3rd of September

Fundação Templeton – ignomínias durante o luto



John Templeton, pai da Fundação Templeton criticada por Richard Dawkins por ceder prêmios a cientistas dispostos a dizer “alguma coisa gentil sobre a religião”, morreu em 8 de julho de 2008 deixando um legado que foi homenageado por um editorial da edição da revista científica Nature do mesmo mês.

Templeton era um cristão milionário com interesse em ciência, por isso criou uma fundação para testar cientificamente algumas de suas crenças.

A Fundação Templeton patrocinou, por exemplo, um famoso estudo (o maior até hoje) sobre o poder da oração intercessória para 1802 pacientes cardíacos que passaram por cirurgia de ponte coronariana distribuídos em seis hospitais dos EUA. Eis a conclusão do estudo:

“A oração intercessória em si não teve efeito na recuperação livre de complicações, mas a certeza [do paciente] de estar recebendo oração intercessória foi associada a uma maior incidência de complicações.”

Ou seja, quem sabia que estava recebendo oração piorou.

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O editorial da Nature em homenagem a Templeton, publicado em 16 de julho, diz que seu trabalho tem como mérito a “tolerância”, e conclui com concessões leves à “espiritualidade” numa atitude parecida com a de Stephen Jay Gould.

Em 28 de agosto, a Nature publicou em sua seção de cartas uma resposta a este editorial, escrita por dois pesquisadores de áreas da Biologia – Matthew Cobb (da Universidade de Manchester, Reino Unido) e Jerry Coyne (Universidade de Chicago, EUA), que traduzo a seguir:

“SENHOR – Ficamos perplexos com seu Editorial sobre o trabalho da Fundação Templeton (‘Templeton’s legacy’ Nature 454, 253–254; 2008). Com certeza ciência é sobre encontrar explicações materiais para o mundo – explicações que podem inspirar aqueles sentimentos de assombro, maravilhamento e reverência no hiper-evoluído cérebro humano. A religião, por outro lado, é sobre humanos pensando que assombro, maravilhamento e reverência são a pista para entender um Universo construído por Deus. (O mesmo é verdade para a prima pobre da religião, a ‘espiritualidade’, a qual você introduziu no seu Editorial da forma como um criacionista usa o ‘design inteligente’.) Há um conflito fundamental aqui, um que pode nunca ser reconciliado até que todas as religiões parem de fazer alegações sobre a natureza da realidade. O estudo científico da religião é de fato cheio de grandes questões com as quais precisa lidar, tais como por que a crença na religião é correlacionada negativamente à aceitação da evolução. Poderia-se considerar estudos psicológicos sobre por que humanos são supersticiosos e acreditam em coisas impossíveis, e estudos sociológicos comparativos da religião usando explicações materialistas para a ascenção e queda dos sistemas de crença do mundo. Talvez a Fundação Templeton esteja pensando em financiar tais pesquisas. O resultado de tal trabalho, nós prevemos, não trará a ciência ou a religão (ou ‘espiritualidade’) para mais perto uma da outra. Você sugere que a ciência pode trazer “avanços no pensamento teológico”. Na realidade, a única contribuição que a ciência pode fazer para as idéias da religião é o ateísmo.”

30th of August

Dois ou mais enigmas para um Deus Improvável


Primeiro vídeo oficial do blog Tetrapharmakos in vitro.

2nd of August

Dualismo Material, ou Apresentando O Grande Ininteligível


Abigail Hensel e Brittany Hensel são duas moças bem humoradas, cheias de vida, nascidas em 7 de março de 1990 em Minnesota, Estados Unidos.

Cresceram em New Germany, Minnesota, estudaram em escola luterana, andam de bicicleta, digitam rápido o teclado, correm, e recentemente conseguiram carteira de motorista. São duas personalidades distintas.

Um detalhe sobre Abigail e Brittany é que as duas moças compartilham um só corpo, e a aparência exterior é de um corpo humano dotado de duas cabeças.

Vídeo.

Cada lado desse corpo é controlado por um desses dois cérebros.
O corpo funciona muito bem, tem por exemplo três rins, dois intestinos, três pulmões, um fígado, um par de ovários, um útero, uma bexiga, uma vagina e uma uretra; e só passou por uma cirurgia preventiva quando Abigail e Brittany estavam com 12 anos de idade.

Isso não é evolução, mas dá um exemplo de como a natureza pode ser flexível.
Tão flexível, que, quem sabe, em milhões de anos um réptil pode virar um ser humano.

Há pessoas que, imersas numa sociedade teísta como a brasileira, diriam que seria injusto culpar “Deus” (o deus dos cristãos) pela condição das gêmeas. Isso com a idéia de que essa condição é necessariamente ruim ou horrenda.

Caso fosse de fato uma condição ruim e horrenda, não é injusto culpar uma certa definição de “Deus” que diz que este ser é ao mesmo tempo perfeitamente bom, onisciente, onipotente, e onipresente.
Como já indicou Epicuro, ao menos um problema ético emana dessa definição, e a única resolução para a questão do mal de Epicuro, à parte negar a existência de tal ser, seria mudar este conceito (definição). Isso não é uma falsa dicotomia, dado que a mudança de definição traz em si todas as outras alternativas à negação.

Mas a condição das gêmeas não é necessariamente um tormento. Achar que Brittany e Abigail sofrem um tormento é ignorar que elas vivem muito bem, como eu já informei. E achar que a condição delas é horrorosa é impor sobre elas uma estética própria, que é irrelevante a elas.

Pensar que a condição das duas implica um tormento horroroso é ter um demasiado centrismo em si mesmo, ao ponto de aplicar a outrem indevidamente os seus valores. Mas aplicar indevidamente valores a outrem nunca pareceu ser um problema entre religiosos, não é?

Muitos religiosos justificariam a condição de Brittany e Abigail por um argumento liberal de que o livre arbítrio não é atributo apenas dos indivíduos, mas também um atributo da própria matéria.

Me parece forçoso aplicar uma dicotomia implícita de determinismo / livre arbítrio à matéria, dado que ela não é só uma coisa nem outra. E me parece que ao menos que uma coisa muito louca esteja acontecendo aqui, deixar a Natureza chafurdar em si mesma promiscuamente, de modo a originar uma emergência de contingências que de forma não-determinística geram uma mente (ou duas mentes num corpo só, como é este caso) é incompatível com saber de antemão que esta mente surgiria, com todas as suas particularidades e limitações que podem determinar toda a sua trajetória (inclusive idéias de pecado, de beleza, de bem e mal, etc.).

E quanto à opinião dos espíritas, segundo a qual a condição dos corpos é resultado do que fez o espírito em vidas passadas?

Não tenho nenhuma opinião firme sobre isto, mas me basta desconfiar que a memória é algo que se perde na morte do corpo e é irrecuperável. Me basta desconfiar também que a personalidade não é herdada mas sim construída pacientemente durante a vida.
É lamentável que existam sistemas de crença que defendem que a moral deve ser apreendida de um grande teatro cósmico que me lembra os experimentos de Pavlov ou de B. F. Skinner.

Esta plasticidade da vida, que permite casos como o dessas irmãs americanas, é de certa forma uma pista de que o universo não está sob o controle de um deus. Por que não considerar, como deveria fazer uma mente racional, que essa possibilidade existe e não é fraca?

Me parece anti-racional descartar de antemão a hipótese de não haver qualquer tipo de divindade a nos olhar.

