26th of July

Em defesa da indecidibilidade


Nós ainda não sabemos o que é a consciência, do que ela é feita, como ela é gerada, como ela funciona. Há quem defenda que jamais saberemos. Isso não significa que devemos desistir de debater a respeito nem impede que saibamos que algumas respostas são mais erradas que outras. Ter vontade de encontrar a verdade não implica que você já a tem, nem tira da sua frente os obstáculos a serem transpostos para obtê-la. E alguns obstáculos devem ser, sim, intransponíveis, e te deixam com duas ou mais respostas entre as quais, em vista do obstáculo, é impossível decidir.

Isso tudo é muito fácil de aceitar. Mas em assuntos mais mundanos, que têm a ver com ética, parece que nós temos uma forte tentação a não reconhecer a indecidibilidade. Exemplos:

– Woody Allen é um monstro abusador de crianças, ou Mia Farrow influenciou sua filha supostamente abusada (Dylan Farrow) a denunciá-lo para se vingar dele por tê-la trocado por… outra filha (Soon Yi), adotiva, na idade de consentir? Muita gente, especialmente por compromissos ideológicos, quer fingir saber a verdade. Alguns antifeministas querem fingir que sabem a verdade para poder dizer “estão vendo? Mais uma acusação falsa nesta perseguição cultural feminista contra homens!”, enquanto algumas feministas querem dizer “estão vendo? Mais um predador machista, devemos acreditar nas vítimas, ouvir e acreditar”. Pois estão ambos os campos errados: não devemos concluir que algo é verdade só porque confirma nossas narrativas ideológicas do que ocorre na sociedade. Ter razão neste caso significa ter acesso a evidências fortes, e não escolher o que é “verdade” porque afaga nossos pressupostos. O caso é indecidível. Allen ser inocentado pelo sistema judicial por falta de provas não é a mesma coisa que ele ser de fato inocente, e ser acusado por gente que se encaixa em perfis de vítima não quer dizer que é de fato culpado. Quem gosta e quem desgosta de Woody Allen terá de viver com a dúvida, se tem honestidade intelectual. Neste caso, certeza é para quem é intelectualmente desonesto e ideologicamente motivado. Até, é claro, que surjam evidências conclusivas, o que se torna cada vez menos provável com a passagem do tempo.

– Há algum tempo, uma decisão judicial obrigou uma mulher a fazer uma cesariana, pois a opinião médica era que se ela não fizesse a cesariana o bebê morreria e talvez ela também. A mulher se opunha fortemente a ser submetida a isso, mas foi submetida pela autoridade do Estado com a justificativa de proteger o direito à vida do pequeno cidadão que ela trazia dentro de si. Diferentes intuições entram em conflito, aqui: autonomia individual deve ser preservada, mas também deve ser preservado o direito à vida de bebês já sencientes, como é o caso na fase final da gestação. Radicais libertários olharão o caso e já concluirão: “mais uma vez o Estado abusando de poder e interferindo na autonomia individual”. Radicais leitores de Foucault concordarão por motivos ligeiramente diferentes: “mais uma vez o biopoder esmagando a dignidade individual em função de uma narrativa médica que é supostamente verdadeira”. Já quem tem muita fé na autoridade médica dirá “lá vem os apologistas da ignorância tentando atropelar a expertise médica e botar vidas em risco”. Sabem o que eu acho? Que era indecidível. Que a opinião médica podia estar errada, mas tinha que tomar uma decisão que aumentasse a probabilidade de sobrevivência de gestante e bebê. Que a mulher estava certa em rejeitar que uma autoridade interfira no seu direito de fazer com seu corpo o que bem entende, que ela poderia estar certa em ver riscos em ser submetida a uma interferência invasiva, que ela talvez soubesse do que estava falando quando duvidou da opinião médica. Dependendo, é claro, dos motivos objetivos para dar razão à opinião médica ou à gestante, talvez fosse decidível. Mas na ausência desses detalhes, é indecidível. 

Temos que perder o medo de expressar dúvida nos casos indecidíveis em que a dúvida é a posição mais sensata que se pode ter. Claro que às vezes, quando somos nós os envolvidos, temos que tomar uma decisão rápida e somos forçados a decidir. Mas devemos deixar claro que havia dúvida quando decidimos. Se acertamos, não vai ser muito relevante que estávamos em dúvida, mas admitir que havia tem o efeito humilde de aceitar que o acerto não foi um completo mérito. Se errarmos, a admissão da dúvida aliviará ao menos em parte a nossa culpa, pois pode ser que, diante das informações disponíveis e da limitação de tempo, tenhamos feito o melhor que podíamos, e se erramos não foi por má fé nem ignorância, mas por termos sido forçados a decidir no que era indecidível.
1st of June

Perguntas frequentes sobre humanismo FAQ humanista


Uma série de respostas a perguntas básicas sobre o que significa ser humanista, que escrevi para a Liga Humanista Secular do Brasil.01. Somos ateus?

Humanistas são céticos quanto às propostas históricas de existência de entidades sobrenaturais e divinas. Uma forma de ceticismo quanto a divindades é o ateísmo, outra é o agnosticismo. Portanto, humanistas são ateus ou agnósticos.

02. Somos antropocêntricos?

Não. Como a fronteira entre as propriedades dos seres humanos e as propriedades de outros animais não é radicalmente nítida, faz todo sentido que humanistas tenham noções éticas que incluam outras espécies. Isso significa que humanistas não coadunam com a crueldade contra outros animais. Também não somos antropocêntricos em outros sentidos: os seres humanos são uma parcela ínfima do universo, antropocentrismo é acreditar que ele todo foi feito de presente para nós.

03. Somos pessoas sem norte ou desesperadas?

Não, ao menos não em função das nossas ideias. O humanismo oferece a autenticidade em aceitar os fatos sobre o que somos – por exemplo, que provavelmente não há vida após a morte – e buscar construir sentido para nossas vidas de forma racional. Uma vida não passa a ter sentido só porque supostamente é eterna, pensar assim seria como pensar que, porque tem valor a atividade de cuidar de um jardim em um dia, esse valor seria aumentado ou mantido se isso for feito o tempo todo ou para sempre. Vidas finitas ao mesmo tempo com sentido e frutíferas são não apenas uma possibilidade: são talvez a única forma de existirmos com finalidades de valor que abraçamos voluntaria e autenticamente.

