10th of May

Câncer de mama e a lei antissacrifício do vereador Marcell Moraes


Abraão protege sacrifício que oferece a Javé.
 Guache de James Tissot (1836-1902)
Imaginem que na cidade de Cerro Azul haja muitos casos de câncer de mama, e que muitas pessoas morrem e sofrem em decorrência disso. 99% das pessoas que sofrem e morrem com câncer de mama, em Cerro Azul, são mulheres.
Muitas pessoas por lá acreditam que é “normal” que mulheres sofram e morram de câncer de mama. “Elas têm seios e homens não têm”, diz o prefeito de Cerro Azul, “câncer é triste, mas é o cavalo de Troia que a natureza deu às mulheres junto com os seios”. Este momento em que o prefeito falou das mulheres com câncer de mama foi um momento raro, porque na maior parte das vezes em que ele fala do assunto, ele geralmente está falando dos homens que são vítimas dessa doença, pois para uma parte considerável dos eleitores de Cerro Azul, mulher com câncer de mama é coisa inevitável da natureza, mas homem com câncer de mama é uma tragédia inadmissível.
Eis que a Universidade de Cerro Azul desenvolveu um método eficaz para prevenir boa parte do câncer de mama, e o método está pronto para ser usado no hospital da cidade. Consiste em auto-exame a partir dos 14 anos de idade e a administração anual de uma droga anticarcinogênica muito cara, o “cancil”.
O prefeito logo arregaça as mangas, quer propagandas e cartilhas para todos os meninos da cidade aprenderem a fazer o autoexame, e começa a aplicar os recursos públicos para dar empréstimos a todos os cidadãos do sexo masculino que queiram comprar seu estoque de cancil. “Os homens cerro-azulenses estão unidos para que seus irmãos jamais voltem a ser torturados e mortos por essa doença horrível”, disse o prefeito.
Os projetos do prefeito salvarão vidas. Os projetos do prefeito efetivamente evitarão o sofrimento dos homens cerro-azulenses. Mas são justos?
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Agora falemos de um lugar real, a cidade de Salvador, e um político real, o vereador Marcell Moraes do PV. Marcell Moraes, até onde sei, é uma pessoa com uma preocupação ética: diminuir o sofrimento dos animais. Para Marcell, é eticamente insustentável que se cause sofrimento e morte a um ser senciente, seja ele humano ou não, não sendo a espécie algo relevante para dar indulto a qualquer sofrimento ou morte de um ser senciente.
Na cidade em que Marcell mora e legisla, pessoas causam dor e morte a animais não-humanos de diversas formas. A maioria tem responsabilidade sobre essa dor e morte por consumir derivados dos corpos desses animais: carne, couro, corantes comestíveis. Uma minoria minúscula das pessoas causa uma minoria minúscula dessa dor e morte com rituais religiosos, nos quais os animais também podem ser consumidos ou não. 
A opinião pública de Salvador aceita como normal que se mate animais para produzir churrasco e bolsas, mas não tem tanto consenso assim sobre a normalidade de matá-los em homenagem a entidades sobrenaturais, porque a maioria dos soteropolitanos acredita nas entidades sobrenaturais do cristianismo, que, desde que o “cordeiro de Deus” foi sacrificado há dois mil anos, não mais pedem sacrifícios de animais a seus fiéis, coisa que não é verdade para as entidades sobrenaturais de algumas religiões de matriz africana que existem na cidade.
Os praticantes dessas religiões minoritárias são vistos com desconfiança por boa parte dos soteropolitanos cristãos. Uma parte desses últimos chega inclusive a igualar as entidades sobrenaturais dos primeiros à entidade sobrenatural do cristianismo que representa a incorporação do mal. Por causa disso, os não-cristãos muitas vezes sofrem discriminações injustas – às vezes, suas crianças sofrem bullying nas escolas e todas as outras consequências da exclusão social e do preconceito que sofrem outras minorias tratadas com desconfiança.
Marcell Moraes, exasperado com o sofrimento dos animais não-humanos, resolve agir como vereador por maior justiça a esses seres. Que ação ele decide tomar? Propõe um projeto de lei que criminalize o sacrifício desses seres em homenagem aos orixás, porque sabe que tem mais chance de ter apoio da opinião pública do que se tentasse criminalizar o sacrifício de animais “porque são uma delícia”*, como muitos costumam dizer. O impacto da criminalização de um ritual sobre o preconceito que já existe contra pessoas que seguem religiões em que ele existe é desconhecido.
Se o projeto de lei de Marcell for aprovado, vai evitar mortes? Sim. Vai evitar sofrimento de animais não-humanos? Sim. Mas é justo?
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* P.S.: Eu não sou vegano nem vegetariano. Mas dar motivos ruins para consumir carne é algo que não posso ignorar. E justificar a morte ou, especialmente, o sofrimento de animais com “porque são deliciosos” ou “porque o ser humano evoluiu para comer carne” é algo que desafia à razão e são simplesmente motivos tão ruins quanto “meu orixá vai me dar favores se eu fizer isso”. É responsabilidade de cada um justificar suas ações com argumento melhor. Acho importante desenvolver ações pela diminuição de sofrimento de animais não-humanos, inclusive se você for onívoro, como argumentei brevemente aqui.
7th of April