Desviantes existem porque as “leis” naturais permitem exceções, principalmente aquelas que se referem a entidades complexas como animais. E pessoas “anômalas” existem porque o homem é só mais um animal, e é uma amostra ínfima do universo que o cerca.

Pergunto uma coisa importante: Qual é o motivo para supor qualquer espécie de antropocentrismo ou antropomorfismo ao universo/natureza?

Assim como as gêmeas, o Universo não merece que enfiemos nele os nossos valores.

Aliás, qual é o motivo de propor esse deus ouroboros, uma cobra que devora a si mesma pelo rabo? (Uma entidade que tem características – como uma mente – que se originam de causação distal em relação a certos fenômenos, que é capaz de criar ou alterar esses próprios fenômenos. Ou seja, há evidências de que a mente humana surgiu no decorrer da evolução, e a evolução é um processo biológico que depende da existência da matéria, então por que creditar o atributo mente a um deus anterior à própria matéria? Esse ciclo que se completa com a mente divina criando a matéria que é o que eu chamo de deus ouroboros, comendo seu próprio rabo.)

Para os que pensam que Deus existe e é intangível e inefável, entretanto criam para ele altares, há uma expressão de Peter Medawar, que ele usa num comentário errôneo sobre os sonhos (em Induction and Intuition in Scientific Thought):

“Utter nonsensicality”, que traduzo como “Ininteligibilidade ulterior”. É isso que penso ser o atributo mais comum de qualquer coisa que consideremos sob a luz das capacidades de nossas mentes. Tudo isso que me cerca é de uma ininteligibilidade ulterior.

Sobre tudo isso que me cerca, que às vezes chamo de Universo, apenas o tolero, e o contemplo. Não merece altares, pois não cultuo algo ininteligível. Cultuo o que compreendo, ou o que mesmo não compreendendo me é acessível. Em vez de altares, sou todo dedicação a quem ou o que penso que tem merecimento: ciência, filosofia, Epicuro, Carl Sagan, Bertrand Russell. Têm merecimento porque tornam o mundo menos ininteligível para mim, portanto menos digno do meu temor.

(Não estou falando em apreciação estética, isso eu tenho para com as coisas independente de sua ininteligibilidade.)

Para mim, o grande erro dos místicos é fingir para si mesmos que estão desfrutando de gotas de compreensão, quando na verdade estão se perdendo em labirintos de antropização do que não é antrópico.

O que é antrópico, o que é cogito ergo sum, é uma amostra limitadíssima de tudo o que me cerca. Portanto, concluo que é no mínimo altamente fadado a equívoco aplicar essa amostra ao resto do universo, no sentido de pensar que o universo tem de conter em seu cerne ou ser governado por algo dotado de razão, mente, e conceitos de estética e ética.

Em termos mais técnicos (não que eu esteja fazendo ciência aqui), tentar afirmar “Deus existe” é algo que vai cair lá onde se aceita a hipótese nula na maioria das vezes, e mais afastado da hipótese alternativa quanto mais a definição de “Deus” for próxima da definição de “Homem”.

Abigail, Brittany e o Universo estão em seu pleno direito: apenas são. Se são bonitos ou feios, bons ou ruins, não compete a nós decidir. Mas para mim, sempre há beleza na autonomia, na complexidade e na emissão de luz própria. Não somos capazes de compreendê-los totalmente. Mas podemos ouvir o que têm a dizer, por mais diferentes que sejam de nós.
(Constelação de Gêmeos)
1st of August

Aging and Immortality in Biology


Human beings (and other animals) age and die for these probable reasons:

1 – The inaccurate replication.

We carry in each of our cells the chromosomes, long strands of DNA wound up into proteins. The ends of these strands are made of short-sequence repeats, and their assembly is known as telomere. When cells replicate in mitosis (the rate of replication differs from tissue to tissue – skin and gut cells renew every week or so, while neurons may last a lifetime), the DNA must be copied and inherited by daughter cells. Every cell carries in DNA the information which stands for the whole body.

But for molecular reasons, in each mitosis the telomeres shorten up. Imagine the telomeres are cushions protecting genes between one another. These cushions get thinner and thinner as replications go by, to the point that genes can be affected. If genes are affected, further replication and survival of the cells becomes jeopardized (what can be observed in elders, e. g., in scarceness of their defense cells).
If genes are deteriorated because they lack telomere protection, problems emerge. For instance, the cell may lose control over replication and it brakes loose. Maddened promiscuous replication of cells is famously known as cancer. This is one of the reasons why elderly people are more susceptible to cancer.

For a tumor to appear, it is not strictly necessary that replication-related genes are affected. The process may be triggered by mutation in specific receptor genes alone, those which allow the cell to perceive its neighbors. That is to say, a cell in solitude is a dangerous cell.

2 – The decay of biological structures

This second reason is intimately related to the first one. The very phenomenon of breathing (and by obvious extension, eating, since breathing is connected to food energy intake) causes decay to the tissues. By decay I mean mutation. Every woman who buys anti-wrinkle cosmetics has heard about free radicals – and these are produced due to bad reception of electrons at the end of respiratory chain in mitochondria. Free radicals are so damaging that natural selection favored cells owning peroxisomes, organelles capable of tackling them. These radicals interact with DNA and change it, causing mutations, spoiling genes which control cells and tissues. Mutations can also be caused by many other circumstances.

As our body is always renewing itself, and needs energy (food and respiration) in order to do so, it has no means to avoid gradual gathering of mutations throughout the tissues in the course of decades. This means stem cells (which give birth to themselves and to tissue-function-specialized cells all over the body) diverge from the ancestral type, and this ancestral type is the fertilized egg from our mothers.
When diverging from their ancestor, these cells may start misproducing elastin and collagen, then wrinkles thrive and skin slackens. They may overproduce melanin and bring about dark spots on the skin. May damage the brain and provoke diseases such as Parkinson’s and Alzheimer’s. And so cells keep up the noble art of aging.
Smart solutions
It is well known that our bodies are largely a result of natural selection, so there have been also genes selected during evolution because they diminish this biological decay in some ways. But they are not perfect, for evolution mainly privileges effective means to surviving until reproduction happens and offspring grants another chance to the lineage. Old age is not common in nature, so not many ways to restore genetic integrity to longer lasting have appeared. Some genes “detect” virus infection and cancer conspiracy, and oblige the cell to cease its activity, brake its DNA and dissolve into vesicles later “eaten” by defense cells. This is called apoptosis. Furthermore, defense cells can also detect carcinogenic activity in other cells and induce this programmed death to them. There are ways to thicken telomeres (namely, reconstruction from telomerase activity), mastered by stem cells such as those that produce sperms and eggs (gametes). Thus, although gametes are vulnerable to mutations, it is an evolutionary advantage that individuals are born from a single cell, for this grants at least in youth and reproductive age minimal resemblance among copies of genes in the various cells of the organism, so that they “agree” with each other, and work in harmony as a choir to be judged by natural selection, until the inexorable forces of aging hijack and shatter this agreement once again.

“Nothing in Biology makes sense except in the light of evolution”, said Dobzhansky in 1973, and now the statement has never been so truthful. It may be concluded that cancer is a microevolutionary process, in which the selection unit is the cell.

As Homo sapiens descended from bacteria, and bacteria are “immortal” beings (for there is no senility among them), cancerous cells from people can return to this condition of perpetual replication. This may happen because the only “purpose” of living beings, if it may be called this way, is to copy themselves.

