26th of julho

Em defesa da indecidibilidade


Nós ainda não sabemos o que é a consciência, do que ela é feita, como ela é gerada, como ela funciona. Há quem defenda que jamais saberemos. Isso não significa que devemos desistir de debater a respeito nem impede que saibamos que algumas respostas são mais erradas que outras. Ter vontade de encontrar a verdade não implica que você já a tem, nem tira da sua frente os obstáculos a serem transpostos para obtê-la. E alguns obstáculos devem ser, sim, intransponíveis, e te deixam com duas ou mais respostas entre as quais, em vista do obstáculo, é impossível decidir.

Isso tudo é muito fácil de aceitar. Mas em assuntos mais mundanos, que têm a ver com ética, parece que nós temos uma forte tentação a não reconhecer a indecidibilidade. Exemplos:

– Woody Allen é um monstro abusador de crianças, ou Mia Farrow influenciou sua filha supostamente abusada (Dylan Farrow) a denunciá-lo para se vingar dele por tê-la trocado por… outra filha (Soon Yi), adotiva, na idade de consentir? Muita gente, especialmente por compromissos ideológicos, quer fingir saber a verdade. Alguns antifeministas querem fingir que sabem a verdade para poder dizer “estão vendo? Mais uma acusação falsa nesta perseguição cultural feminista contra homens!”, enquanto algumas feministas querem dizer “estão vendo? Mais um predador machista, devemos acreditar nas vítimas, ouvir e acreditar”. Pois estão ambos os campos errados: não devemos concluir que algo é verdade só porque confirma nossas narrativas ideológicas do que ocorre na sociedade. Ter razão neste caso significa ter acesso a evidências fortes, e não escolher o que é “verdade” porque afaga nossos pressupostos. O caso é indecidível. Allen ser inocentado pelo sistema judicial por falta de provas não é a mesma coisa que ele ser de fato inocente, e ser acusado por gente que se encaixa em perfis de vítima não quer dizer que é de fato culpado. Quem gosta e quem desgosta de Woody Allen terá de viver com a dúvida, se tem honestidade intelectual. Neste caso, certeza é para quem é intelectualmente desonesto e ideologicamente motivado. Até, é claro, que surjam evidências conclusivas, o que se torna cada vez menos provável com a passagem do tempo.

– Há algum tempo, uma decisão judicial obrigou uma mulher a fazer uma cesariana, pois a opinião médica era que se ela não fizesse a cesariana o bebê morreria e talvez ela também. A mulher se opunha fortemente a ser submetida a isso, mas foi submetida pela autoridade do Estado com a justificativa de proteger o direito à vida do pequeno cidadão que ela trazia dentro de si. Diferentes intuições entram em conflito, aqui: autonomia individual deve ser preservada, mas também deve ser preservado o direito à vida de bebês já sencientes, como é o caso na fase final da gestação. Radicais libertários olharão o caso e já concluirão: “mais uma vez o Estado abusando de poder e interferindo na autonomia individual”. Radicais leitores de Foucault concordarão por motivos ligeiramente diferentes: “mais uma vez o biopoder esmagando a dignidade individual em função de uma narrativa médica que é supostamente verdadeira”. Já quem tem muita fé na autoridade médica dirá “lá vem os apologistas da ignorância tentando atropelar a expertise médica e botar vidas em risco”. Sabem o que eu acho? Que era indecidível. Que a opinião médica podia estar errada, mas tinha que tomar uma decisão que aumentasse a probabilidade de sobrevivência de gestante e bebê. Que a mulher estava certa em rejeitar que uma autoridade interfira no seu direito de fazer com seu corpo o que bem entende, que ela poderia estar certa em ver riscos em ser submetida a uma interferência invasiva, que ela talvez soubesse do que estava falando quando duvidou da opinião médica. Dependendo, é claro, dos motivos objetivos para dar razão à opinião médica ou à gestante, talvez fosse decidível. Mas na ausência desses detalhes, é indecidível. 

Temos que perder o medo de expressar dúvida nos casos indecidíveis em que a dúvida é a posição mais sensata que se pode ter. Claro que às vezes, quando somos nós os envolvidos, temos que tomar uma decisão rápida e somos forçados a decidir. Mas devemos deixar claro que havia dúvida quando decidimos. Se acertamos, não vai ser muito relevante que estávamos em dúvida, mas admitir que havia tem o efeito humilde de aceitar que o acerto não foi um completo mérito. Se errarmos, a admissão da dúvida aliviará ao menos em parte a nossa culpa, pois pode ser que, diante das informações disponíveis e da limitação de tempo, tenhamos feito o melhor que podíamos, e se erramos não foi por má fé nem ignorância, mas por termos sido forçados a decidir no que era indecidível.
25th of julho

