26th of September

De onde vem o autoengano?


Psicanalistas propunham que o autoengano é uma forma de o “ego” proteger a si mesmo. Pois, sendo doloroso reconhecer que se está enganado em alguma crença, o tal “ego” usaria um arsenal de defesas psicológicas (negação, racionalização etc.) para se proteger da dor psicológica de estar errado.

O problema dessa explicação é que ela é só um exercício de classificação — sistematização que somente aponta algumas coisas e bota nelas um nome. Não é uma investigação das origens desse tipo de comportamento. Entender as origens é importante, afinal, o autoengano pode até botar nossa vida em risco, quando diante de doenças e comportamento de risco mentimos para nós mesmos que estamos saudáveis (a maioria das pessoas superestima a própria saúde e aptidão física). Isso gera um enigma para as nossas origens, que estão na evolução biológica. A seleção natural em tese não deveria nos dotar de formas de diminuir ativamente nossas chances de sobrevivência e reprodução.

Mas há um fato sobre nossas origens que ajuda a explicar o autoengano: nossa espécie surgiu não apenas sobrevivendo a intempéries ambientais, mas também sobrevivendo a disputas sociais, nas quais um indivíduo enganar a si mesmo pode ser uma boa estratégia a depender do contexto social. É importante lembrar que estamos falando aqui de crenças que nós realmente temos sobre nós mesmos, com sinceridade, não mentiras. A mentira é muito mais difícil, pois o mentiroso precisa se lembrar de todo o cenário que precisou inventar e manter a aparência de que acredita na falsidade que está emitindo. Mentir é cansativo! O autoengano, que é energeticamente mais barato, volta a falsidade para dentro porque ela nos beneficia no ambiente social. Usando a máscara com sinceridade, nesse contexto nossas chances de sobreviver e reproduzir aumentam. Assim, pensar no autoengano num contexto evolutivo o explica de forma melhor do que a psicanálise jamais sonharia em fazer.

Para fins didáticos e tendo em mente essas explicações, podemos classificar o autoengano nas seguintes estratégias:

– Se fazer de maluco. Uma pessoa perfeitamente racional pararia uma disputa de poder ou luta de acordo com suas reais chances de vencer. Mas um bom lutador de boxe continua alegando que é o mais forte até perder a consciência na lona. Ao sinalizar que acredita em si até as últimas consequências, o blefe sincero de quem se faz de maluco pode dissuadir seu competidor de tentar fazer o mesmo. É, em outras palavras, uma boa estratégia no jogo. O maluco está disposto a fazer qualquer coisa para vencer, mesmo se isso significa um alto custo para si. No jogo do “frango”, em que dois motoristas avançam na contramão um do outro até que o perdedor desvie a direção por medo, ganha o maluco que arrancar o volante e o jogar pela janela.

– O cão leal. É a pessoa que realmente acredita nas coisas mais malucas não porque avaliou evidências ou argumentos, mas porque (e ela própria não sabe disso) acreditar sem verificar é uma sinalização de lealdade a uma tribo. Qualquer semelhança com quem insiste que Lula não sabia de nada, que a delação dos empreiteiros está toda errada, que pedalinhos com os nomes dos netos no sítio em Atibaia são só sinal de hospitalidade do real dono do sítio, etc., não é mera coincidência. Exemplos em outras tribos políticas são facílimos de encontrar.

– O propagandista. “Eu sei que isso é verdade”, diz esse. “Acredite comigo!” Esse tipo de autoengano é bem comum em quem vem às redes sociais não porque quer discutir ou apresentar um ponto de vista de forma clara, mas porque quer demonstrar *CONVICÇÃO* de alguma coisa. “Nossa”, pensam os que acreditam no autoengano do propagandista, “se ele fala com esse nível de confiança, deve saber do que está falando”. Malafaia é muito bom nisso, e eu acredito que ele muitas vezes é sincero. Quando respondi à sua alegação de que genética nada tem a ver com homossexualidade, cinco anos atrás, ele fez uma tréplica cheia de confiança, desfilando falácias de ataque pessoal contra mim. Eu, o biólogo acostumado com as incertezas e com seguir o que as evidências permitem que eu afirme, não podia demonstrar o mesmo nível de autoconfiança que Malafaia. E por isso mesmo não fui tão convincente para alguns quanto ele poderia ser: porque ele realmente acredita que está certo, e fala com convicção.

