31st of August

“Gene Gay”: cobertura de novo estudo mostra que a imprensa não aprendeu nada em 25 anos


No começo da década de 1990 o geneticista Dean Hamer teve o nome citado pela maior parte da imprensa ocidental ao propor que havia um “gene gay”. A verdade, é claro, era mais complicada. Hamer havia sido parte de um estudo que apontou que uma região do cromossomo X parecia estar significantemente associada à presença da homossexualidade em famílias. A cobertura fez um enorme desserviço à divulgação científica, mas Hamer partilha parte da culpa. Ele não aprendeu muito, pois na década seguinte lançou um livro que propunha no título um “gene de Deus”. Parece até que genes são feitiços do Harry Potter, que conjuram coisas complexas como crença em Deus e homossexualidade do nada, e sozinhos.

Saiu um novo estudo sobre a genética da homossexualidade, com uma enorme amostra, e tudo indica que a imprensa nada aprendeu em um quarto de século. A Globo News já interpretou tudo errado com esta manchete: “Estudo feito com DNA de quase meio milhão de pessoas conclui que não existe um gene que determine a homossexualidade. Ambiente, educação e personalidade influenciam escolha, dizem pesquisadores”. Para mim, ao menos, está claro que os jornalistas pegaram a notícia de segunda ou terceira mão, em vez de simplesmente abrir a página do estudo.

Desde 2011 estou aqui falando em público que QUALQUER comportamento é influenciado por um grande número de genes. Ninguém na genética espera que nem mesmo o reflexo patelar, um dos mais simples dos nossos comportamentos, venha de um gene só. O estudo definitivamente não é sobre isso e não teve o objetivo de derrubar a ideia de que um gene só causa a homossexualidade, pois ninguém na genética acredita nisso.

O novo estudo tem um ótimo tamanho amostral (mais de 470 mil participantes). Minha principal crítica a ele é que perguntar só se as pessoas já tiveram uma experiência sexual com alguém do mesmo sexo é uma forma imprecisa de aferir o desejo espontâneo delas. Entrevista é um método cheio de imperfeições.

Aqui entra o aspecto da personalidade. Se alguém é propenso a ter uma personalidade aberta a novas experiências (e esse é um dos principais 5 ingredientes da personalidade), esta pessoa pode fazer sexo com pessoas do mesmo sexo apesar de esta não ser sua principal preferência sexual.

Portanto, só perguntar se alguém fez sexo com alguém do mesmo sexo ao menos uma vez na vida não é um instrumento preciso para aferir a orientação sexual. Na verdade, é um método fadado a incluir heterossexuais na amostra. Além disso, sabemos também que os componentes da personalidade têm também base genética. A sugestão aparente de uma dicotomia entre personalidade e genes não faz sentido nenhum.

Aqui está o link do estudo original, que parece que jornalistas têm alergia de dar. https://science.sciencemag.org/content/365/6456/eaat7693

A última frase do resumo diz tudo: “o comportamento não-heterossexual é poligênico“, não destituído da influência dos genes, portanto. Em momento algum o estudo sugere que a orientação sexual pode ser mudada pela via da educação. Não sei de onde a Globo News tirou isso.

Sobre ética e por que dois grupos políticos comemoraram a manchete que induz a erro

Certo tipo de conservador quer que a homossexualidade seja resultado da cultura e escolhas, para facilitar a condenação moral dos gays. Pois, como disse Kant, “dever fazer” implica “poder fazer”. Só pode ser imoral comportamento que pode ser mudado de livre e espontânea vontade.

Ao mesmo tempo, certo tipo de progressista quer que a homossexualidade seja resultado da cultura e escolhas porque declarar tudo “construção social” faz parte de seu projeto de poder baseado na engenharia social, em moldar a sociedade à sua imagem e semelhança.

Pensando bem, os dois não são tão diferentes assim. Ambos os grupos põem seus projetos sociais e suas crenças sagradas na frente dos fatos.

Sobre “comportamento”

Percebo que há uma confusão semântica sobre o que a genética do comportamento quer dizer com “comportamento”, também. É a mesma confusão do Malafaia. Não há, no tratamento científico do comportamento, qualquer pressuposição de que sua causa é ambiental/cultural/educacional.

Talvez essa confusão vem da influência do behaviorismo, um arcabouço teórico que dominou a psicologia na metade do século XX e pressupunha uma importância exagerada para o ambiente. Esse arcabouço, apesar do continuado protesto de alguns, já caiu, e o empurrão veio de dentro.

Comportamento é uma característica fundamental dos animais. É qualquer fenótipo que derive da atividade das células excitáveis: neurônios e fibras musculares. Ter um desejo não concretizado de sexo gay, portanto, ainda é ter um comportamento.

É este comportamento, concretizado em camas ou não, que é o real alvo da controvérsia sobre as origens da homossexualidade. São as pessoas que têm essa preferência, com predominância ou exclusividade, que são alvo principal do preconceito, também.

8th of May

Parlamento dos Valores


Imaginem uma família orientada total e unicamente pela liberdade. Os pais não forçariam os filhos a nada. Os filhos escolheriam se querem estudar, quando e como. Os pais se considerariam livres para pular a cerca quando e como quiserem, sem consideração por acordos mútuos ou pela estabilidade da relação e o efeito dela sobre os filhos.

A maioria de nós sabe ver que isso não daria certo. Júnior preferiria passar 14 horas por dia jogando Fortnite e zero horas aprendendo a multiplicar números de três dígitos. 

Valores são abstrações que tentamos usar para nos orientarmos num mundo complexo. No momento em que passamos a eleger um valor como soberano sobre todos os outros, nos arriscamos a perder alguma coisa.

Uma família ou sociedade orientada pela adoração da igualdade também daria errado, e temos exemplos dos efeitos nefastos de tentar elevar a igualdade acima dos outros valores: na cova, de fato todos são iguais.