On immortality

In Biology researches there are well known cell lines named HeLa. They are immortal, and carry an altered human genome.

HeLa stands for Henrietta Lacks, a woman who died in 1951. Scientists extracted tumor cells from Henrietta and bred them in culture medium. Nowadays, these cells sum up to tons, spread all over the world in laboratories. They caused Mrs. Lacks’s death, in a genetic takeover. Today, HeLa cells are not exactly human. Instead of 46 chromosomes, they can bear 82 chromosomes into their nuclei. Evolution and natural selection have acted upon them, so that they are particularly good at keeping their telomeres intact (if they don’t do so, they die out). If by any odds a HeLa cell produces a gamete, the different number of chromosomes prevents it from fertilizing with a human gamete.

Hence, HeLa are reproductively isolated from human species, that is to say, HeLa has turned into a new species, properly described as Helacyton gartleri. If the world were made of culture medium, HeLa would spawn itself freely and independently from researchers’s aid. Currently, from studies with very few multicellular species which seem to be rid of senility (such as the hydrozoan Turritopsis nutricula), and from telomere research, we may have some perspective of future breakthroughs on how to elongate human life span. If we manage to do to ourselves what has already been done to the worm Caenorhabditis elegans, humans will live up to about 200 years.
ReferencesHug, N., & Lingner, J. (2006). Telomere length homeostasis Chromosoma, 115 (6), 413-425 DOI: 10.1007/s00412-006-0067-3

VALKO, M., RHODES, C., MONCOL, J., IZAKOVIC, M., & MAZUR, M. (2006). Free radicals, metals and antioxidants in oxidative stress-induced cancer Chemico-Biological Interactions, 160 (1), 1-40 DOI: 10.1016/j.cbi.2005.12.009

Kenyon, C., Chang, J., Gensch, E., Rudner, A., & Tabtiang, R. (1993). A C. elegans mutant that lives twice as long as wild type Nature, 366 (6454), 461-464 DOI: 10.1038/366461a0

Lucey BP, Nelson-Rees WA, & Hutchins GM (2009). Henrietta Lacks, HeLa cells, and cell culture contamination. Archives of pathology & laboratory medicine, 133 (9), 1463-7 PMID: 19722756

28th of June

Envelhecimento e imortalidade na Biologia


O ser humano (e demais animais) envelhece e morre por esses prováveis motivos:

1 – Da imperfeição da replicação.

Os cromossomos que trazemos, que são cada um uma fita longuíssima de DNA enrolada em volta de proteínas, trazem nas pontas dessa fita uma seqüência repetida que em conjunto chamamos de TELÔMERO.

Quando as células se multiplicam no corpo (varia conforme o tecido, as células da pele e do tubo digestivo se renovam em pouco mais de uma semana), esse DNA tem de ser replicado – pois todas as células trazem em seu núcleo a informação de um ser humano inteiro.

Mas, por motivos moleculares, a cada divisão os telômeros de cada cromosso se encurtam. Imaginem que os telômeros sejam almofadas que protegem os genes em seu interior. A almofada vai ficando cada vez mais fina, até que os genes começam a ser afetados. Se os genes são afetados, a replicação fica cada vez mais difícil (isso é observável em idosos, por exemplo nas células de defesa que ficam cada vez mais escassas).

E se os genes são afetados, ou seja, vão sendo deteriorados porque não contam mais com a proteção dos telômeros, outros problemas podem aparecer. Por exemplo, a célula pode perder as rédeas que evitam sua replicação desenfreada.

Uma célula desregulada que se replica promiscuamente é o que origina o famoso câncer. Por isso, pessoas mais velhas são mais susceptíveis a câncer.

A alteração nesses genes nem precisa ser especificamente nos genes que controlam o ciclo celular (o ciclo de mitose, no qual uma célula-tronco gera células-filhas se dividindo ao meio).

Basta que sejam mutados genes que controlam receptores que fazem a célula perceber suas vizinhas, ou seja, se ela se encontrar “solitária”, ela já vira um tumor (câncer).

2 – Do decaimento das estruturas biológicas

Esse outro motivo é intimamente relacionado ao primeiro.

O próprio ato de respirar (por extensão óbvia, comer, já que respirar é aproveitar a energia adquirida na alimentação) traz decaimento aos tecidos. Por decaimento entenda-se mutação. Toda mulher que compra cosméticos preocupada com rugas já ouviu falar em radicais livres – e eles são gerados justamente pelo mal recebimento de elétrons ao final da cadeia respiratória das mitocôndrias.

São tão prejudiciais os radicais livres que nossas células foram selecionadas, ao longo da evolução, de modo a apresentar organelas específicas para combatê-los, chamadas peroxissomos. Os radicais livres podem interagir com o DNA e alterá-lo, ou seja, causar mutações, alterar os genes que controlam o funcionamento das células e tecidos.

Mas, como nosso corpo sempre se renova, e precisa de energia (respiração e alimentação) para fazer isso, não tem como evitar mutações que vão se acumulando pelos tecidos ao longo de décadas.

Isso quer dizer que as células tronco, que originam a si mesmas e a células especializadas em diferentes funções pelo corpodivergem de seu tipo ancestral, e este tipo ancestral é o zigoto, a única célula que é o começo de todos nós, que surge da fecundação do óvulo pelo espermatozoide.

Ao divergir do tipo ancestral, as células de nossos corpos podem passar a produzir mal a elastina e o colágeno, fazendo as rugas aparecerem.

Podem sofrer defeitos na produção de melanina e originar as pintas pela pele.

Podem prejudicar o cérebro provocando mal de Parkinson ou de Alzheimer.

E por aí vão fazendo seu trabalho na nobre arte de envelhecer.

Como nossos corpos são resultado da seleção natural, existem genes que evoluíram de modo a evitar esse decaimento biológico de algumas formas, que não chega à perfeição porque a evolução favorece modos eficazes de garantir a sobrevivência até que aconteça a reprodução e a prole garanta a continuidade da linhagem.

Alguns desses genes, ao “detectarem” que a célula pode estar infectada por vírus ou se tornando cancerígena, fazem com que ela cesse sua atividade, quebre seu DNA e se dissolva em vesículas que são “comidas” pelas células de defesa. Isso é apoptose, também chamada de morte celular programada, que está acontecendo a todo minuto em algum lugar no corpo.

Além disso, células de defesa podem também detectar essa atividade conspiradora de um câncer e induzir essa morte celular programada.

As células tronco com maior poder de regenerar os telômeros são as que produzem os gametas (espermatozóide e ovócito).

Assim, embora gametas também sejam sujeitos a mutação, é evolutivamente vantajoso que outros indivíduos nasçam a partir de uma única célula, porque isso garante ao menos na juventude e idade reprodutiva que as células dos tecidos desse jovem tenham genes mais parecidos entre si, portanto “concordam” entre si, e trabalham harmoniosamente, e são submetidos como um “coro” à força da seleção natural, até que as forças inexoráveis do envelhecimento comecem a quebrar essa concordância e essa harmonia novamente.

“Nada na Biologia faz sentido senão à luz da evolução”, disse o grande geneticista Theodosius Dobzhansky, e não é à toa. Até ao se falar em desenvolvimento e envelhecimento é necessário que se entenda a evolução.

