25th of July

In Dubio Pro Hell: dois erros do ativismo LGBT


Ocasiões em que o movimento LGBT errou no Brasil, na minha opinião:
– Quando a maioria concordou que Levy Fidélix incitou a violência. Eu tive discussões épicas sobre isso com gente que respeito muito, mas que continuo acreditando que está errada. O que Fidélix disse naquele debate de candidatos à presidência foi homofobia, foi ódio, foi tudo de feio, mas não foi incitação à violência. Eu vi de tudo para forçar a barra nesse sentido, o que eu achei mais alarmante foi uma tentativa de alargar o conceito de “violência” do senso comum para algo que inclua palavras desagradáveis. Sabe como isso parece para um observador não envolvido? Que o movimento LGBT, quando é conveniente, muda o sentido das palavras, com o propósito de, na ausência de lei criminalizando discurso homofóbico, punir discurso homofóbico pintando-o como outra coisa: incitação à violência. Contei este caso para a filósofa Susan Haack, que recentemente publicou um livro em filosofia do direito (“Evidence Matters”). Ela concordou: o que é contemplado pela lei é violência física, é incitação a socos, linchamentos, pontapés, e num país em que linchamentos ainda são um problema é muito importante que a lei coíba isso. Esticar o conceito de “violência” para incluir palavras preconceituosas é uma estratégia ruim.
– O exemplo a seguir eu jamais dei em público. Eu guardei pra mim. O que eu tenho feito ultimamente, no entanto, é não guardar mais pra mim, pois isso é autocensura. Eu não posso aplicar um princípio ético para meus adversários e outro para meus confrades e comadres, o nome disso é sim hipocrisia. Vamos ao caso então:
Há uns dois anos atrás Silas Malafaia (meu queridinho) reagiu ao uso de fotos de modelos posando de forma similar a santos católicos na parada LGBT dizendo que era para os católicos “caírem de pau em cima deles [ativistas LGBT]”. No contexto está óbvio: o “cair de pau” era força de expressão. O próprio Malafaia se defendeu assim: disse que ele é um carioca que usa muitas gírias (meu caso favorito é quando ele disse que iria “funicar” o presidente da ABGLT, o que soa perigosamente próximo de “fornicar”), que não estava dizendo para ninguém literalmente bater em ninguém. Não era “ato falho”, era metáfora, força de expressão. E qualquer generosidade interpretativa vai corroborar isso. Mais uma vez, uma boa parte dos ativistas (não sei se foi maioria, pois não vi resistência a essa interpretação) alegou que Malafaia estava incitando a violência e deveria ser punido.
Generosidade interpretativa é outra coisa que não devemos aplicar apenas a nossos confrades e comadres. Uma coisa que eu vejo muito entre ativistas é que, em vez de analisar o caso, fazer um “menu mental” de interpretações e considerar quais delas são mais plausíveis, a estratégia é a seguinte: escolhe-se a pior interpretação possível, descarta-se irracionalmente e dogmaticamente qualquer interpretação alternativa, e parte-se para briga com qualquer pessoa que discordar. Eu já fui alvo disso: uma vez postei uma piadinha para divertir amigas lésbicas em que duas mulheres quase se beijavam e a legenda dizia “nessa ceia não vai ter peru”. Uma piadinha de natal. (E sim minhas amigas gostaram.) Imediatamente uma amiga trans caiu em cima, e mais ativistas trans foram se juntando a ela para insistir que a única interpretação possível da piada é que o propósito dela era afirmar que mulheres nascidas com pênis não são mulheres, e que portanto eu era transfóbico por publicá-la. Como eu disse: escolhe-se a pior interpretação possível, e parte-se para a briga contra qualquer outra interpretação, especialmente as mais plausíveis. Eu chamo essa estratégia de “in dubio pro hell”.
Eu também já fiz isso. Uma vez, eu interpretei uma notícia como sexista contra Dilma Rousseff. Amigos e amigas apareceram para criticar a minha interpretação. Eu li as críticas e as aceitei, e reconheci que eu estava saltando à pior interpretação possível sem estar justificado. Eu li e refleti sobre as críticas sem considerar primeiro qual era o gênero, a orientação sexual, a cor etc. de quem estava me criticando, mas considerando apenas se o que estavam dizendo era bom argumento, se era plausível, se era verdadeiro. Coisa que está infelizmente cada vez mais fora de moda. Se não fossem essas pessoas, e se não fosse eu ter alguma (mesmo que às vezes pouca) abertura para críticas, hoje talvez eu seria um ativista “justiceiro social” dão doido quanto os que eu costumo criticar.
26th of December

Óvulos e espermatozoides humanos rudimentares produzidos a partir de células-tronco


Por David Cyranoski, Nature News. Tradução de Eli Vieira

Um feito atingido pela primeira vez em humanos poderia ser um passo na direção da cura da infertilidade.

Pesquisadores israelenses e britânicos criaram espermatozoides e células precursoras de óvulos numa placa a partir das células da pele de uma pessoa. A façanha é um pequeno passo na direção de um tratamento para a  infertilidade, embora possa enfrentar controvérsias significativas e empecilhos regulatórios.
O experimento, publicado online na revista Cell em 24 de dezembro¹, recria em humanos parte dos procedimentos primeiro desenvolvidos em camundongos, nos quais células chamadas de células-tronco pluripotentes induzidas (iPS) — células ‘reprogramadas’que podem se diferenciar em quase qualquer tipo de célula — são usadas para criar espermatozoides ou ovócitos que são subsequentemente manipulados para produzir embriões por fecundação in vitro.
Em 2012, o biólogo especialista em células-tronco Mitinori Saitou, da Universidade de Kyoto, Japão, junto a seus colaboradores, criou as primeiras células germinativas primordiais artificiais (PGC’s)². Essas são células especializadas que emergem durante o desenvolvimento embrionário e mais tarde dão origem a espermatozoides ou ovócitos. Saitou os fez numa placa, começando com células da pele reprogramadas para um estado similar ao embrionário através da tecnologia de células iPS. Os cientistas também conseguirem atingir o mesmo resultado começando com células-tronco embrionárias.
Embora suas células não pudessem se desenvolver além desse estágio precursor na placa, Saito descobriu que se as colocasse em testículos de camundongo elas se maturariam em espermatozoides, e, se as colocasse em ovários, maturar-se-iam em ovócitos funcionais. Ambos espermatozoides e ovócitos poderiam ser usados para fertilização in vitro.
Esforços para projetar gametas similarmente funcionais em humanos produziram células parecidas com PGC’s, mas com tal baixa eficiência — taxa de sucesso em transformar células-tronco em gametas — que era difícil para outros tentarem expandir o trabalho. Esforços anteriores também demandavam a introdução de genes que poderiam tornar as células inúteis para o ambiente clínico.
Agora uma equipe liderada por Azim Surani, da Universidade de Cambridge, Reino Unido, e Jacob Hanna, do Instituto Weizmann de Ciência em Rehovot, Israel, replicou a parte in vitro — a “primeira metade”, diz Hanna — dos esforços de Saitou em humanos.