– O trapaceiro. “Respeito a sua opinião”, diz com convicção alguém que pensa que a tal opinião é falsa ou até imoral. A pessoa realmente acredita que RESPEITA algo que pensa que é errado. O que significa isso, afinal? Logicamente não faz muito sentido. Significa que a pessoa está tentando enganar a si mesma que seus motivos são todos puros, e que se ela discorda (e geralmente não quer fazer trabalho nenhum para mostrar que a certa é ela), ao menos ela “respeita” a opinião abjeta que se recusa a avaliar. Está sendo preguiçosa, tentando trapacear as regras de honestidade e diligência intelectual, mas todas as suas motivações são supostamente cândidas.

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Com ideias do livro “The Elephant in the Brain: Hidden Motives in Everyday Life”, de Kevin Simler e Robin Hanson

5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

1st of June

Suicídio e Liberdade


As liberdades individuais são importantes especialmente no contexto social: de dentro para fora, em como o indivíduo se comporta para com a sociedade, e de fora para dentro, em como a sociedade interfere na vida dele. As preocupações liberais estão em maximizar o que indivíduo pode fazer em interesse próprio e minimizar as interferências sociais sobre ele que são autoritárias.

São nesses níveis que o suicídio pode ser tratado à luz das liberdades. De dentro para fora: as pessoas são livres para tirar a própria vida? De fora para dentro: evitar um suicídio é uma interferência autoritária sobre a liberdade de outrem?

Acho que uma resposta dependerá do quanto a decisão do suicídio pode ser racional. Há exemplos de suicídios assistidos e eutanásia que têm toda aparência de decisão racional: a pessoa decide dar um fim pois não fazê-lo dá em uma morte mais lenta e mais sofrida. Dessa forma, num simples cálculo de consequências, o indivíduo está justificado em tirar a própria vida (tem boas razões para isso).

Seria racional um suicídio feito porque alguém julga que não tem “perspectiva de vida” (não vê sentido na própria vida) nem afetará negativamente outras pessoas, mesmo sem estar terminalmente doente? Parece que a resposta é sim, mas que esse tipo de exemplo seria raríssimo, pois não é tão difícil encontrar uma forma de ter uma vida produtiva e com propósito. Quem tem dois braços e duas pernas pode botar isso à prova ajudando os deficientes.

O que esse último exemplo hipotético sugere é que com frequência as pessoas que dizem que sua vida não vale nada e deve ser eliminada estão enganadas. Neste caso, estão sob alguma influência que explica o seu erro de avaliação, como a depressão. Assim, um bombeiro está plenamente justificado em vigorosamente evitar que pulem de uma janela: a probabilidade de estarem erradas, e, mais importantemente, a probabilidade de estarem ferindo a alguém (diretamente — ex.: familiares — e indiretamente — ex.: contágio social de suicídio), são mais altas que a probabilidade de estarem certas.

Esse raciocínio exige um abandono de todo tipo de relativismo. É incompatível com um relativismo moral (“se ela diz que precisa morrer isso é correto para ela”) e um relativismo epistêmico (“se ela diz que sua vida não vale nada, essa é a verdade dela”). A aceitação ou rejeição racional da decisão de um suicida (fora dos casos de eutanásia de pacientes terminais) depende da possibilidade de julgar se ele está objetivamente certo tanto no campo da ética quanto no campo do conhecimento. Sendo assim, a moda dos relativismos, ensinada hoje nas universidades e em parte da cultura popular, é uma moda muito mais perigosa do que parece à primeira vista.

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P.S.: Esse texto resulta de uma discussão do assunto no Fórum Livres. Não há motivo para preocupação com o autor. A pintura é “A Morte de Chatterton” (1856), de Henry Wallis (1830-1916).

25th of May

Abandonando as redes sociais: um guia incompleto Razões para cuidar do próprio jardim ignorando quantos olhos são postos nele


“Você não pode simplesmente dizer ao seu cérebro ‘Ignore a mulher bonita, ela não vem com o carro’ e esperar que ele obedeça, de forma que, no futuro, pode ficar tranquilo que quaisquer sentimentos ternos que você tem para com uma marca de carro em particular são baseados inteiramente na economia de combustível ou no desempenho. Você deve persistir na superação racional [dos seus instintos], toda hora.”
— Joseph Heath, Enlightenment 2.0, 2014. Tradução livre.