Conclui-se que o câncer é um processo microevolutivo, em que a unidade de seleção é a célula.

Como o ser humano é um “tataraneto” de bactérias, e as bactérias são seres “imortais” (pois não existe entre elas a senilidade), que se reproduzem por bipartição, as células cancerígenas das pessoas podem retornar a essa condição ancestral de replicação indefinida.

E isso pode acontecer simplesmente porque o único “propósito” dos seres vivos, se é que se pode chamar isso de propósito, é fazer cópias de si mesmos.

3 – Da imortalidade

São bem conhecidas nas pesquisas da Biologia as células HeLa. São células imortais, com um genoma humano alterado (claro, afinal são câncer).

HeLa de Henrietta Lacks, uma mulher que morreu em 1951.

O que os cientistas fizeram foi pegar as células cancerosas de Henrietta e colocar em meio de cultura. Hoje, essas células juntas, em vários laboratórios pelo mundo, se somam em toneladas.
Elas causaram a morte da Sra. Lacks, foi um verdadeiro “golpe de estado” genético.

Hoje são algo diferente de uma célula de ser humano. Em vez de 46, podem ter até 82 cromossomos. E, por nada menos que seleção natural, as células HeLa têm um meio de preservar intactos os seus telômeros!

(Se não tiverem, são eliminadas pela seleção natural porque não se reproduzirão indefinidamente.)

Se uma célula HeLa gerar um gameta (o que não acontece hoje), o número diferente de cromossomos EVITA que esse gameta seja fecundado por um gameta de uma pessoa.

Portanto, a linhagem HeLa se isolou reprodutivamente da espécie humana.

Portanto, as células HeLa são uma espécie nova, descrita com o nome Helacyton gartleri (não Homo sapiens).

Se o mundo fosse feito de meio de cultura (e pode ser mesmo em alguns lugares), a espécie HeLa viveria independente da ajuda dos cientistas.

Hoje, a partir de estudos com pouquíssimas espécies multicelulares que aparentam não ter senilidade, e a partir do estudo do encurtamento do telômero, poderemos encontrar formas de aumentar o tempo de vida do ser humano. Se conseguirmos fazer conosco o que já foi feito com o verme Caenorhabditis elegans, chegaremos a viver até por volta dos 500 anos.

O segredo de uma vida mais longa parece estar em evitar os radicais livres, e isso inclui comer menos. Animais cuja dieta teve corte de calorias (cerca de 30%) podem viver até 50% mais.

Para alongar o tempo de vida do ser humano será necessário entender mais sobre como algumas salamandras são capazes de fazer membros amputados crescerem de volta, e como algumas hidras (animais aquáticos simples parentes das águas-vivas) conseguem regenerar a forma de seu corpo inteiro mesmo após serem dilaceradas num liquidificador.

Viver mais e melhor será o futuro graças à pesquisa em biologia, e nada disso poderia ser feito sem a teoria da evolução como pilar sustentador dessa ciência.

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Créditos das imagens:

Dercy Gonçalves: Andréa Farias / Wikimedia Commons
Cromossomo: ADRIAN T SUMNER / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Fecundação: EYE OF SCIENCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Células HeLa com adenovírus: SCIENCE SOURCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY
C. elegans: SINCLAIR STAMMERS / SCIENCE PHOTO LIBRARY

Referências:

Hug, N., & Lingner, J. (2006). Telomere length homeostasis Chromosoma, 115 (6), 413-425 DOI: 10.1007/s00412-006-0067-3

VALKO, M., RHODES, C., MONCOL, J., IZAKOVIC, M., & MAZUR, M. (2006). Free radicals, metals and antioxidants in oxidative stress-induced cancer Chemico-Biological Interactions, 160 (1), 1-40 DOI: 10.1016/j.cbi.2005.12.009

Kenyon, C., Chang, J., Gensch, E., Rudner, A., & Tabtiang, R. (1993). A C. elegans mutant that lives twice as long as wild type Nature, 366 (6454), 461-464 DOI: 10.1038/366461a0

Lucey BP, Nelson-Rees WA, & Hutchins GM (2009). Henrietta Lacks, HeLa cells, and cell culture contamination. Archives of pathology & laboratory medicine, 133 (9), 1463-7 PMID: 19722756

9th of June

Vida após a vida? Espíritos e reencarnação à luz da evolução


Vivemos num país cada vez mais dependente de tecnologia e de conhecimento científico, entretanto, a esmagadora maioria das pessoas, inclusive dentro das universidades, vivem num mundo intelectual povoado de artefatos destoantes do modo de pensar que produzem essa tecnologia e esse saber.

Esses artefatos podem ser agrupados no que se chama popularmente de fé. E fé merece respeito. Se ter fé é optar por incoerência filosófica, se é criar um bunker protegido de todos os lados contra a prospecção da razão, se é aplicar esperanças e forte carga emocional a possibilidades improváveis, ainda assim merece respeito. Pois respeito é, antes de tudo, tolerância. Respeitar é ter a atitude de Voltaire, de lutar pelo direito de expressão do outro com todas as forças, não importa quanto erros o outro cometerá.

Nenhum problema, portanto, que a fé seja tão sedutora para tantas pessoas ao ponto de diminuir a importância da razão em suas vidas. A própria razão, fraca como é, só existe para atender a nossos desejos, como dizia Bertrand Russell. O que há de precioso no conhecimento advindo da razão é sua funcionalidade. Por isso a ciência, como magistério eminentemente racional, consegue produzir tecnologia. Disso não se conclui que a explicação mais racional e mais científica para um dado problema é uma verdade absoluta. Tampouco não ser verdade absoluta dá mais confiabilidade e crédito à fé como método de busca da verdade.

O problema começa quando os partidários da fé resolvem tentar justificá-la com uma caricatura de razão. Quando tentam justificar a “certeza” de uma religião fingindo que ela é uma ciência.

Um homem pode vestir um jaleco, pode segurar um tubo de ensaios, pode desgrenhar os cabelos, mostrar a língua e falar palavras difíceis. Mas isso não faz dele um cientista.
Pode ser um polemista, pode citar nomes estrangeiros, pode emitir aparentes paradoxos, mas isso não faz dele um filósofo apoiado na razão.

Percebo que muitas pessoas em geral bem informadas hoje estão deixando de lado dogmas pouco confiáveis, como os tradicionais cristãos, e optando por novas idéias espiritualistas, doutrinas em franca expansão no meio culto como o Espiritismo, porque supostamente estas estão em plena concordância com a ciência.

Pretendo mostrar aqui que o espiritualismo não só é sofrível à luz de um importante conceito central da Biologia, a evolução, como só pode ser aceito como dogma. O dogmatismo, cedo ou tarde, acaba por fracassar como conhecimento racional. Só pode se amparar em fé, se é que se pode dizer que fé é suficiente para amparar qualquer coisa.

Breve histórico e incongruências associadas

Primeiro, o erro mais comum dos espíritas, por causa das obras de Rivail (Kardec), é associar o termo Evolução à idéia de progresso, de melhoramento.
Este conceito pode fazer sentido na crença religiosa, mas não tem nada a ver com a teoria científica da evolução. Nem com o fato da evolução biológica.

