3rd of February

Sobre a sugestão de que homossexuais criem seu próprio tipo de família


Disseram-me que lésbicas e gays, em vez de agir para obter o mesmo direito a formar família que o resto da humanidade tem, deveriam construir seu próprio tipo de família. Eu discordo, e de três formas diferentes.

Primeiro, nós não somos ET’s. Nós temos as mesmas necessidades dos heterossexuais: compartilhar a vida com alguém para dirimir a solidão que ganhamos de presente ao nascer, ter quem escute nossos sonhos e aspirações e esteja lá quando vierem à fruição ou ao fracasso etc. Não, eu não quero “construir uma família nova”. Eu quero só ter minhas necessidades afetivas e sexuais amparadas pela lei onde necessário, e ignoradas pelo resto do mundo onde necessário, como qualquer outro homem ou outra mulher que goste de outros homens ou outras mulheres. Em outras palavras, a orientação sexual das pessoas não é diferença suficiente para apagar sua humanidade compartilhada – e isso inclui as necessidades demasiado humanas em torno da existência das famílias.

Segundo, porque já temos cem milênios de tentativa e erro da humanidade em fazer diferentes tipos de família. Muito dificilmente qualquer coisa que nós criássemos seria nova. Sinto muito, Novos Baianos, mas o que vocês fizeram não foi novidade nenhuma – se for verdade que viviam numa comuna poliamorista. Do ponto de vista de uma criança, pouco importa se os dois adultos do mesmo sexo que estão cuidando dela são irmãos ou um casal – quem já foi criança sabe muito bem o desinteresse de uma criança em relação ao que seus responsáveis fazem entre quatro paredes. Desinteresse? Talvez eu devesse falar em horror, é a reação de muitos ao pensar em seus pais fazendo sexo. O curioso é que o horror em pensar no sexo dos pais não leva a leis proibindo que pais façam sexo, o que não é exatamente verdade para a aversão ao sexo gay, não é mesmo, Uganda e Rússia?

Terceiro, seria inútil fazer proposições de modelos de família para gays e lésbicas. Pelo simples motivo de que, antes de serem agrupados numa classe, gays e lésbicas são indivíduos que variam entre si tanto quanto quaisquer outros indivíduos. Entre nós há os de temperamento naturalmente monogâmico, e também os de temperamento poliamorista, ou sem compromisso, e todas as gradações neste continuum. Não adianta tentar fazer pessoas naturalmente propensas ao laço afetivo monogâmico se despirem de ciúmes em relações de poliamor. Não se força alguém a adotar um modelo de relacionamento ou de família que não ressoe com o que faz a pessoa confortável e feliz.

O problema dos tipos de família ao longo da História não é a diversidade – há tipos de família para todos os gostos. O problema é que nenhum até hoje foi incontroverso porque sempre houve quem tentasse fazê-lo compulsório. E eu prevejo que, num mundo onde os indivíduos têm liberdade, não haverá tal coisa de “modelo de família gay” – as famílias começadas por LGBT serão tão diversas quanto as famílias começadas por heterossexuais e cissexuais. Que o diga o Rei Salomão e suas 700 esposas, modelo bíblico de família (provavelmente antiético) ignorado por todos os ignorantes que acreditam possuir a fórmula da “família brasileira”, uma quimera tão fantasiosa quanto a maior parte de sua visão de mundo.

10th of September

Eugenia contra gays?


Invocar terapias gênicas e eugenia sempre que se fala em genética da orientação sexual equivale a invocar evangelização de índios sempre que se fala em cultura.
Se quer se focar no mau uso do conhecimento genético, não venha ignorar que o conhecimento sobre cultura também pode ser usado para o mal.
Conhecimento é uma ferramenta. Como uma lança, pode ser usada para alimentar sua família esquimó ou para assassinar seu vizinho (parafraseando Sagan).
Adotar um meio termo entre determinismo genético e determinismo cultural não é ficar em cima do muro, é fugir de uma falsa dicotomia a favor de uma compreensão mais adequada do que as pessoas realmente são. Porque as pessoas são uma coisa definida, e não semi-deuses inefáveis, indescritíveis e impossíveis de entender.
Como disse Chomsky, não é desesperador que tenhamos limites. O que não tem limite não se define, não se organiza e não existe. E a visão de que o ser humano é uma tábula rasa é a visão de um ser humano que não existe.
P.S.: A possibilidade biológica de transformar negro em branco já existe. Por que ninguém está em pânico nem acusando a ciência?
P. P. S.: Preocupação bioética bem mais real que eugenia contra gay é a quantidade de meninas que bota silicone por pressão do sexismo dos outros.
9th of September