Alta eficiência

A chave para o sucesso dos biólogos foi encontrar o ponto de partida correto. Uma grande dificuldade em repetir o feito em humanos era o fato de que as células-tronco de camundongos e as de humanos são fundamentalmente diferentes. Células-tronco de camundongos são ‘ingênuas’ — fáceis de influenciar para qualquer trajetória de diferenciação — enquanto células-tronco humanas são ‘preparadas’ de uma forma que as torna menos adaptáveis.
Mas Hanna percebeu que essas diferenças poderiam ser superadas por ajustes nas células, como ele e seus colaboradores relataram em 2013.³ Ele e sua equipe desenvolveram um modo de fazer células-tronco humanas que eram ingênuas como as dos roedores. “Na primeira vez que usamos aquelas células com o protocolo de Saitou — bum! Conseguimos PGC’s com alta eficiência”, diz ele.
Trabalhando juntos, Surani e Hanna conseguiram usar células-tronco embrionárias e células iPS, tanto de homens quanto de mulheres, para fazer células precursoras de gametas com 25-40% de eficiência.
“É estimulante que os laboratórios de Surani e Hanna tenham encontrado uma forma de gerar células da linha germinativa com a mais alta eficiência já relatada”, diz Amander Clark, uma especialista em biologia reprodutiva na Universidade da Califórnia, Los Angeles.
As células têm muitas das características de células germinativas primordiais. Em particular, seu padrão ‘epigenético’ — [o padrão de] modificações químicas aos cromossomos que afetam a expressão gênica — era similar aos de células germinativas primordiais. A equipe comparou marcadores protéicos em PGC’s artificiais com os de PGC’s reais coletadas de fetos abortados e descobriu que eram muito semelhantes.
“São tão similares às PGC’s humanas quanto as PGC’s [artificiais] de Saitou são às PGC’s reais de camundongo”, diz Hanna.

Saitou diz que os insights sobre mecanismos oferecidos pelo artigo provavelmente vão estimular os esforços para entender mais a fundo e controlar esse processo. Particulamente em humanos, uma proteína chamada SOX17 parece ter um papel-chave que em camundongos é desempenhado por uma proteína diferente chamada Sox2.
Saitou, que também está trabalhando para desenvolver PGC’s humanas em placa, chama a descoberta de “interessante” e diz que, no geral, o processo de criar tais células “é muito mais claramente definido comparado ao trabalho anterior, mais ambíguo, e portanto será um bom fundamento para investigações futuras”. Clark concorda: “É um insight mecanístico especial sobre o desenvolvimento da linha germinativa humana que torna este artigo singular”, diz ela.

Muitas incógnitas

Em camundongos, o próximo passo é introduzir as PGC’s projetadas em testículos ou ovários, para completar a ‘segunda metade’ do processo de Saitou, seu desenvolvimento em espermatozoides e ovócitos funcionais.

Mas Hanna diz que ele e seus colaboradores “não estão prontos para tentar isso” em humanos, e outros concordam que há ainda muitas incógnitas para introduzir as PGC’s artificiais em humanos.

Ele diz que os cientistas estão também considerando injetar as PGC’s artificiais humanas em testículos ou ovários de camundongos e outros animais, ou tentar o experimento como um todo em primatas não-humanos. Ele diz que os esforços contínuos de Saitou e outros para completar o processo do desenvolvimento de espermatozoides e ovócitos de camundongos in vitro poderia levar a uma receita que pode ser adaptada para humanos.

“Ainda estou organizando meus pensamentos. Veremos depois que o artigo for publicado o que a comunidade [científica] pensará”, diz Hanna.

Clark diz que reguladores devem dar caminho para os experimentos humanos que serão necessários para levar a tecnologia para as clínicas e potencialmente permitir que alguns homens e mulheres estéreis tenham filhos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a lei proíbe o financiamento federal da criação de embriões humanos para propósitos de pesquisa, algo que seria necessário para testar a nova tecnologia. As restrições “precisam ser revogadas e substituídas por regras universais sobre como fazer essa pesquisa de forma ética e segura”, diz ela.

Em princípio, o processo poderia até mesmo ser usado para gerar óvulos do corpo de um homem. Esses poderiam ser fertilizados in vitro pelo espermatozoide de outro homem e o embrião resultante poderia então ser implantado numa mãe substituta — permitindo a dois homens ter um filho biológico juntos. Mas as dificuldades técnicas seriam formidáveis: em particular, homens não têm ovários nos quais as células precursoras poderiam ter a chance de maturar em óvulos. Além disso, a ideia com certeza enfrentaria polêmica.

“É muito importante enfatizar que enquanto esse cenário poderia ser tecnicamente possível e factível, é remoto neste estágio [da pesquisa] e muitos desafios precisam ser superados”, diz Hanna. Permitir que duas mulheres tenham um filho biológico juntas parece ainda mais remoto, acrescentam os autores, porque apenas homens têm o cromossomo Y, que é essencial para a produção de espermatozoides.

[N. do T.: utilizei alternativamente “óvulo” e “ovócito” como tradução para “egg”. A convenção é que o gameta feminino antes da fecundação seja chamado de “ovócito (II)”.]

