4th of março

Sobre gêneros e deterministas culturais


A nova estratégia de deterministas culturais é “fearmongering” – incitação ao medo. Para expulsar a biologia da compreensão da dimensão biológica de gênero e orientação sexual (que é inegável), agora a moda para tentar censurar a curiosidade sobre isso é alegar que será apenas outra fonte de segregação. Pode até ser, é possível. Mas ser possível não é sinônimo de ser provável, e ser submetido a mau uso não significa ser falso.
Ferramentas boas como a ciência são eficientes tanto para o mal (aumento de sofrimento) quanto para o bem (diminuição de sofrimento, libertação de oprimidos). A pílula foi, afinal de contas, um instrumento poderoso do feminismo – e se não a pílula, os conhecimentos das ciências biológicas sobre as intimidades hormonais do sexo biológico feminino. Mas esses conhecimentos foram, também, usados para o mal. Quem julgará que um conhecimento deve ser silenciado, e não expandido, para que não cause mal? Pode ser verdade para armas nucleares, talvez, mas é muito mais nuançado para coisas como biologia humana.
Por décadas, a biologia evolutiva foi demonizada com o uso do “darwinismo social”, uma invenção de Herbert Spencer, não de Darwin – que era abolicionista e sem dúvidas humanista. Grandes divulgadores da biologia evolutiva como Stephen Jay Gould investiram enormes esforços para desmistificar essa demonização, infelizmente generalizada em certos círculos ideológicos da academia de humanidades. Felizmente, as coisas mudaram bastante, e quase não se vê mais defensores do mito da Tabula Rasa.
Quando não se tem rigor intelectual, qualquer ideia bem engendrada ou apenas defendida com retórica ofuscante já se torna verdade absoluta para alguns. Felizmente, ciências empíricas têm mecanismos de correção – e outras investigações também, no entanto as áreas acadêmicas variam em rigor entre si, pelo seu processo histórico, e também pela variação de atividades em universidades diferentes – tanto em ciência quanto em humanidades.
A ideia de que o gênero é uma pura construção social, por exemplo. Papel de gênero não é tudo por trás de gênero. Evidentemente, de Luís XIV para Barack Obama, papel de gênero masculino, ao menos quanto a estética, mudou enormemente e isso salta aos olhos. Mas por que motivo a maioria das sociedades limitam suas categorias de gênero a poucas, e na maioria a apenas duas – homem e mulher? Porque há mais para essas categorias que simples construção social e papéis impostos. Não é plausível supor que sociedades ameríndias e da oceania, separadas culturalmente por mais de 50 milênios, tenham construído números similares de gênero por razões puramente culturais, mesmo que papéis de gênero sejam sem dúvida marcadores dessa distância cultural.
Gênero é invenção, no entanto a maioria das sociedades, que é patriarcal, sabe identificar muito bem que gênero oprimir: as mulheres, em todas as suas diferentes manifestações culturais – porém compartilhando algo em comum que é tanto sócio-cultural quanto biológico: o gênero feminino.
Se a cultura é onipotente sobre invenções de gêneros, onde estão sociedades com mais de 30 gêneros? Se castas indianas contam como gêneros, isso, creio, é no mínimo surpreendente, dado que dentro de cada uma dessas castas, as categorias homem/mulher (entre outras) existem e sabemos bem quem leva a pior.
Quando sua teoria sobre gênero é permissiva o bastante para com determinismo cultural, fica difícil compreender como é que mulheres simplesmente não optaram por ser homens para não sofrer mais opressão em algum lugar, em alguma época (e, como sou tolinho, é claro que algumas tiveram que fazer isso – ou melhor, fingir, e exemplos históricos não faltam – nosso caso emblemático é Maria Quitéria). Ao longo de toda a história, mulheres trans e pessoas que são algo diferente de mulher ou homem sofreram, sim, com os papéis impostos sobre elas. Sofreram porque há uma constância na identidade – a esmagadora maiora das pessoas é parte de uma mesma categoria na maior parte da vida – seja esta categoria uma categoria minoritária fora do binário homem-mulher. E, num grau menor, podemos incluir homens que sofreram por não serem vistos como “homens o bastante”, incluindo gays.
Como se diz comumente, somos seres biopsicossociais (bio-psico-sociais, como queira), mas em alguns círculos, psico sim, social também, mas se falar em bio, as comportas do inferno se abrem.

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(Publicado originalmente no Facebook em setembro de 2013.)

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Bônus: evidências da possível participação de recursos biológicos na identidade de gênero.

