24th of February

Ciência, política identitária, transexualidade, ação afirmativa e relativismos


Entrevista originalmente publicada em 30/01/2019 na Gazeta do Povo.

Francisco Razzo: Minha coluna desta semana traz entrevista com o biólogo Eli Vieira, que nos últimos anos tem feito críticas contundentes e consistentes ao relativismo pós-moderno e às políticas identitárias. Para não dizer que só entrevisto pessoas que concordam comigo, Eli Vieira e eu já tivemos oportunidades de debater a questão do aborto e do ateísmo. Temos visões diametralmente opostas a respeito desses temas e nem por isso deixamos de trocar boas ideias.

A propósito, umas das coisas mais importantes que eu aprendi estudando filosofia foi conseguir conversar com pessoas com ideias diferentes das minhas. Não que eu tolere tudo, não sou Gandhi ou Madre Teresa e não faço meditação; dependendo do assunto, meu pavio é bem curto. Mas estou longe de querer ouvir só a minha “patota ideológica” — confesso que não é tão difícil lembrar que a possibilidade de estar errado é uma boa maneira de cultivar a sabedoria.

Nesta entrevista você terá a oportunidade de conhecer uma visão muito provocadora sobre o atual debate da transexualidade, como a biologia pode nos ajudar a pensar a construção da identidade, por que o relativismo é simplesmente um absurdo, como as “minorias” devem ser protegidas e quais os riscos sociais das chamadas políticas identitárias — e, mesmo depois de tudo isso, saber por que ainda permanecemos tribais.

FR: Como você entende o atual debate da transexualidade?

Eli Vieira: É uma guerra de absurdos sendo atirados de todos os lados. De um lado, correndo à defesa das pessoas trans como cavaleiros correm ao socorro de donzelas em apuros em contos de fadas, temos pessoas pouco curiosas sobre o mundo real; aquelas que vivem no mundo das letras e, por isso mesmo, pensam que tudo se resume a esse mundo, tudo é linguagem. Confundem seu paroquialismo das letras com erudição, se radicalizam (como é de esperar em qualquer grupo pouco diverso em ideias), alegam que tudo é “construção social” num determinismo cultural ganancioso e não querem ouvir nada que venha das ciências empíricas. De outro lado, temos os simplistas, cujo entendimento de biologia se resume ao ensino básico: homem = XY; mulher = XX, isso é tudo o que há para dizer sobre o assunto, e querer saber mais é esquerdismo. Parece que os dois grupos se unem na falta de curiosidade. Quanto mais polarização, menos curiosidade.

FR: Há um “lugar-comum” que diz que “a teoria de gênero não pode ter respaldo na biologia”; afinal, qual a importância da biologia na construção da identidade de gênero (se é possível falar assim)?

EV: Estou de acordo com a filósofa Helena Cronin: a invenção do termo “gênero” só nos atrapalhou a entender melhor o sexo. O sexo, em seres humanos, é um fenômeno complexo o suficiente para ter expressões sociais e culturais. Ceifar essas expressões de sua relação com a realidade biológica do sexo faz tanto sentido quanto alegar que “altura” e “estatura” não são sinônimos; que “altura” é a realidade biológica de quantos centímetros um corpo humano pode crescer e que “estatura” diz respeito a uma “estrutura socialmente construída de privilégios para pessoas altas e opressão para as baixas”, para usar um pouco do vocabulário carregado das áreas acadêmicas em que se confunde ativismo com pesquisa.

Um dos principais responsáveis pela adoção do termo “gênero” na psicologia, John Money (1921-2006), foi um pesquisador que recomendou criar o menino David Reimer (1965-2004) como menina, pois David havia perdido o pênis ainda bebê, num erro médico durante uma circuncisão. Money usou o caso para tentar provar que a identidade sexual depende apenas da criação e do ambiente cultural, em vez de ser algo com bases genéticas. A intervenção consistiu também num processo transexualizador, incluindo remoção dos testículos. Money estava errado. Reimer cresceu com disforia, talvez o primeiro caso de disforia de alguém que se identificava com o sexo de nascimento. Abandonou a identidade socialmente imposta de menina, teve uma vida difícil e cometeu suicídio mais tarde.

Uma ideologia popular nas humanidades, que é a que prega que tudo o que somos é construção social, corretamente cataloga todo tipo de crime já feito em nome das ciências empíricas: o movimento da eugenia envolvendo vários cientistas, a castração de pessoas de baixo QI nos Estados Unidos no começo do século 20, o racismo científico etc. Previsivelmente, não cataloga crimes cometidos em nome de seu próprio credo acadêmico da tábula rasa/construção social: além do crime de John Money, temos aqui também Pol Pot, Stálin e Mao Tsé-Tung, que explicitamente diziam que seus cidadãos eram folhas em branco e que, portanto, não havia uma natureza humana que oferecesse resistência aos princípios da revolução socialista (Jean-Paul Sartre, que foi stalinista e maoísta, é citado até hoje para defender que não existe natureza humana – acho que não é coincidência). Tanto o determinismo biológico quanto o determinismo cultural motivaram crimes contra pessoas inocentes.

Engana-se, no entanto, quem pensa que o caso David Reimer prova que sempre, sem falha, a identidade sexual saudável é a observada nas genitálias ao nascer. Estamos só começando a estudar a transexualidade, mas há dois bons motivos para considerar seriamente que é possível que algumas meninas nasçam com pênis e alguns meninos nasçam com vagina. O primeiro é que há uma independência temporal, no desenvolvimento do feto, da formação da genitália e da formação das partes do cérebro que diferem na média entre homens e mulheres. Enquanto a forma da genitália já se faz presente nos dois primeiros meses de desenvolvimento fetal, o cérebro só forma suas conexões neuronais, inclusive as importantes para a identidade sexual, da metade para o fim da gestação. Havendo essa separação temporal, é possível que haja alguma independência nas causas do sexo entre as pernas e do sexo entre as orelhas.

O outro motivo para acreditar que a transexualidade é natural é que, em muitas características, os homens são mais variados que as mulheres. Isso é verdade tanto para características físicas quanto psicológicas, como o QI. Aceitando que há bases biológicas por trás das diferenças de comportamento de homens e mulheres que fazem os dois sexos serem categorias sociais distintas, teremos de aceitar também que alguns homens podem se distanciar tanto da média de homens nessas bases, devido à maior variação masculina, que eles na verdade são mulheres no cérebro. E é por isso que há mais transexuais que se identificam como mulheres que como homens.

Há algumas pesquisas com transexuais indicando que isso é verdade: núcleos de uma parte do cérebro chamada hipotálamo dos transexuais são mais semelhantes ao sexo com o qual se identificam do que ao sexo indicado por suas genitálias de nascença. Já alguns outros estudos mostram que, em algumas características, o cérebro dos transexuais se assemelha ao sexo identificado ao nascer. Teremos de ter paciência e curiosidade para entender as pessoas transexuais, e o estudo delas revelará muito sobre o resto de nós.

Isso não é para dizer que todas as respostas estão na biologia, embora resposta nenhuma no assunto estará completa se ignorar a biologia. Na opinião de Alice Dreger, estudiosa dos intersexuais (hermafroditas) e crítica dos excessos do ativismo, um indivíduo que é um gay muito afeminado numa sociedade poderia ser uma transexual em outra sociedade – essa outra sociedade, ela pensa, seria menos tolerante ao jeito de ser desse indivíduo, fazendo com que ele (ou ela) precise dar “um passo à frente” na afirmação de sua identidade. É uma hipótese interessante e promissora, e em nada contraria a biologia.

De qualquer forma, os dois sexos (incluindo as variações raras dos intersexuais e transexuais) são mais semelhantes que diferentes: somos uma só espécie. E falar mais de sexo que de gênero me parece um bom ponto de partida para que a curiosidade e o respeito falem mais alto que a sanha persecutória das tribos políticas e o fervor moral dos ativistas cheios de certezas. Antes de agir, devemos saber.

FR: Quem acompanha seu trabalho sabe que você é um ferrenho crítico do relativismo pós-moderno; você poderia discorrer quais são as implicações do relativismo e por que é preciso combatê-lo?

EV: A forma mais resumida que eu encontrei para mostrar o problema dos relativismos é o que eu chamo de “a vingança das intuições”: Você pode alegar que não acredita em padrão universal de beleza, mas quando vê uma pessoa com aquela razão entre cintura e quadril, ou entre ombro e quadril, aquele timbre de voz agradável, e aquela pele saudável, sabe que fica impactado(a). Você pode dizer que moral é relativa à subjetividade, à cultura e aos tempos; mas, quando vê um animal sendo torturado, pensa que há algo de realmenteerrado naquilo e se esquece de qualificar “errado para mim” ou “errado para os brasileiros do século 21”, como mandam os relativismos morais. Você pode se pavonear de entendido e dizer que a ciência é só uma narrativa entre várias igualmente boas, que verdade é poder, que quem fala em “verdade” é positivista antiquado; mas, quando é acusado de um crime que não cometeu, quer que a verdade objetiva venha à tona, quer que a investigação seja imparcial, neutra e melhor que meras narrativas fictícias.

Relativismos são projetos falidos, cognitivamente insustentáveis, e seus defensores não se cansam de hipocritamente contrariá-los todos os dias das formas mais banais. A aderência insincera ou autoenganosa aos relativismos é mais uma bandeira política que um fruto do bom pensamento.