Referências

  1. Irie, N. et al. Cell http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2014.12.013(2015).
  2. Kee, K., Angeles, V. T., Flores, M., Nguyen, H. N. & Reijo Pera, R. A. Nature 462, 222–225 (2009).
  3. Gafni, O. et al. Nature 504, 282–286 (2013).
23rd of August

Sobre quem “discorda” de orientação sexual


Qualidade é variável em muita coisa: de pastel de beira de estrada (“quando mais sórdido melhor”, segundo o LF Verissimo) a ideias. Tem gente que é mais exigente com a qualidade do pastel que come do que com a qualidade de suas ideias.

Entre muitas ideias populares mais difíceis de tragar que aquele de palmito da rodoviária, está a ideia de que “discordar de orientação sexual” é um direito ou ao menos algo que faz algum sentido.

Pois não faz. Não faz sentido algum. E mostro por quê. Comecemos com a parte do “discordar”: concordância ou discordância se expressa em relação a crenças, posições, opiniões, conclusões. A orientação sexual de uma pessoa não se encaixa em nada disso. Bentinho sente tesão em Capitu não é porque na opinião dele a Capitu é gostosa. Isso é inverter a ordem das coisas: porque se sente atraído pela Capitu é que Bentinho tem a opinião de que ela é gostosa. Você pode discordar do Bentinho quanto a ela ser gostosa, pois é uma opinião dele. Mas não faria sentido algum você “discordar” do Bentinho se sentir atraído pela Capitu – é uma coisa que acontece dentro do Bentinho, que ele sente quando olha para a Capitu, não que ele conclui depois de fazer uma lista de atributos da Capitu. Os atributos são levados em consideração, mas inconscientemente, pelos critérios que só um cérebro heterossexual como o do Bentinho, e talvez apenas o cérebro dele, faria.

“Discordar” da atração de Bentinho por Capitu é como “discordar” da expansão de volume da água no congelamento. Você pode até ser um sujeito que tem interesse em evitar que o Bentinho faça qualquer coisa em função de sua atração pela Capitu, mas se disser que “discorda da orientação sexual” dele, ou você não sabe o que é “discordar”, ou não sabe o que é “orientação sexual”.

Mas eu não acho que as pessoas que usam esse oxímoro realmente têm o órgão da análise quebrado. Tenho minha própria hipótese sobre isso: é que é feio, hoje em dia, falar “malditos viados e sapatas, não quero que vocês existam”. Não, você quer ser intolerante e preconceituoso, mas não quer *parecer* ignorante e preconceituoso. Então escolhe um eufemismo: “discordar”. Você não “odeia”, não “tem nojo”, não, esses seriam motivos irracionais demais para apresentar para tentar excluir uns 10% das pessoas do convívio social, do acesso às mesmas coisas que as outras pessoas têm. Afinal de contas, se nojinho fosse motivo suficiente para justificar alguma coisa, o nojo das crianças do gosto do xarope seria suficiente para não tomarem o remédio. Você quer parecer ser uma pessoa interessada em debater, de mente aberta, uma pessoa que analisa as coisas antes de concordar, ou melhor, *parece* analisar. Por isso, você não é homofóbico: você “discorda” da orientação sexual de Fulana ou Cicrano.

E eu “discordo” de palmito.

28th of April

Sobre as difamações


Sobre constantes difamações a mim nas redes sociais, me perguntar não ofende nem um pouco. Mas lembrem-se que os responsáveis por nossas próprias crenças somos nós mesmos, e quem adota crenças (sobre pessoas ou causas ou coisas) com evidência insuficiente, pouco argumento e muita irritação coletiva, sofre as consequências de sua própria falta de pensamento crítico. Meus textos falam por mim.

Prints descontextualizados e tentativas de assassinato de reputação por seguidores dogmáticos de ideologia, não. Um exemplo: quando soube que a Lei João Nery será o tema da parada LGBT, comentei “oba! Funcionou [a petição]!”. Usaram exatamente esse comentário meu para me acusar de ser transfóbico. É evidência suficiente? Outra pessoa, afiliada ideologicamente à “teoria queer” (da qual discordo simplesmente porque é fundada em determinismo cultural), irritou-se porque, quando eu pedi que ela desse um exemplo de sociedade com um número alto de gêneros, tipo dez ou mais, ela alegou que essa sociedade era o Brasil. Extasiado diante da hilariedade dessa alegação, eu fiz uma lista de falsos gêneros brasileiros além dos já conhecidos, incluindo “Chico Buarque” (não sei vocês, mas eu adoraria ser do gênero Chico Buarque). A pessoa falhou em me dar um exemplo histórico de cultura com um número exorbitante de gêneros. Se o número de gêneros não é exorbitante em todas as culturas já estudadas, então há limites para o número de gêneros que os humanos podem desenvolver em suas culturas, e alegarei que parte desses limites são biológicos. Ou seja, é plausível um número bem maior que dois gêneros, só que esse número não pode ser infinito. Pois, se for alegado que pode ser infinito, na minha opinião isso esvazia o conceito de “gênero” como categoria social, ou seja, altera o sentido do termo sem qualquer justificação, tornando-o mais próximo de “personalidade”.

Portanto, uma discordância de ideias foi o motivador de um desses prints para tentar me difamar. Outro print, em que falo da “seita dos batatinhas” é explicitamente uma referência a seguidores dessa ideologia, e não pessoas trans em geral. Basta procurar no Google e verão quem está usando o termo e para quê.

De onde tiro essas ideias? Uma das minhas fontes é a acadêmica feminista Martha Nussbaum e suas críticas à Judith Butler. Já traduzi alguns parágrafos de um artigo dela e postei no Facebook. Estou tentando passar meu “academicismo” em cima da “vivência das mulheres” e da “vivência das pessoas trans”? Não, estou exercendo minha liberdade individual de julgar ideias por seus méritos. Ademais, e a vivência da Martha Nussbaum, como mulher e filósofa, vão jogar no lixo? Responsabilizem-se pelas consequências problemáticas de suas ideias injustificadas. Beijinho no ombro.