Existem mulheres que nascem com pênis e homens que nascem com vagina. Eis evidência cerebral de que mulheres trans e mulheres cis compartilham um mesmo gênero, e possivelmente homens trans e homens cis também, apesar de haver um único indivíduo testado no grupo dos homens trans neste estudo.
Os pontos representam os indivíduos testados. As alturas das barras coloridas são as médias. As linhas verticais no meio dessas barras são medidas de erro, e indicam que a diferença entre homens cis e mulheres tanto trans quanto cis é significativa, enquanto mulheres cis e mulheres trans não diferem entre si nesta região cerebral. Os tamanhos amostrais deste estudo são bons, porém mais estudos se fazem necessários para confirmar este achado.
Referências:
Bao, A.-M., and Swaab, D.F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Front Neuroendocrinol 32, 214–226.
Garcia-Falgueras, A., and Swaab, D.F. (2008). A sex difference in the hypothalamic uncinate nucleus: relationship to gender identity. Brain 131, 3132–3146.
1st of março

Você é machista, homofóbico(a), transfóbico(a), racista? Muita calma nessa hora!


Uma pessoa disse que a Marília Gabriela seria homofóbica por ter decidido não me convidar para o programa dela. Eu discordo enfaticamente! E também discordo enfaticamente de outras acusações de preconceito que às vezes vejo na internet. Por três razões:
1. Às vezes a lógica é quebrada. Se a Gabi é homofóbica por não me convidar, ela não era homofóbica por convidar as lésbicas Pepê e Neném? Não me convidar é uma premissa muito frágil para acusá-la de ser homofóbica. Como qualquer pessoa (independente de quem seja), ela merece o benefício da dúvida, e só merece ser acusada com evidências convincentes e argumentos convincentes. Alarmismo e denuncismo que passam por cima disso são um grande problema, não uma solução.
2. Se fosse verdade que Gabi é homofóbica, usar o adjetivo como um xingamento seria a última coisa que a faria refletir sobre isso e mudar de crença e atitude. A Gabi, como qualquer outro ser humano, provavelmente reagiria de forma defensiva, fechando-se para as ideias corretas de quem acusou, por causa da acusação, do uso de um “nome feio”. Encurralar pessoas não é educá-las. E se as pessoas não estão sendo educadas a jogar fora sua homofobia, qual é o propósito de acusá-las de sê-lo?
3. A forma mais caridosa de aceitar uma acusação dessas sem as evidências e bons argumentos, contra a Gabi ou contra qualquer outra pessoa, tem um efeito curioso: se a Gabi é homofóbica, quem acusou também é. Porque as pesquisas disponíveis mostram que as pessoas, independentemente de seus grupos, guardam em média vieses contra homossexuais. Inclusive os próprios. Isso não é para aplaudir a homofobia: isso é para educar a respeito de um fenômeno curioso chamado viés implícito.
A filósofa Jennifer Saul dá como exemplo desse fenômeno o que houve com o reverendo Jesse Jackson, que lutou toda a sua vida contra o racismo nos Estados Unidos, quando certa vez se viu, num momento de epifania autocrítica, tendo atitudes desfavoráveis contra negros. No caso, mudar de rota se visse um rapaz negro andando em direção a ele. 
Saul comenta evidências do viés implícito também no caso do sexismo (machismo, misoginia):
“O viés implícito pode vir em muitos tipos diferentes de comportamento. Por exemplo, decisões de contratação. Se você apresentar exatamente o mesmo currículo com um nome masculino ou feminino, há maior chance de o que tem nome masculino receber maior nota, receber convite para entrevista, receber cargo de maior hierarquia e salário e ser contratado do que o currículo com nome feminino. O mais recente estudo de 2012 mostrou que o efeito do viés é igualmente forte em todos os grupos etários, e que é igualmente forte entre homens e mulheres. O viés afeta o modo como interagimos com as pessoas. Tanto homens quanto mulheres são mais propensos a solicitar um homem que uma mulher, mais propensos a interpretar com caridade um comentário incoerente se for de um homem do que se for de uma mulher.”
(Traduzido deste podcast: http://lihs.org.br/bias )
Então, se o exemplo do viés implícito no caso do machismo é análogo aos outros preconceitos, é provável que, neste sentido específico, nós todos possamos ser machistas, ‘LGBT-fóbicos’, racistas. E quem pensa que estar num desses grupos isenta alguém de ter esses vieses, está provavelmente enganado.

Mas (e este é um grande mas), acho injusto usar esses adjetivos apenas por causa da ubiquidade dos vieses implícitos. Penso que as palavras temidas que designam preconceitos e discriminações deveriam ser usadas justamente para identificá-los quando há evidências claras e distintas de que estão ali, no caso específico que você está julgando.