Na época do lançamento da primeira edição do Livro dos Espíritos, em 1857, ainda tinham grande influência sobre os naturalistas da França as idéias de Jean-Baptiste de Lamarck (o principal livro de Lamarck, Philosophie Zoologique, foi publicado em 1809).
Para Lamarck, todas as formas vivas evoluíam marchando para a perfeição, e surgiam por geração espontânea, e o homem era o que mais se aproximava da perfeição neste planeta.
Desnecessário dizer que tudo isso consta no Livro dos Espíritos (e outras obras espíritas como A Gênese): geração espontânea, e evolução como progresso.

Ambas foram abandonadas pela moderna Teoria da Evolução há mais de 100 anos.

Primeiro, porque Francesco Redi e Louis Pasteur mostraram que não acontecia geração espontânea. Claro, quem acreditava fanaticamente na geração espontânea persistiu até o fim, procurando lacunas no conhecimento da Biologia para preencher com a geração espontânea. No mesmo ano da publicação da obra mais famosa de Darwin (Origem das Espécies), em 1859, Pouchet publicou um livro de quase 700 páginas tentando desesperadamente salvar a geração espontânea e o princípio vital – sem sucesso.

O século XIX foi um período de explosão de pensamentos religiosos que a Igreja Católica sempre reprimiu na Europa. Acontecia uma substancial secularização das instituições sociais, que tinha se intensificado nas chamadas revoluções burguesas dos EUA e da França. O Tribunal do Santo Ofício estava fora de moda, então Kardec e outros espiritualistas tinham liberdade para expressarem suas crenças “heréticas”.

As obras de Kardec refletem acuradamente o que estava à disposição na época para quem tinha vontade de saber respostas dos cientistas (que não necessariamente são resposta da ciência, ou seja, não necessariamente são amparadas por evidência).

Soa ridículo supor que os “espíritos superiores”, que supostamente respondiam as perguntas de Kardec, ficassem atentos às publicações de Lamarck ou de um naturalista evolucionista qualquer cujas idéias não tinham sofrido o choque com Darwin.
O que é mais racional e mais econômico é supor que os médiuns, ou o próprio Kardec, eram leitores curiosos das mais altas especulações científicas de sua época, inclusive hipóteses evolucionistas como a de Lamarck. Ou seja, não só da época, mas do país específico em que Kardec morava.

No ano seguinte à publicação do Livro dos Espíritos veio a publicação conjunta de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, um evento de pouca visibilidade para o público leigo. E finalmente, em 1859, Darwin publicou o seu longo trabalho de décadas no livro “Sobre a origem das espécies pela seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”, apelidado carinhosamente de “Origem das Espécies”.

Neste livro já se nota o erro das crenças Lamarckistas das quais se apropriou Kardec (ou, para os mais crédulos, das quais se apropriaram os “espíritos superiores”): não há modo natural de definir superioridade e inferioridade na natureza, nem qualquer escala de prioridade ou qualquer conceito ético/estético de que nutrem os humanos para elogiar a si mesmos (neste caso em particular, o conceito de perfeição). O homem está sujeito às intempéries que governam os outros seres vivos (muito mais no século XIX – o próprio Darwin, em vida, perdeu filhos para patógenos egoístas que usam o corpo humano como substrato para sua reprodução. Não era raro famílias ricas perderem crianças assim).

Outra provável influência sobre Kardec (ou os médiuns que o enganaram) foi um evolucionista do século XVIII, o Conde de Buffon (Georges-Louis Leclerc), também francês, que viveu no século XVIII.
O conde de Buffon influenciou notadamente Lamarck. Então, se Lamarck foi a fonte primária do Espiritismo, Leclerc também o foi indiretamente.

Inclusive Leclerc especulou sobre ancestralidade comum entre o homem e os grandes primatas africanos, o que foi retomado depois por Darwin. A ancestralidade comum foi abandonada por Lamarck – em favor da “escala evolutiva”, ou “grande corrente dos seres”, que colocasse, é claro, o homem no topo.

Outras prováveis influências sobre Kardec foram Herbert Spencer (que advogava idéias deploráveis que vieram a ser conhecidas erroneamente como “Darwinismo Social”) e Auguste Comte (que intencionalmente ou não semeou idéias equivocadas sobre método científico que inspiraram dogmatismos religiosos de adoração da ciência em alguns de seus seguidores).

Conclui-se que a última resposta a ser racionalmente invocada para a “codificação” espírita é de que teria sido respondida por gente morta, já que as obras espíritas refletem bem idéias da época acessíveis a pessoas vivas.

A única coisa que sobrou de Lamarck na obra de Darwin foi o uso e desuso e um pouco de herança de caracteres adquiridos. Mas logo esses conceitos também caíram com o advento da Genética no século XX. Ou seja, Darwin fez quase tudo o que era possível fazer pela Teoria da Evolução com o aparelhamento e idéias da época.

Hoje, evolução biológica é definida como apenas mudança, a mudança que ocorre nas formas, nas freqüências dos genes nas populações. Indivíduos não evoluem, apenas populações. Portanto, não faz sentido um espírita achar que uma pessoa é “mais evoluída” que outra.

Não é necessário optar por nada sobrenatural para justificar algo no homem, sejam as emoções, seja o olho, seja o cérebro.

A afirmação comum de que Espiritismo é Ciência não se sustenta. Além de o Espiritismo não estar de acordo com a citada teoria central da Biologia moderna, não está de acordo também com outras áreas do conhecimento científico, como a Astrofísica e a Química – mas isso é assunto para astrofísicos e químicos.

Dogmas espiritualistas à luz da evolução

Munidos agora deste conhecimento, que interpretações podemos fazer de conceitos básicos do Espiritualismo e do Espiritismo?

Por exemplo, como surgiria na história da vida uma entidade paralela, imaterial, que não influi na reprodução de quem a possui, apenas na sobrevivência – que seria uma sobrevivência eterna?

Como já dizia Darwin, o homem traz consigo a marca indelével de sua ancestralidade. Ou seja, ainda temos características de bactéria, de protozoário, de peixe, de réptil, de mamífero primitivo, de primata ancestral. Estas características estão entre coisas que até comumente supomos que são exclusivas nossas – como cultura, mente, memória, sentimentos, etc. Ou seja, de exclusivas, em última análise, essas características não têm qualitativamente nada.

Traríamos conosco, no espírito, características de nossos ancestrais também? Até hoje não vi nenhum espiritualista supor coisa parecida, como se o espírito já nascesse do jeito que é (com ou sem atuação de criação divina), já dotado de mente por exemplo. Mas não precisamos de interferência divina para explicar como uma bactéria originou um homem. Aliás, cada vez mais não precisamos de explicações sobrenaturais para traçar conjeturas prováveis de como a matéria inerte originou a primeira célula bacteriana.*

Aí começa mais um problema para os espiritualismos.

As características presentes nos animais, incluindo o homem, surgiram por dois processos:
1 – Seleção natural, quando conferem ao organismo em que estão mais sucesso reprodutivo (adaptação).
2 – Acaso, quando se fixaram na população por acompanharem os sobreviventes, não necessariamente sendo responsáveis por maior eficiência em sua reprodução (deriva genética).

Por exemplo, o olho. Quem tem olho tem mais chances de encontrar alimento, e é mais eficiente em escapar de predadores. Portanto, tem mais descendentes.

Hoje, o estágio inicial do surgimento do olho pode ser traçado a uma proteína sensível à luz (portanto, algo muito simples – proteínas e seus blocos construtores são produzidos livremente no universo sem a presença de vida). Existem outras proteínas parecidas com esta, que não são sensíveis à luz. Portanto, basta mutação numa proteína ancestral para que a proteína se torne sensível à luz (grosso modo).

