar que nossas decisões possam ser feitas inconscientemente, essas descobertas têm implicações importantes. As pessoas podem ser responsabilizadas por suas ações se elas não se tornam conscientes de suas decisões até que elas sejam feitas? Você decide.”***Publicado originalmente em Nature Reviews – Neuroscience._O filósofo Daniel Dennett concebeu uma hipótese para o funcionamento da consciência, que pode ser lida nos livros “A perigosa idéia de Darwin” e “Consciousness Explained”.

3rd of May

Comunicação no mundo natural


Uma amiga me fez uma pergunta: “qual seria a primeira espécie a ter comunicação no planeta para você?”

Antes da resposta, precisarei de definições de trabalho que tive em mente ao responder:

1 – Comunicação é a troca de informação entre um emissor e um receptor, quaisquer que sejam essas duas entidades.

2 – Informação será definida como quantidade de “dados” (suas unidades mínimas), e dependerá da natureza da produção e leitura desses dados no emissor e no receptor. Ou seja, informação só pode ser entendida como pertencente a um sistema, um conjunto, uma população, e não faz sentido fora desse contexto.

Dadas essas definições de trabalho, vamos à resposta.

Entre células, por exemplo, existe comunicação. Uma molécula se liga a outra e provoca reações químicas – basicamente é isso. E eu acho que ainda é essa a base de todo e qualquer tipo de comunicação, aliás estou bem convicto disso (dadas as devidas correções – às vezes é uma propriedade física, como onda mecânica, fótons, que interagem com as moléculas orgânicas).

Mas quando complicamos as coisas, com sistemas nervosos, cérebros, é dificílimo detectar quando surgiu a comunicação que seria a forma mais primitiva da fala.

Em outros mamíferos, até aqueles dotados de pequenos cérebros, como os suricatos, a comunicação é bem clara, tem vocalização, e no caso dos suricatos uma vocalização diferente para cada significado: por exemplo, um certo grito significa um certo predador.

Esse tipo de comunicação deve ter algumas dezenas de milhões de anos (se foi assim também que acontecia nos primeiros primatas).

É claro que a fala como a conhecemos deve ter só entre 100 mil e 200 mil anos, e ainda não sabemos se outras espécies, como o homem de neandertal, a tinham.

A natureza, como sempre, manifesta gradações diversas, e há diferenças importantes entre espécies solitárias e espécies sociais ou gregárias. Cefalópodos como as lulas Sepiotheutis sepioidea, estas sociais, se comunicam por padrões de cores na pele. Mas também tem polvos solitários que são bem comunicativos, mas nesse caso a comunicação é direcionada a outras espécies, como o polvo mímico (Thaumoctopus mimicus) faz com possíveis predadores (Vídeo).

Então, a minha resposta não vai ser nem um pouco decisiva. A primeira espécie a ter comunicação bioquímica deve ter existido há mais de 3 bilhões de anos e era uma bactéria.

E a primeira espécie a ter comunicação dependente de um sistema nervoso deve ter existido há 500 milhões de anos, na “explosão” Cambriana, e possivelmente nem era um de nossos ancestrais. E esse tipo de comunicação deve ter surgido várias vezes, até mais vezes que a comunicação puramente bioquímica.

Existem muitos outros exemplos, como a comunicação entre cetáceos – baleias e golfinhos -, aves, lagartixas, crocodilos, cigarras, grilos, moscas (a drosófila, por exemplo, emite um “canto” vibrando as asas durante o ritual de acasalamento – e isso também acontece com mosquitos), besouros…

A fala surgiu quando a já existente emissão de som dos primatas foi unida a um cérebro cada vez mais complexo, capaz de representar o mundo em si mesmo, capaz de prever e analisar o comportamento de outros cérebros, capaz de executar experimentos mentais a partir da memória.
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Sugestão Bibliográfica: livro “O Instinto da Lingagem“, de Steven Pinker.

22nd of April

O mágico e o pedreiro


Em minha infância na cidade de Lagamar, aconteceram coisas mágicas que aquecem minhas memórias com uma sensação de conforto, saudade, e graça até.

Certa vez apareceu na cidade um circo, e junto dele veio um mágico sinistro. Ele tinha algum truque com uma vassoura encantada que se mexia sozinha e espantava as crianças com aquele terror primitivo – que agora me parece ter sido muito bom (como é bom para muitas pessoas assitir filmes de conteúdo destinado a provocar medo e susto).

Surgiu na cidade o boato de que o mágico compactuava com o demônio. Uma amiga das minhas irmãs mais velhas participou de um truque em que o ilusionista adivinhava o conteúdo de cartas lacradas; na carta dessa amiga a própria escreveu “Deus é amor”, e me contaram que esta frase desconcertou as habilidades mágicas do sinistro artista (talvez ele tenha até se assustado como um vampiro diante de um crucifixo).

Quem sou eu para estragar essas memórias acusando superstição e irracionalidade?
A mágica e o mistério fazem parte da infância.

Mas agora, se eu perdi essas sensações dramáticas, fervilhantes, e, por assim dizer, cinematográficas, o que tive a ganhar tem outro tipo de valor inestimável: é aquele valor do pedreiro que pacientemente constrói um abrigo sólido e seguro. Destruí aquele terror que me encantava quando criança, mas também me tinha como refém nas horas de desespero.

Era espetacular ouvir que dentro do redemoinho vivia um capeta que viria atrás de nós se recitássemos “pé de pato, pé de vento, vem aqui que eu pulo dentro”. E recitávamos, corríamos atrás do fenômeno atmosférico até que ele saltasse do penhasco, e ascendesse aos céus levando consigo algumas folhas rodopiantes que denunciavam sua existência até o derradeiro momento.

Agora, troquei o redemoinho por cada segundo que se atira ao nunca mais, e os mistérios são outros, como a própria natureza do tempo, mas não me causam mais aquele terror de desespero, mas reavivam o terror de júbilo daquelas mágicas.