“O Twitter, é claro, por causa dos limites que impõe no comprimento da mensagem, é completamente contrário ao debate racional. Ele encoraja o equivalente verbal da briga de tapas. A incrível ‘necessidade de velocidade’ que o Twitter impõe é também catastrófica do ponto de vista da racionalidade. Então, o fato de que jornalistas e comentaristas políticos passam horas todo dia tuitando e lendo tweets não pode ser uma coisa boa. Os blogs têm muito mais potencial (…) [de fazer melhor].”
— Joseph Heath, Enlightenment 2.0, 2014. Tradução livre.

Li o livro citado acima no ano passado e, desde então, tomando outras opiniões, considerei a questão das redes sociais com graus variados de autocrítica e concordância com o diagnóstico negativo de Joseph Heath. É tempo suficiente para uma decisão. Decidi que Heath está certo. E esta semana desativei o Facebook (o que eu tinha feito muitas vezes antes em protesto contra a censura dessa rede) e também Twitter (o que eu nunca tinha feito em dez anos de presença lá). Não importa quanto tempo eu investi em alguma coisa: o tempo não é razão para continuar fazendo quando já concluí que é mais danosa à racionalidade do que uma ferramenta que a promove. Na verdade, dada a finitude da vida, o tempo que investi numa atividade em última análise reprovável é motivo adicional para parar imediatamente.

Certa vez, fui chamado de “divulgador do conhecimento” ou “ativista do conhecimento” (foi há alguns anos, daí a imprecisão) por uma pessoa que não gostava de mim. Pois eu gostei da alcunha, tanto que planejo me tornar justamente isso, se possível. Continuar em redes sociais, que provavelmente são mais danosas que condutivas ao conhecimento ou à racionalidade, seria uma mácula nesse propósito.

Discutamos, então, se é verdade que as redes sociais atrapalham a racionalidade. Para entender isso, precisamos discutir o que é, afinal, a razão. É uma discussão surpreendentemente rara, apesar de muitos declararem publicamente que estão do lado da razão (provavelmente para pavonear virtudes e uma boa imagem independente de realmente fazerem isso). Há páginas com milhões de seguidores alegando existir em prol da racionalidade, que jamais publicaram uma só resposta para a pergunta “o que é razão?”. A resposta, é claro, pode ser variada e vir de diferentes tradições de estudo, o que não significa que não seja una e anti-relativista. Na lógica e na filosofia, usar da razão é formular bons argumentos, evitar falácias, respeitar as premissas nas conclusões, além de usar de clareza em vez de obscuridade, explicação e justificação em vez de mera retórica. As ciências cognitivas adicionaram alguns detalhes, discutidos no primeiro capítulo do livro citado: razão é um processo análogo a um algoritmo cujo processamento é serial em vez de paralelo (distribuído), lento em vez de rápido (e o parâmetro de rapidez aqui são os sistemas rápidos da nossa mente, como o de reconhecimento de faces), depende da memória de curto prazo para organizar um conjunto limitado de diferentes elementos, e, é claro, depende da concentração focada e às vezes incômoda (pois, como é lenta, o trabalho é duro especialmente em problemas complexos), o contrário da qual é a distração hedonista. Vários desses aspectos dependem da consciência, mas a razão também pode usar o processamento difuso e inconsciente para ajudar a resolver problemas — contanto que se tenha dedicado ao problema antes disso a atenção focada e consciente. Defende-se, também, talvez com menos consenso, que a razão é uma atividade melhor feita por mais de uma cabeça, no que ela dependeria da linguagem. A tal ponto que a origem da razão e sua parte consciente é hipotetizada por alguns como uma conversa entre as duas partes de uma “mente bicameral”.

Finalmente, um aspecto importante da razão, mal compreendido tanto por seus defensores quanto pelos detratores, é que os resultados de sua aplicação não têm garantia perfeita de serem verdadeiros: é apenas mais provável que sejam verdadeiros do que se tivessem sido fruto de atividades arracionais ou irracionais. Já os frutos dessas últimas, quando são verdadeiros ou corretos, com frequência o são por acidente, justamente pela sua independência da razão.

