28th of September

Resenhando Jesus


Me pediram para ler o pensamento de um tal de Jesus de Nazaré e avaliar. Eu gostei da parte sobre não fazer aos outros o que não se quer para si, mas isso, com todo respeito, é repetição do que outros pensadores mais antigos, como Sidarta Gautama, disseram antes. A parte sobre todo mundo que não acreditar cegamente nele ir para um “lago de fogo”, e a parte em que ele pede para abandonar a família para segui-lo, bem, essa parte eu achei bem anti-família e anti-humanista. Não é tão bom quanto Sócrates ou Epicuro de Samos, e não vejo nenhum desses dois amaldiçoando uma figueira por não dar figos fora de estação. Dou nota 6.
21st of August

“Ímpio”, de Fábio Marton – razões para ler


Também publicado no Bule Voador.

Quando, no começo deste ano, soube que um ateu brasileiro estava lançando um livro (Ímpio, O Evangelho de um Ateu – Memórias; editora Leya, 2011), confesso que minha primeira reação foi um pouco de inveja. ‘Estou neste negócio que reluto em chamar de ciberativismo ateu há pelo menos sete anos, como é que nunca nem topei com este cara antes?’, pensei. É, pura mesquinharia minha. A partir de abril, notícias do lançamento vieram da imprensa e dos bastidores das listas de email dos blogs, especialmente do pessoal do Pavablog. Em maio, o autor, Fábio Marton, entrou em contato com o Bule Voador procurando alguém que resenhasse o livro. Ofereci-me, e, entre procrastinações e distrações, apresento esta resenha com algum atraso.
Certo entusiasmo da comunidade secularista não arrefece desde as publicações dosbestsellers de Dawkins, Dennett, Hitchens e Harris na década passada. Nos meandros das complexas razões sociológicas por trás do sucesso editorial desses autores no ocidente, alguns podem apontar para o 11 de setembro de 2001 (WTC), o sete de julho de 2005 (Londres) e agora algumas ilações podem ser extraídas do caso Breivik em Oslo/Utoya. Mas, cá entre nós, isso tudo, com todo o respeito, é coisa de gringo.
Se você quer entender o que é ser ateu no Brasil e em suas subculturas, os ‘quatro cavaleiros’ e seus pajens (Stenger, Onfray, Comte-Sponville, etc.) são de pouca ajuda. Se você, assim como eu, ficou com um pé atrás quando soube do livro do Marton, você está tão profundamente enganado quanto eu estive. Está sendo tão arrogante e idiota quanto eu fui. Porque o livro do Marton é, digo sinceramente, um galardão para todos nós.
Da vida de um gordinho nerd cavando túneis para Marte a um adulto capaz de uma prosa que vai de um divertido sarcasmo a uma sinceridade crua, demasiadamente humana, Marton nos ensina muito sobre a vida do evangélico que vota em Marcelo Crivella e comparece à Marcha da Família de Malafaia. Mas de um jeito tão terno que toda a raiva que você tem deles desaparece, dando lugar a uma compreensão empática que deveria ser, afinal de contas, a posição de uma mente esclarecida e dona de si.
O que é falar em línguas? Quem foi João Ferreira de Almeida? O que é ser “neopentecostal”, e como é vista a igreja de Edir Macedo (mencionada no livro ludicamente de forma similar à que os personagens de Harry Potter falam do Lord Voldemort – “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”) é vista entre os evangélicos? O livro é informativo neste e em outros pontos, principalmente nas páginas negras que fecham cada parte conforme o Fábio vai crescendo, tão desajeitadamente quanto suas ideias perspicazes em seu ambiente familiar.
Alguns pontos deixam a desejar: depois da puberdade o Fábio do livro parece esquecer seu irmão Beto. Também parece um pouco tímido para nos informar se a prece que fez tantas vezes a Deus é atendida ou não depois do ateísmo, deixando algumas pistas e obrigando o leitor a tirar suas próprias conclusões.
Dependendo da sua idade, você vai ter a prazerosa experiência de reviver com Marton o que você fazia quando houve o eclipse solar de 1994, ou o que aconteceu com sua família durante o Plano Collor. Também vai ter a oportunidade de revisar suas razões para crer no que você acredita, não só sobre Deus, mas sobre a vida e você mesmo. Se você é ateu, vai se sentir um amigo do Fábio. Se você é evangélico, o livro será um desafio, porque Fábio te conhece mais do que você imagina.
De Osasco e Curitiba para todo o Brasil, Ímpio é leitura salutar para todo ateu brasileiro, e um desafio agradável para quem ainda acredita que o mundo é regido por uma versão gigantesca de nós mesmos. Fui da inveja à admiração na prosa do autor, do riso às lágrimas e da arrogância à humildade.
E é exatamente isso que estamos precisando, uma leitura tupiniquim das grandes questões, com a leveza de uma pessoa que como eu e você estava lá, naquele tempo e naquele lugar, quando os Mamonas Assassinas apareceram. Recomendadíssimo.
Título ÍMPIO – O EVANGELHO DE UM ATEU: MEMORIAS
Autor FABIO MARTON
Editora LEYA BRASIL
ISBN 8562936316, 9788562936319
Num. págs. 224 páginas
Preços BuscaPé
8th of July

O que Darwin pensava sobre Deus


Não é raro que alguns religiosos, sedentos por encontrar autoridades científicas que compartilhem de suas opiniões religiosas, representem mal a opinião de figuras famosas das ciências. Não é raro que Einstein, que disse que a ideia de um deus pessoal é pueril, seja falsamente retratado como teísta fervoroso. O mesmo ocorre com Darwin.

Cita-se a autobiografia de Charles Darwin como uma evidência desta suposta crença, porém, ressalvas devem ser feitas quanto a este livro. A primeira delas é que, obviamente, havia pressão social vitoriana contra qualquer manifestação por parte dele que fosse contra o status quo, a mesma pressão que em parte explica a demora do naturalista para publicar suas ideias. A outra ressalva à autobiografia é bem conhecida e é dita na biografia de Darwin escrita por Desmond e Moore (“Darwin – A vida de um evolucionista atormentado”): Henrietta, filha de Darwin, censurou extensamente da autobiografia qualquer sinal de divergência com o pensamento vitoriano.

O que dizem três sociólogos (John Bellamy Foster, Brett Clark e Richard York) num livro publicado em 2008, que põe uma pedra na questão tanto quanto é possível, pois trata de um evento do ano anterior à morte de Darwin, é isto:

“Em 28 de setembro de 1881, Darwin recebeu um grupo de livres-pensadores para jantar em sua casa, Down. Edward Aveling (…) e o proeminente materialista científico alemão Ludwig Büchner estavam entre os comensais. Na discussão que se seguiu, Darwin admitiu que ele havia abandonado completamente o cristianismo com 40 anos de idade, mas que era agnóstico quanto à existência de Deus. (…)

Enquanto Darwin se focou no mundo material e nas leis fixas da natureza, reconheceu que a “história falsa do mundo” presente no Antigo Testamento e outros livros sagrados não poderia ser confiada. Ele rejeitou a revelação divina e sustentava que era irracional acreditar em milagres. Em sua Autobiografia, comentou: “Eu gradualmente vim a desacreditar no Cristianismo como uma revelação divina.” Ele achava que faltava evidência para as escrituras, e finalmente “a descrença se instalou em mim numa taxa muito lenta, mas estava por fim completa. A taxa foi tão lenta que não senti nenhuma aflição, e não duvidei nem por um único segundo de que minha conclusão estava certa.””

Critique of Intelligent Design – Materialism versus Creationism from Antiquity to the present. Monthly Review Press, 2008. Páginas 125 e 126.