04. Somos pessoas emocionalmente frias?

Absolutamente não. É um espantalho a ideia de que pessoas racionalistas são frias e sem emoção. Afinal, quando as pessoas sentem revolta, podem ser razoáveis ou irrazoáveis em estar revoltadas. Quando alguém se apaixona, pode estar sendo razoável nessa emoção, ou irrazoável (por exemplo, pode se apaixonar por alguém que só lhe faz mal e não corresponde). Além disso, quando exercitamos o pensamento crítico, podemos nos regozijar do mero fato de estarmos fazendo isso, podemos ter prazer ao perceber nosso próprio crescimento pessoal quando abandonamos uma crença errada e adotamos uma mais próxima da verdade. Razão e emoções são intrincadamente relacionadas, e não necessariamente opostas. E sentir uma emoção qualquer não exime ninguém de submeter essa emoção ao exame crítico: podemos descobrir que a sentimos irrazoavelmente e agir de forma a fazê-la passar.

05. Rejeitamos qualquer coisa que não for cientificamente comprovada?

Não. Em primeiro lugar, a noção de “cientificamente provado”, se interpretada ao pé da letra, sugere que nada mais há para se descobrir sobre o assunto “provado”, ou então que a tal “prova” é impossível de estar errada. Essa atitude dogmática é incompatível com o proceder científico, que põe em funcionamento as habilidades da investigação idealmente com o rigor dos séculos de métodos refinados para ampliá-las e corrigir seus erros. A ciência é uma investigação que muito tem em comum com outros tipos de investigação: a que visa a solucionar crimes, a que visa a rigorosamente interpretar e aplicar leis, a que visa a inventar pratos irresistíveis ao paladar, a que pretende fazer análise crítica de conceitos, etc. Todos os tipos de investigação podem ser feitas com rigor, a ciência é um dos tipos mais bem sucedidos, mas não é o único, e pode ser mal feita como todos os outros. Portanto, embora nem tudo seja passível de escrutínio científico (conhecimentos matemáticos, por exemplo, são obtidos por outros métodos), nenhuma ideia deve escapar à cobrança do rigor do pensamento crítico. E acreditamos que afirmar a existência de coisas sobrenaturais falha gravemente nesses critérios de rigor, assim como falham práticas como homeopatia, esquemas de pirâmide, irracionalismos pós-modernos etc.

06. Rejeitamos feminismo ou veg(etari)anismo?

Não necessariamente. Se com “feminismo” o que se pretende dizer é um conjunto de ideias e ações com garantida promoção da igualdade de oportunidades e direitos entre os gêneros, então feminismo nada mais é que humanismo aplicado a questões de gênero. Nem sempre, infelizmente, é isso que se quer dizer com “feminismo”, então a primeira coisa a se fazer é ter clareza quanto ao termo. Outra é dar prioridade às questões éticas a respeito de gêneros, em vez de entrar em guerras de identidade sobre quem pode se dizer feminista ou não – pela evidente prioridade dessas questões éticas acima da afirmação identitária de ativistas. Sobre veg(etari)anismo, como dito, humanistas não coadunam com crueldade contra animais, não por dogma, mas porque ser cruel com animais é irracional, e os argumentos em prol da crueldade empalidecem com sua fraqueza frente aos argumentos a favor da dignidade dos animais. Cada humanista é livre para levar esses argumentos até suas consequências, e debater até que ponto a crueldade deve ser combatida, e que atitudes, se alguma, devem ser mudadas. Importante nesse assunto é saber que em qualquer dieta é possível adotar alguma forma de diminuir a crueldade contra animais. Mesmo pessoas adeptas do churrasco podem procurar saber se os animais que consomem foram maltratados enquanto viviam. E se alguém acredita que é correto independentemente de contexto torturar seres humanos ou outros animais, com certeza não é humanista.

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A Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS) foi fundada em 2010 e é a maior organização latino-americana dedicada especificamente ao humanismo. Eu fui presidente da associação até 2013. Ela foi escolhida para sediar o próximo Congresso Humanista Mundial, em São Paulo, 2017. Em poucos dias a LiHS mandará um representante ao STF para defender a laicidade do Estado, cada dia mais ameaçada no Brasil. Contribua com a associação: http://lihs.org.br/doar | Afilie-se em: http://lihs.org.br/queroentrar

