9th of September

Sobre homofobia e soltar pum em elevador


Flatulências em público podem ser consideradas pequenos delitos éticos. Porque incomodam as pessoas ao redor, causando-lhes mal estar olfativo.
Se Pedrão peida no elevador, é justo que as pessoas ao redor exprimam descontentamento. Pedrão deve concluir que é uma verdade moral que insultar os narizes alheios com os vapores de suas entranhas é errado. Não é errado no mesmo grau que é errado torturar e matar, mas é errado.
Imaginem que Dona Astrogilda, por sua vez, é uma idosa de 95 anos que sofreu um AVC e está acamada há meses. O AVC causou a perda do controle que ela tinha sobre as flatulências, então ela solta puns tão logo são produzidos por sua flora intestinal, mesmo que o quarto esteja cheio com todos os seus netos e bisnetos.
A pequena imoralidade de peidar pode ser atribuída à Astrogilda? Não. Porque ela não pode fazer diferente, e se não pode, então não deve. Não se pode esperar dever ético de uma ação sobre a qual ela não tem poder voluntário.
Esse pequeno exemplo malcheiroso é para ilustrar a tese de Kant de que “deve implica pode”. É uma tese simples e poderosa.
Se um(a) homossexual não pode evitar ser homossexual, então não interessa o que diz a sua respeitável teologia: ele(a) não deve deixar de ser homossexual, porque ele(a) não pode – não consegue, não é capaz, é impraticável. Se deixar de fazer o que sua libido o(a) impele a fazer, sofrerá. Então incitá-lo(a) a deixar de fazer é errado, e mais errado que peidar em elevador.
1st of August

Refutação preemptiva às bobagens que Silas Malafaia dirá na Globo hoje


Hoje o fiscal anal geral da República, Silas Malafaia, estará no programa de Pedro Bial na Sonegadora de Impostos, digo, na Rede Globo.

Eis aqui uma refutação preemptiva às falácias do pastor, se ele abrir a boca para falar da natureza da homossexualidade:

1 – Francis Collins, que ocupou cargo burocrático do sequenciamento do rascunho do genoma humano por parte do governo dos EUA, cientista cristão e um bom cientista, jamais negou as bases genéticas da orientação sexual em humanos. Isso é mentira do Malafaia. Eis o que Francis Collins de fato disse:

“Uma área de particular forte interesse público é a base genética da homossexualidade. As evidências de estudos com gêmeos de fato apoia a conclusão de que fatores herdáveis têm um papel na homossexualidade masculina.”

2 – Mayana Zatz, geneticista respeitada brasileira, também não negou as bases genéticas da orientação sexual. Mentira do Malafaia. Marcos Eberlin, químico da Unicamp que gasta seu tempo livre atacando a teoria da evolução aceita unanimemente por aqueles que, diferente dele, pesquisam em biologia, genética e genômica, não é um geneticista. Em todo lugar que Malafaia vai ele repete que o criacionista é geneticista, e isso é mais uma mentira.

3 – Malafaia usa apenas uma fonte, o livro de um tal John S. H. Tay. Como Malafaia usa este como autoridade e mal toca em qual argumento ele usa para negar as evidências de base genética na orientação sexual, basta contar o número de cientistas e universidades que o desmentem nas referências que citei no meu vídeo. http://youtu.be/3wx3fdnOEos

Malafaia é tão ardiloso que ele indica esse livro porque a tradução é editada pela igreja dele, e ele quer aumentar seus lucros vendendo o livro.

Na conclusão do livro, Tay alega: “as evidências apontam a eficácia das terapias de reorientação [sexual]”, ou seja, cura gay. Malafaia usa como referência em genética um livro que alega que é possível fazer a tal da cura gay. 

Enquanto isso, Robert L. Spitzer, considerado por alguns como o pai da psiquiatria moderna, pediu desculpas por ter alegado que a cura gay era possível e ter feito estudos tendenciosos contendo esta alegação. http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/05/20/famoso-psiquiatra-pede-desculpas-por-estudo-sobre-cura-para-gays.htm

4 – A tese do Malafaia de que direitos dos LGBT têm que ser submetidos a plesbiscito é absurda e fascista. Desafio-o a citar um só jurista que defenda uma excrescência dessas. Se maiorias pudessem decidir sobre os direitos das minorias, linchamentos seriam legais, e a escravidão dificilmente teria sido abolida. Malafaia quer que a maioria decida sobre os direitos desta minoria porque ele espera que a maioria compartilhe de seu preconceito e de seu ódio contra esta minoria.