6th of April

Por que pedofilia é doença e homossexualidade não é


A humanidade é um fenômeno natural. Como uma cachoeira ou uma árvore também são. E, como elas, é intrigante e suscita curiosidade sobre seu funcionamento, suas partes, sua variação, seu comportamento ao longo do tempo. Mas, diferente de como agimos ao pensar sobre uma cachoeira ou uma árvore, quando elaboramos ideias para responder às nossas curiosidades sobre a humanidade precisamos tratar de certas consequências morais de carregar essas ideias, pois nós podemos sofrer e temos interesses sobre nossas próprias vidas e as vidas de nossos semelhantes, o que não é o caso de cachoeiras e árvores.
A humanidade tem uma origem, alguns futuros previsíveis (outros imprevisíveis), pode ser descrita com tendências centrais e uma variação em torno dessas tendências centrais. Para entender completamente um fenômeno natural como a humanidade, compreender tendências centrais é importante, mas só teremos uma boa imagem do que ela é, e também um julgamento do que é positivo a seu respeito, considerando a variação. Como o assunto aqui é homossexualidade e pedofilia, falemos da variação.
Na variação do que é humano, há a parte normal e a parte patológica (ou seja, relacionada a doenças). Há ambiguidades nos dois lados desta distinção. Primeiro, “normal” pode ser “semelhante às tendências centrais observadas” e “comum”, ou também pode ser sinônimo de “aceitável” e “inofensivo”. Homossexualidade é incomum (estimativas diferentes giram em torno de menos de 10% da população), aceitável e inofensiva; pedofilia também é incomum (estimada em menos de 5% dos homens, e dez vezes menos entre mulheres) mas inaceitável e ofensiva.
Outra parte da variação humana é patológica. A homossexualidade já foi considerada parte dessa variação patológica, e a pedofilia atualmente é. Aqui, é necessário analisar o que consideramos doença. Ser inaceitável e ofensivo é algo que faz da pedofilia uma doença? Não necessariamente: sonegar impostos é inaceitável e ofensivo, mas não é uma doença. Há coisas que são claramente doenças: portar um gene que no começo da idade adulta degenerará seu cérebro até a completa incapacidade e a morte é com toda certeza uma doença (coreia de Huntington). Para afirmar que certa parte da variação humana é doença, outras considerações são necessárias: considerações sobre sofrimento e interesses. 
A pedofilia é mais rara do que se imagina, pois muitos abusadores de crianças não se sentem de fato atraídos por crianças e abusam por outros motivos, assim como muitos estupradores estupram mais para expressar desprezo do que para dar vazão a uma libido incontrolável. Ou seja: quem comete abuso sexual contra crianças não é necessariamente pedófilo. E essa parte dos abusadores não deve ser vista como doente, mas como na categoria dos sonegadores de impostos: criminosos. A outra parte dos abusadores sexuais de crianças que é de fato pedófila é, além de criminosa, doente. Por que doente? Porque sua condição, atração sexual por crianças, leva inevitavelmente a certa classe de consequências similares às consequências de portar o alelo da doença de Huntington. 
Como a pedofilia leva (1) ao sofrimento psicológico de alguns pedófilos que sabem que sexo com crianças é errado, por terem de resistir a um impulso interno a cometer abusos; (2) ao sofrimento das crianças vítimas de outros pedófilos que cedem a seus impulsos sexuais se tornando abusadores; e/ou (3) a uma desconsideração da incapacidade de consentir de uma criança; então faz todo sentido que seja classificada como doença: as fontes de sofrimento são todas consequências quase inevitáveis da pedofilia.
Portadores de um alelo de degeneração cerebral como o citado sabem que têm cerca de 20 anos para viver. Boa parte de seu sofrimento é de natureza psicológica, como é o sofrimento de pedófilos e suas vítimas. Enquanto uma doença interfere no interesse de um jovem adulto de ter uma vida plena e mais longa, a outra interfere no interesse de uma criança de não ser abusada sexualmente e ter um desenvolvimento afetivo livre das consequências do abuso.
Sentir-se atraído por pessoas adultas do mesmo sexo e agir de acordo com isso, por sua vez, nada tem das consequências similares a essas doenças, não ao menos na origem dessas consequências. Se uma pessoa homossexual sofre por ser homossexual, não é de fato “por ser homossexual” mas por entender como ela é vista por outras pessoas e temer não ser aceita por elas. É mais semelhante ao sofrimento de pessoas que se acham feias ou são vistas como tal, que temem uma vida solitária, desaprovação social, etc. Se ser homossexual fosse doença, ser feio também precisaria ser, se formos julgar pelas consequências objetivas das duas coisas. Quem ama o feio, bonito lhe parece e quem ama o mesmo gênero, normal lhe parece.
Adultos poderem fazer o que bem entendem, consensualmente, na sua intimidade é uma marca da liberdade. Quase toda liberdade que deve ser protegida é um interesse que incomoda a outrem: o interesse de um país em se manter territorialmente íntegro incomoda o interesse de países expansionistas. O interesse das pessoas negras em serem tratadas com igualdade incomoda os interesses dos racistas explícitos. E o interesse dos homossexuais em viver sua afetividade incomoda aos homofóbicos. Os sentimentos associados à atração sexual mútua entre adultos são louvados na nossa cultura por razões óbvias: nos emancipam, nos tornam pessoas melhores, nos aliviam, nos distraem frente aos problemas, tornam a existência algo mais leve – e não há razão convincente para negar isso a pessoas homossexuais. Portanto, a homossexualidade não apenas não faz sentido sob a classificação de doença, como vivê-la é uma verdadeira cura para quem é gay: cura de sofrimentos.
É compreensível que, por homossexualidade e pedofilia serem incomuns, algumas pessoas pensem que ambas são repugnantes. Porém, como pretendi defender, algumas de nossas reações emocionais às variedades raras da humanidade têm âncora em argumentos, enquanto outras não têm. O nojo da pedofilia tem amplo apoio racional, mas a aversão à homossexualidade não tem, assim como a aversão a pessoas anãs, albinas, muito altas, gagas, disléxicas, com sardas, canhotas etc.
Quando temos interesse em aprender mais sobre a humanidade, nossos gostos sobre as raridades têm oportunidade de serem moldados pelos nossos conhecimentos. Como os gostos dos apreciadores de cachoeiras raras e árvores raras, que ao saber mais sobre cachoeiras e árvores têm mais interesse – e argumentos – para defendê-las, recomendá-las e estarem precavidos diante daquelas que forem uma ameaça.
1st of March

Você é machista, homofóbico(a), transfóbico(a), racista? Muita calma nessa hora!