Pensemos num terceiro valor, o mérito. Nós precisamos que haja alguma forma de as pessoas serem recompensadas pela competência. Vários serviços de que dependemos têm sua qualidade dependente de hierarquias de competência. Uma sobrevalorização do mérito pode ser um pouco mais difícil de imaginar como algo negativo, mas é possível: por trás da busca da meritocracia há a competição. Sobrevalorizar o mérito é sobrevalorizar os efeitos da competição. A competição é antagônica da cooperação (em última análise, mas isso não quer dizer que não possam conviver de forma estável). Uma sociedade em que a cooperação é assassinada pela competição é mais um pesadelo distópico.

E temos o outro lado dessa última moeda, que é a valorização exagerada dos aspectos comunais da cooperação. Nós temos sempre preferências. Preferimos cooperar com um grupo seleto. A forma extrema disso é a política identitária: cooperarei apenas com quem partilha de certas características minhas, e tratarei como suspeitos todos os que diferem de mim.

Uma cabeça sã precisa ter dentro de si um parlamento de valores diferentes. Muitas enfermidades mentais de várias formas de ideologia vêm de golpes de um ou mais valores sobre os outros.

24th of February

Ciência, política identitária, transexualidade, ação afirmativa e relativismos


Entrevista originalmente publicada em 30/01/2019 na Gazeta do Povo.

Francisco Razzo: Minha coluna desta semana traz entrevista com o biólogo Eli Vieira, que nos últimos anos tem feito críticas contundentes e consistentes ao relativismo pós-moderno e às políticas identitárias. Para não dizer que só entrevisto pessoas que concordam comigo, Eli Vieira e eu já tivemos oportunidades de debater a questão do aborto e do ateísmo. Temos visões diametralmente opostas a respeito desses temas e nem por isso deixamos de trocar boas ideias.

A propósito, umas das coisas mais importantes que eu aprendi estudando filosofia foi conseguir conversar com pessoas com ideias diferentes das minhas. Não que eu tolere tudo, não sou Gandhi ou Madre Teresa e não faço meditação; dependendo do assunto, meu pavio é bem curto. Mas estou longe de querer ouvir só a minha “patota ideológica” — confesso que não é tão difícil lembrar que a possibilidade de estar errado é uma boa maneira de cultivar a sabedoria.

Nesta entrevista você terá a oportunidade de conhecer uma visão muito provocadora sobre o atual debate da transexualidade, como a biologia pode nos ajudar a pensar a construção da identidade, por que o relativismo é simplesmente um absurdo, como as “minorias” devem ser protegidas e quais os riscos sociais das chamadas políticas identitárias — e, mesmo depois de tudo isso, saber por que ainda permanecemos tribais.

FR: Como você entende o atual debate da transexualidade?

Eli Vieira: É uma guerra de absurdos sendo atirados de todos os lados. De um lado, correndo à defesa das pessoas trans como cavaleiros correm ao socorro de donzelas em apuros em contos de fadas, temos pessoas pouco curiosas sobre o mundo real; aquelas que vivem no mundo das letras e, por isso mesmo, pensam que tudo se resume a esse mundo, tudo é linguagem. Confundem seu paroquialismo das letras com erudição, se radicalizam (como é de esperar em qualquer grupo pouco diverso em ideias), alegam que tudo é “construção social” num determinismo cultural ganancioso e não querem ouvir nada que venha das ciências empíricas. De outro lado, temos os simplistas, cujo entendimento de biologia se resume ao ensino básico: homem = XY; mulher = XX, isso é tudo o que há para dizer sobre o assunto, e querer saber mais é esquerdismo. Parece que os dois grupos se unem na falta de curiosidade. Quanto mais polarização, menos curiosidade.

FR: Há um “lugar-comum” que diz que “a teoria de gênero não pode ter respaldo na biologia”; afinal, qual a importância da biologia na construção da identidade de gênero (se é possível falar assim)?

EV: Estou de acordo com a filósofa Helena Cronin: a invenção do termo “gênero” só nos atrapalhou a entender melhor o sexo. O sexo, em seres humanos, é um fenômeno complexo o suficiente para ter expressões sociais e culturais. Ceifar essas expressões de sua relação com a realidade biológica do sexo faz tanto sentido quanto alegar que “altura” e “estatura” não são sinônimos; que “altura” é a realidade biológica de quantos centímetros um corpo humano pode crescer e que “estatura” diz respeito a uma “estrutura socialmente construída de privilégios para pessoas altas e opressão para as baixas”, para usar um pouco do vocabulário carregado das áreas acadêmicas em que se confunde ativismo com pesquisa.

Um dos principais responsáveis pela adoção do termo “gênero” na psicologia, John Money (1921-2006), foi um pesquisador que recomendou criar o menino David Reimer (1965-2004) como menina, pois David havia perdido o pênis ainda bebê, num erro médico durante uma circuncisão. Money usou o caso para tentar provar que a identidade sexual depende apenas da criação e do ambiente cultural, em vez de ser algo com bases genéticas. A intervenção consistiu também num processo transexualizador, incluindo remoção dos testículos. Money estava errado. Reimer cresceu com disforia, talvez o primeiro caso de disforia de alguém que se identificava com o sexo de nascimento. Abandonou a identidade socialmente imposta de menina, teve uma vida difícil e cometeu suicídio mais tarde.

Uma ideologia popular nas humanidades, que é a que prega que tudo o que somos é construção social, corretamente cataloga todo tipo de crime já feito em nome das ciências empíricas: o movimento da eugenia envolvendo vários cientistas, a castração de pessoas de baixo QI nos Estados Unidos no começo do século 20, o racismo científico etc. Previsivelmente, não cataloga crimes cometidos em nome de seu próprio credo acadêmico da tábula rasa/construção social: além do crime de John Money, temos aqui também Pol Pot, Stálin e Mao Tsé-Tung, que explicitamente diziam que seus cidadãos eram folhas em branco e que, portanto, não havia uma natureza humana que oferecesse resistência aos princípios da revolução socialista (Jean-Paul Sartre, que foi stalinista e maoísta, é citado até hoje para defender que não existe natureza humana – acho que não é coincidência). Tanto o determinismo biológico quanto o determinismo cultural motivaram crimes contra pessoas inocentes.