9th of September

General elections in Brazil: a short guide for humanists


In October 2014 Brazilians will vote and choose the next president, federal deputies and senators. Here is a summary of the state of affairs in the topics that humanists worry about.
Leading polls as a presidential candidate now is Marina Silva (PSB, Brazilian Socialist Party), who comes from a poor background in the heart of the Amazon forest. Silva, who converted to Evangelicalism in the 1990s, says her conversion happened because of a miracle that doesn’t sound too miraculous: she recalled the name of an experimental drug to treat the mercury poisoning she suffered from. Some supporters of the re-election of Dilma Rousseff (PT, Workers’ Party) accuse Silva of being a fundamentalist. This is hard to argue for, since she can be seen saying “even” atheists can have good, moral lives, and also sounds hypocritical because Rousseff has failed in clearly defending a progressive agenda. But also hard to argue against, because Silva, after launching an excellent plan for LGBT rights, recanted large chunks of the plan 24 hours later, removing support to the criminalisation of anti-LGBT discrimination and hate speech, and insisting, despite the judiciary’s decisions, on calling gay marriage a “civil union,” as though the word “marriage” belonged solely to the religious. Silva’s catch-all mantra about contentious human rights issues, from abortion to smoking weed, is that she will submit them to referenda. 
President Dilma Rousseff indeed has failed in being as progressive as she appeared to be before her first term and being true to what she really believes. In 2007, when asked if she believed in God, she answered “I balance myself on this issue”. Three years later, when running for president, she “forgot” completely about her agnosticism of sorts and kneeled before Our Lady of Aparecida in the large Catholic shrine. In her first year in office, she vetoed an educational material known as the anti-homophobia kit saying to the press her government wouldn’t allow “sexual option propaganda”. “Sexual option” is how many Brazilians ignorantly call sexual orientation, by the way. In her second year, Rousseff’s Chief of Staff signed off a dismissal for a senior employee at the Ministry for Health, the reason being that this employee was creating too progressive anti-HIV campaigns for gay men and prostitutes. The phrase “sexual option”, the mark of ignorance, made into a second coming in Rousseff’s early government programme for her next term in office. Her campaign staff quickly redacted the text, but kept it superficial enough not to make any clear specific agenda for the LGBT, who hope to have gay marriage not only sanctioned by the courts but written into law, and to have homophobic discrimination criminalised as much as racism. Now in her second campaign for president, Dilma Rousseff is again doing her spectacle of insincere faith: she attended the inauguration of the “Temple of Solomon” in São Paulo, said “the state is secular but happy is the nation whose god is the Lord” in another Evangelical church, and, betraying feminist colleagues, she applauded when a theocratic deputy (in a church, accompanied by the president) celebrated the veto to a healthcare policy directed at the exceptions where women can have abortions in Brazil (rape, life risk and anencephalic foetuses).
Behind Silva and Rousseff, Aécio Neves (PSDB, Brazilian Social Democracy Party) focuses on economic issues, pays little attention to human rights except to promise he will put people in jail at a younger age, to pass superficial pro-LGBT messages that don’t upset homophobes, and to swear he shall not move a finger to change the cruel anti-abortion laws. His party, along with the president’s, is riddled with corruption scandals.
The scariest of all presidential candidates, arguably, is the candidate in the 4th position, with 1% of votes in polls. Pastor Everaldo (PSC, Social Christian Party), as he calls himself, is defending a chimeric blend of social conservatism and extreme economic liberalism. Ciphering his message to call homophobe votes, he says he is campaigning “in favour of the family” defined as man, woman and children. He promises to privatise key state-owned industries like Petrobras. Pastor Everaldo is the tip of an iceberg of candidates for the legislative: from the last elections in 2010, the number of candidates for the bicameral parliament who name themselves with religious titles like “pastor”, “bishop” and “father/sister” has grown by 47%. 
Supporting Everaldo in the same party and trying a re-election is Pastor Marco Feliciano, who for a year presided over the human rights commission of the Chamber of Deputies for the bafflement of human rights activists. Among Feliciano’s famous soundbites of wisdom, my favourite is this: “Jesus’s DNA was not like ours. He had X chromosomes, however, the Y chromosomes were not human. (…) His carnal involvement with a woman could lead to a superior race.” Besides Feliciano, Everaldo has a supporter in Pastor Silas Malafaia, classified as a millionaire by Forbes magazine, and most famous homophobe in Brazil. When I made a video last year replying to Malafaia’s claims that child abuse causes half of homosexuality and the other half of gay people just choose to be so, he attacked me on his TV show calling me a “pseudo-doctor who’s defending his own cause” and “a lad who hasn’t changed his nappies in genetics”. Since then, when he makes a list of his enemies, he never forgets to list humanists among them.
25th of August

Atleta aprende genética sozinha e chega a resultado original para entender suas doenças


Do Twitter de Kim, @digitalpatient_
História real – Kim Goodsell, uma atlética mulher de meia idade da Califórnia, aprendeu genética sozinha para responder à sua suspeita de que suas duas doenças raras, que prejudicam sua performance atlética, tinham uma raiz genética em comum. Kim se familiarizou com o jargão da biologia molecular, aprendeu sobre as moléculas ligadas a seus fenótipos, e gerou uma previsão informada que foi mais tarde confirmada: ela tem uma substituição de nucleotídeo num gene importante para o esqueleto celular, o LMNA (detalhes sobre o gene: http://genetici.st/lmna ).
As doenças de base genética de Kim são a síndrome de Charcot-Marie-Tooth, em que os neurônios que levam sinais da medula às extremidades vão degenerando e formando ramos para compensar por um tempo limitado; e a cardiopatia ventricular direita arritmogênica, em que os músculos do ventrículo direito do coração vão sendo substituídos por gordura e tecido cicatrizado, perdendo o ritmo dos batimentos. A cardiopatia foi a primeira a ser diagnosticada, e a solução foi implantar um desfibrilador interno. Quando veio o diagnóstico da Charcot-Marie-Tooth, Kim começou a suspeitar da improbabilidade de as duas serem completamente independentes e pôs-se a passar centenas de horas em agregadores de artigos científicos como o PubMed.
Infelizmente, a pesquisa dela não é suficiente para uma cura. Kim só pode tomar providências genéricas e paliativas como melhorar a dieta, mas vai ver as duas doenças evoluindo lenta e inexoravelmente. O que mais gosto na história é a explicação dela para o porquê desse esforço todo:
“Eu queria saber”, disse ela. “Mesmo tendo um terrível prognóstico, o ato de saber aplaca a ansiedade. Há um senso de empoderamento.” Sapere aude!

História completa: http://www.bbc.com/future/story/20140819-the-amateur-who-surprised-science

