19th of julho

Por que a Igreja Católica não é uma força para o bem


7th of junho

Curiosidade


Para quem observar de longe, meu trabalho parece chato: lá estou, em quantidades de horas variáveis do meu dia, às vezes zero, às vezes 14 horas, mexendo com códigos num computador, lendo textos soporíferos cheios de jargão. Seria meio difícil para um observador achar o que tem de biologia em ficar de olho vidrado no computador ou anotando coisas. E, sinceramente, às vezes é chato sim, e minha quantidade de trabalho diário depende bastante do meu humor: ou seja, se um prazo tá começando a apertar, o desespero vai me transformar em workaholic.
Mas o pequeno inconveniente de fazer coisas que eu já fiz, como editar planilhas de 200 mil linhas, contar cabelinho de mosca, e tirar números de centenas de artigos que se esforçam em escondê-los no texto, é eclipsado por uma luz, meio de soslaio, que só se vê se focar a atenção.
Não é um canhão de luz gigantesco, não. É uma frestinha, só. Que deixa passar um brilho tremeluzente, meio vago, não tão brilhante que você não consiga ignorar, nem tão penumbroso que não possa te manter acordado à noite. Deram o nome de “curiosidade”, mas acho que o nome não faz jus. Curiosidade soa como uma coisinha boba, banal como, sei lá, usar crocs. Essa coisa não é nada disso. É meio ambígua, te chama com a promessa de um senso de propósito. “Deixa eu ver mais!”, você grita. “Só com esforço”, ela parece responder.
Trabalho com bactérias que infectam insetos, basicamente. Bactérias capazes tanto de matar quanto de dar vida, como uma espécie de deus Shiva infinitesimal. Às vezes parecem mais deuses gregos, submetendo os bichos aos seus caprichos: “que tal infectar uma espécie inteira de vespas, fazer com que se reproduzam sem necessidade de fecundação, ou que precisem estar infectadas com a gente para poderem se desenvolver como fêmeas?”, propõem, como comediantes decidindo o próximo esquete. “Que tal matar os machos enquanto são embriões?”, “Que tal só permitir que o sexo gere prole se os dois estiverem infectados?”, conspiram. Eu ouço, olho pela fresta. “Presta atenção naquilo ali”, me dizem os colegas, que já estavam observando antes de eu chegar, e eu vejo a bactéria indo de zero a 98% de prevalência na população de hemípteros em apenas 6 anos. Certamente uma doença virulenta? Não, as fêmeas infectadas têm mais filhos, vivem mais, crescem mais depressa e até suportam melhor o calor.
As conspiradoras unicelulares guardam a chave de como inimizade pode virar amizade. Parasitas virando mutualistas. Quando não parasitas se fingindo de mutualistas para barrar a entrada de outros parasitas. Tudo isso numa dança de milhões de anos num dos grupos mais diversos do planeta, e essas bactérias podem ter sido as responsáveis pela nascença de um grande número dessas espécies.
Mas não é só sobre bactérias e insetos, é sobre interações de agentes físicos complexos. Saber um pouco disso pode significar que você sabe algo sobre o fenômeno da vida, em qualquer lugar que ele acontecer, qualquer que seja sua natureza mais íntima. A fresta de luz é ambígua, porque ela te encanta com um quase nada, e não revela o todo que esse quase nada indica. A curiosidade – vá lá, usemos o nome tolo – também é meio parasítica, pois inflige custos, mas também é mutualística, concedendo pequenas vantagens. Chega um momento que você percebe que já não vive sem. Como um afídio, que não vive sem Buchnera, mas para isso renunciou a uma parte enorme de suas defesas imunológicas. Era só um passatempo no começo, agora pode bem ser uma razão pela qual vale a pena viver. Despido de um pouco da ingenuidade inicial, você percebe que pela fresta não vão passar todos os segredos, e que mesmo se passassem, não vão caber todos na sua cabeça. O parasita na história pode bem ser você, tentando sugar os humores de um enorme hospedeiro misterioso por uma fresta que na verdade é uma ferida, causada por você. Talvez só o velho hábito de ter tanta gana de querer saber como funciona que disseca, mata, e destrói o que queria entender.
Mas vale a pena tentar de novo, você se convence, e se senta lá, olhando para a fresta, um pouco perplexo, talvez menos perplexo do que originalmente, mas com uma gratidão imensa de ter tido a sorte de ver mais. E por mais que você consiga ignorar aquela luz fugidia e esquecer que ela existe de vez em quando, sempre que lhe vem novamente à mente é instantâneo sentir o que ela te deu e te acompanhará para a cova: uma imensa saudade, parafraseando o Russo, de tudo o que eu ainda não vi.
30th of maio

O preconceito de associar um sexo/gênero automaticamente a virtudes e vícios


1895/1900 (catálogo de von Gloeden)
O único critério confiável e respeitoso para julgar se alguém é mulher ou homem é a autoidentificação (que não é apenas uma declaração qualquer, mas uma consistente e fidedigna expressão de como a pessoa se sente e se vê).