5 – Para demais bobagens que ele dirá sobre Estado laico, favor ler esta nota (clique no título):  Brasil não pode ser laico por causa de “Deus seja louvado” no dinheiro e “sob a proteção de Deus” na Constituição?

Para terminar, só quero acrescentar uma coisa: a emissora tem responsabilidade sobre este convite. Convidar o Malafaia para falar de gays não é diferente de convidar a Ku Klux Klan para falar de negros. Até quando a mídia vai dar espaço para preconceituosos e propagadores de discurso de ódio?

23rd of July

Resposta à cartilha obscurantista da Igreja Católica para a Jornada Mundial da Juventude


Entidades ligadas ao Vaticano distribuíram milhares de cópias de um “Manual de Bioética para Jovens” na ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil. Achei curioso o nome, dado que bioética é uma área séria de pesquisa filosófica, completamente secular. A seguir, comento alguns trechos do manual selecionados pela Folha de S. Paulo.

1. “Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe. A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver”.

A Universidade de Cambridge, Reino Unido, já divulgou estudo mostrando que não há qualquer diferença em competência sócio-psicológica entre crianças criadas por casais tradicionais e crianças criadas por casais do mesmo sexo. A realidade é esta, e a “realidade” do “realismo” da Igreja é uma invenção ideológica sem qualquer âncora em fatos. Fonte: http://www.cam.ac.uk/research/news/ive-got-two-dads-and-they-adopted-me

2. Um menino pelado olha para o próprio pênis e questiona: “Não sou homem? Eu? Então o que é isto?”.

Existem meninas que nascem com pênis. Isso é um fato reconhecido por publicações médicas recentes. Vamos falar um pouco da realidade do desenvolvimento embrionário. Até os dois primeiros meses de gestação, desenvolve-se a genitália. Mas só da metade da gestação adiante desenvolvem-se os circuitos cerebrais associados à identidade de gênero. O desenvolvimento da genitália de qualquer organismo com genoma humano, independentemente de haver cromossomo Y ou não, seguirá para o surgimento da vagina na ausência de hormônios masculinizantes.

Existem pessoas XY que se desenvolvem com insensibilidade a androgênios – são mulheres com vagina, em sua maioria heterossexuais. Isso fica difícil de conciliar com o dogma de que Deus criou primeiro o homem e depois modificou-o em mulher (como acreditava Tomás de Aquino, notório misógino que defendia que mulheres eram formas degeneradas de homem), quando nos detalhes genéticos do desenvolvimento embrionário são estruturas mais tipicamente femininas que servem como substrato para o desenvolvimento de estruturas mais tipicamente masculinas, quando hormônios e fatores de transcrição acionam cascatas bioquímicas de desenvolvimento.

Como existe uma independência temporal entre desenvolvimento do sexo biológico genital e desenvolvimento de estruturas associadas a diferentes gêneros no cérebro, é natural, possível, e sempre acontecerá numa minoria da humanidade que o sexo biológico se desenvolva de uma forma e o “sexo cerebral” se desenvolva de outra, de forma que a também importante contribuição do ambiente cultural atuará sobre cérebros já mais propensos a aceitar uma categoria ou outra. Casos de pessoas transgênero na pré-infância não são desconhecidos, inclusive em famílias cristãs, que só aumentam o sofrimento da família e de seus filhos transexuais ao tentar mudar a identidade de gênero que começou a se formar já no útero.

Fonte: Ai-Min Bao (Ministério da Saúde da China) & Dick F Swaab ( Instituto Holandês de Neurociência e ao Instituto da Real Academia Holandesa de Artes e Ciências). 2011. Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders. Frontiers in Neuroendocrinology 32(2): 214–226.

