28th of September

Nahor de Souza Jr. na UnB – o bom, o mau e o feio


Hoje foi apresentada, a partir das 13h na UnB, uma palestra com o título “Ciência e Religião são Compatíveis?”, pelo Dr. em Geologia Nahor Neves de Souza Júnior.

Eu e Silvia Gobbo (doutora em Paleozoologia) estivemos presentes para defender o evolucionismo.

Durante a palestra a Silvia refutou contumazmente as afirmações criacionistas de Nahor no campo da Paleontologia e da Arqueologia.
Silvia, acostumada com a maneira franca de dar palestras dentro da Paleontologia, interrompeu intermitentemente o Nahor, o que causou o protesto de alguns alunos de graduação e do engenheiro Rui Vieira, um dos veteranos da Sociedade Criacionista Brasileira.

Eu também o interrompi por três vezes, mas deixei meus argumentos principais para depois da palestra (nessa hora a Silvia também teve a oportunidade de falar).

Na primeira vez que o interrompi foi para defender os ateus, pois ele alegou que todos os ateus acham que o universo físico é totalmente submetível à prospecção científica.

Na segunda vez, perguntei se não era contraditório que ele reclamasse da “omissão” da comunidade científica para com os “princípios do protestantismo” sendo que (como eu tinha a impressão) ele tinha dito no início da palestra que as cosmovisões dos cientistas convivem e não interferem nas pesquisas. Ele respondeu que não fez esta última alegação (talvez esteja certo quanto a isso). Deu a entender que os cientistas cristãos são superiores em termos de coerência aos demais cientistas.

Na terceira vez, perguntei se ele tinha referências de pesquisas científicas que corroborassem a afirmação de que a prática da circuncisão diminui a incidência de câncer em judeus. Ele respondeu que sim, e alegou que a secreção que o pênis produz entre o prepúcio e a glande é cancerígena (esmegma). Em resposta eu franzi o cenho, não sei se é verdade que o esmegma é cancerígeno, mas não me pareceu plausível.

(Não me parece muito inteligente por parte do Artífice criar esmegma cancerígeno.)
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Pois bem, a palestra começou de uma forma bem cuidadosa, e o Dr. Nahor pôde demonstrar sua admirável habilidade retórica, e seu conhecimento substancioso em ciência, patrística e escolástica, metodologia científica indutivista e dedutivista; além de conhecimentos bíblicos e suas experiências pessoais com o cristianismo.

Isso eu tive a oportunidade de elogiar, e compartilhar (a inspiração emocional da Bíblia na infância). Isso foi o bom.

Quando Nahor disse que os cientistas cristãos tinham excelentes qualidades, como a curiosidade, perguntei a ele se isso não seria problemático com a afirmação de Agostinho de que a curiosidade é uma doença. O palestrante disse que discorda da escolástica nesse ponto.

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Foi dito também que a Bíblia merece status de literalidade, como os seis dias da criação. Eu comentei que isso não é recomendável, dado que Javé tem atitudes análogas ao terrorismo nos eventos da destruição de Jericó e do massacre perpetrado por Sansão. Eu disse também que a Bíblia afirma que pensamos com o coração, o que já é refutado pela ciência.

Nahor disse que todos os povos relatavam desastres antigos, e que isso é uma evidência da ocorrência do Dilúvio Universal. Eu refutei dizendo que os mongóis, por exemplo, não relatam coisas assim. Lembrei que há muitos textos sagrados por aí, como as Vedas, o Corão, etc., e que dar privilégio à Bíblia é fruto de acidente cultural e deliberação irracional, não de reflexão racional.
Reclamei, por esses motivos, que o nome da palestra é equívoco, pois Nahor se ateve ao cristianismo, e não só ao cristianismo, à sua vertente particular que implica criacionismo. Sugeri que da próxima vez ele usasse “Ciência e religião bíblico-cristã são compatíveis?”.

Relatei também que o hábito dos judeus de não cumprimentar mulheres por elas estarem “sujas” por causa da menstruação (como diz o Torá) é inaceitável e não tem bases na microbiologia. Isso refutou o que ele disse anteriormente, que a Bíblia antecipou a microbiologia em recomendações de higiene.

Incentivar o fanatismo religioso, privilegiar a Bíblia injustificadamente e fingir isenção na análise de religião e ciência: isso foi o mau.

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Por fim, apontei que Nahor, durante a palestra, usou apelos à autoridade, que consistem numa falácia lógica.
Chamei a atenção para o fato de que o Deus de Aristóteles não é o Deus do cristianismo, mas é derivado do Theos de Platão, que não é um artífice (um criador), mas uma espécie de “máquina” intermediária entre as idéias e os objetos. Nahor concordou.

Nahor, durante a palestra, citou muito Newton – tanto como um apelo à autoridade quanto como um exemplo de suposta conciliação entre ciência e religião. Eu disse a ele que Newton tentou calcular a profundidade do inferno em que sua mãe se encontrava, e que isso era literal para Newton, portanto Isaac Newton não é a pessoa mais adequada para conciliar ciência e religião.

Lembrei a Nahor que durante a palestra ele diversas vezes usou argumentos de incredulidade pessoal. Por exemplo, ele disse não acreditar que o experimento de Urey e Miller concedia evidências à abiogênese primordial, porque nunca tinha visto uma gradação entre aminoácidos, proteínas e seres vivos nos estratos geológicos.

Eu disse que se alguém colocar moléculas orgânicas num recipiente fechado com água, depois de pouco tempo a molécula seria degradada e isso pode ser explicado pela segunda lei da Termodinâmica. Disse que ele deveria levar em conta que os animais fossilizados eram uma minoria ínfima, e que a partir da observação dessa minoria é possível imaginar o que acontecia a todos.

Nahor disse ter preferência pelo indutivismo, e eu citei Karl Popper, que refutou o indutivismo do próprio Newton, porque as hipóteses que chegaram a Newton podem ter tido origens místicas, e não origem nos dados observados como alega o próprio Newton.

Popper mostrou que as hipóteses científicas podem ter qualquer origem, inclusive religiosa, e que o que as refuta e as descarta é a observação empírica.

Nahor, finalmente, passou adiante o relato sobre a visita de Dobzhansky ao Brasil e a suposta conversa que Dobzhansky teve com uma aluna de História Natural. Que Dobzhansky teria dito que “foi longe demais”. Eu convidei todos a ir longe demais: visitar o laboratório de biologia evolutiva da UnB, onde trabalho, e entrar em contato com a Teoria da Evolução.

Desafiei o Criacionismo e o Design Inteligente a explicar os dedos vestigiais que algumas cobras têm, bem como a possibilidade de aborto de fetos Rh+ em mães Rh-, e a semelhança de carpelos e pétalas com folhas. Principalmente explicar onde está a inteligência criadora nesses fatos, que evidenciam claramente a evolução – e o histórico “hábito” de trabalhar a partir de coisas já existentes: arcos branquiais viraram mandíbulas, e o osso sesamóide radial virou polegar no panda.

Não conseguir defender o Design Inteligente e o Criacionismo com coerência na Ciência e na Religião: isso foi o feio.

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