As redes sociais atentam contra vários desses aspectos da razão, com exceção possível de seu aspecto social, que é mais controverso. Elas usam de dispositivos projetados para a distração hedonista. Acabo de notar, por exemplo, que eu já havia desligado o bate-papo do Facebook anos atrás, pois mesmo quando estava usando a rede para publicar textos analíticos eu era interrompido por mensagens privadas, além das notificações. Além de a velocidade das redes sociais também ser incompatível com a relativa lentidão da razão, também não deve ser saudável para a memória de curto prazo. A memória de curto prazo mais útil à razão é a capaz de reter as mesmas informações por muito tempo, não a acostumada com dezenas, centenas, milhares de fotos, frases de efeito e jogos de disputa de hierarquia que se vê todos os dias nas redes sociais. Como sabe quem já se sentou para fazer trabalhos analíticos que duram horas, meses ou anos, um bom pensamento arrebatado por uma distração pode equivaler a horas ou dias de trabalho perdido. Não há moda educacional que derrube esse fato insofismável: produzir conhecimento exige foco e memorização.

Não tenho intenção de sugerir aqui que tudo o que fazemos de valor é na mais concentrada das atividades racionais. Mas é inegável que o poder viciante (metafórico ou literal, a depender da pesquisa) das redes sociais toma preciosas horas quando se mergulha nelas. Alguém poderia responder, como é comum nos nossos tempos, que as motivações que aqui apresento para abandonar e recomendar o abandono das redes sociais são insinceras ou incompletas. Insinceras não são, mas é verdade que são incompletas. Toda pessoa é em alguns sentidos uma estranha para si mesma, e faz coisas que escapam à sua própria percepção. Certamente há motivações minhas que têm a ver com como eu me vejo em hierarquias, pois, apesar de ter acumulado supostos milhares de seguidores em cada página ou plataforma, ao menos nas que tinham meu nome minha base de “seguidores” estagnou após a resposta ao Malafaia: assim, com inveja ou rancor ou alguma outra motivação feia para expressar em público, decidi sair. É possível que seja parte do caso, sim. Mas apenas parte. O que eu disse acima sobre a incompatibilidade aparente entre razão e redes sociais se sustenta ao menos em parte independente das minhas outras possíveis motivações. E há algo adicional que posso dizer: os números são ilusões, ao menos no Facebook. São praticamente mentiras. Afinal, é o Facebook que controla o que seus usuários verão em suas “linhas do tempo”, é até mesmo o próprio Facebook que controla quais são as memórias dignas de lembrança de coisas ditas ou feitas anos antes na própria plataforma. O YouTube, do qual eu não saí pois vejo lá potencial de publicar conteúdo audiovisual que eu mesmo respeite, cada vez mais está também transformando em ilusão o botão de “inscrito” e até mesmo o sino de notificações, pois deseja controlar o que é visto por seus usuários mais do que eles próprios ao clicarem nesses botões.

Estou ciente de que pago um preço pela minha decisão: para alguém que deseja atingir um público ao escrever e produzir conteúdo, é praticamente um tiro no pé. Especialmente agora, quando sou ostracizado por denunciar os vieses políticos de outros divulgadores. Mas toda pessoa de princípios que não caiu no completo cinismo está disposta a fazer sacrifícios em nome desses princípios.

Ainda posso mitigar os efeitos das minhas decisões: como fiz no Xibolete, estou adicionando a este blog uma newsletter para que pessoas que gostam ou se interessam pelo que produzo recebam o conteúdo deste blog por email. Às que gostam, peço que também considerem patrocinar este trabalho para que ele seja feito mais e melhor. Obrigado. Agradeço também a todos os que me apoiaram até aqui, nos dez anos deste blog.

P.S.: O vídeo abaixo do Dr. Cal Newport tem argumentos adicionais que complementam este texto.

29th of September

A vingança das intuições Sobre os relativismos


– Você pode alegar que não acredita em padrão de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado.

– Pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas quando vê um animal sendo torturado, sente que há algo de realmente errado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim”, “errado para os brasileiros de século XXI”.

– Pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em verdade é positivista antiquado; mas quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais.

10th of August

Saber antecede fazer Sobre a tendência preocupante de passar o carro na frente dos bois em planos de "mudar o mundo"


Para mudar o mundo para melhor, primeiro é necessário saber como ele é. Por isso, saber antecede fazer, em importância e em sequência razoável. Quem quer forçar as coisas a mudarem em certa direção mas não fez o trabalho de explicar como elas estão e por que devem ir na direção desejada, portanto, está metendo o carro na frente dos bois. Devemos ficar desconfiados de qualquer ativista que não parece ter muita curiosidade pelo assunto do qual trata.

Se alguém quer defender direitos LGBT mas afirma, apesar das evidências coletadas e publicadas na genética, que ser LGBT é puramente cultural e nada tem a ver com genes, esta pessoa é não apenas mal-informada: sua preocupação com a justiça é pouco sincera. Quem se preocupa com justiça para LGBT se preocupa com justiça em geral, e quem se preocupa com justiça em geral tem curiosidade pelos assuntos que tocam a (in)justiça.

Quem quer que pessoas autistas tenham boas vidas arregaça as mangas e busca saber por que elas existem, em vez de cair na primeira teoria da conspiração sobre vacinas serem a causa.

Quem quer que homens e mulheres sejam tratados de forma justa, como seres humanos dignos do mesmo acesso a oportunidades e tratamento respeitoso, não cai na teoria da conspiração de que essas categorias existem apenas porque uma é inerentemente malvada e quer oprimir a outra, inerentemente vítima, como se fossem castas indianas.

E assim por diante. Fervor moral divorciado de curiosidade e interesse pela verdade, mesmo se sincero, é uma receita para o desastre, não uma força para o bem.

9th of March

Pior jogada LGBT: tentar obrigar confeiteiros homofóbicos a fazer bolo de casamento gay Casal de confeiteiros do Oregon alega liberdade religiosa para defender a recusa de fazer bolo de casamento para casal de lésbicas


Melissa e Aaron Klein, donos da confeitaria “Sweet Cakes” em Oregon, foram condenados em primeira instância a pagar 135 mil dólares por se recusarem a fazer o bolo de casamento das lésbicas Rachel e Laurel Bowman-Cryer. O casal Klein alega objeção de consciência por crença religiosa, recorreu da decisão, e hoje foi ouvido por uma corte de apelações. Eles dizem também que a batalha judicial os levou à falência, e que tiveram de fechar a confeitaria devido a ameaças. Enquanto isso, o casal Bowman-Cryer alega que o caso dificultou sua vida e a criação de suas duas filhas adotivas com deficiência.

A defesa dos Klein alega que a manufatura do bolo é arte, e, portanto, também expressão, sendo protegida como uma liberdade inalienável pela primeira emenda da constituição americana.

O efeito dessa alegação é meio divertido. Ao contrário dos conservadores, o grupo político mais afeito a defender os direitos LGBT (ou a querer ser visto como se defendesse mais que os outros, fazendo muito barulho no processo) costuma também defender definições extremamente amplas de arte, em que qualquer coisa pode ser arte, uma vez eleita pela vontade de um artista e aprovada pela elite artística, como no exemplo histórico do mictório escolhido por Marcel Duchamp (e apelidado de “A Fonte”). Nos últimos anos tenho visto um crescimento na incidência de “arte” contemporânea e “expressiva” no Brasil, do tipo que parece feita sob encomenda para ofender a vovó: numa peça de teatro em São Paulo, dois atores injetaram vinho em seus ânus e expeliram no palco. Num evento sobre gênero numa universidade federal, uma pessoa transexual e obesa, nua, se cobriu de óleo de dendê (a “performance” se chama “gordura trans”), e uma moça, aparentemente tentando representar o status da mulher na sociedade brasileira, pôs chifres na cabeça e uma sela nas costas e engatinhou, nua, cercada de espectadores, atuando como uma vaca. Mais recentemente, neste ano, outra moça se cobriu de tinta preta e se prostrou no chão para seu parceiro de expressão “artística” urinar em seu corpo. Não esqueçamos uma “peça” notória chamada “Macaquinhos”, em que um grupo de atores faziam uma ciranda nus, cada um com um dedo no ânus do próximo. Numa entrevista, os artistas responsáveis pela peça explicaram que sua arte representa o domínio do hemisfério norte sobre o sul. Se cada uma dessas coisas é “arte” e por isso é protegida como liberdade de expressão (concordo com a proteção, mas não com o diagnóstico), por que assar – ou recusar-se a assar – um bolo de casamento não poderia ser a mesma coisa? Está abolida a livre expressão que irrite ou chateie pessoas LGBT? Somente o que irrita e chateia a vovó (e entendia a juventude cansada de ver pornografia) pode ser arte?