A não-aceitação preconceituosa de pessoas transgênero (ou transexuais), diante dos fatos acima, é nada mais nada menos que um preconceito, pois, ainda que alguém acredite que seja doentio ou imoral ser trans (posição que carece de argumentos), não pode culpar trans por sê-lo e muito menos esperar que consigam mudar sua identidade sexual ou de gênero. A Igreja Católica Apostólica Romana é transfóbica em sua cartilha.

O mesmo pode ser dito quanto à orientação sexual e a condição de qualquer pessoa como heterossexual, bissexual ou homossexual. Quem apresenta a orientação sexual majoritária e aprovada pela Igreja precisa no mínimo examinar-se honestamente e estabelecer quando foi que escolheu se sentir atraído por um sexo/gênero diferente do seu. E a resposta honesta é que não escolheu, e portanto não tem qualquer elemento evidencial para alegar, como faz o pastor fundamentalista Silas Malafaia, que homossexuais escolhem ser homossexuais. Poucos meses atrás a Sociedade Brasileira de Genética desmentiu essas alegações do pastor em nota oficial ( http://sbg.org.br/2013/03/manifesto-da-sociedade-brasileira-de-genetica-sobre-bases-geneticas-da-orientacao-sexual/ ).

Felizmente, os católicos que são contra os direitos de adoção dos casais do mesmo sexo, ou contra seu casamento civil sob os auspícios de um país laico, já são minoria, como publicado pela Folha de S. Paulo. Isso atesta que a Santa Sé continua mais conservadora que seus próprios fiéis, por isso produz cartilhas como esta tentando trazê-los para posições ultrapassadas e que só aumentam o sofrimento no mundo.

3. “Recusar a adoção aos homossexuais não representaria homofobia? Não, porque a questão é outra. Ter um filho não é um direito! O filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais. Embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reivindicação dos lobbies homossexuais não é legítima”.”

Sim, recusar um direito dos casais do mesmo sexo é um preconceito, e o nome é homofobia. Sim, a Igreja está defendendo uma posição homofóbica, e trocar o nome do preconceito ou tentar se distanciar do nome que ele tem não apaga o fato de que o Vaticano, representando pela CNBB, mandou um advogado ao STF, no julgamento que reconheceu a união estável homoafetiva, para tentar barrar os direitos desses casais e impedi-los de serem reconhecidos como família. Tudo isso numa interferência explícita e inconveniente numa estrutura de poder secular que se declara como tal, laica, a qual a Igreja está usando neste momento para pagar com dinheiro público brasileiro por uma visita que de “diplomática” e “visita de chefe de Estado” não tem absolutamente nada. O nome que se dá a subverter a laicidade Constitucional do Brasil para proveito próprio, mantendo privilégios e falta de igualdade entre as crenças dos contribuintes brasileiros, é tráfico de influência, e os governantes que permitiram isso são igualmente culpados.

E sim, ter um filho é um direito, e não, como a Igreja acredita, um dever. Crença que ela faz questão de impor nos úteros de todas as mulheres brasileiras, que são impedidas de decidir sobre suas próprias gestações por causa de outros tráficos de influência religiosa mais antigos que criminalizaram o aborto. Isso porque a própria história da Igreja mostra um notável dissenso sobre a questão, com alguns teólogos permitindo o aborto até certa fase do desenvolvimento, e outros decidindo dogmaticamente e magicamente que a união dos gametas é a origem do indivíduo. O fato da Bíblia ter sido escrita num período histórico em que ninguém sabia o que era ovócito nem espermatozoide não impede o clero de se intrometer impertinentemente nos direitos civis brasileiros, de querer palestrar sobre assuntos que são da competência de médicos e profissionais das ciências biológicas e ciências humanas. E por falar em médicos, o Conselho Federal de Medicina já deu a correta opinião de que o aborto deve ser permitido até a décima-segunda semana (período seguro anterior ao desenvolvimento do cérebro, o mesmo órgão cuja morte dá o direito às famílias para desligar os aparelhos e doar os órgãos de um indivíduo), pela simples razão de que a criminalização ideologicamente patrocinada pela Igreja Católica é assassina e faz diversas vítimas anualmente neste país. Vítimas essas que só tiveram o azar de ter se desenvolvido com a identidade de gênero e sexo biológico femininos, que a Igreja rejeita de seu quadro eclesiástico e com os quais tem uma longa história de desprezo, apesar da simbologia de Maria.