1st of May

Invertebrados e humanistas


Há 200 anos, Jean-Baptiste Lamarck, naturalista francês, dividiu os animais em vertebrados e invertebrados. Note que a divisão é desigual de uma maneira importante: vertebrado é uma classificação positiva, baseada na presença de um órgão observável que é a coluna vertebral. Invertebrado é uma classificação negativa, ou seja, é um nome para os bichos que não têm esse órgão.
Após a teoria da evolução e outros avanços, a biologia aprendeu que a classificação “invertebrados” é chauvinista, nada explicativa, e não junta os animais de uma forma que reflita sua história ou suas características. Nós biólogos ainda chamamos animais de invertebrados nas nossas disciplinas, mas sabemos que é uma forma artificial de chamá-los e que, para compreendê-los, de nada adianta saber o que eles não têm (coluna): precisamos saber o que esses animais nos mostram ter, de forma positiva (positiva no sentido de afirmativa): ctenóforos têm corpo gelatinoso, como cnidários, mas diferente dos últimos são bilateralmente simétricos. Para entender cnidários e ctenóforos, pensar no que não têm em comum não acrescenta nada. Ou seja, a categoria dos invertebrados é meramente instrumental.
A minha conclusão é que os termos “ateu” e “ateísmo” são da mesma natureza de “invertebrado”. Unir pessoas com base numa falta de fé tem que ser meramente instrumental, não se pode esperar que grandes realizações resultem disso (no momento que um ateu propõe uma coisa, a chance de haver outro que acredita no oposto é alta). É preciso mais que criticar: é preciso propor. Ninguém que é ateu deve se sentir obrigado, em virtude do ateísmo, a pensar criticamente, a ser cético, a gostar de filosofia e ciência, a se importar com direitos humanos, democracia e Estado laico. Esse conjunto de valores em conhecimento e conduta forma a coluna vertebral do humanismo. Humanistas nem precisam provar a que vieram: já existe uma longa história de suas realizações.
Forçadas a arregaçar as mangas diante do silêncio do cosmos, as pessoas humanistas examinam, reexaminam, propõem e criticam. Discordam entre si, afinal é preciso partir de uma pluralidade de hipóteses, mas frequentemente convergem em investigações independentes. Só querem saber do que pode dar certo, não têm tempo a perder, mas sabem que prazer não é necessariamente tempo perdido. A vida é finita e pode ser melhor aqui e agora. E “vida” não significa apenas “vida humana”; “finita” não significa “aceitamos qualquer conclusão que puder ser obtida no prazo de uma vida”; e “melhor” não significa “o que importa é ter mais gente pensando exatamente como nós”, nem significa “vamos praticar justiça punitiva para ferir quem feriu, excluir quem excluiu, e censurar quem censurou”.
Não é fácil, não é popular, e o sucesso não é garantido. Faz-se as coisas mesmo assim porque omissão é uma decisão perigosa. E não há nada mais terrível no leito de morte de uma pessoa humanista que a sensação de que não se dedicou a nada além de si mesma, não construiu nada, não aplicou tempo e esforço em projetos de valor que valorizam a própria vida, e que esta vida pode ser descrita pelo que não teve, uma vida “invertebrada”.
27th of March

Religião se discute, contanto que com respeito: por que não sou cristão e por que sou ateu