Se os relativismos um dia vencerem na disputa de poder, podemos dar adeus a todas as coisas em que esperamos que haja hierarquias baseadas em competência. Um artista não relativista tem uma lixeira cheia de rascunhos abortados. Um artista relativista bota qualquer rascunho na galeria. Um intelectual não relativista busca justificação para suas crenças que escape à sua subjetividade e ao paroquialismo em torno de si. Um intelectual relativista tem incentivo extra para querer ser julgado somente pela aclamação de seus pares, com todos os vieses que isso traz na bagagem.

FR: Na sua opinião, as chamadas “minorias” devem ser protegidas politicamente?

EV: À primeira vista parece que sim, se houver evidência de que são alvo diferencial de dificuldades que não ocorrem aos outros cidadãos – como é o caso dos deficientes, que precisam de rampas, textos em braile etc. Mas devemos saber disso antes de propor que o Estado interfira. A comparação com os deficientes é um balde de água fria proposital: antes de pedir favores do resto da sociedade, é preciso que perguntemos se alguma das outras minorias é mesmo comparável aos deficientes de alguma forma.

Isso não é para insultar as minorias (afinal, deficiência não é demérito), mas para deixar claro que os recursos são sempre finitos e que receber tratamento diferenciado requer motivos sérios como a deficiência. Talvez por saber intuitivamente disso, alguns dos ativistas da causa LGBT, por exemplo, insistem que o Brasil “é o país que mais mata LGBT”. Usam essa alegação para pedir, por exemplo, leis que limitem a liberdade de expressão em nome da causa.

Eu fui atrás da principal fonte dessa alegação, junto com colaboradores. Analisamos os dados. Concluímos que somente 7% do que essa fonte diz serem crimes homofóbicos se confirmam como tais. Portanto, há dúvidas de que o país é realmente tão ruim quanto alguns ativistas tentam fazer parecer com seu ativismo “Cidade Alerta”. Manter a liberdade de expressão intacta parece mais importante que chamar o Estado para agir com base em dados que não são dignos de confiança. Neste caso, a mim parece que a cultura está progredindo por si só, que o Judiciário já fez tudo ou quase tudo o que era necessário para haver igualdade perante a lei, e que, portanto, não há necessidade de clamar por mais Estado nesse assunto, ainda que haja ampla necessidade de a sociedade continuar conversando.

Resultado preliminar da checagem de dados do Grupo Gay da Bahia que a imprensa usa para alegar que o Brasil é o país que mais mata por homofobia. Só 7% dos casos se confirmam. 42% não foram mortes por motivação homofóbica. 47% inconclusivos https://bit.ly/2VxEIfg

Os asiáticos nos Estados Unidos, hoje, estão se saindo melhor que a base étnica que fundou o país (anglo-saxões protestantes), e nisso não devem nada ao Estado. Na verdade, nos últimos séculos, o Estado serviu como obstáculo para eles. Eles são a prova de que programas de “ação afirmativa” não são necessários. Como um golpe de ironia, estão precisando processar a Universidade de Harvard porque políticas de ação afirmativa na seleção de alunos na instituição prejudicam os asiáticos por se saírem bem demais.

Os proponentes das ações afirmativas, portanto, têm o ônus de provar por que pensam que outras minorias são incapazes de sucessos similares sem que os critérios de admissão, seleção e competição sejam ajustados para elas. Como esses proponentes pensam que a diferença entre etnias é mais cultural que biológica (e eu tendo a concordar), precisam procurar explicações na cultura. Evidentemente, a explicação que sempre usam é que a cultura dominante discrimina injustamente as minorias. Essa explicação é verdadeira, mas ela não é a história completa, então há aqui o risco da “mentira por omissão”. Todo fenômeno sociológico tem uma miríade de fatores causais diferentes. Mas, como há dogmatismo político, se agarram à explicação do preconceito e acusam de preconceito quem quer aventar outras hipóteses. Essa é uma postura de inquisidor, não de investigador.

FR: Quais os riscos das “políticas identitárias” para o desenvolvimento do trabalho científico?

EV: Quando eu penso nas faces que eu via no Departamento de Genética da Universidade de Cambridge, lembro de todas as categorias identitárias que tantas pessoas tratam hoje como donzelas em apuros. Vi lá mulheres negras, mulheres muçulmanas com véu, cristãos, ateus, até transexuais (e digo “até” porque são bem menos de 1% da população, então não aparecem em muitos espaços por mero efeito do acaso – aí está uma explicação alternativa à obsessão de creditar tudo a preconceito!). A diversidade que observei ali era apenas um efeito colateral dos valores da instituição: estávamos ali porque nos interessávamos por genética e, por sorte ou determinação, conseguimos fundos para seguir nossos interesses.

Como o interesse em genética é bem distribuído em grupos de identidade e as pessoas são livres para tentar entrar lá, há diversidade identitária em quem tenta. Não sendo essas identidades critério de admissão ou exclusão, o resultado era um grupo fisicamente diverso. Como o interesse em matemática não é tão bem distribuído nas identidades quanto a genética, a cara da plateia nos seminários dos departamentos de exatas deve ser diferente. Certamente é mais masculina, pois os homens herdaram de seus ancestrais masculinos um cérebro mais propenso a se interessar por coisas e abstrações do que pelo tratamento de animais e pessoas. Há evidência científica para essa previsão de qual será a plateia. Pressões sociais para que as pessoas se conformem a estereótipos podem contribuir para manter alguns grupos menos presentes em alguns espaços. Mas pouca pesquisa rigorosa é de fato feita para mostrar o quanto disso está por trás do que observamos.

De qualquer forma, o que importa é que exista a liberdade de seguir nossos interesses, não que os interesses sejam artificialmente distribuídos na população, o que geraria mais profissionais desinteressados e desiludidos. As ciências são investigações que empregam métodos lapidados pela experiência das gerações passadas de cientistas. Os melhores cientistas eram genuinamente interessados em suas áreas, se atraíram naturalmente por elas. A moda ideológica da política identitária leva ao risco de tentar forçar a plateia dos seminários de matemática a ser mais parecida com a plateia da genética, atropelando liberdades e curiosidades genuínas no processo.

Portanto, é uma tendência preocupante para a pesquisa científica, tanto quanto discriminações “clássicas”, talvez mais preocupante que elas. Quando os geneticistas começarem a prestar muita atenção na identidade da colega que está falando, darão menos atenção ao conteúdo do que está dizendo e à qualidade do trabalho.

Pelo que indicam as evidências, não é o racismo, a homofobia, ou a misoginia que estão em grande parte nos genes, mas uma tendência ao tribalismo. Nós somos capazes de usar qualquer coisa, inclusive identidades políticas abstratas, para nos dividirmos em tribos, passando a agir de forma condescendente/simpática a quem consideramos confrades e de forma hostil/desconfiada a quem rotulamos como estranhos ao nosso grupo. São vieses de fábrica da nossa natureza. Podemos enfatizá-los ou desenfatizá-los, mas não nos livrar completamente deles. Insistir nos marcadores de identidade ao fazer política, indicam resultados replicados, é receita certa para exacerbar racismo, homofobia, misoginia etc. Ao menos em se tratando de marcadores de identidade que são ideias, mudar de ideia é possível, embora raro, quando o tribalismo tem essa natureza. Quando o tribalismo é baseado em características identitárias que não escolhemos e das quais não podemos nos livrar, o prognóstico de longo prazo é o desastre, mesmo que a intenção de curto prazo seja a defesa de oprimidos.

31st of December

Não é água, é úgua


Estamos acostumados com a ideia de que a água é H2O e apenas isso, com boas razões. Duzentos anos atrás, se você perguntasse a cientistas / filósofos naturais se a água é infinitamente divisível, muitos responderiam que sim. Hoje sabemos que as moléculas dotadas de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio são o limite do que podemos considerar água, e que, havendo divisões além disso (como na eletrólise), o resultado não será água, mas outra coisa.

Podemos dizer que H2O é o limite ontológico da água nas dimensões espaciais.

Mas podemos dizer também que ainda não sabemos tudo sobre o que é água, pois não temos teorias completas do seu comportamento em condições de turbulência. A turbulência dos fluidos ainda é uma coisa que deixa os físicos perplexos.

Sabemos mesmo, então, que água é só H2O? Essa é realmente a definição de água? Aqui não há escapatória para problemas filosóficos como a definição de definição. Teorias científicas são um esforço de definir da melhor forma possível o que são as coisas que elas descrevem. Se um ser de um universo paralelo nos perguntar o que é água, mas exigir saber como a água se comporta em condições de turbulência, passaremos alguma vergonha.

Recorro ao exemplo da água quando estou pensando em propriedades humanas como sexo, sexualidade, comportamento político, autoengano, motivações explícitas, motivações inconspícuas, valores estéticos, etc.

Façamos a seguinte analogia: dada a dificuldade de gerar agora uma definição da água que dê conta da turbulência, faria algum sentido dizer que temos sim uma definição completa de água, mas que em condições de turbulência temos outra coisa que não é água, mas “úgua”? A invenção do termo “úgua” para separar o conceito de água “bem comportada” do conceito de água sob turbulência parece uma manobra intelectual no mínimo desnecessária.

