23rd of fevereiro

Livro, Um Delívrio


Com o perdão do trocadilho, vim comentar o que vejo há muito tempo e considero um preconceito popular. Vou batizar de falácia felipenetiana. É a noção de que quantidade de leitura significa qualidade de leitura. Vemos a falácia felipenetiana também implícita nos vários youtubers que fazem vídeos na frente de uma estante lotada. (Não que eu seja contra, é bonito mesmo.)

Ler muito pode ser ruim. Mais importante que ler muito é ler com diversidade. Ler muito não é problema se é para distração com romances, ou com sequências de fatos pouco consequentes, ou seja, se é sua versão de passar horas vendo séries ou vídeos, que você não finge que é necessariamente melhor que outras formas de distração. O problema é a insinuação da falácia felipenetiana que ler muito é ler melhor, ou que vai te tornar uma pessoa mais inteligente e autônoma no pensamento.

Com frequência, quando eu critico um autor, um de seus fãs alega que eu tenho que ler ou a obra inteira, ou um livro inteiro antes de criticar. Minha resposta é que isso não é necessário, se eu sigo um método de amostragem representativa no que ele escreveu.

Além disso, sou preguiçoso, confesso. Não leio Dune por isso, apesar de achar o universo de Frank Hebert bem interessante. Por causa da preguiça uso esse método de amostragem, que tem o benefício de ter validação científica. Na ficção, só Harry Potter e Dostoievsky eu li vorazmente. Ler de capa a capa é perfeccionismo bobo. Então, leia só uma parte, mas não só a parte do começo. Para se permitir fazer isso você precisa perder esse preconceito perfeccionista bobo de ler do ISBN até o “impresso em papel Bíblia por Gráfica Fulana”.

Claro que, assim como no uso da amostra dentro da ciência, sua opinião vai depender da qualidade da sua amostra. Três páginas iniciais vai geralmente ser uma amostra viciada do resto. Daí a sugestão de introduzir um elemento aleatório. E aumentar a amostra também. Até que ponto? Depende, claro. Mas 10% é suficiente para qualquer livro, talvez até demais se é uma ficção que não está te ganhando. Outra dica para melhorar a amostragem é olhar citações célebres do autor ou da obra. Se você concordar com os fãs que aquilo é realmente bom, é um sinal de que talvez valha a pena aumentar a amostra, ou, se assim quiser, finalmente ler tudo. Só não entre nessa onda generalizada de desonestidade sobre o quanto se lê. Todo mundo sabe que é mentira.

Se eu acho que leio menos do que eu deveria ler? Sim, eu acho. Não conheço pessoa racional e interessada em conhecimento que não se flagele com isso. Moral da história, mesmo assim: não sou vaca para consumir quilos e quilos de celulose todo dia.

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