12th of November

Como descobrir se um comportamento “é genético”?


Quer saber se há genética num comportamento? É surpreendentemente fácil.

Primeiro, amostre aleatoriamente as pessoas, anotando genótipo e ambiente.

Digamos que há três genótipos e três ambientes, como nesse slide de uma palestra minha; e que o comportamento é contável. Pode ser, por exemplo, quantas vezes a pessoa rói as unhas num mês. Pode ser quantas vezes ao dia pensa em estrangular a sogra. Não importa.

Agora precisamos só de mais dois conceitos estatísticos bem básicos. Um é a média, que todo mundo sabe como calcular. A média é a soma das medidas da característica de interesse de cada elemento de um determinado grupo dividida pelo número de elementos no grupo. Como se vê no slide, vamos precisar de médias parciais, agrupadas por genótipo e ambiente, e da média total.

O segundo conceito, um pouco menos conhecido mas não menos importante que a média, é a variância. Enquanto a média mostra uma “tendência central” nos dados, a variância foi inventada para se ter uma medida de como os dados se espalham em torno dessa média. Então você vai precisar literalmente calcular a distância (ou desvio) de cada dado em relação à média. Então subtraia a média de cada elemento: elemento – média. Você vai notar que uns elementos são maiores e outros menores que a média, então algumas dessas distâncias serão negativas, e outras positivas. Tudo o que nos interessa é o número absoluto de distância do elemento à média, não se é negativo ou positivo. Para “nivelar” todas as distâncias, portanto, vamos elevar todas ao quadrado, o que elimina o problema de algumas distâncias serem negativas. Somando todos esses quadrados, ainda precisamos calibrar o cálculo pelo número de elementos, dividindo a soma por esse número como fazemos com a média. Por uma tecnicalidade estatística que não vem ao caso explicar agora, subtraímos 1 desse total de elementos antes de usá-lo no denominador da fração.

Como podemos fazer com a média, também podemos calcular “variâncias parciais”, uma genética e outra ambiental. Para fazer isso, repetimos o procedimento que usamos acima para calcular variância total do fenótipo, mas em vez de subtrair a média total dos elementos, vamos subtraí-la das médias parciais genéticas e depois das médias parciais ambientais (médias das linhas e das colunas).

Temos agora três variâncias: uma (Vp) nos diz o quanto os dados variam em torno da média total, outra (Vg) nos diz o quanto as médias dos estados genéticos (genótipos) variam em relação à média total; e outra (Ve) o quanto as médias para cada ambiente variam em torno da média total.

Como todas as três medidas vêm dos mesmos dados, elas têm uma relação muito simples: Vp = Vg + Ve.

Qual é a unidade desses valores? É o quadrado da contagem do fenótipo comportamental do nosso interesse (“estrangulamentos imaginários de sogra ao quadrado”). Não é uma unidade que diz por si só alguma coisa interessante sobre o comportamento. No fundo, essas estatísticas são só formas didáticas de entender o que os dados estão mostrando, porque nós somos seres burros demais para perceber isso só olhando para eles.

Mas não importa a unidade de medida se for possível expressar como uma fração: se você dividir a variância genética (Vg) pela variância total (Vp), obterá uma fração interessante, que é o quanto da variância total pode ser atribuído à genética. A essa fração, que é um número entre 0 e 1 facilmente convertido em uma porcentagem (x100), nós damos o nome de “herdabilidade”.

Como há formas mais detalhadas de calcular a herdabilidade, esse modo de calcular dá numa herdabilidade “em sentido amplo”. Podemos pensar na herdabilidade como uma ferramenta de prospecção inicial da participação genética numa característica que varie entre indivíduos de uma dada população. Note que é importante que varie, pois a herdabilidade é totalmente baseada numa medida da dispersão (variação) dos dados, que é a variância.

Por isso, quando você pergunta a um geneticista “isso é genético?”, melhor seria perguntar “quanto de variação genética nas prováveis causas dessa característica existe?” O número provavelmente já existe. Para o QI, a herdabilidade é de 50% a 80% (surpreendentemente, a herdabilidade do QI aumenta com a idade, ou seja, os indivíduos dependem mais da genética, não menos, nas habilidades cognitivas quando ficam mais velhos).

Um resultado já replicado à exaustão na genética do comportamento é que a herdabilidade nunca é 100%, mas também nunca é 0%. Não existe comportamento completamente livre de influência genética. O geneticista Robert Plomin até desafia os que negam a produzir exemplo de comportamento sem componente genético.

Já a afirmação de que determinado comportamento humano é “construção social”… qual é o método mesmo?

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