Pela defesa da vida através da descriminalização do aborto: uma nota de apoio ao CFM


Em apoio ao Conselho Federal de Medicina, que se manifestou pelo aborto legal e seguro, eis uma argumentação sucinta que desenvolvi dois anos atrás:
1 – A questão sobre o aborto não diz respeito à “vida”, mas à “vida humana”, ou seja, ao indivíduo. Não é uma questão de saber como começa a vida, é uma questão de saber em que etapa do desenvolvimento o nosso Estado laico deve aceitar um embrião como um cidadão digno de direitos.
2 – Para estabelecer se um embrião é um cidadão, o Estado deve ser informado pela ciência sobre quando surgem no desenvolvimento os atributos mais caracteristicamente humanos.
3 – Os atributos mais caracteristicamente humanos não são ter um rim funcionando, nem um coração batendo, mas ter um cérebro em atividade. Isto é razoavelmente estabelecido porque é a morte cerebral que é considerada o critério para dizer quando uma pessoa morreu, e não a morte de outros órgãos. Por isso mesmo transplante de coração não é acompanhado de “transplante” de registro de identidade.
4 – Se a morte do cérebro é o critério médico que o Estado aceita para considerar o indivíduo humano como morto, o início do cérebro deve ser logicamente e necessariamente o critério para considerar o início do indivíduo, e não a fecundação.
5 – Considerar a fecundação como o início do indivíduo humano é perigoso, porque é definir um indivíduo apenas por seus genes. Isso é determinismo genético.
6 – O cérebro não tem sua arquitetura básica formada no mínimo até o terceiro mês da gestação. Isso significa que o embrião não percebe o mundo, não tem consciência, é um punhado de células como qualquer pedaço de pele. Por isso não é moralmente condenável que as mulheres tenham direito de escolher não continuar a gestação antes deste período.
7 – Usar o argumento de que o embrião ou o zigoto tem o potencial de dar origem a um ser humano para protegê-lo não vale, porque seria o mesmo que tentar proteger os óvulos que se perdem logo antes das menstruações em todas as mulheres, ou os espermatozoides que são jogados fora na masturbação masculina. Além disso, hoje a ciência sabe que toda célula humana, até as células da pele, tem o potencial de dar origem a um ser humano inteiro, bastando para isso alguns procedimentos de clonagem. No entanto nós destruímos essas células diariamente: arrancando a cutícula, roendo as unhas, passando a mão no rosto, arrancando fios de cabelo, etc. Potencial não concretizado não é argumento para defender coisa alguma.
8 – Se você acha que o embrião precoce ou o zigoto tem consciência, é responsabilidade sua provar isso, não é o que os cientistas dizem. E num Estado laico, vale o que pode ser estabelecido independentemente da crença religiosa. Se sua crença religiosa diz que uma única célula é consciente, você não tem o direito de impor sua crença a ninguém ao menos que possa prová-la e torná-la científica. Todos os que tentaram fazer isso falharam até hoje: uma célula formada após a fecundação não é essencialmente diferente de qualquer outra célula do corpo.
9 – A vida, em sentido mais amplo, que inclui os outros animais, as plantas e os microorganismos, é um processo ininterrupto que começou neste planeta há aproximadamente 4 bilhões de anos atrás. Por isso é importante reiterar: não é o “começo da vida” que está sendo debatido, mas sim o começo do indivíduo humano como um ser consciente, dotado de uma mente e digno de proteção do Estado.
10 – Concluindo, é a mulher, um ser humano adulto, uma cidadã com direitos, quem merece prioridade de proteção, e não um embrião de poucas semanas. Se ela não se sente preparada para cuidar de uma criança, ela deve ter o direito de interromper sua gestação, caso esta gestação esteja no começo e o embrião não tenha cérebro desenvolvido. Deixar as mulheres terem poder de decisão sobre seus próprios corpos é reconhecer um direito natural delas e assegurar que só tenham filhos quando sentirem que podem trazê-los a este mundo com amor e saúde, para que o próprio mundo em que crescerão seja também mais saudável.
E é por isso que defender que o aborto seja uma escolha, e não um crime, é também defender a vida humana.
P. S.: Se você já se chocou com imagens sangrentas usadas pelo lado sem argumentos, o lado dos autointitulados “pró-vida”, há uma forma de tratar seu trauma: ver qual é a aparência de um aborto legal e seguro, feito respeitando o limite de 12 semanas que o Conselho Federal de Medicina defende. Você pode fazer isso neste site, e prometo que não vai se chocar: http://www.meuaborto.com.br/
11th of March