Engana-se, no entanto, quem pensa que o caso David Reimer prova que sempre, sem falha, a identidade sexual saudável é a observada nas genitálias ao nascer. Estamos só começando a estudar a transexualidade, mas há dois bons motivos para considerar seriamente que é possível que algumas meninas nasçam com pênis e alguns meninos nasçam com vagina. O primeiro é que há uma independência temporal, no desenvolvimento do feto, da formação da genitália e da formação das partes do cérebro que diferem na média entre homens e mulheres. Enquanto a forma da genitália já se faz presente nos dois primeiros meses de desenvolvimento fetal, o cérebro só forma suas conexões neuronais, inclusive as importantes para a identidade sexual, da metade para o fim da gestação. Havendo essa separação temporal, é possível que haja alguma independência nas causas do sexo entre as pernas e do sexo entre as orelhas.

O outro motivo para acreditar que a transexualidade é natural é que, em muitas características, os homens são mais variados que as mulheres. Isso é verdade tanto para características físicas quanto psicológicas, como o QI. Aceitando que há bases biológicas por trás das diferenças de comportamento de homens e mulheres que fazem os dois sexos serem categorias sociais distintas, teremos de aceitar também que alguns homens podem se distanciar tanto da média de homens nessas bases, devido à maior variação masculina, que eles na verdade são mulheres no cérebro. E é por isso que há mais transexuais que se identificam como mulheres que como homens.

Há algumas pesquisas com transexuais indicando que isso é verdade: núcleos de uma parte do cérebro chamada hipotálamo dos transexuais são mais semelhantes ao sexo com o qual se identificam do que ao sexo indicado por suas genitálias de nascença. Já alguns outros estudos mostram que, em algumas características, o cérebro dos transexuais se assemelha ao sexo identificado ao nascer. Teremos de ter paciência e curiosidade para entender as pessoas transexuais, e o estudo delas revelará muito sobre o resto de nós.

Isso não é para dizer que todas as respostas estão na biologia, embora resposta nenhuma no assunto estará completa se ignorar a biologia. Na opinião de Alice Dreger, estudiosa dos intersexuais (hermafroditas) e crítica dos excessos do ativismo, um indivíduo que é um gay muito afeminado numa sociedade poderia ser uma transexual em outra sociedade – essa outra sociedade, ela pensa, seria menos tolerante ao jeito de ser desse indivíduo, fazendo com que ele (ou ela) precise dar “um passo à frente” na afirmação de sua identidade. É uma hipótese interessante e promissora, e em nada contraria a biologia.

De qualquer forma, os dois sexos (incluindo as variações raras dos intersexuais e transexuais) são mais semelhantes que diferentes: somos uma só espécie. E falar mais de sexo que de gênero me parece um bom ponto de partida para que a curiosidade e o respeito falem mais alto que a sanha persecutória das tribos políticas e o fervor moral dos ativistas cheios de certezas. Antes de agir, devemos saber.

FR: Quem acompanha seu trabalho sabe que você é um ferrenho crítico do relativismo pós-moderno; você poderia discorrer quais são as implicações do relativismo e por que é preciso combatê-lo?

EV: A forma mais resumida que eu encontrei para mostrar o problema dos relativismos é o que eu chamo de “a vingança das intuições”: Você pode alegar que não acredita em padrão universal de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado(a). Você pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas, quando vê um animal sendo torturado, pensa que há algo de realmenteerrado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim” ou “errado para os brasileiros do século 21”, como mandam os relativismos morais. Você pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em “verdade” é positivista antiquado; mas, quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não se cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais. A aderência insincera ou autoenganosa aos relativismos é mais uma bandeira política que um fruto do bom pensamento.

Se os relativismos um dia vencerem na disputa de poder, podemos dar adeus a todas as coisas em que esperamos que haja hierarquias baseadas em competência. Um artista não relativista tem uma lixeira cheia de rascunhos abortados. Um artista relativista bota qualquer rascunho na galeria. Um intelectual não relativista busca justificação para suas crenças que escape à sua subjetividade e ao paroquialismo em torno de si. Um intelectual relativista tem incentivo extra para querer ser julgado somente pela aclamação de seus pares, com todos os vieses que isso traz na bagagem.

FR: Na sua opinião, as chamadas “minorias” devem ser protegidas politicamente?

EV: À primeira vista parece que sim, se houver evidência de que são alvo diferencial de dificuldades que não ocorrem aos outros cidadãos – como é o caso dos deficientes, que precisam de rampas, textos em braile etc. Mas devemos saber disso antes de propor que o Estado interfira. A comparação com os deficientes é um balde de água fria proposital: antes de pedir favores do resto da sociedade, é preciso que perguntemos se alguma das outras minorias é mesmo comparável aos deficientes de alguma forma.

Isso não é para insultar as minorias (afinal, deficiência não é demérito), mas para deixar claro que os recursos são sempre finitos e que receber tratamento diferenciado requer motivos sérios como a deficiência. Talvez por saber intuitivamente disso, alguns dos ativistas da causa LGBT, por exemplo, insistem que o Brasil “é o país que mais mata LGBT”. Usam essa alegação para pedir, por exemplo, leis que limitem a liberdade de expressão em nome da causa.

Eu fui atrás da principal fonte dessa alegação, junto com colaboradores. Analisamos os dados. Concluímos que somente 7% do que essa fonte diz serem crimes homofóbicos se confirmam como tais. Portanto, há dúvidas de que o país é realmente tão ruim quanto alguns ativistas tentam fazer parecer com seu ativismo “Cidade Alerta”. Manter a liberdade de expressão intacta parece mais importante que chamar o Estado para agir com base em dados que não são dignos de confiança. Neste caso, a mim parece que a cultura está progredindo por si só, que o Judiciário já fez tudo ou quase tudo o que era necessário para haver igualdade perante a lei, e que, portanto, não há necessidade de clamar por mais Estado nesse assunto, ainda que haja ampla necessidade de a sociedade continuar conversando.