Todos os outros critérios comumente usados falham:
nem toda mulher tem seios,
nem todo homem tem barba,
nem toda mulher tem vagina,
nem todo homem tem pênis (existem mulheres e homens trans, rotulados com um gênero com o qual nunca se identificaram intimamente; mulheres com agenesia vaginal e homens que perdem o pênis em acidentes),
nem todo homem tem voz grave,
nem toda mulher tem voz fina, etc.

É bom lembrar que usar “masculinidade” de forma honorífica, como um elogio ao caráter, é uma forma de sexismo. Assim como mudar propositalmente o gênero de um homem para o feminino em palavras de insulto, veiculando a ideia de que a feminilidade é uma coisa ruim ou infectada com a qual se pode ferir alguém. Não é uma virtude nem um vício ser mulher ou homem. É apenas um fato da natureza e da identidade das pessoas.

É normal que pessoas eroticamente atraídas por características ‘masculinas’ usem ‘masculinidade’ como elogio estético, mas só pode ser um fruto de uma valorização extrema ao masculino que alguém diga “este é homem!” ou pergunte “você não é homem, não?” quando quer se referir a virtudes como a coragem, que certamente não é atributo exclusivamente masculino, mas característica de parte da humanidade: as pessoas corajosas, que podem ser homens ou não.

Feministas criticam associações injustas de gêneros a virtudes e vícios, e tratamento desigual, pela óbvia injustiça que traz. Se você ainda insulta homens falando “olha como ela é brava” ou coisas similares, você pode até não se sentir sexista (não se sentir faz parte da razão do preconceito ser tão ubíquo), mas está reproduzindo e praticando o sexismo.

A única coisa que faz um homem ser “mais homem” é engordar. A única coisa que faz uma mulher ser “menos mulher” é emagrecer.

Além disso, existem pessoas que não se sentem nem uma coisa nem outra: se sentem algo entre homem e mulher, ou algo que não se encaixa numa categoria nem em outra, ou sentem que são as duas coisas ao mesmo tempo. Dada a variação da humanidade, não me surpreende que isso seja possível. Como tratar essas pessoas? Da forma que quiserem.

A essência da polidez não é seguir regras estanques, mas tratar as pessoas como elas gostam de ser tratadas.

11th of março

Agradecimentos à Sociedade Brasileira de Genética


Meus mais veementes agradecimentos à Sociedade Brasileira de Genética por se posicionar ao lado do pensamento crítico e científico, e ao lado da igualdade, coisa na qual a comunidade científica pode ser um exemplo por sua crescente receptividade a pesquisadores de todos os fenótipos e bases culturais.
Já passou o tempo do medo da eugenia e do determinismo genético, em que interesses escusos de preconceituosos e anti-humanistas poderiam sequestrar a voz da ciência e usar seu nome por causas que eram, em seu cerne, não apenas eticamente equivocadas, mas factualmente enganosas.
Estamos num tempo em que cientistas podem unir-se a filósofos, juristas, líderes de crenças e todos os que trabalham intelectualmente com rigor para a defesa da humanidade – toda ela, e não apenas parcelas, não apenas quem se encaixar nas médias estatísticas das curvas gaussianas. 
Nossos olhos, parafraseando Carl Sagan, estão voltados para as estrelas e o futuro, onde gerações que não mais lembrarão nossos nomes olharão de volta para um Pálido Ponto Azul, seu berço planetário, certamente gratos por todos aqueles que se levantaram contra as ideias segregacionistas que, muitas vezes vilipendiando o nome da família, falando em nome da família, tentaram separar a família humana.
Esta família começou há mais de 200 mil anos, na África, o que faz de todos nós afrodescendentes. Se podemos todos sentir saudades quando olhamos para a magnífica África, devemos em grande parte este conhecimento à genética.
Nesta era genômica nós geneticistas entramos no mundo das macromoléculas guardiãs dos segredos da vida com o mesmo deslumbramento de Alfred Russel Wallace na Amazônia e Charles Darwin na Mata Atlântica. Wallace se preocupava com justiça social. Darwin se preocupava com a abolição da escravidão. A SBG mostra que ressoa o legado desses e outros grandes das ciências biológicas tanto ao defender a curiosidade pela diversidade humana e suas bases genéticas e ambientais quanto por ecoar seu grito de esperança por justiça.
Hoje me sinto grato, orgulhoso e esperançoso por ser biólogo, geneticista e brasileiro.
Agradeço a esses geneticistas de talento pelas rápidas assinaturas na carta que virou manifesto oficial da SBG:

Francisco Mauro Salzano – UFRGS;
Rosana Tidon – UnB;
Lavinia Schüler Faccini – UFRGS;
Nilda Diniz – UnB;
Ana Letícia Kolicheski – University of Missouri;
Renato Zamora Flores – UFRGS;
Nelson Fagundes – UFRGS;
Maria Cátira Bortolini – UFRGS;
Claiton Henrique Dotto Bau – UFRGS;
Vanessa Rodrigues Paixão Côrtes – UFRGS;
Silviene Oliveira – UnB;
Vanina D. Heuser – Turku University;
Ligia Tchaicka – Universidade Estadual do Maranhão;
Andrea Marrero – UFSC;
Eliana Dessen – IB-USP;
Melissa Camassola – Universidade Luterana do Brasil;
Kátia Kvitko – UFRGS;
Charbel Niño El-Hani – UFBA;
Elise Giacomoni – UFRGS;
Carlos Menck – USP