Agradecimentos à Sociedade Brasileira de Genética


Meus mais veementes agradecimentos à Sociedade Brasileira de Genética por se posicionar ao lado do pensamento crítico e científico, e ao lado da igualdade, coisa na qual a comunidade científica pode ser um exemplo por sua crescente receptividade a pesquisadores de todos os fenótipos e bases culturais.
Já passou o tempo do medo da eugenia e do determinismo genético, em que interesses escusos de preconceituosos e anti-humanistas poderiam sequestrar a voz da ciência e usar seu nome por causas que eram, em seu cerne, não apenas eticamente equivocadas, mas factualmente enganosas.
Estamos num tempo em que cientistas podem unir-se a filósofos, juristas, líderes de crenças e todos os que trabalham intelectualmente com rigor para a defesa da humanidade – toda ela, e não apenas parcelas, não apenas quem se encaixar nas médias estatísticas das curvas gaussianas. 
Nossos olhos, parafraseando Carl Sagan, estão voltados para as estrelas e o futuro, onde gerações que não mais lembrarão nossos nomes olharão de volta para um Pálido Ponto Azul, seu berço planetário, certamente gratos por todos aqueles que se levantaram contra as ideias segregacionistas que, muitas vezes vilipendiando o nome da família, falando em nome da família, tentaram separar a família humana.
Esta família começou há mais de 200 mil anos, na África, o que faz de todos nós afrodescendentes. Se podemos todos sentir saudades quando olhamos para a magnífica África, devemos em grande parte este conhecimento à genética.
Nesta era genômica nós geneticistas entramos no mundo das macromoléculas guardiãs dos segredos da vida com o mesmo deslumbramento de Alfred Russel Wallace na Amazônia e Charles Darwin na Mata Atlântica. Wallace se preocupava com justiça social. Darwin se preocupava com a abolição da escravidão. A SBG mostra que ressoa o legado desses e outros grandes das ciências biológicas tanto ao defender a curiosidade pela diversidade humana e suas bases genéticas e ambientais quanto por ecoar seu grito de esperança por justiça.
Hoje me sinto grato, orgulhoso e esperançoso por ser biólogo, geneticista e brasileiro.
Agradeço a esses geneticistas de talento pelas rápidas assinaturas na carta que virou manifesto oficial da SBG:

Francisco Mauro Salzano – UFRGS;
Rosana Tidon – UnB;
Lavinia Schüler Faccini – UFRGS;
Nilda Diniz – UnB;
Ana Letícia Kolicheski – University of Missouri;
Renato Zamora Flores – UFRGS;
Nelson Fagundes – UFRGS;
Maria Cátira Bortolini – UFRGS;
Claiton Henrique Dotto Bau – UFRGS;
Vanessa Rodrigues Paixão Côrtes – UFRGS;
Silviene Oliveira – UnB;
Vanina D. Heuser – Turku University;
Ligia Tchaicka – Universidade Estadual do Maranhão;
Andrea Marrero – UFSC;
Eliana Dessen – IB-USP;
Melissa Camassola – Universidade Luterana do Brasil;
Kátia Kvitko – UFRGS;
Charbel Niño El-Hani – UFBA;
Elise Giacomoni – UFRGS;
Carlos Menck – USP