Penso que a invenção de termos como “gênero” é quase perfeitamente análoga ao que descrevi sobre a “úgua”. Temos o fenômeno sexo, que nada na biologia impede que tenha implicações comportamentais, sociais e culturais. Algumas pessoas tomam a “turbulência” das relações sociais e da herança cultural e consideram que seria melhor separar sexo de “gênero”. Eu discordo, é uma atividade intelectual que não nos ajuda a ter boas definições de sexo, que precisam tomar por completo suas dimensões “bem comportadas” e “turbulentas”.

Outras analogias são uma tentativa de separar entre orientação sexual e identidade de gênero (compreendo os efeitos didáticos, mas não está claro que é uma distinção com diferença); padrão de beleza de atração sexual e “biofilia”; enfim, todas as instâncias em que algum instinto humano pode ter expressões bem além das que os genes podem influenciar de forma direta e determinante.

A ideia por trás do problema é chamada pelos filósofos de “partir a natureza em suas juntas”, ou seja, fazer descrições que não fazem distinções inúteis com motivações políticas, ideológicas ou outras; mas apenas distinções conceituais que correspondem a diferenças reais.

13th of June

Você tinha razão: honestidade intelectual e falibilidade na prática Um pequeno exercício autobiográfico de mea culpa


Há menos de cinco anos, eu comecei a fazer ativamente o que muita gente recomenda da boca pra fora: ler e considerar calmamente as ideias de quem eu considerava defensor do exato oposto do que eu defendia. Não tenho total crédito por isso: colecionei amigos que estão dispostos a seguir o coelho para dentro da toca, muitas vezes mais que eu, e que puxaram o meu pé antes de entrar, me derrubando das minhas posições confortáveis e crenças sem mínima justificação.

Vamos sair do campo abstrato: eu era um típico membro da dita “esquerda progressista”. Co-fundador de uma das associações secularistas/ateias mais conhecidas da América Latina. Ousado defensor de tudo o que me parecesse verdadeiro e fosse impopular. (Talvez isso tenha a ver com a minha homossexualidade, que impôs uma necessidade de não ser o que queriam que eu fosse, e há tanto um lado bom quanto um lado ruim nisso.) Quando atraí a atenção de milhares de pessoas com uma resposta cientificamente embasada ao Silas Malafaia (da qual me orgulho), deixei claro nas redes sociais: “sou feminista, defendo o direito ao aborto, defendo os direitos dos LGBT, denuncio o racismo”, etc. Não se empolguem nem temam pela conclusão desse parágrafo: em certos sentidos, ainda sou tudo isso, mas agora com mais vergonha de sinalizar virtudes, um dos males dos nossos tempos: muita sinalização, pouco trabalho.

Claro, já não uso nem recomendo usar o termo “feminista”: na maioria dos casos, é uma coisa tola, pois ao adotá-lo você já está botando o foco em você mesmo(a), em vez de no diagnóstico do problema e prescrição cuidadosa e crítica das soluções (sem falar em propagar falsos problemas com estatísticas sem fonte, que são fofocas matemáticas). E, ao fazer isso, você está convidando seus instintos mais primitivos de lealdade a tribos para tomar a frente na sua imagem, apresentação e até estilo de vida, em vez de se focar em apresentar razões para o que você pensa. E, antes de você apresentar suas próprias razões, você tem a responsabilidade de não ignorar totalmente o que já foi feito no passado a respeito: fazer uma amostragem representativa do trabalho já feito não só é virtuoso, é uma norma do bom pensamento e uma marca de respeito aos seres humanos que já trabalharam no problema. Em resumo: palpitar sem estudar é outro mal dos nossos tempos, e Deus sabe, em toda a sua inexistência, que eu sou culpado disso e em eterna vigilância nos meus melhores dias. Ao menos posso dizer, sem temer exagero, que minha fase de adoção do fútil rótulo “feminista” foi marcada por mais leitura da literatura (especialmente a crítica à ortodoxia, em Daphne Patai, Janet Radcliffe Richards, Susan Haack, David Benatar etc.) do que jamais fará a maioria dos militantes virtuais da “causa” (sua verdadeira causa é com frequência a sinalização de virtudes, não problemas morais em torno dos sexos).

O mesmo padrão — foco egoico, sinalização de virtudes, tribalismo irracional — se repete em todos os outros assuntos em que se criou algum “movimento”. Boa parte dos participantes do “movimento ateu” não respeita a filosofia da religião e comete erros fundamentais, como o de alegar que ateísmo é “ausência de crença”. Uma parte influente dos participantes do “movimento negro” é — digamos sem rodeios — racista. Boa parte dos ditos defensores dos LGBT trabalham ativamente para fazer os LGBT parecerem apartados da população em geral, quando desaparecer em meio a ela era o propósito dos melhores ativistas da causa. Os movimentos fazem com a nuance e a análise o mesmo que massas justiceiras fazem com acusados de crimes como o estupro. A primeira vítima de linchamento em qualquer “movimento social” é a razão. E isso custa vidas, como os linchamentos literais: basta ver o caso do desabamento do edifício Wilton Paes de Leme este ano. As palavras “Luta” e “Movimento” aparecem no nome das organizações que ignoraram os riscos de abrigar famílias sem-teto no prédio.

Mas não estamos aqui só para criticar os movimentos sociais. Nem para dizer que o problema está só na esquerda (embora o flerte crescente com tribalismos identitários faça com que eu me pergunte se não está majoritariamente nela). Vim dar uma lista mais abrangente de assuntos em que eu errei e quem discutiu comigo é que tinha razão.

— Vegetarianismo. Já fiz até vídeo lendo e respondendo a um texto ruim que escrevi contra o vegetarianismo. Por enquanto ele fica no ar, para me lembrar da minha falibilidade e húbris. Para ver onde eu errei basta saber o fundamental sobre falácias, e para aprofundamento se digladiar com o que os eticistas dizem a respeito.

— Aborto. Aqui, eu fiz um trabalho melhor, concordando com os eticistas profissionais e debatendo cordialmente a respeito com conservadores. Mas isso não é desculpa para meus erros de substituir às vezes argumento por slogans e técnicas de propaganda. Num mundo com a enorme influência danosa das redes sociais, é fácil cair na armadilha de tentar assentar assuntos complexos com frases de efeito de 280 caracteres. Não, eu não “venci” o debate porque fiz um meme comparando fetos a nozes, mesmo que isso leve a algum raciocínio interessante. “Vencer” no sentido de dar os melhores argumentos em defesa do meu ponto de vista e sendo justo ao retratar o ponto de vista oposto — ver debates como competições por troféu é parte do que irracionaliza as pessoas. Quando debate é competição, quem sai perdendo é a verdade.

— Feminismo. Foram poucas vezes, mas eu cheguei a contrair o vírus feminista de ver sexismo em tudo e trair meu professado compromisso com evidências. Dica para quem ainda está nessa tribo: Jordan Peterson não é, evidentemente, um pensador perfeito, chega a ter algumas opiniões classificáveis como “pseudocientíficas”, mas o que ele diz sobre relações entre os sexos tem amplo apoio em evidências. É verdade que países mais igualitários desenvolvem mais diferenças entre os sexos, não menos, e que atribuir essas diferenças ao “patriarcado” é algo próximo de teorias da conspiração e criacionismo. Difamação e tentativas de assassinato de reputação não funcionarão para responder a isso. Felizmente, meus anos de identificação com o feminismo raramente incluíram esse tipo de estratégia de ataque pessoal, e há textos que produzi nesse período, neste assunto, que são bons.

— Pseudociências. Por falar nelas, eu não acredito mais numa lista que eu fiz de pseudociências de A a Z. Não é que eu tenha simpatias renovadas pelas tradições que eu busquei atacar com a lista. Todas as que eu classifiquei como pseudociências (tirando as piadas) têm mesmo problemas epistemológicos em graus variados, tanto na construção de suas proposições quanto na sua base evidencial. Psicanálise é um caso claro de pseudociência, não muito longe de casos mais claros ainda como homeopatia e criacionismo do tipo “design inteligente”, além, é claro, do construcionismo social que eu tanto menciono por ainda ser dogma em algumas áreas. O meu erro nesse assunto foi justamente ignorar a variação de graus de imprecisão ou erro em cada área, e confiar demais na minha amostragem de material de cada uma (que não é zero em nenhuma delas, em minha defesa). Esses graus de imprecisão e erro geram um espectro que vai de ciência ruim à salada verbal disparatada. Além disso, definir o que é pseudociência é muito mais difícil do que parece, especialmente para quem, como eu, não acredita que demarcar ciência é tão simples quanto Popper propôs.

— Economia. Minhas manifestações nesse assunto (praticamente ausentes neste blog) foram na maior parte cuidadosas. Responder a marxistas raivosos não é um erro e eu faria tudo novamente, pois estamos num país em que por muito tempo a propaganda ideológica transformou “liberal” em xingamento. Analogamente, também não me arrependo de ter respondido a anarcocapitalistas igualmente utópicos. Mas eu me lembro de uma ocasião específica em que eu estava errado, e o “debate” foi horrendo. Foi quando divulguei alguns poucos estudos que questionam a fibra moral das pessoas ricas, insinuando que ser rico deteriora o caráter. Não era material meu, era um cartaz que citava fontes que eu resolvi traduzir. Claro, é uma hipótese a se testar, mas até onde vi com mais cuidado, é ridícula. Talvez fosse um resquício de preconceito contra a liberdade econômica que eu — como toda pessoa criada na atmosfera intelectual largamente canhota no Brasil — tive por muito tempo até também abrir a cabeça para o enorme legado de sensatez do liberalismo e sua quase identidade com o iluminismo que eu alegava defender por inteiro. Neste caso em específico, a pessoa que se encarregou de me responder fez um trabalho pior que o meu, degenerando nossa interação num bate-boca infantil, e um bate-boca em estilo linchamento de muitos incapazes de argumentar com um indivíduo com argumento ruim e fontes insuficientes (esse ponto da insuficiência de fontes sequer foi feito, até onde lembro). Talvez essa pessoa poderia tomar um pouco das doses cavalares de semancol que eu tomei.