23rd of May

21 de maio e a Esfinge de Morgan: por que previsões religiosas são um fracasso


Ninguém “desaparatou” nem foi “arrebatado”. O mundo não acabou, não vai acabar em outubro, muito menos em 21 de dezembro de 2012. Sabe por que? Porque o raciocínio mitológico e religioso é um fracasso absoluto e completo quando diz respeito a prever coisas independentes da arrogância imaginativa da mente humana. Estou falando tanto de coisas grandiosas quanto de coisas simples como… orquídeas.
Charles Darwin, num ofício que muitos taxariam como inútil, estudou em detalhes as orquídeas, flores do grupo das plantas monocotiledôneas que encantam pela beleza e variedade. Certa vez, em 1862, Darwin recebeu do horticulturista James Bateman um pacote contendo a orquídea Agraecum sesquipedale, uma espécie que só existe naturalmente em Madagascar. Já versado no assunto e já elaborando sua teoria de que as flores das orquídeas frequentemente têm formas, cores e cheiros que refletem a seleção natural provocada por insetos polinizadores, o naturalista notou que a flor exibia um longuíssimo tubo produtor de néctar, com até 35 centímetros.
“Céus, que inseto pode sugá-lo?”, perguntou Darwin numa carta a um amigo. Inseto? O atual recorde de maior inseto é da larva do apropriadamente chamado besouro-Golias (Goliathus goliatus), com 11 centímetros. Como Darwin poderia saber que aquela estrutura tubular longuíssima da orquídea era alvo da alimentação de um inseto, e não de algum outro animal, como um morcego com uma língua tão longa quanto o tubo do nectário? Darwin foi mais longe: num livro, disse que este tubo era o alvo da tromba (probóscide) de uma mariposa desconhecida, pelas características que esta poderia ter criado na flor através da seleção natural, e a flor também agindo como pressão seletiva nesta suposta mariposa, alongando sua probóscide. Este processo de mútua pressão seletiva é conhecido como coevolução e é a explicação para a miríade de formas, cores, cheiros e sabores (baunilha um deles) das orquídeas.
8th of May

Vulnerável como um filósofo na savana: Plantinga tenta atacar ateísmo com evolução


Autor: Eli Vieira

O filósofo cristão Alvin Plantinga elaborou mais um argumento contra o naturalismo/materialismo ateu, porque parece que os anteriores não adiantaram. Ele alega que a teoria da evolução e o naturalismo são como “água e óleo”. Ele lembra, corretamente, que a maior parte dos cientistas atualmente é naturalista, inclusive os biólogos (“biólogos evolucionistas” é algo já meio pleonástico), mas parece que esses cientistas sofrem de algum mal cerebral terrível, por serem ao mesmo tempo evolucionistas e naturalistas, quando as duas posições são logicamente incompatíveis entre si, coisa que, obviamente, somente iluminados como Plantinga são capazes de enxergar.
Você pode ler tudo o que ele diz no blog Coletivo Ácido Cético. O filósofo parece imitar seu colega também cristão William Lane Craig, ao alegar que a maioria dos cientistas são irracionais. No caso de Craig, como mostrou o filósofo Michael Martin quase 15 anos atrás, a implicação lógica de sua epistemologia do Espírito Santo é que a maior parte da humanidade é irracional ao nível dos zumbis. Isso não impede, é claro, que Craig continue repetindo os mesmos argumentos até hoje. No caso de Plantinga, a implicação é que a maior parte dos cientistas é mais irracional que uma cobra comendo o próprio rabo.
O argumento de Plantinga pode ser resumido no exemplo que ele mesmo usou, do sapo que captura uma mosca. Em termos evolutivos, argumenta ele, é tão vantajoso evolutivamente (ou seja, adaptativo) que o sapo creia que a mosca seja mesmo uma mosca quanto que ele creia que a mosca é uma pílula capaz de transformá-lo num príncipe. O que interessa para a evolução é que o sapo que capturar a mosca terá vantagem em sobrevivência e reprodução. Se a seleção natural não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do sapo, também não enxerga a diferença entre crenças verdadeiras e falsas do nosso cérebro primata, tornando improvável que uma crença no naturalismo seja verdadeira, pois as nossas capacidades cerebrais teriam sido moldadas pela evolução de qualquer forma como estão, ainda que todas as nossas crenças fossem falsas (Plantinga até ensaia um cálculo de probabilidades, extremamente questionável, mas não vou me dar ao trabalho de atacar isso). Em poucas palavras, a evolução são sabe o que é a verdade, porque a verdade não interessa para as chances de sobrevivência e reprodução.
24th of March

O aniversário e a supernova


660px-Supernova-1987aGosto de pensar no aniversário como mais uma volta completa em torno do Sol com a espaçonave Terra, tendo início no momento em que deixei o berço biológico formado pela junção entre o corpo da minha mãe e o meu: placenta e cordão umbilical. Acho que estar ciente disso faz a data do aniversário da gente um evento bem mais inspirador do que meramente colocar mais um número nos registros. Estrelas se sacrificaram para tudo isso estar aqui. Um lento processo de consolidação de uma nuvem de gás criou o sol, os elementos mais pesados ao redor, nascidos em supernovas diversas, prestaram tributo gravitacional a esta estrela comum formando os planetas. Globos maiores de matéria como a Terra foram bombardeados durante milhões de anos, tendo um dos maiores choques criado a Lua. O tempo cura tudo, até bombardeios de asteroides. Estando devidamente curada pelo tempo e pela gravidade, a Terra passou a se resfriar com sua atmosfera eletronicamente redutora. Este ambiente criou os blocos de moléculas orgânicas, que em processos de seleção e outros processos complexos que mal compreendemos geraram a vida. Bilhões de anos de vida se passam, com formas belas inteiras vivendo por centenas de milhões de anos. Quantas histórias os inúmeros organismos das inúmeras espécies de ictiossauros e pterossauros viveram, para nunca mais serem contadas? Pouco depois de sua estreia, a vida começa a mudar a atmosfera, tornando-a oxidante e criando um escudo de ozônio. Açoites do clima e da geologia desafiam a vida, moldando-a como um escultor molda um bloco de mármore. Somente grande violência pode criar grande beleza, neste contexto. Mas eis que a vida também descobre que o carinho é agente transformador, tão poderoso quanto a violência ou ainda mais. Eventualmente, centenas de milhares de anos atrás, surge uma espécie capaz de observar a natureza como um imenso livro que o tempo rasgou e espalhou sua história em pedacinhos por todos os lados. Séculos de evolução cultural juntando esses pedacinhos levam a teorias que pudessem explicar e prever o funcionamento do mundo que nos deu à luz. Exatamente um mês antes de eu nascer, em 23 de fevereiro de 1987, atinge a Terra a luz de uma supernova que viajou 51,4 quiloparsecs até aqui (http://en.wikipedia.org/wiki/SN_1987A). Esta observação da morte de uma estrela mostra-se salutar para a descoberta de que cada um dos átomos que compõem nossos corpos, com exceção do hidrogênio, foram fabricados em fusões nucleares nos cálidos corações das estrelas. A supernova SN 1987A podia ser vista a olho nu no céu do hemisfério sul. Um mês depois, neste hemisfério, eu nasci. E lá se vão 24 voltas em torno do Sol desde então. É bom estar aqui.

31st of December

"Paradoxo da pedra"? Por favor… Criar "uma pedra que um ser onipotente não pode levantar" é tão lógico quanto criar "um planeta que gira em torno de um satélite", ou mesmo um "quadrado redondo". Você chama isso de argumento??? Fala sério…


Falo sério. Assim como outros filósofos que já trataram deste paradoxo (ex: Patrick Grim. Impossibility Arguments. In Michael Martin (ed.). Cambridge Companion to Atheism. Cambridge University Press, 2007). Ninguém está criando pedra alguma – aliás, o paradoxo é justamente esse: pode um ser onipotente criar uma pedra que ele próprio não possa levantar?

Isso é um paradoxo porque não pode receber sim ou não como resposta. Se o ser onipotente pode criar tal pedra, sua onipotência será negada pela propriedade da pedra ser imóvel. Se ele não pode criar, novamente a onipotência é negada.

Isso não tem nada a ver com pedras ou deuses, isso apenas mostra que não existe uma habilidade absoluta e perfeita sem contradições internas a ela.

A onipotência, por ser autocontraditória, é impossível. É como falar em círculo com quatro arestas ou em quadrado com infinitos vértices: só serve pra impressionar a mente através da quebra da lógica. Isso se dá porque somos capazes de construir frases sintaticamente aceitáveis com contradições internas.

Ter capacidade de fazer qualquer coisa é um atributo autocontraditório porque esbarra em consequências possíveis que negam este mesmo atributo.

Discuti este assunto com teístas e eles tentaram a escapada de dizer que criar uma pedra que não se pode mover é uma tarefa ilegítima. Mas não é. Fazer um quadrado redondo pode ser uma pseudotarefa, mas Deus criar uma pedra que ele próprio não consegue mover não tem nenhum impedimento. (O impedimento está na noção absurda da onipotência, ou seja, num atributo inventado por algumas pessoas para um ser imaginário que querem que exista.)

Não há contradição interna em um agente criar uma pedra que não consiga levantar ou uma mente conhecer um livro cujo conteúdo ignora. A contradição interna está nos conceitos de onipotência e onisciência. Tentar desqualificar as tarefas dos paradoxos como impossíveis só pode ser feito numa petição de princípio que tem a própria onipotência/onisciência como axioma.

Não se define uma pedra imóvel ou um livro incognoscível em função de nenhuma outra entidade que não seja respectivamente a pedra e o livro. Se “imóvel” e “incognoscível” fazem referência a ações de outras entidades, isso é facilmente resolvido substituindo-se “imóvel” por “fixo” e “incognoscível” por “críptico”. É apenas uma forma semântica de lembrar que essas são propriedades desses objetos imaginários, e que portanto tentar descartar sua possibilidade em função de uma suposta onipotência ou onisciência é apenas petição de princípio.

Em termos um pouco mais formais, os atributos “onipotência” e “onisciência” contêm no prefixo “omni” um quantificador universal. No caso da onipotência, este quantificador universal diz respeito ao conjunto de todas as tarefas possíveis.

Conceito de onipotência:

Capacidade tal que permite ao agente A executar qualquer tarefa T.

T é uma variável que se refere ao conjunto {T1, T2, T3, T4…}

Analisando o conjunto, podemos dizer que há tarefas que não estão contidas nele, como a tarefa de desenhar um círculo quadrado. É uma não-tarefa porque contém contradição interna.

Por outro lado, “criar uma pedra que não se consegue levantar” (T1), “conhecer um livro cujo conteúdo se ignora” (T2), são tarefas legítimas pertencentes ao conjunto T.

E também são tarefas contidas neste conjunto “mover qualquer pedra” (T3) e “conhecer o conteúdo de qualquer livro” (T4).

Um agente qualquer pode executar T1, mas nisso fica impossibilitado de executar T3. E pode executar T2, mas nisso fica impossibilitado de executar T4. Assim se dá com agentes possíveis. Agentes impossíveis são aqueles capazes de executar TODAS essas tarefas.

Portanto onipotência contém uma contradição interna, que é delegar tarefas incompatíveis para um mesmo agente. Em outras palavras, os teístas sustentam que Deus é necessariamente onipotente, em todos os mundos possíveis, a onipotência se torna autorrefutada por recrutar tarefas incompatíveis do conjunto de tarefas possíveis.

Posso até formalizar em Modus Tollens.

p = Deus pode executar toda e qualquer tarefa.
q = Deus pode criar uma pedra que não consegue levantar (absolutamente fixa).

p -> q (p implica q); ~q (negando q) conclui-se ~p (nega-se p, “não-p”)

Ou de modo completamente formal:

p->q
~q
____
~p

Para ilustrar melhor eu vou elaborar outros problemas (talvez complique, talvez solucione). A intenção é mostrar que o problema da autocontradição da onipotência é abstrato.

1) Deus pode criar uma paisagem tão bela que ninguém possa apontar defeitos nela?

Tarefas envolvidas:
1a – Criar qualquer tipo de paisagem.
1b – Criar uma paisagem perfeitamente bela.
1c – Apontar defeitos em qualquer paisagem.

1a e 1c são tarefas incompatíveis. A onipotência recruta ambas em sequência ou ao mesmo tempo.

2) Deus pode criar mundos em que sua intervenção é impenetrável?

Tarefas envolvidas:
2a – Criar qualquer tipo de mundo.
2b – Intervir em qualquer tipo de mundo.
2c – Criar mundos impenetráveis para intervenção.

2a e 2b são tarefas incompatíveis.

Poderíamos continuar ad infinitum mostrando esse tipo de incompatibilidade entre tarefas possíveis (portanto tarefas que devem necessariamente ser alvo de um ser que pode fazer tudo). Pergunte-me qualquer coisa.

4th of December

Cristianismo: falso e corrupto


Faço uso de meu direito de livre expressão para defender abaixo, o mais sucintamente possível, duas teses sobre o cristianismo: de que é epistemologicamente falso e moralmente corrupto.

Epistemologicamente falso,

porque alega que o universo foi produzido pela mente de um fantasmão amorfo externo ao universo, que especialistas como Leonard Mlodinow e Stephen Hawking dizem ser absolutamente desnecessário para ter uma perspectiva hipotética plausível da origem deste universo. Posso citar também Victor J. Stenger e – por que não – até Pierre-Simon Laplace séculos atrás, que disse a Napoleão que não necessitava de deus algum para explicar a mecânica celeste (a que ele melhorou a partir do trabalho de Isaac Newton, que conscientemente abandonou a ciência para se dedicar ao misticismo no começo de sua terceira década de vida).
É curioso que o suposto todo-poderoso do cristianismo seja todo impotente dentro de uma perspectiva racional de compreensão do universo.
E não é só isso… o cristianismo faz mais um sem-número de alegações extraordinárias sobre o mundo, para as quais implora que baixemos os requisitos céticos que aplicamos às alegações extraordinárias dos xamãs e videntes dos oráculos de outras tradições culturais. Não podemos aceitar Ganesha com sua ridícula tromba de elefante, mas temos que aceitar um judeu levantando da tumba depois de sangrar e apodrecer durante três dias inteiros. Não podemos aceitar a montanha faminta do povo Aymara, mas temos que aceitar mundos mágicos em que os "justos" gozarão do gáudio eterno de bajular o tal fantasmão amorfo.
Não há base alguma, comum a qualquer mente não assolada por doutrinação anticrítica com custo emocional, que estabeleça as alegações fundamentais do cristianismo sobre seu Deus e seu homem ressurgido, Jesus, acima das alegações dos muçulmanos sobre Maomé viajar num cavalo voador.  

Moralmente corrupto,

porque está estacionado na ideia anti-humanista de que é bom e belo que Jesus, presumido inocente, pague por crimes de outrem: no caso, o resto da humanidade. Este ponto jamais arredará das concepções dominantes de cristianismo. A corrupção moral do cristianismo é evidente, também, em sua plasticidade extraordinária durante a História, servindo aos justos mas também aos escravocratas, misóginos, racistas, violentos, homofóbicos e sectários das mais diversas estirpes culturais; o que comicamente contrasta com sua alegação de estar trazendo consolação aos aflitos. Corrupção moral também é o nome que se dá ao comportamento de intolerância à crítica, tomando qualquer menor questionamento sobre suas alegações insubstanciosas sobre o universo como uma grave ofensa ou crime, expondo seus críticos honestos a uma horda de doutrinados com sede de linchamento moral. Como o deísta Voltaire, viro a cara diante do símbolo horrível da cruz, que deixa conspícua a inclinação do cristianismo de se comportar como um culto à morte enquanto alega ser preocupado com a vida. Repudio também a noção de amor castrado que chamam de ágape, que nada mais é que uma falsa panaceia para o indivíduo. prometeu_fueger_1817Por todas as luzes que iluminaram nossa espécie nestes 200 mil anos de existência, digo que jamais responderei ao cristianismo usando de seu expediente frequente de apelo à irracionalidade e à força. Minha pena está em riste, mas não preciso de espada alguma, que o mesmo Jesus diz ter vindo para trazer. Vim para trazer a pena, e estou preparado para compartilhar uma sociedade com pessoas que se subscrevem a tal sistema moralmente corrupto e falso, lutando apenas pelo direito de ter espaço nesta sociedade e usar da habilidade crítica e racional que milhões de anos de sofrimento evolutivo deram de presente à humanidade e o cristianismo insiste em não usar. Eu perdoo a meus entes queridos cristãos por seu cristianismo, e, se eles praticam o que pregam, me perdoarão por meu humanismo secular, ainda que na minha opinião devessem louvá-lo em coro comigo. Estou disposto também a colaborar, inclusive intimamente, com qualquer cristão, porque para mim pessoas antecedem suas ideias. Bem-aventuradas são as pessoas, pois são mais importantes que as ideias falsas e corruptas que frequentemente trazem consigo.  

“Ergo vivida vis pervicet et extra
processit longe flamentia moenia mundi
atque omne immensum peragravit mente animoque.”
Lucrécio, De Rerum Natura, Livro I, linha 72.
18th of February

10 características diagnósticas de mediocridade intelectual


Com base nas minhas experiências em debates, postulo os 10 pontos a seguir como as principais características do medíocre intelectual:

1 – Confusão entre questões de fato e questões de direito.

2 – Uso de evidência anedótica por não saber o que é fonte confiável.

3 – Uso de inversão do ônus da evidenciação ao tentar afirmar uma crença própria.

4 – Recorrência a falácias ad populum, ad verecundiam, ad antiquitatem, ad hominem e tu quoque.

5 – Julgamento de obras intelectuais baseado em adjetivos elementares como “bom”.

6 – Noção pueril de fenômenos que deveriam ser entendidos estatisticamente.

7 – Deixar-se escravizar pelo viés da confirmação.

8 – Pensar que quantidade de leitura é sinal de sofisticação intelectual.

9 – Uso contorcionista de ad hoc para proteger-se de críticas.

10 – Cultuar indivíduos em particular como se um indivíduo fosse capaz de representar tudo o que é sábio e correto no espaço epistêmico e ético da Humanidade.

11th of September

Discurso do orador


Colação de grau em Biologia, UnB – formandos 1º/2009. Patrona: Cynthia Kyaw. Paraninfa: Heloísa Sinátora Miranda.

Você já se perguntou por que motivo os diamantes valem tanto?

Será que o descobridor do diamante pensou que “uma pedra tão cara a meus olhos tem que valer os olhos da cara”?

A maioria dos mortais não conseguiria distinguir um diamante de um pedaço de vidro. Mas há motivos para dar mais valor ao diamante que ao vidro:

Podemos citar a raridade dos diamantes, ou sua idade (que geralmente excede um bilhão de anos), podemos citar sua bela capacidade de refratar a luz, e outras características que fazem os diamantes serem pedras singulares. Condições de alta temperatura e pressão são necessárias para fazê-los crescer, e eles têm a maior dureza entre todos os materiais que conhecemos. Eles são o produto de uma história singular.

Em oito de agosto de 2005, às nove horas e quarenta minutos, eu me encontrava sentado no chão nem sempre limpo do corredor de salas de aula conhecido como “corredor da morte”. (Quem diria… aqui biólogos são formados no corredor da morte.) Em 20 minutos teríamos nossa primeira aula de Citologia, a primeira aula do nosso curso de graduação em ciências biológicas. Ao meu lado, começando uma conversa acanhada, típica de quem se depara com um estranho, estava uma pessoa que mais tarde se tornaria um dos mais caros amigos que eu poderia querer.

Cada um dos colegas aqui presentes tem histórias similares para contar o que aconteceu nos últimos anos em meio ao concreto desta universidade sem muros.

O motivo de estarmos reunidos aqui é que passamos pelas condições ideais que fazem crescer biólogos. Nossos mestres nos pressionaram, e junto a nossas famílias, amigos e amores, nos acalentaram na exata temperatura de seu afeto, atenção e paciência.

O que fizemos durante esses anos? Aprendemos, por exemplo, que os mesmos átomos que fazem um diamante fazem também a estrutura que sustenta nossos corpos; e esses átomos nasceram no cálido coração das estrelas. Aprendemos que para cada líquen, para cada musgo, para cada barata, também existe uma história.

Ideias, e não concreto, são o material mais duro que sustenta esta universidade. Se trouxemos nossos corpos até aqui, foi por força das ideias que amamos: sonhos, projetos, desejos, cercados de ideias. Na profundidade do tempo e na vastidão do espaço, encontrar um lugar dedicado a ideias, entre elas a história natural dos seres vivos, é uma coisa maravilhosa por si só. O fato de que não ficaremos aqui eternamente só torna tudo mais precioso.

Não, não foi perfeito. Alguns disseram adeus, e voltaram no dia seguinte. Outros disseram “até logo” e se foram para sempre. Mas são justamente as imperfeições, as impurezas, que dão cores exuberantes aos diamantes; então não lamentemos por elas, são também parte de nossas histórias singulares.

Um biólogo olha para flores coloridas, e vê uma história de sedução entre dois grandes reinos vivos. Vê num lago uma completa economia da natureza; numa doença, uma batalha de egoísmos inconscientes; e numa lágrima, uma amostra do berço em que ele mesmo despertou.

Viver estudando o que vive é tanto assistir a uma sucessão de espetáculos quanto uma experiência autobiográfica. Estamos lendo um livro em que nós mesmos somos personagens, e nos emocionamos profundamente ao ler e escrever juntos esta história singular.

Eu não trocaria o que vivi com vocês nem por todos os diamantes do mundo.

***

Eli Vieira

Escrito em abril de 2009.

Lido na noite de 10 de setembro para os formandos biólogos da UnB.