Se a defesa está certa, então a decisão de primeira instância foi injusta e inconstitucional, pois o Estado americano não pode compelir a expressão dos cidadãos, ou seja, forçá-los a expressar o que não necessariamente está em conformidade com suas crenças. Um argumento melhor que a alegação de que o bolo era arte é que fazer um bolo de casamento é participar, mesmo que indiretamente, de uma cerimônia de casamento, e no caso sua crença cristã (fundamentalista?) não concorda que duas mulheres possam se casar e os confeiteiros não podem ser obrigados a participar da cerimônia. O caso poderá terminar na Suprema Corte dos Estados Unidos. Até lá, com prováveis novas nomeações de juízes conservadores por parte de Donald Trump, é possível que a decisão de primeira instância seja revertida.

A discussão na corte sobre o apelo do casal Klein não pôde ser um debate completo, pois é uma discussão que precisa seguir as leis do estado de Oregon, que proíbem a discriminação pela negação de serviço com base em categorias protegidas (raça, orientação sexual, gênero, religião). Então, ao ouvir a discussão no tribunal, algo que está ausente é o questionamento de que é mesmo justo que exista a lei anti-discriminação, que impede pessoas preconceituosas de agir de acordo com seus preconceitos em seus próprios negócios.

Creio que recusar-se a atender clientes gays num negócio de bolos de casamento é, sim, discriminação injusta nascida no preconceito, e que crenças religiosas são uma desculpa frágil para essa atitude. Na verdade, crenças religiosas são quase sempre uma base fraca para justificar qualquer atitude, de guardar o sábado à mutilação genital. Mas essas crenças preconceituosas e essa atitude discriminatória em torno do caso deveriam estar contempladas pelas liberdades legais. Nem tudo o que é imoral deve ser ilegal, e eu não penso que a imoralidade de ser um empreendedor confeiteiro preconceituoso com seus clientes seja algo que justifique conjurar o poder do Estado para proibi-lo de sê-lo. Uma sociedade saudável para com as minorias é aquela em que as ideias preconceituosas contra elas encontram resistência suficiente para haver outros confeiteiros que façam seu bolo de casamento. É aquela em que os casais gays podem simplesmente elevar a concorrência não preconceituosa, sendo clientes e propagandistas, em vez de se engajar em batalhas judiciais para fazer os confeiteiros preconceituosos pararem de agir como preconceituosos. Se a intenção é diminuir ou combater o preconceito, não é o efeito esperado dessa batalha. Na verdade, o que se espera nesse tipo de batalha é a escalada do despeito, em que ninguém reexamina o que acredita nem se o que está fazendo em nome dessas crenças é correto, focando-se, em vez disso, em sua liberdade de poder acreditar em qualquer porcaria, da homofobia ao igualmente tolo autoritarismo contra a expressão da homofobia.

Interferir injustamente na liberdade de religiosos preconceituosos é uma má estratégia para qualquer defensor dos direitos LGBT. Não é coerente defender direitos pisando em um dos direitos mais importantes de todos, que é a liberdade de expressão. E se assar um bolo não for expressão, estamos falando de liberdade de escolher clientes, mesmo com base em crenças torpes como a homofobia, o racismo ou a misoginia. Numa sociedade em que o preconceito genuinamente está perdendo, donos de negócios preconceituosos lucram pouco ou vão à falência.