Resultado preliminar da checagem de dados do Grupo Gay da Bahia que a imprensa usa para alegar que o Brasil é o país que mais mata por homofobia. Só 7% dos casos se confirmam. 42% não foram mortes por motivação homofóbica. 47% inconclusivos https://bit.ly/2VxEIfg

Os asiáticos nos Estados Unidos, hoje, estão se saindo melhor que a base étnica que fundou o país (anglo-saxões protestantes), e nisso não devem nada ao Estado. Na verdade, nos últimos séculos, o Estado serviu como obstáculo para eles. Eles são a prova de que programas de “ação afirmativa” não são necessários. Como um golpe de ironia, estão precisando processar a Universidade de Harvard porque políticas de ação afirmativa na seleção de alunos na instituição prejudicam os asiáticos por se saírem bem demais.

Os proponentes das ações afirmativas, portanto, têm o ônus de provar por que pensam que outras minorias são incapazes de sucessos similares sem que os critérios de admissão, seleção e competição sejam ajustados para elas. Como esses proponentes pensam que a diferença entre etnias é mais cultural que biológica (e eu tendo a concordar), precisam procurar explicações na cultura. Evidentemente, a explicação que sempre usam é que a cultura dominante discrimina injustamente as minorias. Essa explicação é verdadeira, mas ela não é a história completa, então há aqui o risco da “mentira por omissão”. Todo fenômeno sociológico tem uma miríade de fatores causais diferentes. Mas, como há dogmatismo político, se agarram à explicação do preconceito e acusam de preconceito quem quer aventar outras hipóteses. Essa é uma postura de inquisidor, não de investigador.

FR: Quais os riscos das “políticas identitárias” para o desenvolvimento do trabalho científico?

EV: Quando eu penso nas faces que eu via no Departamento de Genética da Universidade de Cambridge, lembro de todas as categorias identitárias que tantas pessoas tratam hoje como donzelas em apuros. Vi lá mulheres negras, mulheres muçulmanas com véu, cristãos, ateus, até transexuais (e digo “até” porque são bem menos de 1% da população, então não aparecem em muitos espaços por mero efeito do acaso – aí está uma explicação alternativa à obsessão de creditar tudo a preconceito!). A diversidade que observei ali era apenas um efeito colateral dos valores da instituição: estávamos ali porque nos interessávamos por genética e, por sorte ou determinação, conseguimos fundos para seguir nossos interesses.

Como o interesse em genética é bem distribuído em grupos de identidade e as pessoas são livres para tentar entrar lá, há diversidade identitária em quem tenta. Não sendo essas identidades critério de admissão ou exclusão, o resultado era um grupo fisicamente diverso. Como o interesse em matemática não é tão bem distribuído nas identidades quanto a genética, a cara da plateia nos seminários dos departamentos de exatas deve ser diferente. Certamente é mais masculina, pois os homens herdaram de seus ancestrais masculinos um cérebro mais propenso a se interessar por coisas e abstrações do que pelo tratamento de animais e pessoas. Há evidência científica para essa previsão de qual será a plateia. Pressões sociais para que as pessoas se conformem a estereótipos podem contribuir para manter alguns grupos menos presentes em alguns espaços. Mas pouca pesquisa rigorosa é de fato feita para mostrar o quanto disso está por trás do que observamos.

De qualquer forma, o que importa é que exista a liberdade de seguir nossos interesses, não que os interesses sejam artificialmente distribuídos na população, o que geraria mais profissionais desinteressados e desiludidos. As ciências são investigações que empregam métodos lapidados pela experiência das gerações passadas de cientistas. Os melhores cientistas eram genuinamente interessados em suas áreas, se atraíram naturalmente por elas. A moda ideológica da política identitária leva ao risco de tentar forçar a plateia dos seminários de matemática a ser mais parecida com a plateia da genética, atropelando liberdades e curiosidades genuínas no processo.

Portanto, é uma tendência preocupante para a pesquisa científica, tanto quanto discriminações “clássicas”, talvez mais preocupante que elas. Quando os geneticistas começarem a prestar muita atenção na identidade da colega que está falando, darão menos atenção ao conteúdo do que está dizendo e à qualidade do trabalho.

Pelo que indicam as evidências, não é o racismo, a homofobia, ou a misoginia que estão em grande parte nos genes, mas uma tendência ao tribalismo. Nós somos capazes de usar qualquer coisa, inclusive identidades políticas abstratas, para nos dividirmos em tribos, passando a agir de forma condescendente/simpática a quem consideramos confrades e de forma hostil/desconfiada a quem rotulamos como estranhos ao nosso grupo. São vieses de fábrica da nossa natureza. Podemos enfatizá-los ou desenfatizá-los, mas não nos livrar completamente deles. Insistir nos marcadores de identidade ao fazer política, indicam resultados replicados, é receita certa para exacerbar racismo, homofobia, misoginia etc. Ao menos em se tratando de marcadores de identidade que são ideias, mudar de ideia é possível, embora raro, quando o tribalismo tem essa natureza. Quando o tribalismo é baseado em características identitárias que não escolhemos e das quais não podemos nos livrar, o prognóstico de longo prazo é o desastre, mesmo que a intenção de curto prazo seja a defesa de oprimidos.

1st of February

Estudei o conservadorismo com um amigo. Ele virou conservador. Eu não. Por quê?


Desde 2014 venho me informando melhor sobre o que é o conservadorismo. Roger Scruton, Edmund Burke, John Kekes e Thomas Sowell são alguns dos nomes que estudei. Um amigo que estudou comigo virou conservador. Eu não. Continuei “laconicamente” liberal. Buscarei explicar aqui o porquê, depois de uma breve discussão terminológica.