O circo se foi, se atirou ao olvido de muitos que lá estiveram, e hoje, no mesmo lugar, se encontra um sólido ginásio poliesportivo.

Ginásio Poliesportivo da cidade de Lagamar, Minas Gerais.
11th of April

Entrevista sobre ateísmo (ou “Vira o disco!”)


O texto abaixo foi retirado da comunidade Debates Polêmicos do Orkut, em que os moderadores gentilmente me convidaram para uma entrevista com o assunto ateísmo.

Uma parte das minhas respostas, principalmente no final, já consta neste blog. Resolvi republicar esta parte sem alterar o texto da entrevista, primeiro porque não quero ter a impressão de estar manipulando um evento passado (embora eu tenha retirado pequenos trechos em que não há argumentação), segundo porque creio que a integridade do texto garante a compreensão de minha opinião sobre alguns assuntos que ainda não tratei de forma adequada neste blog (como ética, por exemplo).

Portanto, apesar do título alternativo que sugeri (“Vira o disco!”), há coisas inéditas para o blog.

Me esqueci de dizer na entrevista (e também antes) que o antropomorfismo é uma estratégia inútil para estudar o universo porque dá demasiada importância a uma fração cosmologicamente ínfima do universo – o que logicamente implica que as conclusões antropocêntricas e antropomórficas têm alta probabilidade de serem falsas.

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CONVIDADO ESPECIAL: ELI VIEIRA DEBATE O ATEÍSMO

Eli: Primeiramente, agradeço o convite cordial que me foi feito. Tenho o Adriano em grande consideração.
Desde que entrei na comunidade dei uma olhada em alguns tópicos, e gostei do nível da discussão. Minhas sinceras saudações a todos os membros.

Vamos às respostas.

Moderadores: Eli, obviamente a primeira pergunta é a pergunta título do tópico: é o ateísmo uma nova forma de religião?

Eli: Se por religião se entende uma manifestação cultural consensual e coletiva, voltada para uma origem distinta, não. O ateísmo pululou em mentes diversas ao longo da história, sob diferentes influências culturais circundantes, diferentes contextos e diferentes trilhas de argumentação. Houve convergência de várias partes. E também teremos o problema da definição do ateísmo, que trataremos mais adiante.

Exemplos de mentes que atingiram o ateísmo independentemente são Epicuro (com reservas), Bertrand Russell, Feuerbach, e alguns clérigos anônimos. Acredito que existam ateus em todas as culturas, que atingiram essa forma de pensar por si mesmos, mas que geralmente se mantêm em silêncio ou se abstêm de qualquer interferência (o que de certa forma é até admirável).

Se por religião entende-se um modo de explicar o universo que nos cerca ao máximo possível, e um modo de conduta que resulta dessa cosmovisão, sim, o ateísmo é isso.

Se analisarmos as cosmogonias (ou explicações enderaçadas à natureza que visam mais que as origens), veremos que invariavelmente são confeccionadas racionalmente, empiricamente e emocionalmente. Religião foi por muito tempo a “Ciência do passado”, principalmente no Ocidente, e em civilizações como as Mesopotâmicas, Ameríndias e Africanas.
Creio que no Oriente coisas como o Budismo, Taoísmo e Confucionismo não funcionavam dessa forma (o que quero dizer como “Ciência do passado” é tão somente que essas religiões tentavam explicar a natureza), tendo como maior prioridade a conduta.
Também neste aspecto o ateísmo se assemelha às religiões: é feito de racionalidade, empiria e influências emocionais.

Mas, creio que diferente de todas as outras religiões, o ateísmo é o único em que o aspecto emocional é diminuído – ou mesmo, inicialmente, negativo. Afinal, ninguém acha mais confortável um Universo sem um Deus que se importe com o que fazemos no dia-a-dia, nossa sobrevivência após a morte, e que seja o propósito último de coisas que parecem ser manobradas pelo acaso.

Sim, ateísmo pode ser doloroso no começo. Mas pode se tornar uma coisa inspiradora, e, principalmente, que nos bota no nosso lugar e nos obriga à humildade. Nenhuma outra forma de pensar leva o ser humano a uma posição tão próxima do húmus (palavra com a mesma raiz de “humildade”).
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Moderadores: A crença, através da religião, sempre traz parâmetros de moral e preceitos de conduta na sociedade. Sem possuir tais parâmetros, não estariam os ateus mais propensos à imoralidade, à contravenção e ao crime?

Eli: Não, de modo algum.
Entretanto, isso é crença minha. Seria algo muito difícil de analisar. Há estatísticas mostrando que o número de ateus nas prisões americanas é bem inferior ao número de religiosos.

Não duvido que existam pessoas que, uma vez convencendo-se da veracidade do ateísmo, sofram um declínio de senso de moralidade e respeito por leis. Mas isso pressupõe um contato primordial com religião, não seria “culpa” do ateísmo.

Não duvido, também, que existam pessoas de índole deplorável que só não cometem crimes por medo das leis religiosas, como as cristãs que ameaçam sofrimento eterno. Conhecemos, muitos de nós, a dor de uma queimadura com alguns segundos e minutos de duração. Os convido a imaginar a extensão dessa dor a não um ano, dez anos ou um século, mas por toda a eternidade. Sem direito a eutanásia.

É por isso que acredito que o senso de moralidade que devemos buscar tenha de estar desvinculado, ao menos em parte, de nossas fés ou cosmovisões.
Não se deve confiar na Bíblia, no Corão, no Imperativo Categórico, nas leis utilitaristas, ou em qualquer outra lei imutável para a conduta moral.

Boas atitudes éticas surgem das pessoas que foram encorajadas a ter empatia, principalmente na infância. De pessoas que vêem a humanidade como um todo indivisível em “ilusões” como nações, territórios ou etnias e outras formas de discriminar que geram o grupo do “nós” contra o grupo dos “eles”, tem de ser entendido que eles também somos nós. Sim, há nações e há etnias, mas isso não vem antes de haver uma Humanidade.