Uma pessoa disse que a Marília Gabriela seria homofóbica por ter decidido não me convidar para o programa dela. Eu discordo enfaticamente! E também discordo enfaticamente de outras acusações de preconceito que às vezes vejo na internet. Por três razões:
1. Às vezes a lógica é quebrada. Se a Gabi é homofóbica por não me convidar, ela não era homofóbica por convidar as lésbicas Pepê e Neném? Não me convidar é uma premissa muito frágil para acusá-la de ser homofóbica. Como qualquer pessoa (independente de quem seja), ela merece o benefício da dúvida, e só merece ser acusada com evidências convincentes e argumentos convincentes. Alarmismo e denuncismo que passam por cima disso são um grande problema, não uma solução.
2. Se fosse verdade que Gabi é homofóbica, usar o adjetivo como um xingamento seria a última coisa que a faria refletir sobre isso e mudar de crença e atitude. A Gabi, como qualquer outro ser humano, provavelmente reagiria de forma defensiva, fechando-se para as ideias corretas de quem acusou, por causa da acusação, do uso de um “nome feio”. Encurralar pessoas não é educá-las. E se as pessoas não estão sendo educadas a jogar fora sua homofobia, qual é o propósito de acusá-las de sê-lo?
3. A forma mais caridosa de aceitar uma acusação dessas sem as evidências e bons argumentos, contra a Gabi ou contra qualquer outra pessoa, tem um efeito curioso: se a Gabi é homofóbica, quem acusou também é. Porque as pesquisas disponíveis mostram que as pessoas, independentemente de seus grupos, guardam em média vieses contra homossexuais. Inclusive os próprios. Isso não é para aplaudir a homofobia: isso é para educar a respeito de um fenômeno curioso chamado viés implícito.
A filósofa Jennifer Saul dá como exemplo desse fenômeno o que houve com o reverendo Jesse Jackson, que lutou toda a sua vida contra o racismo nos Estados Unidos, quando certa vez se viu, num momento de epifania autocrítica, tendo atitudes desfavoráveis contra negros. No caso, mudar de rota se visse um rapaz negro andando em direção a ele. 
Saul comenta evidências do viés implícito também no caso do sexismo (machismo, misoginia):
“O viés implícito pode vir em muitos tipos diferentes de comportamento. Por exemplo, decisões de contratação. Se você apresentar exatamente o mesmo currículo com um nome masculino ou feminino, há maior chance de o que tem nome masculino receber maior nota, receber convite para entrevista, receber cargo de maior hierarquia e salário e ser contratado do que o currículo com nome feminino. O mais recente estudo de 2012 mostrou que o efeito do viés é igualmente forte em todos os grupos etários, e que é igualmente forte entre homens e mulheres. O viés afeta o modo como interagimos com as pessoas. Tanto homens quanto mulheres são mais propensos a solicitar um homem que uma mulher, mais propensos a interpretar com caridade um comentário incoerente se for de um homem do que se for de uma mulher.”
(Traduzido deste podcast: http://lihs.org.br/bias )
Então, se o exemplo do viés implícito no caso do machismo é análogo aos outros preconceitos, é provável que, neste sentido específico, nós todos possamos ser machistas, ‘LGBT-fóbicos’, racistas. E quem pensa que estar num desses grupos isenta alguém de ter esses vieses, está provavelmente enganado.

Mas (e este é um grande mas), acho injusto usar esses adjetivos apenas por causa da ubiquidade dos vieses implícitos. Penso que as palavras temidas que designam preconceitos e discriminações deveriam ser usadas justamente para identificá-los quando há evidências claras e distintas de que estão ali, no caso específico que você está julgando.


Por que? Porque assim os próprios vieses podem ser combatidos melhor. Inclusive no nível do indivíduo, que ao saber da existência desses vieses, pode lutar para evitar incorrer neles, não baixar a guarda. E falar em vieses é muito mais efetivo para que as pessoas façam isso individualmente, se eduquem, do que encurralá-las e acusá-las. Tanto pior encurralá-las e acusá-las sem evidências convincentes!
Jesse Jackson com certeza deve ter se tornado um ativista melhor depois de sua epifania, alguém mais consciente sobre o quão complicado é algo como o racismo e o que fazer efetivamente para vencê-lo. E nós todos podemos melhorar nossas atitudes éticas se seguirmos este exemplo, de parar, respirar fundo, pensar, repensar, pesar as evidências, antes de sair numa cruzada ineficiente de acusacionismo fadado ao fracasso.
Portanto, se me acusam de qualquer uma dessas coisas, procuro fazer essa distinção entre aceitar a probabilidade de que eu incorro em vieses, e cobrar evidências de que realmente fiz algo motivado por eles ou motivado por coisa pior, como ideias agressivamente preconceituosas ou atitudes claramente discriminatórias. E não espero menos de qualquer outra pessoa, inclusive quem me acusou. Rigor com evidência e argumento é a única coisa que pode garantir justiça.
O que são os vieses implícitos? A filósofa Jennifer Saul ainda quer saber – se são crenças, se são atitudes, qual é sua natureza íntima – é algo em aberto. Pero que los hay, los hay. E é difícil declarar-se livre deles, sem passar por epifanias (no sentido de descobertas, de análises) como a de Jesse Jackson.
15th of February

A tolerância de Rodrigo Constantino com a intolerância contra homossexuais


The bullshit is strong with this one.

Pediram-me para comentar os últimos dois textos do Rodrigo Constantino, o “liberal”, na Veja. Eu tentarei ser objetivo e não deixar avaliações mais emotivas e retóricas entrarem na frente – não vou fazer a mesma coisa que ele e outros colunistas da revista fazem.

No primeiro texto, apoiando Jair Bolsonaro para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Rodrigo diz:

“Homofobia, para esse pessoal, é simplesmente não achar lindo homem com homem.”