A primeira coisa que estou presumindo é que você só está realmente aberto ao liberalismo e ao conservadorismo quando desistiu de achar boas respostas na cartilha batida da esquerda que quase todo mundo conhece: igualdade acima de liberdade. Revolução acima de evolução. Trabalhadores acima de patrões (como se um jogo de soma zero capturasse completamente a natureza dessa relação). Não acredito em “posições políticas com sobrenome”: liberal conservador, conservador nos costumes e liberal na economia, esquerda liberal. Para mim, essas posições com sobrenomes, embora possam ser uma tentativa de dar nuance e variedade ao cardápio, podem ser resultado de um tribalismo estilhaçado e racionalizações sobre posições mínimas mal compreendidas e adotadas pela metade. Mas esse é outro assunto, que não será desenvolvido aqui.

O liberalismo e o conservadorismo oferecem heurísticas mentais diferentes. Heurísticas são receitas para resolver problemas que são imperfeitas, mas que as circunstâncias nos obrigam a adotar. Por exemplo: uma solução heurística para a malária seria secar todos os mangues. Funcionaria, mas não vai realmente à causa do problema, que são mosquitos infectados com o plasmódio. As heurísticas se fazem presentes especialmente quando você tem informações imperfeitas para apontar para a melhor solução, o que em política é a maior parte do tempo.

A heurística do liberalismo é priorizar um valor, a liberdade, num universo de outros valores. É maximizar a liberdade individual. Notem que é implausível que a liberdade sempre seja o valor mais importante em cada situação. É por isso que se trata de uma heurística: uma receita sujeita a erro mas que se espera que funcione na maior parte do tempo. Aqui cabe a famosa analogia conservadora contra o liberalismo: a liberdade é um cavalo que a gente monta. A montaria nada diz sobre o destino para onde devemos ir. Só defender que se tenha a montaria é insuficiente. E o conservadorismo supostamente ofereceria um norte.

A heurística conservadora é outra. Ela diz que, se você não vê razão para a existência de algum hábito, instituição ou crença, isso não significa que não existe razão nenhuma. Podem haver razões não articuladas pelos aderentes. Inovações que substituam esses hábitos, instituições e crenças, portanto, poderiam estar atropelando boas razões para que fiquem como estão. Essas inovações vêm na forma de ideias para reforma social que a heurística conservadora vê como arrogância intelectual e pressa de revolucionários. É isso que chamam de um ceticismo político característico do conservadorismo.

Ambas as heurísticas têm sua sensatez. Se sou liberal e não conservador, é porque considerei a heurística liberal melhor que a heurística conservadora. Devo dar minhas razões para rejeitar o conservadorismo, portanto.

O conservadorismo e o liberalismo ambos resultam do iluminismo (Esclarecimento). O primeiro surgiu com uma reação de Burke aos erros da Revolução Francesa, e o segundo veio das especulações de Locke e posteriores. Como indica a origem, o conservadorismo na verdade é uma receita sobre o que não deve ser feito, não um norte definido.

Por isso, não é realmente um norte para a montaria da liberdade, mas uma cerca: “Não pise para além desta cerca com seu cavalo. Lá há dragões. Coisas terríveis vão acontecer.” Essa cerca independe do terreno sendo cercado. Crenças absurdas podem ser protegidas por essa cerca.

E às vezes há dragões mesmo. Às vezes há comunismo cuspindo fogo, esperanças de engenharia social que ignoram a natureza humana, e elas não vêm apenas da esquerda, mas também de liberais (considere, por exemplo, as propostas de reforma da educação do libertário Bryan Caplan e de reforma da democracia do libertário Jason Brennan). E às vezes dá em tragédia, sim, que podemos contabilizar em dezenas de milhões de mortos só no século XX. Apesar de tudo isso, essa disponibilidade ao risco, de cruzar a cerca, ecoa com um antigo conselho: sapere aude. Ouse saber. Lema do iluminismo.

Essa disponibilidade a correr riscos é característica de um ser cognoscente que busca ser livre. Sem riscos, a razão é um mero instrumento de manutenção de estruturas herdadas cuja justificação frequentemente já foi esquecida, se existente — como quer a heurística conservadora.

Levar a razão às últimas consequências, abandonando as tradições se preciso (dentro da própria cabeça, não necessariamente recomendando isso à sociedade), é algo que lembra mais o liberalismo que o conservadorismo. O liberalismo é o filho favorito do Esclarecimento, portanto. Tanto é assim que a afirmação de que o conservadorismo e a esquerda são filhos do iluminismo é mais controversa. Alguns conservadores podem considerar que a real raiz do conservadorismo é o conhecimento de tentativa e erro acumulado nas comunidades tradicionais ao longo das gerações: um pacto entre os vivos, os mortos e os que estão para nascer, como belamente descreveu Burke; não as ideias do próprio Burke. E muitos consideram que muitas das ideias populares da esquerda são reações ao iluminismo dentro do idealismo alemão e mais tarde dentro da moda pós-moderna que hoje nos dá de presente a péssima moda da política identitária, embora outros considerem a esquerda outra filha do iluminismo, desde Rousseau, que já expressou tantas das ideias que perduram na esquerda até hoje.

Dizer que o liberalismo é o filho favorito do projeto da razão não é o mesmo que xingar conservadores de burros ou de irracionais. Não é o caso, claramente, e há muitos conservadores mais racionais que muitos liberais. Mas isso explica por que o tal ceticismo dos conservadores costuma ser apenas político e poucos deles são ateus ou agnósticos, por exemplo.

Tomemos como exemplo o Caio Coppola. É um cara inteligente, jovem, racional que está merecidamente popular entre os conservadores brasileiros. Na complexa rede de crenças dele, ele abandonou o ateísmo para abraçar um conservadorismo completo que vem com religião. E, o que é mais importante: ele confessa que os motivos dele para abandonar o ateísmo e abraçar a religião não foram racionais.