Mas há risco na empatia também.

Kevin Carter era um fotógrafo que esteve na África na década de noventa, e visitou o Sudão na ocasião de uma grande carestia da população. Carter tirou em 1993 uma foto de um urubu olhando atentamente para uma criança quase morta de fome:

http://pinguy.infogami.com/blog/vwm6

Em 1994, após ser premiado pela foto, Carter se matou. Não suportava viver com estas memórias.

Não estava errado em sentir empatia por aquelas pessoas, mas nada resolveu tirando sua vida, perdeu as esperanças, e isso é lamentável.
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Moderadores: Uma vez que seja impossível determinar a origem do universo, como um ateu pode descartar que Deus seja o responsável?

Eli: Um ateu que pense como eu não descarta nenhum Deus em absoluto, não em última análise, mas probabilisticamente. Explicarei melhor se necessário. Em poucas palavras, os deuses são apenas improváveis, assim como Papai Noel (a propósito, feliz Natal a todos!) e o Curupira.

Primeiro, precisamos tirar a falsa impressão, implícita na pergunta, de que há consenso quanto a que Deus estamos nos referindo. Seria o da Bíblia, ou o que é a Causa Primeira, ou outro da natureza de deuses alheios aos grandes monoteísmos?

Existe uma alegação amplamente espalhada de que todas as religiões falam do mesmo deus. Não é verdade.

Judaísmo, Islamismo e Cristianismo são monoteístas por que? Porque todas são derivadas de um monoteísmo ancestral. É uma condição ancestral em comum entre elas, o que na Filogenética (que trata de seres vivos), chamamos de plesiomorfia.

Uma plesiomorfia não é uma característica útil para ver diferenças entre grupos atuais. Ou seja, o fato de judeus, muçulmanos e cristãos acreditarem num deus único NADA diz a respeito das particularidades de cada um.

A alegação de unidade entre religiões só seria válida se as três religiões (e as outras) tivessem desenvolvido independentemente esse dogma, o que não é o caso.

Quanto ao objetivo da pergunta, de como eu descartaria “Deus”, eu proponho duas abordagens: a empírica e a metafísica.

Comecemos pela empírica. Vou usar o termo “Deus” como referente a todas as entidades já propostas pelas religiões. Mas, como ex-católico, essa definição coindicirá mais com o Deus católico. A abordagem empírica demandará algum conhecimento dos leitores sobre a Teoria da Evolução.

Deus é ontologicamente improvável porque características atribuídas a divindades até hoje partiram direta ou indiretamente de antropomorfismo.
Até mesmo o conceito básico de a divindade possuir inteligência, ou capacidade criativa, é um antropomorfismo, porque a inteligência criativa a que temos acesso e conhecimento é apenas a inteligência humana (é claro que outros vertebrados podem apresentar inteligência criativa notável, mas por comparação com o humano ignorarei respeitosamente este fato).
A inteligência e capacidade criativa humanas estão fundamentadas, pelo que se pode inferir de todas as pesquisas psicológicas e neurocientíficas, no cérebro.

Não há motivo para não atribuir o surgimento do cérebro humano à ação da evolução, não importa se exclusivamente pela seleção natural, ou por outros mecanismos evolutivos como a seleção sexual. Não há qualquer outra forma de surgimento do cérebro humano que seja tão plausível quanto a evolução. Isso tem como conseqüência, também, o surgimento da mente humana por processos puramente naturais.

Baseando-se nisso, torna-se desnecessário propor que haja uma inteligência que tenha surgido por acaso no universo. Seria astronomicamente improvável, exponencialmente mais improvável que o surgimento da nossa inteligência pela evolução cumulativa.

Se há uma divindade, ela precisa ter evoluído, e é muito pouco plausível que a evolução biológica atinja algo como a onisciência, onipotência e onipresença. Muito menos a capacidade criativa de alterar ou criar o âmago da matéria e da energia.

Se em algum lugar do universo existe uma entidade super inteligente, e com uma capacidade criativa notável, é pouco provável que seja onipresente, onisciente e onipotente. Menos provável ainda que tenha a capacidade de ouvir orações de milhões de seres humanos, de respondê-las ou atender os desejos.

Mentes surgem através da evolução. Mentes perfeitas são inacessíveis à evolução.

Quanto mais poderes são conferidos a uma divindade, menos provável ela é.
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[Deus] É metafisicamente contingente (desnecessário) porque é apenas uma entre diversas possibilidades já imaginadas ou imagináveis.

O que não é contíguo ao universo físico, ao mundo em que vivemos, é inescrutável e qualquer proposta se perde num mar de possibilidades.

Como eu disse, a discordância entre as Religiões quanto à identidade ou natureza dos deuses é notável.

Tupã e Jaci não são Javé, que não é Shiva, que não é Baal, que não é Anúbis, que não é Shitala Mata, que não é Quetzalcoatl.

A multiplicidade de deuses denuncia discordância absoluta, portanto dizer que todas as religiões acreditam no mesmo deus é subterfúgio desonesto.

A causa-primeira, ou motor imóvel, ou outras formas que os teólogos encontraram de sublimar seus deuses para o intangível, não descartam a possibilidade de esta causa ou este motor ser algo não-pessoal, de natureza material/energética, que seria para o Universo o que o cimento é para uma casa.

Converge então este argumento para o anterior: é improvável que seja uma inteligência. É mais provável que seja um cimento impessoal.
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Moderadores: Alguns estudiosos preferem separar a ciência da religião e consideram as duas coisas simplesmente como água e óleo. Um exemplo é o conceituado biólogo Setephen Jay Gould. Por que cientistas como Richard Dawkins e Daniel Dennet decidiram romper com essa linha de pensamento e inauguraram o que se chama atualmente de ateísmo militante?