Como sou um otimista incorrigível, acredito ser possível discutir religião sem ferir sentimentos. E acredito que posso explicar por que sou ateu de forma suficientemente objetiva, para que quem quiser compreender, compreenda, concordando ou não.
Ao contrário de alguns outros ateus, eu não acredito que tenho o dever de convencer qualquer pessoa a ser ateia, muito menos acredito que o mundo será melhor se todas forem. (Um ateu que veio se comportar de forma machista e homofóbica no meu perfil ontem é evidência de que isso não é verdade.)
Então aqui vai, de forma resumida – por que não sou cristão, e por que sou ateu.
1) Por que não sou cristão?
1.1 Ética
Agora que já passei da fase da revolta adolescente contra religião, que é comum em quem a abandona cedo (no meu caso, entre 14 e 15 anos), posso apreciar o que há de bom na mensagem cristã. Num mundo de linchamentos e impérios de dois mil anos atrás, certamente era uma pessoa com um conhecimento ético avançado quem defendesse o perdão, e quem defendesse que nós podemos reparar o que fizemos de errado. Que são umas das coisas que Jesus diz na Bíblia. E, talvez mais importante que isso, são as coisas que me ensinaram na minha educação católica. Alguns ateus cometem o erro de pensar que o cristianismo está na Bíblia antes de estar nos cristãos, então catam os piores trechos bíblicos para condenar o cristianismo. Mas isso demonstra uma ingenuidade antropológica sobre a natureza do fenômeno religioso… crer que o cristianismo é apenas uma “religião do livro” é ignorar o quanto há coisas que a maioria dos cristãos praticam que derivam de interpretações generosas da Bíblia e práticas comunitárias, em vez de literalismo estrito com textos (Jesus diz que veio para trazer a espada e voltar a nora contra a sogra? Sim. Mas não é onde a maioria dos cristãos foca suas crenças, e o cristianismo são eles e não citações impopulares de Jesus). Os ateus ainda estão aprendendo o que é isso – viver em comunidade de crença, não apenas na internet, mas fisicamente. Não é justo generalizar o cristianismo tomando a Westboro Baptist Church (pequena igreja fundamentalista que faz piquetes até em funerais) assim como não é justo generalizar sobre o ateísmo tomando seus piores exemplos. É preciso uma racionalidade estatística para lidar com fenômenos complexos… então se é para comparar cristãos a ateus, corrija-se para escolaridade e outras variáveis sociais.
Enfim, reconhecida a mensagem moral positiva do cristianismo moderno, com alguma raiz no Jesus bíblico, ainda preciso explicar por que isso não me faz cristão. Em primeiro lugar, porque a mensagem moral positiva do cristianismo não tem nada de exclusivamente cristã. Não é monopolizada pelo cristianismo, nem foi invenção do cristianismo. A “lei de ouro” de não fazer aos outros o que não quer para si (que tem alguns problemas se analisada com cuidado, mas em geral se aplica) apareceu em outras religiões e também em contextos seculares. Os materialistas de cerca de três mil anos atrás, na Índia, a defendiam também e queriam o fim do sistema de castas. O budismo a defende também, e Confúcio. E além de não ser exclusiva do cristianismo, a moralidade cristã não é completa. Quando há problemas não tão difíceis de resolver eticamente falando, como o aborto e a eutanásia, os cristãos geralmente têm problemas para perceber que não são bichos de sete cabeças (há exceções notáveis, como as Católicas Direito de Decidir). Quando se encontram diante de problemas mais difíceis da modernidade, como “os pais devem poder decidir qual orientação sexual os filhos vão ter?”, a pessoa cristã média tem tantas dúvidas quanto a pessoa ateia média (ou muçulmana, espírita ou candomblecista). Em outras palavras, o cristianismo não dá insight moral especial ao cristão sobre casos éticos contenciosos, e pode turvar sua visão para casos não tão contenciosos. E eu digo que pode turvar por causa das outras crenças do cristianismo das quais ainda não falei: as crenças sobre fatos. Mas para resumir as crenças sobre ética, o que eu penso é: o cristianismo dá uma mensagem moral genérica que é positiva, por seu próprio mérito (não estou falando da aplicação), mas não é uma mensagem suficientemente impressionante ou original para “vender” o cristianismo como melhor que as alternativas.
1.2 Fatos
Indo agora às crenças cristãs sobre fatos, começo pela crença à qual fiz alusão e penso que turva suas decisões em alguns assuntos éticos: a crença em alma ou espírito. A crença de que nossas personalidades, nossas mentes, existem numa substância misteriosa que habita nossos corpos e sobrevive à sua morte. Primeiro, a evidência para acreditar nisso é, para ser generoso, insuficiente. É uma afirmação sobre como o mundo funciona, que o mundo, como ele funciona, não se cansa de contradizer. Phineas Gage no começo do século XX acidentalmente teve o cérebro atravessado por uma barra de metal, e os melhores relatos são de que após isso mudou a personalidade, o comportamento moral, etc. Henry Molaison, após remoção cirúrgica de parte de seus hipocampos, passou a ser incapaz de formar novas memórias declarativas. Não me equivoco: sei muito bem que quem se subscreve ao evidencialismo nessa questão sou eu, e nenhum cristão é obrigado a crer que essa é a melhor forma de abordar. Certamente acreditam ter outras razões – se alguma – para acreditar em espíritos e vida após a morte. (Tenho esperança de que não seja apenas por medo, pois acho que qualquer pessoa reconhece que crer ou deixar de crer em algo por medo é irracional – e por mais que compreendamos que alguém em severo luto negue que seu ente querido morreu, seus sentimentos nada têm a ver com a verdade de o suposto falecido estar morto ou não.) Acredito que é essa crença, de que há uma substancia essencial, invisível e sobrenatural carregando nossas personalidades, que obscurece o julgamento de muitos cristãos na hora de pensar em aborto e eutanásia. Colocando vidas em risco e causando muita dor desnecessária neste ínterim: atribuindo capacidades demais a fetos e mórulas, às custas das mulheres que os carregam, e fazendo o mesmo com pessoas com completa morte cerebral, ou crendo que não há problema em pessoas marcharem para sua morte com dor excruciante, e que não podem decidir sobre seu próprio fim, por crer que terão oportunidade de se cicatrizar numa outra vida. Tenho noção de que a relação mente/cérebro está longe de ser compreendida dentro do paradigma naturalista, se será um dia (o filósofo Colin McGinn acredita que atingimos nossos limites como seres cognoscentes nesta questão e jamais saberemos a resposta). Mas ter problemas numa teoria não favorece automaticamente as alternativas. Os problemas na teoria de uma sociedade sob um Estado de bem-estar social não são evidência de que corretos são os libertários extremistas que fazem apologia ao egoísmo ou os marxistas mais marxistas que Marx que querem a revolução do proletariado agora mesmo.
