15th of January

Algumas idéias são tão absurdas que somente intelectuais acreditariam nelas


Exemplo: “o pessoal é político” e “tudo é político”.

Há vários comportamentos nossos que não parecem políticos em nenhum sentido. Nós investigamos coisas, de crimes a sequências de DNA. Investigação não parece política. Inventamos receitas, praticamos esportes, criamos e consumimos arte, escrevemos e lemos sobre história, buscamos parceiros românticos. Nada disso parece necessariamente político.

Cada uma dessas coisas pode ser *politizada*, e o verbo “politizar” sugere que as transformamos em política quando originalmente não o eram.

Talvez é isso o que se quer com a afirmação de que tudo é político: politizar coisas porque quem afirma isso está obcecado com política – e para quem só pensa em martelo, tudo é prego. Assim, quem tem pouco interesse em investigar, cozinhar, assistir a jogos, em arte pela arte em vez de “arte de protesto”, história e romance pode tornar essas coisas interessantes para si, politizando-as.

Mas isso tem um preço. Quando se investiga algo por interesse político, frequentemente a politização atrapalha na isenção da investigação. Quando politizam seu time de futebol, querem frequentemente o voto da torcida, não necessariamente vê-lo ganhando. Quando toda arte que se faz é para “lacrar” na mensagem ativista ou dar uma lição nas feministas, quem perde é a arte, pela limitação de tema.

Quem perde com essa história absurda de que tudo é política somos todos nós, que quando adotamos a idéia passamos a valorizar menos outras coisas pelo seu valor intrínseco e mais pela sua utilidade política.

Felizmente, é mesmo absurdo. As afirmações acima são tão inteligíveis quanto “o pessoal é científico” ou “tudo é culinária”. Claro, apesar de ser absurdo está muito popular. Mas não esqueçamos que já foi popular na comunidade médica européia que para salvar uma pessoa de afogamento o melhor método é soprar fumaça em seu ânus.

CLEMENS, Samuel Langhorne (alias Mark Twain). 1883. Life on the Mississippi. p. 369 .
10th of December

Falta de cortesia como defesa para ideias frágeis


Alguns estão notando que está ficando “normal” entre certos tipos de ativismo atacar quem diz qualquer coisa que não interessa aos ativistas com palavras de baixo calão. Mandar tomar naquele lugar, chamar de todo tipo de nome criativo envolvendo sexo, habilidade mental, digestão e religião. Interessantemente, xingamentos religiosos estão em queda – eu por exemplo cresci numa cultura em que “excomungado” era um nome muito feio. Hoje no máximo é regionalismo mineiro.

Diz-se que certa vez o filósofo Ludwig Wittgenstein, segundo alguns relatos, num debate acalorado com Karl Popper, catou um atiçador de lareira e começou a balançá-lo ameaçadoramente no ar enquanto defendia algum ponto.* Talvez estivesse só sendo teatral ou distraído. Mas talvez estava perdendo a compostura, e não seria a primeira vez que filósofos originais, acostumados à disputa, caem nessa.

Quando se reage a algum ponto de vista discordante assim, talvez porque o interlocutor está sendo teimoso, primeiro está-se revelando uma faceta da nossa natureza de macaco pelado. Nenhuma quantidade de gritinhos de chimpanzé, que são a forma mais rudimentar das nossas respostas sarcásticas, ataques pessoais sem relevância e xingamentos, quando não brandimentos de atiçadores, serve para mostrar onde está a verdade na discussão. Mas o caso é que nós ainda temos que discutir com meta na verdade, mesmo se estamos mal equipados com nosso cérebro. Se os filósofos podem ser presa desse comportamento, as pessoas menos treinadas em investigar intelectualmente são ainda mais propensas, especialmente se estão no momento ouvindo insinuações sobre a mãe alugar o corpo (o efeito da irritação pode ser observado até em quem não vê nada de errado nisso).

Tudo isso é para dizer que há justificação para a civilidade. Mas as pessoas estão tão mal acostumadas com isso, acham tanto que debate tem meta em humilhação e triunfo de macaco contra macaco, que reclamam quando eu propositalmente faço um vídeo criticando a opinião do Olavo de Carvalho sobre evolução enquanto o chamo de “professor” (que é a profissão dele, mesmo que talvez seja mal conduzida).

Eu acho que às vezes a incivilidade é proposital. Ao irritar quem discorda, quem insulta pode estar tentando evitar que o insultado tenha naquele momento pleno acesso às melhores ferramentas de seu próprio cérebro, sendo dominado pelas amígdalas temporariamente porque sugeriram que ele introduza alguma coisa no ânus. Quem acredita em falsidades, portanto, tem interesse em ser mal educado e boca suja. É uma ferramenta que simplesmente funciona para transformar gente em babuíno.

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* Edmonds, David, and John Eidinow. Wittgenstein’s poker. Faber & Faber, 2014.