In Dubio Pro Hell: dois erros do ativismo LGBT


Ocasiões em que o movimento LGBT errou no Brasil, na minha opinião:
– Quando a maioria concordou que Levy Fidélix incitou a violência. Eu tive discussões épicas sobre isso com gente que respeito muito, mas que continuo acreditando que está errada. O que Fidélix disse naquele debate de candidatos à presidência foi homofobia, foi ódio, foi tudo de feio, mas não foi incitação à violência. Eu vi de tudo para forçar a barra nesse sentido, o que eu achei mais alarmante foi uma tentativa de alargar o conceito de “violência” do senso comum para algo que inclua palavras desagradáveis. Sabe como isso parece para um observador não envolvido? Que o movimento LGBT, quando é conveniente, muda o sentido das palavras, com o propósito de, na ausência de lei criminalizando discurso homofóbico, punir discurso homofóbico pintando-o como outra coisa: incitação à violência. Contei este caso para a filósofa Susan Haack, que recentemente publicou um livro em filosofia do direito (“Evidence Matters”). Ela concordou: o que é contemplado pela lei é violência física, é incitação a socos, linchamentos, pontapés, e num país em que linchamentos ainda são um problema é muito importante que a lei coíba isso. Esticar o conceito de “violência” para incluir palavras preconceituosas é uma estratégia ruim.
– O exemplo a seguir eu jamais dei em público. Eu guardei pra mim. O que eu tenho feito ultimamente, no entanto, é não guardar mais pra mim, pois isso é autocensura. Eu não posso aplicar um princípio ético para meus adversários e outro para meus confrades e comadres, o nome disso é sim hipocrisia. Vamos ao caso então:
Há uns dois anos atrás Silas Malafaia (meu queridinho) reagiu ao uso de fotos de modelos posando de forma similar a santos católicos na parada LGBT dizendo que era para os católicos “caírem de pau em cima deles [ativistas LGBT]”. No contexto está óbvio: o “cair de pau” era força de expressão. O próprio Malafaia se defendeu assim: disse que ele é um carioca que usa muitas gírias (meu caso favorito é quando ele disse que iria “funicar” o presidente da ABGLT, o que soa perigosamente próximo de “fornicar”), que não estava dizendo para ninguém literalmente bater em ninguém. Não era “ato falho”, era metáfora, força de expressão. E qualquer generosidade interpretativa vai corroborar isso. Mais uma vez, uma boa parte dos ativistas (não sei se foi maioria, pois não vi resistência a essa interpretação) alegou que Malafaia estava incitando a violência e deveria ser punido.
Generosidade interpretativa é outra coisa que não devemos aplicar apenas a nossos confrades e comadres. Uma coisa que eu vejo muito entre ativistas é que, em vez de analisar o caso, fazer um “menu mental” de interpretações e considerar quais delas são mais plausíveis, a estratégia é a seguinte: escolhe-se a pior interpretação possível, descarta-se irracionalmente e dogmaticamente qualquer interpretação alternativa, e parte-se para briga com qualquer pessoa que discordar. Eu já fui alvo disso: uma vez postei uma piadinha para divertir amigas lésbicas em que duas mulheres quase se beijavam e a legenda dizia “nessa ceia não vai ter peru”. Uma piadinha de natal. (E sim minhas amigas gostaram.) Imediatamente uma amiga trans caiu em cima, e mais ativistas trans foram se juntando a ela para insistir que a única interpretação possível da piada é que o propósito dela era afirmar que mulheres nascidas com pênis não são mulheres, e que portanto eu era transfóbico por publicá-la. Como eu disse: escolhe-se a pior interpretação possível, e parte-se para a briga contra qualquer outra interpretação, especialmente as mais plausíveis. Eu chamo essa estratégia de “in dubio pro hell”.
Eu também já fiz isso. Uma vez, eu interpretei uma notícia como sexista contra Dilma Rousseff. Amigos e amigas apareceram para criticar a minha interpretação. Eu li as críticas e as aceitei, e reconheci que eu estava saltando à pior interpretação possível sem estar justificado. Eu li e refleti sobre as críticas sem considerar primeiro qual era o gênero, a orientação sexual, a cor etc. de quem estava me criticando, mas considerando apenas se o que estavam dizendo era bom argumento, se era plausível, se era verdadeiro. Coisa que está infelizmente cada vez mais fora de moda. Se não fossem essas pessoas, e se não fosse eu ter alguma (mesmo que às vezes pouca) abertura para críticas, hoje talvez eu seria um ativista “justiceiro social” dão doido quanto os que eu costumo criticar.
23rd of julho

Meu comentário que Juremir Machado da Silva censurou


Aguardo seu Magnum Opus de filosofia da ciência ou seu
  bestseller que continuará relevante depois de 30 anos, Juremir.
Fiquei “surpreso” em descobrir hoje que Juremir Machado, colunista do Correio do Povo, fechou os comentários do post em que ele critica Richard Dawkins (veja aqui). Juremir foi bastante ácido com o cientista britânico: “Basta de Dawkins, Modas (sic) passam rápido.”. Pergunto-me se é classificável como moda que “O Gene Egoísta” continue vendendo bem mais de 30 anos após ter sido escrito. Mas OK. Juremir, que deve estar com dor de cotovelo por causa da atuação de Dawkins contra as religiões (contra a qual eu também tenho críticas), resolveu apelar para Paul Feyerabend na crítica dele, enquanto acusava os outros de “modismo” intelectual. Aqui vai meu comentário que Juremir censurou, se recusando a publicar, que talvez motivou fechar os comentários do post:
“Sabe outra moda intelectual que está na hora de passar? O pós-modernismo. Essa neo-ortodoxia que quer matar as ideias de objetividade, imparcialidade e verdade em nome de ideologia. Acusam ciência de ser apenas ideologia porque é isso o que têm, e para quem só tem martelo, tudo é prego.
Em “A estrutura das revoluções cientificas”, segunda edição, Kuhn escreveu um posfácio para tentar responder a seus críticos e se afastar de quem estava usando sua obra para cantar loas ao relativismo epistemológico (a ideia defendida na citação de Feyerabend que você usou). Nesse posfácio, ele citou uma crítica de sua obra que disse que havia uma dúzia de sentidos diferentes para a palavra “paradigma”, pelo uso da qual ele é famoso. Ele então tentou reduzir essa confusão a dois sentidos, mas não fez muita questão de continuar usando a palavra. No modismo pós-modernista, o que mais tem é gente falando “paradigma”. Alguém leva em consideração a confusão por trás disso? Pouca gente. Falar em “paradigmas” soa inteligente, afinal de contas.
‘Os textos de Feyerabend contêm numerosos enunciados que são ou ambíguos ou confusos, que às vezes terminam em ataques violentos contra a ciência moderna: ataques que são simultaneamente filosóficos, históricos e políticos, nos quais julgamentos sobre fatos são misturados com julgamentos de valor’. Alan Sokal & Jean Bricmont, em ‘Imposturas Intelectuais’.
A filosofia da ciência não parou em Feyerabend, Kuhn e Popper. Na verdade, pode-se alegar que nenhuma das ideias pricipais deles é aceita hoje pela maioria de quem trabalha com filosofia da ciência na tradição analítica (a que é mais avessa ao pós-modernismo).
Então, que dizer? Dawkins é um bom divulgador de ciência. Mais que bom, na verdade. Seu ataque pessoal a ele é uma baita irrelevância, e se tem alguém aqui usando modismo ideológico, é você.
Abraço,
Eli Vieira”

* ATUALIZAÇÃO *

Me confundi por um momento achando que na verdade eu não tinha sido censurado pois estava vendo meu comentário no Firefox mas não no Chrome. Na verdade eu fui censurado, sim. O Firefox é que salvou em cache meu comentário, que está “aguardando moderação” desde maio. Veja no print abaixo.


4th of abril

Sobre depressão, Andreas Lubitz e Luiz Carlos Prates


Por causa dessa mensagem republico o texto abaixo no blog.

A ideia de que portadores de depressão não têm responsabilidade moral é claramente absurda: se uma criança está sob a responsabilidade de alguém com depressão, e por causa da apatia depressiva este alguém deixa essa criança ficar desnutrida, o cuidador deprimido tem culpa pela desnutrição da criança. Se estamos falando de depressão grave, neste caso hipotético, pode ser que estejamos falando de um malfeito culposo (sem intenção de fazer, mas ainda imputável), e não doloso (feito com má fé, intencionalmente). Mas a depressão sozinha não é suficiente para estabelecer que foi culposo, apenas aumenta a suspeita de ser culposo pelo seu poder de incapacitar seu portador. Os detalhes do caso devem ser levados em conta para saber se essa suspeita se confirma.