Já está ficando para o passado os tempos em que a Igreja Católica percolava pela cultura e pelo poder brasileiros, infelizmente usando-os nem sempre de forma sábia. Os católicos são em sua maioria mais progressistas e respeitadores dos direitos de seus concidadãos que a instituição bilionária à qual se afiliam e com a qual frequentemente discordam, bastando usar o exemplo do uso da camisinha para atestar isso.

Por falar em camisinha, foi notório que a primeira desistência de papado em quase 600 anos aconteceu neste momento, e foi feita pelo mesmo ex-papa que passou por cima do conhecimento científico alegando que a camisinha pioraria a incidência da AIDS na África. Temos nesta cartilha aos jovens brasileiros mais um exemplo de palpite eclesiástico errado no território da ciência. Além de termos, é claro, justificativas as mais absurdas para sorver mais de 100 milhões do erário público para um líder religioso que não representa todas as crenças no Brasil.

O que me pergunto é onde foi parar a ideia de dar “a César o que é de César”. Temos diversos césares se escondendo com batinas.

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Eli Vieira
biólogo geneticista,
ex-presidente da LiHS,
feliz em compartilhar um país com quem acredita em poder público laico em que todos são bem-vindos e ninguém é privilegiado.

2nd of July

Marco Feliciano reclama que é vítima da homofobia. Ele está, em parte, correto.


Marco Feliciano disse que se ele fosse gay estaria sendo vítima de homofobia, com as piadinhas sobre sua chapinha, sua postura, suas sobrancelhas feitas, etc. Estou aqui para defender que ele está, em parte, correto.
Antes de explicar minha posição, alguns esclarecimentos. Não há necessidade de uma pessoa ser gay para ser alvo de homofobia. Há casos emblemáticos disso, como o pai que teve orelha decepada por uma gangue por abraçar o filho, irmãos que foram assassinados por expressar amor fraterno em público, etc. (Favor lembrar que homofobia não se manifesta sempre de forma violenta. Homofobia se manifesta principalmente em pequenas posturas e discursos, e são esses que alimentam o extremismo violento.) A afirmação do Feliciano sobre a necessidade de ser gay para ser alvo da homofobia é só mais uma das amostras do tamanho de sua ignorância e inadequação ao cargo que ele ocupa, na comatosa Comissão de Direitos Humanos e Minorias, apenas por birra.
Por que Marco Feliciano está correto, ao menos em parte? Porque um alvo do ativismo LGBT é a discriminação baseada nos assim chamados “trejeitos”, que seriam supostamente uma indicação da homossexualidade em um homem. Se o Marco Feliciano apresenta alguns dos trejeitos supostamente diagnósticos para a homossexualidade, apontá-los com a intenção de depreciá-lo é, sim, homofobia. Mas na verdade é mais que isso. Intimamente ligado à homofobia está o preconceito de que homens devem se comportar de certa forma e mulheres devem se comportar de outra, ou seja, papéis culturais de gênero, reforçados como norma e usados como matéria-prima do machismo e da misoginia.*
Sim, eu sei que, se fosse verdade que Feliciano é gay, então apontar isso, de forma cômica ou não, seria útil para denunciar uma hipocrisia. Esta hipocrisia não seria coisa nova entre líderes evangélicos pregadores da homofobia (e Feliciano certamente é um deles, nós não esquecemos declarações como “a podridão dos sentimentos homoafetivos…”). Mas a única forma segura de saber se Feliciano é gay é se um dia ele disser que é. Se ele fosse pego num relacionamento com um homem, sequer saberíamos se ele é bissexual ou homossexual, ou, menos provavelmente, um heterossexual externando curiosidades homoafetivas que boa parte dos heterossexuais experimentam em torno da puberdade.
O detector psicológico de homossexualidades, chamado popularmente de “gaydar”, é bastante falho, e usá-lo como desculpa para tentar associar homossexualidade ao Marco Feliciano beira o ridículo. Quem disser que jamais ficou surpreso em saber que certa pessoa é gay ou lésbica estará mentindo, há sempre os casos difíceis ou impossíveis. Então, em vez de brincarmos de adivinhar quem é gay com bola de cristal, deveríamos condenar quem usa “trejeitos” supostamente indicativos de homossexualidade para tentar manchar a imagem de alguém, porque esses não são pejorativos e qualquer discurso que os apresente como tal não passa de preconceituoso.
* Alguns esclarecimentos sobre papéis de gênero e trejeitos: existe uma questão factual, que é se cada grupo humano, sejam lésbicas, gays, homens ou mulheres (trans ou cis), apresentam diferenças em média em algumas características comportamentais não associadas necessariamente à atração sexual ou à identidade de gênero. A resposta é provavelmente sim. Porém, grupos apresentarem diferenças em média não quer dizer que eles não compartilhem grandes interseções em sua variação. Na verdade, todos esses grupos partilham enormes interseções. Logo, não se pode usar sem risco uma média ignorando-se a dispersão da variação e as interseções da variação entre grupos. Tanto que uma das ferramentas estatísticas mais antigas para encontrar diferenças entre três ou mais grupos, o teste ANOVA, leva em conta primariamente a variância entre os grupos, e não simplesmente a média. Grupos com médias extremamente diferentes podem ser indistinguíveis na variação. Por isso, papéis de gênero e heteronormatividade, que usam em parte essas médias entre grupos de forma intuitiva não para dizer como as pessoas são, mas para tentar domá-las em como acham que elas deveriam ser, são coisas falhas não apenas em nível ético, mas também factual. Mais ainda por temperarem essas diferenças médias com invenções de estereótipos absurdas, como por exemplo de que o futebol é uma atividade intrinsecamente “masculina” e que mulheres que o jogam são “menos femininas”.
Por isso fiquem atentos a tentativas de uso de diferenças factuais entre humanos como suporte ao preconceito e à discriminação.
26th of May