Por que? Porque assim os próprios vieses podem ser combatidos melhor. Inclusive no nível do indivíduo, que ao saber da existência desses vieses, pode lutar para evitar incorrer neles, não baixar a guarda. E falar em vieses é muito mais efetivo para que as pessoas façam isso individualmente, se eduquem, do que encurralá-las e acusá-las. Tanto pior encurralá-las e acusá-las sem evidências convincentes!
Jesse Jackson com certeza deve ter se tornado um ativista melhor depois de sua epifania, alguém mais consciente sobre o quão complicado é algo como o racismo e o que fazer efetivamente para vencê-lo. E nós todos podemos melhorar nossas atitudes éticas se seguirmos este exemplo, de parar, respirar fundo, pensar, repensar, pesar as evidências, antes de sair numa cruzada ineficiente de acusacionismo fadado ao fracasso.
Portanto, se me acusam de qualquer uma dessas coisas, procuro fazer essa distinção entre aceitar a probabilidade de que eu incorro em vieses, e cobrar evidências de que realmente fiz algo motivado por eles ou motivado por coisa pior, como ideias agressivamente preconceituosas ou atitudes claramente discriminatórias. E não espero menos de qualquer outra pessoa, inclusive quem me acusou. Rigor com evidência e argumento é a única coisa que pode garantir justiça.
O que são os vieses implícitos? A filósofa Jennifer Saul ainda quer saber – se são crenças, se são atitudes, qual é sua natureza íntima – é algo em aberto. Pero que los hay, los hay. E é difícil declarar-se livre deles, sem passar por epifanias (no sentido de descobertas, de análises) como a de Jesse Jackson.
26th of fevereiro

Academicismo


Academicismo é querer monopolizar conhecimentos ou proposições, guardando-os sob a sombra de comunidades herméticas e jargões impenetráveis, negando que eles sejam acessíveis a pessoas de determinadas categorias.
Academicismo é metralhar uma pessoa completamente ignorante sobre um assunto com uma torrente de palavrões, neologismos e termos que ela não conhece nem faz ideia do que designam. 
Academicismo é escrever de uma forma obscura ou propositalmente estilizada, para agradar a tribo e alienar o resto das pessoas.
Enfim, academicismo é achar que suas ideias são tão sagradas que precisam desse tipo de escudo, evitando expô-las à luz do debate público. 
A falsidade e as ideias frágeis se evaporam à luz da investigação independente como Drácula ao sol do meio-dia.
15th of fevereiro

A tolerância de Rodrigo Constantino com a intolerância contra homossexuais


The bullshit is strong with this one.

Pediram-me para comentar os últimos dois textos do Rodrigo Constantino, o “liberal”, na Veja. Eu tentarei ser objetivo e não deixar avaliações mais emotivas e retóricas entrarem na frente – não vou fazer a mesma coisa que ele e outros colunistas da revista fazem.

No primeiro texto, apoiando Jair Bolsonaro para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Rodrigo diz:

“Homofobia, para esse pessoal, é simplesmente não achar lindo homem com homem.”

A frase é artifício retórico e eu não acredito que Rodrigo realmente acredite nisso, tanto quanto eu não acredito que ele considere que a definição de racismo para quem mais luta contra ele é “simplesmente não achar lindo gente preta”. No entanto, “não gostar” pode ser um critério não suficiente para definir um preconceito, e nem sempre necessário, mas que é simplesmente comum entre pessoas preconceituosas e faz parte de seu preconceito nesses casos. Uma pessoa que não acha os negros atraentes e não se considera racista ao menos precisa reconhecer que não achá-los atraentes é algo que ela tem em comum com muitos racistas. E para quem está observando de longe, se você fala como racista e age como racista, você poderia muito bem ser racista. A mesma coisa vale para necessidades urgentes de alguém expressar o quanto acha feio que dois homens se beijem. E esses homens são geralmente retratados como dois barbados, não como duas garotas lésbicas, porque quem fala disso geralmente pensa que seus interlocutores de valor são todos homens heterossexuais. Vou batizar esta falácia de argumentum ad barbis, o apelo à barba.

Uma vez, uma amiga minha disse que tinha repulsa por ver dois homens se beijando. Perguntei se ela sentia o mesmo sobre casais de lésbicas. Ela disse que não. O curioso é que ela é uma mulher heterossexual – então me pergunto se essa repulsa é mesmo algo que ela naturalmente teria por razões completamente internas e subjetivas (de “gosto”), ou por razões externas, ensinadas e aprendidas (parece-me ser o caso). Se é possível ensinar um gosto aversivo por pessoas homossexuais, então é possível ensinar que não se tenha esse tipo de reação ao vê-los, e isso poderia ser resolvido simplesmente com eles aparecendo mais e sendo mais vistos fazendo o que é considerado repulsivo por alguns (dentro dos mesmos limites de exposição dados a heterossexuais). A reação da minha amiga gera um problema: se ela não quer ser vista como homofóbica por mim, como resolveremos o fato de que, se ela vier à minha casa no futuro, eu terei de proibir meu companheiro de expressar afeto? Precisaremos esconder que somos homossexuais ou agir como se não fôssemos? Isso não seria uma atitude injustamente negativa para com nossa orientação? Se um negro como Michael Jackson resolve esconder sua negritude simulando vitiligo (ele realmente tinha vitiligo, mas assumamos que a outra história é verdade – até porque ele fez também rinoplastias suspeitas), não se pode botar parte da culpa disso no racismo, nas atitudes injustamente negativas contra negros, que percolam tanto sua cultura que se internalizam?