Epílogo

Não percebo a lista acima como um exercício de autoflagelação (que no fim das contas seria ainda mais sinalização de virtudes). Vejo como um passo importante num processo de aperfeiçoamento pessoal, que era um dos benefícios que Kant apontava no seu projeto de esclarecimento. Uso meu próprio exemplo para que a jornada de outras pessoas talvez seja facilitada, para que sua estrada seja menos esburacada e seu comando do volante seja melhor que o meu.

14th of April

Transexuais no esporte feminino: 5 motivos pelos quais as entidades do esporte estão passando o carro na frente dos bois


O esporte é meritocrático: os atletas e audiências valorizam a premiação de habilidades pelas quais os atletas trabalharam. Mas há regras nessa meritocracia. Somente sádicos gostam de ver o resultado óbvio de botar um boxeador profissional para esmurrar uma pessoa mirrada e sem preparo. Na verdade, nosso instinto é de geralmente torcer para quem estiver em desvantagem. Queremos ver, quando não há igualdade de pontos de partida entre os competidores, ao menos alguma possibilidade de quem está em desvantagem vencer. Há algo de prazeroso na antecipação de um resultado que não é garantido e determinístico, de torcer para um time que você quer que ganhe mas não sabe realmente se ganhará. Isso reflete os mecanismos da dopamina no cérebro, que nos recompensam por essa antecipação e explicam boa parte de comportamentos como o vício em jogos. O êxtase da vitória é bem maior quando antes dele veio a ansiedade da antecipação: e maior ainda quando a vitória era implausível.

Jogos entre homens e mulheres não costumam ter essas características. No tênis, no futebol e em outros esportes em que isso foi tentado, a parte masculina quase sempre tem vantagem e, enfadonhamente, ganha. É um dos motivos justos para a cisão do mundo do esporte entre masculino e feminino. Por isso, não dá para atribuir completamente a preconceito que alguém desconfie que atletas transexuais, especialmente os que transicionaram do sexo masculino para o feminino, podem estar rompendo o mínimo nivelamento das competições por terem vantagens adquiridas quando apresentavam identidade e corpo masculinos.

Há, entre divulgadores de ciência e pessoas do esporte interessadas na inclusão de grupos em desvantagem (mais uma torcida previsível a favor dos desfavorecidos), uma tentação de alegar que, apesar de sabermos pouco, sabemos o suficiente para dizer que a vantagem das atletas trans é implausível. O Comitê Olímpico Internacional resolveu adotar um nível máximo de testosterona no sangue das atletas trans como critério suficiente para incluí-las ou excluí-las. Mas o critério é insuficiente. O mais provável é que as atletas trans tenham vantagem biológica (não trataremos dos atletas homens trans, que transicionam de feminino para masculino), e essa é uma conclusão que se pode fazer por via de evidências indiretas discutidas abaixo. No fim, discutiremos brevemente as questões éticas.

1 – A revisão de estudos citada pelos favoráveis à inclusão não tem evidências suficientes para apoiar a nova política esportiva.

Na ciência, estudos individuais nem sempre são suficientes para tirar grandes conclusões. Por isso é comum, na tarefa de apresentar conclusões mais estáveis à comunidade de pesquisa, que se publiquem revisões e meta-análises, que são estudos de estudos, que discutem as conclusões dos estudos individuais, ou (o que é melhor) reanalisam todos os dados disponíveis.

Há uma revisão sendo citada preferencialmente pelo campo que nega as vantagens biológicas das mulheres trans ou alega que são implausíveis.[i] Eis os problemas dessa revisão: avaliou somente oito artigos de pesquisa. Para dar uma noção da novidade do assunto, o artigo mais antigo é de 2004. A maioria desses meros oito artigos revisados é baseada em métodos qualitativos, como entrevistas, que não dão dados objetivos para testar diferenças. Os únicos dois estudos que sobram com dados objetivos têm amostras minúsculas: em um deles, somente 19 atletas trans foram testadas.[ii] Conclui-se nesse que as atletas trans estão muscularmente dentro da normalidade feminina. No entanto, a chance de as conclusões não serem confiáveis por causa da amostra pequena são consideráveis, e a diferença entre masculino e feminino não está somente nos músculos. O outro estudo[iii] não considerou atletas, e, também com uma amostra relativamente pequena de transexuais (n=33), concluiu que essas pessoas se exercitam menos, o que dificilmente é o caso entre trans que desejam ser atletas profissionais. O mesmo problema de amostras pequenas demais se repete em outros estudos não citados na revisão (como as minúsculas amostras n=8[iv] e n=6[v]).

O foco principal dessa revisão é político/moral: mais de 30 diretrizes esportivas sobre o assunto foram consideradas. Os resultados apresentados no resumo são todos argumentos pró-inclusão, ou seja, são argumentos na discussão moral. A revisão diz que não há estudos diretos suficientes da vantagem das trans e que por isso não se pode concluir que elas têm vantagem. Com base nisso os autores pedem que as diretrizes esportivas que as excluem precisam mudar em nome da inclusão. Mas essa é uma forma enviesada de fazer uma conclusão, pois, com os mesmos dados, podemos dizer que não há evidência direta suficiente, também, de que as trans não têm vantagem em relação às outras atletas femininas. Além disso, podemos tentar chegar a alguma conclusão plausível pelas vias indiretas ignoradas nesse estudo.

Ou seja, essa revisão não merece ser vista como uma discussão ampla das evidências disponíveis sobre possíveis vantagens ou desvantagens de transexuais nos esportes, mas como uma discussão das diretrizes existentes sobre o assunto nos esportes – que por sua vez deveriam depender das evidências.

2 – O desenvolvimento sob influência de hormônios masculinos após a puberdade dá vantagens improváveis de serem perdidas com poucos anos de transição hormonal feminilizante.

Há presumivelmente algumas habilidades esportivas em que as mulheres têm vantagem sobre os homens, mas, quando se trata de força, estâmina e outros atributos físicos, os organismos que passaram por uma puberdade masculinizante têm vantagens. Eis algumas, apresentadas em estudos com amostras maiores que os estudos discutidos anteriormente:

Nos músculos: organismos masculinos têm em média doze quilos a mais de músculos esqueléticos que os femininos.[vi] A diferença é maior acima da cintura (40%) que abaixo, mas ainda é substancial nas pernas (33%). Todos perdem massa muscular com a idade, especialmente após os 50 anos, mas a maior parte dessa perda é na parte inferior do corpo, não na superior, onde homens e mulheres diferem mais. Músculos em organismos femininos podem apresentar maior resistência à fadiga ao exercer força moderada, mas isso se restringe a alguns grupos musculares e desaparece quando é preciso exercer força máxima.[vii]

Para entender o quanto os homens são mais fortes que as mulheres, tomemos uma amostra de mais de 7 mil americanos: 89% dos homens têm mais força no aperto de mão que 89% das mulheres.[viii] A força do aperto de mão está positivamente correlacionada à dos outros músculos do corpo, especialmente acima da cintura. Com base nela, podemos afirmar que a maioria dos homens é mais forte que a maioria das mulheres, e a diferença se estabelece logo após a puberdade, como se pode ver no gráfico.

Nos ossos: não é segredo para ninguém que homens são em média mais altos que mulheres, e que a maior altura por si só já é vantagem em esportes como basquete e vôlei. Nenhuma atleta trans que teve puberdade masculinizante perderá altura com a transição hormonal feminilizante. Mas as vantagens ósseas não se restringem à altura, os movimentos causados pelas diferenças ósseas podem botar as mulheres cis (não-trans) em desvantagem: por causa dos ângulos de inserção dos fêmures na pélvis, as mulheres podem ter mais risco de lesão ao fazer agachamentos.[ix] As diferenças de sexo no esqueleto são tão pronunciadas que cientistas forenses já conseguem prever o sexo do organismo inteiro a partir de uma pequena área triangular numa das pontas do fêmur, com 86% de precisão.[x]

Pulmões: no sexo masculino os pulmões têm capacidade de inspirar mais ar que no sexo feminino, mesmo controlando para o efeito da altura.[xi] Oxigenar o sangue é uma característica vital em qualquer esporte, o que faz dessa diferença importante.

Dor: homens e mulheres têm capacidade similar de suportar dores de alguns tipos (como a causada por bloqueio de circulação sanguínea), mas elas têm menor tolerância à dor causada pelo frio, pelo calor e pela aplicação de pressão. São as conclusões de uma revisão de dez anos de pesquisa e 172 estudos.[xii] Como atletas sabem, no pain no gain. E se uma pessoa desenvolvida sob influência genética masculinizante é mais tolerante a certos tipos de dor, tem vantagem no treinamento e na competição.