O fato de ele e outros adotarem uma “teologia do coração” (como dizia Bertrand Russell) é uma evidência a favor da minha tese: preferem a cerquinha segura, preferem não arriscar uma crença ousada como o ateísmo, e explicitamente confessam que, nesse assunto, largaram a “montaria” racional/liberal. Isso não quer dizer que os liberais são ou devem ser na maioria ateus ou agnósticos (a maioria não é), a tese é outra: liberais são mais abertos a novas ideias avançadas racionalmente, não importando tanto assim o risco delas para as tradições.

É por isso, senhoras e senhores, que eu não posso ser um conservador, por mais que critique a esquerda e respeite o conservadorismo. Estou comprometido com o ideal do Esclarecimento (e, portanto, liberdade) em todas as avenidas e vielas. Não abro exceções. Se não há que filosofar, há que filosofar. Desconfio de todas as alternativas.

_____

P.S.: Alguns que leram meu Manifesto Isentão podem perguntar como é que minha postura de defender abandonar os rótulos e as tribos políticas poderia ser compatível com a minha defesa do liberalismo. A resposta é que, como dito acima, o liberalismo deve ser considerado como um conjunto de ideias que resultam de uma heurística. Ainda assim, é preciso ter cuidado com a adoção do rótulo “liberal” e a participação de grupos que o adotam, pois, como eu disse no manifesto, nenhuma ideologia é imune à tribalização, que é uma tendência natural.

26th of September

De onde vem o autoengano?


Psicanalistas propunham que o autoengano é uma forma de o “ego” proteger a si mesmo. Pois, sendo doloroso reconhecer que se está enganado em alguma crença, o tal “ego” usaria um arsenal de defesas psicológicas (negação, racionalização etc.) para se proteger da dor psicológica de estar errado.

O problema dessa explicação é que ela é só um exercício de classificação — sistematização que somente aponta algumas coisas e bota nelas um nome. Não é uma investigação das origens desse tipo de comportamento. Entender as origens é importante, afinal, o autoengano pode até botar nossa vida em risco, quando diante de doenças e comportamento de risco mentimos para nós mesmos que estamos saudáveis (a maioria das pessoas superestima a própria saúde e aptidão física). Isso gera um enigma para as nossas origens, que estão na evolução biológica. A seleção natural em tese não deveria nos dotar de formas de diminuir ativamente nossas chances de sobrevivência e reprodução.

Mas há um fato sobre nossas origens que ajuda a explicar o autoengano: nossa espécie surgiu não apenas sobrevivendo a intempéries ambientais, mas também sobrevivendo a disputas sociais, nas quais um indivíduo enganar a si mesmo pode ser uma boa estratégia a depender do contexto social. É importante lembrar que estamos falando aqui de crenças que nós realmente temos sobre nós mesmos, com sinceridade, não mentiras. A mentira é muito mais difícil, pois o mentiroso precisa se lembrar de todo o cenário que precisou inventar e manter a aparência de que acredita na falsidade que está emitindo. Mentir é cansativo! O autoengano, que é energeticamente mais barato, volta a falsidade para dentro porque ela nos beneficia no ambiente social. Usando a máscara com sinceridade, nesse contexto nossas chances de sobreviver e reproduzir aumentam. Assim, pensar no autoengano num contexto evolutivo o explica de forma melhor do que a psicanálise jamais sonharia em fazer.

Para fins didáticos e tendo em mente essas explicações, podemos classificar o autoengano nas seguintes estratégias:

– Se fazer de maluco. Uma pessoa perfeitamente racional pararia uma disputa de poder ou luta de acordo com suas reais chances de vencer. Mas um bom lutador de boxe continua alegando que é o mais forte até perder a consciência na lona. Ao sinalizar que acredita em si até as últimas consequências, o blefe sincero de quem se faz de maluco pode dissuadir seu competidor de tentar fazer o mesmo. É, em outras palavras, uma boa estratégia no jogo. O maluco está disposto a fazer qualquer coisa para vencer, mesmo se isso significa um alto custo para si. No jogo do “frango”, em que dois motoristas avançam na contramão um do outro até que o perdedor desvie a direção por medo, ganha o maluco que arrancar o volante e o jogar pela janela.

– O cão leal. É a pessoa que realmente acredita nas coisas mais malucas não porque avaliou evidências ou argumentos, mas porque (e ela própria não sabe disso) acreditar sem verificar é uma sinalização de lealdade a uma tribo. Qualquer semelhança com quem insiste que Lula não sabia de nada, que a delação dos empreiteiros está toda errada, que pedalinhos com os nomes dos netos no sítio em Atibaia são só sinal de hospitalidade do real dono do sítio, etc., não é mera coincidência. Exemplos em outras tribos políticas são facílimos de encontrar.

– O propagandista. “Eu sei que isso é verdade”, diz esse. “Acredite comigo!” Esse tipo de autoengano é bem comum em quem vem às redes sociais não porque quer discutir ou apresentar um ponto de vista de forma clara, mas porque quer demonstrar *CONVICÇÃO* de alguma coisa. “Nossa”, pensam os que acreditam no autoengano do propagandista, “se ele fala com esse nível de confiança, deve saber do que está falando”. Malafaia é muito bom nisso, e eu acredito que ele muitas vezes é sincero. Quando respondi à sua alegação de que genética nada tem a ver com homossexualidade, cinco anos atrás, ele fez uma tréplica cheia de confiança, desfilando falácias de ataque pessoal contra mim. Eu, o biólogo acostumado com as incertezas e com seguir o que as evidências permitem que eu afirme, não podia demonstrar o mesmo nível de autoconfiança que Malafaia. E por isso mesmo não fui tão convincente para alguns quanto ele poderia ser: porque ele realmente acredita que está certo, e fala com convicção.

– O trapaceiro. “Respeito a sua opinião”, diz com convicção alguém que pensa que a tal opinião é falsa ou até imoral. A pessoa realmente acredita que RESPEITA algo que pensa que é errado. O que significa isso, afinal? Logicamente não faz muito sentido. Significa que a pessoa está tentando enganar a si mesma que seus motivos são todos puros, e que se ela discorda (e geralmente não quer fazer trabalho nenhum para mostrar que a certa é ela), ao menos ela “respeita” a opinião abjeta que se recusa a avaliar. Está sendo preguiçosa, tentando trapacear as regras de honestidade e diligência intelectual, mas todas as suas motivações são supostamente cândidas.