“Se alguém externar que prefere ter um filho heterossexual, isso já basta para ser visto como homofóbico hoje em dia, o que é absurdo.”

Mas é absurdo por que? De fato, não há problema algum em preferir que a filha seja heterossexual, mas somente se for por motivos não preconceituosos: “se ela for hétero tenho mais chances de ter netos”; “se ela for hétero não vai sofrer tanto com preconceito”. Isso geralmente se faz ANTES da filha em questão existir ou sair do útero da mãe. O problema é gente que continua expressando sua “preferência” depois dessa filha ter nascido, crescido, e estar perguntando se vai continuar tendo um teto se namorar a Pâmela. E expressar para seu filho que já existe que ele deveria ser coisa diferente do que ele é, e justamente em algo que não é escolha e ele não pode fazer nada a respeito, é rejeitar a natureza íntima do seu filho, e é a pior forma de rejeição. Isso não merece o nome de homofobia?

Mas claro, tudo depende do que o Rodrigo Constantino considera homofobia. O que ele considera ser a definição usual de homofobia, aquela que usamos diariamente, aquela que se consagrou na comunidade internacional?

“Ora, fobia é medo! Quem é que pode ter medo de gays(…)? O sujeito pode não gostar da ideia, ter até certa aversão espontânea à imagem de dois homens barbados se beijando. [Taí o argumentum ad barbis!] Não acho que isso seja suficiente para acusá-lo de homofobia. Então o sujeito que não curte quiabo sofre de “quiabofobia”?”

Aqui, Rodrigo Constantino comete a falácia etimológica. Esse argumento péssimo consiste em definir um termo por sua etimologia, quando a etimologia é irrelevante. Esse erro é cometido não apenas por homofóbico, mas também por homossexuais. Homofobia não precisa ser definida como fobia de homossexuais: significa apenas preconceito contra ou discriminação injusta contra homossexuais. Este é o sentido comum do termo. Ninguém acha que o Bolsonaro ao falar cheio de raiva contra gays está realmente com medo, mas que está sendo preconceituoso. O estado emocional dele ao falar de gays não importa – se medo, se ódio, se indiferença – mas apenas se o que ele diz é difamatório, negativamente generalizante, enfim, preconceituoso.

“Homofobia” não é fobia de homossexuais assim como “cálculo” não é uma pequena pedra e “racismo” não é apreço pelas raças, ainda que as etimologias dessas palavras possam sugerir isso. O uso faz o sentido, e não a etimologia.

Portanto, Constantino não parece realmente saber o que é homofobia, ou então usou esse argumento falacioso apenas retoricamente, para apelar para a torcida, da mesma forma que fez ao sugerir que alguém pensa que homofobia é igual a não ter gosto pessoal por ver pessoas do mesmo sexo (e ele esquece o feminino por algum motivo) expressando afeto romântico ou erótico.

No segundo texto ele diz: “Se para ser considerado homobóbico basta sentir aversão a dois homens se beijando, então muita gente é homofóbica sem saber.” De fato!

O erro que eu reconheço em alguns ativistas é não levar em conta diferentes graus de homofobia, e também se esquecerem que é melhor ser didático e paciente, e tentar não usar e abusar de “homofobia” como um xingamento, e se lembrar do que o termo significa. Acusacionismo não leva a lugar algum, e uma pesquisa empírica com diferentes ativismos já mostrou que essa atitude tem efeito contrário ao pretendido por ativistas que se comportam assim.  Comentei a pesquisa aqui: https://www.facebook.com/1423657476/posts/10203226375126543

Agora, o que se pode perguntar é por que Constantino está fazendo isso. Sou informado que ele anda fazendo as pazes em “hangouts” com Olavo de Carvalho e se aproximando de outras figuras do conservadorismo, mesmo alegando, inclusive no subtítulo de sua coluna na Veja, que é um liberal.

Então, como recado para um liberal postiço, mando uma citação de um liberal de fato, Friedrich Hayek, num ensaio apropriadamente intitulado “Por que não sou um conservador”:

“[A]quele que crê na liberdade não pode senão conflitar com o conservador e tomar uma posição essencialmente radical, direcionada contra os preconceitos populares, posições arraigadas, e privilégios firmemente estabelecidos. Tolices e abusos não são mais aceitáveis por terem sido há tempos estabelecidos como princípios de insensatez.”