Eli: Porque o Universo não é água e óleo, é um só. Ao menos o que se capta pelos nossos sentidos.

Evidências científicas servem para notar até que ponto conhecemos algo. São mais úteis ainda para medir nossa ignorância.

Se alguém propõe um universo distinto, tem de nos mostrar como atingi-lo. Tem de ser distinguido de algo que se confunda com uma simples imaginação, ou delírio como diz Dawkins. Muitas vezes o universo distinto que se propõe, onde estariam deuses, fadas, anjos, espíritos (denovo a variedade e a discordância) tem um forte cheiro de ter sido criado pelo proponente, com base no que ele gostaria que o Universo fosse e não é como captado pelos sentidos (passando pelo crivo da razão).

Como diz Sagan, não se deve acreditar em algo por simples “wishful thinking” (julgar que algo é verdade porque é agradável).

E como diz Dennett, há três instâncias de se julgar se algo provavelmente existe: sua consistência lógica (muitas proposições preenchem este pré-requisito, se não a maioria), sua consistência empírica (se viola as leis da Física, por exemplo, deve ser julgada improvável) e sua consistência histórica (o que aconteceu no mundo material para que tenha surgido?).

Naturalmente, a maioria, se não todas as proposições das pessoas que discordam do ateísmo não preenchem os dois últimos requisitos.

Devo mostrar a seguir que a separação entre religião e ciência é ilusória. Isso não significa que religião e ciência são a mesma coisa e que estão conciliadas, muito pelo contrário.

Dawkins considera a maior parte das hipóteses de divindade como hipóteses científicas, e elas são mesmo!
Para Popper, a hipótese científica pode ter qualquer origem (contanto que tente explicar a natureza), e será refutada pelas evidências angariadas na observação. Não existe religião que não recorra à natureza e ao universo físico para apontar evidência para a existência de seus mitos – mesmo que esse apelo se restrinja historicamente, ou de outras formas. Ciência e Religião não estão completamente separadas como já se propôs. Também a separação dos tais NOMA de Stephen Jay Gould (Ciência e Religião como magistérios que não se sobrepõem) está fortemente refutada por Dawkins.

Vejam com que ardor a Igreja Católica perseguiu a evidência do Santo Sudário, até a exaustão. Se houvesse essa separação realmente, a Igreja Católica simplesmente contemplaria o Santo Sudário com desinteresse admirador.
Se a separação fosse verdadeira, para verificar se os milagres de Fátima são significativos e diferem de qualquer outro placebo, os cientistas devem dizer “NÃO VAMOS TOCAR NISSO, ISSO É FÉ!”

Há inúmeros outros exemplos da fome religiosa por evidências. Os muçulmanos juram que Maomé subiu aos céus, Budistas descrevem um comportamento estranho de animais frente à figura de Sidarta Gautama. Animistas, por definição, fabricam divindades prosopopaicas todo o tempo. Mongóis que cultuam Gêngis Khan como deus atribuem o sucesso bélico do líder à vontade do “Céu Azul” (captado pelos olhos, não pelo órgão da fides quae creditur descrita por Paul Tillich).
Boa parte das afirmações religiosas são sim hipóteses científicas, e como tais devem ser devidamente verificadas quando possível.

A alegação comum de que os objetos de fé são obtidos apenas através do ato de ter fé em si é uma hipocrisia.

Discorrerei a seguir sobre possíveis dogmas não-contaminados por empiria, ou seja advindos apenas da fé.

É difícil isolar a fé dos dogmas que a cercam.
Entretanto, já foram feitas tentativas na Teologia.

Segundo Paul Tillich, pode-se dividir a fé em modus operandi e alvo crido. O alvo crido é o que eu chamo de dogma.
Fé é ser “incondicionalmente tocado pelo que é verdadeiramente infinito”. É uma releitura, me parece, do argumento ontológico de Anselmo da Cantuária (que diz que Deus é algo maior do que o qual nada pode ser pensado). Só que com acréscimos psicanalíticos, e outros acréscimos.

O argumento ontológico, apesar de ter fundamentação lógica perfeita, não garante que esse “incondicional” e “infinito” é uma divindade. Garante apenas que tem de haver “algo maior do que o qual nada pode ser pensado”.

Nesse caso, se uma pessoa desenvolve sua fé apenas através do argumento ontológico (ou da causa primeira), ela poderá atribuir as características que “quiser” (que acha que são defensáveis, ou que reflete suas impressões sobre a vida, a moral e a natureza) ao incondicional, e essas características vão para o dreno da metafísica. Nisso, se o incondicional é julgado como um Deus, a pessoa constrói um “conhecimento” baseado em pura fé.

Não estou certo se tenho mais exemplos de dogmas que vieram apenas de fé sem contaminação com percepção empírica. O “Céu Azul” dos mongóis tem origem empírica, como eu apontei. Entretanto, não se fundamenta apenas no sensível como um dogma religioso. Para se constituir como dogma religioso, o “Céu Azul” precisa conter os famosos “mistérios” (que caíram no gosto dos católicos).

Mistérios nesse sentido, que são adorados por si mesmos como se trouxessem o selo “contém divindade”, têm origem na pura fé. Em outras palavras, os mongóis são “incondicionalmente tocados” pelo Céu Azul, apesar da contaminação empírica.

Mas para Anselmo e Tillich, O Céu Azul não seria suficientemente maior ou infinito, portanto é uma idolatria – e o que está acontecendo quando as “idolatrias” são denunciadas? Volatilização para o intangível. Fuga do sensível. Sublimação para o infinito.

O que Anselmo e Tillich fazem sem perceber é tornar o Cristianismo uma gordura localizada, um peso morto.

Ora, se o “Céu Azul”, ou Zeus, ou Anúbis, ou Thor, ou a Homeopatia, ou o Marxismo, ou o Ateísmo Dogmático (o que não leva em conta probabilidades e apenas afirma que Deus não existe com certeza) são idolatrias, o que impede o Cristianismo de ser uma idolatria?