Veja: Manifesto da Sociedade Brasileira de Genética sobre bases genéticas da orientação sexual

2nd of December

Resposta ao ataque de Rachel Sheherazade contra o Estado laico


Rachel Sheherazade diz que concorda com Sarney que a tentativa de retirar "Deus seja louvado" do dinheiro é "falta do que fazer". Quem tinha falta do que fazer foi quem atendeu a vontade individual do Sarney e enfiou essa frase no dinheiro em 1986, direito que não era assegurado a ele nem como presidente. Não tem lei nenhuma regulando isso, e a Constituição diz para o Estado não apoiar nenhuma crença religiosa. É um exemplo típico de ingerência do particular sobre o que é público. É a segunda vez que a jornalista, nessa mescla de jornalismo amador brasileiro entre notícia e opinião, perde totalmente a noção do que fala quando se trata de convivência do Cristianismo com outras crenças no Brasil. Outra ocasião em que ela fez isso foi quando os tribunais gaúchos corretamente retiraram crucifixos de suas dependências. Sem falar nos mitos e inverdades por ela proferidos. Se foi o Cristianismo que pariu a noção de igualdade social, então ela vai ter que explicar por que a Revolução Francesa não partiu de iniciativa cristã, muito pelo contrário, sendo inspirada por obras seculares como a Encyclopédie, a primeira enciclopédia do mundo, organizada pelos ateus Diderot e D’Alembert. Na escola ninguém aprende o mínimo sobre laicidade, Rachel Sheherazade é só mais um dos sinais da pobreza da educação nessa área. Fica a pergunta: se é desimportante a frase no dinheiro, por que tanto barulho sobre a tentativa constitucionalmente correta de retirá-la? Por que o procurador CATÓLICO que propôs a retirada da frase foi ameaçado de morte? Temos uma turba de teocratas que querem empurrar seu cristianismo goela abaixo em todos neste país, e esse autoritarismo começa justamente em coisas pequenas como frases no dinheiro e crucifixos em tribunais. Como disse o Carlos Orsi, essa insinuação de que o assunto não é importante é quase uma confissão de derrota: sabemos que é errado, mas vamos continuar fazendo mesmo assim, porque somos maioria, maioria ditatorial que não se importa com a vontade de minorias como politeístas, ateus, e quem acredita em forças superiores mas não gosta de chamá-las de "Deus". O assunto é muito simples: só tem dois jeitos de ser neutro: ou bota-se TODAS as frases religiosas e não-religiosas imagináveis nas notas de real, e transforma-se todas as paredes de tribunais em penduricalhos de símbolos de todas as crenças religiosas que tenham pelo menos um defensor no Brasil, ou retira-se tudo. Retirar tudo é mais barato, mais racional, mais respeitoso. E pelo amor de Iemanjá, parem com esse negócio de inventar que "Deus" é uma expressão neutra de todas as religiões. Budistas não acreditam em nenhum deus, perguntem à Monja Coen. Eu não acredito em nenhum deus, muito menos em entidades como a bela e afável Iemanjá, e sou cidadão brasileiro. Exijo, como cidadão brasileiro, que parem de enfiar suas crenças pessoais no dinheiro e nos tribunais que são de TODOS, não apenas de vocês. Exijo em nome da Constituição que a Rachel Sheherazade não leu. *** A juíza que decidiu pela permanência da frase confessional diz que não vê muitos incomodados com a frase. Prove que ela está errada assinando esta petição.

15th of November

Psicologia Evolucionista justifica preconceito, machismo e misoginia?