E se apoiar Bolsonaro para uma comissão de direitos humanos não é tolice, abuso e insensatez, além de um afago aos preconceitos populares e privilégios arraigados contra a liberdade individual dos LGBT, então não sei o que é. E não é coisa digna de um autointitulado liberal.

3rd of fevereiro

Sobre a sugestão de que homossexuais criem seu próprio tipo de família


Disseram-me que lésbicas e gays, em vez de agir para obter o mesmo direito a formar família que o resto da humanidade tem, deveriam construir seu próprio tipo de família. Eu discordo, e de três formas diferentes.

Primeiro, nós não somos ET’s. Nós temos as mesmas necessidades dos heterossexuais: compartilhar a vida com alguém para dirimir a solidão que ganhamos de presente ao nascer, ter quem escute nossos sonhos e aspirações e esteja lá quando vierem à fruição ou ao fracasso etc. Não, eu não quero “construir uma família nova”. Eu quero só ter minhas necessidades afetivas e sexuais amparadas pela lei onde necessário, e ignoradas pelo resto do mundo onde necessário, como qualquer outro homem ou outra mulher que goste de outros homens ou outras mulheres. Em outras palavras, a orientação sexual das pessoas não é diferença suficiente para apagar sua humanidade compartilhada – e isso inclui as necessidades demasiado humanas em torno da existência das famílias.

Segundo, porque já temos cem milênios de tentativa e erro da humanidade em fazer diferentes tipos de família. Muito dificilmente qualquer coisa que nós criássemos seria nova. Sinto muito, Novos Baianos, mas o que vocês fizeram não foi novidade nenhuma – se for verdade que viviam numa comuna poliamorista. Do ponto de vista de uma criança, pouco importa se os dois adultos do mesmo sexo que estão cuidando dela são irmãos ou um casal – quem já foi criança sabe muito bem o desinteresse de uma criança em relação ao que seus responsáveis fazem entre quatro paredes. Desinteresse? Talvez eu devesse falar em horror, é a reação de muitos ao pensar em seus pais fazendo sexo. O curioso é que o horror em pensar no sexo dos pais não leva a leis proibindo que pais façam sexo, o que não é exatamente verdade para a aversão ao sexo gay, não é mesmo, Uganda e Rússia?

Terceiro, seria inútil fazer proposições de modelos de família para gays e lésbicas. Pelo simples motivo de que, antes de serem agrupados numa classe, gays e lésbicas são indivíduos que variam entre si tanto quanto quaisquer outros indivíduos. Entre nós há os de temperamento naturalmente monogâmico, e também os de temperamento poliamorista, ou sem compromisso, e todas as gradações neste continuum. Não adianta tentar fazer pessoas naturalmente propensas ao laço afetivo monogâmico se despirem de ciúmes em relações de poliamor. Não se força alguém a adotar um modelo de relacionamento ou de família que não ressoe com o que faz a pessoa confortável e feliz.

O problema dos tipos de família ao longo da História não é a diversidade – há tipos de família para todos os gostos. O problema é que nenhum até hoje foi incontroverso porque sempre houve quem tentasse fazê-lo compulsório. E eu prevejo que, num mundo onde os indivíduos têm liberdade, não haverá tal coisa de “modelo de família gay” – as famílias começadas por LGBT serão tão diversas quanto as famílias começadas por heterossexuais e cissexuais. Que o diga o Rei Salomão e suas 700 esposas, modelo bíblico de família (provavelmente antiético) ignorado por todos os ignorantes que acreditam possuir a fórmula da “família brasileira”, uma quimera tão fantasiosa quanto a maior parte de sua visão de mundo.

10th of setembro

Eugenia contra gays?


Invocar terapias gênicas e eugenia sempre que se fala em genética da orientação sexual equivale a invocar evangelização de índios sempre que se fala em cultura.
Se quer se focar no mau uso do conhecimento genético, não venha ignorar que o conhecimento sobre cultura também pode ser usado para o mal.
Conhecimento é uma ferramenta. Como uma lança, pode ser usada para alimentar sua família esquimó ou para assassinar seu vizinho (parafraseando Sagan).
Adotar um meio termo entre determinismo genético e determinismo cultural não é ficar em cima do muro, é fugir de uma falsa dicotomia a favor de uma compreensão mais adequada do que as pessoas realmente são. Porque as pessoas são uma coisa definida, e não semi-deuses inefáveis, indescritíveis e impossíveis de entender.
Como disse Chomsky, não é desesperador que tenhamos limites. O que não tem limite não se define, não se organiza e não existe. E a visão de que o ser humano é uma tábula rasa é a visão de um ser humano que não existe.
P.S.: A possibilidade biológica de transformar negro em branco já existe. Por que ninguém está em pânico nem acusando a ciência?
P. P. S.: Preocupação bioética bem mais real que eugenia contra gay é a quantidade de meninas que bota silicone por pressão do sexismo dos outros.
9th of setembro