A frase é artifício retórico e eu não acredito que Rodrigo realmente acredite nisso, tanto quanto eu não acredito que ele considere que a definição de racismo para quem mais luta contra ele é “simplesmente não achar lindo gente preta”. No entanto, “não gostar” pode ser um critério não suficiente para definir um preconceito, e nem sempre necessário, mas que é simplesmente comum entre pessoas preconceituosas e faz parte de seu preconceito nesses casos. Uma pessoa que não acha os negros atraentes e não se considera racista ao menos precisa reconhecer que não achá-los atraentes é algo que ela tem em comum com muitos racistas. E para quem está observando de longe, se você fala como racista e age como racista, você poderia muito bem ser racista. A mesma coisa vale para necessidades urgentes de alguém expressar o quanto acha feio que dois homens se beijem. E esses homens são geralmente retratados como dois barbados, não como duas garotas lésbicas, porque quem fala disso geralmente pensa que seus interlocutores de valor são todos homens heterossexuais. Vou batizar esta falácia de argumentum ad barbis, o apelo à barba.

Uma vez, uma amiga minha disse que tinha repulsa por ver dois homens se beijando. Perguntei se ela sentia o mesmo sobre casais de lésbicas. Ela disse que não. O curioso é que ela é uma mulher heterossexual – então me pergunto se essa repulsa é mesmo algo que ela naturalmente teria por razões completamente internas e subjetivas (de “gosto”), ou por razões externas, ensinadas e aprendidas (parece-me ser o caso). Se é possível ensinar um gosto aversivo por pessoas homossexuais, então é possível ensinar que não se tenha esse tipo de reação ao vê-los, e isso poderia ser resolvido simplesmente com eles aparecendo mais e sendo mais vistos fazendo o que é considerado repulsivo por alguns (dentro dos mesmos limites de exposição dados a heterossexuais). A reação da minha amiga gera um problema: se ela não quer ser vista como homofóbica por mim, como resolveremos o fato de que, se ela vier à minha casa no futuro, eu terei de proibir meu companheiro de expressar afeto? Precisaremos esconder que somos homossexuais ou agir como se não fôssemos? Isso não seria uma atitude injustamente negativa para com nossa orientação? Se um negro como Michael Jackson resolve esconder sua negritude simulando vitiligo (ele realmente tinha vitiligo, mas assumamos que a outra história é verdade – até porque ele fez também rinoplastias suspeitas), não se pode botar parte da culpa disso no racismo, nas atitudes injustamente negativas contra negros, que percolam tanto sua cultura que se internalizam?

“Se alguém externar que prefere ter um filho heterossexual, isso já basta para ser visto como homofóbico hoje em dia, o que é absurdo.”

Mas é absurdo por que? De fato, não há problema algum em preferir que a filha seja heterossexual, mas somente se for por motivos não preconceituosos: “se ela for hétero tenho mais chances de ter netos”; “se ela for hétero não vai sofrer tanto com preconceito”. Isso geralmente se faz ANTES da filha em questão existir ou sair do útero da mãe. O problema é gente que continua expressando sua “preferência” depois dessa filha ter nascido, crescido, e estar perguntando se vai continuar tendo um teto se namorar a Pâmela. E expressar para seu filho que já existe que ele deveria ser coisa diferente do que ele é, e justamente em algo que não é escolha e ele não pode fazer nada a respeito, é rejeitar a natureza íntima do seu filho, e é a pior forma de rejeição. Isso não merece o nome de homofobia?

Mas claro, tudo depende do que o Rodrigo Constantino considera homofobia. O que ele considera ser a definição usual de homofobia, aquela que usamos diariamente, aquela que se consagrou na comunidade internacional?

“Ora, fobia é medo! Quem é que pode ter medo de gays(…)? O sujeito pode não gostar da ideia, ter até certa aversão espontânea à imagem de dois homens barbados se beijando. [Taí o argumentum ad barbis!] Não acho que isso seja suficiente para acusá-lo de homofobia. Então o sujeito que não curte quiabo sofre de “quiabofobia”?”

Aqui, Rodrigo Constantino comete a falácia etimológica. Esse argumento péssimo consiste em definir um termo por sua etimologia, quando a etimologia é irrelevante. Esse erro é cometido não apenas por homofóbico, mas também por homossexuais. Homofobia não precisa ser definida como fobia de homossexuais: significa apenas preconceito contra ou discriminação injusta contra homossexuais. Este é o sentido comum do termo. Ninguém acha que o Bolsonaro ao falar cheio de raiva contra gays está realmente com medo, mas que está sendo preconceituoso. O estado emocional dele ao falar de gays não importa – se medo, se ódio, se indiferença – mas apenas se o que ele diz é difamatório, negativamente generalizante, enfim, preconceituoso.

“Homofobia” não é fobia de homossexuais assim como “cálculo” não é uma pequena pedra e “racismo” não é apreço pelas raças, ainda que as etimologias dessas palavras possam sugerir isso. O uso faz o sentido, e não a etimologia.

Portanto, Constantino não parece realmente saber o que é homofobia, ou então usou esse argumento falacioso apenas retoricamente, para apelar para a torcida, da mesma forma que fez ao sugerir que alguém pensa que homofobia é igual a não ter gosto pessoal por ver pessoas do mesmo sexo (e ele esquece o feminino por algum motivo) expressando afeto romântico ou erótico.

No segundo texto ele diz: “Se para ser considerado homobóbico basta sentir aversão a dois homens se beijando, então muita gente é homofóbica sem saber.” De fato!

O erro que eu reconheço em alguns ativistas é não levar em conta diferentes graus de homofobia, e também se esquecerem que é melhor ser didático e paciente, e tentar não usar e abusar de “homofobia” como um xingamento, e se lembrar do que o termo significa. Acusacionismo não leva a lugar algum, e uma pesquisa empírica com diferentes ativismos já mostrou que essa atitude tem efeito contrário ao pretendido por ativistas que se comportam assim.  Comentei a pesquisa aqui: https://www.facebook.com/1423657476/posts/10203226375126543

Agora, o que se pode perguntar é por que Constantino está fazendo isso. Sou informado que ele anda fazendo as pazes em “hangouts” com Olavo de Carvalho e se aproximando de outras figuras do conservadorismo, mesmo alegando, inclusive no subtítulo de sua coluna na Veja, que é um liberal.