As outras crenças sobre fatos dentro do cristianismo são, em resumo, de que houve um homem sábio no oriente médio há dois mil anos chamado Jesus (evidência circunstancial, mas existente), de que este homem era filho de Deus (o que é apenas alegado e aceito por fé), e de que ele passou três dias morto e ressuscitou (em franca contradição com tudo o que se sabe sobre organismos humanos). Alegações sobrenaturais também são feitas no Islamismo, em que muitos acreditam que Maomé subiu aos céus num pégaso, no Budismo, em que descrevem um comportamento inesperado de animais frente à figura de Siddartha Gautama, no espiritismo, em que alegam que objetos podem ser “materializados” por pessoas mortas (enquanto a física diz que precisamos de estrelas para formar elementos mais pesados que o hidrogênio), nas crenças populares dos povos indígenas nas Américas (lembro que havia a crença popular de que a planta mandioca veio de uma menina injustiçada que foi enterrada), etc. Os exemplos são inúmeros, e o trabalho interessantíssimo de descrição comparada de crenças sobrenaturais existe ao menos desde o livro “The Golden Bough” de James Frazer. Aqui, o problema é que eu não acredito que uns povos têm mais acesso à verdade que outros, especialmente sobre o universo. Tenho razões para crer nisso, por exemplo, a alta similaridade genética e de capacidades cognitivas entre pessoas das mais diferentes etnicidades. Sim, alguns povos diferem de outros quanto à produção de conhecimento nos últimos séculos, mas isso é explicado pelo ambiente, não por supostas características cognitivas intrínsecas desses povos (ver “Armas, germes e aço” de Jared Diamond). Então, onde faz alegações sobre como o mundo é ou foi no passado, o cristianismo não me parece especialmente privilegiado no acesso à verdade. E numa era de câmeras e smartphones, é curioso que coisas espetaculares como Elias subindo aos céus numa carruagem de fogo não pareçam acontecer mais, e quando acontecem a investigação ou termina em conclusão negativa ou é inconclusiva.
Mas a discordância entre religiões diferentes, e a aparência de que são todas igualmente dignas de crédito, certamente não justificam que estão todas erradas. Então por que sou ateu?
2) Por que sou ateu?
Em primeiro lugar, ser ateu não significa acreditar que todas as religiões estão erradas. Simplesmente pelo fato de que há religiões ateias. O budismo clássico é uma. (Ler este texto que escrevi sobre a história do ateísmo na Índia: http://www.bulevoador.com.br/2009/12/historia-do-ateismo-parte-1-india/ ) Então não precisamos entrar em pânico a respeito de ateus querendo eliminar religiões, ao menos ateus como eu. Os que pregam suas enormes (e injustificadas) esperanças de que as religiões sumam da face da Terra ignoram que a crença do ateísmo não é novidade nenhuma no próprio cenário religioso.
É preciso definir o que é Deus, ou o que são deuses, em respeito às religiões politeístas. (A propósito, aquela frase bonitinha de que as religiões são diferentes mas acreditam no mesmo deus é falsa.) Parece-me útil partir das capacidades mentais dos deuses – deuses, em primeiro lugar, são entidades com capacidades mentais.
Nisso, estou excluindo algumas definições de deus(es), como a panteísta (Deus = Natureza, de Spinoza) e uma que aparece até em teologia cristã, de que Deus seria “a base de todo ser”. Por que? Bem, primeiro porque a natureza já tem nome – natureza, e a maior parte das pessoas teístas (que acreditam em um ou mais deuses) certamente não crê que a natureza é sinônimo de deuses, exceto se forem animistas, mas estes atribuem capacidades mentais, intenções e planos, às entidades naturais que instanciam a divindade (então se encaixam na definição que comecei a delinear). Segundo, porque a física poderia alegar também que algo é a “base de todo o ser”, outras metafísicas poderiam usar o mesmo termo para entidades desprovidas de mente e mais parecidas com “supercordas” ou “partículas” ou o que quer que seja, e não precisariam crer, como crêem os teístas, que essa “base de todo o ser” se preocupa com nossas vidas ou tem algo a ver com o mundo como ele é (ou o criou intencionalmente).
Então, continuando: deuses são entidades dotadas de mentes que ou criam ou controlam parte ou a totalidade do mundo ou da realidade aparente, incluindo ou não origens, destinos e aspectos éticos das vidas humanas.
Isso parece incluir satisfatoriamente a maior parte das definições de deuses, inclusive a de deístas como Voltaire, os deuses gregos, e Javé. O que todos esses deuses têm em comum são as capacidades mentais. Ocorre que a única mente que conhecemos com capacidades semelhantes às descritas para os deuses, sem sombra de dúvidas, é a nossa própria. Também conhecemos um pouco a mente de elefantes, chimpanzés, golfinhos e corvos, mas por mais impressionantes e belas que sejam essas mentes, não passam perto de ter um poder criador e transformador sobre o mundo como um todo. Então temos um único exemplo de mente criadora. Se considerarmos que somos uma em cerca de 3 milhões de espécies animais (uma subestimativa muito conservadora), então a probabilidade de aparecer uma mente criadora é muito baixa, se considerarmos as espécies como eventos independentes e oportunidades independentes de surgimento espontâneo de mentes. Estou partindo de conhecimentos pouco controversos sobre espécies animais e sobre nós, não estou nem mesmo considerando evolução (que também não é controversa). Se a probabilidade para nossa mente limitada e criadora é tão baixa, então para uma mente mais poderosa, capaz de controlar ou o clima, ou o planeta, ou o universo inteiro, tem de ser evanescentemente mais baixa. E esta é uma das evidências de que uma crença na inexistência de divindades é justificada.
Quando consideramos Deus, o das religiões abraâmicas que é o mais popular no Brasil hoje, outros problemas emergem: se for definido como onipotente, onisciente e onipresente, o problema é de lógica, pois essas propriedades são autocontraditórias. Se for definido como perfeitamente benévolo e extremamente poderoso, isso entra em contradição com o mundo como ele é, não só para humanos como também para outros animais. Essas e outras coisas se juntam num conjunto que passei a chamar de evidências de inexistência de divindade. Explico em mais detalhe em textos espalhados, nenhum dos quais me satisfaz (em terminologia, meus conhecimentos filosóficos quando os escrevi, etc.), mas dão uma impressão geral do meu pensamento sobre o assunto:
E então, o que fazer com isso tudo? Eu faço, em primeiro lugar, porque gosto de pensar que amo a verdade, então esse foi o pequeno esforço que fiz para tentar encontrá-la nas questões religiosas, no mundo mental que habito nesta vida que creio ser finita. E comecei, quando adolescente, por examinar as falhas que frequentemente são cometidas nesta busca – como a falha de acreditar no que queremos acreditar, e não no que podemos ler no livro do mundo, tanto o interno quanto o externo.
Mas, como Confúcio já dizia, amar a verdade não significa encontrá-la, ter tempo para trabalhar buscando-a, etc. Essa tem sido minha opinião até o momento, na qual posso estar enganado, mas a respeito da qual respostas fáceis não resolverão, se a intenção for mudar minhas ideias. Sinceramente, acho muito improvável, diante de tudo o que eu disse acima, que eu volte um dia a crer em coisas como ressurreição de Jesus, imaculada concepção de Maria, etc.
Agora, o que não admito é ser tratado com preconceito por pensar como eu penso. Ainda mais por pessoas que, apesar de toda a retórica popular de que educação é uma coisa boa e estudar e ler são coisas tão boas que são usadas até como símbolo de status, não fazem o mínimo esforço em de fato se educar, estudar e ler. E sim, isso inclui estudar e ler a Bíblia, mas onde for relevante, e não na esperança de que ela magicamente converta o leitor ao cristianismo (tarefa difícil, dados alguns trechos extremamente problemáticos, eticamente falando, que ela tem).
Quem me trata diferente por eu ser ateu, ou alguma outra coisa, é responsável pela qualidade de suas próprias ideias, tanto quanto eu, e se for verdade que a história julga, estou tranquilo quanto à minha inocência. Estou fazendo o que posso (nem sempre o melhor que posso, não usarei desse insicero clichê, pois às vezes falta motivação), e meu pensamento, exceto onde eu puder dizer o contrário enquanto vivo, fala por mim.
Obrigado a quem leu até aqui.
13th of February

Um ano da ‘resposta de geneticista a Silas Malafaia’: uma entrevista


Fez um ano que publiquei a resposta ao Silas Malafaia. Eu cheguei a receber o convite de uma produtora do programa da Gabi sobre dar uma entrevista, ela disse que a Gabi gostou do meu vídeo. Depois retirou o convite, disse que a Gabi pensava que era melhor deixar o assunto morrer do que insistir nele me convidando para o programa. Acho que não é problema contar isso um ano depois. Eu não achei ruim que o convite inicial foi retirado. Defendo muita coisa que arrepia os pudores da maioria dos brasileiros, não sou conhecido, e me ter no programa dela seria um risco para ela – especialmente por depender de audiência.
Uma ironia: Silas Malafaia espalhou por muitas mídias que a nota da Sociedade Brasileira de Genética explicitamente em apoio aos meus argumentos na verdade concordava com ele. Ocorre que aquela nota foi 90% escrita por mim. Começou como uma carta aberta que mandei a vários geneticistas de renome, e quando a SBG resolveu fazer sua própria nota oficial, contactou especialistas em genética do comportamento humano, e esses especialistas me contactaram.
6th of February

Dos dois tipos de saudade


Existem duas formas de sentir saudades. Uma delas, que vou chamar de shakespeariana (por causa de Romeu e Julieta), é a autodestrutiva, uma espécie de crise de abstinência, descrita muito bem naquela música da Sade: “sinto sua falta como os desertos sentem falta da chuva”.
A outra, que deve ser mais rara, é a epicurista. Epicuro de Samos, filósofo grego, morreu provavelmente de cálculos renais. Suportou as famosas dores renais até o fim. Em uma de suas últimas cartas a um amigo, diz que suas memórias da amizade não lhe causavam dor: eram, na verdade, o que o fazia feliz de ainda estar vivo. É a saudade dos sábios: alegrar-se por ter tido a sorte de ter algo tão precioso na vida, mesmo já tendo acabado, pois nada dura para sempre, e o que resta do êxtase é sempre a memória dele, não muito acurada, não muito certeira, mas um souvenir que te ancora ao conforto de saber que você esteve lá.
Redundante dizer que tento buscar a segunda.
24th of January

Epicurismo


Photo © 2008 Holly Hayes/Art History Images. All rights reserved.
A imagem mostra Metrodoro de Lâmpsaco, filósofo grego membro do Jardim de Epicuro de Samos, retratado cerca de 500 anos após sua morte num mosaico romano (fim do século II a começo do século III). 
O texto do mosaico diz algo assim: “Nós nascemos apenas uma vez; é impossível nascer duas vezes e é necessário não mais existir eternamente [após a morte]. Mas você, embora não seja mestre do amanhã, descarte a fruição. A vida é gasta pela procrastinação e cada um de nós morre sem tempo suficiente nas mãos.” 
Epicuro de Samos fundou uma escola filosófica que era um estilo de vida, um caminho de temperança para a felicidade e o conhecimento. Combatia ardentemente as alegações das outras grandes escolas de Atenas: os acadêmicos (seguidores de Platão), os estoicos (seguidores de Zenão de Eleia entre outros) e os peripatéticos (seguidores de Aristóteles). 
Os “epicureus” (epicuristas) são citados desfavoravelmente na Bíblia, e Dante, embora gostasse de Epicuro como pessoa, manda-o para o sexto círculo do inferno por causa de suas ideias. Thomas Jefferson, numa carta em 1819, diz a William Short “eu também sou um epicurista”. A tese de doutorado de Karl Marx foi sobre Epicuro. 
Não acredito que indivíduos ou escolas de pensamento possam conter todo o conhecimento do mundo (muito menos hoje), mas não tenho reservas quanto à maioria das ideias epicuristas, que atravessaram mares de tempo e resistência e continuam encontrando admiradores ilustres mais de 2300 anos depois. 
Eu, também, sou epicurista. O antigo nome do meu blog, “Tetrapharmakos in Vitro”, era uma referência direta ao epicurismo de Diógenes de Oinoanda (Oinanda fica na atual Turquia), que escreveu as ideias de Epicuro num muro de três metros de altura, endereçou as ideias a todas as pessoas do mundo todo independente de gênero, idade ou nacionalidade, abraçando uma ideia cosmopolita de cidadania internacional, coisa tão importante hoje. E como estudante de doutorado tento sempre seguir o conselho de Metrodoro, nem sempre com sucesso. 
Uma boa fonte para saber mais: “The Cambridge Companion to Epicureanism” (2009), editado por James Warren.
(Publicado no meu extinto Facebook em fevereiro de 2013.)
23rd of July

Resposta à cartilha obscurantista da Igreja Católica para a Jornada Mundial da Juventude


Entidades ligadas ao Vaticano distribuíram milhares de cópias de um “Manual de Bioética para Jovens” na ocasião da visita do Papa Francisco ao Brasil. Achei curioso o nome, dado que bioética é uma área séria de pesquisa filosófica, completamente secular. A seguir, comento alguns trechos do manual selecionados pela Folha de S. Paulo.

1. “Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe. A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver”.

A Universidade de Cambridge, Reino Unido, já divulgou estudo mostrando que não há qualquer diferença em competência sócio-psicológica entre crianças criadas por casais tradicionais e crianças criadas por casais do mesmo sexo. A realidade é esta, e a “realidade” do “realismo” da Igreja é uma invenção ideológica sem qualquer âncora em fatos. Fonte: http://www.cam.ac.uk/research/news/ive-got-two-dads-and-they-adopted-me

2. Um menino pelado olha para o próprio pênis e questiona: “Não sou homem? Eu? Então o que é isto?”.

Existem meninas que nascem com pênis. Isso é um fato reconhecido por publicações médicas recentes. Vamos falar um pouco da realidade do desenvolvimento embrionário. Até os dois primeiros meses de gestação, desenvolve-se a genitália. Mas só da metade da gestação adiante desenvolvem-se os circuitos cerebrais associados à identidade de gênero. O desenvolvimento da genitália de qualquer organismo com genoma humano, independentemente de haver cromossomo Y ou não, seguirá para o surgimento da vagina na ausência de hormônios masculinizantes.

Existem pessoas XY que se desenvolvem com insensibilidade a androgênios – são mulheres com vagina, em sua maioria heterossexuais. Isso fica difícil de conciliar com o dogma de que Deus criou primeiro o homem e depois modificou-o em mulher (como acreditava Tomás de Aquino, notório misógino que defendia que mulheres eram formas degeneradas de homem), quando nos detalhes genéticos do desenvolvimento embrionário são estruturas mais tipicamente femininas que servem como substrato para o desenvolvimento de estruturas mais tipicamente masculinas, quando hormônios e fatores de transcrição acionam cascatas bioquímicas de desenvolvimento.

Como existe uma independência temporal entre desenvolvimento do sexo biológico genital e desenvolvimento de estruturas associadas a diferentes gêneros no cérebro, é natural, possível, e sempre acontecerá numa minoria da humanidade que o sexo biológico se desenvolva de uma forma e o “sexo cerebral” se desenvolva de outra, de forma que a também importante contribuição do ambiente cultural atuará sobre cérebros já mais propensos a aceitar uma categoria ou outra. Casos de pessoas transgênero na pré-infância não são desconhecidos, inclusive em famílias cristãs, que só aumentam o sofrimento da família e de seus filhos transexuais ao tentar mudar a identidade de gênero que começou a se formar já no útero.

Fonte: Ai-Min Bao (Ministério da Saúde da China) & Dick F Swaab ( Instituto Holandês de Neurociência e ao Instituto da Real Academia Holandesa de Artes e Ciências). 2011. Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders. Frontiers in Neuroendocrinology 32(2): 214–226.

A não-aceitação preconceituosa de pessoas transgênero (ou transexuais), diante dos fatos acima, é nada mais nada menos que um preconceito, pois, ainda que alguém acredite que seja doentio ou imoral ser trans (posição que carece de argumentos), não pode culpar trans por sê-lo e muito menos esperar que consigam mudar sua identidade sexual ou de gênero. A Igreja Católica Apostólica Romana é transfóbica em sua cartilha.

O mesmo pode ser dito quanto à orientação sexual e a condição de qualquer pessoa como heterossexual, bissexual ou homossexual. Quem apresenta a orientação sexual majoritária e aprovada pela Igreja precisa no mínimo examinar-se honestamente e estabelecer quando foi que escolheu se sentir atraído por um sexo/gênero diferente do seu. E a resposta honesta é que não escolheu, e portanto não tem qualquer elemento evidencial para alegar, como faz o pastor fundamentalista Silas Malafaia, que homossexuais escolhem ser homossexuais. Poucos meses atrás a Sociedade Brasileira de Genética desmentiu essas alegações do pastor em nota oficial ( http://sbg.org.br/2013/03/manifesto-da-sociedade-brasileira-de-genetica-sobre-bases-geneticas-da-orientacao-sexual/ ).

Felizmente, os católicos que são contra os direitos de adoção dos casais do mesmo sexo, ou contra seu casamento civil sob os auspícios de um país laico, já são minoria, como publicado pela Folha de S. Paulo. Isso atesta que a Santa Sé continua mais conservadora que seus próprios fiéis, por isso produz cartilhas como esta tentando trazê-los para posições ultrapassadas e que só aumentam o sofrimento no mundo.

3. “Recusar a adoção aos homossexuais não representaria homofobia? Não, porque a questão é outra. Ter um filho não é um direito! O filho não é um bem de consumo, que viria ao mundo em função das necessidades ou dos desejos dos pais. Embora o fato de alguém não poder ter filhos seja fonte de sofrimento, essa reivindicação dos lobbies homossexuais não é legítima”.”

Sim, recusar um direito dos casais do mesmo sexo é um preconceito, e o nome é homofobia. Sim, a Igreja está defendendo uma posição homofóbica, e trocar o nome do preconceito ou tentar se distanciar do nome que ele tem não apaga o fato de que o Vaticano, representando pela CNBB, mandou um advogado ao STF, no julgamento que reconheceu a união estável homoafetiva, para tentar barrar os direitos desses casais e impedi-los de serem reconhecidos como família. Tudo isso numa interferência explícita e inconveniente numa estrutura de poder secular que se declara como tal, laica, a qual a Igreja está usando neste momento para pagar com dinheiro público brasileiro por uma visita que de “diplomática” e “visita de chefe de Estado” não tem absolutamente nada. O nome que se dá a subverter a laicidade Constitucional do Brasil para proveito próprio, mantendo privilégios e falta de igualdade entre as crenças dos contribuintes brasileiros, é tráfico de influência, e os governantes que permitiram isso são igualmente culpados.

E sim, ter um filho é um direito, e não, como a Igreja acredita, um dever. Crença que ela faz questão de impor nos úteros de todas as mulheres brasileiras, que são impedidas de decidir sobre suas próprias gestações por causa de outros tráficos de influência religiosa mais antigos que criminalizaram o aborto. Isso porque a própria história da Igreja mostra um notável dissenso sobre a questão, com alguns teólogos permitindo o aborto até certa fase do desenvolvimento, e outros decidindo dogmaticamente e magicamente que a união dos gametas é a origem do indivíduo. O fato da Bíblia ter sido escrita num período histórico em que ninguém sabia o que era ovócito nem espermatozoide não impede o clero de se intrometer impertinentemente nos direitos civis brasileiros, de querer palestrar sobre assuntos que são da competência de médicos e profissionais das ciências biológicas e ciências humanas. E por falar em médicos, o Conselho Federal de Medicina já deu a correta opinião de que o aborto deve ser permitido até a décima-segunda semana (período seguro anterior ao desenvolvimento do cérebro, o mesmo órgão cuja morte dá o direito às famílias para desligar os aparelhos e doar os órgãos de um indivíduo), pela simples razão de que a criminalização ideologicamente patrocinada pela Igreja Católica é assassina e faz diversas vítimas anualmente neste país. Vítimas essas que só tiveram o azar de ter se desenvolvido com a identidade de gênero e sexo biológico femininos, que a Igreja rejeita de seu quadro eclesiástico e com os quais tem uma longa história de desprezo, apesar da simbologia de Maria.

Já está ficando para o passado os tempos em que a Igreja Católica percolava pela cultura e pelo poder brasileiros, infelizmente usando-os nem sempre de forma sábia. Os católicos são em sua maioria mais progressistas e respeitadores dos direitos de seus concidadãos que a instituição bilionária à qual se afiliam e com a qual frequentemente discordam, bastando usar o exemplo do uso da camisinha para atestar isso.

Por falar em camisinha, foi notório que a primeira desistência de papado em quase 600 anos aconteceu neste momento, e foi feita pelo mesmo ex-papa que passou por cima do conhecimento científico alegando que a camisinha pioraria a incidência da AIDS na África. Temos nesta cartilha aos jovens brasileiros mais um exemplo de palpite eclesiástico errado no território da ciência. Além de termos, é claro, justificativas as mais absurdas para sorver mais de 100 milhões do erário público para um líder religioso que não representa todas as crenças no Brasil.

O que me pergunto é onde foi parar a ideia de dar “a César o que é de César”. Temos diversos césares se escondendo com batinas.

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Eli Vieira
biólogo geneticista,
ex-presidente da LiHS,
feliz em compartilhar um país com quem acredita em poder público laico em que todos são bem-vindos e ninguém é privilegiado.