Se cada um desses elementos que eu citei são dogmas advindos em alguma medida do sensível, da empiria, de evidências histórico-naturais, não deixam de ser idolatrias também coisas como acreditar em

– Ressurreição de Cristo,
– ascenção corpórea de Maria aos Céus,
– milagres de Fátima,
– comprovação científica dos milagres professada pela ICAR,
– Dilúvio Universal
– ascenção corpórea de Maomé aos Céus,
– criação especial do homem a partir de barro,
– criação especial da mulher a partir da costela,
– memória da água,
– salvação da humanidade a partir da ditadura do proletariado,

etc.

As características atribuídas ao intangível (maior, incondicional, causa-primeira) são contaminadas pela empiria na vasta maioria dos dogmas religiosos.
Portanto, ao interferir na natureza, os dogmas religiosos podem ser avaliados em princípio pela Ciência. Se não em experimentação, em inferência baseada no conhecimento científico já produzido. Na noção intuitiva de probabilidade já conhecida na Filogenética e na Historiografia.

Sou ateu porque penso que o conhecimento advindo da fé pura que citei não difere das idolatrias mais antigas.

Porque o Deus intangível é, no fundo, nada mais que uma personificação do universo (conclusão prosopopaica).

Para me resumir e parar de colar textos meus que já estavam prontos, concluo com um resumo em tópicos.

Resumindo:

– Mentes surgem na evolução e são improváveis, por isso divindades são improváveis.

– As análises “profundas” da fé feitas pela Teologia não excluem a possibilidade forte da fé ser uma mera ilusão respeitada por ter raízes profundas historicamente e biologicamente.

– Crer não é sempre ter fé, e a noção quantitativa existente nas religiões, quanto a ter “mais” ou “pouca” fé abre espaço para a ausência de fé como possibilidade real.

– A Intuição emana da Razão, ao contrário da Fé. O cientista Peter Medawar, em “Induction and Intuition in Scientific Thought” discorre mais sobre o papel da intuição na ciência como ato humano independente de fé.

– Existem ateus que têm fé na não existência de Deus. Ateus dogmáticos, e eu não sou um deles.

– Probabilidades são acessíveis à razão. Isso se dá pela intuição matemática com profundas raízes cognitivas. Sabemos “calcular” a velocidade de um carro antes de atravessar uma faixa de pedestres, e para isso não pedimos auxílio à calculadora ou às fórmulas matemáticas.

– Ninguém prova que X não existe, só se pode analisar qual é a probabilidade de X existir. Se há ou não há um sapo azul voador na Amazônia, e em que medida esta entidade é mais ou menos provável que a Fada Sininho, são coisas capazes de sofrer análise da intuição probabilística.

– O Cristianismo não é justificável como superior a qualquer outra idolatria.

– A fé por si só não garantirá que um ou outro dogma advindo dela seja superior a qualquer outro dogma.

– Os dogmas religiosos são contaminados por empiria, seja constante ou restrita ao passado, e isso permite sua análise filosófica à luz das teorias científicas.

– O ateísmo que chamo de assintótico é possível como conclusão “frouxa”. Essa frouxidão está presente em toda e qualquer conclusão, em maior grau nos dogmas religiosos, em menor grau nas teorias científicas.
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Abraços a todos. Peço desculpas pelo texto excessivamente extenso.
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Manjí: As respostas, como um todo, foram muito boas e esclarecedoras.
Mas, você acredita que com a evolução do homem, as religiões serão aos poucos abandonadas ou substituidas por crenças menos empiricas?
E se isso representa um evolução das crenças (tornando-se menos questionaveis e de maior suporte aos humanos)ou mudança psicológicas em relação as necessidades da crença?

Eli: Com evolução você quer dizer melhoramento, não é? Nada a ver com evolução biológica, você deve saber. Por isso não uso mais o termo evolução como melhoramento, mas não tem nada de errado em usar se você souber que nada tem a ver com a teoria darwinista.

Não vejo obrigatoriedade de abandono das religiões no curso da história. É claro que tenho bons motivos para acreditar que quanto mais educadas as pessoas são, menos propensas a crenças irracionais elas ficam. Mas muitas vezes as crenças irracionais dentro das religiões são substituídas por coisas mais etéreas, menos “verificáveis”, como diria Nietzsche, que fazem menos barulho neste mundo. E aí temos “religiosos” como muitos judeus que não acreditam mais na literalidade do Torá.

Então, o abandono de certos aspectos das religiões é inevitável se no curso da história houver um inexorável melhoramento em termos educativos.

“E se isso representa um evolução das crenças (tornando-se menos questionaveis e de maior suporte aos humanos)ou mudança psicológicas em relação as necessidades da crença?”
Acho que já respondi em parte. De qualquer forma, eu já falei em wishful thinking.
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Elias: Você não acha que o ateu no fundo tem um “Q” de mágoa
com a figura de Deus (pai).
que aparentemente deixou a humanidade (os filhos)
em desamparo?

Eli: Muitos têm sim. Mas, pela minha experiência, deixar de acreditar não foi brusco nem partiu de muita revolta.
De qualquer forma, não faz nenhum sentido que alguém que se declare ateu e entenda o que isso significa sinta mágoa pelo inexistente. Deve haver mais mágoa por terem tentado fazê-lo acreditar antes. Mas já conheci um ateu que na verdade era um teísta magoado pelos motivos que você expôs.
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Romulus: Qual a diferença entre ser Ateu e Agnóstico?

Eli: O ateu se sente seguro o suficiente para dizer que não acredita na existência de deus, enquanto o agnóstico pensa que é impossível saber o suficiente para afirmar alguma coisa, ou pensa que os argumentos contra e a favor são igualmente bons.
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Hypatia: Eli,

Gostei muito das respostas. Não entendi algumas partes, mas acho que deu para compreender o cerne das questões.