Então, como recado para um liberal postiço, mando uma citação de um liberal de fato, Friedrich Hayek, num ensaio apropriadamente intitulado “Por que não sou um conservador”:

“[A]quele que crê na liberdade não pode senão conflitar com o conservador e tomar uma posição essencialmente radical, direcionada contra os preconceitos populares, posições arraigadas, e privilégios firmemente estabelecidos. Tolices e abusos não são mais aceitáveis por terem sido há tempos estabelecidos como princípios de insensatez.”

E se apoiar Bolsonaro para uma comissão de direitos humanos não é tolice, abuso e insensatez, além de um afago aos preconceitos populares e privilégios arraigados contra a liberdade individual dos LGBT, então não sei o que é. E não é coisa digna de um autointitulado liberal.

14th of February

Orientação sexual masculina é influenciada por genes, mostra estudo


Fonte: The Guardian. Tradução comentada de Eli Vieira.
Genes examinados no estudo não são suficientes ou necessários para fazer homens serem gays, mas desempenham algum papel na sexualidade, dizem pesquisadores americanos
Um estudo sobre homens gays nos EUA encontrou novas
evidências de que a orientação sexual masculina é influenciada por genes. Os
cientistas testaram o DNA de 400 homens gays e descobriram que genes em ao
menos dois cromossomos influenciavam se um homem era gay ou hétero.
Uma região do cromossomo X chamada Xq28 [q é o
braço longo do cromossomo] teve algum impacto sobre o comportamento sexual dos
homens – embora os cientistas não tenham ideia de quais genes na região estão
envolvidos, nem de quantos outros estão em outras regiões do genoma.
Outro trecho de DNA no cromossomo 8 também mostrou
ter um papel na orientação sexual masculina – embora, novamente, o mecanismo
preciso ainda não seja claro.
Pesquisadores especularam no passado que genes
ligados à homossexualidade em homens podem ter sobrevivido na evolução porque
por acaso faziam as mulheres que os portassem mais férteis. Esse pode ser o
caso para os genes na região Xq28, pois o cromossomo X é passado aos homens
exclusivamente por suas mães.
Michael Bailey, um
psicólogo da Northwestern University em Illinois, demonstrou as descobertas na
reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência em Chicago
nesta quinta-feira. “O estudo mostra que há genes envolvidos na orientação
sexual masculina,” disse ele. O trabalho ainda não foi publicado, mas confirma
os achados de um estudo menor que despertou polêmica em 1993, quando Dean
Hamer, um cientista do Instituto Nacional do Câncer dos EUA, investigou as
árvores genealógicas de mais de 100 homens gays e descobriu que a
homossexualidade tende a ser herdada. Mais de 10% dos irmãos de homens gays
eram também gays, comparados a cerca de 3% da população em geral. Também tios e
primos homens do lado da mãe tinham uma probabilidade maior que a média de
serem gays.
A associação ao lado materno da família levou Hamer
a investigar mais de perto o cromossomo X. No trabalho seguinte, ele descobriu
que 33 de 40 irmãos gays herdaram marcadores genéticos similares na região Xq28
do cromossomo X, sugerindo que genes cruciais residiam ali.
Hamer enfrentou uma tempestade quando seu estudo
foi publicado. A polêmica se deu em torno das influências de natureza e cultura
[nature/nurture] sobre a orientação sexual. Mas o trabalho também despertou
expectativas mais dúbias sobre um teste pré-natal para a orientação sexual. O
[tabloide sensacionalista] Daily Mail deu como manchete “Aborto é esperança
depois de ‘descobertas de genes gays’”. Hamer alertou que qualquer tentativa de
desenvolver um teste para a homossexualidade seria “errada, antiética e um
terrível abuso da pesquisa”.
O gene ou genes na região Xq28 que influenciam a
orientação sexual têm um impacto limitado e variável. Nem todos os homens gays
no estudo de Bailey herndaram a mesma região Xq28. Os genes não eram nem suficientes
nem necessários para tornar qualquer desses homens gays.
O pensamento falho por trás de um teste genético
para a orientação sexual é claro do ponto de vista dos estudos com gêmeos, que
mostram que o gêmeo idêntico de um homem gay, que carrega uma réplica exata do
DNA de seu irmão, tem mais chance de ser hétero do que gay. Isso significa
que mesmo um teste genético perfeito que escolhesse todos os genes associados à
orientação sexual seria ainda menos efetivo que jogar uma moeda.
[Eu não teria tanta certeza disso – o geneticista
Caio Cerqueira e outros colegas meus, por exemplo, desenvolveram um cálculo de propensão
de ter certo tom de pele em humanos modernos e neandertais baseado nos vários
genes que influenciam a cor da pele (ver http://lihs.org.br/caio
), que é uma característica complexa e multifatorial também. E o teste é
considerado melhor que apenas jogar uma moeda. O caso é que usar o teste para
propósitos racistas seria tão errado quanto usar um possível teste de propensão
à homossexualidade para propósitos homofóbicos ou eugenistas.]
Enquanto os genes de fato contribuem para a
orientação sexual, outros fatores múltiplos desempenham um papel maior, talvez
incluindo os níveis de hormônios aos quais um bebê é exposto dentro do útero. “A
orientação sexual não tem nada a ver com escolha”, disse Bailey. “Encontramos
evidências para dois conjuntos [de genes] que afetam se um homem é gay ou
hétero. Mas não é completamente determinante; há certamente outros fatores
ambientais envolvidos.”
No ano passado, antes que os últimos resultados
fossem divulgados, um dos colegas de Bailey, Alan Sanders, disse que as
descobertas não poderiam e não deveriam ser usadas para desenvolver um teste
para orientação sexual.
“Quando as pessoas dizem
que há um gene gay, é uma simplificação exagerada,” disse Sanders. “Há mais de
um gene, e a genética não é a história completa. Com o que quer que seja que os
genes contribuem para a orientação sexual, você pode pensar nisso como
contribuindo tanto para a heterossexualidade quanto para a homossexualidade.
[Os genes] contribuem para uma variação na característica.”
Qazi Rahman, um psicólogo
no King’s College London, disse que os resultados são valiosos para entender
melhor a biologia da orientação sexual. “Isso não é controverso nem
surpreendente, e nada com que as pessoas devessem se preocupar. Todas as
características psicológicas humanas são herdáveis, isto é, têm um componente
genético”, disse. “Os fatores genéticos explicam de 30 a 40% da variação entre
as orientações sexuais das pessoas. Entretanto, não sabemos se esses fatores
genéticos estão localizados no genoma. Então precisamos de estudos que ‘acham
genes’, como este de Sanders, Bailey e outros, para ter uma ideia melhhor de
onde os genes em potencial para a orientação sexual podem estar.”
Rahman rejeitou a ideia de que a pesquisa genética
pudesse ser usada para discriminar pessoas com base em sua orientação sexual. “Não
vejo como a genética poderia contribuir mais para a perseguição, a
discriminação e estigmatização de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas
transgênero mais do que explicações sociais, sociais ou de que seria
comportamento aprendido. Historicamente, a perseguição e o tratamento horrendo
de grupos LGBT aconteceu porque políticos, líderes religiosos e sociedades viam
a orientação sexual como uma ‘escolha’ ou como algo devido à criação
inadequada.”
Steven Rose, da Open University, disse: “O que me preocupa
não é a que grau, se a algum, nossa constituição genética, epigenética ou
neural e o desenvolvimento afetam nossas preferências sexuais, mas o enorme
pânico moral e a pauta religiosa e política que cerca a questão.”
3rd of February