O início do olho, nesta proteína, já tinha a característica 1. E o início do espírito?

O início do espírito precisaria ser ao menos mortal. Esse proto-espírito precisaria se replicar, passar herança para descendentes – e os que sobrevivessem por mais tempo precisariam ser selecionados. Mas segundo o Espiritismo, espíritos não se reproduzem, apenas reencarnam e marcham para o progresso.

Além disso, uma grande inconsistência do espírito como entidade natural (ou sobrenatural, mas dá na mesma dado que ele interage com a matéria viva) é a questão da energia.

A evolução biológica vem acontecendo na Terra há 4 bilhões de anos.
Os seres vivos lutam com todos os genes para estocar energia (ou usá-la para ter maior sucesso na reprodução), pois não é coisa de fácil acesso, e boa parte da evolução só aconteceu porque eles tiveram que lutar por energia. As florestas só têm árvores altas por causa disso.

Espíritos são improváveis de aparecerem no curso da evolução porque:
1 – Seres vivos precisam ser econômicos no gasto de energia, e a manufatura de um espírito pós-mortem num estágio inicial é um gasto desnecessário que seria eliminado, enquanto o gasto de energia na produção de uma prole não é desnecessário, na verdade é o que fundamenta a própria existência desses seres.

2 – Entidades capazes de sofrer evolução precisam ser replicáveis, e essa replicação precisa ser imperfeita em algum grau, e as variações que são fruto dessa replicação precisam ser selecionadas pelas condições do meio-ambiente. As características que levaram as variações sobreviventes a sobreviverem precisam ter, ao menos em sua base, alguma garantia de hereditariedade pela replicação.

O tipo de espírito proposto no Espiritismo, capaz de reencarnação, teria grande limitação para esses pré-requisitos, então teríamos o ridículo de ele ser gravemente retardado no curso da evolução e oferecer um tempo de “sobrevida” curto, além de inútil.

Imaginem um homem que morra, depois de ter vivido 90 anos justamente por causa da seleção natural atuando em seus ancestrais, se encontre fora do corpo num espírito de bactéria, que vive apenas um segundo porque após aparecer nas primeiras formas vivas, há bilhões de anos, o espírito apenas reencarnou e reencarnou, como água que se infiltra em diferentes substratos mas não deixa de ser água.

A energia tende sempre a se transformar para estados inacessíveis à realização de trabalho, ou seja, aumenta a entropia (“desordem”). Essa é uma das razões por que nossos corpos, após décadas de vida, se encontram exaustos, cessam seu equilíbrio dinâmico e cedem à decomposição.

O que garante que a forma de energia do espírito, diferente de toda e qualquer outra forma de energia conhecida, seja imune ao aumento da entropia? Uma mente não pode ter como base algo tão estático e sem o equilíbrio dinâmico de um corpo – pensar consome alimento,consome ligações entre carbonos. A mente, por definição uma entidade organizada, mantém sua organização às custas da desorganização que causa no ambiente ao seu redor.

Em outras palavras, espíritos precisariam se alimentar.

Para responder a esses argumentos, os espiritualistas precisariam explicar a origem do espírito a partir de evolução, e a termodinâmica do espírito como a manutenção de uma entidade em equilíbrio dinâmico, que é capaz de se manter invulnerável ao aumento de entropia interna através de aumento de entropia global. Em outras palavras, o único tipo de espírito plausível fisicamente, é um que coincida com o “simulacro” (conceito de Epicuro) que é nosso próprio corpo, em que há entrada e saída de energia, assim como um rio é uma forma constante a ser apreendida de movimentos incessantes. Um rio não é sempre o mesmo.

O único espírito plausível é o corpo. E este, morre. Não “reencarna”, transmite herança em várias cópias diferentes – os descendentes. Não marcha para a perfeição, apenas muda de modo a preservar sua sobrevivência.

A manutenção de um espírito é totalmente contrária a essas regras. Representa um centrismo no indivíduo que é surreal para os mecanismos da evolução.

Em algum momento teria de haver “competição” entre o gasto de energia na produção do espírito e gasto de energia na produção de descendentes. A segunda opção ganha por definição.

O legado de nossa miséria, e o legado de nosso triunfo, só podem ser transmitidos aos nossos filhos, e não a uma forma surreal de nós mesmos que precisa sobreviver à morte do corpo só porque assim a morte parece menos assustadora.

Vida após a morte, e espíritos, e reencarnação, são coisas inverossímeis, improváveis. Não serão desejos e motivações emocionais que mudarão isso. Apenas evidência, e não há muitas perspectivas de que as evidências hoje apontem para outras conclusões.

________

NOTA

*Processo de biopoiese, muito diferente de geração espontânea, pois se deu em condições hoje provavelmente ausentes na Terra – ou seja, mecanismos puramente naturais e físicos, num evento extremamente improvável no universo, mas cada vez mais provável conforme consideramos cada condição ambiental que se somou à sua ocorrência. Ou seja, um evento que, por ser natural, só precisa das condições naturais adequadas, como moléculas orgânicas que existem livremente no universo, e a quantidade de energia livre originada na fusão estelar ou fissão radioativa (acrescentei fissão por que há a possibilidade de a vida ter surgido em meio ao calor das fumarolas submarinas, este calor provém da fissão de elementos radioativos). Recomendo sobre esse assunto os livros: “O que é vida?”, de Schrödinger, e “O que é vida? – 50 anos depois”.

29th of May

Elogio ao Hinduísmo


Há no ar uma certa obsessão por Espiritismo e Cristianismo no Brasil. Mencionemos religiões equiprováveis que também merecem atenção apesar do mero acidente de estarem longe daqui.

“O Hinduísmo engloba um conjunto de tradições culturais, sociais e religiosas que se originaram principalmente no subcontinente Indiano. Pode ser chamado de Bramanismo (ou Brahmanismo), pois é a cultura que originou do povo áriano, de cultura Brahmácharya (seguidores de Brahma, o pai, o conceito criador da trindade Hindu).”

(Fonte: Wikipédia)

“Os Hindus acreditam em um espírito supremo cósmico, que é adorado de muitas formas, representado por deidades individuais como Vishnu, Shiva e Shakti. O Hinduísmo é centrado sobre uma variedade de práticas que são meios de ajudar o indivíduo a experimentar a divindade que está em todas as partes e realizar a verdadeira natureza de seu Ser.

O Hinduísmo, como religião, é a terceira maior do mundo, com aproximadamente um bilhão de adeptos (censo de 2005), dos quais aproximadamente 890 milhões vivem na Índia. Outros países com grande população hindu são o Nepal, Bangladesh, África do Sul, Sri Lanka, Ilhas Maurício, Fiji, Guiana, Indonésia, Malásia, Estados Unidos e o Reino Unido.”

É uma das religiões mais antigas do mundo, se não a mais antiga, e em seu ambiente se desenvolveram várias práticas de medicina e filosofia, inclusive registros das primeiras cirurgias plásticas já feitas na História.

Meu elogio ao Hinduísmo tem como propósito não estimular fé nesta religião, mas mostrar que é uma religião muito melhor que as ocidentais em termos de compatibilidade com a ciência, credibilidade (de acordo com critérios de credibilidade bastante usados entre os religiosos ocidentais), e por fim farei uma modesta conclusão.