Bem, minha pergunta é mais pessoal.

O que você pensa sobre o conceito de Estado laico?

Digo, algumas teocracias ainda vigentes, especialmente no oriente médio, são absolutamente injustas considerando-se o momento em que vivemos e o quanto evoluimos com relação a conhecimento.

Não seria quase uma obrigação dos ateus lutar pela defesa do Estado laico em todas as sociedades?

PS: para ser justa com os povos do oriente médio, não posso deixar de comentar que os EUA, uma nação que diz ser o bastião da liberdade no mundo ocidental não deixa de ser uma quase teocracia cristã fundamentalista. Que pode ser tão maléfica e prejudicial quanto as demais.

Eli: Concordo, Hypatia (ótimo nome!).
O Estado Laico é a maior garantia de defesa de coisas como liberdade do indivíduo e livre-expressão, e de manutenção de uma sociedade saudável e plural. Por mais que essas coisas pareçam hoje ilusórias nos Estados Unidos, os fundadores desse país tinham a idéia de Estado Laico bem amadurecida e sabiam que a implicação era essa (ler “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan, especificamente um capítulo que trata desse assunto).

Se um Estado não é Laico, por mais que a religião que o controla seja virtuosa, não poderá evitar que num futuro, próximo ou distante, outra religião aspire tomar o seu lugar (gerando possivelmente guerra civil) ou que seus líderes tenham a pretensão de forçar todos os cidadãos a pensar como eles. Um Estado Teocrático, por definição, acabará excluindo minorias.

“Não seria quase uma obrigação dos ateus lutar pela defesa do Estado laico em todas as sociedades?”
Sim. E que eles não tentem impor um Estado ateu.

Sobre o Estado Teocrático do Irã, as condições lá são deploráveis. São institucionalizadas ofensas aos direitos humanos, como vista grossa a apedrejamentos, à opressão das mulheres entre outras coisas.
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Manjí: Eli, poderia explicar a “tese da complexidade irredutível dos sistemas biológicos”.
Ao que entendi diz que a evolução de Darwin é impossivel?

Eli: A tese de “complexidade irredutível” tem como referência bibliográfica mais citada o livro “A caixa preta de Darwin”, de Behe.

Em suma, é proposto que se não se pode conceber como exatamente surgiu um sistema biológico atual, tal como um olho, ou o sistema imunológico, então necessariamente tais sistemas só podem ter sido criados como estão, e por um artífice inteligente que os concebesse anteriormente em seu intelecto privilegiado.

Entretanto, nenhum dos sistemas biológicos já propostos até hoje como irredutíveis resistem de fato a uma análise filogenética, ou uma simples análise baseada em lógica e evidências.

O olho, por exemplo, já foi imaginado por Darwin como sendo um resultado de um início simples. E isso tem sido confirmado tanto pela anatomia comparada quanto pela biologia molecular.

Não mudaram muito as proteínas receptoras de luz das retinas dos animais.
Existem inúmeros animais com ocelos, verdadeiros “simulacros” de olhos, que detectam tão somente a presença ou ausência de luz. Exemplos desses são algumas planárias, e algumas estrelas do mar, entre muitos outros invertebrados.

A gradação de sistemas imunológicos de inatos para ontogenéticos está também suficientemente clara para ser analisada e indicar se de fato estamos tratando de sistemas irredutivelmente complexos. Ainda não estudei imunologia a fundo (farei neste ano), mas já defendo, sem muita sombra de dúvida, que é possível explicar racionalmente e conceber prováveis hipóteses para o surgimento deste sistema como se apresenta na nossa espécie hoje.

A disputa entre criacionistas e evolucionistas tem sido interessante porque tudo o que criacionistas têm a seu dispor hoje é a deturpação de descobertas e a fuga para as penumbras que ainda não iluminamos com o trabalho científico.

Exemplifico esta batalha neste texto, e mostro a atitude de um criacionista brasileiro famoso neste outro.
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Rafa: Os cientistas até procuraram explicar deus, mas acabaram por chegarem nas conclusões mostradas nos textos. Acho que daí sim eles passaram a ser ateus, ou então ateus mais firmes nos pensamentos.

Uma outra forma de mostrar lógica no ateísmo é a de ver o comportamento humano, e não busca pela entidade em si.
Uma das coisas mais difíceis que enfrentamos na adolescência é nos dar conta que nossos pais não estarão lá para sempre pra nos apoiar. É confortável pensar que existe uma força superior e que nos guia e nos protege. Com base nisso, é lógica a criação imaginária de uma entidade com uma força superior que tudo pode (e que está a nosso favor). E essa idéia é tão confortável que dura até os dias de hoje.

E a propósito, muitos argumentos firmes nos textos, Eli!! Muito bons mesmo!! E obrigado por colabora com a comunidade!! Todos saímos ganhando!!

flw!

Eli: Olá Rafa, obrigado.
Só uma correção: nem todos os cientistas pensam assim, nem todos são ateus (embora sim, a vasta maioria não acredita num deus pessoal). Alguns juram conseguir conciliar ciência e religião, mas não têm bons argumentos.
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1st of April

Quem mudou a Bíblia e por que? As respostas surpreendentes de Bart D. Ehrman


Por Erich Vieth, originalmente publicado em 22 de outubro de 2006 em Dangerous Intersection.