Veja: Manifesto da Sociedade Brasileira de Genética sobre bases genéticas da orientação sexual

6th of março

Triste fim do Chorão (1970-2013)


Lamento muito pela morte do Chorão (músico da banda Charlie Brown Jr.). Meus pêsames à família. A reclamação dele da solidão, relatada pela prima, é de cortar o coração. Sônia Abrão (a prima dele) também relatou que ele dizia que o palco era a terapia dele, e essa era a desculpa que ele dava para não procurar ajuda profissional para suas dores psicológicas. Foi um erro que pode ter custado a vida dele, a meu ver. Eu acho que na nossa cultura existe uma certa frieza na forma como lidamos com a depressão alheia, muitas vezes consideramos uma frescura que poderia ser facilmente mudada pela pessoa que passa por isso, um inconveniente facilmente tratável com algumas doses de prazer. Mas o que pode ser mudado assim não é depressão, é apenas tristeza. Quem sofre com depressão sente uma anedonia, nenhum prazer faz mais sentido muitas vezes. Alguns passam dias sem ter forças para levantar da cama. Se uma das fontes do problema é uma sensação de solidão, nenhuma multidão de fãs vai substituir o contato psicológico íntimo de amar e ser amado e construir uma vida com sentido junto a outrem. Existem profissionais que podem auxiliar na minimização dos danos: terapeutas cognitivos, terapeutas comportamentais… Não posso dizer que se o Chorão tivesse feito terapia, tudo teria sido diferente. Mas estou sugerindo que, se nós nos sentimos impelidos a ajudar se alguém é ferido fisicamente ou perde um braço ou uma perna, também deveríamos ser tão ou mais solícitos ao menor sinal de que os ferimentos são psicológicos. Dor psicológica pode, sim, ser pior que perder um braço ou uma perna, especialmente se rouba anos, às vezes décadas, de uma vida. Nós todos estamos vulneráveis a isso, acidentes acontecem, conflitos de personalidade também, e fracasso de planos também. Se um perde o equilíbrio na vida, deve ser educado a tentar voltar a si de jeitos que de fato funcionam, e os outros, mais fortes, devem estar a postos para evitar as quedas. Muitas quedas não são culpa de ninguém, este mar é mesmo tempestuoso. Só nos resta ficar atentos, enquanto temos forças para estar de pé. R. I. P. Alexandre Magno Abrão, o Chorão (9 de abril de 1970 – 6 de março de 2013).

(Publicado também no meu Facebook.)

22nd of fevereiro

Resposta às declarações obscurantistas de Silas Malafaia sobre genética da homossexualidade


Homossexualidade é “comportamento e não genética”? E a Genética do Comportamento?

[CC-eng] Eli Vieira, Brazilian PhD student in genetics at the University of Cambridge, UK, refutes the allegations made by Silas Malafaia, millionaire evangelical preacher, about the origins of homosexuality.

==Referências==

Capítulo de Manual de Genética do Comportamento dedicado à Homossexualidade, citando mais de 50 referências científicas:

Dawood, Khytam, J. Michael Bailey, and Nicholas G. Martin. “Genetic and environmental influences on sexual orientation.” Handbook of behavior genetics (2009): 269-279. PDF: http://is.gd/Kbt2md

Artigos:

Bailey, Nathan W., and Marlene Zuk. “Same-sex Sexual Behavior and Evolution.” Trends in Ecology & Evolution 24, no. 8 (August 1, 2009): 439–446. doi:10.1016/j.tree.2009.03.014. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19539396

Savic, Ivanka, and Per Lindström. “PET and MRI show differences in cerebral asymmetry and functional connectivity between homo-and heterosexual subjects.” Proceedings of the National Academy of Sciences 105, no. 27 (2008): 9403-9408. http://www.pnas.org/content/early/2008/06/13/0801566105.abstract

Kerr, Warwick Estevam, and Newton Freire-Maia. “Probable inbreeding effect on male homosexuality.” Rev. Brasil. Genet 6 (1983): 177-180. PDF:  http://web2.sbg.org.br/gmb/edicoesanteriores/v06n1/pdf/a12v06n1.pdf

Bocklandt, Sven, and Eric Vilain. “Sex Differences in Brain and Behavior: Hormones Versus Genes.” Advances in Genetics 59 (2007): 245–266. doi:10.1016/S0065-2660(07)59009-7. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17888801

Burri, Andrea, Lynn Cherkas, Timothy Spector, and Qazi Rahman. “Genetic and Environmental Influences on Female Sexual Orientation, Childhood Gender Typicality and Adult Gender Identity.” PLoS ONE 6, no. 7 (July 7, 2011): e21982. doi:10.1371/journal.pone.0021982. http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0021982