Sobre homofobia e soltar pum em elevador


Flatulências em público podem ser consideradas pequenos delitos éticos. Porque incomodam as pessoas ao redor, causando-lhes mal estar olfativo.
Se Pedrão peida no elevador, é justo que as pessoas ao redor exprimam descontentamento. Pedrão deve concluir que é uma verdade moral que insultar os narizes alheios com os vapores de suas entranhas é errado. Não é errado no mesmo grau que é errado torturar e matar, mas é errado.
Imaginem que Dona Astrogilda, por sua vez, é uma idosa de 95 anos que sofreu um AVC e está acamada há meses. O AVC causou a perda do controle que ela tinha sobre as flatulências, então ela solta puns tão logo são produzidos por sua flora intestinal, mesmo que o quarto esteja cheio com todos os seus netos e bisnetos.
A pequena imoralidade de peidar pode ser atribuída à Astrogilda? Não. Porque ela não pode fazer diferente, e se não pode, então não deve. Não se pode esperar dever ético de uma ação sobre a qual ela não tem poder voluntário.
Esse pequeno exemplo malcheiroso é para ilustrar a tese de Kant de que “deve implica pode”. É uma tese simples e poderosa.
Se um(a) homossexual não pode evitar ser homossexual, então não interessa o que diz a sua respeitável teologia: ele(a) não deve deixar de ser homossexual, porque ele(a) não pode – não consegue, não é capaz, é impraticável. Se deixar de fazer o que sua libido o(a) impele a fazer, sofrerá. Então incitá-lo(a) a deixar de fazer é errado, e mais errado que peidar em elevador.
1st of agosto

Refutação preemptiva às bobagens que Silas Malafaia dirá na Globo hoje


Hoje o fiscal anal geral da República, Silas Malafaia, estará no programa de Pedro Bial na Sonegadora de Impostos, digo, na Rede Globo.

Eis aqui uma refutação preemptiva às falácias do pastor, se ele abrir a boca para falar da natureza da homossexualidade:

1 – Francis Collins, que ocupou cargo burocrático do sequenciamento do rascunho do genoma humano por parte do governo dos EUA, cientista cristão e um bom cientista, jamais negou as bases genéticas da orientação sexual em humanos. Isso é mentira do Malafaia. Eis o que Francis Collins de fato disse:

“Uma área de particular forte interesse público é a base genética da homossexualidade. As evidências de estudos com gêmeos de fato apoia a conclusão de que fatores herdáveis têm um papel na homossexualidade masculina.”

2 – Mayana Zatz, geneticista respeitada brasileira, também não negou as bases genéticas da orientação sexual. Mentira do Malafaia. Marcos Eberlin, químico da Unicamp que gasta seu tempo livre atacando a teoria da evolução aceita unanimemente por aqueles que, diferente dele, pesquisam em biologia, genética e genômica, não é um geneticista. Em todo lugar que Malafaia vai ele repete que o criacionista é geneticista, e isso é mais uma mentira.

3 – Malafaia usa apenas uma fonte, o livro de um tal John S. H. Tay. Como Malafaia usa este como autoridade e mal toca em qual argumento ele usa para negar as evidências de base genética na orientação sexual, basta contar o número de cientistas e universidades que o desmentem nas referências que citei no meu vídeo. http://youtu.be/3wx3fdnOEos

Malafaia é tão ardiloso que ele indica esse livro porque a tradução é editada pela igreja dele, e ele quer aumentar seus lucros vendendo o livro.

Na conclusão do livro, Tay alega: “as evidências apontam a eficácia das terapias de reorientação [sexual]”, ou seja, cura gay. Malafaia usa como referência em genética um livro que alega que é possível fazer a tal da cura gay. 

Enquanto isso, Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da psiquiatria moderna, pediu desculpas por ter alegado que a cura gay era possível e ter feito estudos tendenciosos contendo esta alegação. http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/05/20/famoso-psiquiatra-pede-desculpas-por-estudo-sobre-cura-para-gays.htm

4 – A tese do Malafaia de que direitos dos LGBT têm que ser submetidos a plesbiscito é absurda e fascista. Desafio-o a citar um só jurista que defenda uma excrescência dessas. Se maiorias pudessem decidir sobre os direitos das minorias, linchamentos seriam legais, e a escravidão dificilmente teria sido abolida. Malafaia quer que a maioria decida sobre os direitos desta minoria porque ele espera que a maioria compartilhe de seu preconceito e de seu ódio contra esta minoria.