“Com que freqüência ouvimos pessoas “explicando” crenças religiosas dizendo que “está na Bíblia”, como se a Bíblia tivesse caído do céu, pré-traduzida para o inglês [ou português] pelo próprio Deus? Não é assim tão simples, de acordo com um livro impressionante escrito com clareza que deveria ser leitura obrigatória para qualquer um que alega conhecer “o que diz a Bíblia”. O best-seller de 2005 O que Jesus disse? O que Jesus não disse?, não foi escrito por um ateu barulhento. Pelo contrário, foi escrito por um camarada que teve uma experiência de renascimento [como cristão renascido] no ensino médio, e então continuou a freqüentar o ultraconservador Instituto Moody Bible em Chicago. Bart Ehrman não parou por aí, entretanto. Ele queria se tornar uma voz evangélica com credenciais que o permitiriam ensinar em instituições seculares. Foi por essa razão que continuou sua educação em Wheaton e, finalmente, Princeton, adquirindo a habilidade de ler o Novo Testamento em grego no processo.
Como resultado de seu estudo disciplinado, Ehrman cada vez mais questionou a abordagem fundamentalista que diz que a “Bíblia é a perfeita Palavra de Deus. Não contém nenhum erro.” Através de seus estudos, Ehrman determinou que a Bíblia não era livre de erros:

Temos apenas cópias cheias de erros, e a vasta maioria delas foram afastadas há séculos dos originais e diferem deles, evidentemente, em milhares de maneiras. (Página 7*).

Em Princeton, Ehrman descobriu que os erros tinham sido feitos durante a cópia do Novo Testamento através dos séculos. Nesta descoberta, “as comportas se abriram.” Em Marcos 4, por exemplo, Jesus supostamente disse que a semente de mostarda é “a menor de todas as sementes que há na terra”. Ehrman sabia que isso simplesmente não era verdade. Quanto mais ele estudava os manuscritos antigos, mais ele percebia que a Bíblia era cheia de contradições. Por exemplo, Marcos escreve que Jesus foi crucificado no dia após a refeição da páscoa judaica (Marcos 14:12; 15:25) enquanto João diz que Jesus morreu no dia anterior à refeição da páscoa judaica (João 19:14).
Ehrman ouviu muitas vezes que as palavras da Bíblia tinham sido inspiradas. Obviamente, a Bíblia não foi originalmente escrita em inglês. Talvez, sugere Ehrman, o significado total e nuances do Novo Testamento só poderiam ser compreendidos quando fosse lido em seu grego original (e o Velho Testamento só poderia ser inteiramente apreciado quando estudado em seu hebreu original).(página 6*)
Por causa dessas barreiras lingüísticas e os inegáveis erros e contradições, Ehrman percebeu que a Bíblia não poderia ser “totalmente inspirada, perfeita Palavra de Deus.” Em vez disso, parecia ser para ele um “livro muito humano”. Autores humanos tinham escrito originalmente o texto em tempos diferentes e em lugares diferentes para se referirem a necessidades diferentes. Certamente, a Bíblia não fornece um “guia sobre como devemos viver. Esta é a mudança no meu próprio pensamento que acabei fazendo, e com a qual estou agora completamente comprometido”.

Quão difundida é a crença de que a Bíblia é infalível, que cada palavra da Bíblia é precisa e verdadeira?

Ocasionalmente eu vejo um adesivo que diz “Deus disse assim, eu acredito, e está tudo resolvido.” Minha resposta é sempre: e se Deus não disse? E se o livro que você toma como se lhe desse as palavras de Deus contém na verdade palavras humanas. E se a Bíblia não é infalível em dar uma resposta para as questões da era moderna – aborto, direitos da mulher, direitos dos gays, religiosos e de supremacia, democracia no estilo ocidental e afins? E se nós tivermos de descobrir sozinhos como viver e no que acreditar, sem estabelecer a Bíblia como um falso ídolo – ou um oráculo que nos dá uma linha direta de comunicação com o Todo Poderoso. (Página 14*)

Ehrman continua a apreciar a Bíblia como uma importante coleção de escritos, mas enfatiza que ela deve ser lida e entendida no contexto da crítica textual, “um atraente e intrigante campo de estudos de real importância não só para os estudiosos, mas para todas as pessoas com interesse na Bíblia.” Ehrman acha assustador que a maioria dos leitores da Bíblia não sabe quase nada sobre crítica textual. Comenta que não é surpreendente, dado que há pouquíssimos livros sobre crítica textual escritos para leigos (ou seja, “aqueles que não sabem nada a respeito, que não têm o grego ou outras línguas necessárias para o estudo aprofundado [da Bíblia], nem mesmo percebem que há qualquer “problema” com o texto”).(Página 14*)
O que Jesus disse? O que Jesus não disse? fornece muitas bases para como a Bíblia se tornou a Bíblia. Isso aconteceu através de numerosas decisões humanas pelos séculos. Por exemplo, a primeira vez que algum cristão conhecido listou os 27 livros do Novo Testamento como os livros do Novo Testamento foi 300 anos depois de os livros terem sido escritos (página 36*). E aqueles trabalhos foram radicalmente alterados ao longo dos anos nas mãos de escribas “que estavam não apenas conservando a escritura mas também mudando-a”. Ehrman aponta que a maior parte das centenas de milhares de mudanças textuais achadas entre os manuscritos foram “completamente insignificantes, não-substanciais, de nenhuma importância real.” Em resumo, foram erros inocentes envolvendo inadvertência e erros de ortografia.
Por outro lado, o próprio significado do texto mudou em alguns exemplos. Alguns estudiosos da Bíblia chegaram a concluir que não faz sentido falar no texto “original” da Bíblia (página 210*). Como resultado de estudo dos manuscritos em grego que sobraram do Novo Testamento, Ehrman concluiu que nós simplesmente não temos palavras originais constituindo o Novo Testamento.

Nós não apenas não temos os originais, não temos as primeiras cópias dos originais. Não temos nem mesmo as cópias das cópias dos originais, ou cópias das cópias das cópias dos originais. O que temos são cópias feitas muito mais tarde. Na maioria dos exemplos, são cópias feitas muitos séculos depois. E todas essas cópias diferem uma da outra, e muitos milhares de lugares… Possivelmente é mais fácil colocar em termos comparativos: há mais diferenças entre nossos manuscritos que palavras no Novo Testamento.