1 – Compatibilidade com a ciência

Há uma famigerada abordagem feita nas escrituras hoje por causa de sua inconsistência frente a teorias científicas. Principalmente as teorias concernentes à origem do universo, da vida na Terra e o destino de ambos no futuro mais remoto.

A abordagem a que me refiro é a interpretação de que os textos sagrados tratam de metáforas em alguns pontos.

A preocupação dos cristãos (principalmente aqueles filiados à Teologia Liberal, chamados freqüentemente de “moderados”) se direciona principalmente ao livro do Gênesis.
Diz-se, por exemplo, que os seis dias de criação não são literais, mas metafóricos para ilustrar os bilhões de anos que a Astrofísica aponta para a real idade do Universo, e o tempo que a Geologia indica que foi necessário para o surgimento das formas de vida citadas neste livro da Bíblia.

Outros pontos na Bíblia freqüentemente tratados como metáfora são a criação do homem e o Dilúvio Universal.

A Genética, bem como a Teoria da Evolução, apontam que uma espécie não pode surgir apenas com um casal. Se assim acontece, o endocruzamento obrigatório que se sucede leva invariavelmente à extinção da linhagem (e isso eu pude observar na minha própria pesquisa de iniciação científica em moscas).

O problema de compatibilidade nesses pontos com a Ciência não é muito grande para o Hinduísmo. Pois, para os hindus,

“o Universo é grande, cíclico e extremamente velho.

Os Vedas falam de um universo infinito e os Brahmanas mencionam “yugas” (eras) muito grandes. A visão Védica recorrente do universo exige que o próprio universo passe por ciclos de criação e destruição.

Esta visão cíclica se tornou parte da estrutura astronômica desenvolvida por eles e isso fez com que ciclos muito longos, de bilhões de anos, fossem considerados. Os Puranas falam do universo passando por ciclos de criação e destruição de 8,4 bilhões de anos embora também existam ciclos mais longos. Assim, na cosmologia hindu o universo tem uma natureza cíclica.

A unidade de medida usada é a “kalpa”, que equivale a um dia na vida de Brahma, o deus da criação. Uma kalpa tem aproximadamente 4,32 bilhões anos. O final de cada “kalpa”, realizado pela dança de Shiva, é também o começo da próxima kalpa. O renascimento segue à destruição. Shiva é representada tendo na mão direita um tambor que nuncia a criação do universo e na mão esquerda uma chama que destruirá o universo. Muitas vezes Shiva é mostrada dançando num anel de fogo que se refere ao processo de vida e mort e do universo.

O mais notável na cosmologia hindu, que lhe dá uma característica única, é o fato de que nenhuma outra cosmologia antiga usou períodos de tempo tão longos nas suas descrições cosmológicas.”

(Fonte : Observatório Nacional)

O Hinduísmo é superior ao Cristianismo na compatibilidade com a Ciência.
Eles não têm que dar desculpinhas furadas de interpretação de texto, podem dizer apenas que a idade do universo deles tem uma certa margem de erro.

Eles não caem no ridículo dizendo que o universo tem 6 ou 10 mil anos apenas como é possível inferir da Bíblia.

A existência do Hinduísmo data de 4000 a 6000 anos a.C., ou seja, eles já falavam e

ssas coisas muito antes de Jesus Cristo ser um ovócito dentro do ovário de Maria.

Sobre a compatibilidade com a Teoria da Evolução e a conhecida origem do homem também a partir desse processo como se verifica em fósseis na África, também com isso o Hinduísmo não tem muito problema.

Segundo o mito hindu da origem do homem, o primeiro homem foi Matsiendra . Era um peixe que ao ver a deidade Shiva executando sua dança, tentou imitá-la e o efeito foi se tornar homem.

Se é para encarar como metáfora, qual metáfora é melhor? Um peixe dançando (lembrando que a dança de Shiva representa em grande parte o próprio tempo) e virando homem, sabendo-se que a Teoria da Evolução aponta que os peixes que deram origem a nós são os Sarcopterígios; ou uma metáfora nebulosa com barro e sopro?

Ganha a metáfora mais clara. O Hinduísmo não necessita de muitos esclarecimentos se trata isto como uma metáfora.

O Hinduísmo nem mesmo precisa usar de artifícios antropocêntricos como faz o Espiritismo ao tratar da evolução biológica como se fosse um constante melhoramento destinado no passado a atingir uma espécie de pico no homem. Afinal, o peixe apenas dançou e o resultado da dança apenas surgiu, assim como o homem é apenas uma entre várias espécies que a seleção natural moldou.

2 – Credibilidade

Não são poucas as vezes em que se usa a falácia ad populum para dar credibilidade ao Cristianismo. Se muita gente acredita, então é verdade. Com isso também o Hinduísmo não tem problema, pois existem mais de um bilhão de hindus.

Perderia em número para os Católicos, mas ganharia de muitas outras correntes cristãs.

Outra falácia muito usada para dar impressão de credibilidade é o Argumentum ad antiquitatem, segundo o qual algo é verdade porque é dito há muito tempo.

O Hinduísmo provavelmente ganha de todas as religiões que ainda têm fiéis hoje no mundo, pois, como eu já disse, data de 4000 a 6000 anos a.C.

Para os que acreditam na força dessas falácias para dar credibilidade, o Hinduísmo deveria ser seriamente considerado como digno de culto.

3 – Conclusão

É bem curioso que em debates sobre ciência e religiões as pessoas se sintam tão inclinadas a ignorar religiões importantes como o Hinduísmo, o Budismo, o Confucionismo, o Jainismo, e até mesmo os animismos mais antigos que hoje não têm mais muitos fiéis, como a religião do antigo Egito, dos Etruscos, da antiga Núbia, dos Astecas, dos Maias, dos Incas…

O número de religiões é assustadoramente alto, sim. Mas o que garante que uma seja melhor que outra?

Como eu mostrei, se a ciência é uma preocupação há motivos muito bons para, por exemplo, abandonar o Cristianismo e seguir o Hinduísmo.

Será desconfiança minha ou a esmagadora maioria dos religiosos com os quais debato só seguem suas religiões porque por acidente nasceram onde nasceram, foram educados pelos pais que têm, ou toparam com algumas afirmações bonitas sem qualquer compromisso com consistência frente à natureza?

O Hinduísmo aí está para ser analisado, por que não analisar uma boa quantidade de religiões para ver se alguma merece tanta dedicação e fé?

20th of May

Livre arbítrio?


por Leonie Welberg”A questão sobre os humanos terem livre arbítrio tem sido discutida por séculos por filósofos e acadêmicos religiosos, e mais recentemente por neurocientistas. Haynes e seus colaboradores adicionaram lenha ao debate mostrando que a atividade em duas áreas corticais não relacionadas a movimento pode predizer o resultado de uma decisão motora em até 10 segundos antes que um indivíduo se torne consciente da decisão.

Voluntários foram postos num scanner de ressonância magnética funcional e foi pedido a eles que pressionassem um botão com o dedo indicador direito ou esquerdo quando quisessem. Ao longo do experimento os voluntários olharam para uma tela que mostrava uma sucessão de letras, e eles tinham que se lembrar da letra que foi apresentada na tela no momento em que decidiram qual botão apertar. Isso revelou que a maioria das decisões eram conscientemente formadas um segundo antes que a resposta motora fosse executada.