***

Com ideias do livro “The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life”, de Kevin Simler e Robin Hanson

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

1st of June

Suicídio e Liberdade


As liberdades individuais são importantes especialmente no contexto social: de dentro para fora, em como o indivíduo se comporta para com a sociedade, e de fora para dentro, em como a sociedade interfere na vida dele. As preocupações liberais estão em maximizar o que indivíduo pode fazer em interesse próprio e minimizar as interferências sociais sobre ele que são autoritárias.

São nesses níveis que o suicídio pode ser tratado à luz das liberdades. De dentro para fora: as pessoas são livres para tirar a própria vida? De fora para dentro: evitar um suicídio é uma interferência autoritária sobre a liberdade de outrem?

Acho que uma resposta dependerá do quanto a decisão do suicídio pode ser racional. Há exemplos de suicídios assistidos e eutanásia que têm toda aparência de decisão racional: a pessoa decide dar um fim pois não fazê-lo dá em uma morte mais lenta e mais sofrida. Dessa forma, num simples cálculo de consequências, o indivíduo está justificado em tirar a própria vida (tem boas razões para isso).

Seria racional um suicídio feito porque alguém julga que não tem “perspectiva de vida” (não vê sentido na própria vida) nem afetará negativamente outras pessoas, mesmo sem estar terminalmente doente? Parece que a resposta é sim, mas que esse tipo de exemplo seria raríssimo, pois não é tão difícil encontrar uma forma de ter uma vida produtiva e com propósito. Quem tem dois braços e duas pernas pode botar isso à prova ajudando os deficientes.

O que esse último exemplo hipotético sugere é que com frequência as pessoas que dizem que sua vida não vale nada e deve ser eliminada estão enganadas. Neste caso, estão sob alguma influência que explica o seu erro de avaliação, como a depressão. Assim, um bombeiro está plenamente justificado em vigorosamente evitar que pulem de uma janela: a probabilidade de estarem erradas, e, mais importantemente, a probabilidade de estarem ferindo a alguém (diretamente — ex.: familiares — e indiretamente — ex.: contágio social de suicídio), são mais altas que a probabilidade de estarem certas.

Esse raciocínio exige um abandono de todo tipo de relativismo. É incompatível com um relativismo moral (“se ela diz que precisa morrer isso é correto para ela”) e um relativismo epistêmico (“se ela diz que sua vida não vale nada, essa é a verdade dela”). A aceitação ou rejeição racional da decisão de um suicida (fora dos casos de eutanásia de pacientes terminais) depende da possibilidade de julgar se ele está objetivamente certo tanto no campo da ética quanto no campo do conhecimento. Sendo assim, a moda dos relativismos, ensinada hoje nas universidades e em parte da cultura popular, é uma moda muito mais perigosa do que parece à primeira vista.

_____

P.S.: Esse texto resulta de uma discussão do assunto no Fórum Livres. Não há motivo para preocupação com o autor. A pintura é “A Morte de Chatterton” (1856), de Henry Wallis (1830-1916).

25th of May

Abandonando as redes sociais: um guia incompleto Razões para cuidar do próprio jardim ignorando quantos olhos são postos nele


“Você não pode simplesmente dizer ao seu cérebro ‘Ignore a mulher bonita, ela não vem com o carro’ e esperar que ele obedeça, de forma que, no futuro, pode ficar tranquilo que quaisquer sentimentos ternos que você tem para com uma marca de carro em particular são baseados inteiramente na economia de combustível ou no desempenho. Você deve persistir na superação racional [dos seus instintos], toda hora.”
— Joseph Heath, Enlightenment 2.0, 2014. Tradução livre.

“O Twitter, é claro, por causa dos limites que impõe no comprimento da mensagem, é completamente contrário ao debate racional. Ele encoraja o equivalente verbal da briga de tapas. A incrível ‘necessidade de velocidade’ que o Twitter impõe é também catastrófica do ponto de vista da racionalidade. Então, o fato de que jornalistas e comentaristas políticos passam horas todo dia tuitando e lendo tweets não pode ser uma coisa boa. Os blogs têm muito mais potencial (…) [de fazer melhor].”
— Joseph Heath, Enlightenment 2.0, 2014. Tradução livre.

Li o livro citado acima no ano passado e, desde então, tomando outras opiniões, considerei a questão das redes sociais com graus variados de autocrítica e concordância com o diagnóstico negativo de Joseph Heath. É tempo suficiente para uma decisão. Decidi que Heath está certo. E esta semana desativei o Facebook (o que eu tinha feito muitas vezes antes em protesto contra a censura dessa rede) e também Twitter (o que eu nunca tinha feito em dez anos de presença lá). Não importa quanto tempo eu investi em alguma coisa: o tempo não é razão para continuar fazendo quando já concluí que é mais danosa à racionalidade do que uma ferramenta que a promove. Na verdade, dada a finitude da vida, o tempo que investi numa atividade em última análise reprovável é motivo adicional para parar imediatamente.

Certa vez, fui chamado de “divulgador do conhecimento” ou “ativista do conhecimento” (foi há alguns anos, daí a imprecisão) por uma pessoa que não gostava de mim. Pois eu gostei da alcunha, tanto que planejo me tornar justamente isso, se possível. Continuar em redes sociais, que provavelmente são mais danosas que condutivas ao conhecimento ou à racionalidade, seria uma mácula nesse propósito.