Quando eu fundei o blog de divulgação científica Evolucionismo, eu passava bastante tempo varrendo órgãos de imprensa convencionais procurando notícias científicas.
“Tu me ergues”, parque Vigeland, Oslo.
O que eu descobri é que notícias de ciência, por falta de preparo de muitos jornalistas, e por falta de interesse dos órgãos em contratar jornalistas especializados como o Reinaldo José Lopes, são eivadas de meias-verdades, oportunidades perdidas para ensinar conceitos importantes, e tentativas frustradas de espetacularizar o que não é um espetáculo noticioso como “homem morde cachorro”.
E não é feito por má fé, é que a receita para fazer notícias não funciona muito bem quando se trata de divulgar descobertas que requerem a compreensão de certas teorias e premissas anteriores.
A psicologia evolucionista (eu prefiro “evolutiva”, ao contrário de profissionais da área no Brasil) sofre bastante nas mãos da imprensa, que tem essa sede de querer noticiar hipóteses ruins de certos profissionais, que costumam estar bastante distantes da prática acadêmica dos melhores psicólogos evolutivos. De vez em quando sai algum livro absurdo alegando coisas tolas sobre diferenças de comportamento entre homens e mulheres e firmando a alegação na nossa história evolutiva.
A primeira distinção que deve ser feita é que as fontes primárias são os artigos publicados em periódicos acadêmicos revistos por pares, não em livros de divulgação. E entre os livros de divulgação, bons autores consagrados devem ser lidos primeiro, na área sendo indispensáveis Steven Pinker e Gary Marcus.
Um centro respeitado de pesquisa em psi-evo é o liderado pelo casal Leda Cosmides e John Tooby na Universidade da Califórnia em Santa Barbara.
Não, a psicologia evolutiva definitivamente não existe para justificar preconceitos e misoginia. Ela existe para gerar hipóteses testáveis sobre que componentes do comportamento humano pode ser explicados e previstos por nossa história evolutiva. O comportamento irracional de parte da população de comer até ameaçar a própria saúde, porque supostamente deriva de uma era em que nossa espécie tinha pouco alimento disponível, por exemplo, começa a ter corroboração em nível molecular.
Outras histórias de sucesso da psicologia evolutiva são explicar por que motivo as estatísticas apontam que filhos adotados sofrem mais nas mãos dos próprios pais do que filhos biológicos (efeito Cinderela); e como funciona o mecanismo psicológico de detecção de parentesco que fundamenta o tabu quase universal do incesto (efeito de Westermarck).
O que a psicologia evolutiva não é:
– alegações de diferença de QI entre negros e brancos;
– alegações de diferença de QI entre mulheres e homens;
– qualquer explicação que descreva um grupo de pessoas como “mais evoluído” que outro.
Há diferenças de comportamento entre homens e mulheres, com raízes evolutivas? É possível que sim. Tanto quanto há diferenças anatômicas entre um grupo e outro. E são diferenças que valem para a maioria estatística, para as quais há exceções e minorias naturais (tanto quanto há pessoas que nascem com genitália ambígua, ou pessoas que desde muito cedo manifestam transexualidade apenas psicológica sem nenhum sinal corporal).
É digno de atenção, por exemplo, que também entre chimpanzés existe uma diferença de preferência de brinquedos entre machos e fêmeas infantes.
Constatar que diferenças existem até na raiz evolutiva e genética dos seres humanos não é justificar preconceitos nem misoginia. Parafraseando Karl Popper, o ideal do igualitarismo simplesmente é cego para as diferenças factuais entre as pessoas, ou seja, promover a igualdade como valor moral não significa ignorar que as diferenças existam entre as pessoas – na verdade é preciso louvar as diferenças, e, ao constatar que alguma variante torna seus portadores vulneráveis, tomar ações afirmativas para elevá-los à igualdade.
Se é algo como não poder andar, criar rampas de acesso para cadeirantes. Se é algo como sofrer violência dentro de casa com mais frequência, criar coisas como a delegacia da mulher e a lei Maria da Penha (sem criar a ilusão de que o grupo masculino não pode ser vítima ocasional de violência doméstica, em menor frequência que as mulheres). Se é algo como menor acesso à educação, facilitar este acesso de uma forma que não diminua o mérito e esforço (sou favorável a cotas econômicas, mas não a cotas raciais).
A psicologia evolutiva existe para o propósito de qualquer outra ciência: desvendar, amoralmente como toda ciência, aspectos de seu objeto de estudo (nossa própria natureza) que possam nos informar melhor em nossas decisões. A psicologia evolutiva é amoral no sentido de funcionar como uma lança funciona (parafraseando Carl Sagan): a lança pode ser usada para matar pessoas ou para caçar e alimentar uma família. A psi-evo pode ser usada para estigmatizar (e quem faz isso geralmente não usa boas fontes) ou para mostrar que tipo de vieses nós como uma espécie temos e o que podemos fazer para viver melhor com eles.