Sobre a sugestão de que homossexuais criem seu próprio tipo de família


Disseram-me que lésbicas e gays, em vez de agir para obter o mesmo direito a formar família que o resto da humanidade tem, deveriam construir seu próprio tipo de família. Eu discordo, e de três formas diferentes.

Primeiro, nós não somos ET’s. Nós temos as mesmas necessidades dos heterossexuais: compartilhar a vida com alguém para dirimir a solidão que ganhamos de presente ao nascer, ter quem escute nossos sonhos e aspirações e esteja lá quando vierem à fruição ou ao fracasso etc. Não, eu não quero “construir uma família nova”. Eu quero só ter minhas necessidades afetivas e sexuais amparadas pela lei onde necessário, e ignoradas pelo resto do mundo onde necessário, como qualquer outro homem ou outra mulher que goste de outros homens ou outras mulheres. Em outras palavras, a orientação sexual das pessoas não é diferença suficiente para apagar sua humanidade compartilhada – e isso inclui as necessidades demasiado humanas em torno da existência das famílias.

Segundo, porque já temos cem milênios de tentativa e erro da humanidade em fazer diferentes tipos de família. Muito dificilmente qualquer coisa que nós criássemos seria nova. Sinto muito, Novos Baianos, mas o que vocês fizeram não foi novidade nenhuma – se for verdade que viviam numa comuna poliamorista. Do ponto de vista de uma criança, pouco importa se os dois adultos do mesmo sexo que estão cuidando dela são irmãos ou um casal – quem já foi criança sabe muito bem o desinteresse de uma criança em relação ao que seus responsáveis fazem entre quatro paredes. Desinteresse? Talvez eu devesse falar em horror, é a reação de muitos ao pensar em seus pais fazendo sexo. O curioso é que o horror em pensar no sexo dos pais não leva a leis proibindo que pais façam sexo, o que não é exatamente verdade para a aversão ao sexo gay, não é mesmo, Uganda e Rússia?

Terceiro, seria inútil fazer proposições de modelos de família para gays e lésbicas. Pelo simples motivo de que, antes de serem agrupados numa classe, gays e lésbicas são indivíduos que variam entre si tanto quanto quaisquer outros indivíduos. Entre nós há os de temperamento naturalmente monogâmico, e também os de temperamento poliamorista, ou sem compromisso, e todas as gradações neste continuum. Não adianta tentar fazer pessoas naturalmente propensas ao laço afetivo monogâmico se despirem de ciúmes em relações de poliamor. Não se força alguém a adotar um modelo de relacionamento ou de família que não ressoe com o que faz a pessoa confortável e feliz.

O problema dos tipos de família ao longo da História não é a diversidade – há tipos de família para todos os gostos. O problema é que nenhum até hoje foi incontroverso porque sempre houve quem tentasse fazê-lo compulsório. E eu prevejo que, num mundo onde os indivíduos têm liberdade, não haverá tal coisa de “modelo de família gay” – as famílias começadas por LGBT serão tão diversas quanto as famílias começadas por heterossexuais e cissexuais. Que o diga o Rei Salomão e suas 700 esposas, modelo bíblico de família (provavelmente antiético) ignorado por todos os ignorantes que acreditam possuir a fórmula da “família brasileira”, uma quimera tão fantasiosa quanto a maior parte de sua visão de mundo.

10th of September

Eugenia contra gays?


Invocar terapias gênicas e eugenia sempre que se fala em genética da orientação sexual equivale a invocar evangelização de índios sempre que se fala em cultura.
Se quer se focar no mau uso do conhecimento genético, não venha ignorar que o conhecimento sobre cultura também pode ser usado para o mal.
Conhecimento é uma ferramenta. Como uma lança, pode ser usada para alimentar sua família esquimó ou para assassinar seu vizinho (parafraseando Sagan).
Adotar um meio termo entre determinismo genético e determinismo cultural não é ficar em cima do muro, é fugir de uma falsa dicotomia a favor de uma compreensão mais adequada do que as pessoas realmente são. Porque as pessoas são uma coisa definida, e não semi-deuses inefáveis, indescritíveis e impossíveis de entender.
Como disse Chomsky, não é desesperador que tenhamos limites. O que não tem limite não se define, não se organiza e não existe. E a visão de que o ser humano é uma tábula rasa é a visão de um ser humano que não existe.
P.S.: A possibilidade biológica de transformar negro em branco já existe. Por que ninguém está em pânico nem acusando a ciência?
P. P. S.: Preocupação bioética bem mais real que eugenia contra gay é a quantidade de meninas que bota silicone por pressão do sexismo dos outros.