 

17th of February

Pior que “fake news” é “fake knowledge”


Quem já consumiu muita notícia deve ter tido uma sensação que pode ser descrita como ‘ressaca informacional moral’. É aquela sensação de que você está adquirindo um monte de informações que em última análise em pouco ou nada afetarão a sua vida, além da rara ocasião em que te ajudam a ter assuntos para discutir em mesa de bar. E daí se Donald Trump foi pego desprevenido fazendo comentários desrespeitosos sobre mulheres? Só dá para imaginar que isso terá algum impacto na sua vida se você passar um tempo especulando sobre causalidades indiretas, do tipo improvável. Até notícias com aparência de extrema importância, como a escolha de um ministro do Supremo Tribunal Federal que tem conflito de interesses com a operação Lava Jato, dificilmente têm claras linhas causais que afetarão a sua vida em particular, mais que as vidas dos outros 200 milhões de brasileiros. E não é só isso: mesmo se afetasse, o seu poder de alterar alguma coisa é mínimo, quase nulo. E é aí que reverbera o conselho estóico de não gastar energia mental se preocupando com o que você não pode mudar. A ressaca informacional também é moral porque você se vê desperdiçando seu tempo aprendendo fatos inúteis ou inalcançáveis em vez de aprender o que pode melhorar a sua vida ou, no mínimo, ao menos te entreter.

Há uma natureza passageira, quase desesperadora, no ritmo das notícias. Vêm e vão. As pessoas se preocupam, protestam, depois esquecem. Alguns políticos até aprenderam que tudo o que têm que fazer para escapar da ira da opinião pública é esperar pelo próximo assunto que capturará a atenção coletiva. Esse ritmo não existe na produção de conhecimento. Talvez por isso é tão difícil achar seção de notícias sobre ciências que satisfaça a cientistas: enquanto os jornais querem fatos noticiosos, os cientistas querem fatos perenes. Por isso quase toda manchete dos jornais alegando que determinado fóssil revolucionou a teoria da evolução é falsa.

Se há um lado bom na efemeridade das notícias, é que, tanto quanto as notícias verdadeiras, as falsas acabam tendo, também, um impacto limitado. Não é o caso quando a falsidade está não nos fatos noticiosos, mas nos fatos aceitos como perenes. Aqui vai uma pequena lista de “fake knowledge” (conhecimento falso) cujo impacto é bem pior que qualquer “fake news” (notícia falsa):

