5th of September

O que é preconceito, afinal? Discutindo o preconceito com calma e contra a irracionalidade ativista dos nossos tempos


Em tempos em que as pessoas usam a sua postura contra o preconceito como o pavão usa o rabo dele, faz-se necessário pensar com alguma precisão o que é preconceito afinal. Assim poderemos ter esperança de distinguir a preocupação genuína com justiça do mero adorno.

Essas são as definições do dicionário Priberam, mantido por portugueses e meu favorito na nossa língua (eles inventaram essa joça, então devem saber do que estão falando):

pre·con·cei·to
(pre- + conceito)
substantivo masculino
1. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.
2. Opinião desfavorável que não é baseada em dados objectivos. = INTOLERÂNCIA
3. Estado de abusão, de cegueira moral.
4. Superstição.

O dicionário serve para capturar o significado dado pelo uso das palavras, e isso é importante: é o uso que faz o significado. O sentido das palavras que usamos depende literalmente de um concurso de popularidade de sentidos nos contextos sociais em que as usamos. Mas, como as palavras denotam coisas que estão no mundo, e o preconceito é uma delas, raramente os significados propostos pelo dicionário são satisfatórios.

O dicionário é útil aqui, em primeiro lugar, para afastar o jeito mais preguiçoso de definir preconceito: o uso literal da etimologia. Não, o preconceito que nos interessa aqui, que é o tipo social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta, não é simplesmente “pré-conceito”, como a etimologia parece sugerir. Se fosse só isso, significaria que todas as crianças são ativamente preconceituosas, quando são só ignorantes, com uma ignorância geralmente benigna: só têm noções superficiais das coisas (pré-conceitos) até aprenderem conceitos sobre elas. A etimologia é via de regra um guia impreciso para o sentido das palavras: ao menos na matemática, “cálculo” não é uma pedrinha (sentido literal da palavra de origem no latim), embora na nefrologia ainda seja. O Priberam dá a etimologia de preconceito, como é comum em dicionários, mas não a lista como definição. No entanto, a definição 1 parece influenciada pela etimologia. Tudo bem, há frases em que usamos realmente esse sentido: “meu preconceito sobre abrir uma empresa é que precisarei de muito capital inicial”.

Perceba que já comecei a definir de que preconceito estamos falando ao diferenciá-lo da definição influenciada pela etimologia. Mas eu não precisei fazer isso antes: apostei que o primeiro sentido de preconceito que você pensou ao ler o título deste texto foi justamente o social, acompanhado em versões mais danosas da discriminação injusta. Pois é um uso comum da palavra, especialmente nos nossos tempos, e o uso — com o perdão da repetição — faz o significado.

Pois continuemos. Na definição 2, sugere-se o sinônimo “intolerância”, e que o preconceito não é baseado em dados objetivos. É aqui que começaremos a nos distanciar do dicionário. Sempre que o assunto é tratado, é comum que se diga que preconceito tem a ver com estereótipos e que estereótipos são ideias imprecisas sobre certos grupos de pessoas. Manchetes de jornal e palavras de ordem chegam a tratar estereótipo como uma coisa intrinsecamente negativa que precisa ser quebrada, talvez sinônimo de preconceito (que as definições 3 e 4 também tratam como imoral, o que discutiremos a seguir sem voltar a elas).

Um fato testado e retestado pela psicologia social é que os estereótipos são precisosO estereótipo de que meninos gostam de carrinhos e o estereótipo de que meninas gostam de bonecas, por exemplo, mais acertam do que erram: englobam a maioria das meninas e dos meninos, deixando de fora as exceções. É isso o que queremos em qualquer teoria sobre a sociedade: que seja precisa o suficiente, descreva com sucesso a maior parte do grupo estereotipado. De fato, algumas das teorias mais respeitadas na própria psicologia social não chegam ao grau de precisão dos estereótipos. Sobre a precisão deles, as pesquisas mostram outra coisa interessante: os estereótipos são estatísticas intuitivas, que as pessoas formam por sua própria experiência como coletoras intuitivas de dados. E mais: as pessoas são racionais, atualizam suas crenças de acordo com novas informações: ao saberem de informações individualizadoras sobre uma pessoa, elas geralmente deixam de julgá-la com base nos estereótipos dos grupos aos quais essa pessoa pertence. E, se virem um número suficiente de pessoas de algum grupo com informações individualizadoras que contrariam o estereótipo, ele é atualizado com as novas informações.

Evidências empíricas mostram, portanto, que não serve alegar que o preconceito é baseado sempre em informações falsas. É importante aqui lembrar que os dados são coletados pela experiência. E que os estereótipos são levados em diferentes versões em cada cabeça, se cada cabeça tiver uma experiência diferente. Mas há consensos de estereótipos e esses são os mais precisos, assim como na ciência as teorias mais corroboradas são as que nascem de consensos de diferentes áreas de pesquisa: a evolução biológica, por exemplo, é apoiada por um consenso de geneticistas, paleontólogos, zoólogos, botânicos, microbiólogos etc., com base em diferentes evidências que contam a mesma história.

Se o preconceito pode ser baseado em informações verdadeiras, qual é o motivo de tanta desaprovação? Ainda é errado ter preconceito? A resposta é sim, nessa definição revisada:

pre·con·cei·to

  1. Juízo de valor moralmente enganoso sobre informações verdadeiras ou falsas a respeito de grupos de pessoas; frequentemente acompanhado de
  2. atribuição falaciosa de causa inevitável entre características biológicas ou identitárias (falsas causas) e mau comportamento (falsa consequência); e também
  3. atitude autoritária segundo a qual um indivíduo tem o dever de se comportar em conformidade com estereótipos a respeito de grupos aos quais pertence.

Creio que assim fica claro qual é o problema de ser preconceituoso e qual trabalho as pessoas contrárias ao preconceito deveriam estar fazendo.

Qual é o problema do preconceito, em três exemplos seguindo as três partes da definição:

  1. Não é que é falso que homens homossexuais são mais “promíscuos” que outros grupos de sexualidade: quem pensa que fazer muito sexo é antiético é que tem responsabilidade de mostrar que é mesmo imoral. Se não há problema moral inescapável na quantidade de sexo que gays fazem, a condenação desse comportamento é preconceituosa: é um juízo de valor enganoso.
  2. Não é que nunca é verdade que assaltantes são negros: em determinadas áreas, esse é um estereótipo preciso para boa parte dos assaltantes. No entanto, quem acredita que a causa do comportamento de roubar as pessoas com ameaças de violência é a cor da pele e demais características raciais de pessoas negras está enganado e é preconceituoso.
  3. Não é mentira que poucas mulheres gostam de engenharia e programação. Mas isso definitivamente não é desculpa para tentar obrigar Maria da Silva, uma engenheira de software, a largar a área, ou para alegar que ela não deveria ter entrado na área. Essa atitude e essa opinião são imorais, autoritárias e preconceituosas.

Atitudes recomendáveis para combater as três facetas do preconceito:

1. Discussão moral racional do julgamento de valor enganoso, para demonstrar que é mesmo enganoso. A vida sexual agitada dos gays solteiros não parece, à primeira vista, ser imoral. Afinal, estamos falando de pessoas adultas buscando o prazer privado com consentimento. O resultado disso é mais felicidade no mundo. Do ponto de vista dessas consequências, é perfeitamente moral. Do ponto de vista da liberdade, imoral seria impedi-los. Alguém pode dizer que essa “promiscuidade” pode resultar na propagação de doenças venéreas e, a longo prazo, depressão e falta de sentido na vida por ser correlacionado com falta de sucesso em relacionamento amoroso. Há respostas para isso: há prevenção para as doenças (e no caso, imoral é quem não se previne e põe outras pessoas em risco, e o problema deixa de ser a quantidade de sexo); e há relacionamentos abertos. O debate pode continuar, e pode até ser que alguém demonstre no futuro que excesso de sexo realmente é imoral. Neste caso, o preconceito é bom? Não, pois aí teremos a parte 2 da definição: ser gay não é a causa inescapável de ser promíscuo, portanto condenar a homossexualidade junto com a promiscuidade não faz muito sentido.

2. Para combater a segunda faceta do preconceito, é necessário ter curiosidade disposição para trabalhar em achar respostas. Duas coisas muito em falta na maior parte dos ativistas. E, para ser curioso e diligente, é preciso não ter medo do autoritarismo politicamente correto, que é uma resposta errada ao preconceito. É preciso não ter medo de achar informações que confirmem estereótipos, por saber que há uma separação rígida entre descrever como as pessoas são e julgar como deveriam ser. Não há, até hoje, motivo para suspeitar que ser negro causa uma propensão ao crime (para continuar no exemplo de preconceito dado antes). Mesmo se, em hipótese, as evidências levassem para esse lado, não há motivo para pânico ou para concordar com racistas: nós já sabemos com bastante segurança que as pessoas não são autômatos de propensões e que indivíduos sempre podem decidir não cometer crimes. Para forçar mais uma hipótese, e mais mirabolante: mas e se as pessoas forem autômatos? Afinal, há filósofos que não acreditam em livre arbítrio. Neste caso, a interpretação da informação precisaria ser muito mais afastada da punição do que seria hoje. Pois, como esclareceu Kant, “dever” implica “poder”: se um indivíduo não tem capacidade de agir diferente (não tem livre arbítrio), então não faz sentido alegar que ele deveria agir diferente, muito menos puni-lo. Mas não precisamos nos perder em especulações filosóficas: independentemente da diversidade das pessoas que cometem um crime, o problema moral continua sendo o crime, não as características biológicas ou identitárias das pessoas que o cometem, que provavelmente não são as causas mais determinantes do crime.

3. A solução para a mania dos preconceituosos de alegar que você deve se comportar de acordo com algum estereótipo não é a alegação falsa e popular de que o estereótipo não corresponde em nenhuma medida à realidade. Muito menos, como também é popular entre ativistas, criar políticas autoritárias que forçam “representação” de algum grupo em algum lugar em que ele é incomum. A solução é realçar a importância da liberdade, a importância de poder agir diferente das outras pessoas. A solução é também apontar para as qualidades de quem é exótico, excêntrico, incomum. Ninguém gosta de ser só mais um na multidão, sem nada em que se destaca. Apelemos para a empatia (mania de ativista, mas fazem errado também): se o preconceituoso não é igual aos outros em relação a alguma característica dele que é incomum (e sempre tem uma), por que você não pode destoar do estereótipo? Se ela é uma enfermeira apaixonada por Fórmula 1, por que você não pode ser um gaúcho que não gosta de chimarrão?

Com a idade as pessoas perdem velocidade no aprendizado de coisas novas. Não surpreende, portanto, que geralmente as pessoas mais preconceituosas da família são as mais velhas: elas não atualizam tão bem os estereótipos com base em novas informações, e elas fazem julgamentos morais inadequados sobre esses estereótipos sobre os quais os jovens se debruçaram e pensaram melhor. Na nossa sociedade, idade está correlacionada com menos oportunidades educacionais. Também não surpreende que as pessoas menos escolarizadas costumem ser consideradas mais preconceituosas. Esses são dois estereótipos sobre pessoas mais idosas e sobre pessoas com baixa escolaridade, que — agora sem surpresa para nós — são precisos, e coincidem com as pesquisas de opinião sobre grupos como os gays ao menos no último caso.

Cito isso porque também é o estereótipo das pessoas preconceituosas: mais velhas, menos escolarizadas, talvez com algum problema mental. Pensando assim, estereotipadamente, é até possível também repensar preconceitos contra preconceituosos, e lembrar que quem tem preconceito também é um ser humano, e que as respostas ao preconceito não precisam escalar a intolerância. Se não praticaram a discriminação injusta, mas só expressaram pensamentos intolerantes, por exemplo, é justo que os preconceituosos percam seus empregos, sejam forçados a uma vida de privação, ou sejam vítimas de agressões físicas? Sendo o preconceito imoral, tudo a respeito dele deve ser também ilegal? Certamente uma sociedade em que tudo o que é imoral é também ilegal é um Estado policial opressivo. Entendendo melhor o preconceito, ficamos mais preparados para agir contra ele da forma mais eficaz e humana, sem gritaria e sem pânico.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

1st of June

Suicídio e Liberdade


As liberdades individuais são importantes especialmente no contexto social: de dentro para fora, em como o indivíduo se comporta para com a sociedade, e de fora para dentro, em como a sociedade interfere na vida dele. As preocupações liberais estão em maximizar o que indivíduo pode fazer em interesse próprio e minimizar as interferências sociais sobre ele que são autoritárias.

São nesses níveis que o suicídio pode ser tratado à luz das liberdades. De dentro para fora: as pessoas são livres para tirar a própria vida? De fora para dentro: evitar um suicídio é uma interferência autoritária sobre a liberdade de outrem?

Acho que uma resposta dependerá do quanto a decisão do suicídio pode ser racional. Há exemplos de suicídios assistidos e eutanásia que têm toda aparência de decisão racional: a pessoa decide dar um fim pois não fazê-lo dá em uma morte mais lenta e mais sofrida. Dessa forma, num simples cálculo de consequências, o indivíduo está justificado em tirar a própria vida (tem boas razões para isso).

Seria racional um suicídio feito porque alguém julga que não tem “perspectiva de vida” (não vê sentido na própria vida) nem afetará negativamente outras pessoas, mesmo sem estar terminalmente doente? Parece que a resposta é sim, mas que esse tipo de exemplo seria raríssimo, pois não é tão difícil encontrar uma forma de ter uma vida produtiva e com propósito. Quem tem dois braços e duas pernas pode botar isso à prova ajudando os deficientes.

O que esse último exemplo hipotético sugere é que com frequência as pessoas que dizem que sua vida não vale nada e deve ser eliminada estão enganadas. Neste caso, estão sob alguma influência que explica o seu erro de avaliação, como a depressão. Assim, um bombeiro está plenamente justificado em vigorosamente evitar que pulem de uma janela: a probabilidade de estarem erradas, e, mais importantemente, a probabilidade de estarem ferindo a alguém (diretamente — ex.: familiares — e indiretamente — ex.: contágio social de suicídio), são mais altas que a probabilidade de estarem certas.

Esse raciocínio exige um abandono de todo tipo de relativismo. É incompatível com um relativismo moral (“se ela diz que precisa morrer isso é correto para ela”) e um relativismo epistêmico (“se ela diz que sua vida não vale nada, essa é a verdade dela”). A aceitação ou rejeição racional da decisão de um suicida (fora dos casos de eutanásia de pacientes terminais) depende da possibilidade de julgar se ele está objetivamente certo tanto no campo da ética quanto no campo do conhecimento. Sendo assim, a moda dos relativismos, ensinada hoje nas universidades e em parte da cultura popular, é uma moda muito mais perigosa do que parece à primeira vista.

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P.S.: Esse texto resulta de uma discussão do assunto no Fórum Livres. Não há motivo para preocupação com o autor. A pintura é “A Morte de Chatterton” (1856), de Henry Wallis (1830-1916).

6th of November

Na íntegra: falando à BBC sobre ateísmo


A BBC Brasil me entrevistou para uma matéria sobre ateus, e, como é compreensível, pouco do que eu disse ao repórter André Bernardo foi publicado. Como de praxe aqui no meu blog (vide esta entrevista sobre genética do comportamento e esta outra sobre “apropriação cultural”), seguem abaixo as perguntas e minhas respostas na íntegra.

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1. Segundo o Censo de 2010, 0,39% da população brasileira, o que corresponde a cerca de 740 mil pessoas, se declaram ateus ou agnósticos. O senhor diria que, na prática, esse número é bem maior? Por que é tão difícil ser e, principalmente, assumir-se ateu no Brasil?

Sem dúvidas o número é bem maior, especialmente naquelas subculturas brasileiras em que os ateus, especialmente os mais jovens, precisam se esconder de suas famílias e comunidades, com medo de serem postos para fora de casa e ostracizados. Mas eu não esperaria um número exorbitantemente maior, digamos, superior a 10%, pois as condições que levam ao ateísmo orgânico são bem particulares e ainda insuficientes no Brasil. Ateísmo orgânico é como o sociólogo Phil Zuckerman chama a perda de fé de ateus em sociedades em que não houve história de ateísmo forçado pelo Estado. O maior exemplo são os países escandinavos. Há muitos ateus lá porque há uma educação de boa qualidade difundida, e porque as pessoas têm vidas mais confortáveis. Segundo um estudo publicado na revista científica PNAS, há uma relação forte entre a crença em um deus punitivo e poderoso e condições ambientais estressantes, como o deserto. O Javé dos monoteísmos surgiu exatamente nesse contexto, era uma explicação e um consolo diante de uma natureza inclemente para os povos do oriente médio.

2. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, realizada em 2008, mostrou que 17% dos brasileiros odeiam os ateus, 25% têm antipatia e 29% são indiferentes. A que o senhor atribui isso? Teria alguma explicação?

Isso vem diretamente da insistência da maior parte dos religiosos, em especial cristãos, em ensinar que não há uma vida moral sem Deus, o que é uma posição cuja fraqueza já havia sido apontada por Sócrates no diálogo Êutifron. Insistir nela, portanto, é ensinar apenas parte do cânone cultural ocidental. O apresentador de TV Datena disse que os ateus que estavam ligando para o programa dele para responder a uma enquete sobre a existência de Deus estavam ligando dos presídios. Acabou tendo de pagar indenização a um ateu que se sentiu caluniado. A insinuação de que os ateus não têm norte moral é constante nas igrejas cristãs, e talvez é uma ideia difícil de largar porque faz parte do que atrai seguidores. Ninguém quer ser má pessoa, então alegar que seu produto principal de venda é a bondade em pessoa é uma boa estratégia, especialmente se essa fabricação publicitária é ensinada a crianças sem capacidades críticas de questioná-la, por incontáveis gerações. O problema dessa ideia é que ela é falsa. Quem hoje trabalha profissionalmente com a vanguarda do pensamento ético, que são os filósofos eticistas, geralmente nem acredita em Deus. É o caso do filósofo Peter Singer, que praticamente fundou o movimento pelos direitos dos animais, para diminuir a tortura e o sofrimento a que os submetemos. É verdade que há ateus antiéticos, mas a maioria dos ateus é gente bem educada e preocupada em fazer a coisa certa, por vários motivos, incluindo o respeito a si mesmo. Ademais, fazer a coisa certa com intenção de ganhar recompensas após a morte é algo que parece interesseiro. As pessoas buscam fazer a coisa certa por motivos desvinculados de suas crenças religiosas ou irreligiosas: a moralidade é indispensável na vida e eu duvido que qualquer pessoa consiga viver sem ocasionalmente ser insultada pelo que é errado ou ficar desejosa do que é certo. Qualquer ser pensante precisa lidar com noções de certo e errado, assim como precisa lidar com noções de verdadeiro e falso. Não é preciso procurar muito para achar pessoas que são exemplos de vida ética e não acreditam em Deus, assim como é fácil achar o mesmo entre os religiosos.

3. Há relatos de ateus e agnósticos que, aqui ou lá fora, chegaram a sofrer perseguição. Você já foi vítima de preconceito ou discriminação por assumir publicamente que não acredita em Deus?

Não teria caso claro em que fui discriminado por ser ateu – até porque quem quer discriminar faz isso facilmente sem ser notado, por exemplo me negando oportunidades e oferecendo a quem acredita em Deus. Desconfio que já aconteceu, mas é impossível provar. Eu criei uma paródia da famosa formiga evangélica “Smilingüido”, porque sempre achei meio desonesto mostrar para as crianças apenas as partes bonitas e com mensagens corretas da Bíblia, escondendo as partes ultrajantes e horrendas. Criei uma paródia e chamei de “Smilinguarudo“, que é uma formiga linguaruda porque mostra justamente as partes difíceis de justificar, como quando Deus, protegendo os sentimentos feridos do profeta Eliseu, mandou duas ursas para matar e esquartejar mais de quarenta moleques que o tinham chamado de “careca”. A melhor interpretação que conseguiram me dar disso é que a tradução é inexata e que não eram moleques, eram homens adultos insultando Eliseu. Quer dizer então que se foram homens adultos, Deus está correto em pagar insultos verbais com esquartejamento por ursas? E por que eram ursas fêmeas? Eu desenhei essa cena e publiquei no Facebook. A editora responsável pelo personagem parodiado prometeu me processar. Em resposta, eu me limitei a dizer que minha paródia é protegida por Deus e pelo artigo 47 da lei nº 9.610/1998, que protege as paródias. Não digo que esse caso foi de discriminação por eu ser ateu, mas ilustra bem o quanto a crítica incomoda quando mensagens supostamente sagradas se mostram estranhas, imorais e malucas.

4. Há quem chega ao cúmulo de pensar que, por não acreditarem em Deus, os não crentes são menos confiáveis e solidários que os crentes. O que você pensa disso? De onde vem essa distorção?

Vem de ignorância sobre ética, de não pensar detidamente com rigor no que se está falando. O diálogo de Sócrates com Êutifron terminou num dilema: ou nós sabemos o que é certo e errado porque temos capacidade de detectá-lo por nós mesmos, e os deuses também têm essa capacidade e por isso nos recomendam usá-la, ou dependemos dos deuses para apontar o que é certo e errado, botando a autoridade dos deuses na frente da nossa capacidade de raciocinar eticamente. Se o mal no mundo é uma doença e o remédio são as boas ações éticas, as boas ações éticas são boas por suas propriedades intrínsecas, e não porque eventualmente foram comandadas por alguém, ainda que este alguém seja onipotente, onisciente e onipresente. Esta me parece ser a solução ótima para o dilema de Êutifron. A alternativa, que é depender da autoridade de Deus, só adia o problema de entender o que é certo e errado, e além disso nos bota numa posição subserviente e infantilizadora. Muito mais interessante que girar em círculos em torno da autoridade de Deus sobre a moralidade é ouvir os filósofos sobre objetividade e subjetividade na ética, sobre meta-ética. É um campo em que o progresso é possível se arregaçarmos as mangas e deixarmos de lado a autoridade de Deus. Prova disso é que nossa cultura mudou de ideia sobre a permissibilidade da escravidão, e não é possível alegar que a religião foi protagonista dessa mudança, porque a Bíblia autoriza a escravidão em várias passagens, em ambos os testamentos.

5. Já houve algumas campanhas ateístas no Brasil, certo? “A fé não dá respostas. Só impede perguntas” é uma delas. O que pode ser feito para combater a ojeriza contra ateus e agnósticos?

Não achei essas campanhas efetivas porque se valiam de slogans que, como qualquer frase de efeito, são cheios de furos. Sabe quem mostraria que sua fé o levou a várias perguntas e respostas, refutando essa frase? Isaac Newton, que fez ciência só até por volta dos 30 anos e depois só cuidou de teologia. Também não gosto do tom inflamatório, embora eu aprecie um pouco de sarcasmo. Para obter mais tolerância, creio os ateus têm muito a aprender com os gays. Embora para muita gente ainda seja difícil lidar com gays e lésbicas fazendo carícias públicas, até quem tem ojeriza contra eles costuma reconhecer que eles estão dentro de sua liberdade num país laico. Em Bangladesh, recentemente, blogueiros ateus começaram a ser assassinados a machadadas e facadas. Já foram dez mortes de ateus e secularistas desde 2013 só nesse país. O mesmo tratamento que o Estado Islâmico dispensa a gays ele dispensa também a ateus, com diferença somente na forma de execução. A maioria dos religiosos, dos muçulmanos aos católicos, desaprova essas intolerâncias extremadas. Mas será que alguns não praticam formas mais brandas de intolerância? Uma intolerância não deixa de ser intolerância porque não mata ninguém. Pintar todos os ateus como gente imoral ou perdida no niilismo é algo desonesto pois há inúmeros exemplos do contrário para qualquer um que quiser honestamente procurar. Alguns vão alegar que ateus dizem que todo religioso é burro e intelectualmente preguiçoso, mas eu sei que isso não é verdade e até já li teologia do Alvin Plantinga, que é melhor defendida racionalmente que o ateísmo de muitos ateus. É claro que eu, ateu, acredito que estou certo e darei argumentos defendendo meu ateísmo, e considero irracional quem nem tenta defender sua crença diante de críticas e acha até errado que alguém queira criticar. Cada um dá uma desculpa diferente para ter fé, e é incrível como muitos religiosos parecem ter desistido de argumentar racionalmente pela fé nos tempos modernos, quando Tomás de Aquino, por exemplo, acreditava que poderia firmar a existência de Deus e todo o cristianismo em premissas inquestionáveis. Talvez foi porque ele falhou que hoje se recorre tanto ao subjetivismo e ao relativismo para defender a fé? Debates à parte, creio que ateus têm parte da responsabilidade por sua difamação, quando se acovardam de se afirmar e dizer o que pensam em público. É bom para todos nós de todas as fés ou faltas de fé que a sociedade seja plural e nenhuma discordância seja varrida para debaixo do tapete só porque algumas pessoas são incompetentes para discordar sem exaltar os ânimos ou querer punir os discordantes. O Estado Islâmico é um lugar chato e opressivo onde todo mundo pensa igual (ou age como se pensasse). Deve servir de exemplo para sociedades como a brasileira serem o exato oposto: um lugar em que as pessoas são livres para não acreditar em Deus, para expressarem seus pontos de vista (e até se ridicularizarem). A liberdade de expressão é uma boa ideia porque difunde as ideias corretas e também as erradas, nos forçando a defender as primeiras e mostrar por que duvidamos das últimas. Tratar as ideias corretas como dogmas inquestionáveis levanta dúvidas sobre sua correção, pois o que precisa desse tipo de proteção são ideias frágeis diante da crítica. E tratar as ideias erradas como tabus imencionáveis levanta dúvidas sobre nossa real capacidade de mostrar que essas ideias são de fato erradas. Religiosos acreditam que o ateísmo é falso? Então não têm por que vilipendiar os ateus: se o ateísmo for falso, ele se dissolverá diante da luz da verdade no debate aberto, franco, rigoroso e democrático. O mesmo vale para a religião. Quem confia em sua posição defenderá as liberdades individuais de todos.

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Gosta do meu trabalho? Considere se tornar um dos meus patronos.

 

3rd of October

Cotas raciais


— O critério é autodeclaração?
— É.
— Quais são as categorias?
— Preto, pardo e branco.
— Mas os nomes dessas categorias não derivam de cores? Essas cores não são propriedades objetivas de peles humanas, até certo ponto?
— Sim.
— Então não é muito sincero dizer que o critério é autodeclaração, se outras pessoas poderão discordar da sua autodeclaração e te acusar de estar cometendo fraude.
— Sim, mas essas pessoas não são parte do processo decisório, são só ativistas das redes sociais.
— E como é o processo decisório? Uma lista de critérios do racismo científico do século XIX?
— Não, aquilo foi um caso isolado. Eu concordo que o caso do IFPA foi escandaloso, mas ninguém tá usando aquela tabela.
— O que estão usando então?
— Bancas examinadoras.
— Para que precisamos de bancas examinadoras, se o critério é autodeclaração?
— Para saber se a autodeclaração é falsa.
— E como sabem que é falsa?
— Usando critérios objetivos… cada avaliador vai saber se aquela pessoa é negra ou não é, e decidem entre si.
— Quer dizer que antes do caso do IFPA, já estavam usando o olho de examinadores pra ver se a autodeclaração de uma pessoa é verdadeira ou não?
— Sim, mas é bem diferente de fazer uma tabela com pontos pra formato de nariz, formato de crânio, cor de gengivas e dentes, textura de cabelo…
— Quer dizer então que seu problema com o caso do IFPA foi só que pegaram critérios que essas bancas examinadoras já poderiam estar usando e os botaram numa tabela? Por que, quando o critério anti-autodeclaração deixa de estar no olho do examinador e passa para uma tabela, de repente deixa de ser aceitável? Você estava confortável com tribunais raciais decidindo quem é negro, quem é pardo e quem é branco no Brasil só porque os critérios que estavam sendo usados para atropelar a autodeclaração eram desconhecidos, obscuros, não postos no papel?
— …

***

As cotas raciais são um regresso a um passado perigoso. O critério da autodeclaração é incompatível com a ideia de categorias raciais recebendo benefícios do Estado. A contradição não é inventada pelos opositores dessa política, ela é intrínseca à ideia de raças e de autodeclarações. Enquanto o governo tenta se proteger da acusação de ressuscitar Lombroso por trás do critério insincero da autodeclaração, os grupos que querem as cotas raciais estão o tempo todo atacando esse critério e querendo botar outra coisa no lugar – e isso, apesar de danoso para a cultura, é compreensível, afinal a ideia de raças sugere que se pode achar isso no mundo, especialmente quando os rótulos raciais são nomes de cores. O caso é que essa outra coisa no lugar é assustadora, especialmente nas mãos do estado. Escondê-la por critérios informais de bancas examinadoras, sem jamais dizer quais são, não a torna menos assustadora e perigosa. O que o IFPA fez foi só deixar escapar à luz do dia o que está acontecendo há mais de dez anos a portas fechadas no Brasil.

29th of January

Aborto e Vida


Detesto quando começam uma discussão sobre ‪aborto‬ falando em “vida”. É como ver alguém tentando reinventar a roda, mas criando uma coisa quadrada que não realiza a função da roda com a mesma eficiência.

A discussão do aborto não é uma discussão sobre o que é vida. É uma discussão sobre o que é vida humana. E termos mais claros existem: é uma discussão sobre o conceito de pessoa. Há condições necessárias para uma entidade ser uma pessoa, e estar vivo certamente é uma delas. Mas estar vivo não é uma condição suficiente para definir uma entidade como pessoa. Um pé de alface está vivo mas não é uma pessoa. Outras condições então devem ser investigadas ou descobertas para sabermos o que faz uma pessoa ser uma pessoa. Não que nós precisemos de um conceito científico completo de pessoa – essa é uma tarefa hercúlea e em curso há milênios, e não estará completa tão cedo. Só precisamos de um conceito de trabalho, no caso, um conceito legal de trabalho, para que possamos decidir corretamente em questões morais e legais, respeitando o princípio de defender o direito à vida, que é um direito fundamental do qual gozam as entidades do mundo que chamamos de pessoas.

A minha resposta até o momento é que uma pista está em como tratamos os casos de morte cerebral. Nós sabemos que um paciente com morte cerebral e mantido por aparelhos está vivo, mas num certo sentido deixou de ser uma pessoa. Não que nós sejamos desrespeitosos para com ele e achemos que ele é uma coisa e que pode ser tratado com o grau de negligência com que tratamos objetos quaisquer, como cascas de banana. Nós não fazemos isso com cadáveres, por boas razões. Então também não faríamos com alguém que teve morte cerebral. Mas nós permitimos que as famílias decidam, se assim quiserem, desligar os aparelhos e doar os órgãos desse paciente. O paciente com morte cerebral é vivo, mas nós não aplicamos a ele a proteção que aplicamos a pessoas, então isso quer dizer (embora não o digamos com todas as palavras por respeito) que ele perdeu o status de pessoa. Há portanto algo na atividade cerebral que faz de um ser humano vivo uma pessoa. A atividade cerebral parece ser uma condição necessária para fazer uma pessoa. Se isso se aplica a pacientes em hospitais, por que não se aplica a fetos?

“Dividir os seres humanos em raças distintas, com base num erro científico, pois poucos países possuem raças verdadeiramente puras, só pode levar a guerras de extermínio, a guerras ‘zoológicas’, se me permitem, análogas àquelas encontradas entre espécies diversas de roedores ou mamíferos carnívoros. Isso seria o fim daquele fértil amálgama que chamamos de humanidade, que é composto de muitos elementos, todos eles necessários. Vocês levantaram uma nova bandeira política no mundo para substituir o liberalismo; essa sua política etnológica e arqueológica vai lhes matar.”*

Esta citação visionária é de Ernest Renan (1823–1892). Antecede as grandes guerras e faz uma previsão acertada.

Antes, Renan era favorável às ideias nacionalistas de “sangue e terra” que surgiram como reação aos universalismos dos iluministas, especialmente os mentores da Revolução Francesa. Quando veio a guerra franco-prussiana e a anexação da Alsácia-Lorena justificada por intelectuais dos dois países como justa por causa da identidade cultural germânica dos alsacianos, mesmo à revelia deles próprios, Renan retornou aos valores de cidadania iluministas que enfatizavam a vontade e o contrato implícito de indivíduos autônomos em vez de uma subserviência deles a forças históricas associadas à cultura e à língua. Ainda hoje no meio intelectual há quem enfrente essas ideias e ponha em dúvida o indivíduo racional abstrato como ideia de cidadão, enfatizando interesses maiores, supostas forças históricas e culturais, por exemplo quem ataca a ideia de direitos humanos com relativismo cultural. A pureza racial foi substituída pela pureza cultural. Estou com Renan nessa e considero essas ideias perigosas.

* Apud Alain Finkielkraut. The Defeat of the Mind. Columbia University Press. 1995.

26th of January

Santos Morais Por que a santidade moral não é desejável


por Susan Wolf 

 Não sei se existem santos morais. Mas se existem, fico feliz por nem eu nem aqueles com quem mais me preocupo estarmos entre eles. Por santo moral estou me referindo a uma pessoa cuja totalidade de ações é tão moralmente boa quanto possível, isto é, uma pessoa que é tão moralmente digna quanto se pode ser. Embora em breve eu vá reconhecer a variedade de tipos de pessoas que poderiam satisfazer essa descrição, parece-me que nenhum desses tipos serve como um ideal pessoal inequivocamente convincente. Em outras palavras, creio que a perfeição moral, no sentido de santidade moral, não constitui um modelo de bem-estar pessoal pelo qual seria particularmente racional ou bom ou desejável para um ser humano lutar.

Fora do contexto da discussão moral, isso vai parecer para muitos uma coisa óbvia. Mas, dentro desse contexto, a conclusão, se for aceita, será aceita com algum desconforto. Pois, dentro desse contexto, geralmente é assumido que se deve ser tão moralmente bom quanto possível e que os limites que há para a impressão da moralidade sobre nós são delimitados por facetas da natureza humana das quais não devemos nos orgulhar. Se, como eu acredito, os ideais que são deriváveis do senso comum e das teorias morais filosoficamente populares não apoiam essas presunções, então algo tem de mudar. Ou precisamos mudar nossas teorias morais de formas que as façam gerar ideais mais palatáveis, ou, como discutirei, precisamos mudar nossa concepção do que está envolvido na afirmação de uma teoria moral. (…)

[O santo moral] terá os valores morais comuns em um grau incomum. Será paciente, ponderado, equilibrado, hospitaleiro, caridoso tanto no pensamento quanto na ação. Ele terá grande relutância em fazer julgamentos negativos de outras pessoas. Terá cuidado para não favorecer algumas pessoas sobre outras com base nas propriedades que elas não poderiam não ter.

[S]e o santo moral está devotando todo o seu tempo a alimentar os famintos, curar os enfermos e arrecadar dinheiro para a Oxfam, então necessariamente ele não está lendo romances vitorianos, tocando oboé, ou melhorando suas habilidades no tênis. Embora nenhum desses interesses ou gostos na categoria contendo essas atividades possa ser alegado como sendo um elemento necessário numa vida bem vivida, uma vida na qual nenhum desses possíveis aspectos de caráter são desenvolvidos pode parecer uma vida estranhamente estéril. (…)

Por exemplo, uma inteligência cínica ou sarcástica, ou um senso de humor que aprecia esse tipo de inteligência nos outros, requer que se tome uma atitude de resignação e pessimismo para com os defeitos e vícios a serem encontrados no mundo. Um santo moral, por outro lado, tem motivo para tomar uma atitude oposta a isso – ele deve tentar ver o melhor nas pessoas, dar-lhes o benefício da dúvida tanto quanto possível, tentar melhorar situações desagradáveis enquanto houver qualquer esperança de sucesso.

Um interesse em algo como a cozinha gourmet será, por razões diferentes, difícil para um santo moral aceitar de bom grado. Pois parece-me que nenhum argumento plausível pode justificar o uso de recursos humanos envolvidos em produzir um paté de canard en croute contra fins beneficientes alternativos possíveis para os quais esses recursos poderiam ser aplicados. Se há uma justificação para a instituição da alta cozinha, é uma que depende da decisão de não justificar cada atividade contra alternativas moralmente benéficas, e essa é uma decisão que um santo moral jamais faria. (…)

Um santo moral precisará ser muito, muito gentil. É importante que ele não seja ofensivo. A preocupação é que, como resultado, ele terá de ser enfadonho, ou sem humor ou sem graça. (…)

Parece que, quando observamos nossos ideais para pessoas que atingem variedades não-morais de excelência pessoal em conjunto com ou coloridas por alguma versão de alta tonalidade moral, procuramos nos nossos baluartes de excelência moral por pessoas cujos feitos morais ocorrem em conjunto com ou são coloridos por alguns interesses ou características que têm uma baixa tonalidade moral. Em outras palavras, parece que há um limite para quanta moralidade podemos aguentar.

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Leia o artigo completo, em inglês, em:
Wolf, Susan. “Moral saints.” The Journal of Philosophy (1982): 419-439.
http://philosophyfaculty.ucsd.edu/faculty/rarneson/Courses/susanwolfessay1982.pdf

25th of August

O embate entre fundamentalistas e LGBT é mais interessante do que parece


Tratar esta celeuma entre LGBT e evangélicos como apenas embate político é um erro. Mesmo que muitas vezes de fato seja, o que está no fundo, e nem mesmo escondido com frequência, é um embate de metafísica e epistemologia. Metafísica é a área da filosofia dedicada a estudar o que existe, do que a realidade é feita, se há alguma. Epistemologia, por sua vez, é o estudo do conhecimento – de como sabe…mos o que sabemos, do que dá justificação ao que sabemos, e o que é saber.

Mesmo que em ambos os campos haja muitas opiniões “naïve”, isso se torna claro quanto se fala em escolhas (livre arbítrio) e comportamento “inato”. Evangélicos mainstream como Marina Silva acreditam que na essência da homossexualidade há alguma decisão moral, de quem poderia ter decidido diferente: ou a própria pessoa gay poderia ter decidido não sê-lo, ou quem causou que ela fosse gay poderia ter escolhido não ter feito isso (não expor crianças a ver carícias entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo), ou, no nível mais profundo, a humanidade poderia ter escolhido não ter optado pela queda original no Éden (sendo ou não literal o mito de Adão e Eva). Essas pessoas crêem num “saber pela fé” de que alguma dessas versões de voluntarismo de comportamento afetivo-sexual é verdade. Vivem numa realidade com espaço para o sobrenatural, em que revelação “mágica” é uma forma de obter conhecimento.

No campo dos ativistas, embora ainda haja alguns que estejam abertos à possibilidade do voluntarismo (por alegada irrelevância moral dessa escolha, caso seja escolha), há uma concentração maior de explicações essencialistas, e entre elas as inatistas. As inatistas, como mencionei no passado, são equivocadas, e lembram de alguma forma um certo pensamento mágico, pois atribuem um poder causal excepcional ao ato de nascer, sem qualquer consideração ao desenvolvimento. Do meu ponto de vista, dizer “eu nasci assim” como diz a Lady Gaga soa tão mágico quanto “Deus quis assim”, pois faz-se um apelo obscuro a uma agência causal muito mal explicada. Mas nem todo essencialismo é inatismo. E eu não desconsideraria um componente importante desse inatismo, que é a reflexão autobiográfica de cada uma dessas pessoas. Relatos autobiográficos essencialistas sobre orientação sexual são encontrados ao longo dos séculos, Rictor Norton documentou alguns do século XVII e XVIII na Grã-Bretanha. Pode-se dizer quem uma “consiliência de autobiografias” dá força a esse essencialismo intuitivo, mesmo que às vezes seja expressado na forma equivocada do inatismo.

Estou simplificando exageradamente, evidentemente, mas há, em geral, um padrão aqui. A segunda visão, tendendo a essencialista, posso alegar ser mais simpática para o fazer científico. Para o bem ou para o mal, o bloco intelectual de filósofos e cientistas costuma ver com suspeita hipóteses fundadas em conceitos problemáticos como livre-arbítrio e fé (tendo a ser cético com bobagens ditas por alguns neurocientistas quanto a livre-arbítrio, mas honestamente qualquer crítica intelectual que se faça à fé não é difícil de ser convincente). Há uma maioria de mais de 70% de filósofos e cientistas que não têm qualquer confiança em epistemologias e metafísicas baseadas em fé e revelação. Isso não é suficiente para bater o martelo pela inverdade dessas últimas, mas ajuda a entender por que o embate não é apenas político e/ou moral. Há uma analogia interessante entre essa consiliência de autobiografias a que fiz referência e a consiliência de induções que, a despeito do positivismo lógico, ainda faz bastante sentido em epistemologia da ciência. Em outras palavras: o bloco intelectual tendendo ao essencialismo é mais simpático às ideias pró-LGBT porque põe um peso de autoridade epistêmica maior sobre a análise do conjunto dos “pequenos casos” do que ao “grande caso” de uma visão de mundo fundada sobre a autoridade da fé e da revelação. Cientistas afinal frequentemente são vistos como tolos por “perder seu tempo” com moscas de laboratório, enquanto praticamente não há teologia que não parta do já percebido como grandiloquente e hiperimportante.

Ter ciência de que o embate chega a esse nível de profundidade de assunto (mesmo que tratado superficialmente na maioria dos casos) é reconhecer o quanto é um assunto mais intelectualmente estimulante e genuinamente contencioso do que os bate-bocas do ativismo deixam transparecer.

31st of July

“Apropriação cultural” é embuste intelectual


Muito tem sido dito sobre “apropriação cultural”, num sentido específico: de que seria imoral para uma pessoa de certo fenótipo usar elementos de vestuário, música etc. usados como “símbolos de luta” de pessoas de outro fenótipo contra o qual há preconceito e discriminação.

Um exemplo é gente reclamando na internet de pessoas “brancas” que usam dreadlocks ou turbantes. Várias vezes vi turbas de pessoas atacando o perfil de alguém nas redes sociais por isso. Alegam que não querem censurar nem proibir, mas é isso o que ocorre de fato: cria-se o tabu e faz-se policiamento por reprovação pública em grupo. Essa reprovação pública em grupo dá a falsa impressão de que a maioria ou todas as pessoas pertencentes ao tal grupo (“negros”, no caso) concordam com o tabu. Portanto, o resultado que querem é de fato a censura.

Há ao menos duas premissas falsas no conceito de “apropriação cultural” como é usado por gente que alega estar preocupada com justiça social:

– Que existe pureza cultural, de tal forma que duas culturas em contato que trocam informações poderiam ter claramente total crédito por um ou outro pedaço dessa informação. Isso se parece com tratar culturas como se fossem indivíduos em disputa por copyright. O rock veio do blues e do jazz, estilos originalmente negros, mas também veio do country e do folk, estilos associados a brancos “redneck”. Essa diversidade de origens é uma coisa boa, não uma coisa ruim. E as origens são mais obscuras do que normalmente se pensa, por causa da inexistência de pureza cultural. (Somente povos isolados da Amazônia poderiam alegar pureza cultural.)

Uma curiosidade sobre essa premissa falsa é que, enquanto na primeira metade do século XX muita gente autoritária no ocidente estava muito preocupada com pureza racial, como isso é (corretamente) rechaçado hoje em dia, parece que o autoritarismo identitário está recorrendo à ideia de pureza cultural.

– Outra premissa falsa é que pessoas de cores diferentes são necessariamente de culturas diferentes. Pode até fazer algum sentido para um país com história de segregação forçada como os EUA, em que pessoas negras têm até o próprio sotaque. Mas é claramente falso para o Brasil, em que até religiões de matriz afro têm uma proporção razoável de não-negros.

Nos meios virtuais em que o termo pejorativo “apropriação cultural” está em voga, muito se fala em negros e brancos, mas pouco se fala em pardos, e quando se fala, há gente inclusive contrária à reprodução entre negros e brancos, o que é de pasmar. Também é especialmente assustador em um país com tantos indígenas e com tanta miscigenação. Notar o fato de que há muita miscigenação também é apontado como racismo, por algum motivo. Já testei meu próprio DNA, e há nele marcadores das três grandes origens do Brasil: indígena, negra e europeia. Miscigenação se aplica à maior parte do território brasileiro, o que torna mais louca ainda essa ideia autoritária de tentar controlar quem pode usar turbante com base na cor da pele.

Não tem como salvar esse conceito de “apropriação cultural”. É um embuste usado para reforçar autoritarismo identitário, fazer reserva de mercado intelectual para pessoas com base em suas características intrínsecas em vez de suas habilidades argumentativas e conhecimentos. É antiintelectual, é autoritário, é um enlatado importado dos EUA, e é lixo.

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P.S.: No caso do turbante, acho perda de tempo tentar descobrir que povo começou a usar primeiro, até porque a resposta a isso provavelmente é que foi inventado várias vezes. É basicamente um tecido enrolado sobre a cabeça, não é preciso ser gênio para inventar isso, eu ficaria surpreso é se tivesse sido inventado uma única vez.

Imagem via Aventuras na Justiça Social.