Todas essas evidências servem para fazer a inferência indireta de que as atletas trans têm vantagem física no esporte feminino. É improvável que a transição hormonal, especialmente a mais tardia, mude todas essas características e ponha todas as atletas trans dentro da variação das outras atletas. Certas características adquiridas pelo organismo exposto a hormônios masculinizantes são organicamente irreversíveis, como o engrossamento da voz e o crescimento de barba. É difícil que todas as vantagens físicas relevantes para o esporte, especialmente envolvendo tecidos que não são completamente renováveis, sumam por causa do tratamento.

Devemos reconhecer nossa ignorância de evidências diretas da vantagem das atletas trans sobre as cis, mas isso não significa que as indiretas não têm valor: elas indicam que as políticas inclusivas das entidades decisórias dos esportes podem estar passando o carro na frente dos bois. É irresponsável agir tateando no escuro. Dar passos para a frente sem luz costuma dar em tropeços.

3 – As melhores diretrizes para tratamento de transexuais tornam improvável que as vantagens estejam ausentes na maioria das atletas trans.

A maioria das crianças que manifestam disforia de gênero, um sofrimento psicológico de dissociação entre o sexo do corpo e o sexo da autopercepção, não tem na transição hormonal (ou cirurgias) o melhor tratamento para sua condição. A Associação Psicológica Americana[xiii] calcula essa maioria entre 50 e 88%. Com o tempo, a disforia costuma se resolver nelas. Os motivos da manifestação da disforia são desconhecidos, mas é informativo que há uma proporção maior de homossexualidade entre essas pessoas que manifestam disforia mas não transicionam que na população em geral. Para uma minoria das pessoas que manifestam disforia, evidentemente, a transição hormonal para a identidade sexual de sua preferência é um tratamento salutar. No entanto, por causa desses números, além de motivos relacionados à capacidade de consentir e responder por si que não atribuímos moral/legalmente às crianças, é bem raro que uma atleta transexual não tenha passado pela puberdade masculinizante, que é o evento central no desenvolvimento que confere as prováveis vantagens discutidas aqui.

4 – Há um conflito insolúvel entre inclusão e mérito, e o esporte está mais preocupado com mérito.

Como sabemos, os jogos esportivos, especialmente profissionais, envolvem regras que valorizam o mérito: queremos que vença o melhor. Mas com uma sutileza: é um melhor que não era de forma óbvia determinado para ser o melhor antes de a competição começar. São regras que tentam capturar um equilíbrio fino entre se aproveitar de vantagens acidentais e colher os louros do esforço e da determinação.

Estamos em tempos em que as histórias de bullying e vitimização atraem atenção, com frequência poder e às vezes dinheiro. A história da criança traumatizada porque não foi escolhida para o time na aula de educação física já foi contada inúmeras vezes. O enredo é o mesmo, só mudam os atores. Poucas vezes a história é contada do ponto de vista da criança que estava escolhendo os membros do time. Sutilmente ela é sempre acusada de preconceito, ou seja, de usar características arbitrárias para escolher seus colegas de time. O mundo, no entanto, é mais complicado do que contam as narrativas preocupadas com traumas e vítimas: o fato é que as crianças diferem entre si inclusive em habilidades esportivas, e a criança líder do time tenta botar nele as coleguinhas que parecem as mais capazes de lhe dar a vitória, e não há nada de errado em querer vencer.

É importante que as crianças aprendam que as aparências às vezes enganam, que não há nada de errado em um menino ser afeminado e em uma menina ser mais forte que a maioria dos meninos da sua idade. São variações raras. E que é honroso que façam as pessoas raras se sentirem aceitas, que são parte da sociedade. Mas também é importante que as crianças aprendam que, independente de suas vantagens ou desvantagens de nascença, elas podem trabalhar em si mesmas para se destacarem em alguma habilidade. Inclusão é importante, mas premiar competência e trabalho duro também é.

Perseguir o valor único da inclusão e ignorar que temos que negociar entre coisas valiosas, que muito de uma coisa importante pode causar a queda de outra, não é criar uma sociedade em que a vida é confortável para todos. É criar um pesadelo politicamente correto e opressivo à liberdade e ao mérito. As atletas trans devem ser livres para perseguir o seu mérito, mas a sua inclusão não deve vir com o preço de deteriorar as chances das outras atletas – o que nos esportes de luta chega a significar risco maior de traumatismo craniano para as últimas, no caso de haver de fato vantagem biológica para as primeiras.

Há aqui outro ponto importante: pode estar havendo uma tentativa de um grupo político obcecado com a inclusão de corromper uma comunidade baseada em regras milenares que valorizam o mérito. Esse tipo de colonização de um grupo por outro deveria assustar a todos. Quanto mais se politiza uma parte da vida social, menos as pessoas a valorizam pelos motivos pelos quais ela existe, e mais desviam a sua função para a infindável guerra tribal da política. Tomar decisões com base em dados insuficientes certamente parece uma manobra nessa queda de braço política, não apenas uma virtuosa tentativa de inclusão.

5 – Podemos imaginar regras mais inclusivas, e elas envolvem reformar as regras antidoping, mas há um porém…

Há um empecilho natural à pureza da meritocracia esportiva: as vantagens genéticas que existem na variação entre os indivíduos. Por exemplo, Eero Mäntyranta, finlandês multi-medalhista do esqui, tinha uma mutação no gene EPOR que lhe conferia a vantagem de seu sangue carregar 50% mais oxigênio que o dos outros atletas. Alguns atletas são desqualificados nos testes antidoping por tomar a droga eritropoietina (que ocorre naturalmente no corpo) para tentar obter a mesma vantagem que Mäntyranta tinha por acidente da natureza. A vantagem genética dele era, presumivelmente, localizada num gene só. A diferença genética entre um corpo masculino e um feminino, por sua vez, está em cromossomos inteiros, tendo os hormônios sexuais um papel coordenador do desenvolvimento.

Nas diferenças físicas entre homens e mulheres há sempre alguma sobreposição na variação: uma minoria de homens cujas características físicas são típicas do grupo das mulheres, e outra de mulheres cujas características físicas são típicas de homens. Uma política inclusiva que não ignorasse a ética meritocrática do esporte precisaria ser baseada em conhecimentos mais precisos das diferenças naturais e de estabelecer, com base nelas, limites objetivos para várias características físicas, não só o nível de testosterona. Assim, as pessoas poderiam ser admitidas independentemente do sexo, com base nesses limites, em modalidades objetivas, como se faz nas categorias de peso do boxe.

Estabelecer limites objetivos é melhor que as regras atuais do antidoping, como argumenta o eticista Julian Savulescu,[xiv] porque essas regras dependem de distinções meio arbitrárias entre melhoradores de performance naturais e artificiais. A cafeína, droga que melhora a performance, é permitida, enquanto a eritropoietina, natural no corpo, é proibida. Simplesmente não serve alegar que a cafeína é natural e a eritropoietina é artificial. Melhor é estabelecer níveis aceitáveis de ambas no sangue. Regras baseadas nos limites objetivos seriam melhores também do ponto de vista da liberdade: todo indivíduo estaria livre para melhorar a si mesmo como quiser e puder, e para experimentar com seu corpo, mas dentro dos limites esportivos se quiser ser atleta profissional.

Da economia aos esportes, dar liberdade aos indivíduos sempre funcionou melhor para fazer inclusão social do que tentar planejar barreiras arbitrárias. Certamente não funcionou, no basquete, a exclusão de negros durante a segregação racial nos EUA.

Mas há, neste cenário futurístico de atletas competindo com base em limiares objetivos de características físicas, um grande problema: seria muito caro executar e coordenar tudo isso. Já tem custo proibitivo, hoje mesmo, testar todos os atletas para o doping. Seria muito mais barato manter o esporte separado nas modalidades masculina e feminina, o que já inclui a ampla maioria de atletas mulheres e homens. Em nome da inclusão, poderia ser criada uma exclusão maior ainda de atletas pobres, que não conseguiriam investir em si mesmos para alcançar os limiares fisiológicos nem para serem testados. Queremos ou podemos pagar o preço? Queremos ou podemos dar mais prioridade a conhecimentos ainda incompletos dos quais depende a aplicação correta dos custos da inclusão, ou mais prioridade a fazer a vontade de um grupo politicamente parcial de ativistas?

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Leia também neste blog: Transexuais: Resumão do Resumão

Referências

[i] Jones, Bethany Alice, Jon Arcelus, Walter Pierre Bouman, and Emma Haycraft. “Sport and Transgender People: A Systematic Review of the Literature Relating to Sport Participation and Competitive Sport Policies.” Sports Medicine 47, no. 4 (April 1, 2017): 701–16. https://doi.org/10.1007/s40279-016-0621-y.

[ii] Gooren, L. J., and M. C. Bunck. “Transsexuals and Competitive Sports.” European Journal of Endocrinology 151, no. 4 (October 1, 2004): 425–29. https://doi.org/10.1530/eje.0.1510425.

[iii] Muchicko, Megan M., Andrew Lepp, and Jacob E. Barkley. “Peer Victimization, Social Support and Leisure-Time Physical Activity in Transgender and Cisgender Individuals.” Leisure/Loisir 38, no. 3–4 (October 2, 2014): 295–308. https://doi.org/10.1080/14927713.2015.1048088.

[iv] Harper, J. “Race Times for Transgender Athletes.” Journal of Sporting Cultures and Identities 6, no. 1 (2015): 1–9.