Lübke, Katrin, Sylvia Schablitzky, and Bettina M. Pause. “Male Sexual Orientation Affects Sensitivity to Androstenone.” Chemosensory Perception 2, no. 3 (September 1, 2009): 154–160. doi:10.1007/s12078-009-9047-3. http://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s12078-009-9047-3

Liu, Yan, Yunxia Si, Ji-Young Kim, Zhou-Feng Chen, and Yi Rao. “Molecular regulation of sexual preference revealed by genetic studies of 5-HT in the brains of male mice.” Nature 472, no. 7341 (2011): 95-99. http://www.nature.com/nature/journal/v472/n7341/full/nature09822.html

== Repercussão deste vídeo ==

1) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/resposta-de-geneticista-a-silas-malafaia/
2) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/comentarios-a-algumas-repercussoes-do-video-resposta-de-eli-vieira-ao-pastor-silas-malafaia/
3) http://www.bulevoador.com.br/2013/02/jurista-responde-a-silas-malafaia-maria-berenice-dias/

== Sobre a questão ética ==

1) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200760585403341
2) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200841179138134
3) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200847108126355

== A Primeira Resposta de Malafaia a este vídeo: recheada de falácias ==

http://www.enfu.com.br/mentiras-de-silas-malafaia/

== Sobre a segunda resposta de Malafaia em vídeo: ataques pessoais de quem não sabe o que é debate ==

Resposta de Izzy Nobre: https://www.youtube.com/watch?v=iOe-eVuJdco

Minhas respostas:

1) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836920671675
2) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836417139087
3) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836432339467
4) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200836796428569
5) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200837198718626
6) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200840650444917
7) https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200840816969080

== A ambição política de Malafaia de juntar seu grupo de fé em torno de um “grupo inimigo” ==

http://ateiadebomhumor.ligahumanista.org/2013/02/a-cortina-de-fumaca-de-silas-malafaia.html

== Desfecho ==

Recusei a maior parte dos convites para entrevistas e espero a repercussão na Sociedade Brasileira de Genética:
https://www.facebook.com/elivieira/posts/10200841315621546

29th of dezembro

Por que não sou mais onívoro: resposta a mim mesmo – parte 1


Lisa Simpson crescida, por Jordan MeadEm abril de 2010 escrevi um texto que até hoje consta como primeiro resultado nas buscas para seu título, “por que não sou vegetariano”. Dois anos e meio depois, vim a tomar uma decisão que contradiz a posição que tentei defender – hoje vejo que de forma incorreta e até irracional – naquele texto. A maior guinada, que não pretendo justificar aqui nesta primeira parte, foi o abandono da ideia de que teorias éticas dependem de emoções para se justificar. Acredito no oposto hoje em dia: que embora emoções sejam importantes para motivar a ação ética ou importantes de outras formas para a moral (e ética e moral são muito melhor tratadas como sinônimos), até mesmo um psicopata completamente desprovido de empatia poderia tomar decisões eticamente corretas usando apenas a reflexão racional. A decisão que tomei foi de mudar minha dieta. Não há, até onde sei, um rótulo para as restrições alimentares e de consumo que adotei. Este primeiro texto de resposta não pretende ser uma resposta exaustiva a mim mesmo e aos erros que cometi neste assunto. Mais partes virão em algum tempo.

Eis, então: Breve diálogo fictício sobre minha decisão de não consumir mais carne vermelha.

– Não como carne vermelha porque tentei achar motivos pelos quais isso é correto e não achei nenhum. Na verdade só achei, inclusive no que eu próprio pensava a respeito, apelos irracionais à emoção (inclusive ao prazer gustativo) e tentativas de furar buracos nos argumentos de quem não come em vez de um caso completo defendendo a prática. Não saí por aí acusando ninguém de “imoralidade”, só penso que uma pessoa honesta deve reconhecer que ela come carne vermelha pelos mesmos motivos que eu baixo mp3 ilegalmente: porque não tem recursos / motivação / coragem / heterodoxia suficientes para parar algo que, olhando bem de perto e julgando a média dos modos como é feito e as consequências que traz, é errado.

– Mas você come milho, não come? Há uma grande probabilidade do milho que você come estar vindo de lavouras em que são colhidos com colheitadeiras que inevitavelmente matam ratinhos inocentes que ficam por ali. Portanto, você tem sangue nas mãos tanto quanto eu, o que eu faço é pegar da mão e botar na boca, e se isso tem algo de prejudicial é apenas a mim na eventualidade de ser comida pouco saudável.