Sobre homofobia e soltar pum em elevador


Flatulências em público podem ser consideradas pequenos delitos éticos. Porque incomodam as pessoas ao redor, causando-lhes mal estar olfativo.
Se Pedrão peida no elevador, é justo que as pessoas ao redor exprimam descontentamento. Pedrão deve concluir que é uma verdade moral que insultar os narizes alheios com os vapores de suas entranhas é errado. Não é errado no mesmo grau que é errado torturar e matar, mas é errado.
Imaginem que Dona Astrogilda, por sua vez, é uma idosa de 95 anos que sofreu um AVC e está acamada há meses. O AVC causou a perda do controle que ela tinha sobre as flatulências, então ela solta puns tão logo são produzidos por sua flora intestinal, mesmo que o quarto esteja cheio com todos os seus netos e bisnetos.
A pequena imoralidade de peidar pode ser atribuída à Astrogilda? Não. Porque ela não pode fazer diferente, e se não pode, então não deve. Não se pode esperar dever ético de uma ação sobre a qual ela não tem poder voluntário.
Esse pequeno exemplo malcheiroso é para ilustrar a tese de Kant de que “deve implica pode”. É uma tese simples e poderosa.
Se um(a) homossexual não pode evitar ser homossexual, então não interessa o que diz a sua respeitável teologia: ele(a) não deve deixar de ser homossexual, porque ele(a) não pode – não consegue, não é capaz, é impraticável. Se deixar de fazer o que sua libido o(a) impele a fazer, sofrerá. Então incitá-lo(a) a deixar de fazer é errado, e mais errado que peidar em elevador.
1st of August

Refutação preemptiva às bobagens que Silas Malafaia dirá na Globo hoje


Hoje o fiscal anal geral da República, Silas Malafaia, estará no programa de Pedro Bial na Sonegadora de Impostos, digo, na Rede Globo.

Eis aqui uma refutação preemptiva às falácias do pastor, se ele abrir a boca para falar da natureza da homossexualidade:

1 – Francis Collins, que ocupou cargo burocrático do sequenciamento do rascunho do genoma humano por parte do governo dos EUA, cientista cristão e um bom cientista, jamais negou as bases genéticas da orientação sexual em humanos. Isso é mentira do Malafaia. Eis o que Francis Collins de fato disse:

“Uma área de particular forte interesse público é a base genética da homossexualidade. As evidências de estudos com gêmeos de fato apoia a conclusão de que fatores herdáveis têm um papel na homossexualidade masculina.”

2 – Mayana Zatz, geneticista respeitada brasileira, também não negou as bases genéticas da orientação sexual. Mentira do Malafaia. Marcos Eberlin, químico da Unicamp que gasta seu tempo livre atacando a teoria da evolução aceita unanimemente por aqueles que, diferente dele, pesquisam em biologia, genética e genômica, não é um geneticista. Em todo lugar que Malafaia vai ele repete que o criacionista é geneticista, e isso é mais uma mentira.

3 – Malafaia usa apenas uma fonte, o livro de um tal John S. H. Tay. Como Malafaia usa este como autoridade e mal toca em qual argumento ele usa para negar as evidências de base genética na orientação sexual, basta contar o número de cientistas e universidades que o desmentem nas referências que citei no meu vídeo. http://youtu.be/3wx3fdnOEos

Malafaia é tão ardiloso que ele indica esse livro porque a tradução é editada pela igreja dele, e ele quer aumentar seus lucros vendendo o livro.

Na conclusão do livro, Tay alega: “as evidências apontam a eficácia das terapias de reorientação [sexual]”, ou seja, cura gay. Malafaia usa como referência em genética um livro que alega que é possível fazer a tal da cura gay. 

Enquanto isso, Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da psiquiatria moderna, pediu desculpas por ter alegado que a cura gay era possível e ter feito estudos tendenciosos contendo esta alegação. http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/05/20/famoso-psiquiatra-pede-desculpas-por-estudo-sobre-cura-para-gays.htm

4 – A tese do Malafaia de que direitos dos LGBT têm que ser submetidos a plesbiscito é absurda e fascista. Desafio-o a citar um só jurista que defenda uma excrescência dessas. Se maiorias pudessem decidir sobre os direitos das minorias, linchamentos seriam legais, e a escravidão dificilmente teria sido abolida. Malafaia quer que a maioria decida sobre os direitos desta minoria porque ele espera que a maioria compartilhe de seu preconceito e de seu ódio contra esta minoria.

5 – Para demais bobagens que ele dirá sobre Estado laico, favor ler esta nota (clique no título):  Brasil não pode ser laico por causa de “Deus seja louvado” no dinheiro e “sob a proteção de Deus” na Constituição?

Para terminar, só quero acrescentar uma coisa: a emissora tem responsabilidade sobre este convite. Convidar o Malafaia para falar de gays não é diferente de convidar a Ku Klux Klan para falar de negros. Até quando a mídia vai dar espaço para preconceituosos e propagadores de discurso de ódio?

23rd of July

Resposta à cartilha obscurantista da Igreja Católica para a Jornada Mundial da Juventude


Entidades ligadas ao Vaticano distribuíram milhares de cópias de um “Manual de Bioética para Jovens” na ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil. Achei curioso o nome, dado que bioética é uma área séria de pesquisa filosófica, completamente secular. A seguir, comento alguns trechos do manual selecionados pela Folha de S. Paulo.

1. “Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe. A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver”.

A Universidade de Cambridge, Reino Unido, já divulgou estudo mostrando que não há qualquer diferença em competência sócio-psicológica entre crianças criadas por casais tradicionais e crianças criadas por casais do mesmo sexo. A realidade é esta, e a “realidade” do “realismo” da Igreja é uma invenção ideológica sem qualquer âncora em fatos. Fonte: http://www.cam.ac.uk/research/news/ive-got-two-dads-and-they-adopted-me

2. Um menino pelado olha para o próprio pênis e questiona: “Não sou homem? Eu? Então o que é isto?”.

Existem meninas que nascem com pênis. Isso é um fato reconhecido por publicações médicas recentes. Vamos falar um pouco da realidade do desenvolvimento embrionário. Até os dois primeiros meses de gestação, desenvolve-se a genitália. Mas só da metade da gestação adiante desenvolvem-se os circuitos cerebrais associados à identidade de gênero. O desenvolvimento da genitália de qualquer organismo com genoma humano, independentemente de haver cromossomo Y ou não, seguirá para o surgimento da vagina na ausência de hormônios masculinizantes.

Existem pessoas XY que se desenvolvem com insensibilidade a androgênios – são mulheres com vagina, em sua maioria heterossexuais. Isso fica difícil de conciliar com o dogma de que Deus criou primeiro o homem e depois modificou-o em mulher (como acreditava Tomás de Aquino, notório misógino que defendia que mulheres eram formas degeneradas de homem), quando nos detalhes genéticos do desenvolvimento embrionário são estruturas mais tipicamente femininas que servem como substrato para o desenvolvimento de estruturas mais tipicamente masculinas, quando hormônios e fatores de transcrição acionam cascatas bioquímicas de desenvolvimento.

Como existe uma independência temporal entre desenvolvimento do sexo biológico genital e desenvolvimento de estruturas associadas a diferentes gêneros no cérebro, é natural, possível, e sempre acontecerá numa minoria da humanidade que o sexo biológico se desenvolva de uma forma e o “sexo cerebral” se desenvolva de outra, de forma que a também importante contribuição do ambiente cultural atuará sobre cérebros já mais propensos a aceitar uma categoria ou outra. Casos de pessoas transgênero na pré-infância não são desconhecidos, inclusive em famílias cristãs, que só aumentam o sofrimento da família e de seus filhos transexuais ao tentar mudar a identidade de gênero que começou a se formar já no útero.

Fonte: Ai-Min Bao (Ministério da Saúde da China) & Dick F Swaab ( Instituto Holandês de Neurociência e ao Instituto da Real Academia Holandesa de Artes e Ciências). 2011. Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders. Frontiers in Neuroendocrinology 32(2): 214–226.

A não-aceitação preconceituosa de pessoas transgênero (ou transexuais), diante dos fatos acima, é nada mais nada menos que um preconceito, pois, ainda que alguém acredite que seja doentio ou imoral ser trans (posição que carece de argumentos), não pode culpar trans por sê-lo e muito menos esperar que consigam mudar sua identidade sexual ou de gênero. A Igreja Católica Apostólica Romana é transfóbica em sua cartilha.

O mesmo pode ser dito quanto à orientação sexual e a condição de qualquer pessoa como heterossexual, bissexual ou homossexual. Quem apresenta a orientação sexual majoritária e aprovada pela Igreja precisa no mínimo examinar-se honestamente e estabelecer quando foi que escolheu se sentir atraído por um sexo/gênero diferente do seu. E a resposta honesta é que não escolheu, e portanto não tem qualquer elemento evidencial para alegar, como faz o pastor fundamentalista Silas Malafaia, que homossexuais escolhem ser homossexuais. Poucos meses atrás a Sociedade Brasileira de Genética desmentiu essas alegações do pastor em nota oficial ( http://sbg.org.br/2013/03/manifesto-da-sociedade-brasileira-de-genetica-sobre-bases-geneticas-da-orientacao-sexual/ ).

Felizmente, os católicos que são contra os direitos de adoção dos casais do mesmo sexo, ou contra seu casamento civil sob os auspícios de um país laico, já são minoria, como publicado pela Folha de S. Paulo. Isso atesta que a Santa Sé continua mais conservadora que seus próprios fiéis, por isso produz cartilhas como esta tentando trazê-los para posições ultrapassadas e que só aumentam o sofrimento no mundo.

3. “Recusar a adoção aos homossexuais não representaria homofobia? Não, porque a questão é outra. Ter um filho não é um direito! O filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais. Embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reivindicação dos lobbies homossexuais não é legítima”.”

Sim, recusar um direito dos casais do mesmo sexo é um preconceito, e o nome é homofobia. Sim, a Igreja está defendendo uma posição homofóbica, e trocar o nome do preconceito ou tentar se distanciar do nome que ele tem não apaga o fato de que o Vaticano, representando pela CNBB, mandou um advogado ao STF, no julgamento que reconheceu a união estável homoafetiva, para tentar barrar os direitos desses casais e impedi-los de serem reconhecidos como família. Tudo isso numa interferência explícita e inconveniente numa estrutura de poder secular que se declara como tal, laica, a qual a Igreja está usando neste momento para pagar com dinheiro público brasileiro por uma visita que de “diplomática” e “visita de chefe de Estado” não tem absolutamente nada. O nome que se dá a subverter a laicidade Constitucional do Brasil para proveito próprio, mantendo privilégios e falta de igualdade entre as crenças dos contribuintes brasileiros, é tráfico de influência, e os governantes que permitiram isso são igualmente culpados.

E sim, ter um filho é um direito, e não, como a Igreja acredita, um dever. Crença que ela faz questão de impor nos úteros de todas as mulheres brasileiras, que são impedidas de decidir sobre suas próprias gestações por causa de outros tráficos de influência religiosa mais antigos que criminalizaram o aborto. Isso porque a própria história da Igreja mostra um notável dissenso sobre a questão, com alguns teólogos permitindo o aborto até certa fase do desenvolvimento, e outros decidindo dogmaticamente e magicamente que a união dos gametas é a origem do indivíduo. O fato da Bíblia ter sido escrita num período histórico em que ninguém sabia o que era ovócito nem espermatozoide não impede o clero de se intrometer impertinentemente nos direitos civis brasileiros, de querer palestrar sobre assuntos que são da competência de médicos e profissionais das ciências biológicas e ciências humanas. E por falar em médicos, o Conselho Federal de Medicina já deu a correta opinião de que o aborto deve ser permitido até a décima-segunda semana (período seguro anterior ao desenvolvimento do cérebro, o mesmo órgão cuja morte dá o direito às famílias para desligar os aparelhos e doar os órgãos de um indivíduo), pela simples razão de que a criminalização ideologicamente patrocinada pela Igreja Católica é assassina e faz diversas vítimas anualmente neste país. Vítimas essas que só tiveram o azar de ter se desenvolvido com a identidade de gênero e sexo biológico femininos, que a Igreja rejeita de seu quadro eclesiástico e com os quais tem uma longa história de desprezo, apesar da simbologia de Maria.

Já está ficando para o passado os tempos em que a Igreja Católica percolava pela cultura e pelo poder brasileiros, infelizmente usando-os nem sempre de forma sábia. Os católicos são em sua maioria mais progressistas e respeitadores dos direitos de seus concidadãos que a instituição bilionária à qual se afiliam e com a qual frequentemente discordam, bastando usar o exemplo do uso da camisinha para atestar isso.

Por falar em camisinha, foi notório que a primeira desistência de papado em quase 600 anos aconteceu neste momento, e foi feita pelo mesmo ex-papa que passou por cima do conhecimento científico alegando que a camisinha pioraria a incidência da AIDS na África. Temos nesta cartilha aos jovens brasileiros mais um exemplo de palpite eclesiástico errado no território da ciência. Além de termos, é claro, justificativas as mais absurdas para sorver mais de 100 milhões do erário público para um líder religioso que não representa todas as crenças no Brasil.

O que me pergunto é onde foi parar a ideia de dar “a César o que é de César”. Temos diversos césares se escondendo com batinas.

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Eli Vieira
biólogo geneticista,
ex-presidente da LiHS,
feliz em compartilhar um país com quem acredita em poder público laico em que todos são bem-vindos e ninguém é privilegiado.

19th of July

Por que a Igreja Católica não é uma força para o bem


2nd of July

Marco Feliciano reclama que é vítima da homofobia. Ele está, em parte, correto.


Marco Feliciano disse que se ele fosse gay estaria sendo vítima de homofobia, com as piadinhas sobre sua chapinha, sua postura, suas sobrancelhas feitas, etc. Estou aqui para defender que ele está, em parte, correto.
Antes de explicar minha posição, alguns esclarecimentos. Não há necessidade de uma pessoa ser gay para ser alvo de homofobia. Há casos emblemáticos disso, como o pai que teve orelha decepada por uma gangue por abraçar o filho, irmãos que foram assassinados por expressar amor fraterno em público, etc. (Favor lembrar que homofobia não se manifesta sempre de forma violenta. Homofobia se manifesta principalmente em pequenas posturas e discursos, e são esses que alimentam o extremismo violento.) A afirmação do Feliciano sobre a necessidade de ser gay para ser alvo da homofobia é só mais uma das amostras do tamanho de sua ignorância e inadequação ao cargo que ele ocupa, na comatosa Comissão de Direitos Humanos e Minorias, apenas por birra.
Por que Marco Feliciano está correto, ao menos em parte? Porque um alvo do ativismo LGBT é a discriminação baseada nos assim chamados “trejeitos”, que seriam supostamente uma indicação da homossexualidade em um homem. Se o Marco Feliciano apresenta alguns dos trejeitos supostamente diagnósticos para a homossexualidade, apontá-los com a intenção de depreciá-lo é, sim, homofobia. Mas na verdade é mais que isso. Intimamente ligado à homofobia está o preconceito de que homens devem se comportar de certa forma e mulheres devem se comportar de outra, ou seja, papéis culturais de gênero, reforçados como norma e usados como matéria-prima do machismo e da misoginia.*
Sim, eu sei que, se fosse verdade que Feliciano é gay, então apontar isso, de forma cômica ou não, seria útil para denunciar uma hipocrisia. Esta hipocrisia não seria coisa nova entre líderes evangélicos pregadores da homofobia (e Feliciano certamente é um deles, nós não esquecemos declarações como “a podridão dos sentimentos homoafetivos…”). Mas a única forma segura de saber se Feliciano é gay é se um dia ele disser que é. Se ele fosse pego num relacionamento com um homem, sequer saberíamos se ele é bissexual ou homossexual, ou, menos provavelmente, um heterossexual externando curiosidades homoafetivas que boa parte dos heterossexuais experimentam em torno da puberdade.
O detector psicológico de homossexualidades, chamado popularmente de “gaydar”, é bastante falho, e usá-lo como desculpa para tentar associar homossexualidade ao Marco Feliciano beira o ridículo. Quem disser que jamais ficou surpreso em saber que certa pessoa é gay ou lésbica estará mentindo, há sempre os casos difíceis ou impossíveis. Então, em vez de brincarmos de adivinhar quem é gay com bola de cristal, deveríamos condenar quem usa “trejeitos” supostamente indicativos de homossexualidade para tentar manchar a imagem de alguém, porque esses não são pejorativos e qualquer discurso que os apresente como tal não passa de preconceituoso.
* Alguns esclarecimentos sobre papéis de gênero e trejeitos: existe uma questão factual, que é se cada grupo humano, sejam lésbicas, gays, homens ou mulheres (trans ou cis), apresentam diferenças em média em algumas características comportamentais não associadas necessariamente à atração sexual ou à identidade de gênero. A resposta é provavelmente sim. Porém, grupos apresentarem diferenças em média não quer dizer que eles não compartilhem grandes interseções em sua variação. Na verdade, todos esses grupos partilham enormes interseções. Logo, não se pode usar sem risco uma média ignorando-se a dispersão da variação e as interseções da variação entre grupos. Tanto que uma das ferramentas estatísticas mais antigas para encontrar diferenças entre três ou mais grupos, o teste ANOVA, leva em conta primariamente a variância entre os grupos, e não simplesmente a média. Grupos com médias extremamente diferentes podem ser indistinguíveis na variação. Por isso, papéis de gênero e heteronormatividade, que usam em parte essas médias entre grupos de forma intuitiva não para dizer como as pessoas são, mas para tentar domá-las em como acham que elas deveriam ser, são coisas falhas não apenas em nível ético, mas também factual. Mais ainda por temperarem essas diferenças médias com invenções de estereótipos absurdas, como por exemplo de que o futebol é uma atividade intrinsecamente “masculina” e que mulheres que o jogam são “menos femininas”.
Por isso fiquem atentos a tentativas de uso de diferenças factuais entre humanos como suporte ao preconceito e à discriminação.
30th of May

O preconceito de associar um sexo/gênero automaticamente a virtudes e vícios


1895/1900 (catálogo de von Gloeden)
O único critério confiável e respeitoso para julgar se alguém é mulher ou homem é a autoidentificação (que não é apenas uma declaração qualquer, mas uma consistente e fidedigna expressão de como a pessoa se sente e se vê).

Todos os outros critérios comumente usados falham:
nem toda mulher tem seios,
nem todo homem tem barba,
nem toda mulher tem vagina,
nem todo homem tem pênis (existem mulheres e homens trans, rotulados com um gênero com o qual nunca se identificaram intimamente; mulheres com agenesia vaginal e homens que perdem o pênis em acidentes),
nem todo homem tem voz grave,
nem toda mulher tem voz fina, etc.

É bom lembrar que usar “masculinidade” de forma honorífica, como um elogio ao caráter, é uma forma de sexismo. Assim como mudar propositalmente o gênero de um homem para o feminino em palavras de insulto, veiculando a ideia de que a feminilidade é uma coisa ruim ou infectada com a qual se pode ferir alguém. Não é uma virtude nem um vício ser mulher ou homem. É apenas um fato da natureza e da identidade das pessoas.

É normal que pessoas eroticamente atraídas por características ‘masculinas’ usem ‘masculinidade’ como elogio estético, mas só pode ser um fruto de uma valorização extrema ao masculino que alguém diga “este é homem!” ou pergunte “você não é homem, não?” quando quer se referir a virtudes como a coragem, que certamente não é atributo exclusivamente masculino, mas característica de parte da humanidade: as pessoas corajosas, que podem ser homens ou não.

Feministas criticam associações injustas de gêneros a virtudes e vícios, e tratamento desigual, pela óbvia injustiça que traz. Se você ainda insulta homens falando “olha como ela é brava” ou coisas similares, você pode até não se sentir sexista (não se sentir faz parte da razão do preconceito ser tão ubíquo), mas está reproduzindo e praticando o sexismo.

A única coisa que faz um homem ser “mais homem” é engordar. A única coisa que faz uma mulher ser “menos mulher” é emagrecer.

Além disso, existem pessoas que não se sentem nem uma coisa nem outra: se sentem algo entre homem e mulher, ou algo que não se encaixa numa categoria nem em outra, ou sentem que são as duas coisas ao mesmo tempo. Dada a variação da humanidade, não me surpreende que isso seja possível. Como tratar essas pessoas? Da forma que quiserem.

A essência da polidez não é seguir regras estanques, mas tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas.

27th of May

A importância do pensamento para a continuidade da liberdade


Nós, que acreditamos em democracia e não estamos em nenhum extremo político, devemos combater a retórica nacionalista absurda de que a ditadura foi boa para o Brasil. Devemos combater a ideia de que sem a ditadura militar, teria havido uma ditadura comunista – ninguém sabe disso, e é muita pretensão querer ser vidente do curso da História. Nenhuma suposta ameaça é justificativa para eliminar direitos civis, perseguir a liberdade de manifestação argumentativa e pensamento, aprisionar por razões políticas e torturar pessoas.
Esse papo paranoico é velho e foi usado antes de 64 por Getúlio Vargas para implantar o “Estado novo”, mas, ainda que fosse verdade, ameaças de autoritarismo são combatidas com mais liberdade e democracia, e não com outra forma de regime opressor. A ideia de que fogo só se combate com fogo é uma ideia pueril e uma ode disfarçada à violência.
É de suma importância que direita e esquerda se unam nisso. As trevas do autoritarismo estão sempre à espreita, e infelizmente são praticamente uma tendência natural, especialmente em povo com baixa qualidade de educação. Não pretendo fazer minha versão de papo paranoico, só pretendo lembrar que não é novo na História que eras de paz e liberdade sejam substituídas num piscar de olhos pelo lamentável espírito de manada que acompanha nossa espécie desde seu nascimento.
A razão desse comentário é ter visto o músico Amado Batista ter dito, sobre ter sido preso e torturado pela ditadura militar apenas por ter dado acesso a livros censurados para intelectuais, que ele mereceu a prisão e a tortura. Infelizmente, esse caso atesta que nem mesmo a experiência direta como vítima torna alguém imune a apoiar o autoritarismo. Síndrome de Estocolmo pode ser mais comum do que pensamos, e, afinal de contas, às vezes as classes sociais que mais morrem numa guerra são justamente as primeiras a apoiar o início do conflito.
Daí a importância do pensamento para a continuidade da (pouca?) liberdade que a gente tem.
26th of May

Alan Turing: como o pai do computador foi vítima fatal da “cura gay”


Estive recentemente numa exposição sobre Alan Turing, no Science Museum, Londres, onde tirei essas fotos. “Quebrador de Códigos: a vida e o legado de Alan Turing” é o nome da exposição, porque o cientista, além de ter sido o pai do computador, ajudou a Grã-Bretanha na II Guerra desvendando mensagens cifradas dos nazistas. Apesar disso, não houve gratidão de seu país: por ser gay, Turing foi condenado à prisão ou a um tratamento experimental com hormônios femininos. Ele optou pelo tratamento, uma absurda “cura gay”, mas não pôde viver muito sob essa tortura. Matou-se com uma dose fatal de cianeto.
A legenda diz:
“Frasco de pílulas de hormônio feminino estrogênio, cerca de 1950.
Em 1949 o neurocientista Frederick Golla publicou os primeiros resultados britânicos de experimentos sobre o uso do hormônio feminino estrogênio para reduzir a libido de delinquentes sexuais.
Três anos depois, Alan Turing foi sentenciado ao tratamento com estrogênio como uma alternativa à prisão por ‘grave indecência’, após [a descoberta de] um relacionamento sexual. Ele teve de lutar para manter seu emprego na Universidade de Manchester.
Um tabloide proclamou que todos os homens gays deveriam ser confinados:
‘O que se precisa é um novo estabelecimento para eles, como [o hospital de] Broadmoor. Deveria ser uma clínica em vez de uma prisão, e esses homens deveriam ser enviados para lá e mantidos lá até que se curassem.'”
Uma outra legenda (não mostrada aqui) que estava nesta ala da exposição:
“‘A mente dele tornara-se desequilibrada’
Até o fim dos anos 1960, a maioria dos atos homossexuais eram ilegais. Muitas pessoas viviam em constante medo de serem pegas pela polícia, julgadas e ou presas ou multadas.
Vidas eram rotineiramente destruídas após tais eventos humilhantes. Pessoas eram muitas vezes demitidas de seus empregos e postas em ostracismo por suas famílias, amigos e a comunidade. Algumas sentiam que o suicídio era a única opção. Em paralelo, cientistas e médicos estavam experimentando novos modos de ‘curar’ pessoas gays ou remover seu desejo sexual.
Em 1952, Turing foi preso por manter relações sexuais com um homem, e sentenciado a um ano de tratamento com um hormônio feminino. Na época ele estava aconselhando o governo em projetos secretos de quebra de códigos, mas seu passe de segurança foi revogado e ele foi mais tarde posto sob observação.
Dois anos após sua prisão, em 1954, Turing foi encontrado morto em sua casa em Wilmslow. O veredito oficial foi de suicídio por envenenamento com cianeto, o médico legista disse que ‘sua mente tornara-se desequilibrada’.”
Alan Turing viveu apenas 42 anos, anos nos quais contribuiu decisivamente para a ciência da computação, a matemática e a biologia.