2nd of August

Dualismo Material, ou Apresentando O Grande Ininteligível


Abigail Hensel e Brittany Hensel são duas moças bem humoradas, cheias de vida, nascidas em 7 de março de 1990 em Minnesota, Estados Unidos.

Cresceram em New Germany, Minnesota, estudaram em escola luterana, andam de bicicleta, digitam rápido o teclado, correm, e recentemente conseguiram carteira de motorista. São duas personalidades distintas.

Um detalhe sobre Abigail e Brittany é que as duas moças compartilham um só corpo, e a aparência exterior é de um corpo humano dotado de duas cabeças.

Vídeo.

Cada lado desse corpo é controlado por um desses dois cérebros.
O corpo funciona muito bem, tem por exemplo três rins, dois intestinos, três pulmões, um fígado, um par de ovários, um útero, uma bexiga, uma vagina e uma uretra; e só passou por uma cirurgia preventiva quando Abigail e Brittany estavam com 12 anos de idade.

Isso não é evolução, mas dá um exemplo de como a natureza pode ser flexível.
Tão flexível, que, quem sabe, em milhões de anos um réptil pode virar um ser humano.

Há pessoas que, imersas numa sociedade teísta como a brasileira, diriam que seria injusto culpar “Deus” (o deus dos cristãos) pela condição das gêmeas. Isso com a idéia de que essa condição é necessariamente ruim ou horrenda.

Caso fosse de fato uma condição ruim e horrenda, não é injusto culpar uma certa definição de “Deus” que diz que este ser é ao mesmo tempo perfeitamente bom, onisciente, onipotente, e onipresente.
Como já indicou Epicuro, ao menos um problema ético emana dessa definição, e a única resolução para a questão do mal de Epicuro, à parte negar a existência de tal ser, seria mudar este conceito (definição). Isso não é uma falsa dicotomia, dado que a mudança de definição traz em si todas as outras alternativas à negação.

Mas a condição das gêmeas não é necessariamente um tormento. Achar que Brittany e Abigail sofrem um tormento é ignorar que elas vivem muito bem, como eu já informei. E achar que a condição delas é horrorosa é impor sobre elas uma estética própria, que é irrelevante a elas.

Pensar que a condição das duas implica um tormento horroroso é ter um demasiado centrismo em si mesmo, ao ponto de aplicar a outrem indevidamente os seus valores. Mas aplicar indevidamente valores a outrem nunca pareceu ser um problema entre religiosos, não é?

Muitos religiosos justificariam a condição de Brittany e Abigail por um argumento liberal de que o livre arbítrio não é atributo apenas dos indivíduos, mas também um atributo da própria matéria.

Me parece forçoso aplicar uma dicotomia implícita de determinismo / livre arbítrio à matéria, dado que ela não é só uma coisa nem outra. E me parece que ao menos que uma coisa muito louca esteja acontecendo aqui, deixar a Natureza chafurdar em si mesma promiscuamente, de modo a originar uma emergência de contingências que de forma não-determinística geram uma mente (ou duas mentes num corpo só, como é este caso) é incompatível com saber de antemão que esta mente surgiria, com todas as suas particularidades e limitações que podem determinar toda a sua trajetória (inclusive idéias de pecado, de beleza, de bem e mal, etc.).

E quanto à opinião dos espíritas, segundo a qual a condição dos corpos é resultado do que fez o espírito em vidas passadas?

Não tenho nenhuma opinião firme sobre isto, mas me basta desconfiar que a memória é algo que se perde na morte do corpo e é irrecuperável. Me basta desconfiar também que a personalidade não é herdada mas sim construída pacientemente durante a vida.
É lamentável que existam sistemas de crença que defendem que a moral deve ser apreendida de um grande teatro cósmico que me lembra os experimentos de Pavlov ou de B. F. Skinner.

Esta plasticidade da vida, que permite casos como o dessas irmãs americanas, é de certa forma uma pista de que o universo não está sob o controle de um deus. Por que não considerar, como deveria fazer uma mente racional, que essa possibilidade existe e não é fraca?

Me parece anti-racional descartar de antemão a hipótese de não haver qualquer tipo de divindade a nos olhar.

Desviantes existem porque as “leis” naturais permitem exceções, principalmente aquelas que se referem a entidades complexas como animais. E pessoas “anômalas” existem porque o homem é só mais um animal, e é uma amostra ínfima do universo que o cerca.

Pergunto uma coisa importante: Qual é o motivo para supor qualquer espécie de antropocentrismo ou antropomorfismo ao universo/natureza?

Assim como as gêmeas, o Universo não merece que enfiemos nele os nossos valores.

Aliás, qual é o motivo de propor esse deus ouroboros, uma cobra que devora a si mesma pelo rabo? (Uma entidade que tem características – como uma mente – que se originam de causação distal em relação a certos fenômenos, que é capaz de criar ou alterar esses próprios fenômenos. Ou seja, há evidências de que a mente humana surgiu no decorrer da evolução, e a evolução é um processo biológico que depende da existência da matéria, então por que creditar o atributo mente a um deus anterior à própria matéria? Esse ciclo que se completa com a mente divina criando a matéria que é o que eu chamo de deus ouroboros, comendo seu próprio rabo.)

Para os que pensam que Deus existe e é intangível e inefável, entretanto criam para ele altares, há uma expressão de Peter Medawar, que ele usa num comentário errôneo sobre os sonhos (em Induction and Intuition in Scientific Thought):

“Utter nonsensicality”, que traduzo como “Ininteligibilidade ulterior”. É isso que penso ser o atributo mais comum de qualquer coisa que consideremos sob a luz das capacidades de nossas mentes. Tudo isso que me cerca é de uma ininteligibilidade ulterior.

Sobre tudo isso que me cerca, que às vezes chamo de Universo, apenas o tolero, e o contemplo. Não merece altares, pois não cultuo algo ininteligível. Cultuo o que compreendo, ou o que mesmo não compreendendo me é acessível. Em vez de altares, sou todo dedicação a quem ou o que penso que tem merecimento: ciência, filosofia, Epicuro, Carl Sagan, Bertrand Russell. Têm merecimento porque tornam o mundo menos ininteligível para mim, portanto menos digno do meu temor.

(Não estou falando em apreciação estética, isso eu tenho para com as coisas independente de sua ininteligibilidade.)

Para mim, o grande erro dos místicos é fingir para si mesmos que estão desfrutando de gotas de compreensão, quando na verdade estão se perdendo em labirintos de antropização do que não é antrópico.

O que é antrópico, o que é cogito ergo sum, é uma amostra limitadíssima de tudo o que me cerca. Portanto, concluo que é no mínimo altamente fadado a equívoco aplicar essa amostra ao resto do universo, no sentido de pensar que o universo tem de conter em seu cerne ou ser governado por algo dotado de razão, mente, e conceitos de estética e ética.

Em termos mais técnicos (não que eu esteja fazendo ciência aqui), tentar afirmar “Deus existe” é algo que vai cair lá onde se aceita a hipótese nula na maioria das vezes, e mais afastado da hipótese alternativa quanto mais a definição de “Deus” for próxima da definição de “Homem”.

Abigail, Brittany e o Universo estão em seu pleno direito: apenas são. Se são bonitos ou feios, bons ou ruins, não compete a nós decidir. Mas para mim, sempre há beleza na autonomia, na complexidade e na emissão de luz própria. Não somos capazes de compreendê-los totalmente. Mas podemos ouvir o que têm a dizer, por mais diferentes que sejam de nós.
(Constelação de Gêmeos)
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