Alan Turing: como o pai do computador foi vítima fatal da “cura gay”


Estive recentemente numa exposição sobre Alan Turing, no Science Museum, Londres, onde tirei essas fotos. “Quebrador de Códigos: a vida e o legado de Alan Turing” é o nome da exposição, porque o cientista, além de ter sido o pai do computador, ajudou a Grã-Bretanha na II Guerra desvendando mensagens cifradas dos nazistas. Apesar disso, não houve gratidão de seu país: por ser gay, Turing foi condenado à prisão ou a um tratamento experimental com hormônios femininos. Ele optou pelo tratamento, uma absurda “cura gay”, mas não pôde viver muito sob essa tortura. Matou-se com uma dose fatal de cianeto.
A legenda diz:
“Frasco de pílulas de hormônio feminino estrogênio, cerca de 1950.
Em 1949 o neurocientista Frederick Golla publicou os primeiros resultados britânicos de experimentos sobre o uso do hormônio feminino estrogênio para reduzir a libido de delinquentes sexuais.
Três anos depois, Alan Turing foi sentenciado ao tratamento com estrogênio como uma alternativa à prisão por ‘grave indecência’, após [a descoberta de] um relacionamento sexual. Ele teve de lutar para manter seu emprego na Universidade de Manchester.
Um tabloide proclamou que todos os homens gays deveriam ser confinados:
‘O que se precisa é um novo estabelecimento para eles, como [o hospital de] Broadmoor. Deveria ser uma clínica em vez de uma prisão, e esses homens deveriam ser enviados para lá e mantidos lá até que se curassem.'”
Uma outra legenda (não mostrada aqui) que estava nesta ala da exposição:
“‘A mente dele tornara-se desequilibrada’
Até o fim dos anos 1960, a maioria dos atos homossexuais eram ilegais. Muitas pessoas viviam em constante medo de serem pegas pela polícia, julgadas e ou presas ou multadas.
Vidas eram rotineiramente destruídas após tais eventos humilhantes. Pessoas eram muitas vezes demitidas de seus empregos e postas em ostracismo por suas famílias, amigos e a comunidade. Algumas sentiam que o suicídio era a única opção. Em paralelo, cientistas e médicos estavam experimentando novos modos de ‘curar’ pessoas gays ou remover seu desejo sexual.
Em 1952, Turing foi preso por manter relações sexuais com um homem, e sentenciado a um ano de tratamento com um hormônio feminino. Na época ele estava aconselhando o governo em projetos secretos de quebra de códigos, mas seu passe de segurança foi revogado e ele foi mais tarde posto sob observação.
Dois anos após sua prisão, em 1954, Turing foi encontrado morto em sua casa em Wilmslow. O veredito oficial foi de suicídio por envenenamento com cianeto, o médico legista disse que ‘sua mente tornara-se desequilibrada’.”
Alan Turing viveu apenas 42 anos, anos nos quais contribuiu decisivamente para a ciência da computação, a matemática e a biologia.
11th of March