5 – Para demais bobagens que ele dirá sobre Estado laico, favor ler esta nota (clique no título):  Brasil não pode ser laico por causa de “Deus seja louvado” no dinheiro e “sob a proteção de Deus” na Constituição?

Para terminar, só quero acrescentar uma coisa: a emissora tem responsabilidade sobre este convite. Convidar o Malafaia para falar de gays não é diferente de convidar a Ku Klux Klan para falar de negros. Até quando a mídia vai dar espaço para preconceituosos e propagadores de discurso de ódio?

23rd of julho

Resposta à cartilha obscurantista da Igreja Católica para a Jornada Mundial da Juventude


Entidades ligadas ao Vaticano distribuíram milhares de cópias de um “Manual de Bioética para Jovens” na ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil. Achei curioso o nome, dado que bioética é uma área séria de pesquisa filosófica, completamente secular. A seguir, comento alguns trechos do manual selecionados pela Folha de S. Paulo.

1. “Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe. A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver”.

A Universidade de Cambridge, Reino Unido, já divulgou estudo mostrando que não há qualquer diferença em competência sócio-psicológica entre crianças criadas por casais tradicionais e crianças criadas por casais do mesmo sexo. A realidade é esta, e a “realidade” do “realismo” da Igreja é uma invenção ideológica sem qualquer âncora em fatos. Fonte: http://www.cam.ac.uk/research/news/ive-got-two-dads-and-they-adopted-me

2. Um menino pelado olha para o próprio pênis e questiona: “Não sou homem? Eu? Então o que é isto?”.

Existem meninas que nascem com pênis. Isso é um fato reconhecido por publicações médicas recentes. Vamos falar um pouco da realidade do desenvolvimento embrionário. Até os dois primeiros meses de gestação, desenvolve-se a genitália. Mas só da metade da gestação adiante desenvolvem-se os circuitos cerebrais associados à identidade de gênero. O desenvolvimento da genitália de qualquer organismo com genoma humano, independentemente de haver cromossomo Y ou não, seguirá para o surgimento da vagina na ausência de hormônios masculinizantes.

Existem pessoas XY que se desenvolvem com insensibilidade a androgênios – são mulheres com vagina, em sua maioria heterossexuais. Isso fica difícil de conciliar com o dogma de que Deus criou primeiro o homem e depois modificou-o em mulher (como acreditava Tomás de Aquino, notório misógino que defendia que mulheres eram formas degeneradas de homem), quando nos detalhes genéticos do desenvolvimento embrionário são estruturas mais tipicamente femininas que servem como substrato para o desenvolvimento de estruturas mais tipicamente masculinas, quando hormônios e fatores de transcrição acionam cascatas bioquímicas de desenvolvimento.

Como existe uma independência temporal entre desenvolvimento do sexo biológico genital e desenvolvimento de estruturas associadas a diferentes gêneros no cérebro, é natural, possível, e sempre acontecerá numa minoria da humanidade que o sexo biológico se desenvolva de uma forma e o “sexo cerebral” se desenvolva de outra, de forma que a também importante contribuição do ambiente cultural atuará sobre cérebros já mais propensos a aceitar uma categoria ou outra. Casos de pessoas transgênero na pré-infância não são desconhecidos, inclusive em famílias cristãs, que só aumentam o sofrimento da família e de seus filhos transexuais ao tentar mudar a identidade de gênero que começou a se formar já no útero.

Fonte: Ai-Min Bao (Ministério da Saúde da China) & Dick F Swaab ( Instituto Holandês de Neurociência e ao Instituto da Real Academia Holandesa de Artes e Ciências). 2011. Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders. Frontiers in Neuroendocrinology 32(2): 214–226.

A não-aceitação preconceituosa de pessoas transgênero (ou transexuais), diante dos fatos acima, é nada mais nada menos que um preconceito, pois, ainda que alguém acredite que seja doentio ou imoral ser trans (posição que carece de argumentos), não pode culpar trans por sê-lo e muito menos esperar que consigam mudar sua identidade sexual ou de gênero. A Igreja Católica Apostólica Romana é transfóbica em sua cartilha.

O mesmo pode ser dito quanto à orientação sexual e a condição de qualquer pessoa como heterossexual, bissexual ou homossexual. Quem apresenta a orientação sexual majoritária e aprovada pela Igreja precisa no mínimo examinar-se honestamente e estabelecer quando foi que escolheu se sentir atraído por um sexo/gênero diferente do seu. E a resposta honesta é que não escolheu, e portanto não tem qualquer elemento evidencial para alegar, como faz o pastor fundamentalista Silas Malafaia, que homossexuais escolhem ser homossexuais. Poucos meses atrás a Sociedade Brasileira de Genética desmentiu essas alegações do pastor em nota oficial ( http://sbg.org.br/2013/03/manifesto-da-sociedade-brasileira-de-genetica-sobre-bases-geneticas-da-orientacao-sexual/ ).