[v] Harper, Joanna; Ospina Betancurt, Jonathan; Martínez-Patiño, Maria Jose. Analysis of the Performance of Transgender Athletes. World Congress of Performance Analysis of Sport XI, 2016. http://www.sportsci.org/2016/WCPASabstracts/ID-1699.pdf

[vi] Janssen, Ian, Steven B. Heymsfield, ZiMian Wang, and Robert Ross. “Skeletal Muscle Mass and Distribution in 468 Men and Women Aged 18–88 Yr.” Journal of Applied Physiology 89, no. 1 (July 1, 2000): 81–88. https://doi.org/10.1152/jappl.2000.89.1.81.

[vii] Hicks, Audrey L., Jane Kent-Braun, and David S. Ditor. “Sex Differences in Human Skeletal Muscle Fatigue.” Exercise and Sport Sciences Reviews 29, no. 3 (July 2001): 109.

[viii] National Center for Health Statistics. “National Health and Nutrition Examination Survey”, 2014. https://wwwn.cdc.gov/Nchs/Nhanes/2011-2012/MGX_G.htm ; Gráfico modificado de https://www.reddit.com/r/dataisbeautiful/comments/4vcxd0/almost_all_men_are_stronger_than_almost_all_women/

[ix] Graci, Valentina, Linda R. Van Dillen, and Gretchen B. Salsich. “GENDER DIFFERENCES IN TRUNK, PELVIS AND LOWER LIMB KINEMATICS DURING A SINGLE LEG SQUAT.” Gait & Posture 36, no. 3 (July 2012): 461–66. https://doi.org/10.1016/j.gaitpost.2012.04.006.

[x] Purkait, Ruma. “Triangle Identified at the Proximal End of Femur: A New Sex Determinant.” Forensic Science International, Sex and Body Size, 147, no. 2 (January 29, 2005): 135–39. https://doi.org/10.1016/j.forsciint.2004.08.005.

[xi] Cook, Charles D., and Joanna F. Hamann. “Relation of Lung Volumes to Height in Healthy Persons between the Ages of 5 and 38 Years.” The Journal of Pediatrics 59, no. 5 (November 1, 1961): 710–14. https://doi.org/10.1016/S0022-3476(61)80007-3.

[xii] Racine, Mélanie, Yannick Tousignant-Laflamme, Lorie A. Kloda, Dominique Dion, Gilles Dupuis, and Manon Choinière. “A Systematic Literature Review of 10years of Research on Sex/Gender and Experimental Pain Perception – Part 1: Are There Really Differences between Women and Men?” PAIN 153, no. 3 (March 1, 2012): 602–18. https://doi.org/10.1016/j.pain.2011.11.025.

[xiii] American Psychological Association. “Guidelines for Psychological Practice with Transgender and Gender Nonconforming People.” American Psychologist 70, no. 9 (2015): 832–864. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf

[xiv] Savulescu, J., B. Foddy, and M. Clayton. “Why We Should Allow Performance Enhancing Drugs in Sport.” British Journal of Sports Medicine 38, no. 6 (December 1, 2004): 666–70. https://doi.org/10.1136/bjsm.2003.005249.

5th of December

Transexuais: resumão do resumão


– A pesquisa ainda está só no começo, o que mostra irresponsabilidade no ativismo da área, que decreta como verdades inquestionáveis coisas que ainda estão sendo pesquisadas.

– Um dos pesquisadores mais respeitados da área é o Dr. Ray Blanchard. Ele classifica trans “masculinas para femininas” como em dois tipos principais (não descartando que pode haver outros tipos)¹:

1. Transexual homossexual. Esse tipo se encaixa na narrativa ativista de pessoas que “nascem no corpo errado”. Há evidência disso? Algumas. Há alguns núcleos do hipotálamo em que pessoas nascidas com pênis que querem ser aceitas como mulheres (mulheres trans) são mais parecidas com mulheres nascidas com vagina do que com homens.² No entanto, as poucas evidências disponíveis não apontam somente nessa direção, embora pareçam apontar mais nessa direção do que ao contrário. Há um estudo indicando que há certos aspectos do cérebro de mulheres trans que se assemelham mais aos cérebros dos homens.³

Há razões teóricas que levam à previsão de que transexuais desse tipo existam: machos variam mais que fêmeas. Tanto que há machos que se distanciam tanto da média dos machos que são na verdade fêmeas. Isso é corroborado pela maior incidência de transexuais masculino->feminino do que feminino->masculino.

2. Autoginecófila. A autoginecofilia é um termo que em sua raiz indica um “amor por si mesmo quando mulher”. Esse tipo de transexual rompe com a narrativa dos ativistas sobre “corpo errado”. A razão de as autoginecófilas quererem ser mulheres é sexual, neste caso é uma identidade que vem de uma orientação sexual. Elas preferem mulheres, e querem ser mulheres. Talvez, uma forma branda disso são homens que sentem tesão em se vestir de mulher. É simplificação dizer que isso é um “fetiche” porque as autoginecófilas estão propensas a querer fazer intervenções cirúrgicas para ficarem mais femininas. Por exemplo, um caso relatado pela pesquisadora Alice Dreger é de uma autoginecófila que chegou a ter raspado cirurgicamente o osso acima dos olhos (osso frontal) e sentiu um prazer enorme quando foi tomar banho e o xampu entrou em seus olhos.4 A atenção ao sexo do corpo é tamanha que ela percebeu, como poucas pessoas sabem, que esse osso age como um “guarda-chuva” nos olhos de muitos homens quando tomam banho. Há algo de similaridade entre elas e os “modificadores corporais” de outros tipos.

– A maioria das crianças que manifestam disforia de gênero (desconforto com o sexo do próprio corpo) na infância não se torna transexual na vida adulta.5 A disforia se resolve sozinha e boa parte delas se revela gay na puberdade. É por isso que é preocupante a onda de intervenção hormonal em “crianças trans”. Obviamente, uma minoria não resolve a disforia sem passar por terapia com hormônios sexuais e cirurgias, mas é melhor que isso só aconteça na vida adolescente/adulta.

– Alguns pesquisadores acreditam que, por causa da politização e atenção exagerada que o tema está ganhando, algumas pessoas com transtornos de personalidade, especialmente no espectro do autismo, podem se convencer de que têm disforia e desejam transicionar.6 É um fenômeno novo, similar à epidemia de bulimia dos anos 90: até o criador do termo “bulimia” acredita que ele ter criado o termo e o diagnóstico foi algo que CAUSOU que cada vez mais casos aparecessem. Evidência de que é coisa nova: essas pessoas geralmente não manifestaram disforia nenhuma na infância. Algumas se arrependem, e esse arrependimento às vezes termina em tragédia.

– Pela ignorância diante da falta de pesquisas e pelo emburrecimento que a politização causa, o tema está cada vez mais delicado. Os profissionais de saúde tentam seguir o pragmatismo de que o que fizer a pessoa sofrer menos é o melhor. Mas muitas vezes esses profissionais ignoram que há efeitos colaterais nos tratamentos de transição. E que coisas como a voz alterada por hormônios jamais voltam a ser o que eram antes. Ou seja, as profissões da saúde podem causar danos ao se politizarem: seja com a paranoia ultraconservadora de que isso tudo é plano do “globalismo” e da “ideologia de gênero”; seja com a empatia sem cérebro do ativismo que quer que tudo seja decidido com base na subjetividade do paciente, até quando essa subjetividade é volúvel, transtornada e mudará no instante seguinte.

 

Referências:

1 – Nuttbrock, Larry, et al. “A further assessment of Blanchard’s typology of homosexual versus non-homosexual or autogynephilic gender dysphoria.” Archives of sexual behavior 40.2 (2011): 247-257.

2 – Bao, Ai-Min, and Dick F Swaab. “Sexual Differentiation of the Human Brain: Relation to Gender Identity, Sexual Orientation and Neuropsychiatric Disorders.” Frontiers in Neuroendocrinology 32, no. 2 (April 2011): 214–26. https://doi.org/10.1016/j.yfrne.2011.02.007.

3 – Luders, Eileen, et al. “Regional gray matter variation in male-to-female transsexualism.” Neuroimage 46.4 (2009): 904-907.
APA

4 – Dreger, Alice. Galileo’s Middle Finger: Heretics, Activists, and One Scholar’s Search for Justice. Penguin Books, 2016.

5 – American Psychological Association. “Guidelines for psychological practice with transgender and gender nonconforming people.” American Psychologist 70.9 (2015): 832-864. http://dx.doi.org/10.1037/a0039906

6 – Marchiano, Lisa. O preocupante caso da transexualidade socialmente contagiosa. Xibolete, 2017. https://xibolete.uk/trans

5th of June

Identidade de gênero e orientação sexual: militância versus evidência


O que diz a militância:
 
Identidade de gênero e orientação sexual são coisas completamente separadas. Identidade de gênero é como a pessoa se vê (se homem, mulher, ou nenhum dos dois), orientação sexual é por quem a pessoa se atrai. Dessa forma, identidade de gênero e orientação sexual variam independentemente.
 
O que dizem as evidências:
 
Os fatores que causam a orientação sexual e a identidade de gênero são intimamente relacionados. Se não são os mesmos, ao menos a intersecção entre os dois conjuntos de fatores causais é grande. De outra forma não se poderia explicar por que, através das culturas, a maioria (90% ou mais) das pessoas são heterossexuais e mais de 99% não sofre disforia de gênero nem é intersexo.
 
Disforia é a sensação de sofrimento psíquico por crise identitária de quem não se conforma ao gênero com que foi rotulado ao nascer. Nos casos mais severos, manifesta-se bem cedo em crianças e pode levar à automutilação.
 