Em O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Bart Ehrman esmiúça os modos em que várias passagens críticas do Novo Testamento foram mudadas ou fabricadas. São exemplos surpreendentes:A) Todos sabem a história sobre Jesus e a mulher prestes a ser apedrejada pela multidão. Este relato é apenas encontrado em João 7:53-8:12. O povo perguntou a Jesus se deveria apedrejar a mulher (a punição recomendada pelo Velho Testamento) ou ter misericórdia dela. Jesus não cai nesta armadilha. Jesus supostamente diz “aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela”. O grupo se dissipa com vergonha. Ehrman afirma que essa história brilhante não estava originalmente no Evangelho de João ou em qualquer outro evangelho. “Foi acrescentada por escribas posteriores.” A história não é encontrada em “nossos melhores e mais velhos manuscritos do Evangelho de João. Nem é este estilo de escrita compatível com o resto de João. Os mais sérios críticos textuais afirmam que essa estória não deveria ser considerada parte da Bíblia (página 65*).
B) Depois da morte de Jesus, Maria Madalena e duas outras mulheres voltaram à tumba para ungir o corpo de Jesus, de acordo com Marcos 16:1-2. Elas se encontraram com um homem de vestes brancas que disse a elas que Jesus havia se erguido e não mais se encontrava lá. As mulheres fugiram e não disseram nada mais para ninguém por medo (16:4-8). Todos sabem o resto do Evangelho de Marcos, é claro. O problema com o resto da história é que não estava originalmente no Evangelho de Marcos. Foi adicionado posteriormente por um escriba. Os acréscimos incluem todos os seguintes:
Jesus em pessoa apareceu para Maria Madalena. Ela contou aos onze apóstolos (menos Judas) sobre essa visão, mas eles não acreditaram nela. Então Jesus apareceu para os apóstolos, repreendendo-os por não conseguirem acreditar. Ele diz a eles que aqueles que acreditam serão salvos e aqueles que não acreditam serão condenados. Segue então uma passagem criticamente importante da Bíblia.

17 E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas;
18 Pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.

E então Jesus supostamente ascende aos céus e se senta à direita de Deus, enquanto os discípulos saem pelo mundo para proclamar o Evangelho de maneira miraculosa.Sem as passagens acima (que, denovo, não foram escritas por Marcos) os Pentecostais perdem sua justificativa para falar em “línguas.” E os manipuladores de serpentes dos Apalaches não têm bases para suas práticas perigosas.
C) João 5:7-8 [na versão da Bíblia do Rei James, ausente nas versões mais usadas no Brasil] é a única passagem em toda a Bíblia “que delineia explicitamente a doutrina da Trindade” (que há três pessoas e Deus mas todas as três constituem um Deus uno):

Há três que prestam testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito e esses três são um; e há três que prestam testemunho na terra, o espírito, a água, e o sangue, e esses três são um.

Ehrman cita fortes evidências de que essa passagem da Trindade foi totalmente fabricada e ludibriou Erasmo por teólogos ofendidos que precisavam de apoio para sua preciosa doutrina teológica (página 81*).
– Ehrman revela outras dificuldades numerosas com a suposição popular de que a Bíblia foi transmitida perfeitamente a partir da sua versão escrita original.
Muitos crentes confiam fervorosamente na versão do Rei James da Bíblia, por exemplo. Às vezes dizem até que “Se o Rei James foi suficientemente bom para São Paulo, é bom para mim.” Ehrman aponta muitos problemas com a versão do Rei James, advertindo que “precisamos encarar os fatos”.

A [versão do] Rei James não foi entregue por Deus, na verdade foi uma tradução de um grupo de eruditos no começo do século XVII que basearam sua versão num texto grego defeituoso.(página 209*)

Então o que deveriamos fazer da Bíblia? Ehrman argumenta que as partes do Novo Testamento não são apenas coleções de palavras óbvias, auto-interpretáveis. É o mesmo problema que temos com outros documentos importantes, como a constituição.

Os textos não revelam simplesmente seus próprios significados para investigadores honestos. Textos se interpretam, e são interpretados (assim como foram escritos) por seres humanos que vivem e respiram, que entendem os textos apenas os explicando à luz de outros conhecimentos, explicitando seu significado, colocando as palavras do texto “em outras palavras”. (página 217*)

Os escribas mudaram as palavras originais do Novo Testamento colocando-as em outras palavras. Em minha experiência, muitas pessoas que selecionam o que lhes agrada nos trechos da Bíblia para determinar o que é moral estão negando completamente que não temos cópias exatas dos escritos originais. A maioria dessas pessoas se recusam a reconhecer que versões populares atuais da Bíblia contêm inúmeras discrepâncias, mesmo quando comparadas aos manuscritos mais antigos que de fato temos. E sem contar que há centenas de contradições patentes na versão em inglês da Bíblia [e nas versões em português também]. Para a maioria dos crentes, nada disso importa. Mantenham a rota! Na verdade, na minha experiência a maioria dos crentes raramente lêem o que consideram ser a palavra inspirada de Deus.
O livro de Ehrman mostra numerosos pontos problemáticos que demandam atenção mesmo assumindo que os escritores originais da Bíblia relataram precisamente os eventos descritos em seus escritos originais (quaisquer que sejam esses escritos). O elefante na sala, entretanto, é que nenhum dos autores dos Evangelhos jamais alegou ter presenciado qualquer evento que relatam. Além disso, a natureza extraordinária das alegações da Bíblia demanda provas extraordinárias que textos antigos auto-contraditórios são simplesmente incapazes de fornecer, exceto para aqueles de nós que acreditam que a Bíblia é completamente verdadeira “porque a Bíblia diz que é”.
Para todas as pessoas que continuam por aí agarrando e brandindo as Bíblias que compraram no Wal-Mart, e para o resto de nós que quer entender a história direito, O que Jesus disse? O que Jesus não disse? de Bart Ehrman deveria ser leitura obrigatória.”___
*Números de páginas se referem à edição em inglês.