Felizmente, os católicos que são contra os direitos de adoção dos casais do mesmo sexo, ou contra seu casamento civil sob os auspícios de um país laico, já são minoria, como publicado pela Folha de S. Paulo. Isso atesta que a Santa Sé continua mais conservadora que seus próprios fiéis, por isso produz cartilhas como esta tentando trazê-los para posições ultrapassadas e que só aumentam o sofrimento no mundo.

3. “Recusar a adoção aos homossexuais não representaria homofobia? Não, porque a questão é outra. Ter um filho não é um direito! O filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais. Embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reivindicação dos lobbies homossexuais não é legítima”.”

Sim, recusar um direito dos casais do mesmo sexo é um preconceito, e o nome é homofobia. Sim, a Igreja está defendendo uma posição homofóbica, e trocar o nome do preconceito ou tentar se distanciar do nome que ele tem não apaga o fato de que o Vaticano, representando pela CNBB, mandou um advogado ao STF, no julgamento que reconheceu a união estável homoafetiva, para tentar barrar os direitos desses casais e impedi-los de serem reconhecidos como família. Tudo isso numa interferência explícita e inconveniente numa estrutura de poder secular que se declara como tal, laica, a qual a Igreja está usando neste momento para pagar com dinheiro público brasileiro por uma visita que de “diplomática” e “visita de chefe de Estado” não tem absolutamente nada. O nome que se dá a subverter a laicidade Constitucional do Brasil para proveito próprio, mantendo privilégios e falta de igualdade entre as crenças dos contribuintes brasileiros, é tráfico de influência, e os governantes que permitiram isso são igualmente culpados.

E sim, ter um filho é um direito, e não, como a Igreja acredita, um dever. Crença que ela faz questão de impor nos úteros de todas as mulheres brasileiras, que são impedidas de decidir sobre suas próprias gestações por causa de outros tráficos de influência religiosa mais antigos que criminalizaram o aborto. Isso porque a própria história da Igreja mostra um notável dissenso sobre a questão, com alguns teólogos permitindo o aborto até certa fase do desenvolvimento, e outros decidindo dogmaticamente e magicamente que a união dos gametas é a origem do indivíduo. O fato da Bíblia ter sido escrita num período histórico em que ninguém sabia o que era ovócito nem espermatozoide não impede o clero de se intrometer impertinentemente nos direitos civis brasileiros, de querer palestrar sobre assuntos que são da competência de médicos e profissionais das ciências biológicas e ciências humanas. E por falar em médicos, o Conselho Federal de Medicina já deu a correta opinião de que o aborto deve ser permitido até a décima-segunda semana (período seguro anterior ao desenvolvimento do cérebro, o mesmo órgão cuja morte dá o direito às famílias para desligar os aparelhos e doar os órgãos de um indivíduo), pela simples razão de que a criminalização ideologicamente patrocinada pela Igreja Católica é assassina e faz diversas vítimas anualmente neste país. Vítimas essas que só tiveram o azar de ter se desenvolvido com a identidade de gênero e sexo biológico femininos, que a Igreja rejeita de seu quadro eclesiástico e com os quais tem uma longa história de desprezo, apesar da simbologia de Maria.

Já está ficando para o passado os tempos em que a Igreja Católica percolava pela cultura e pelo poder brasileiros, infelizmente usando-os nem sempre de forma sábia. Os católicos são em sua maioria mais progressistas e respeitadores dos direitos de seus concidadãos que a instituição bilionária à qual se afiliam e com a qual frequentemente discordam, bastando usar o exemplo do uso da camisinha para atestar isso.

Por falar em camisinha, foi notório que a primeira desistência de papado em quase 600 anos aconteceu neste momento, e foi feita pelo mesmo ex-papa que passou por cima do conhecimento científico alegando que a camisinha pioraria a incidência da AIDS na África. Temos nesta cartilha aos jovens brasileiros mais um exemplo de palpite eclesiástico errado no território da ciência. Além de termos, é claro, justificativas as mais absurdas para sorver mais de 100 milhões do erário público para um líder religioso que não representa todas as crenças no Brasil.

O que me pergunto é onde foi parar a ideia de dar “a César o que é de César”. Temos diversos césares se escondendo com batinas.

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Eli Vieira
biólogo geneticista,
ex-presidente da LiHS,
feliz em compartilhar um país com quem acredita em poder público laico em que todos são bem-vindos e ninguém é privilegiado.

19th of julho

Por que a Igreja Católica não é uma força para o bem