Agradecimentos à Sociedade Brasileira de Genética


Meus mais veementes agradecimentos à Sociedade Brasileira de Genética por se posicionar ao lado do pensamento crítico e científico, e ao lado da igualdade, coisa na qual a comunidade científica pode ser um exemplo por sua crescente receptividade a pesquisadores de todos os fenótipos e bases culturais.
Já passou o tempo do medo da eugenia e do determinismo genético, em que interesses escusos de preconceituosos e anti-humanistas poderiam sequestrar a voz da ciência e usar seu nome por causas que eram, em seu cerne, não apenas eticamente equivocadas, mas factualmente enganosas.
Estamos num tempo em que cientistas podem unir-se a filósofos, juristas, líderes de crenças e todos os que trabalham intelectualmente com rigor para a defesa da humanidade – toda ela, e não apenas parcelas, não apenas quem se encaixar nas médias estatísticas das curvas gaussianas. 
Nossos olhos, parafraseando Carl Sagan, estão voltados para as estrelas e o futuro, onde gerações que não mais lembrarão nossos nomes olharão de volta para um Pálido Ponto Azul, seu berço planetário, certamente gratos por todos aqueles que se levantaram contra as ideias segregacionistas que, muitas vezes vilipendiando o nome da família, falando em nome da família, tentaram separar a família humana.
Esta família começou há mais de 200 mil anos, na África, o que faz de todos nós afrodescendentes. Se podemos todos sentir saudades quando olhamos para a magnífica África, devemos em grande parte este conhecimento à genética.
Nesta era genômica nós geneticistas entramos no mundo das macromoléculas guardiãs dos segredos da vida com o mesmo deslumbramento de Alfred Russel Wallace na Amazônia e Charles Darwin na Mata Atlântica. Wallace se preocupava com justiça social. Darwin se preocupava com a abolição da escravidão. A SBG mostra que ressoa o legado desses e outros grandes das ciências biológicas tanto ao defender a curiosidade pela diversidade humana e suas bases genéticas e ambientais quanto por ecoar seu grito de esperança por justiça.
Hoje me sinto grato, orgulhoso e esperançoso por ser biólogo, geneticista e brasileiro.
Agradeço a esses geneticistas de talento pelas rápidas assinaturas na carta que virou manifesto oficial da SBG:

Francisco Mauro Salzano – UFRGS;
Rosana Tidon – UnB;
Lavinia Schüler Faccini – UFRGS;
Nilda Diniz – UnB;
Ana Letícia Kolicheski – University of Missouri;
Renato Zamora Flores – UFRGS;
Nelson Fagundes – UFRGS;
Maria Cátira Bortolini – UFRGS;
Claiton Henrique Dotto Bau – UFRGS;
Vanessa Rodrigues Paixão Côrtes – UFRGS;
Silviene Oliveira – UnB;
Vanina D. Heuser – Turku University;
Ligia Tchaicka – Universidade Estadual do Maranhão;
Andrea Marrero – UFSC;
Eliana Dessen – IB-USP;
Melissa Camassola – Universidade Luterana do Brasil;
Kátia Kvitko – UFRGS;
Charbel Niño El-Hani – UFBA;
Elise Giacomoni – UFRGS;
Carlos Menck – USP

Veja: Manifesto da Sociedade Brasileira de Genética sobre bases genéticas da orientação sexual

22nd of February

Resposta às declarações obscurantistas de Silas Malafaia sobre genética da homossexualidade


Homossexualidade é “comportamento e não genética”? E a Genética do Comportamento?