Quando um co-piloto depressivo e potencialmente suicida pesquisa na internet detalhes sobre como trancar uma cabine de comando de um avião, e não responde a apelos do piloto para abrir a porta, e respira “calmamente” durante os oito minutos entre tomar o controle e colidir o avião contra uma montanha, os indícios são fortemente de crime doloso, e além disso premeditado. Este caso é real e diz respeito ao co-piloto Andreas Lubitz (http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-32159602).
Somente em casos de deficiência intelectual grave devemos eximir completamente uma pessoa de culpa, como devemos fazer com predadores como tubarões e leões quando causam ferimento ou morte a humanos. Somos todos animais, não é pejorativo comparar essas pessoas com outras espécies. O propósito da comparação é apenas apontar que uma pessoa com deficiência intelectual grave não é capaz de responder por si, o que é verdade também para crianças.
Andreas Lubitz, ao que tudo indica (como o fato de ter chegado a ser um co-piloto), era plenamente capaz de responder por si.
Há relação da depressão com o crime? Só incidentalmente. Sabemos que outras pessoas com outras motivações já fizeram coisa parecida, e não eram deprimidas. Um dos sintomas mais clássicos de depressão é a apatia. Mas a hiperatividade também pode ser. Outros sintomas de depressão também são paradoxais: o deprimido pode comer muito pouco ou pode comer demais e ganhar bastante peso em pouco tempo. Pessoas deprimidas são um perigo para si mesmas não nos episódios depressivos (geralmente incapacitantes, em que passam dias sem sair de casa, geralmente deitadas), mas quando melhoram e ficam capazes de tomar decisões. E, como pessoas não-deprimidas, ao tomar decisões são influenciadas por suas ideias e crenças.
Andreas Lubitz pode ter acreditado que é melhor se despedir do mundo com um espetáculo sangrento do que timidamente em seu apartamento. Essa ideia é antiga, na mitologia nórdica morrer bem era morrer em batalha, levando muita gente junto. Essa ideia reverbera pelos produtos culturais que consumimos. Essa ideia está até no cristianismo: Jesus decidiu ser crucificado para espalhar a ideia da salvação, foi-se do mundo em espetáculo em vez de passar mais 30 ou 40 anos pregando suas ideias para depois morrer a morte anônima dos carpinteiros do século I.
A depressão influencia as ideias do deprimido, também. Pessoas deprimidas têm um filtro de negatividade, em que vão acumulando e listando “fatos” ruins que lhe acontecem ou sobre sua própria personalidade. Em algumas, esse “filtro” cognitivo é mais brando e elimina outro “filtro” positivo que as pessoas em geral têm, o que faz desse subgrupo de deprimidos um grupo “realista”, bom em avaliar o estado das coisas e prever para onde vão. Talvez Lubitz não se importasse em ser visto como um monstro, pois como depressivo já se via como indigno, e ser um monstro seria apenas mais uma propriedade negativa em sua coleção de vícios percebidos. Uma pessoa que se mata ou se vê como caso perdido e indigna de viver, ou está num estado (temporário) de extrema frustração por algum grande projeto falido em suas vidas. Há indícios para as duas coisas em Lubitz, pois pode ser que ele estivesse frustrado com impedimentos à sua carreira, mas dado o nível de premeditação e tempo dedicado ao que ele fez, creio que a autopercepção negativa ali era forte. A depressão também pode vir acompanhada de outros transtornos (ter um problema mental não significa, infelizmente, estar livre de outros), isso é chamado de “comorbidade”. Pode ser que Lubitz tivesse algum transtorno de personalidade antissocial ou estivesse na fronteira de um. Não é possível afirmar isso agora, no entanto.
Sobre esse caso o jornalista Luiz Carlos Prates comentou que gente depressiva como o piloto deve ser “duramente tocado em suas verdades, porque é um covarde existencial. Nada de pena, mas até de desprezo se for o caso”. Isso traz uma carga grande de senso comum. O problema de ter opiniões de senso comum é que se confunde o que é intuitivamente popular com o que é cristalinamente verdadeiro. Às vezes o que é popular nas intuições das pessoas é assim porque é cristalinamente verdadeiro. Mas nem sempre: às vezes uma crença é popular e intuitiva pelo compartilhamento de erros sistemáticos de avaliação.
Parece que a receita do Prates para lidar com depressivos é a mesma do Bolsonaro para lidar com filho gay: a agressão. Certo, Bolsonaro recomendou a agressão física e Prates parece recomendar apenas a verbal. Mas, como todo mundo sabe, é preferível tomar beliscões e tapas a ouvir certos tipos de coisa.
O problema dessa receita é que ela claramente não funciona, e insistir nela é portanto irracional. Quando se “toca duramente” uma pessoa deprimida “em suas verdades”, o que frequentemente acontece é que ela dirá para si mesma: sim, eu sou indigno, eu mereço seu desprezo, eu sou mesmo esse lixo. Não significa que dirá isso em voz alta, mas essas crenças autodepreciativas, que ocupam um nível bem basal e nem sempre declarativo na cabeça do deprimido, se afirmam repetidamente em sua cabeça. Não importa o quão bem-sucedida a pessoa é: essa doença tem uma fonte mista, tanto endógena (existem variantes genéticas associadas a certos tipos e propriedades da depressão) quanto exógena (experiências passadas e presentes, mas sob o efeito de uma “interpretação” subjetiva, que em depressivos é frequentemente distorcida para o negativo, como já dito). Não vou entrar em detalhes sobre o que foi mostrado como eficaz para a depressão até hoje (psicoterapia, passagem de tempo, medicamentos todos funcionam com dose a depender do caso): o que importa aqui é que as ideias do jornalista, e na verdade de muita gente que pensa como ele, são profundamente ignorantes sobre o que é a depressão. Isso é ruim não só para os depressivos, mas para quem tem essas opiniões. Uma vez deprimido, gente como o Prates vai ser ainda mais propensa a se autoflagelar psicologicamente: “preciso ser duramente sacudido nas minhas verdades, preciso receber mais desprezo, preciso me chacoalhar e ser estapeado para voltar a mim mesmo”.
A ironia nisso? Como discutido, as ideias do deprimido influenciam suas decisões naquela fase de melhora em que ele está mais propenso a fazer algo terrível contra si (ou contra os outros também como fez Lubitz). Ideias ruins, mal examinadas, têm uma forte tendência a levar a decisões ruins. Talvez, se Lubitz visse que ele não era uma pessoa desprezível e que existe ajuda, inclusive medicamentosa, ao que ele estava passando, se tivesse uma percepção mais estatisticamente correta das virtudes e vícios humanos e visse que ele também tinha virtudes, ele teria se importado mais com acrescentar o adjetivo “assassino” ao seu nome, teria visto que isso não precisava ser “coerente” com a visão que tinha de si mesmo, porque a visão que tinha de si mesmo estava sendo distorcida por uma doença real, tão real quanto uma infecção ou uma insuficiência cardíaca, chamada depressão.
Quem tem ideias ruins como a de Prates, quem duvida da existência da depressão, quem só acredita que é depressão se for caso grave, contribui pela via da ignorância para os efeitos nefastos dessa doença no mundo. E nisso há, provavelmente, também algum grau de malfeito culposo ou doloso.
24th of novembro

Acomodacionismo, o vilão oculto


Um dos problemas políticos negligenciados do Brasil se chama acomodacionismo. O Conselho Federal de Medicina acomoda a homeopatia como especialidade médica, a página do Ministério da Saúde comemora o dia da homeopatia como se fosse coisa mais eficaz que placebo, para acomodar suposta “medicina” alternativa. Por alguma razão, a prática da “urinoterapia”, o ato de sorver urina na esperança de curar alguma doença, é deixada de fora das tais “alternativas”, me pergunto qual é o critério.

Personalidades públicas respeitadas, na inocência da ignorância sobre o desdém da comunidade internacional de pesquisa em psicologia para com a psicanálise (freudiana, lacaniana, junguiana e demais denominações), promovem frequentemente a psicanálise e seus produtos – entre eles a “filosofia” de Slavoj Zizek e de Judith Butler, por exemplo. Afinal, por que não podemos acomodar práticas sem qualquer evidência de eficácia, ou ideias sem qualquer sinal de coerência com o resto do conhecimento ou qualquer sinal de terem passado no crivo da crítica? Ceticismo é coisa de chato. Pensamento crítico só é crítico se for acomodacionista.

Acomodemos tudo. Um deputado propôs um projeto criacionista? Vamos ouvir o que esse pessoal do “design inteligente” tem a dizer sobre isso – afinal, usam uma palavra em inglês na ideologia deles, então deve ser ciência! Uma hora, acomodando o PMDB e Kátia Abreu, teremos políticas públicas de esquerda (que supostamente seriam coisa boa para setores desfavorecidos da população, como indígenas). Uma hora, acomodando homeopatia, teremos medicina de respeito. Uma hora, acomodando charlatanismos intelectuais, teremos uma classe intelectual antenada. Continuem sonhando, Pollyannas.

25th of setembro

Comentários sobre o Kit Crente, o manual eleitoral conspiracionista anti-gay publicado em apoio a Marina Silva


Imagem comprada em banco e alterada para o kit crente de Édino Fonseca e Pedregal
O Kit Crente é um manual de teorias da conspiração dos candidatos Édino Fonseca e Pedregal, pró Marina Silva presidente e Romário senador, impresso e distribuído aos eleitores do Rio de Janeiro.
Hospedei o Kit Crente no meu próprio site e o link se encontra no fim deste texto. É um documento que deu trabalho para quem fez: 24 páginas com qualidade gráfica de revista comercial.
CAPA
A capa já dá a tônica conspiracionista: “VEJA os planos do anticristo”, com destaque à palavra “Veja”, com fonte parecida com a da revista homônima. Deve caber processo por uso indevido de imagem do veículo aqui. A capa diz “A NOVA ORDEM MUNDIAL contra família e a igreja”. Junto com o termo “anticristo”, o termo “nova ordem mundial” é moeda de troca em grupos de teoria da conspiração há muito tempo. Ambos são citados por exemplo no livro “Parusia – A Segunda Vinda de Cristo”, do Pe. Léo Persch, que tem uma edição de 1995 que eu li quando criança. O livro de Persch é um compêndio de paranoia conservadora com um mundo moderno que o padre vê com bastante ansiedade. Lembro que ele dizia que o símbolo da paz criado pelo movimento pró-desarmamento nuclear britânico (☮) era um símbolo do demônio – uma cruz quebrada de cabeça para baixo. Sinto decepcionar conspiracionistas católicos, mas o símbolo nada mais é que as letras “ND”, de “nuclear disarmament”, como são expressadas com bandeirinhas de sinal de tráfego, superpostas pelo designer Gerald Holtom em 1958 ( http://en.wikipedia.org/wiki/Peace_symbols ). Isso é só para mostrar que origens obscuras, geralmente de livre associação de ideias, conspiracionismos como os do material em questão têm.
PÁGINA 1 – Introdução
Aqui um tom maniqueísta já vem nas primeiras linhas. O manual diz que está lutando contra pessoas mal intencionadas, e traz uma foto de um demônio em forma de mulher, atrás de um homem segurando uma bíblia que foi modificada para dizer “código penal”. Isso porque Édino Fonseca alega ter barrado um projeto que transformaria igrejas em associações (não sei qual é o problema nisso… passariam a pagar impostos finalmente?). A foto representando o diabo em forma feminina o político comprou neste banco de imagens: http://www.shutterstock.com/pic-125255954/stock-photo-priest-evicting-demons-conceptual-photo.html
É uma moda nessas eleições. A campanha da petista Gleisi Hoffmann, candidata ao governo do Paraná, também comprou fotos desse banco de imagens, e botou “eu voto Gleisi” de baixo da foto de um cara que nem é brasileiro ( http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1522193-candidatos-mostram-modelos-estrangeiros-como-se-fossem-eleitores.shtml ).
O manual diz se opor a “uma sociedade corrompida e pecaminosa nesses tempos de relativismo e materialismo”. Diz que há uma rebelião contra Deus. E que o agora extinto PLC122/06, que equiparava homofobia a racismo, e o Plano Nacional de Direitos Humanos 3 têm como finalidade original a “desconstrução da família original” e a “apreensão e queima de Bíblias”. O que é completamente falso, sabidamente falso, e quem tem coragem de escrever isso para ganhar votos é que põe em questão quem de fato está com “más intenções”.
PÁGINA 2 – Eutanásia
A seção começa alegando que Tarō Asō, um político católico japonês, convidou idosos a cometerem suicídio para deixarem de ser um peso. A declaração do político é uma declaração burra, até porque a terceira idade é bastante produtiva. O uso dessa declaração é para confundir o direito de morrer com a coação para a morte. Como o livro “Por Um Fio” do Dr. Drauzio Varella torna claro, uma morte digna é o que está em questão. Alguns religiosos como o pastor Édino podem achar que somos obrigados a sofrer até o fim dores excruciantes de algum câncer incurável, porque é o jeito “natural” e a suposta “vontade divina”, mas muitos religiosos não concordam e muitas pessoas como eu não são religiosas e não querem ter a religião interferindo, infectando o poder do Estado, até mesmo o nosso leito de morte. É uma questão de direito do indivíduo poder escolher morrer antes que uma demência corroa todas as suas memórias e capacidades ou antes que dores insuportáveis torturem nosso último pedaço de vida. Escrever nosso epílogo quando podemos e como queremos é um direito que temos, e o autoritarismo de pessoas como esses políticos teocratas com nossas vidas privadas tem que acabar já. Comparar quem quer ter seu direito à eutanásia assegurado a nazistas, como faz o manual, é mais um sinal de má intenção de quem pagou e o escreveu. Existem discordâncias legítimas quanto a terceiros terminarem nossa vida para nos poupar de sofrimento (o que pode sim ser uma atitude correta), mas comparar adversários de opinião a Hitler é encerrar o debate assinando confissão de burrice. Eutanásia significa “morte verdadeira” ao pé da letra, e não, como sinonimiza o Kit Crente, “genocídio”.
PÁGINAS 3, 4 E 5 – Aborto
O Kit Crente afirma que o direito de abortar é um plano do anticristo para destruir a humanidade. E diz para o leitor perguntar quem está por trás da campanha pró-aborto. Ora, ninguém está por trás: o Conselho Federal de Medicina diz que as mulheres devem ter o direito de abortar até 12ª semana de gestação ( http://genetici.st/cfm ). Eu defendo isso com argumentos, publicamente ( http://genetici.st/aborto ), e não tenho nada a esconder nem nenhum interesse oculto. Meu interesse é abolir uma lei medieval que aqui no Reino Unido não existe há muito tempo. A qualidade de vida dos britânicos e de cidadãos de outros países em que o aborto está legalizado é prova de que a paranoia conspiracionista é baseada em preconceito religioso, e não na razão. Até familiares vêm expressar desapontamento, eu cobro argumento e argumento não vem. Embriões e fetos precoces não são pessoas. Seu potencial de formar pessoas não os dá direitos de pessoa assim como meu potencial de ser médico não me dá direitos de médico de receitar remédios ou fazer cirurgias. E assim como o potencial inegável de todas as células do corpo de se tornarem pessoas não torna imoral fazer a sobrancelha ou abrir uma barriga para tirar um apêndice inflamado. Se abortar embrião é assassinato, assar um bolo de nozes, tirando das nozes o potencial de crescerem e se tornarem nogueiras, é desmatamento. Quando falta argumento, resta apelar pra emoção: o manual mostra bebês ensanguentados, um modelo vestido de nazista jogando um bebê de fase final da gestação numa lata de lixo. A aparência de um aborto legal, no entanto, não é nada disso. Quem quiser ver, e saber que não é nada chocante e nem se parece em nada com essas peças de desespero retórico dos “pró-vida”, pode ver aqui: http://www.meuaborto.com.br/
No fim da seção sobre aborto, o Kit Crente traz uma tabela com supostos preços de partes de feto num suposto mercado negro mantido por clínicas de aborto. Isso vem de uma investigação de uma organização antiaborto. O curioso sobre isso é que todos os detalhes sobre o caso morreram lá pelo ano 2000. Nenhum grande veículo de mídia deu atenção, e até a página da Wikipédia sobre a organização responsável, Life Dynamics, não cita o suposto mercado. Além disso, o comércio de tecidos fetais é proibido por lei nos EUA. Por que cavar uma polêmica midiática vazia de grandes provas nos anos 1990? A resposta é a mesma: apelo à emoção na ausência de argumentos que apelem à razão.
PÁGINAS 6-10 – Prostituição e Homossexualidade
O Kit Crente tenta demonizar os direitos das prostitutas que elas mesmas buscam desde o trabalho da falecida Gabriela Leite. Mais tentativa de ingerência religiosa usando o poder público sobre a vida de quem não quer seguir seus preceitos moralistas irracionais. Igrejas podem espernear, mas o corpo do cidadão pertence a ele próprio e com ele ele faz o que quiser, inclusive oferecer serviços sexuais por dinheiro. Prostituição já é legal, o que infelizmente é ilegal é que profissionais do sexo se organizem, por isso existe o projeto de lei com o nome da Gabriela proposto pelo Jean Wyllys. Em qualquer país que respeite as liberdades individuais e não seja refém de bancadas teocráticas e autoritárias, o projeto passaria.
Depois, o kit parte para conspiracionismos contra direitos LGBT e a velha alegação de que equiparar homofobia a racismo como crime é atentar contra liberdade de expressão. Tenho certeza que muita gente falava isso sobre a lei anti-racismo nos anos 1980. A alegação de que homofobia não é comparável a racismo também carece de argumento. Pessoas como o Malafaia alegam que, diferente de fenótipos de negritude, comportamentos afetivos e sexuais não têm nada com genética e podem ser mudados. Disso eu já cuidei no meu vídeo-resposta, e até hoje não apareceu geneticista que refutasse. Além disso, certas pessoas homossexuais têm trejeitos marcados e não podem esconder (nem devem!) sua homossexualidade assim como pessoas negras não podem esconder (nem devem!) que são negras. A revista depois perde tempo com detalhes e relatos de pessoas que supostamente se tornaram gays por verem outras sendo gays, inclusive o Clodovil. Chama isso de “estatística”. Não é: chamamos isso de evidência anedótica, e não tem valor algum para provar essa alegação. Talvez quem alega que ser gay é determinado socialmente seja mal resolvido e tenha um medo danado de dar vazão a certas vontades que tem quando passar a conviver com pessoas gays como cidadãos iguais?
Depois, o manual tenta uma manobra de distorção: diz que pessoas do mesmo sexo formando famílias “afetivas” (as famílias tradicionais então não são afetivas?) estão sob uma patologia. Só que nenhum órgão médico científico considera homossexualidade uma doença.
O Kit Crente cita um tal de Genival Veloso de França, que supostamente diz num livro de medicina legal editado pela Guanabara Koogan que a homossexualidade e a transexualidade são doenças. Bem, a OMS diz o contrário. E o Dr. Robert Spitzer, que fez os últimos estudos propondo cura gay em periódicos científicos, mudou totalmente de ideia e não faz isso mais ( http://www.bulevoador.com.br/2012/05/famoso-psiquiatra-pede-desculpas-por-estudo-sobre-cura-para-gays/ ).
O manual, alegando que homossexualidade é patologia, alega que casais gays não devem ter direito de adotar crianças. Isso é facilmente respondido com estudos como o da Universidade de Cambridge mostrando que crianças com dois pais ou duas mães se dão muito bem ( http://www.cam.ac.uk/research/news/ive-got-two-dads-and-they-adopted-me ).
O principal responsável pelo Kit Crente é o pastor Édino Fonseca, aparentemente. Na Wikipédia está dito que, como deputado estadual pelo Rio de Janeiro, o pastor tentou passar um projeto de cura gay. Daí se entende por que ele omite que homossexualidade já não é mais considerada doença por qualquer organização de psicologia ou psiquiatria, e que a transexualidade não é mais considerada doença no DSM-V, e provavelmente deixará de sê-lo no Código Internacional de Doenças. É engraçado que o Kit Crente cite o transtorno chamado Orientação Sexual Egodistônica. Essa egodistonia é justamente o desconforto por que passam pessoas que não se aceitam como são e tentam essas curas gays oferecidas por organizações evangélicas na surdina pelo país. Se achou que isso iria provar que ser gay é doença, o deputado estava muito enganado. E ele não perde por esperar: chegará o dia em que transexualidade deixará completamente de sê-lo também, pois não há argumento ético ou técnico-científico que justifique tratar a identidade de alguém como uma doença. Posso apostar nisso e vou ganhar.
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Comentei aqui metade do Kit Crente. O que mais impressiona é o nível de detalhe dos conspiracionismos, o trabalho que deu selecionar enviesadamente cada mínimo pedaço de informação para promover conservadorismo irracional e preconceito. Outras partes que não comentei envolvem alegações sobre o MST e sobre os planos de descriminalizar drogas.
O Kit Crente pode ser baixado aqui: http://genetici.st/kitcrente
9th of setembro

General elections in Brazil: a short guide for humanists


In October 2014 Brazilians will vote and choose the next president, federal deputies and senators. Here is a summary of the state of affairs in the topics that humanists worry about.
Leading polls as a presidential candidate now is Marina Silva (PSB, Brazilian Socialist Party), who comes from a poor background in the heart of the Amazon forest. Silva, who converted to Evangelicalism in the 1990s, says her conversion happened because of a miracle that doesn’t sound too miraculous: she recalled the name of an experimental drug to treat the mercury poisoning she suffered from. Some supporters of the re-election of Dilma Rousseff (PT, Workers’ Party) accuse Silva of being a fundamentalist. This is hard to argue for, since she can be seen saying “even” atheists can have good, moral lives, and also sounds hypocritical because Rousseff has failed in clearly defending a progressive agenda. But also hard to argue against, because Silva, after launching an excellent plan for LGBT rights, recanted large chunks of the plan 24 hours later, removing support to the criminalisation of anti-LGBT discrimination and hate speech, and insisting, despite the judiciary’s decisions, on calling gay marriage a “civil union,” as though the word “marriage” belonged solely to the religious. Silva’s catch-all mantra about contentious human rights issues, from abortion to smoking weed, is that she will submit them to referenda. 
President Dilma Rousseff indeed has failed in being as progressive as she appeared to be before her first term and being true to what she really believes. In 2007, when asked if she believed in God, she answered “I balance myself on this issue”. Three years later, when running for president, she “forgot” completely about her agnosticism of sorts and kneeled before Our Lady of Aparecida in the large Catholic shrine. In her first year in office, she vetoed an educational material known as the anti-homophobia kit saying to the press her government wouldn’t allow “sexual option propaganda”. “Sexual option” is how many Brazilians ignorantly call sexual orientation, by the way. In her second year, Rousseff’s Chief of Staff signed off a dismissal for a senior employee at the Ministry for Health, the reason being that this employee was creating too progressive anti-HIV campaigns for gay men and prostitutes. The phrase “sexual option”, the mark of ignorance, made into a second coming in Rousseff’s early government programme for her next term in office. Her campaign staff quickly redacted the text, but kept it superficial enough not to make any clear specific agenda for the LGBT, who hope to have gay marriage not only sanctioned by the courts but written into law, and to have homophobic discrimination criminalised as much as racism. Now in her second campaign for president, Dilma Rousseff is again doing her spectacle of insincere faith: she attended the inauguration of the “Temple of Solomon” in São Paulo, said “the state is secular but happy is the nation whose god is the Lord” in another Evangelical church, and, betraying feminist colleagues, she applauded when a theocratic deputy (in a church, accompanied by the president) celebrated the veto to a healthcare policy directed at the exceptions where women can have abortions in Brazil (rape, life risk and anencephalic foetuses).
Behind Silva and Rousseff, Aécio Neves (PSDB, Brazilian Social Democracy Party) focuses on economic issues, pays little attention to human rights except to promise he will put people in jail at a younger age, to pass superficial pro-LGBT messages that don’t upset homophobes, and to swear he shall not move a finger to change the cruel anti-abortion laws. His party, along with the president’s, is riddled with corruption scandals.
The scariest of all presidential candidates, arguably, is the candidate in the 4th position, with 1% of votes in polls. Pastor Everaldo (PSC, Social Christian Party), as he calls himself, is defending a chimeric blend of social conservatism and extreme economic liberalism. Ciphering his message to call homophobe votes, he says he is campaigning “in favour of the family” defined as man, woman and children. He promises to privatise key state-owned industries like Petrobras. Pastor Everaldo is the tip of an iceberg of candidates for the legislative: from the last elections in 2010, the number of candidates for the bicameral parliament who name themselves with religious titles like “pastor”, “bishop” and “father/sister” has grown by 47%. 
Supporting Everaldo in the same party and trying a re-election is Pastor Marco Feliciano, who for a year presided over the human rights commission of the Chamber of Deputies for the bafflement of human rights activists. Among Feliciano’s famous soundbites of wisdom, my favourite is this: “Jesus’s DNA was not like ours. He had X chromosomes, however, the Y chromosomes were not human. (…) His carnal involvement with a woman could lead to a superior race.” Besides Feliciano, Everaldo has a supporter in Pastor Silas Malafaia, classified as a millionaire by Forbes magazine, and most famous homophobe in Brazil. When I made a video last year replying to Malafaia’s claims that child abuse causes half of homosexuality and the other half of gay people just choose to be so, he attacked me on his TV show calling me a “pseudo-doctor who’s defending his own cause” and “a lad who hasn’t changed his nappies in genetics”. Since then, when he makes a list of his enemies, he never forgets to list humanists among them.
23rd of agosto

Sobre quem “discorda” de orientação sexual


Qualidade é variável em muita coisa: de pastel de beira de estrada (“quando mais sórdido melhor”, segundo o LF Verissimo) a ideias. Tem gente que é mais exigente com a qualidade do pastel que come do que com a qualidade de suas ideias.

Entre muitas ideias populares mais difíceis de tragar que aquele de palmito da rodoviária, está a ideia de que “discordar de orientação sexual” é um direito ou ao menos algo que faz algum sentido.

Pois não faz. Não faz sentido algum. E mostro por quê. Comecemos com a parte do “discordar”: concordância ou discordância se expressa em relação a crenças, posições, opiniões, conclusões. A orientação sexual de uma pessoa não se encaixa em nada disso. Bentinho sente tesão em Capitu não é porque na opinião dele a Capitu é gostosa. Isso é inverter a ordem das coisas: porque se sente atraído pela Capitu é que Bentinho tem a opinião de que ela é gostosa. Você pode discordar do Bentinho quanto a ela ser gostosa, pois é uma opinião dele. Mas não faria sentido algum você “discordar” do Bentinho se sentir atraído pela Capitu – é uma coisa que acontece dentro do Bentinho, que ele sente quando olha para a Capitu, não que ele conclui depois de fazer uma lista de atributos da Capitu. Os atributos são levados em consideração, mas inconscientemente, pelos critérios que só um cérebro heterossexual como o do Bentinho, e talvez apenas o cérebro dele, faria.

“Discordar” da atração de Bentinho por Capitu é como “discordar” da expansão de volume da água no congelamento. Você pode até ser um sujeito que tem interesse em evitar que o Bentinho faça qualquer coisa em função de sua atração pela Capitu, mas se disser que “discorda da orientação sexual” dele, ou você não sabe o que é “discordar”, ou não sabe o que é “orientação sexual”.

Mas eu não acho que as pessoas que usam esse oxímoro realmente têm o órgão da análise quebrado. Tenho minha própria hipótese sobre isso: é que é feio, hoje em dia, falar “malditos viados e sapatas, não quero que vocês existam”. Não, você quer ser intolerante e preconceituoso, mas não quer *parecer* ignorante e preconceituoso. Então escolhe um eufemismo: “discordar”. Você não “odeia”, não “tem nojo”, não, esses seriam motivos irracionais demais para apresentar para tentar excluir uns 10% das pessoas do convívio social, do acesso às mesmas coisas que as outras pessoas têm. Afinal de contas, se nojinho fosse motivo suficiente para justificar alguma coisa, o nojo das crianças do gosto do xarope seria suficiente para não tomarem o remédio. Você quer parecer ser uma pessoa interessada em debater, de mente aberta, uma pessoa que analisa as coisas antes de concordar, ou melhor, *parece* analisar. Por isso, você não é homofóbico: você “discorda” da orientação sexual de Fulana ou Cicrano.

E eu “discordo” de palmito.

1st of julho

Entre politicamente corretos e incorretos: ética do humor


“Assim como piadas que ativam estereótipos não parecem ser sempre uma expressão de defeito naqueles que apreciam essas piadas, piadas sobre a feiúra ou a deficiência, ou sobre violência, estupro ou morte, não parecem vir sempre da insensibilidade ou crueldade na pessoa que conta ou que aprecia tais piadas. Tais vícios podem explicar por que algumas pessoas gostam de piadas desse tipo, mas para outras a apreciação de tais piadas é explicada de outras formas. Para algumas pessoas vem de traços de caráter opostos. É precisamente por causa de suas senbilidades e ansiedades sobre os sofrimentos e infortúnios que buscam alívio na jovialidade a respeito desses assuntos sérios. Pense, por exemplo, no velho que diz “quando acordo de manhã, a primeira coisa que eu faço é esticar os braços. Se não bater em madeira, eu levanto”. Tal gracejo não indica que o velho considera sua morte um assunto trivial. Em vez disso, é sua ansiedade sobre a morte (e enterro) que dá origem a seu humor. Enquanto este é um caso de humor autodirecionado, não há razão para pensar que algo similar não ocorra às vezes quando as pessoas brincam sobre as tragédias que acometem outros. Tais tragédias podem nos causar ansiedade, e o humor é uma forma de lidarmos com elas.
(…) Muitas pessoas reconhecem que o contexto é crucial para determinar quando uma piada expressa um defeito no contador da piada, mas uma opinião comum sobre a ética do humor tende a simplificar demais as considerações de contexto. Por exemplo, frequentemente se pensa que piadas sobre “negros”, judeus, mulheres, poloneses ou deficientes, por exemplo, são moralmente contaminadas ao menos que sejam contadas por membros do grupo alvo da piada. Alguns vão ao ponto de dizer que ao menos que quem conta a piada seja membro do grupo alvo, contar a piada é errado. Essa opinião é correta no sentido de afirmar que a identidade de quem conta a piada é relevante para uma avaliação moral de um dado ato de contar piada. Dependendo de quem conta uma piada, a piada é ou não é uma expressão de defeito de quem a conta. Entretanto, onde a opinião erra é ao alegar que apenas membros do grupo podem contar a piada sem (a) a piada ser uma expressão de uma atitude defeituosa ou (b) a piada ser vista como uma expressão de tal atitude.
No entanto, nenhuma dessas suposições se sustenta. Primeiro, é possível que membros do grupo compartilhem de atitudes defeituosas sobre o grupo. Não é incomum que pessoas internalizem preconceitos ou outras atitudes negativas para com o grupo do qual são membros. Quando tais membros de um grupo contam piadas sobre seu grupo, bem podem estar exibindo as mesmas atitudes que pessoas preconceituosas fora do grupo. Se uma piada é moralmente problemática porque expressa algum defeito em quem a conta, então o contar de uma piada sobre “negros”, por exemplo, é errado se a pessoa que a conta for “negra” e compartilhar desse defeito.
Em segundo lugar, por causa desse fenômeno nós não podemos assumir que membros de um grupo não serão vistos (ao menos por aqueles com uma opinião mais nuançada sobre a psicologia humana) como expressando as atitudes problemáticas.
Em terceiro lugar, há situações nas quais podemos ter confiança que quem conta a piada não compartilha das atitudes negativas mesmo que ele ou ela não seja um membro do grupo sobre o qual a piada está sendo contada. Às vezes conhecemos alguém suficientemente – ou sabemos que aqueles para quem contamos uma piada nos conhecem o suficiente – de modo que o contar da piada não será visto como uma expressão de uma atitude maliciosa.
Assim, enquanto a identidade da pessoa que está oferecendo um pouco de humor é claramente uma consideração relevante de contexto, esta não deve ser reduzida ao princípio bruto de que todos os membros ou apenas membros de um grupo podem contar piadas sobre ele.”
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Excertos de Benatar, D. Levando (ética do) humor a sério, mas não a sério demais. Journal of Practical Ethics. Oxford, 2014. Tradução livre. Disponível em inglês em: http://genetici.st/humourethics
Veja também algumas referências em pesquisa empírica com humor depreciativo em http://lihs.org.br/humordepreciativo
18th of junho

O curioso caso de quando o Olavo de Carvalho concordou com a esquerda


Em tempos de renovado espaço na Folha de São Paulo, a última coisa que Olavão quer que nós lembremos é que ele já concordou – e muito – com certa parte da esquerda. Na verdade, ele continua concordando entusiasticamente, como veremos. A história é bem conhecida em círculos intelectuais, e merece mais divulgação para a população em geral.No fim da década de 1990, um movimento mais ou menos difuso de ideias, chamado de “pós-modernismo”, estava em seu ápice. As ideias mais comuns veiculadas por esse movimento não são muito novas – por exemplo, relativismo epistemológico, relativismo moral, redução de problemas intelectuais a quedas de braço de interesses cegos (políticos, pessoais, étnicos, econômicos) em detrimento da confiança iluminista em verdade, objetividade, imparcialidade etc. Evidentemente, para abraçar as últimas não é necessário ser cego para com vieses. No entanto, ao desistir totalmente delas, o pós-modernismo viu-se dando espaço para a aceitação de visões acriticamente pessimistas das capacidades humanas de raciocínio integrativo e ceticismo crítico (em oposição à dúvida teimosa sobre tudo conhecida como ceticismo pirrônico). Até algumas pessoas que não se encaixam totalmente na definição de “pós-moderno”, como Michel Foucault, acabaram caindo em algumas de suas armadilhas – notoriamente, Foucault acabou apoiando a “revolução” dos aiatolás no Irã, e é difícil disfarçar que isso foi por relativismo cultural (que o que é certo ou errado moralmente depende totalmente da cultura em que estamos). O pós-modernismo, se não nasceu totalmente da esquerda, foi alimentado entusiasticamente por seus seios fartos.

Foi em resposta a esse modismo da sandice que Alan Sokal, um físico, escreveu um texto no estilo obscuro amado pelos pós-modernos, para ser publicado na revista “Social Text”. O texto abusava de termos científicos, besuntava afirmações loucas com termos da mecânica quântica e termos da moda usados e abusados na época e até hoje (“hermenêutica”, por exemplo, e “semiótica”, que o filósofo John Searle diz – provocando – que nem quem a usa como nome de sua própria profissão sabe direito do que ela trata). A revista aceitou o artigo embusteiro com louvor suficiente de publicá-lo num volume especial sobre ciência. Seguiu-se um chacoalhar raramente visto antes na torre de marfim. Para quem gosta de ciência criticamente (ou seja, sem cientificismo), o artigo falso de Sokal foi um ponto de inflexão para conscientizar a intelectualidade da importância de uma volta aos valores de origem (da própria intelectualidade institucionalizada). O evento, conhecido como “Sokal Hoax”, foi seguido pela publicação do livro “Imposturas Intelectuais”, pelo próprio Sokal em parceria com Jean Bricmont.

Importantemente, o episódio foi precedido pelo alerta de um livro de Paul Gross e Norman Levitt, cujo título, e especialmente subtítulo, dizem tudo: “Higher Superstition: The Academic Left and Its Quarrels with Science” [Superstição Superior: A Esquerda Acadêmica e suas Brigas com a Ciência].

Onde entra Olavo de Carvalho nisso tudo? Ele mesmo um exímio produtor de prosa floreada porém obscura, obscura porém floreada, que seus seguidores se iludem achando que é filosofia, foi um dos primeiros a atacar a defesa de Sokal da racionalidade filosófica clássica e sua filha, a ciência. Não à toa, Olavo é famoso por suas diatribes sobre as teorias de Newton e Darwin, e, é claro, pela frase filosófica “combustível fóssil é o cu da tua mãe”.

O maravilhoso espetáculo de Olavão se juntando a acadêmicos de esquerda no linchamento ao pensamento crítico pode ser lido no próprio site do Sokal: http://www.physics.nyu.edu/sokal/folha.html

A lição a levar para casa é: em todo o seu mundo maniqueísta de esquerda versus direita, comunistas versus capitalistas, Olavo de Carvalho não é sincero quanto ao seu ódio à esquerda. Quando é para atacar ciência e filosofia de fato (que ele nunca praticou na vida, sendo no máximo um bom leitor de Aristóteles), Olavo ama a esquerda de paixão. A beija, a abraça, e fornica com ela.

Post Scriptum

Algumas pessoas protestaram que eu não interpretei corretamente a resenha do Olavo de Carvalho nem levei em consideração supostos elogios que ele fez à empreitada do Sokal. Pois bem, vamos deixar algumas coisas mais claras.

Quando eu digo que Olavo concorda com a parte pós-moderna da esquerda, é no sentido de ele, tanto quanto a última, insistir em ataques às teorias científicas, de forma bem desinformada sobre o que essas teorias dizem (não está na resenha sobre a Sokal Hoax, mas está em vários textos dele); e no sentido de ele tentar reduzir discordâncias de cunho ‘cognitivo’ a conflitos de interesses entre esquerda e direita (está na resenha). Atacar ciência e reduzir problemas intelectuais a conflitos de interesses são duas marcas notáveis de pós-modernismo. Outra marca é um estilo obscuro de escrita que pós-modernos amam e Olavo de Carvalho pratica frequentemente (está na resenha também). Não tomem minha palavra a respeito: basta ler por exemplo o texto dele atacando a teoria da evolução pela seleção natural de Darwin (evidentemente, entender onde Olavo erra requer algum conhecimento da teoria de Darwin e da teoria moderna da evolução): http://www.olavodecarvalho.org/semana/090220dc.html

O fato de ele supostamente ter elogiado o que Sokal fez é claramente pelo único motivo de que ele pensa que Sokal destruiu intelectualmente a esquerda. Ou seja, tenta reduzir a esquerda acadêmica completamente aos erros de sua parte pós-moderna. Isso é tanto desonestidade intelectual, dada a insistência do próprio Sokal (que é de esquerda) que estava criticando erros de uma minoria na esquerda, quanto redução a conflito de interesses. Se o Olavo estiver certo, então Sokal teria de ser pós-moderno sem saber, já que Olavo quer reduzir tudo ao seu maniqueísmo de eixo esquerda-direita.

Ironicamente, pelos motivos expostos acima – volúpia de atacar a ciência sem entendê-la, redução de problemas que devem ser resolvidos no campo do argumento e da evidência a problemas de conflito de interesses políticos (ao tentar igualar esquerda intelectual a pós-modernismo), e obscurantismo de conceitos mal definidos e prosa embotada – quem é pós-moderno sem o saber é o Olavo.

[Editado em 26/08/2016 para incluir meu vídeo comentando em detalhes o texto do Olavo atacando Charles Darwin e a teoria da evolução.]