Então, os autores analisaram a atividade em diferentes áreas do cérebro durante o tempo precedente ao pressionamento do botão, usando decodificadores baseados em padrão. Esse tipo de análise pode detectar padrões-‘assinatura’ de atividade que estão associados com uma decisão particular. Os autores acharam tais padrões de atividade na área 10 de Brodmann no córtex parietal (o córtex cingulado pré-cúneo/posterior) – áreas que acredita-se serem envolvidas em função executora e auto-processamento – e os padrões previam com alta precisão qual botão seria apertado. Intrigantemente, as assinaturas apareceram até 7 segundos antes que os voluntários escolhessem conscientemente sua resposta motora. Pela razão de que acredita-se que a resposta hemodinâmica dependente de nível de oxigênio no sangue representa a atividade neuronal ocorrida por volta de 3 segundos antes, esta descoberta sugere que a atividade nas duas áreas codifica as decisões aproximadamente 10 segundos antes que elas entrem na consciência.

Padrões de atividade que foram observados na área motora suplementar e pré-suplementar aproximadamente 5 segundos antes de uma decisão ser consciente predisse seu compasso (timing), indicando que áreas cerebrais diferentes poderiam estar envolvidas na formação da intenção de fazer um movimento e na decisão de quando fazê-lo.
Embora seja difícil imaginar que nossas decisões possam ser feitas inconscientemente, essas descobertas têm implicações importantes. As pessoas podem ser responsabilizadas por suas ações se elas não se tornam conscientes de suas decisões até que elas sejam feitas? Você decide.”***Publicado originalmente em Nature Reviews – Neuroscience._O filósofo Daniel Dennett concebeu uma hipótese para o funcionamento da consciência, que pode ser lida nos livros “A perigosa idéia de Darwin” e “Consciousness Explained”.

3rd of May

Comunicação no mundo natural


Uma amiga me fez uma pergunta: “qual seria a primeira espécie a ter comunicação no planeta para você?”

Antes da resposta, precisarei de definições de trabalho que tive em mente ao responder:

1 – Comunicação é a troca de informação entre um emissor e um receptor, quaisquer que sejam essas duas entidades.

2 – Informação será definida como quantidade de “dados” (suas unidades mínimas), e dependerá da natureza da produção e leitura desses dados no emissor e no receptor. Ou seja, informação só pode ser entendida como pertencente a um sistema, um conjunto, uma população, e não faz sentido fora desse contexto.

Dadas essas definições de trabalho, vamos à resposta.

Entre células, por exemplo, existe comunicação. Uma molécula se liga a outra e provoca reações químicas – basicamente é isso. E eu acho que ainda é essa a base de todo e qualquer tipo de comunicação, aliás estou bem convicto disso (dadas as devidas correções – às vezes é uma propriedade física, como onda mecânica, fótons, que interagem com as moléculas orgânicas).

Mas quando complicamos as coisas, com sistemas nervosos, cérebros, é dificílimo detectar quando surgiu a comunicação que seria a forma mais primitiva da fala.

Em outros mamíferos, até aqueles dotados de pequenos cérebros, como os suricatos, a comunicação é bem clara, tem vocalização, e no caso dos suricatos uma vocalização diferente para cada significado: por exemplo, um certo grito significa um certo predador.

Esse tipo de comunicação deve ter algumas dezenas de milhões de anos (se foi assim também que acontecia nos primeiros primatas).

É claro que a fala como a conhecemos deve ter só entre 100 mil e 200 mil anos, e ainda não sabemos se outras espécies, como o homem de neandertal, a tinham.

A natureza, como sempre, manifesta gradações diversas, e há diferenças importantes entre espécies solitárias e espécies sociais ou gregárias. Cefalópodos como as lulas Sepiotheutis sepioidea, estas sociais, se comunicam por padrões de cores na pele. Mas também tem polvos solitários que são bem comunicativos, mas nesse caso a comunicação é direcionada a outras espécies, como o polvo mímico (Thaumoctopus mimicus) faz com possíveis predadores (Vídeo).

Então, a minha resposta não vai ser nem um pouco decisiva. A primeira espécie a ter comunicação bioquímica deve ter existido há mais de 3 bilhões de anos e era uma bactéria.

E a primeira espécie a ter comunicação dependente de um sistema nervoso deve ter existido há 500 milhões de anos, na “explosão” Cambriana, e possivelmente nem era um de nossos ancestrais. E esse tipo de comunicação deve ter surgido várias vezes, até mais vezes que a comunicação puramente bioquímica.

Existem muitos outros exemplos, como a comunicação entre cetáceos – baleias e golfinhos -, aves, lagartixas, crocodilos, cigarras, grilos, moscas (a drosófila, por exemplo, emite um “canto” vibrando as asas durante o ritual de acasalamento – e isso também acontece com mosquitos), besouros…

A fala surgiu quando a já existente emissão de som dos primatas foi unida a um cérebro cada vez mais complexo, capaz de representar o mundo em si mesmo, capaz de prever e analisar o comportamento de outros cérebros, capaz de executar experimentos mentais a partir da memória.
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Sugestão Bibliográfica: livro “O Instinto da Lingagem“, de Steven Pinker.

22nd of April

O mágico e o pedreiro


Em minha infância na cidade de Lagamar, aconteceram coisas mágicas que aquecem minhas memórias com uma sensação de conforto, saudade, e graça até.

Certa vez apareceu na cidade um circo, e junto dele veio um mágico sinistro. Ele tinha algum truque com uma vassoura encantada que se mexia sozinha e espantava as crianças com aquele terror primitivo – que agora me parece ter sido muito bom (como é bom para muitas pessoas assitir filmes de conteúdo destinado a provocar medo e susto).

Surgiu na cidade o boato de que o mágico compactuava com o demônio. Uma amiga das minhas irmãs mais velhas participou de um truque em que o ilusionista adivinhava o conteúdo de cartas lacradas; na carta dessa amiga a própria escreveu “Deus é amor”, e me contaram que esta frase desconcertou as habilidades mágicas do sinistro artista (talvez ele tenha até se assustado como um vampiro diante de um crucifixo).

Quem sou eu para estragar essas memórias acusando superstição e irracionalidade?
A mágica e o mistério fazem parte da infância.

Mas agora, se eu perdi essas sensações dramáticas, fervilhantes, e, por assim dizer, cinematográficas, o que tive a ganhar tem outro tipo de valor inestimável: é aquele valor do pedreiro que pacientemente constrói um abrigo sólido e seguro. Destruí aquele terror que me encantava quando criança, mas também me tinha como refém nas horas de desespero.

Era espetacular ouvir que dentro do redemoinho vivia um capeta que viria atrás de nós se recitássemos “pé de pato, pé de vento, vem aqui que eu pulo dentro”. E recitávamos, corríamos atrás do fenômeno atmosférico até que ele saltasse do penhasco, e ascendesse aos céus levando consigo algumas folhas rodopiantes que denunciavam sua existência até o derradeiro momento.

Agora, troquei o redemoinho por cada segundo que se atira ao nunca mais, e os mistérios são outros, como a própria natureza do tempo, mas não me causam mais aquele terror de desespero, mas reavivam o terror de júbilo daquelas mágicas.

O circo se foi, se atirou ao olvido de muitos que lá estiveram, e hoje, no mesmo lugar, se encontra um sólido ginásio poliesportivo.

Ginásio Poliesportivo da cidade de Lagamar, Minas Gerais.