3rd of June

O que você pensa do suicídio?


Classicamente, este assunto é discutido em termos de coragem e covardia. Que o suicida seria um corajoso por tirar a própria vida, e um covarde por desistir de viver.
Eu não vou tratar disso nesses termos.
Minha avó paterna se matou, em 1992, tomando veneno para rato. Antes disso, ela tentou várias vezes antes (acho que foram 11 tentativas ao todo). Ela sofria de depressão há vários anos e meu pai a levara para São Paulo para um psiquiatra acompanhar o caso, mas, obviamente, não houve sucesso.
O tempo apagou muitas evidências. Mas, pelo que me lembro dela, o problema dela era mesmo depressão patológica. Mas isso não significa que não houvesse motivos externos para a decisão que ela tomou.
Como no caso da minha avó, há fatores internos e externos que provocam estados mentais propensos a suicídio.
Eu nunca quis, até hoje, terminar minha vida. Lembro-me de ter dito a alguns amigos, quando eu tinha 17 anos, que havia uma “felicidade constante” como pano de fundo psicológico às situações pelas quais passava (situações devidamente infladas em importância como faz a mente adolescente). Mas “felicidade” não é a palavra correta. Epicuro de Samos tinha um termo para definir este estado mental: “ataraxia”.
Ataraxia seria um estado de “imperturbabilidade” da mente. Não confundir com insensibilidade. Interpreto este conceito como uma estrutura emocional que se desenvolve numa mente que tem certos recursos que lhe permitem não entrar em desespero ou pânico nas mais diversas situações, ainda que sofra inimaginavelmente. Para o desenvolvimento da ataraxia uma mente precisa ter contato com estes recursos, quando são externos (por exemplo, relações sociais de reciprocidade, como amizades, e relações familiais e românticas); e também precisa ser uma mente fundada sobre recursos internos em particular.
Um desses recursos internos é, eu penso, uma herança genética adequada. Os genes que ajudam a construir uma mente são uma espécie de arcabouço, e se o arcabouço não está funcionando bem, toda a estrutura desmorona.
Os genes são um dos recursos internos que podem predispor alguém a passar por estados mentais suicidas. Inclusive há transtornos de base genética em que um dos sintomas é a autoimolação. E também há estudos de associação entre algus genes e certos tipos de transtornos psiquiátricos que têm comorbidade com a depressão e podem levar ao suicídio.
Suicidar-se é para aquelas pessoas cuja ataraxia foi minada por falta ou destempero entre recursos internos ou externos.
Minha avó se matou porque tinha um gene defeituoso? Não. Um gene não teria feito isso por si só, poderia apenas, como eu disse, predispô-la ao horror absoluto que extingue a vontade de existir. Então a minha avó tinha um genótipo de predisposição ao suicídio? Não sei. A investigação levaria anos, e provavelmente não geraria respostas satisfatórias.
Então minha avó simplesmente ‘ficou triste’ por conta da aspereza das condições pelas quais passou na história da vida dela? Sim, como tantos outros depressivos, ela até poderia verbalizar alguns motivos pelos quais ela se sentia derrotada.
Mas até mesmo a resposta dela não seria suficiente para saber por que ela se matou. Simplesmente porque eu não sei, e ninguém nunca saberá, como os recursos externos da vida dela interagiram com os recursos internos da mente que ela tinha ao ponto de gerar este resultado lastimável de extinção da ataraxia.
O suicídio pode ser visto como resultado de transtornos evitáveis ou tratáveis. No caso dos genes ou de um desenvolvimento incompleto ou anômalo de estruturas cerebrais, intervenções farmacológicas contra tendências suicidas são possíveis.
No caso dos recursos externos, é responsabilidade de órgãos governamentais de saúde pública promover mínimas condições de vida para seus cidadãos, e isso inclui saúde psicológica e saúde social. Não é possível filosofar sobre a felicidade se você não tem nem o que comer. No caso da saúde psicológica, o comportamento do suicida/depressivo muitas vezes é estereotipado e envolve uma amostragem viciada dos eventos que acontecem à sua volta (ele dirá que tudo o que acontece com ele é ruim, quando muitas vezes não é a verdade), e é um processo de retroalimentação da depressão que pode ser atacado por abordagens de psicoterapia como a terapia cognitiva (nada sei a respeito para comentar – mas o mais interessante aqui é que, talvez, a terapia cognitiva possa ‘treinar’ a pessoa para observar as situações de modo mais científico, ou seja, sem viciar suas ‘amostras’).
Se não tivesse uma atitude cognitivamente balanceada e ‘realista’, nem pão para comer (com uma eventual ‘ceia’ de pão com queijo), Epicuro jamais teria a ataraxia sobre a qual falava, e que o acompanhou durante sua bem retratada morte, sentindo dores excruciantes decorrentes de cálculos renais.
Eu tenho ataraxia hoje e sempre tive até hoje. Mas se meus recursos internos forem cortados, minhas amizades me abandonarem, minha liberdade for ceifada, todas as fontes de prazer esgotadas, não sei se meus recursos internos manteriam minha vontade de viver de pé indefinidamente (pode ser que sim, em referência às boas memórias do passado, pode ser que não, se o ato de recordar não representasse compensação).
Se um dia eu estiver num estado vegetativo, sem sinal de atividade cerebral cognitivamente relevante, desejo que a morte seja causada a mim, assim como desejou minha avó. Mas há uma grande diferença aqui: uma pessoa em estado vegetativo é uma migalha de tudo o que ela foi um dia, e minha decisão pela eutanásia seria feita em referência a alguém que um dia fui e não desejou naquele tempo estar nesta situação num futuro imaginável; enquanto isso, um suicida toma uma decisão aparentemente consciente que me é completamente incompreensível e absurda.
Não pense que não condeno algumas formas de suicídio. Condeno todo suicídio feito por alguém que foi ludibriado ao ponto de ter certeza de que a morte é apenas uma passagem entre dois mundos e não uma aniquilação completa da existência. Mas não tenho por que condenar suicidas, porque o suicídio me espanta para além de qualquer tipo de julgamento moral. Só me resta a aversão e tentativas fúteis de compreender o que é largamente incompreensível, porque só o suicida fala a língua do suicídio, e tentar compreendê-lo falando outra língua é impossível.
Houve um tempo em que minha avó não queria se matar. Houve um tempo em que ela amamentou meu pai, e houve um tempo em que ela me acalentou e cantou para mim. Prefiro ter a lembrança de uma cantiga do que me torturar com a lembrança de um suicídio. Prefiro lembrar minha avó pelo amor e pela música, do que por uma decisão que nunca compreenderei.
Lazarina Vieira cantava. Até que um dia parou de cantar.
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