8th of August

Contra ou a favor do aborto?



A favor desta escolha nas primeiras semanas, antes da formação do sistema nervoso.

Até este estágio o embrião não é diferente de um punhado de células quaisquer, como as que saem da pele a cada vez que você passa a mão no rosto, como os gametas que são jogados fora nas ovulações sem implantação e ejaculações sem fecundação.

O potencial de gerar uma pessoa não pode ser argumento para proteger o embrião porque cria uma assimetria com o modo como tratamos estas outras células, principalmente os gametas que jogamos fora todos os dias, conscientemente ou não. Toda célula tem informação genética potencial para formar uma pessoa completa. Se é crime abortar, deveria ser crime roer as unhas ou arrancar fios de cabelo.

Quanto a religiões como a Católica, que se apressam tanto em condenar o aborto, é bom lembrar que são fundadas em textos sagrados de épocas em que os mecanismos de reprodução não eram compreendidos. Os padres nada sabem de desenvolvimento embrionário para darem palpite no assunto.

Quanto à afirmação absurda de que “a vida” se forma na fecundação, no encontro entre um ovócito II e um espermatozóide, é bom que se saiba que o ciclo da vida é ininterrupto e não tem fase morta. A vida, desde que surgiu neste planeta há 4 bilhões de anos, tem somente dois estados – extinção e continuidade; e nós estamos ainda na continuidade, sem estágios mortos no ciclo de gerações de adultos e gametas desses adultos.

Quanto à outra afirmação frequente dos “pró-vida” (vida de quem?), de que o espírito é implantado no embrião que se aborta, é responsabilidade deles demonstrar que tal coisa chamada “espírito” sequer exista. Como dizia H. L. Mencken, se os outros animais não têm espírito, parece que eles não sofrem inconveniente nenhum com isso.

Espíritos não existem até que alguém prove o contrário. As ciências do cérebro e da mente já demonstraram que nossas capacidades tidas como mais “humanas” acontecem em nosso cérebro. Basta uma lesão cerebral para alguém mudar seu comportamento moral, ou perder a capacidade de memorizar, ou perder a capacidade de reconhecer rostos e falar.

Basta beber uma dose de álcool para alterar sensivelmente a consciência.

Logo, estabelecer o começo do sistema nervoso como o ponto em que um embrião merece gozar de direitos de cidadão é cientificamente correspondente e moralmente cogente.

Resta aos outros demonstrar o que acontece com alguém que tem lesão no “espírito”, ou mesmo demonstrar que há fantasma na máquina. Até lá, seus argumentos contra o aborto de fetos em estádios iniciais de desenvolvimento são apenas fajutos e em plena circularidade com dogmatismos irracionais.

É irônico que as pessoas que se dizem “pró-vida” não se importem nem um pouco em proteger a vida de jovens mulheres com gravidez precoce cujas perspectivas futuras são sensivelmente melhoradas caso sejam submetidas a uma intervenção médica para interromper a gravidez logo que o embrião dá sinal de implantação no útero. Em algumas abortar é questão de vida ou morte, como aquela menina de 9 anos, abusada sexualmente, cuja mãe e cujos médicos foram excomungados pela Igreja Católica por salvar a vida dela interrompendo a gravidez.

A boa notícia é que, da mesma forma que nenhum incoveniente é sofrido por quem não tem espírito, também absolutamente nada de relevante acontece com quem sofre excomunhão (exceto talvez o aumento das fofocas das beatas escandalizadas).

E outra coisa, se foi um tal Deus quem inventou a gravidez e a implantação de embriões, ele é o maior abortista que a História já viu, porque a proporção de gravidezes que resultam em aborto espontâneo pode chegar a 25% (Wilcox et al. 1999, New England Journal of Medicine – http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJM199906103402304 ).

Abraço,
Eli Pergunte-me qualquer coisa.

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