6th of March

Dogmatismo: um mal


Originalmente publicado como comentário na comunidade virtual Debates +.

___

Eu não direi que religião tem um saldo negativo no bem estar da Humanidade, porque as condições necessárias e suficientes para algum sistema de crença ser chamado de religião são largas demais.

Por exemplo, aqui no Ocidente costumamos chamar o Daoísmo (ou Taoísmo) de religião.

Nos meus recentes estudos, não percebo grandes diferenças entre os escritos fundacionais do Daoísmo e os escritos fundacionais do que chamamos de Filosofia.

Se por um lado ensina-se que a Filosofia nasce quando a razão expulsa os mitos do campo do conhecimento e da ética – e o Daoísmo não tem elementos mitológicos consideráveis antes do século III da Era Comum – manteve-se acesa a chama da mitologia disfarçada de Metafísica em filósofos tão modernos quanto Kierkegaard.

Pois não há outro nome mais apropriado que mitologia para a insistência ocidental em chamar crenças injustificadas (ou argumentadas falaciosamente, como acontece em Anselmo da Cantuária) de filosofia metafísica.

Quando Parmênides estabelece o Ser e o Não-Ser, quando Empédocles explica a origem dos seres vivos por um processo de evolução a partir do caos, já estão deixando para trás, destemidamente, os dogmas da mitologia.

Quando Platão se aproveita da doutrina do fluxo e decadência de Heráclito de Éfeso, para dizer que a Humanidade deriva de homens perfeitos semelhantes a deuses que foram decaindo, e que o mundo sensível é o resultado do esforço criativo de um Demiurgo intermediário entre o mundo das ideias e o mundo sensível, o que ele faz é reintroduzir a mitologia a um campo do qual ela já estava banida. Também Leucipo, Demócrito de Abdera, e Epicuro de Samos voltam a reiterar que filosofia é banir a mitologia para longe do mundo.

Eis que, no Oriente, Zhuang Zi rejeita que imagens mitológicas sejam fabricadas como máscara para o Ser ou a base da realidade, o Dao (ou Tao), algo que “não tem forma nem faz nada”, que está “na formiga, na telha quebrada, no excremento, na lama”.

E similar é o pensamento de outros mestres chineses como Lao Zi, Lie Zi, e Yang Zhu.

O que quero apontar com isso é que toda tentativa honesta de estabelecer conhecimentos e éticas na história da humanidade dependeu do afastamento dos mitos.

Se é daí que vem a filosofia, de onde vêm então esses mitos que tentamos afastar?

Eles vêm da tradição sendo insuflada em tenra idade nas crianças. Vêm também da fácil conclusão de literalidade da postura intencional (termo de Daniel Dennett), uma forma de pensar útil e proveitosa adotada pela mente humana para tentar compreender tanto outras mentes de um grupo humano quanto o comportamento de mentes animais, e de sistemas físico-químicos do mundo sensível.

Vêm de uma conclusão prosopopaica sobre o mundo: mentes (humanas) controlariam o universo e manobrariam nossas vidas.

Os mitos morrem na comunidade científica, essa herdeira do pensamento sistematizado dos filósofos.

De um lado e de outro, como a História nos mostra, o dogmatismo floresceu e frutificou com resultados deploráveis. Mas se há um lado em que o dogmatismo é mais bem vindo e tem maior sucesso, sem grandes dúvidas é a mitologia.

Digo, então, que se há algo claro e distinto no pensamento humano que eu chamo com segurança de MALÉFICO, este é o DOGMATISMO.

Ele nos traz dor, quando tribos indígenas da Amazônia acreditam piamente que filhos gêmeos devem ser enterrados vivos para sanar problemas do grupo.

Os dogmas nos trazem terror, quando algumas pessoas estão plenamente certas do que encontrarão após a morte, então não pestanejam em se lançar contra prédios, explodir em restaurantes, matar médicos de clínicas de aborto, e guilhotinar desafetos políticos em nome do suposto bem maior do establishment político favorito.

Os dogmas nos empobrecem: ao termos de ouvir homens leigos falando sobre o que não entendem pela mera autoridade atribuída a eles; ao termos de ceder nossos impostos para salvar empresas em crise; ao termos de fabricar nossa música apenas em dodecafônicos; ao termos a necessidade de explicar para alguém que comportamentos não-heterossexuais não são necessariamente patologias que precisem de cura.

Após quase 22 anos de existência nesse planeta, se há algo que posso afirmar ter aprendido com alguma segurança, é que o livre-pensamento é bom e o dogmatismo é ruim.

Porque o livre-pensamento tenderá a ser cético, enquanto o dogmatismo tenderá a ser crédulo.

Porque o livre-pensamento tenderá a optar pela empatia e a constante reavaliação das decisões morais, enquanto o dogmatismo tenderá a optar por decálogos pétreos.

Porque o livre-pensamento abraçará a história como ela é, enquanto o dogmatismo tentará maqueá-la da forma como gostaria que ela fosse.

Eis as razões por que eu tenho a tendência de rejeitar religiões e abraçar a livre prospecção filosófica.
Um elemento dogmático sempre está presente nas religiões. Entretanto, há aquelas mais preocupadas com conduta, com moral, do que com afirmações sobre a natureza do mundo. O Confucionismo é assim. Mas o Confucionismo tem absurdos como o I-Ching.

É uma questão de balanço entre elementos da religião. E eu digo que o pior ingrediente da religião é o dogmatismo, assim acho que identifico melhor o que há de ruim na religião.

Categories:  Blog

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *