20th of September

Rachel Dolezal: resultado de abuso infantil, pós-modernismo e redes sociais


Assisti ao documentário “O Caso Rachel Dolezal”, disponível na Netflix. Reconta a história da americana branca que atraiu a ira da maioria dos ativistas raciais americanos, e também de seus críticos, ao dizer que é negra. Por todo o ano de 2016 Dolezal foi alvo de escárnio público, além de alguns comentários anônimos ameaçadores nas redes sociais. Nos Estados Unidos, em que grande parte do ativismo aceitou o antigo critério racista de “uma única gota de sangue” na ancestralidade como suficiente para uma identidade negra, como se a condição de ser negro fosse uma contaminação hereditária em vez de uma origem participante na miscigenação, não seria de se surpreender que Dolezal fosse aceita por muito tempo como negra. Outros americanos que se dizem negros são tão brancos quanto Dolezal. O ativista Shaun King é um deles.

Shaun King, ativista antirracismo que se diz negro.

A polícia e a imprensa local acusaram Dolezal de forjar crimes de ódio contra si mesma ao presidir uma seção local da NAACP, Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor [sic], uma das mais importantes organizações do ativismo racial nos Estados Unidos. Alguns colegas de Dolezal na associação estranhavam que ela recebesse tanta correspondência de ódio que não era tão intensa para os presidentes anteriores com tonalidade de pele mais escura.

Até aqui, parece que há mesmo motivo de sobra para detestar Rachel Dolezal. Como mostra o documentário, ela tentou, com bastante coragem e diligência, restaurar a sua reputação e se fazer entendida. Falhou repetidamente: toda vez que aparecia na imprensa, só aumentava a quantidade de comentários negativos contra ela. Lançou um livro, mas o livro vendeu menos de 600 cópias no lançamento. Dolezal, mãe solteira de três filhos, estava tendo dificuldades de pagar o aluguel. Até que veio o documentário, e, dessa vez, ela conseguiu: o documentário tem sucesso em mostrá-la como um ser humano na maior parte benigno e bem intencionado, embora a veracidade dos “crimes de ódio” contra ela anteriores à revelação de suas origens continue em aberto.

Dolezal cresceu numa família chefiada por um casal de fundamentalistas religiosos que usavam a vara na educação dos filhos como manda a Bíblia. O casal sempre deixou claro para Rachel, filha biológica mais nova, que ela quase matou a mãe no parto. No registro de nascimento, consta Jesus Cristo como parteiro. Pelos depoimentos de Rachel e também sua irmã adotiva negra, ela sempre foi tratada como inferior ao irmão mais velho. A irmã de Rachel mostra marcas persistentes de açoites dados pelos pais adotivos. Estranhamente, o “filho” mais velho de Rachel era um de seus irmãos adotivos negros. Para piorar a situação, as duas irmãs acusam o irmão mais velho de abuso sexual, e antes do escândalo estava tramitando uma ação judicial contra ele por isso, o que pode ter motivado os pais a vir à imprensa para expor a filha ativista como falsa negra e testemunha não confiável no caso. Quando contempla a possibilidade de voltar a se declarar branca, Rachel chora, dizendo que isso seria voltar a ser alvo da punição de seus pais.

Rachel Dolezal é, portanto, uma pessoa com problemas de identidade resultantes de abuso infantil. Mas, evidentemente, não seria assim se raça não fosse tratada como um ponto tão saliente da identidade nos Estados Unidos, cultura que a cerca. Também provavelmente não seria assim se ela tivesse conhecimentos mais objetivos sobre raça. Em vez disso, ao buscar saber mais, o que ela encontrou foi pós-modernismo: raça é uma construção social, dizem os abundantes livros sobre o tema. Se é assim, por que não poderia ser simplesmente adotada, mudada como uma peça de roupa? É adágio do pós-modernismo, movimento intelectual difuso da esquerda acadêmica, declarar todo tipo de coisa construção social. A mania é tamanha que já foi documentada em livro por Ian Hacking e, no caso da raça, é repetida até por geneticistas que deveriam saber melhor. Ao estudar a estrutura genética da humanidade, os geneticistas decidiram abandonar o termo “raça”, para se afastarem da história eugenista da própria genética. No entanto, são distinguíveis cinco ou seis grandes “estruturas” da população humana, de distintas origens geográficas, que num mundo menos politicamente correto ou traumatizado pelo racismo poderiam sem problemas ser chamadas de raças, como já são seus correlatos no senso comum. Mas não param no construcionismo social as marcas de confusão pós-moderna na cabeça de Rachel Dolezal. Ela também usa o relativismo epistemológico e abusa de subjetivismo: se sinto que sou negra, sou negra, não importa que o grupo seja definido por um fenótipo que eu não tenho, e que o nome do grupo seja o nome de uma cor que não está na minha pele. Negações da realidade como essa têm amplo apoio na intelectualidade relativista e subjetivista do mundo acadêmico — ou teria, se fossem coerentes com essas ideias. Não são coerentes, pois essas ideias são um verniz de destacamento e tudo-vale em cabeças que na verdade se comportam com muito engajamento político e absolutismo moral cheio de certezas inabaláveis. Daí inventarão complicações para negar a identidade negra escolhida de Dolezal, ou praticarão seu costumeiro autoritarismo censor, como fizeram com Rebecca Tuvel, uma acadêmica que tentou ser coerente analisando o caso com essas ideias.

Também não é possível ignorar, no caso de Dolezal, o fenômeno das redes sociais. Ela diz que as redes sociais são a última forma de continuar “no mundo” após ser ostracizada, mas isso obviamente não é verdade. Insistir na identidade controversa não deixa de ser uma forma de narcisismo, bem compatível com o show de egos das redes sociais, um ambiente tóxico para a saúde psicológica de qualquer um.

Mas não é preciso complicar. Num mundo mais racional, raça é uma coisa simples: um conjunto de fenótipos correlacionados e ligados a certas origens geográficas de distintos grupos humanos, sem fronteiras muito definidas, especialmente em caso de miscigenação. Não é uma “cultura”, embora algumas variantes culturais também possam estar correlacionadas a variantes raciais.

O caso Dolezal e tantos outros mostram uma linha imatura de pensamento do ativismo racialista em que, na esperança de eliminar o viés antinegros em todas as suas facetas, busca-se adotar marcas de fenótipo negro (incorretamente chamadas de “cultura”) como honoríficas. Se Dolezal se diz negra por adotar uma suposta “cultura” negra, por que precisa do acessório do cabelo de textura mais típica do fenótipo negro? Isso não é cultura, é biologia. Nesse ativismo imaturo, pensa-se que o remédio contra um viés antinegros é um viés pró-negros excessivo, que termina por tratar negros com condescendência infantilizante e que alimenta a identidade de coalizão racial, o que por tabela mantém vivo o racismo. Para diminuir o racismo ao mínimo possível, é necessário jogá-lo fora junto com esse tipo de ativismo e esse tipo de coalizão. As verdadeiras ferramentas antirracismo estão no estímulo a outros tipos de identidade social que não a raça: time de futebol, religião, partido político, associação de moradores, etc. O problema é que essa solução respaldada pela ciência não tem o mesmo sucesso em dar carreiras para ativistas, e ativistas profissionais naturalmente não gostarão de soluções que tornam as suas carreiras obsoletas.

Se depender da obsessão com a raça tanto de racistas quanto de antirracistas, Dolezal continuará sofrendo em sua confusão identitária.

P. S.: Por que o foco em raça mantém vivo o racismo?

“Estudos anteriores estabeleceram que as pessoas codificam a raça de cada indivíduo que encontram, e o fazem através de processos computacionais que parecem ser tanto automáticos quanto obrigatórios. Se verdadeira, essa conclusão seria importante, porque a categorização dos outros por sua raça é uma pré-condição de tratá-los diferentemente de acordo com a raça. Aqui, relatamos experimentos que, usando medidas discretas, mostram que a categorização de indivíduos pela raça não é inevitável, e apoiam uma hipótese alternativa: que a codificação pela raça é na verdade um produto reversível de um maquinário cognitivo que evoluiu para detectar alianças de coalizão.

Os resultados mostram que os indivíduos codificam afiliações de coalizão como uma parte normal da representação de pessoas. De forma mais importante, quando pistas de afiliação a coalizões não seguem nem correspondem mais à raça, os indivíduos reduzem marcadamente a medida da categorização dos outros peça raça, e de fato podem parar totalmente essa categorização.

Apesar de passar a vida inteira usando raça como um preditor de alianças sociais, menos de quatro minutos de exposição a um mundo social alternativo foram suficientes para diminuir a tendência a categorizar pela raça.

Esses resultados sugerem que o racismo pode ser um constructo volátil e erradicável que persiste apenas se for ativamente mantido através da associação a sistemas paralelos de aliança social.”

Este é o resumo do artigo de 2001, publicado na PNAS, de Robert Kurzban, John Tooby e Leda Cosmides (ênfases minhas). Os resultados do artigo foram replicados com sucesso em 2014 por Wouter Voorspoels e colaboradores.

O estudo sugere que a política identitária racialista, que é o tratamento da raça como um fator saliente de identificação social, é diretamente responsável pela manutenção e perpetuação do racismo, não importa quão boas sejam as intenções.

A maioria dos ativistas anti-racismo está enganada. Como dizia o próprio Milton Santos muito antes desse estudo ser publicado, insistir em uma identidade “afrobrasileira” em vez de apenas brasileira não é algo que ajuda a combater o racismo realmente. Sem falar no governo categorizando as pessoas pela raça e as tratando difereciadamente com base nisso…

E mais: o desdém dos intelectuais pelas atividades de coalizão populares que nada têm a ver com raça está, desse ponto de vista, completamente errado também. Quanto mais as pessoas se identificarem como torcedoras de times de futebol, membros da associação de bairro e até igrejas, membros de algum clube besta pra se sentirem importantes, melhor. Isso do ponto de vista de combater o racismo, que não parece ter bases biológicas diretas. As bases indiretas são um tribalismo genérico que pode ser aplicado a qualquer coisa.

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

5th of December

Transexuais: resumão do resumão


– A pesquisa ainda está só no começo, o que mostra irresponsabilidade no ativismo da área, que decreta como verdades inquestionáveis coisas que ainda estão sendo pesquisadas.

– Um dos pesquisadores mais respeitados da área é o Dr. Ray Blanchard. Ele classifica trans “masculinas para femininas” como em dois tipos principais (não descartando que pode haver outros tipos)¹:

1. Transexual homossexual. Esse tipo se encaixa na narrativa ativista de pessoas que “nascem no corpo errado”. Há evidência disso? Algumas. Há alguns núcleos do hipotálamo em que pessoas nascidas com pênis que querem ser aceitas como mulheres (mulheres trans) são mais parecidas com mulheres nascidas com vagina do que com homens.² No entanto, as poucas evidências disponíveis não apontam somente nessa direção, embora pareçam apontar mais nessa direção do que ao contrário. Há um estudo indicando que há certos aspectos do cérebro de mulheres trans que se assemelham mais aos cérebros dos homens.³

Há razões teóricas que levam à previsão de que transexuais desse tipo existam: machos variam mais que fêmeas. Tanto que há machos que se distanciam tanto da média dos machos que são na verdade fêmeas. Isso é corroborado pela maior incidência de transexuais masculino->feminino do que feminino->masculino.

2. Autoginecófila. A autoginecofilia é um termo que em sua raiz indica um “amor por si mesmo quando mulher”. Esse tipo de transexual rompe com a narrativa dos ativistas sobre “corpo errado”. A razão de as autoginecófilas quererem ser mulheres é sexual, neste caso é uma identidade que vem de uma orientação sexual. Elas preferem mulheres, e querem ser mulheres. Talvez, uma forma branda disso são homens que sentem tesão em se vestir de mulher. É simplificação dizer que isso é um “fetiche” porque as autoginecófilas estão propensas a querer fazer intervenções cirúrgicas para ficarem mais femininas. Por exemplo, um caso relatado pela pesquisadora Alice Dreger é de uma autoginecófila que chegou a ter raspado cirurgicamente o osso acima dos olhos (osso frontal) e sentiu um prazer enorme quando foi tomar banho e o xampu entrou em seus olhos.4 A atenção ao sexo do corpo é tamanha que ela percebeu, como poucas pessoas sabem, que esse osso age como um “guarda-chuva” nos olhos de muitos homens quando tomam banho. Há algo de similaridade entre elas e os “modificadores corporais” de outros tipos.

– A maioria das crianças que manifestam disforia de gênero (desconforto com o sexo do próprio corpo) na infância não se torna transexual na vida adulta.5 A disforia se resolve sozinha e boa parte delas se revela gay na puberdade. É por isso que é preocupante a onda de intervenção hormonal em “crianças trans”. Obviamente, uma minoria não resolve a disforia sem passar por terapia com hormônios sexuais e cirurgias, mas é melhor que isso só aconteça na vida adolescente/adulta.

– Alguns pesquisadores acreditam que, por causa da politização e atenção exagerada que o tema está ganhando, algumas pessoas com transtornos de personalidade, especialmente no espectro do autismo, podem se convencer de que têm disforia e desejam transicionar.6 É um fenômeno novo, similar à epidemia de bulimia dos anos 90: até o criador do termo “bulimia” acredita que ele ter criado o termo e o diagnóstico foi algo que CAUSOU que cada vez mais casos aparecessem. Evidência de que é coisa nova: essas pessoas geralmente não manifestaram disforia nenhuma na infância. Algumas se arrependem, e esse arrependimento às vezes termina em tragédia.

– Pela ignorância diante da falta de pesquisas e pelo emburrecimento que a politização causa, o tema está cada vez mais delicado. Os profissionais de saúde tentam seguir o pragmatismo de que o que fizer a pessoa sofrer menos é o melhor. Mas muitas vezes esses profissionais ignoram que há efeitos colaterais nos tratamentos de transição. E que coisas como a voz alterada por hormônios jamais voltam a ser o que eram antes. Ou seja, as profissões da saúde podem causar danos ao se politizarem: seja com a paranoia ultraconservadora de que isso tudo é plano do “globalismo” e da “ideologia de gênero”; seja com a empatia sem cérebro do ativismo que quer que tudo seja decidido com base na subjetividade do paciente, até quando essa subjetividade é volúvel, transtornada e mudará no instante seguinte.

 

Referências:

1 – Nuttbrock, Larry, et al. “A further assessment of Blanchard’s typology of homosexual versus non-homosexual or autogynephilic gender dysphoria.” Archives of sexual behavior 40.2 (2011): 247-257.

2 – Bao, Ai-Min, and Dick F Swaab. “Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders.” Frontiers in Neuroendocrinology 32, no. 2 (April 2011): 214–26. https://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007.

3 – Luders, Eileen, et al. “Regional gray matter variation in male-to-female transsexualism.” Neuroimage 46.4 (2009): 904-907.
APA

4 – Dreger, Alice. Galileo’s Middle Finger: Heretics, Activists, and One Scholar’s Search for Justice. Penguin Books, 2016.

5 – American Psychological Association. “Guidelines for psychological practice with transgender and gender nonconforming people.” American Psychologist 70.9 (2015): 832-864. http://dx.doi.org/10.1037/a0039906

6 – Marchiano, Lisa. O preocupante caso da transexualidade socialmente contagiosa. Xibolete, 2017. https://xibolete.uk/trans

10th of November

Por que sou contra a criminalização “da homofobia” Boas intenções escondem um cavalo de Troia de autoritarismo


Começou uma mobilização partidária pela “criminalização da homofobia”.

Trata-se de modificar a lei 7.716/1989* e incluir orientação sexual numa lista de categorias já protegidas. Eu li a lei na íntegra e meu principal problema com ela é este artigo:

Art. 20. [É crime] Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Isso é demasiado vago. O que seria, por exemplo, “incitar o preconceito”? Uma piada que brinque com o estereótipo (preciso) de que homens gays são mais promíscuos seria uma indução ao preconceito?

A lei já é vaga o suficiente para ser interpretada de modo a censurar ateus, por exemplo. É por sorte que as associações de ateus não tenham sido censuradas ainda, especialmente a ATEA, que é cheia de deboches. Basta os evangélicos terem sucesso em seu projeto de poder para os ateus começarem a pagar o preço de os juízes, sob influência evangélica, começarem a interpretar a lei dessa forma, e ela dá ampla abertura para interpretações expansivas e injustamente limitadoras da liberdade de expressão. E nem é a única lei problemática que temos para a liberdade de expressão nesse campo específico de críticas às religiões, temos um artigo do Código Penal (208) que diz que é crime

Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.**

Se este artigo não fosse letra morta pelas práticas de agora, eu já estaria na cadeia por ter criado uma paródia do Smilingüido focada nas piores passagens da Bíblia, o Smilinguarudo. Mas não quero depender da boa vontade da jurisprudência atual: quero que na reforma do Código Penal caia o artigo 208, e que também se reveja o artigo 20 desta lei em nome do direito à liberdade de expressão.

Como o que querem é incluir orientação sexual nesse rol de assuntos para os quais a lei daria ‘direito ao cala-boca’, sou contra “criminalizar a homofobia”. Sou a favor de criminalizar, por exemplo, discriminações objetivas como demissões de pessoas por serem LGBT. Mas não as palavras ofensivas de ninguém, pois esse seria o primeiro passo para criminalizar pensamentos.

Quem faz parte de um grupo que demorou muito a ter plena liberdade deveria valorizar um pouco mais a liberdade de todos, inclusive a de dizer coisas ofensivas contra o grupo.

 

_____

 

* A lei aqui.

** O código aqui.

3rd of October

Duas universidades que resistem à onda autoritária da “justiça social” Lobos solitários das instituições acadêmicas voltam o foco para a verdade apesar da pressão


Como defende o psicólogo social Jonathan Haidt, as universidades devem escolher entre a verdade e a justiça social como seu fim último, pois as duas coisas entram em conflito com frequência.

Mas o que ele não diz é que trocar verdade por justiça social é uma corrupção do próprio conceito de universidade. As universidades surgiram na idade média para investigar a verdade sobre temas diversos, da teologia à astronomia. Claro, no começo ainda estavam sob influência de instituições sociais que não aceitariam verdades inconvenientes, e em certa medida isso é verdade até hoje. Mas o projeto é o universalismo: descobrir coisas que são verdade aqui e em qualquer lugar, hoje e em qualquer tempo. Daí o nome ‘universidade’.

O pós-modernismo é um dos cânceres ideológicos particularmente preocupantes na universidade, pois é explicitamente contra os projetos universalistas. E o conjunto de ideias agrupadas sob o nome “justiça social” , uma preocupação frequente dos pós-modernos, também é uma ameaça ao projeto universitário, porque reage com intolerância a quem resiste, por exemplo, às tentativas de forçar paridades artificiais em áreas de estudo que não são igualmente interessantes para todos, ou a quem sugere que não há evidências suficientes de que a falta de representação estatística perfeita de categorias sociais em cada área resulta majoritariamente ou em qualquer medida de preconceitos malignos e crimes de pensamento de quem já está lá.

No clima politicamente polarizante de hoje, a tendência é que as maiorias “progressistas” que não pensam criticamente sobre a justiça social dentro das universidades forcem ainda mais essas ideias sobre as instituições. Tomando as cotas raciais como exemplo dessas ideias impostas sem justificação suficiente, no Brasil, por exemplo, já vemos que os últimos núcleos de resistência, como a USP, já estão cedendo. Nem mesmo os escândalos com os tribunais raciais universitários, que estão medindo narizes para “avaliar” se alguém é “negro de verdade”, parecem estar servindo para frear a tendência.

Dois dos escândalos das cotas raciais. Quando viralizou a tabela do IFPA, eu propus que só botaram no papel o que estava sendo feito a portas fechadas, com menos precisão na mensuração, em outras instituições. A UFRGS parece confirmar minhas suspeitas.

É uma boa notícia, portanto, quando encontramos alguma instituição universitária que ofereça resistência explícita ao assédio justiceiro social. Temos dois exemplos dos EUA.

1 – Hillsdale College

Esse pequeno centro universitário de Michigan tem cerca de 1800 alunos. Sua base é cristã, mas desde sua fundação em 1844 Hillsdale aceita “todas as pessoas que querem, independente de nação, cor ou sexo, uma educação literária, científica e teológica” (isso é literalmente o que diz o seu documento de fundação, extremamente progressista para 1844). A página sobre a missão da universidade diz:

“Foi a primeira universidade de Michigan, e a segunda nos Estados Unidos, a aceitar as mulheres em igualdade com os homens. Seu corpo discente cosmopolita é formado a partir de lares em 47 estados e 8 países estrangeiros.

Metas

O Hillsdale College mantém sua defesa do currículo de artes liberais tradicional, convencido de que ele é a melhor formação para lidar com os desafios da vida moderna e que oferece a todas as pessoas de todas as bases não apenas um importante corpo de conhecimento, mas também verdades imemoriais sobre a condição humana. As artes liberais são dedicadas a estimular a curiosidade intelectual dos alunos, a encorajar a mente crítica e bem disciplinada, e a estimular o crescimento pessoal através do desafio acadêmico. São uma janela para o passado e uma entrada para o futuro.

College valoriza o mérito de cada indivíduo singular, em vez de sucumbir à moda desumanizadora e discriminatória das assim chamadas ‘justiça social’ e ‘diversidade multicultural’, que julga os indivíduos não como indivíduos, mas como membros de um grupo, e que coloca um grupo contra outros grupos competidores em lutas de poder desagregadoras.”

2 – Universidade de Chicago

Nas páginas oficiais da missão da Universidade de Chicago, fundada em 1890 e que atende a quase 16 mil estudantes, nada tão explícito quanto a mensagem do Hillsdale College está disponível. No entanto, como noticiou a revista Time em agosto de 2016, a universidade mandou uma carta oficial aos calouros explicando que o campus é um ambiente de livre expressão em que eles poderão ser ofendidos. O decano de estudantes Dr. John Ellison escreveu:

“Membros da nossa comunidade são encorajados a falar, escrever, ouvir, desafiar e aprender, sem medo de censura. A civilidade e o respeito mútuo são vitais para todos nós, e a liberdade de expressão não significa liberdade de assediar ou ameaçar os outros. Você descobrirá que esperamos que os membros de nossa comunidade se engajem em debate rigoroso, discussão e até discordância. Às vezes isso pode ser um desafio para você e até causar desconforto.

Nosso compromisso com a liberdade acadêmica significa que não apoiamos os assim chamados ‘trigger warnings’ [avisos de que o conteúdo de obras e cursos podem causar ‘gatilhos’ emocionais], nós não cancelamos palestras de convidados porque seus tópicos podem se mostrar controversos, e nós não coadunamos com a criação de ‘espaços seguros’ intelectuais onde os indivíduos podem se esconder de ideias e perspectivas que vão de encontro às suas próprias.”

Que essa carta tenha sido controversa e digna de uma manchete na revista Time é algo que diz muito sobre o clima acadêmico dos nossos tempos.

A carta completa da Universidade de Chicago para seus calouros de 2016.

10th of August

Saber antecede fazer Sobre a tendência preocupante de passar o carro na frente dos bois em planos de "mudar o mundo"


Para mudar o mundo para melhor, primeiro é necessário saber como ele é. Por isso, saber antecede fazer, em importância e em sequência razoável. Quem quer forçar as coisas a mudarem em certa direção mas não fez o trabalho de explicar como elas estão e por que devem ir na direção desejada, portanto, está metendo o carro na frente dos bois. Devemos ficar desconfiados de qualquer ativista que não parece ter muita curiosidade pelo assunto do qual trata.

Se alguém quer defender direitos LGBT mas afirma, apesar das evidências coletadas e publicadas na genética, que ser LGBT é puramente cultural e nada tem a ver com genes, esta pessoa é não apenas mal-informada: sua preocupação com a justiça é pouco sincera. Quem se preocupa com justiça para LGBT se preocupa com justiça em geral, e quem se preocupa com justiça em geral tem curiosidade pelos assuntos que tocam a (in)justiça.

Quem quer que pessoas autistas tenham boas vidas arregaça as mangas e busca saber por que elas existem, em vez de cair na primeira teoria da conspiração sobre vacinas serem a causa.

Quem quer que homens e mulheres sejam tratados de forma justa, como seres humanos dignos do mesmo acesso a oportunidades e tratamento respeitoso, não cai na teoria da conspiração de que essas categorias existem apenas porque uma é inerentemente malvada e quer oprimir a outra, inerentemente vítima, como se fossem castas indianas.

E assim por diante. Fervor moral divorciado de curiosidade e interesse pela verdade, mesmo se sincero, é uma receita para o desastre, não uma força para o bem.

17th of May

Conselhos a LGBT no dia de combate à homofobia #LoveIsLove


Hoje é Dia Internacional de Combate à Homofobia. Eis os meus comentários como um gay que atacou essa questão com ciência e argumento.

– Nós já conquistamos o que era legalmente relevante. Eu lamento pelos métodos: ativismo judiciário em vez de decisão de representantes democráticos, como fez a Argentina. Lamento porque o potencial desses métodos é deixar a homofobia inercial da cultura supurar e fermentar, levando muitos a querer revanche.

– Há muita homofobia (que eu chamei de inercial porque penso que está refreando) na cultura brasileira, mas isso é largamente um resultado da escolaridade baixa e mal aplicada educação. Há uma correlação entre nível educacional e abandono da homofobia. Portanto, os LGBT deveriam estar mais interessados em propor reformas à educação do que em reclamar da última celebridade que disse “viado” (se é que sobrou alguma, dado o sucesso da mordaça politicamente correta). Eu não acho que a solução para a educação no Brasil é enfiar mais dinheiro nela, ao menos não sem um plano detalhado de como será aplicado. Se for simplesmente enfiar dinheiro, é um buraco negro de dinheiro que continuará devolvendo pouco.

– A insistência de criminalizar o que chamam de “discurso de ódio” tem mais potencial de aumentar a hostilidade aos LGBT e ativistas da questão do que de ajudar a resolver o problema. “Discurso de ódio” é um termo mal definido, as pessoas têm uma tendência a quererem expandir conceitos (especialmente os mal definidos) para calarem a boca de seus desafetos. Como é um fato que os cidadãos tendem a errar a favor do autoritarismo e da censura, a margem de erro das autoridades deve favorecer a liberdade, contra a maré da população. Eu testemunhei o erro de boa parte ou de uma maioria de ativistas ao tentarem calar a boca de Silas Malafaia e Levy Fidélix, fazendo malabarismo interpretativo para transformar o que disseram em incitação à violência (limite justo e legal da expressão), por pura conveniência, para calar a boca de dois desafetos. Isso é uma mancha na história do ativismo LGBT brasileiro, deve ser visto como tal por qualquer pessoa defensora de direitos humanos, dos quais a liberdade da expressão é um dos mais importantes, se não o mais importante (como saberemos se o direito à vida foi violado, por exemplo, sem termos liberdade de comunicar o fato?). Meu conselho aqui é de desistir da criminalização do “discurso de ódio” contra LGBT, até porque isso não faz absolutamente nada para mostrar erradas as idéias veiculadas por esse tal “discurso de ódio”, é apenas uma tentativa de varrê-las para debaixo do tapete. O problema de idéias perniciosas varridas para debaixo do tapete é que o ambiente sob o tapete é escurinho, úmido e quente, ou seja, propício para seu fortalecimento e proliferação.

– Despolitizem e despartidarizem a questão LGBT. Cada gay de direita que aparece é um sinal de progresso, não uma trombeta do Apocalipse. Parem de pensar que a esquerda é reduto obrigatório de LGBT, a esquerda não foi justa conosco, e as conquistas sob o último governo foram todas resultado de ativismo judiciário, não de “vontade política” (essa quimera) de líderes das tribos políticas que os ativistas mais amam.

– Você, jovem LGBT, não se deixe tribalizar por ser LGBT. Não ache que você faz parte de uma “cultura” especial por ser LGBT. As pessoas ainda devem ser julgadas por seu caráter, e se é para ser membro de grupos, que seja em função de interesses e idéias em comum, não em função de acidentes de nascença. Os grupos identitários só vão te ensinar a se ver como vítima e atrasar o seu desenvolvimento como pessoa.

– Rejeite “teoria queer” e alegações de “construção social” da sexualidade onde quer que as encontrar, são tão pseudocientíficas e desinteressadas do conhecimento quanto a homeopatia.

#LoveIsLove

(Arte: cálice romano retratando sexo gay, atualmente no Museu Britânico, conhecido como “Warren Cup”. Foto por Ashley Van Heaften.)