Pessoa intersexo era conhecida antes pelo termo “hermafrodita”, um termo bonito, que vem dos deuses gregos Hermes e Afrodite, termo que o politicamente correto – sisudo e sem poética – condenou ao ostracismo. 1 em 2000 pessoas são intersexo, apresentando variados graus de ambiguidade de características sexuais primárias e secundárias.
 
Claramente identidade de gênero é relacionada à orientação sexual também porque uma parte substancial (quiçá a maioria) de pessoas homossexuais apresentam alguma não-conformidade de gênero na infância e adolescência (em outras palavras: muitos homens gays foram meninos que já usaram vestidos, sapatos e maquiagem da mãe – é um indicativo, não uma sentença). Além disso, a maioria, entre 50 e 88%, das crianças que manifestam disforia a resolvem com o tempo sem transição para outro gênero. Isso sugere que a transição só é terapêutica para uma minoria das crianças que manifestam disforia. A maioria, que não cresce trans, geralmente é gay. Novamente: identidade de gênero e orientação sexual são intimamente relacionadas.
 
Isso contradiz a insistência de que tudo o que é necessário para considerar uma criança “trans” é que ela manifeste disforia. Na verdade, a probabilidade maior é que não seja trans, mas gay. Também contradiz a noção de que basta uma criança dizer que é de outro gênero para aceitar que é mesmo. Não é transfóbico pensar que há uma probabilidade substancial de ela não ser: é o resultado mais provável. Isso, obviamente, não é desculpa para forçar a minoria que cresce para ser trans a não ser trans: estamos falando aqui do resultado mais terapêutico para seu desenvolvimento, e repito que para 12 a 50% dos casos o melhor curso de ação é a transição. Se você acha que uma pessoa trans sofre (e geralmente sofre, disforia é horrível), imagine então como sofre uma pessoa que fez transição, retirou mamas, tomou hormônios, porque ouviu que essa era a sua única opção, e depois se descobre não-trans e tem que viver com resultados permanentes de uma decisão tomada sem clareza suficiente sobre quem ela é. É a minoria de transicionados, mas existem (a idéia não é proteger minorias?).
 
Disforia está correlacionada com outros trantornos psiquiátricos. Não se pode atribuir todos os problemas psíquicos das pessoas trans à resistência da sociedade à sua transição. Sim, há muita transfobia e sofrimento causado por ela. Mas há mais coisas. A narrativa de “nasceu no corpo errado” não se aplica a todas as pessoas trans.
 
Finalmente, para botar um último prego no caixão da idéia de que identidade de gênero e orientação sexual são totalmente distintas e não relacionadas, vou falar de um tipo de transexualidade que essencialmente é uma orientação sexual. Trata-se da autoginecofilia. Autoginecófilas são mulheres trans (nascidas com sexo masculino) que têm atração sexual por si mesmas como mulheres. O conceito é um pouco difícil de entender quando se ouve falar nele pela primeira vez, mas existe e já foi descrito pelo cientista do sexo Ray Blanchard em detalhes. As autoginecófilas, como as outras trans (estas mais próximas de “nascidas no corpo errado”), podem fazer a transição hormonal e genital como terapia. Não é um fetiche, mas uma orientação-sexual-identidade-de-gênero que é parte fundamental de quem elas são. Alice Dreger, estudiosa da intersexualidade e de conflitos entre pesquisadores e ativistas, descreve o caso de uma mulher trans autoginecófila que chegou a raspar cirurgicamente o osso acima da sobrancelha, e conta que teve uma sensação de êxtase quando, depois da cirurgia, nos banhos o xampu passou a escorrer dos cabelos e chegar aos olhos, irritando-os. Porque tomar banho com um “guarda-chuva natural” acima da sobrancelha formado por esse osso seria coisa de homem. Alice, que é mulher nascida com vagina, diz que em toda a sua vida como mulher nunca tinha pensado nisso. Conto a história não para apontá-la como bizarra, mas para apontar o quão profunda é a identidade feminina para uma trans autoginecófila, tanto quanto para outras trans. (Outra evidência de que há ao menos esses dois tipos de mulheres trans é que as autoginecófilas tendem a gostar de mulheres e as outras tendem a gostar de homens.)
 
Portanto, enquanto ainda há muita ignorância sobre as origens tanto da orientação sexual quanto da identidade de gênero, está claro o suficiente que os dois conceitos são separados apenas para facilitar a compreensão de certas questões (ou por dogmatismo de ativistas), mas o mundo em si não os separa tão bem assim. Se engana quem pensa que não têm nada a ver com biologia, ou quem pensa que têm a ver apenas com biologia – os mais astutos devem ter percebido que a mulher trans de uma cultura pode ser o homem gay de outra.
 
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Referências
 
Sobre a provável maioria das crianças disfóricas não transicionar, vide Associação Psicológica Americana. https://www.apa.org/practice/guidelines/transgender.pdf
 
Sobre a proporção de intersexos na população, sobre histórias cabeludas de ativistas atrapalhando o avanço da ciência nessas questões, vide Alice Dreger: Galileo’s Middle Finger. https://g.co/kgs/oiUoOU
 
Sobre mulheres nascidas com pênis se assemelharem no cérebro a mulheres nascidas com vagina, e sobre homossexuais manifestarem não-conformidade de gênero, vide Bao & Swaab 2011. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21334362
 
Sobre disforia estar correlacionada a outros transtornos, ver este estudo escandinavo que relatou que ela é geralmente precedida por outros transtornos e que é muito comum o autismo: https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-015-0042-y
24th of March

Resumidíssimo: por que gênero não é construção social Explicado em menos de 2600 caracteres, publicado originalmente no jornal O Tempo, 24 de março de 2017.


No livro “The Social Construction of What?”, Ian Hacking lista mais de 50 coisas que já se alegou que são construções sociais: emoções, sexualidade, doença, quarks etc., até fatos, realidade e conhecimento. É moda alegá-lo sem provas. Algo construído não estava ali para ser descoberto, e socialmente construído é algo que foi feito por uma sociedade e não por qualquer outra coisa. Alega-se que gêneros são também construídos socialmente. Esta é uma alegação determinista cultural sobre o gênero, uma inversão de determinismos biológicos igualmente equivocados, como o cromossômico. Já no berço, antes de aprender qualquer cultura, meninas já diferem de meninos no tempo em que olham para móbiles ou faces.

Se gênero fosse construção social, sob o igualitarismo homens e mulheres se aproximariam em escolhas de carreira. Ocorre o oposto: quanto mais igualitárias as sociedades, maior a diferença na escolha de carreira entre gêneros. A preferência masculina por carrinhos e feminina por bonecas vai além da espécie humana, macacos também a manifestam. Não parece ser o caso com preferência por azul ou rosa, que depende da cultura.

A maior descoberta da genética do comportamento é que nenhum comportamento é destituído de biologia. Outra é que nenhum comportamento é livre de ambiente. A dicotomia “natureza vs. cultura” é obsoleta, temos “natureza e cultura”. Somos culturalmente moldados na nossa natureza: sem a cultura do fogo, a savana em que evoluímos não teria energia suficiente para suprir o cérebro. Somos também biologicamente propensos à cultura: somente nossos filhotes ensinam já no início da infância. O gênero é feito de um cerne natural fruto da evolução ao qual são adicionados acessórios que são construções sociais. Gênero é o sexo que está entre as orelhas.

Contraste o gênero com uma categoria que é construída: a casta indiana. As castas começaram com uma invasão, e chegaram a milhares em poucos milênios. Não é o caso do gênero: não há cultura em que o número de gêneros tenha sequer chegado a dez, mesmo com gêneros precedendo castas. O que temos são culturas com categorias como “homem”, “mulher” e “fa’afafine” (em Samoa). O número de gêneros tem um limite inferior ao das castas, dado pela biologia. Há dimorfismo anatômico e comportamental, orientações sexuais, características que culturas lêem como essenciais às suas categorias de gênero.

Quem tem medo desses fatos confunde o projeto ético da igualdade de direitos e oportunidades com a engenharia social de forçar paridades. Além de tratar pessoas diferentes com igualdade, também devemos contar-lhes a verdade.

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Para referências, leia este texto do Dr. Larry Cahill.

15th of January

BBC toca no tema explosivo de crianças transexuais


Este tema, como outros, está cada vez mais intratável por causa da politização. Quando se politiza um tema, as pessoas passam a vê-lo como uma disputa tribal, e defenderão com unhas e dentes suas posições independentemente das evidências. Não foi surpresa, portanto, quando saiu um estudo recentemente mapeando padrões cerebrais relacionados ao posicionamento político aos mesmos relacionados à afiliação religiosa.*

Fiquei positivamente surpreso com a qualidade do documentário “This World: Transgender Kids”** que saiu na BBC há dois dias, é muito informativo e corajoso. O documentário comenta alguns dados importantíssimos. De todas as crianças que manifestam disforia de gênero (o sentimento de estar “no corpo errado” para seu gênero), 80% se resolvem e desistem de transicionar para outro sexo, vindo a aceitar o sexo com que nasceram. A maioria dessas crianças cresce para ser gay, lésbica ou bissexual.