  • Pareceres de “especialistas em problemas sociais” que fazem “sociologia normativa“, livre de dados. Esses especialistas estão virando figura frequente na TV. Se houve um problema específico com um grupo social específico, a resposta dogmática é sempre discriminação injusta e preconceito. Como eles sabem disso? Não pergunte. Se você perguntar, você aprova a discriminação injusta e o preconceito.
  • A aceitação comum da astrologia como, se não uma ciência do comportamento humano, ao menos um entretenimento inocente. Não importa que já tenha sido demonstrado que, em condições controladas, mapas astrais e horóscopos erram feio. Duvidar da astrologia deve ser coisa de leonino com ascendente em escorpião. A astrologia está até nas TVs do metrô de São Paulo. Não ocorre a ninguém que, se o metrô está investindo em astrologia, está usando um recurso limitado que poderia ser aplicado em, por exemplo, alguma produção artística local ou em algum programa informativo?
  • Conselhos de psicólogos e terapeutas que se baseiam em teorias obsoletas ou especulações sem base. Não importa o quanto se mostre os problemas teóricos da psicanálise, ela continua sendo tratada como um conhecimento sério nas graduações em psicologia. Outras áreas alternativas e agressivamente contrárias à psicanálise, como o behaviorismo, não se saem muito melhor em base teórica. Os behavioristas, ao menos os radicais, alegam que termos como “vontade”, “escolha” e “querer” são “mentalismos”, ou seja, ilusões coletivas de eras pré-científicas, que um dia serão substituídas todas por explicações em termos de comportamentos. “Penso, logo existo”? Que nada, duvide da experiência de realidade aparente mais imediata, substitua por “me comporto, logo existo”. Mas os behavioristas com suas bases controversas, embora com aplicação prática de maior sucesso que a psicanálise, nem se comparam aos vendedores de best-sellers de especulações psicológicas, como Augusto Cury e sua “teoria (sic) da inteligência multifocal” jamais publicada em periódicos revistos por pares.
  • Modas populares sobre tratamentos de saúde baseadas em apelos a autoridades e outras falácias, bem distantes de qualquer avaliação das evidências. Aqui há vários exemplos, dos defensores da fosfoetanolamina (desastrosamente apelidada de “pílula do câncer” pela imprensa) como “cura do câncer” aos defensores da homeopatia, que apesar de bater recordes em contradizer um número enorme de ciências estabelecidas – física, química, biologia – é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina, não por acaso desde a época da Ditadura Militar. Essas modas populares são praticamente inevitáveis, dado o analfabetismo da população sobre como funciona a descoberta de novos tratamentos e qual é a cara da evidência de eficácia. Essas modas sempre surgem acompanhadas de anticorpos: se alguém duvida que uma nova coisa é finalmente a cura milagrosa, é porque está sob influência de alguma conspiração da indústria farmacêutica.
  • A ideia de que não existem transtornos psiquiátricos, só “tipos diferentes de ser humano”, e que a psiquiatria só classifica certos comportamentos ou características mentais como transtornos porque, adivinhe só, tem interesse em lucrar com a indústria farmacêutica. Há evidência circunstancial de que nos EUA, por exemplo, há um diagnóstico excessivo de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) entre crianças, talvez motivado, sim, por interesses econômicos. Mas, para azar dos conspiracionistas, a genética do comportamento, que não sofre nenhuma crise de replicação de resultados (diferente de boa parte da psicologia feita com mais rigor), encontrou consistentemente que o TDAH é uma das características comportamentais (ou conjunto delas) com a maior herdabilidade já encontrada entre humanos, acima de 70%. Esse valor indica uma participação majoritária dos genes na determinação do transtorno. O problema do diagnóstico excessivo, ou na verdade medicalização excessiva, é que ignora que crianças frequentemente têm fenótipos psiquiátricos que se resolvem com o tempo. Um exemplo disso é a disforia (a sensação de se estar no corpo de sexo errado), que se resolve na maioria das crianças que a manifestam sem necessidade de transição entre gêneros.
  • Especulação. Talvez não é necessário dizer, mas o digamos por cautela: especulação não é conhecimento. Se a Scientific American (uma boa revista) especula que nos próximos 15 anos teremos toda a tecnologia necessária para colonizar Marte, não significa que sabemos disso. Bons divulgadores como Carl Sagan deixam claro quando estão divulgando o que está justificado suficientemente por evidências, e quando estão especulando. Com frequência, essa distinção importante é esquecida por outros.
15th of January

Algumas idéias são tão absurdas que somente intelectuais acreditariam nelas


Exemplo: “o pessoal é político” e “tudo é político”.

Há vários comportamentos nossos que não parecem políticos em nenhum sentido. Nós investigamos coisas, de crimes a sequências de DNA. Investigação não parece política. Inventamos receitas, praticamos esportes, criamos e consumimos arte, escrevemos e lemos sobre história, buscamos parceiros românticos. Nada disso parece necessariamente político.

Cada uma dessas coisas pode ser *politizada*, e o verbo “politizar” sugere que as transformamos em política quando originalmente não o eram.

Talvez é isso o que se quer com a afirmação de que tudo é político: politizar coisas porque quem afirma isso está obcecado com política – e para quem só pensa em martelo, tudo é prego. Assim, quem tem pouco interesse em investigar, cozinhar, assistir a jogos, em arte pela arte em vez de “arte de protesto”, história e romance pode tornar essas coisas interessantes para si, politizando-as.

Mas isso tem um preço. Quando se investiga algo por interesse político, frequentemente a politização atrapalha na isenção da investigação. Quando politizam seu time de futebol, querem frequentemente o voto da torcida, não necessariamente vê-lo ganhando. Quando toda arte que se faz é para “lacrar” na mensagem ativista ou dar uma lição nas feministas, quem perde é a arte, pela limitação de tema.

Quem perde com essa história absurda de que tudo é política somos todos nós, que quando adotamos a idéia passamos a valorizar menos outras coisas pelo seu valor intrínseco e mais pela sua utilidade política.

Felizmente, é mesmo absurdo. As afirmações acima são tão inteligíveis quanto “o pessoal é científico” ou “tudo é culinária”. Claro, apesar de ser absurdo está muito popular. Mas não esqueçamos que já foi popular na comunidade médica européia que para salvar uma pessoa de afogamento o melhor método é soprar fumaça em seu ânus.