Discutamos, então, se é verdade que as redes sociais atrapalham a racionalidade. Para entender isso, precisamos discutir o que é, afinal, a razão. É uma discussão surpreendentemente rara, apesar de muitos declararem publicamente que estão do lado da razão (provavelmente para pavonear virtudes e uma boa imagem independente de realmente fazerem isso). Há páginas com milhões de seguidores alegando existir em prol da racionalidade, que jamais publicaram uma só resposta para a pergunta “o que é razão?”. A resposta, é claro, pode ser variada e vir de diferentes tradições de estudo, o que não significa que não seja una e anti-relativista. Na lógica e na filosofia, usar da razão é formular bons argumentos, evitar falácias, respeitar as premissas nas conclusões, além de usar de clareza em vez de obscuridade, explicação e justificação em vez de mera retórica. As ciências cognitivas adicionaram alguns detalhes, discutidos no primeiro capítulo do livro citado: razão é um processo análogo a um algoritmo cujo processamento é serial em vez de paralelo (distribuído), lento em vez de rápido (e o parâmetro de rapidez aqui são os sistemas rápidos da nossa mente, como o de reconhecimento de faces), depende da memória de curto prazo para organizar um conjunto limitado de diferentes elementos, e, é claro, depende da concentração focada e às vezes incômoda (pois, como é lenta, o trabalho é duro especialmente em problemas complexos), o contrário da qual é a distração hedonista. Vários desses aspectos dependem da consciência, mas a razão também pode usar o processamento difuso e inconsciente para ajudar a resolver problemas — contanto que se tenha dedicado ao problema antes disso a atenção focada e consciente. Defende-se, também, talvez com menos consenso, que a razão é uma atividade melhor feita por mais de uma cabeça, no que ela dependeria da linguagem. A tal ponto que a origem da razão e sua parte consciente é hipotetizada por alguns como uma conversa entre as duas partes de uma “mente bicameral”.

Finalmente, um aspecto importante da razão, mal compreendido tanto por seus defensores quanto pelos detratores, é que os resultados de sua aplicação não têm garantia perfeita de serem verdadeiros: é apenas mais provável que sejam verdadeiros do que se tivessem sido fruto de atividades arracionais ou irracionais. Já os frutos dessas últimas, quando são verdadeiros ou corretos, com frequência o são por acidente, justamente pela sua independência da razão.

As redes sociais atentam contra vários desses aspectos da razão, com exceção possível de seu aspecto social, que é mais controverso. Elas usam de dispositivos projetados para a distração hedonista. Acabo de notar, por exemplo, que eu já havia desligado o bate-papo do Facebook anos atrás, pois mesmo quando estava usando a rede para publicar textos analíticos eu era interrompido por mensagens privadas, além das notificações. Além de a velocidade das redes sociais também ser incompatível com a relativa lentidão da razão, também não deve ser saudável para a memória de curto prazo. A memória de curto prazo mais útil à razão é a capaz de reter as mesmas informações por muito tempo, não a acostumada com dezenas, centenas, milhares de fotos, frases de efeito e jogos de disputa de hierarquia que se vê todos os dias nas redes sociais. Como sabe quem já se sentou para fazer trabalhos analíticos que duram horas, meses ou anos, um bom pensamento arrebatado por uma distração pode equivaler a horas ou dias de trabalho perdido. Não há moda educacional que derrube esse fato insofismável: produzir conhecimento exige foco e memorização.

Não tenho intenção de sugerir aqui que tudo o que fazemos de valor é na mais concentrada das atividades racionais. Mas é inegável que o poder viciante (metafórico ou literal, a depender da pesquisa) das redes sociais toma preciosas horas quando se mergulha nelas. Alguém poderia responder, como é comum nos nossos tempos, que as motivações que aqui apresento para abandonar e recomendar o abandono das redes sociais são insinceras ou incompletas. Insinceras não são, mas é verdade que são incompletas. Toda pessoa é em alguns sentidos uma estranha para si mesma, e faz coisas que escapam à sua própria percepção. Certamente há motivações minhas que têm a ver com como eu me vejo em hierarquias, pois, apesar de ter acumulado supostos milhares de seguidores em cada página ou plataforma, ao menos nas que tinham meu nome minha base de “seguidores” estagnou após a resposta ao Malafaia: assim, com inveja ou rancor ou alguma outra motivação feia para expressar em público, decidi sair. É possível que seja parte do caso, sim. Mas apenas parte. O que eu disse acima sobre a incompatibilidade aparente entre razão e redes sociais se sustenta ao menos em parte independente das minhas outras possíveis motivações. E há algo adicional que posso dizer: os números são ilusões, ao menos no Facebook. São praticamente mentiras. Afinal, é o Facebook que controla o que seus usuários verão em suas “linhas do tempo”, é até mesmo o próprio Facebook que controla quais são as memórias dignas de lembrança de coisas ditas ou feitas anos antes na própria plataforma. O YouTube, do qual eu não saí pois vejo lá potencial de publicar conteúdo audiovisual que eu mesmo respeite, cada vez mais está também transformando em ilusão o botão de “inscrito” e até mesmo o sino de notificações, pois deseja controlar o que é visto por seus usuários mais do que eles próprios ao clicarem nesses botões.

Estou ciente de que pago um preço pela minha decisão: para alguém que deseja atingir um público ao escrever e produzir conteúdo, é praticamente um tiro no pé. Especialmente agora, quando sou ostracizado por denunciar os vieses políticos de outros divulgadores. Mas toda pessoa de princípios que não caiu no completo cinismo está disposta a fazer sacrifícios em nome desses princípios.

Ainda posso mitigar os efeitos das minhas decisões: como fiz no Xibolete, estou adicionando a este blog uma newsletter para que pessoas que gostam ou se interessam pelo que produzo recebam o conteúdo deste blog por email. Às que gostam, peço que também considerem patrocinar este trabalho para que ele seja feito mais e melhor. Obrigado. Agradeço também a todos os que me apoiaram até aqui, nos dez anos deste blog.

P.S.: O vídeo abaixo do Dr. Cal Newport tem argumentos adicionais que complementam este texto.

29th of September

A vingança das intuições Sobre os relativismos


– Você pode alegar que não acredita em padrão de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado.

– Pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas quando vê um animal sendo torturado, sente que há algo de realmente errado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim”, “errado para os brasileiros de século XXI”.

– Pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em verdade é positivista antiquado; mas quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais.