9th of April

“Objetificação” não faz sentido O conceito usado frequentemente no ativismo como justificação de tentativas de censura não resiste à análise


Ouve-se com frequência a queixa de que o emprego de mulheres com pouca roupa em peças de mídia, especialmente obras de arte popular e publicidade, seria “objetificação”. E que essa “objetificação” seria discriminação injusta do tipo sexista, por vários motivos. O termo sugere que um desses motivos é que isso desumaniza as mulheres e as transforma em objetos, ou que a objetificação incentiva que sejam tratadas como objetos. Exibir mulheres como seres sensuais seria, portanto, algo problemático.

Um exemplo comum dessas peças de mídia é a propaganda de cerveja, em que a mulher sexy é vista tomando ou servindo a cerveja. Enquanto isso, os homens são mostrados como os “agentes” da situação, os seres com quem os espectadores devem se identificar, em oposição ao ser que devem desejar junto com a cerveja. Ao menos essa é a interpretação dos críticos.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que mulheres ganharem fama e dinheiro por serem “gostosas” é algo pelo que elas tiveram que lutar também, especialmente contra conservadores antigos, estilo beata de igreja, que acham que mulher deve ser “pura” (leia-se destituída de sinais explícitos de interesse em sexo). Esta é uma opinião comum e ainda praticada por religiosos ao redor do mundo, inclusive os que fazem pressão para que elas se escondam com véus e burcas. Uma opinião que está errada, pois termina por violar os interesses daquelas mulheres que querem dar vazão às suas libidos e às suas preferências estéticas sobre a própria aparência.

A alegação é que ser “objetificada” é pouco “empoderador”, ou seja, uma coisa que pouco contribui para que mulheres sigam seus próprios interesses livremente. Mas poucas pessoas são mais “empoderadas” que a “gostosa” famosa do momento. Se ela, uma pessoa adulta, entende a que tipo de risco está se expondo por sua escolha de carreira, mas decidiu mesmo assim aceitar o dinheiro e mostrar um pouco de decote e glúteos, por que ela deveria dar ouvidos às carolas da igreja ou às pessoas que combatem a “objetificação”? A reclamação é que não há tantos homens que se submetem a isso? Que a pressão sobre a aparência das mulheres é maior? Se ambas alegações forem verdade, é relevante notar que há profissões insalubres em que há mais homens que mulheres, e eles também aceitaram certos riscos em troca dos benefícios. Fica difícil ver, portanto, como esses problemas têm a ver com uma “objetificação”, quando boa parte das profissões que pagam bem envolvem riscos ao corpo e à imagem, e as pessoas que entram nessas profissões têm liberdade de fazê-lo, como pessoas que são, não como “objetos”.

E é estranho que o nome do suposto problema seja “objetificação”. Em primeiro lugar, quase ninguém realmente prefere um objeto a uma pessoa para sexo. São relativamente raras as pessoas que estão dispostas a ignorar completamente os atributos psicológicos das pessoas com quem querem transar, especialmente se for mais de uma vez. Pense no sadomasoquismo, por exemplo: o que excita seus adeptos são quase que completamente atributos psicológicos: há aqueles que são dominantes e aqueles que são submissos – os apetrechos são só acessórios orbitando em torno dessa atmosfera psicológica. Mesmo se as tais bonecas de sexo ficarem impossíveis de distinguir na aparência de mulheres de verdade, eu duvido que os homens heterossexuais vão preferir as bonecas a mulheres de verdade (se realmente puderem optar). A atração sexual, além de ter o elemento psicológico (automaticamente personalizante, e não objetificador), também envolve elementos inconscientes chamados popularmente de “química” (o cheiro, a atitude etc.). Levando tudo isso em conta, é falso dizer que o uso publicitário da libido masculina heterossexual em direção à figura feminina sensual é uma “objetificação”, pois eles se atraem por elas por serem pessoas de feminilidade exuberante, e não por serem objetos. Até a diversão de um adolescente que se masturba diante de um objeto como uma revista de mulheres nuas está mais dentro da cabeça dele que nos pixels das fotos que ele homenageia, está mais em imaginar seres humanos femininos. E muitas lésbicas se comportam exatamente assim.

Outro sentido possível de “objetificação” é que, ao se submeter a esse tipo de emprego, essas mulheres estariam abdicando de seus atributos mais humanos, por assim dizer, e se reduzindo ao objeto que é seu corpo. Se o que se quer dizer com “objetificação” é que o corpo é um objeto e a pessoa é mais que seu corpo, e que essas atrizes dos comerciais de cerveja são valorizadas apenas por seu corpo, a resposta contrária é que existem outros empregos em que há (presumilvemente) pouca aplicação de esforço mental e consistem mais no uso do corpo como um objeto, especificamente como um instrumento. São os trabalhos braçais, boa parte deles feitos por homens, e a enorme maioria por gente da classe baixa. São indignos? Se não são, então não é indigno usar o corpo como chamariz sexual para produtos (por mais irracional que isso pareça). Não parece ser indigno usar seu corpo como instrumento para seu ganha-pão. E sim, estou incluindo prostituição aqui.

Por fim, é preciso comentar uma alegação frequente: que a mulher “objetificada” perde sua agência, enquanto os homens héteros babões continuam sendo vistos como seres capazes. Mas essa interpretação do ato de sedução é nova. Existe outra, presente como paródia em desenhos antigos como os do Pernalonga: quem é capaz de seduzir tem muito poder, enquanto quem é seduzido é o “otário”, que se deixa abusar. Certamente uma interpretação com sua contraparte verdadeira acontecendo no mundo. A verdadeira parte hipossuficiente da sedução, nessa interpretação, é o seduzido. Essa é uma verdade imemorial que nossos tempos querem negar. Por que? Porque o poder de seduzir dessa forma poderia ser tipicamente feminino, ainda que tenha suas contrapartes masculinas, e muitas feministas querem negar que homens e mulheres são em média naturalmente diferentes e não há problema necessário nisso. A equidade está em poder perseguir seus interesses sem amarras, até o de ficar rica por ser gostosa. Por dogmaticamente negar que homens heterossexuais são factualmente diferentes de mulheres heterossexuais especialmente na manifestação da libido, essas feministas precisam alegar que a mulher gostosa na propaganda não é um recurso que a publicidade naturalmente usaria quando seu público alvo tem um excesso de homens heterossexuais. O problema em fazer isso, com um conceito mal construído de “objetificação”, é que essas feministas estão se aproximando daqueles religiosos conservadores na finalidade, mesmo que não nas premissas.

Há sexismo nessas peças de mídia? Pode ser que sim, mas não por causa da “objetificação”. Demonstrar que o sexismo está ali é mais difícil que isso. Na dúvida, ficamos do lado da liberdade, não no lado que quer banir e censurar.

29th of January

Aborto e Vida


Detesto quando começam uma discussão sobre ‪aborto‬ falando em “vida”. É como ver alguém tentando reinventar a roda, mas criando uma coisa quadrada que não realiza a função da roda com a mesma eficiência.

A discussão do aborto não é uma discussão sobre o que é vida. É uma discussão sobre o que é vida humana. E termos mais claros existem: é uma discussão sobre o conceito de pessoa. Há condições necessárias para uma entidade ser uma pessoa, e estar vivo certamente é uma delas. Mas estar vivo não é uma condição suficiente para definir uma entidade como pessoa. Um pé de alface está vivo mas não é uma pessoa. Outras condições então devem ser investigadas ou descobertas para sabermos o que faz uma pessoa ser uma pessoa. Não que nós precisemos de um conceito científico completo de pessoa – essa é uma tarefa hercúlea e em curso há milênios, e não estará completa tão cedo. Só precisamos de um conceito de trabalho, no caso, um conceito legal de trabalho, para que possamos decidir corretamente em questões morais e legais, respeitando o princípio de defender o direito à vida, que é um direito fundamental do qual gozam as entidades do mundo que chamamos de pessoas.

A minha resposta até o momento é que uma pista está em como tratamos os casos de morte cerebral. Nós sabemos que um paciente com morte cerebral e mantido por aparelhos está vivo, mas num certo sentido deixou de ser uma pessoa. Não que nós sejamos desrespeitosos para com ele e achemos que ele é uma coisa e que pode ser tratado com o grau de negligência com que tratamos objetos quaisquer, como cascas de banana. Nós não fazemos isso com cadáveres, por boas razões. Então também não faríamos com alguém que teve morte cerebral. Mas nós permitimos que as famílias decidam, se assim quiserem, desligar os aparelhos e doar os órgãos desse paciente. O paciente com morte cerebral é vivo, mas nós não aplicamos a ele a proteção que aplicamos a pessoas, então isso quer dizer (embora não o digamos com todas as palavras por respeito) que ele perdeu o status de pessoa. Há portanto algo na atividade cerebral que faz de um ser humano vivo uma pessoa. A atividade cerebral parece ser uma condição necessária para fazer uma pessoa. Se isso se aplica a pacientes em hospitais, por que não se aplica a fetos?

29th of January

Richard Dawkins e J. K. Rowling alvos de justiceiros sociais na mesma semana Ninguém está a salvo da polícia do pensamento


Nos últimos dois dias, Richard Dawkins e J. K. Rowling foram alvos de acusações injustas no Twitter.

Dawkins postou uma animação satírica em que a extremista feminista canadense “Big Red” toca um piano enquanto um “islamista”* canta. É um comentário político bem atual sobre os eventos do reveillon em Colônia, Alemanha, em que várias mulheres foram atacadas e até estupradas por um grupo de imigrantes muçulmanos. O hábito de assédio coletivo por fundamentalistas muçulmanos tem nome: taharrush gamea, que é literalmente “assédio coletivo” em árabe. Esses homens premeditam um ataque em que passam a mão, roubam, mordem, assaltam e até estupram mulheres. Diz-se que o taharrush foi usado como arma contra manifestantes políticas na praça de Tahrir durante a revolução egípcia. Muitas publicações feministas, diante do ocorrido, consideraram uma prioridade maior “respeitar” a cultura desses imigrantes e reclamar da “islamofobia” do que defender as mulheres alvos do taharrush. É disso que trata a paródia que Dawkins compartilhou.

A forma como Dawkins compartilhou, aliás, não poderia ter sido mais cuidadosa. Ele diz que, enquanto ele mesmo é feminista (no sentido igualitário), há uma minoria de extremistas no feminismo que merecem a crítica.

Pois não adiantou para um encontro de céticos britânico. Por tuitar a crítica, Dawkins foi “desconvidado” como palestrante. A justificação, soando meio incoerente, diz que o motivo tem a ver com o vídeo ser “ofensivo” enquanto o encontro é a favor da liberdade de expressão inclusive de opiniões ofensivas. Justificaram o desconvite com um apelo contrário ao “discurso de ódio” (sem definir o que é isso nem por que o vídeo é isso). Um fiasco para quem alega apoiar o racionalismo, e mais um sinal de que tendências autoritárias e dogmáticas são encontradas nas melhores das intenções.

Um dia depois do episódio de Dawkins, foi a vez de J. K. Rowling ficar no banco dos réus da polícia do pensamento. Com base num print aparentemente forjado, uma política eleita britânica, Natalie McGarry, acusou Rowling de apoiar a “misoginia” e o assédio de mulheres no Twitter. Rowling respondeu pedindo evidências disso repetidamente. Só muitas horas depois McGarry pediu desculpas e fechou seu Twitter. Ora, não é preciso muito mais que ler os livros de Rowling para saber da implausibilidade da alegação de McGarry.

Notem que os dois episódios são conectados ao “feminismo”. Ou a pessoas que alegam estar agindo a favor das mulheres e contra o sexismo. Mas percebe-se uma pressa em interpretar mal, uma exigência cheia de soberba para que os outros peçam desculpas não acompanhada de qualquer vontade de explicar como e porquê estão errados. O modus operandi é o uso de jargão: Dawkins está desconvidado em nome do “discurso de ódio” e Rowling merece acusações difamatórias públicas por falar com uma persona non grata (“unperson”?) num print como se ela pudesse ser responsabilizada pelas ações (assumidas) de outrem. Começa-se com intenção de fazer ativismo e termina-se emulando o comportamento de autoritários em distopias.

Feministas de pensamento claro, comprometidas de fato com melhorar as condições das relações de gênero, precisam recuperar seu movimento das mãos de “feministas” corporativistas de gênero e justiceiras sociais.

* Em inglês está se popularizando uma distinção entre muçulmano, praticante do Islã, e “islamista”, que é quem acha que o Islã precisa ser imposto à sociedade e ao Estado, que quem não acredita no islã é má pessoa, etc. Talvez esses termos possam funcionar em português também, mas esse esclarecimento é necessário pois “islamista” ainda é sinônimo de “muçulmano”.

– Vídeo “feministas amam islamistas”: https://www.youtube.com/watch?v=ecJUqhm2g08
– Big Red: https://www.youtube.com/watch?v=mpNapJK1uMg
– Taharrush gamea: https://en.wikipedia.org/wiki/Taharrush_gamea
– Sobre Dawkins e seu tweet: http://www.washingtonexaminer.com/richard-dawkins…/…/2581704
– Sobre o policiamento do pensamento de J. K. Rowling: https://twitter.com/EliVieira/status/692840130826997761

1st of November

Sexo e Gênero


Assumir que há uma separação definitiva entre sexo biológico e gênero é acreditar erroneamente que uma coisa é 100% genes e outra é 100% ambiente cultural.
Eu não vejo muito sentido na maior parte das afirmações de influência cultural sobre o sexo biológico. Mas há um sentido em que elas poderiam ter um papel: o sentido da pressão seletiva da cultura ao longo dos últimos milênios sobre as bases biológicas do sexo. Essa influência cultural já foi convincentemente estabelecida para coisas como digestão da lactose e do amido – a frequência de alelos associados a isso nas populações humanas dependende da história milenar da cultura da pecuária e da agricultura / coletagem seletiva de raízes e tubérculos. Seria no entanto muito especulativo no momento dizer que a cultura influenciou nas características primárias e secundárias apresentadas por diferentes populações humanas. Nós ainda não sabemos se, por exemplo, o quão peludos os homens são em cada população (uma característica sexual secundária) é resultado de processos casuais (como deriva genética) ou de seleções, incluída entre elas a seleção cultural. Tudo o que estou dizendo portanto é que conforme nossos conhecimentos de evolução gene-cultura no momento, a possibilidade da cultura ter influenciado parte do que compõe o sexo biológico é real. O mesmo que eu disse sobre pelos masculinos pode ser dito sobre tamanho médio de seios, tamanho de pés, formato do rosto, altura, tamanho do pênis, pelos femininos. Há pesquisa sugerindo que nos últimos 50 anos as mulheres americanas foram selecionadas em direção a corpos de menor estatura e mais robustos, o que poderia ser uma preferência cultural. Dado que a pesquisa da Suzana Herculano-Houzel mostra que sem a cultura do fogo nosso cérebro nunca teria o volume e a demanda energética que tem hoje, há bons motivos para desconfiar que há cultura inscrita no sexo biológico, já que a influência da cultura vai tão fundo na natureza humana.
Portanto, não estão totalmente errados aqueles que vêem cultura no sexo biológico. Mas o problema é que exageram o papel da cultura e usam tradições intelectuais anticiência, muitas vezes.
E gênero? Podemos concordar que enquanto sexo está “entre as pernas” (ignorando as características secundárias), gênero está “entre as orelhas”. Aqui novamente o problema é exagerar o papel da cultura ou o papel da biologia. Quem exagera o papel da biologia (na verdade de uma biologia do senso comum distante da pesquisa de ponta) acha que não é possível existir homens nascidos com vaginas e mulheres nascidas com pênis, e isso está errado. Pesquisas iniciais com núcleos do hipotálamo sugerem que isso é não apenas possível como provável dependendo da base genética do feto e de seu ambiente hormonal dentro do útero e nos primeiros meses fora dele. Apesar de tentativas tacanhas de negar as pesquisas, há muita evidência acumulada de diferenças neurobiológicas e comportamentais entre homens e mulheres. Bebês recém-nascidos, cuja mente não se desenvolveu o suficiente para absorver informações culturais como a língua, já apresentam diferenças. O próximo passo é ver se os bebês que apresentam comportamento atípico para seu sexo nessa fase crescem mais tarde com maior probabilidade de serem gays ou transsexuais. Eu apostaria minhas fichas que sim.
Como eu disse em outras oportunidades, somos seres culturalmente moldados em nossa biologia e biologicamente moldados para a cultura. Alegar sem critério nenhum que uma dada característica é “construção social”, ignorando esse fato, é retroceder o conhecimento, não fazê-lo avançar.
28th of April

Sobre as difamações


Sobre constantes difamações a mim nas redes sociais, me perguntar não ofende nem um pouco. Mas lembrem-se que os responsáveis por nossas próprias crenças somos nós mesmos, e quem adota crenças (sobre pessoas ou causas ou coisas) com evidência insuficiente, pouco argumento e muita irritação coletiva, sofre as consequências de sua própria falta de pensamento crítico. Meus textos falam por mim.

Prints descontextualizados e tentativas de assassinato de reputação por seguidores dogmáticos de ideologia, não. Um exemplo: quando soube que a Lei João Nery será o tema da parada LGBT, comentei “oba! Funcionou [a petição]!”. Usaram exatamente esse comentário meu para me acusar de ser transfóbico. É evidência suficiente? Outra pessoa, afiliada ideologicamente à “teoria queer” (da qual discordo simplesmente porque é fundada em determinismo cultural), irritou-se porque, quando eu pedi que ela desse um exemplo de sociedade com um número alto de gêneros, tipo dez ou mais, ela alegou que essa sociedade era o Brasil. Extasiado diante da hilariedade dessa alegação, eu fiz uma lista de falsos gêneros brasileiros além dos já conhecidos, incluindo “Chico Buarque” (não sei vocês, mas eu adoraria ser do gênero Chico Buarque). A pessoa falhou em me dar um exemplo histórico de cultura com um número exorbitante de gêneros. Se o número de gêneros não é exorbitante em todas as culturas já estudadas, então há limites para o número de gêneros que os humanos podem desenvolver em suas culturas, e alegarei que parte desses limites são biológicos. Ou seja, é plausível um número bem maior que dois gêneros, só que esse número não pode ser infinito. Pois, se for alegado que pode ser infinito, na minha opinião isso esvazia o conceito de “gênero” como categoria social, ou seja, altera o sentido do termo sem qualquer justificação, tornando-o mais próximo de “personalidade”.

Portanto, uma discordância de ideias foi o motivador de um desses prints para tentar me difamar. Outro print, em que falo da “seita dos batatinhas” é explicitamente uma referência a seguidores dessa ideologia, e não pessoas trans em geral. Basta procurar no Google e verão quem está usando o termo e para quê.

De onde tiro essas ideias? Uma das minhas fontes é a acadêmica feminista Martha Nussbaum e suas críticas à Judith Butler. Já traduzi alguns parágrafos de um artigo dela e postei no Facebook. Estou tentando passar meu “academicismo” em cima da “vivência das mulheres” e da “vivência das pessoas trans”? Não, estou exercendo minha liberdade individual de julgar ideias por seus méritos. Ademais, e a vivência da Martha Nussbaum, como mulher e filósofa, vão jogar no lixo? Responsabilizem-se pelas consequências problemáticas de suas ideias injustificadas. Beijinho no ombro.

18th of April

Feminismo igualitário vs. Feminismo sectário


Dois tipos de negacionistas do segundo sexismo, por David Benatar*

Argumentos mostrando que há um segundo sexismo levantam objeções de duas principais direções. Mais abundantes, ao menos dentro da academia, são objeções de algumas (mas não todas) feministas. Do outro lado vêm objeções de alguns conservadores. Em cada caso, quem faz a objeção nega que existe tal coisa de segundo sexismo ou que é tão comum quanto eu defenderei que é.
Considere, primeiro, negacionistas do segundo sexismo das fileiras feministas. Feministas, evidentemente, não são um grupo monolítico. Há muitas formas de categorizar variedades de feminista, mas para meus propósitos somente uma distinção é crucial. É a distinção entre aquelas feministas que são motivadas por e interessadas em igualdade dos sexos e aquelas feministas cuja principal preocupação é a promoção das mulheres e meninas. Algumas feministas – aquelas do segundo tipo – provavelmente dirão que essa é uma distinção sem diferença. Dirão que a igualdade dos sexos é promovida pelo avanço dos interesses das pessoas do sexo feminino**, e vice-versa. Estão (apenas) parcialmente corretas. Promover a igualdade entre os sexos de fato frequentemente coincide com a promoção dos interesses das mulheres. É assim quando as mulheres são injustamente discriminadas. Entretanto, porque os homens, como defenderei, são às vezes vítimas de discriminação injusta, a promoção da igualdade de gêneros vai demandar às vezes a promoção de interesses de homens em vez de interesses de mulheres.
Podemos nos referir às feministas que são fundamentalmente preocupadas com a igualdade dos sexos como feministas igualitárias, e àquelas feministas que estão basicamente preocupadas apenas com a promoção dos interesses de mulheres e meninas como feministas partidárias***. As últimas são o equivalente feminista daqueles ativistas dos direitos dos homens [masculinistas] que estão interessados apenas em promover os interesses e proteger os direitos de pessoas do sexo masculino. Feministas corretamente criticam essa posição, mas feministas partidárias não percebem que a profissão míope dos interesses de um sexo que é característica de tais (mas não outros) defensores de direitos dos homens é similar à sua própria posição. Essa crítica não se aplica a feministas igualitárias. Nada do que eu digo deve ser hostil ao feminismo igualitário. Na verdade, eu endosso essa forma de feminismo. Defensores dessa posição reconhecerão que se opor ao segundo sexismo é uma parte do projeto geral de se opor ao sexismo e promover a equidade de gêneros. O que eu direi será antagônico apenas ao feminismo partidário.
Ao fazer a distinção entre feministas igualitárias e partidárias, eu não aleguei que feministas igualitárias devem reconhecer que existe um segundo sexismo. Obviamente, o compromisso com a igualdade dos sexos não implica em crer que homens são vítimas de alguma discriminação injusta. O objetivo deste livro é defender que pessoas do sexo masculino são, de fato, vítimas de sexismo. O que estou argumentando agora é que não há nada nessa alegação que seja inconsistente com o feminismo igualitário.
Ao distinguir feminismo igualitário de feminismo partidário, eu não provei que há feministas partidárias. A distinção também não prova que há feministas igualitárias, mas é a categoria de feministas partidárias que algumas feministas poderiam alegar que é vazia. Pretendo mostrar em muitos pontos ao longo desse livro que há, de fato, feministas desse tipo. Há algumas, mas não muitas, feministas que explicitamente esposam o que eu chamei de feminismo partidário. Muito mais comumente, entretanto, muitos daqueles que professam o feminismo igualitário escorregam para uma forma partidária de feminismo. Interpretam as evidências como provando que pessoas do sexo feminino são vítimas de discriminação mesmo quando não são – e mesmo quando são na verdade pessoas do sexo masculino que são as vítimas da discriminação. Também se engajam em racionalizações para atingir a conclusão em qualquer exemplo em particular de que são interesses femininos que devem prevalecer.
Não pretendo identificar feministas específicas como igualitárias. Uma razão para isso é que é difícil a este ponto determinar quem são as feministas igualitárias reais. Quase todas as feministas escrevendo sobre a discriminação por sexo trataram da discriminação contra pessoas do sexo feminino. É difícil saber se qualquer feminista específica ignorou a discriminação contra pessoas do sexo masculino simplesmente porque ela ou ele não estava ciente do problema. O que acontecerá quando forem informadas ainda está para ser visto. Uma vez que sua atenção for chamada, suas opções (amplamente definidas) parecem ser essas:
(1) Podem aceitar que há alguma discriminação errada contra pessoas do sexo masculino (e se juntarem a mim em opor-se a ela).
(2) Podem fornecer bons argumentos sobre por que, ao contrário do que eu digo, pessoas masculinas não são vítimas de qualquer tipo de discriminação errada.
(3) Podem rejeitar a conclusão de que pessoas do sexo masculino são vítimas de discriminação errada mas falhar em fornecer boas razões para essa conclusão e, em vez disso, se engajar nas familiares racionalizações que discutirei mais tarde.
(4) Podem declarar que não estão interessadas na discriminação contra homens e meninos mesmo se ela existir.
As primeiras duas opções são compatíveis com o feminismo igualitário, enquanto as duas últimas ou sugerem (opção 3) ou declaram explicitamente (opção 4) o feminismo partidário. Em parte por essa razão, as pessoas na terceira categoria são propensas a dizer que estão, na verdade, na segunda. Não desejo prejulgar como pessoas em particular responderão. Porque muitas feministas que professam ser igualitárias escorregam para uma forma partidária de feminismo quando confrontadas com argumentos de que há um segundo sexismo, muitas vezes não se pode facilmente dizer (antecipadamente) quais daqueles que professam estar interessados na igualdade dos sexos de fato o estão.
Nem preciso identificar feministas igualitárias específicas (ou discutir seu trabalho enquanto feministas igualitárias) para amparar meu argumento. O feminismo igualitário é uma posição possível e uma posição que muitas pessoas professam. A questão sobre quem de fato ocupa esse espaço intelectual (e político) não é relevante para determinar se há um segundo sexismo. Nem é relevante para mostrar que o reconhecimento e a oposição ao segundo sexismo é compatível com a posição que chamei de “feminismo igualitário”.
Como no caso das feministas, conservadores também não são de um único tipo. Alguns dos que chamam a si mesmos de “conservadores” podem não ter objeções às posições que defenderei. Isso porque alguém pode ser conservador num campo mas não em outro. O conservadorismo econômico, por exemplo, não implica em conservadorismo religioso. Os conservadores que protestarão contra meus argumentos serão mais provavelmente aqueles que endossam (o reforçamento dos) papeis de gênero e em consequência o tratamento diferenciado dos sexos ao qual eu me oponho. Arguirão que muitas das desvantagens que as pessoas do sexo masculino sofrem não são exemplos de sexismo, porque as pessoas do sexo masculino devem suportar esses fardos ou ao menos que não é injusto que tenham de suportá-los. Esses conservadores – a quem podemos chamar de conservadores de papeis de gênero – pensam a mesma coisa sobre vários fardos que mulheres suportam, o que faz deles aliados desleais para feministas partidárias que também negam que há um segundo sexismo. De fato, conservadores de papeis de gênero podem achar parte do que defenderei – especialmente contra feministas partidárias – bem agradável. Podem, por exemplo, concordar que há os dois pesos e duas medidas que eu demonstrarei que existem na posições das feministas partidárias.
Deve estar claro, entretanto, que minha posição não é conservadora sobre papeis de gênero. Enquanto poderia haver diferenças em média em algumas características psicológicas entre os sexos (discutirei de forma mais aprofundada no Capítulo 3), eu não penso que essas justifiquem todos os tratamentos diferenciais dos sexos que os conservadores de papeis de gênero endossam. Por eu pensar que o segundo sexismo deve ser condenado junto ao sexismo mais amplamente reconhecido, estou defendendo mudanças – fazer as coisas de forma diferente da que foram feitas historicamente. Isso não é ser conservador de forma alguma.
Ao defender a posição de que há um segundo sexismo, responderei a críticas de ambos feministas partidários e conservadores de papeis de gênero. Entretanto, meus argumentos se direcionarão mais comumente contra os primeiros. Isso não é porque sou mais contra sua posição, mas em vez disso porque é a posição mais comum na academia.
Não poderia enfatizar mais, no entanto, que eu não estou criticando todas as feministas. Descobri que esse fato é frequentemente esquecido (ou, em leituras menos generosas, ignorado) mesmo quando é dito claramente. Infelizmente, o partidarismo e outros excessos ideológicos do feminismo são generalizados e eu devotarei muita atenção a demonstrar os problemas em tais posições. Ao fazê-lo, entretanto, não devo ser interpretado como alguém que rejeita o feminismo na sua forma mais autêntica e igualitária.
_______
Notas da tradução
* David Benatar é professor de filosofia na Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul. http://en.wikipedia.org/wiki/David_Benatar Este texto é uma seção do Capítulo 1 (Introdução) de seu livro Benatar, David. The second sexism: discrimination against men and boys. John Wiley & Sons, 2012. As notas foram ocultadas.
** Traduzi “females” como pessoas do sexo feminino. No inglês, a distinção entre sexo feminino/masculino e gênero feminino/masculino é facilitada pela possibilidade de usar os termos “female”/”male” e “feminine”/”masculine”. Mas, no português, a tradução literal de “female” para “fêmea” e “male” para “macho” perde o sentido substancialmente, pois as pessoas associam essas palavras ou a outros animais, ou, no caso de “macho”, o termo é usado para pessoas já com um sentido sexista de atribuição automática de virtudes ao gênero masculino.

*** “Partisan feminist” poderia ter outras traduções, como “feminista sectário” ou “feminista sequaz”. Usei “sectário” no título da minha tradução, confesso, para atrair leitores e leitoras. Benatar, é claro, está sendo neutro em gênero quando se refere a feministas, graças à língua inglesa, o que é difícil de fazer em português sem apelar para acresção arriscada de palavras como “pessoas feministas”. Optei por generalizar feministas no feminino, na maioria das vezes, por convenção. Lembrar que em todos os casos em que se diz “as feministas”, há, inclusive na academia, homens envolvidos (mesmo que não gostem de chamar a si mesmos de feministas).

Leia também:
O preconceito de associar um sexo/gênero automaticamente a virtudes e vícios
– Sobre gêneros e deterministas culturais
Três citações feministas
– Vieses implícitos e o feminismo racionalista de Jennifer Saul
– Você é machista, homofóbico(a), transfóbico(a), racista? Muita calma nessa hora!

10th of April

Três citações feministas


“Uma recusa a reconhecer a plena humanidade das mulheres, e uma inabilidade correlata de apreciar a total individualidade de cada mulher, de fato é o cerne do sexismo (e, mutatis mutandis, do racismo). Então, é perturbador que muitas mulheres na academia, hoje, em vez de serem recebidas como participantes plenas da vida da mente, encontram-se sutilmente ou não tão sutilmente encorajadas a se confinarem ao gueto de colarinho cor-de-rosa de “women’s issues” e “abordagens feministas”; como é [também perturbador] ouvir os ecos de estereótipos sexistas antigos na filosofia feminista contemporânea: que a ética feminista focar-se-á no cuidar em vez de no dever, ou na virtude em vez de na justiça; ou que lógica é um empreendimento masculinista; ou que a epistemologia feminista deve enfatizar a conectividade, comunidade, emoção, confiança, o corpo, etc.”
– Susan Haack, “After my own heart”, 2008.
“Muitos homens são muito mais oprimidos que muitas mulheres, e qualquer feminista que esteja determinada a apoiar mulheres em todas as situações certamente encontraria algumas onde seu apoio a mulheres em vez de homens aumentaria o nível de injustiça no mundo. (…) Nenhuma feminista cuja preocupação com mulheres venha de uma preocupação pela justiça em geral pode jamais legitimamente permitir que seu único interesse seja a vantagem das mulheres.”
– Janet Radcliffe Richards, “The Sceptical Feminist”, 1994.
“O que sinto que devemos querer dizer é algo tão óbvio que é propenso a escapar à atenção completamente, ou seja: não que toda mulher seja, em virtude de seu sexo [apenas], tão forte, inteligente, artística, sensata, diligente etc. quanto um homem qualquer que possa ser mencionado; mas que uma mulher é tanto um ser humano comum quanto um homem, com as mesmas preferências individuais, e com a mesma medida de direito a gostos e preferências de um indivíduo. O que é repugnante a todo ser humano é ser pensado sempre como um membro de uma categoria e não como uma pessoa individual. (…) O que é irrazoável e irritante é assumir que todos os gostos e preferências que se tem hão de ser condicionados à categoria à qual se pertence. (…) 
Ocasionalmente imbecis e editores de revistas chamam-me para dizer algo sobre a escrita de romances policiais “do ponto de vista de uma mulher”. A tais demandas pode-se apenas dizer ‘Vá embora e não seja tolo. Isso equivale a perguntar qual é o ângulo feminino num triângulo equilátero’. (…)
Mesmo onde as mulheres têm conhecimento especial, elas podem discordar entre si como outros especialistas. Por acaso médicos nunca entram em rusgas ou cientistas nunca discordam? Seriam as mulheres não-humanas, ao ponto de se esperar que engatinhem todas juntas num rebanho como ovelhas?”
– Dorothy Sayers, “Are women human?”, 1938.
4th of March

Sobre gêneros e deterministas culturais


A nova estratégia de deterministas culturais é “fearmongering” – incitação ao medo. Para expulsar a biologia da compreensão da dimensão biológica de gênero e orientação sexual (que é inegável), agora a moda para tentar censurar a curiosidade sobre isso é alegar que será apenas outra fonte de segregação. Pode até ser, é possível. Mas ser possível não é sinônimo de ser provável, e ser submetido a mau uso não significa ser falso.
Ferramentas boas como a ciência são eficientes tanto para o mal (aumento de sofrimento) quanto para o bem (diminuição de sofrimento, libertação de oprimidos). A pílula foi, afinal de contas, um instrumento poderoso do feminismo – e se não a pílula, os conhecimentos das ciências biológicas sobre as intimidades hormonais do sexo biológico feminino. Mas esses conhecimentos foram, também, usados para o mal. Quem julgará que um conhecimento deve ser silenciado, e não expandido, para que não cause mal? Pode ser verdade para armas nucleares, talvez, mas é muito mais nuançado para coisas como biologia humana.
Por décadas, a biologia evolutiva foi demonizada com o uso do “darwinismo social”, uma invenção de Herbert Spencer, não de Darwin – que era abolicionista e sem dúvidas humanista. Grandes divulgadores da biologia evolutiva como Stephen Jay Gould investiram enormes esforços para desmistificar essa demonização, infelizmente generalizada em certos círculos ideológicos da academia de humanidades. Felizmente, as coisas mudaram bastante, e quase não se vê mais defensores do mito da Tabula Rasa.
Quando não se tem rigor intelectual, qualquer ideia bem engendrada ou apenas defendida com retórica ofuscante já se torna verdade absoluta para alguns. Felizmente, ciências empíricas têm mecanismos de correção – e outras investigações também, no entanto as áreas acadêmicas variam em rigor entre si, pelo seu processo histórico, e também pela variação de atividades em universidades diferentes – tanto em ciência quanto em humanidades.
A ideia de que o gênero é uma pura construção social, por exemplo. Papel de gênero não é tudo por trás de gênero. Evidentemente, de Luís XIV para Barack Obama, papel de gênero masculino, ao menos quanto a estética, mudou enormemente e isso salta aos olhos. Mas por que motivo a maioria das sociedades limitam suas categorias de gênero a poucas, e na maioria a apenas duas – homem e mulher? Porque há mais para essas categorias que simples construção social e papéis impostos. Não é plausível supor que sociedades ameríndias e da oceania, separadas culturalmente por mais de 50 milênios, tenham construído números similares de gênero por razões puramente culturais, mesmo que papéis de gênero sejam sem dúvida marcadores dessa distância cultural.
Gênero é invenção, no entanto a maioria das sociedades, que é patriarcal, sabe identificar muito bem que gênero oprimir: as mulheres, em todas as suas diferentes manifestações culturais – porém compartilhando algo em comum que é tanto sócio-cultural quanto biológico: o gênero feminino.
Se a cultura é onipotente sobre invenções de gêneros, onde estão sociedades com mais de 30 gêneros? Se castas indianas contam como gêneros, isso, creio, é no mínimo surpreendente, dado que dentro de cada uma dessas castas, as categorias homem/mulher (entre outras) existem e sabemos bem quem leva a pior.
Quando sua teoria sobre gênero é permissiva o bastante para com determinismo cultural, fica difícil compreender como é que mulheres simplesmente não optaram por ser homens para não sofrer mais opressão em algum lugar, em alguma época (e, como sou tolinho, é claro que algumas tiveram que fazer isso – ou melhor, fingir, e exemplos históricos não faltam – nosso caso emblemático é Maria Quitéria). Ao longo de toda a história, mulheres trans e pessoas que são algo diferente de mulher ou homem sofreram, sim, com os papéis impostos sobre elas. Sofreram porque há uma constância na identidade – a esmagadora maiora das pessoas é parte de uma mesma categoria na maior parte da vida – seja esta categoria uma categoria minoritária fora do binário homem-mulher. E, num grau menor, podemos incluir homens que sofreram por não serem vistos como “homens o bastante”, incluindo gays.
Como se diz comumente, somos seres biopsicossociais (bio-psico-sociais, como queira), mas em alguns círculos, psico sim, social também, mas se falar em bio, as comportas do inferno se abrem.

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(Publicado originalmente no Facebook em setembro de 2013.)

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Bônus: evidências da possível participação de recursos biológicos na identidade de gênero.

Existem mulheres que nascem com pênis e homens que nascem com vagina. Eis evidência cerebral de que mulheres trans e mulheres cis compartilham um mesmo gênero, e possivelmente homens trans e homens cis também, apesar de haver um único indivíduo testado no grupo dos homens trans neste estudo.
Os pontos representam os indivíduos testados. As alturas das barras coloridas são as médias. As linhas verticais no meio dessas barras são medidas de erro, e indicam que a diferença entre homens cis e mulheres tanto trans quanto cis é significativa, enquanto mulheres cis e mulheres trans não diferem entre si nesta região cerebral. Os tamanhos amostrais deste estudo são bons, porém mais estudos se fazem necessários para confirmar este achado.
Referências:
Bao, A.-M., and Swaab, D.F. (2011). Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders. Front Neuroendocrinol 32, 214–226.
Garcia-Falgueras, A., and Swaab, D.F. (2008). A sex difference in the hypothalamic uncinate nucleus: relationship to gender identity. Brain 131, 3132–3146.
1st of March

Você é machista, homofóbico(a), transfóbico(a), racista? Muita calma nessa hora!


Uma pessoa disse que a Marília Gabriela seria homofóbica por ter decidido não me convidar para o programa dela. Eu discordo enfaticamente! E também discordo enfaticamente de outras acusações de preconceito que às vezes vejo na internet. Por três razões:
1. Às vezes a lógica é quebrada. Se a Gabi é homofóbica por não me convidar, ela não era homofóbica por convidar as lésbicas Pepê e Neném? Não me convidar é uma premissa muito frágil para acusá-la de ser homofóbica. Como qualquer pessoa (independente de quem seja), ela merece o benefício da dúvida, e só merece ser acusada com evidências convincentes e argumentos convincentes. Alarmismo e denuncismo que passam por cima disso são um grande problema, não uma solução.
2. Se fosse verdade que Gabi é homofóbica, usar o adjetivo como um xingamento seria a última coisa que a faria refletir sobre isso e mudar de crença e atitude. A Gabi, como qualquer outro ser humano, provavelmente reagiria de forma defensiva, fechando-se para as ideias corretas de quem acusou, por causa da acusação, do uso de um “nome feio”. Encurralar pessoas não é educá-las. E se as pessoas não estão sendo educadas a jogar fora sua homofobia, qual é o propósito de acusá-las de sê-lo?
3. A forma mais caridosa de aceitar uma acusação dessas sem as evidências e bons argumentos, contra a Gabi ou contra qualquer outra pessoa, tem um efeito curioso: se a Gabi é homofóbica, quem acusou também é. Porque as pesquisas disponíveis mostram que as pessoas, independentemente de seus grupos, guardam em média vieses contra homossexuais. Inclusive os próprios. Isso não é para aplaudir a homofobia: isso é para educar a respeito de um fenômeno curioso chamado viés implícito.
A filósofa Jennifer Saul dá como exemplo desse fenômeno o que houve com o reverendo Jesse Jackson, que lutou toda a sua vida contra o racismo nos Estados Unidos, quando certa vez se viu, num momento de epifania autocrítica, tendo atitudes desfavoráveis contra negros. No caso, mudar de rota se visse um rapaz negro andando em direção a ele. 
Saul comenta evidências do viés implícito também no caso do sexismo (machismo, misoginia):
“O viés implícito pode vir em muitos tipos diferentes de comportamento. Por exemplo, decisões de contratação. Se você apresentar exatamente o mesmo currículo com um nome masculino ou feminino, há maior chance de o que tem nome masculino receber maior nota, receber convite para entrevista, receber cargo de maior hierarquia e salário e ser contratado do que o currículo com nome feminino. O mais recente estudo de 2012 mostrou que o efeito do viés é igualmente forte em todos os grupos etários, e que é igualmente forte entre homens e mulheres. O viés afeta o modo como interagimos com as pessoas. Tanto homens quanto mulheres são mais propensos a solicitar um homem que uma mulher, mais propensos a interpretar com caridade um comentário incoerente se for de um homem do que se for de uma mulher.”
(Traduzido deste podcast: http://lihs.org.br/bias )
Então, se o exemplo do viés implícito no caso do machismo é análogo aos outros preconceitos, é provável que, neste sentido específico, nós todos possamos ser machistas, ‘LGBT-fóbicos’, racistas. E quem pensa que estar num desses grupos isenta alguém de ter esses vieses, está provavelmente enganado.

Mas (e este é um grande mas), acho injusto usar esses adjetivos apenas por causa da ubiquidade dos vieses implícitos. Penso que as palavras temidas que designam preconceitos e discriminações deveriam ser usadas justamente para identificá-los quando há evidências claras e distintas de que estão ali, no caso específico que você está julgando.


Por que? Porque assim os próprios vieses podem ser combatidos melhor. Inclusive no nível do indivíduo, que ao saber da existência desses vieses, pode lutar para evitar incorrer neles, não baixar a guarda. E falar em vieses é muito mais efetivo para que as pessoas façam isso individualmente, se eduquem, do que encurralá-las e acusá-las. Tanto pior encurralá-las e acusá-las sem evidências convincentes!
Jesse Jackson com certeza deve ter se tornado um ativista melhor depois de sua epifania, alguém mais consciente sobre o quão complicado é algo como o racismo e o que fazer efetivamente para vencê-lo. E nós todos podemos melhorar nossas atitudes éticas se seguirmos este exemplo, de parar, respirar fundo, pensar, repensar, pesar as evidências, antes de sair numa cruzada ineficiente de acusacionismo fadado ao fracasso.
Portanto, se me acusam de qualquer uma dessas coisas, procuro fazer essa distinção entre aceitar a probabilidade de que eu incorro em vieses, e cobrar evidências de que realmente fiz algo motivado por eles ou motivado por coisa pior, como ideias agressivamente preconceituosas ou atitudes claramente discriminatórias. E não espero menos de qualquer outra pessoa, inclusive quem me acusou. Rigor com evidência e argumento é a única coisa que pode garantir justiça.
O que são os vieses implícitos? A filósofa Jennifer Saul ainda quer saber – se são crenças, se são atitudes, qual é sua natureza íntima – é algo em aberto. Pero que los hay, los hay. E é difícil declarar-se livre deles, sem passar por epifanias (no sentido de descobertas, de análises) como a de Jesse Jackson.
23rd of August

Relatório do senador Pedro Taques sobre a reforma do Código Penal: desastroso e mentiroso.


Saiu o relatório do senador Pedro Taques (PDT/MT) sobre a reforma do Código Penal. É desastroso e mentiroso.
– Mantém aborto como crime e fala que zigoto “já vislumbra a energia vital”. Que é isso, alquimia? Vitalismo é doutrina morta e enterrada em biologia.
– “cientista jamais poderá afirmar que um nascituro, por mais jovem que seja, não está vivo.” Isso também vale para tumores. Pedro Taques quer que a lei proteja tumores? Então por que, quando quer defender proteção a fetos ao ponto de criminalizar mulheres (e condená-las à morte por fazerem escolhas sobre seu próprio útero), usa coisas que fetos compartilham com tumores?
– Pedro Taques defende determinismo genético. Que na fecundação definem-se “características físicas, aptidões intelectuais”. Agradeço a ele por provar com esse relatório obscurantista e retrógrado sobre aborto que os “pró-vida” defendem determinismo genético, coisa que eu já disse antes: http://lihs.org.br/aborto
– O relatório cita um filósofo dizendo que permitir que a mulher possa escolher antes que se desenvolva cérebro diminuiria a proteção sobre crianças e idosos. Isso é absurdo. Ninguém alega que crianças e idosos são menos conscientes. A declaração de Cambridge de 2012 diz que até outras espécies têm consciência, como crianças e idosos não teriam? Argumento falacioso e falsa preocupação.
– Também invoca a sagrada vontade da ditadura da maioria para continuar criminalizando o aborto. Em direito de minoria (neste caso minoria em poder) não se mete vontade autoritária de maiorias. E certamente a maioria que elege apenas 8% de parlamentares mulheres não é imparcial e justa para decidir sobre status legal do aborto.
– “No entanto, o argumento da laicidade não tem autêntica relação com a questão do aborto.” Oh claro que não… somos todos idiotas.
– “presença de vida humana desde concepção não depende de crença religiosa. É fato biológico.” Tanto quanto presença de vida em tumores.
– Uma manchete sobre o relatório: “Novo Código Penal torna assassinato de gays mais grave.” Pouco importa, continua assassinando mulheres.
– O relatório dedica uma seção sobre autonomia da mulher a culpá-la por não prevenir gravidez. Ja isso é ignorância sobre como baixa probabilidade de falha de métodos anticoncepcionais atua num numero exorbitante de milhões de mulheres sexualmente ativas. E para variar, como nossa cultura machista adora fazer, se o método falhou a culpa é sempre da mulher.
– O relatório do senador Pedro Taques também alega que fetos de 12 semanas podem ver e ouvir. Confirmei com colega médica: É MENTIRA. Minha colega médica faz doutorado aqui em Cambridge justamente com funções cerebrais em recém-nascidos. Mentir é feio, Pedro Taques.
O relatório falacioso está no link a seguir, e a parte sobre aborto a partir da página 152.
Meus argumentos pela defesa da vida através da descriminalização do aborto, seguindo a recomendação do Conselho Federal de Medicina: http://lihs.org.br/aborto