14th of November

Das origens banais do relativismo e do vitimismo


Algo que eu penso que os intelectuais contrários ao relativismo pós-moderno nem sempre percebem é que a adesão a ele raramente deriva da leitura de gente como Rorty, Foucault e Derrida. Mas não estou falando do que Thomas Sowell chama de “penumbra” em torno dos intelectuais, que são aquelas pessoas que adotam suas ideias de segunda ou terceira mão. (Como a multidão de incautos que insistem em chamar tudo de narrativa, mas nunca ouviram o nome Derrida nem o termo metanarrativa.)

Quem teve uma infância cercada de outras crianças teve oportunidades preciosas de observar aspectos do comportamento humano que continuam na vida adulta, mas de forma mais velada, pois nós adultos aprendemos a fingir que somos mais civilizados.

Um desses comportamentos é a explosão das regras quando elas não lhe são pessoalmente favoráveis em um dado momento. A criança que está perdendo um jogo pode alegar que nunca teve interesse nele para começo de conversa. Às vezes pode atirar o tabuleiro para cima ou derrubar as peças. É nesse tipo de birra que surge um relativismo de conveniência, e há espaço para ressonância com aqueles intelectuais. “Estou errado?”, pensa o relativista pueril de conveniência, “não importa, pois as suas regras de certo e errado não têm validade aqui”. Se estivesse ganhando, as regras seriam mais que válidas, é claro.

Habitando um mundo de problematização de tudo e controle politicamente correto da linguagem, jamais vi “cientistas sociais” (em cujo curral o relativismo é endêmico) que queiram problematizar com muito afinco o termo “cientista social”, tentando destruir essa conexão entre as ditas ciências moles e as duras. Então temos este efeito: muitas das mesmas pessoas que alegam que qualquer respeito pela ciência é “cientificismo”, que ciência é uma mera narrativa tão verdadeira quanto mitos aborígenes, não têm problema algum em serem chamadas de “cientistas”, e talvez até insistam nisso, para tomarem um banho sob o sol da glória científica, mesmo que indiretamente.

Quando não conseguem gerar conhecimento tão firme quanto a lei de Ohm ou a teoria da evolução, as regras do conhecimento não valem. Quando é para desfrutar do prestígio causado por essas regras, elas valem.

A observação casual do comportamento infantil também explica muito do que observamos agora com a política identitária. Por que, meu Zeus, por que alguém usaria supostas marcas de vitimização como galardões de status? Ora, pelo mesmo motivo que, quando o caçula mente que a irmã mais velha bateu nele, ele sabe que vai receber apoio e mimos das autoridades parentais presentes. Removam a percepção de que haverá socorro de autoridades, que a corrida armamentista do vitimismo também cai.

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