– Este é um problema interessante porque lembra os experimentos mentais em ética sobre o bonde desgovernado. Enquanto a maioria das pessoas acha correto puxar uma alavanca para mudar um bonde de trilho para que ele mate menos pessoas, pouca gente acha correto atirar um homem gordo em cima dos trilhos para obter o mesmo efeito. Enquanto puxando a alavanca você só está matando pessoas indiretamente, empurrar o gordo é algo que parece mais com assassinato. Comprar e comer carne vermelha me parece trazer problemas inevitáveis, por estar muito mais diretamente ligado a causar sofrimento ou atentar contra a individualidade de um ser capaz de sofrer e capaz de experimentar o mundo ao ponto de ter interesse em viver, do que comprar vegetais, que são possivelmente colhidos com a consequência indireta e evitável de animais sofrerem e morrerem. Financiar o abate pecuário diretamente lembra empurrar o gordo, e comprar o milho parece puxar a alavanca.

– Mas de qualquer forma você não é isento de estar provocando – mesmo que mais indiretamente que eu – a morte e sofrimento do tipo de animal que você acredita ter status para consideração moral. Como pode então achar que pessoas que fazem o que você não faz deveriam reconhecer que o que fazem é errado?

– Seu argumento é que dois errados fazem um certo? Quando deixa de pagar impostos tenta se justificar dizendo que Al Capone também não pagava? Isso seria falácia, uma escapada à discussão em vez de uma resposta a ela. O que estou dizendo é outra coisa: que duvido que pessoas que comem carne vermelha (vamos deixar outros tipos de carne para outro debate) possam justificar este hábito como coisa correta, recomendável, justa ou louvável a se fazer. Se têm outros motivos para continuar fazendo, posso imaginar quais sejam e até imaginar explicações para eles, por isso mesmo não acho que repreensão e acusação sejam úteis (como não são úteis para o caso de consumo de obra intelectual e artística sem levar em conta os direitos de quem a criou). As pessoas fazem as mais variadas coisas pelos mais variados motivos. Mas só uma fração dessas coisas é correta, e só uma parte dessas coisas é justificável racionalmente. Deixar de comer carne vermelha é tanto correto quanto justificável. A atitude contrária não é – ainda mais quando consideramos como é feita hoje, e é claro que varia em mais e menos incorreta dependendo de como é feita, mas creio que ser incorreta é uma de suas propriedades fundamentais.

– Extratos de pulmões de porcos são necessários para dar surfactantes para bebês recém-nascidos, sem os quais os bebês não conseguem respirar. Surfactantes sintéticos, até onde sei, não funcionam tão bem. Está dizendo que abater porcos para este fim é errado?

– Não. Estou dizendo que abater porcos é geralmente errado. Não que é errado em absolutamente todas as circunstâncias possíveis e imagináveis – o que também vale para assassinatos e mentiras. É geralmente errado, e principalmente para fins de consumo dispensável e diversão. Porque porcos são seres capazes de sofrer e seres que têm interesse em viver. Abatê-los é interferir injustamente com este interesse e na maior parte dos casos causar-lhes dor desnecessária. Isso significa que, objetivamente falando, se ética diz respeito a evitar sofrimento e respeitar interesses, porcos devem necessariamente ser seres dignos de serem lembrados quando pensamos no que é a coisa certa a se fazer. Que eles próprios não tenham linguagem e capacidade complexa de julgamento não importa – isso significa que eles não podem ser agentes morais, mas não significa que não podem ser pacientes morais. Ou seja, não podem decidir eticamente, mas devem ser incluídos no grupo de seres que merecem a piedade de seres pensantes.

– Se porcos merecem esse status moral, então, se uma fazenda estivesse sendo invadida por um tsunami e você tivesse um helicóptero, você daria igual prioridade para salvar as pessoas e os porcos?

– Não. Porque eu acredito que porcos são dignos de serem pacientes morais, não significa que eu acredite que todos os pacientes morais têm a mesma prioridade. Pode-se tentar orientar as prioridades pelos interesses – pessoas têm mais interesses (e potencialidades, que talvez possam ser incluídas nos interesses) que porcos, portanto, em geral, têm mais prioridade. Mas uma pessoa em iminência de ralar um joelho com certeza tem menos prioridade que um porco em risco de morrer com uma facada no coração, para mim. De novo, a prioridade em geral ser maior para uma espécie não significa que ela seja sempre maior em toda e qualquer circunstância concebível. E não é, na verdade, a espécie que define a prioridade, mas a natureza dos indivíduos em determinado problema moral, além de, como ilustrei, as possíveis consequências de uma ou outra decisão. Num prédio em chamas com uma única criança num quarto e trezentos mil embriões humanos em outro, eu com certeza daria prioridade total a salvar a criança, e minha prioridade de evitar que os embriões fritassem seria equivalente à prioridade que eu dou a evitar que minha salada apodreça na geladeira. Porque não parece ser o caso que embriões humanos mereçam o mesmo tratamento de indivíduos humanos.

– Foda-se, vou comer minha picanha porque é gostosa e ponto final, ninguém pode me impedir.

– Ninguém tentou tirar seu direito legal de fazê-lo. O que é imoral nem sempre tem que ser ilegal, e vice-versa. Pense nisso. E pense, se quiser é claro, se “porque é gostosa” é realmente um motivo que justifique alguma coisa. Hannibal Lecter diria o mesmo sobre cérebros de gente viva.

29th of dezembro

Mistérios


Há ao menos duas formas de pensar em mistérios. Uma é a forma mística. Consiste em contemplá-los pelas emoções que incitam, geralmente boas emoções. As emoções são boas porque o místico, ainda que alegue o contrário, pensa saber algo sobre o mistério sem esforço algum para desvendá-lo. É assim porque somente com algum tipo de conhecimento, ou pretenso conhecimento, alguém pode se sentir edificado por algo que é, ao menos no rótulo, desconhecido para a maioria das pessoas. A segunda forma de se pensar em mistérios é a forma genuinamente curiosa. Pouco importa se o mistério é "edificante" – aliás, aqui, sequer faz sentido falar em mistérios edificantes. Como alguém poderia se sentir edificado por não saber alguma coisa? O curioso tem a possibilidade de se sentir bem ao desvendar um mistério: o que geralmente não é fácil, a dificuldade pode até ser mínima (procurar no Google, por exemplo), mas existe. Mas ter um mistério flutuando na mente pode até ser incômodo. Curiosidade incomodada é algo mais ou menos parecido com aquela vontade de ter uma coisa inacessível, aquela saudade do que não se tem. Machado de Assis não nos conta se Capitu traiu Bentinho com Escobar porque queria nos incomodar. Queria incomodar a todos os leitores para sempre. E isso agrega valor à obra dele, pois incômodo cola nas memórias e chama a atenção. Adultos inteligentes não costumam gostar de obras de ficção que apenas tentam afagar sua psicologia – gostam de suspense, terror e drama. Quando você olha ao seu redor (olhe aí), vê um monte de coisas aparentemente banais. Vejo aqui, por exemplo, calças dependuradas, um cartaz, um guarda-chuva fechado. Todas essas coisas contém mistérios, alguns são mistérios para mim, outros são mistérios para muitos, e outros são mistérios para a humanidade inteira – e um subgrupo deles serão mistérios para sempre. Há quanto tempo usamos roupas? Cerca de 80 mil anos é o que eu acredito com base em algumas fontes que julguei confiáveis. Para alguns essa aproximação é um mistério, um milhão de anos seria um palpite igualmente bom para esses. Do que são feitas as tintas no cartaz? Sei que muitas cores diferentes são obtidas de metais oxidados, outras de compostos orgânicos como os carotenoides, mas não faço ideia do que é popular na centenária indústria de tinturas (deve ser quase tudo inorgânico), não tenho ideia de que tipo de tinta é mais provável de ser usada nesse tipo de material. Então, coisas bem básicas sobre o cartaz são mistério para mim. Entre todas as chuvas durante um ano, qual é a frequência média de chuvas para as quais esse guarda-chuva serve? Chuva horizontal deve ser rara num ano, mas não sei o quão rara por aqui. Mais mistérios. Fica evidente que, tanto para a abordagem mística quanto para a abordagem curiosa, há filtros de que tipo de mistérios chamam a atenção. Esses filtros variam de pessoa para pessoa, comunidade para comunidade, e cultura para cultura. Eu sei que o mistério da ressurreição de Jesus é a preferência para o misticismo de muitos brasileiros do século XXI, por exemplo. Mas não é um mistério que atiça minha curiosidade, e para mim o que é de fato um mistério é como essa crença pode ser tão popular. Quem prefere a abordagem curiosa dos mistérios e quer se debruçar sobre este em particular, não vai ter muitos elementos com que trabalhar, vai acabar tendo que partir para inferências probabilísticas duvidosas e terminar com uma imensa falta de saciedade da pulsão curiosa (e, espera-se, um ceticismo sobre as respostas mais populares). Mas o tratamento místico desse mistério geralmente vem acompanhado da crença de que isso realmente aconteceu, tem uma significância existencial e até ética, portanto seria um mistério digno de atenção. Eu não estou dizendo que os dois tipos de tratamento de mistérios não podem existir numa só pessoa, nem que um é exclusivo da religião e outro exclusivo dos empreendimentos seculares. Muita gente trata de forma mística os mistérios narrados por Stephen Hawking n’O Universo numa casca de noz. Já conheci gente para quem as quatro equações de Maxwell são um mistério (porque assim como eu não as estudaram nem as compreendem), mas isso não as impedia de ter admiração mística por elas. Também conheci quem tivesse legítima curiosidade pelas psicografias do Chico Xavier ao ponto de investigá-las a fundo, levando em conta todo tipo de relato e evidência – inclusive os negativos. A forma curiosa de abordar mistérios tem suas vantagens. Aponte-me qualquer coisa que, por mais que eu seja ignorante sobre ela, vou poder dizer ao menos um mistério a respeito dela – de preferência os mistérios que não são apenas mistérios para mim na minha ignorância, mas mistérios para todos nós. Posso errar miseravelmente nisso, mas é justamente nisso que tenho oportunidade de perscrutar meu nível de ignorância sobre esta coisa, e ainda ter a oportunidade de julgar se os mistérios que ela parece ter são dignos da minha atenção, se me interessam profissionalmente, se me interessam intelectualmente, se vou abrir a Wikipédia e ler dois parágrafos ou se vou comprar um livro e botar na fila de leituras de curto, médio ou longo prazo. No fundo isso é uma prospecção sobre o nível de incômodo que cada um desses mistérios me dá, e se é um incômodo suficiente para me impulsionar com velocidade de escape da atração gravitacional da minha preguiça, indolência e desinteresse. Por isso eu concordo plenamente com Paulo Freire quando ele disse que ser um bom professor é, no fundo, causar mal estar intelectual nos alunos. Quanto à forma mística de observar mistérios, não estou certo de que ela é recomendável – se é, deve ser para algum tipo de terapia psicológica, pois ser fortemente curioso sobre coisas demais pode incomodar ao ponto de atrapalhar a vida, então "adorar" certos mistérios para os quais se favorece sua hipótese favorita sem crítica pode ser algo terapêutico. Acho que todo mundo tem ao menos um mistério que trata dessa forma. Mas muitas coisas sobre mistérios são mistérios para mim. Outras são mistérios para todos. E talvez um subconjunto dessas serão mistérios para sempre.

15th of dezembro

“Eu sou humanista.” Será mesmo?


Permita-me respeitosamente discordar de sua autoidentificação, pois não parece ser este o caso se: – Você é contra a criminalização da homofobia, e igualmente contra a descriminalização do racismo. Pode-se aceitar que você acredite ter bons argumentos pelo excesso de liberdade de expressão permitindo inclusive o discurso de ódio, mas não é possível coerência se você sai fazendo campanha contra o PLC122 mas prefere nada comentar sobre a lei que este projeto visa a editar, a lei anti-racismo. No mínimo você deveria chamar pela impugnação da lei anti-racismo. Ser incoerente no tratamento de diferentes preconceitos pode indicar que você esposa algum deles. – Você é contra o direito de uma mulher de decidir se quer levar adiante ou não uma gestação até certo limite de desenvolvimento do feto. Especialmente se você se recusa a explicitar quais são as condições necessárias e suficientes para que um ser vivo seja considerado um cidadão digno de direitos. Não, este debate não é sobre "a vida" – vida é um conceito tratado por biólogos e filósofos da biologia. Este debate é sobre quando, no espectro do desenvolvimento de um embrião humano, ele deixa de ser uma coisa mais parecida com as células vivas que expelimos e matamos todos os dias (inclusive as da sua salada) e passa a ser uma criança de fato, com todos os direitos que as crianças justamente têm. Definir "criança" de forma esdrúxula, igualando-a a um zigoto ou a um conjunto amorfo de células totipotentes, é uma posição que leva a problemas éticos insuperáveis, inclusive o problema ético de atentar contra a autonomia das mulheres.

– Você reclama dos movimentos sociais o tempo todo e gostaria que eles se extinguissem, quando é objetivamente demonstrável que várias de suas reivindicações fazem sentido e que os grupos que eles representam realmente têm seus interesses desfavorecidos injustamente na sua sociedade.

– Você acha que certos grupos de crença ou de posição política são blocos monolíticos contendo apenas cópias de um estereótipo desumanizado.

– Você pensa que absolutamente toda ética é relativa e que portanto ninguém pode acusar culturas que mutilam genitalmente mulheres e cometem infanticídio de estarem cometendo atos imorais.

Se alguma dessas carapuças serviu, infelizmente terei que veicular a má notícia de que você não é, de fato, um humanista. Não de acordo com boas fontes políticas (http://lihs.org.br/humanismo ) e filosóficas (http://lihs.org.br/etica ).

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Publicado originalmente na página da LiHS no Facebook.

19th of fevereiro

Os alquimistas da Rosacruz estão chegando


rosacrucianismo_cucoHoje, uma pessoa adepta do rosacrucianismo, muito simpática, me adicionou no MSN. Elogiou meu trabalho no Bule Voador e minhas preocupações humanistas, efusivamente.
A conversa durou pouco mais de uma hora. Pediu-me discrição, para não publicar a conversa na internet, o que nem precisava ter pedido. No entanto, não creio que falar sobre a conversa, sem citar o nome da pessoa (nem mesmo revelando seu gênero) transgrida esse pedido. Muito menos divulgar a natureza do que a pessoa me falou.
Dito isto, vamos ao relato. Vou chamar a pessoa de “HW”.HW me perguntou se eu concordava que o universo e o conhecimento científico sobre ele é algo fascinante e adorável. Concordei, com a ressalva de que eu não usaria a palavra “adoração”, pois me parece transmitir um sinal de “subserviência e aprovação absoluta” a tudo o que está associado a isso. Adoração não é desejável, pois claramente o universo pode ser um lugar terrível. Supernovas varrem mundos inteiros, muitos provavelmente dotados de vida, já dizia Carl Sagan em “Variedades da Experiência Científica”.A conversa foi daí para algo que eu temia desde o momento em que HW revelou ser adepto da ordem Rosacruz. Disse para eu considerar a possibilidade de haver uma ciência “mais avançada” do que a que eu conheço. Uma ciência que “utiliza outros métodos, não divulgados na mídia cientifica, ou em artigos academicos atuais”.HW partiu daí para tentar me convencer de que, por ter sido uma “filha” da alquimia, a química de hoje herdou os feitos dos alquimistas. Ao menos se eu tivesse uma mente aberta, insinuou HW, eu poderia aprender que conhecimentos foram gerados pelos alquimistas desde que química se separou da alquimia – a alquimia, supostamente, hoje é muito mais que a “mãe” da química. Os alquimistas estão chegando, são discretos e silenciosos.
Um resumo do que respondi:- Delimitar o que é ciência é tarefa da filosofia da ciência. As teorias filosóficas que fazem isso são conhecidas como critérios de demarcação. Dos critérios de demarcação que conheço, nenhum aprovaria as crenças do rosacrucianismo. Não é fácil propor um critério de demarcação. Filósofos como Popper, Kuhn e Lakatos levaram carreiras inteiras propondo e defendendo seus critérios. Então, é irrelevante se em reuniões ultrassecretas e excitantes os rosacrucianistas aleguem que sua doutrina é uma ciência, pois não basta falar a palavrinha mágica “científico” para transformar alguma ideia em científica.- Apesar de HW alegar que é indiscutível que a alquimia é a mãe da química, respondi que na verdade é bastante discutível. Se adotamos uma interpretação refutacionista da ciência, parte do motivo da química ter se tornado uma ciência foi justamente sua rejeição do pensamento mágico dos alquimistas – uma rejeição de altas esperanças dogmáticas como a pedra filosofal e o elixir da imortalidade. Certos conceitos que não eram propriamente alquímicos, como o flogisto, também precisaram ser rejeitados. Rejeição de ideias à luz de novas observações e teorias é algo muito natural na ciência. Se a química é filha da alquimia, é uma filha muito rebelde, para dizer o mínimo.- “Não tenho intenção de ser hostil”, eu disse. “Mas é supérfluo alegar que o rosacrucianismo é uma ciência.” Perguntei se HW tinha lido este texto do Alex Castro, e se ele não via nenhum paralelo entre o que ele estava fazendo e o que é descrito pelo Alex. HW respondeu que tinha lido, sim, e gostado, mas que não via a semelhança.Aí veio a crème de la crème da discussão: HW pediu que, sob promessa de sigilo absoluto, eu fosse a uma reunião da Rosacruz, onde ele me mostraria……seres de aparência humana com 15 centímetros de altura.Eu disse que eu já sabia que esses seres existem, e nós chamamos de “fetos”. HW respondeu que eram seres que se comunicavam e andavam. Eu trepliquei que seria inútil pedir o meu sigilo, pois na presença de tais seres eu não poderia evitar publicar sobre a existência deles, pois seria um escândalo científico maior que a descoberta do Homo floresiensis – seria impossível evitar que eu quisesse descrevê-los,  nomeá-los e posicionar seu parentesco entre as outras espécies de primatas da família dos hominídeos.Expressei o desdém absoluto que tenho para com sociedades secretas como o rosacrucianismo, que misturam o elitismo quase-eugenista da Mensa com o exclusivismo religioso da ordem DeMolay. Para mim todos esses clubes do bolinha sobrenaturalistas só têm a utilidade de qualquer outro agrupamento humano: o contato social que nos é tão imprescindível quanto o alimento.Conhecimento confiável é conhecimento aberto, aquele que se deixa criticar, aquele que se deixa democratizar. Os únicos “iniciados” de que o conhecimento precisa são os iniciados na arte da curiosidade. Nada mais.O secretismo de grupos como Rosacruz só serve para mostrar que a falsidade se evapora à luz da investigação independente como Drácula ao sol do meio-dia.Fazer parte de uma espécie falível como a nossa obriga qualquer racionalista a adotar uma certa heurística: considerar falsa qualquer proposição, inclusive as feitas pelo rosacrucianismo, até justificação racional, incluindo evidências, que convença pensadores independentes e ideologicamente diversos de que a proposição é verdadeira. De preferência às claras, pois só a luz da investigação independente pode mostrar os defeitos por trás da maquiagem que damos às nossas hipóteses favoritas.Sem esperar por uma explicação mais detalhada de por que não se deve usar a palavra “científico” como se fosse uma palavra mágica para tornar crenças científicas, HW saiu da janela, tão respeitosamente como entrou, logo depois de eu propor uma descrição objetiva dos Pequeninos.
os-pequeninos-the-borrowers

Os Pequeninos (The Borrowers): Série exibida pela TV Cultura. Adaptada do livro de Mary Norton. Uma família de quatro pessoas minúsculas vive das sobras dos “gigantes” que moram em uma velha mansão, o casal Joe e Victoria Lender (Aden Gillett e Doon Mackichan), e seu filho Peter (Bradley Pierce). Peguei aqui.