9th of March

Pior jogada LGBT: tentar obrigar confeiteiros homofóbicos a fazer bolo de casamento gay Casal de confeiteiros do Oregon alega liberdade religiosa para defender a recusa de fazer bolo de casamento para casal de lésbicas


Melissa e Aaron Klein, donos da confeitaria “Sweet Cakes” em Oregon, foram condenados em primeira instância a pagar 135 mil dólares por se recusarem a fazer o bolo de casamento das lésbicas Rachel e Laurel Bowman-Cryer. O casal Klein alega objeção de consciência por crença religiosa, recorreu da decisão, e hoje foi ouvido por uma corte de apelações. Eles dizem também que a batalha judicial os levou à falência, e que tiveram de fechar a confeitaria devido a ameaças. Enquanto isso, o casal Bowman-Cryer alega que o caso dificultou sua vida e a criação de suas duas filhas adotivas com deficiência.

A defesa dos Klein alega que a manufatura do bolo é arte, e, portanto, também expressão, sendo protegida como uma liberdade inalienável pela primeira emenda da constituição americana.

O efeito dessa alegação é meio divertido. Ao contrário dos conservadores, o grupo político mais afeito a defender os direitos LGBT (ou a querer ser visto como se defendesse mais que os outros, fazendo muito barulho no processo) costuma também defender definições extremamente amplas de arte, em que qualquer coisa pode ser arte, uma vez eleita pela vontade de um artista e aprovada pela elite artística, como no exemplo histórico do mictório escolhido por Marcel Duchamp (e apelidado de “A Fonte”). Nos últimos anos tenho visto um crescimento na incidência de “arte” contemporânea e “expressiva” no Brasil, do tipo que parece feita sob encomenda para ofender a vovó: numa peça de teatro em São Paulo, dois atores injetaram vinho em seus ânus e expeliram no palco. Num evento sobre gênero numa universidade federal, uma pessoa transexual e obesa, nua, se cobriu de óleo de dendê (a “performance” se chama “gordura trans”), e uma moça, aparentemente tentando representar o status da mulher na sociedade brasileira, pôs chifres na cabeça e uma sela nas costas e engatinhou, nua, cercada de espectadores, atuando como uma vaca. Mais recentemente, neste ano, outra moça se cobriu de tinta preta e se prostrou no chão para seu parceiro de expressão “artística” urinar em seu corpo. Não esqueçamos uma “peça” notória chamada “Macaquinhos”, em que um grupo de atores faziam uma ciranda nus, cada um com um dedo no ânus do próximo. Numa entrevista, os artistas responsáveis pela peça explicaram que sua arte representa o domínio do hemisfério norte sobre o sul. Se cada uma dessas coisas é “arte” e por isso é protegida como liberdade de expressão (concordo com a proteção, mas não com o diagnóstico), por que assar – ou recusar-se a assar – um bolo de casamento não poderia ser a mesma coisa? Está abolida a livre expressão que irrite ou chateie pessoas LGBT? Somente o que irrita e chateia a vovó (e entendia a juventude cansada de ver pornografia) pode ser arte?

Se a defesa está certa, então a decisão de primeira instância foi injusta e inconstitucional, pois o Estado americano não pode compelir a expressão dos cidadãos, ou seja, forçá-los a expressar o que não necessariamente está em conformidade com suas crenças. Um argumento melhor que a alegação de que o bolo era arte é que fazer um bolo de casamento é participar, mesmo que indiretamente, de uma cerimônia de casamento, e no caso sua crença cristã (fundamentalista?) não concorda que duas mulheres possam se casar e os confeiteiros não podem ser obrigados a participar da cerimônia. O caso poderá terminar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Até lá, com prováveis novas nomeações de juízes conservadores por parte de Donald Trump, é possível que a decisão de primeira instância seja revertida.

A discussão na corte sobre o apelo do casal Klein não pôde ser um debate completo, pois é uma discussão que precisa seguir as leis do estado de Oregon, que proíbem a discriminação pela negação de serviço com base em categorias protegidas (raça, orientação sexual, gênero, religião). Então, ao ouvir a discussão no tribunal, algo que está ausente é o questionamento de que é mesmo justo que exista a lei anti-discriminação, que impede pessoas preconceituosas de agir de acordo com seus preconceitos em seus próprios negócios.

Creio que recusar-se a atender clientes gays num negócio de bolos de casamento é, sim, discriminação injusta nascida no preconceito, e que crenças religiosas são uma desculpa frágil para essa atitude. Na verdade, crenças religiosas são quase sempre uma base fraca para justificar qualquer atitude, de guardar o sábado à mutilação genital. Mas essas crenças preconceituosas e essa atitude discriminatória em torno do caso deveriam estar contempladas pelas liberdades legais. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e eu não penso que a imoralidade de ser um empreendedor confeiteiro preconceituoso com seus clientes seja algo que justifique conjurar o poder do Estado para proibi-lo de sê-lo. Uma sociedade saudável para com as minorias é aquela em que as ideias preconceituosas contra elas encontram resistência suficiente para haver outros confeiteiros que façam seu bolo de casamento. É aquela em que os casais gays podem simplesmente elevar a concorrência não preconceituosa, sendo clientes e propagandistas, em vez de se engajar em batalhas judiciais para fazer os confeiteiros preconceituosos pararem de agir como preconceituosos. Se a intenção é diminuir ou combater o preconceito, não é o efeito esperado dessa batalha. Na verdade, o que se espera nesse tipo de batalha é a escalada do despeito, em que ninguém reexamina o que acredita nem se o que está fazendo em nome dessas crenças é correto, focando-se, em vez disso, em sua liberdade de poder acreditar em qualquer porcaria, da homofobia ao igualmente tolo autoritarismo contra a expressão da homofobia.

Interferir injustamente na liberdade de religiosos preconceituosos é uma má estratégia para qualquer defensor dos direitos LGBT. Não é coerente defender direitos pisando em um dos direitos mais importantes de todos, que é a liberdade de expressão. E se assar um bolo não for expressão, estamos falando de liberdade de escolher clientes, mesmo com base em crenças torpes como a homofobia, o racismo ou a misoginia. Numa sociedade em que o preconceito genuinamente está perdendo, donos de negócios preconceituosos lucram pouco ou vão à falência.

 

15th of January

BBC toca no tema explosivo de crianças transexuais


Este tema, como outros, está cada vez mais intratável por causa da politização. Quando se politiza um tema, as pessoas passam a vê-lo como uma disputa tribal, e defenderão com unhas e dentes suas posições independentemente das evidências. Não foi surpresa, portanto, quando saiu um estudo recentemente mapeando padrões cerebrais relacionados ao posicionamento político aos mesmos relacionados à afiliação religiosa.*

Fiquei positivamente surpreso com a qualidade do documentário “This World: Transgender Kids”** que saiu na BBC há dois dias, é muito informativo e corajoso. O documentário comenta alguns dados importantíssimos. De todas as crianças que manifestam disforia de gênero (o sentimento de estar “no corpo errado” para seu gênero), 80% se resolvem e desistem de transicionar para outro sexo, vindo a aceitar o sexo com que nasceram. A maioria dessas crianças cresce para ser gay, lésbica ou bissexual.

O ativismo na área se foca em casos em que a disforia não se resolve e, por isso, a transição de um sexo para outro se faz terapeuticamente necessária. Apaixonados por ideias de destruir papéis de gênero, alguns ativistas simplificam demais a questão, culpando expectativas sociais de papel de gênero que crianças mal entendem por todos os casos de suicídio entre crianças com disforia de gênero. No entanto, é importante apontar que está longe de claro que as expectativas sociais são tudo o que há por trás da ansiedade e ideação suicida de uma fração preocupante dessas crianças. Alguns pais resistiram à afirmação de gênero de suas crianças, persistiram durante anos com terapeutas, e ao fim desse processo encontraram que suas crianças se encaixam no grupo da maioria que não era “realmente” trans, mas “apenas” gay.

Um dos terapeutas que ajudavam pais nessa direção era Ken Zucker. Por causa do lobby de ativistas com sua narrativa simplificada, ele perdeu o emprego e teve sua clínica fechada, acusado de tentar “terapia de conversão”. O problema nisso é que, como ele mesmo diz no documentário, a razão pela qual alguns pais insistem que suas crianças tomem hormônios e façam cirurgias genitais é justamente porque não querem que elas sejam gays. Então, em muitos casos, é a própria narrativa simplificadora dos ativistas que está facilitando “cura gay”, em que se produz uma menina hétero transicionada em vez de um menino gay afeminado.

O assunto é muito difícil, e diante da ignorância parece que alternativa mais cautelosa é acompanhar as crianças em sua descoberta de identidade até que elas estejam preparadas, especialmente depois de crescerem e terem acesso a terapia, a decidirem sem risco de se arrependerem depois. Acima de qualquer coisa, é muito decepcionante ver que ativismos tão importantes para fazer avançar a liberdade individual nas décadas recentes estejam agora começando a se perder aceitando que devemos levar a sério tudo o que sai da boca das crianças, que a única forma de cuidar de uma criança é dando o que ela quer. Crescer LGBT sob a autoridade de pais que claramente te rejeitam é ruim, mas crescer sob autoridade nenhuma de pais seduzidos por ideias simplistas que não põem ordem alguma no seu mundo pode ser igualmente ruim. A identidade não é simplesmente um sentimento que brota espontaneamente de dentro. Ela é também um resultado do que negociamos com quem divide a existência conosco, e do que aprendemos sobre nós mesmos (introspecção não é o mesmo que se deixar levar por qualquer sentimento). Pessoas trans merecem os mesmos direitos que pessoas não-trans, mas não é fazendo crianças de cobaias que se chega à justiça. E, como provam transtornos psiquiátricos diversos, às vezes nós precisamos de ajuda para lidar com nossa própria identidade, e afirmá-la porque soa inclusivo não é tudo o que há para a questão.

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* Kaplan, J. T., Gimbel, S. I., & Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports, 6, 39589. https://doi.org/10.1038/srep39589

** Transgender Kids: Who Knows Best? (2017). British Broadcast Corporation. http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b088kxbw/transgender-kids-who-knows-best