[CC-eng] Eli Vieira, Brazilian PhD student in genetics at the University of Cambridge, UK, refutes the allegations made by Silas Malafaia, millionaire evangelical preacher, about the origins of homosexuality.

==Referências==

Capítulo de Manual de Genética do Comportamento dedicado à Homossexualidade, citando mais de 50 referências científicas:

Dawood, Khytam, J. Michael Bailey, and Nicholas G. Martin. “Genetic and environmental influences on sexual orientation.” Handbook of behavior genetics (2009): 269-279. PDF: http://is.gd/Kbt2md

Artigos:

Bailey, Nathan W., and Marlene Zuk. “Same-sex Sexual Behavior and Evolution.” Trends in Ecology & Evolution 24, no. 8 (August 1, 2009): 439–446. doi:10.1016/j.tree.2009.03.014. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19539396

Savic, Ivanka, and Per Lindström. “PET and MRI show differences in cerebral asymmetry and functional connectivity between homo-and heterosexual subjects.” Proceedings of the National Academy of Sciences 105, no. 27 (2008): 9403-9408. http://www.pnas.org/content/early/2008/06/13/0801566105.abstract

Kerr, Warwick Estevam, and Newton Freire-Maia. “Probable inbreeding effect on male homosexuality.” Rev. Brasil. Genet 6 (1983): 177-180. PDF:  http://web2.sbg.org.br/gmb/edicoesanteriores/v06n1/pdf/a12v06n1.pdf

Bocklandt, Sven, and Eric Vilain. “Sex Differences in Brain and Behavior: Hormones Versus Genes.” Advances in Genetics 59 (2007): 245–266. doi:10.1016/S0065-2660(07)59009-7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17888801

Burri, Andrea, Lynn Cherkas, Timothy Spector, and Qazi Rahman. “Genetic and Environmental Influences on Female Sexual Orientation, Childhood Gender Typicality and Adult Gender Identity.” PLoS ONE 6, no. 7 (July 7, 2011): e21982. doi:10.1371/journal.pone.0021982. http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0021982

Lübke, Katrin, Sylvia Schablitzky, and Bettina M. Pause. “Male Sexual Orientation Affects Sensitivity to Androstenone.” Chemosensory Perception 2, no. 3 (September 1, 2009): 154–160. doi:10.1007/s12078-009-9047-3. http://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s12078-009-9047-3

Liu, Yan, Yunxia Si, Ji-Young Kim, Zhou-Feng Chen, and Yi Rao. “Molecular regulation of sexual preference revealed by genetic studies of 5-HT in the brains of male mice.” Nature 472, no. 7341 (2011): 95-99. http://www.nature.com/nature/journal/v472/n7341/full/nature09822.html

== Repercussão deste vídeo ==

1) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/resposta-de-geneticista-a-silas-malafaia/
2) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/comentarios-a-algumas-repercussoes-do-video-resposta-de-eli-vieira-ao-pastor-silas-malafaia/
3) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/jurista-responde-a-silas-malafaia-maria-berenice-dias/

== Sobre a questão ética ==

1) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200760585403341
2) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200841179138134
3) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200847108126355

== A Primeira Resposta de Malafaia a este vídeo: recheada de falácias ==

http://www.enfu.com.br/mentiras-de-silas-malafaia/

== Sobre a segunda resposta de Malafaia em vídeo: ataques pessoais de quem não sabe o que é debate ==

Resposta de Izzy Nobre: http://www.youtube.com/watch?v=iOe-eVuJdco

Minhas respostas:

1) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836920671675
2) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836417139087
3) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836432339467
4) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836796428569
5) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200837198718626
6) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200840650444917
7) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200840816969080

== A ambição política de Malafaia de juntar seu grupo de fé em torno de um “grupo inimigo” ==

http://ateiadebomhumor.ligahumanista.org/2013/02/a-cortina-de-fumaca-de-silas-malafaia.html

== Desfecho ==

Recusei a maior parte dos convites para entrevistas e espero a repercussão na Sociedade Brasileira de Genética:
https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200841315621546