O ativismo na área se foca em casos em que a disforia não se resolve e, por isso, a transição de um sexo para outro se faz terapeuticamente necessária. Apaixonados por ideias de destruir papéis de gênero, alguns ativistas simplificam demais a questão, culpando expectativas sociais de papel de gênero que crianças mal entendem por todos os casos de suicídio entre crianças com disforia de gênero. No entanto, é importante apontar que está longe de claro que as expectativas sociais são tudo o que há por trás da ansiedade e ideação suicida de uma fração preocupante dessas crianças. Alguns pais resistiram à afirmação de gênero de suas crianças, persistiram durante anos com terapeutas, e ao fim desse processo encontraram que suas crianças se encaixam no grupo da maioria que não era “realmente” trans, mas “apenas” gay.

Um dos terapeutas que ajudavam pais nessa direção era Ken Zucker. Por causa do lobby de ativistas com sua narrativa simplificada, ele perdeu o emprego e teve sua clínica fechada, acusado de tentar “terapia de conversão”. O problema nisso é que, como ele mesmo diz no documentário, a razão pela qual alguns pais insistem que suas crianças tomem hormônios e façam cirurgias genitais é justamente porque não querem que elas sejam gays. Então, em muitos casos, é a própria narrativa simplificadora dos ativistas que está facilitando “cura gay”, em que se produz uma menina hétero transicionada em vez de um menino gay afeminado.

O assunto é muito difícil, e diante da ignorância parece que alternativa mais cautelosa é acompanhar as crianças em sua descoberta de identidade até que elas estejam preparadas, especialmente depois de crescerem e terem acesso a terapia, a decidirem sem risco de se arrependerem depois. Acima de qualquer coisa, é muito decepcionante ver que ativismos tão importantes para fazer avançar a liberdade individual nas décadas recentes estejam agora começando a se perder aceitando que devemos levar a sério tudo o que sai da boca das crianças, que a única forma de cuidar de uma criança é dando o que ela quer. Crescer LGBT sob a autoridade de pais que claramente te rejeitam é ruim, mas crescer sob autoridade nenhuma de pais seduzidos por ideias simplistas que não põem ordem alguma no seu mundo pode ser igualmente ruim. A identidade não é simplesmente um sentimento que brota espontaneamente de dentro. Ela é também um resultado do que negociamos com quem divide a existência conosco, e do que aprendemos sobre nós mesmos (introspecção não é o mesmo que se deixar levar por qualquer sentimento). Pessoas trans merecem os mesmos direitos que pessoas não-trans, mas não é fazendo crianças de cobaias que se chega à justiça. E, como provam transtornos psiquiátricos diversos, às vezes nós precisamos de ajuda para lidar com nossa própria identidade, e afirmá-la porque soa inclusivo não é tudo o que há para a questão.

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* Kaplan, J. T., Gimbel, S. I., & Harris, S. (2016). Neural correlates of maintaining one’s political beliefs in the face of counterevidence. Scientific Reports, 6, 39589. https://doi.org/10.1038/srep39589

** Transgender Kids: Who Knows Best? (2017). British Broadcast Corporation. http://www.bbc.co.uk/iplayer/episode/b088kxbw/transgender-kids-who-knows-best

17th of December

Os novos carolas Como ativistas irracionais prejudicam suas causas


Uma moça foi contratada para posar de maiô junto a móveis de aço inoxidável, na publicidade de uma empresa que os vende. Em resposta, por considerarem isso errado, muitos ativistas atacaram a página em bando, chamando por avaliações baixas para a página e em consequência a empresa inteira. A empresa, muito espertamente, fez uma campanha nova oferecendo doar somas cada vez maiores a uma associação de deficientes conforme a avaliação de sua página subir, em reação às avaliações dos ativistas.

Algo similar aconteceu em Londres, quando em 2015 uma empresa que vende shakes de proteína botou no metrô uma campanha com uma modelo usando um biquíni amarelo, acompanhada de uma pergunta: “você está com o corpo pronto para a praia?”. Centenas de reclamações choveram sobre a autoridade responsável por regular anúncios no metrô, e o anúncio acabou sendo retirado por isso. Em resposta, a empresa foi a um país com mais liberdade de expressão publicitária, Estados Unidos, e simplesmente botou o mesmo anúncio na Times Square. A empresa ganhou popularidade e suas vendas aumentaram. Algumas outras marcas, também espertas, embarcaram na controvérsia, com imitações mais simpáticas às crenças dos ativistas. Mas a estrela acabou sendo a empresa que provocou a ira dos ativistas.

Muitos desses ativistas são incapazes de articular o que exatamente está errado, e são só seguidores de uma onda ideológica que se analisada de perto por sociólogos pode revelar como surgem novos tabus (religiosos), como o tabu bíblico contra tecer panos misturando fibras diferentes. Alguns poucos, no entanto, tentam explicar seu ultraje. Alguns dizem que diz respeito à imagem corporal, que há pessoas cuja auto-imagem depende bastante do que está na mídia popular, e que falta de sensibilidade com essas pessoas pode criar ou piorar problemas como a anorexia nervosa. Já ouvi também a alegação de que se trata de “objetificação” sexista, que causa ou piora o estereótipo de que mulheres devem ser valorizadas pela aparência acima de tudo.

Embora haja um ou outro ponto justo nisso, há pouca coisa que se aproveite nessas tentativas de justificação. Quem acha que a responsabilidade do cuidado a anoréxicos, bulímicos e vigoréxicos está na mídia é culpado de futilidade. O problema das pessoas que se deixam influenciar tão profundamente por mídia popular é principalmente falta de repertório cultural, falta de desligar a TV e deslogar do Facebook. É de impressionar como hoje as pessoas ficam comentando assuntos superficiais, como Tilda Swinton ser escalada para interpretar um personagem que nos quadrinhos é um homem asiático velho e sábio (outro estereótipo), como se estivessem libertando Mandela da cadeia ou repetindo o feito heroico de Rosa Parks. Desculpem-me os ativistas (ingenuidade minha achar que está sobrando nuance para me desculparem por qualquer coisa, eu que já sou difamado com todo tipo de adjetivo), mas eles deveriam baixar a bola: estão apenas comentando assuntos que em última análise são apenas passatempos para a maioria das pessoas, em que elas se engajam por futilidade. Se isso é ativismo, é uma forma inferior de ativismo.

É estranho também dar o nome “objetificação” ao problema, quando é fato que nossos corpos são objetos e o tempo todo fazemos uso desse objeto: se você utiliza os serviços de um motorista do Uber, você está “objetificando” o corpo dele para se deslocar de um ponto ao outro. Mulheres não são crianças, se elas trabalham o próprio corpo ao ponto de alugá-lo para a publicidade (e por mais que seja irracional, funciona), estão “objetificando” a si mesmas, e todos os envolvidos estão ganhando alguma coisa: elas estão sendo pagas, as empresas estão fazendo sua publicidade. Nada que ativistas disserem vai reduzir a soberania de mulher bonita ou homem sarado nenhum sobre seus próprios corpos, e corpos são objetos. Negar a realidade alegando que não existe atratividade intrínseca em certos tipos de corpos mais que em outros só piora a mensagem e só faz com que pareçam mais loucos ainda. A mídia existe por causa da sociedade e por causa do que as pessoas são, há muito pouco que a mídia de fato pode fazer para mudar o que as pessoas já consideram atraente. No máximo, ondas ideológicas podem convencer um certo setor da população a se engajar em ilusão coletiva alegando que obesidade mórbida é tão atraente quanto a média dos corpos.

Muitos dos ativistas não estão vendo, mas já são os novos carolas. São os novos moralistas que, devido a seus tabus injustificados, mais e mais pessoas consideram divertido ofender (e é tão fácil ofendê-los!). Muita gente fã de telenovelas adora ver a personagem carola se dando mal: da Perpétua em “Tieta” ao inquisidor em “A Muralha”. Continuem assim, que logo a cultura vai usar o arquétipo do ativista irracional, ofendido por tudo, nas novelas, séries e filmes brasileiros (se é que já não usaram – eu lembro de rir em “Tropa de Elite” dos estudantes rococós pomposos falando de Foucault). Estereótipos não surgem do nada. Se ativistas estão sendo estereotipados assim, é porque mais e mais ativistas que se comportam assim são visíveis. E, como já sugerido em pesquisa empírica*, o estereótipo do ativista raivoso e irracional, que nem mesmo explica o porquê de tanta ira, serve para prejudicar as próprias causas que ativistas tentam defender. Tentam, mas falham frequentemente, tudo porque sucumbem ao pensamento de manada, e estão mais interessados em abusar da ferramenta de avaliação do Facebook do que em discutir adequadamente ou ensinar alguma coisa. O caso é que não se pode ensinar o que não se sabe. Tabu e ultraje moral estão correlacionados com ignorância, não com conhecimento.

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* Bashir, Nadia Y., et al. “The ironic impact of activists: Negative stereotypes reduce social change influence.” European Journal of Social Psychology 43.7 (2013): 614-626.

14th of July

Gênero continua não sendo construção social: resposta à crítica


O artigo da Daphna Joel no PNAS (ver meu texto sobre gênero não ser construção social) alega que não há forma objetiva de classificar cérebros em masculino e feminino. Três respostas a essa alegação vieram. Em uma delas, os mesmos dados em análise multivariada permitem prever o sexo da pessoa cujo cérebro está sendo analisado com 70% de acerto. Eu falei em particular com alguns cientistas especialistas no assunto do gênero cerebral, e a opinião foi que o PNAS falhou em publicar aquele artigo com análise que parece ter sido escolhida a dedo para gerar o resultado que um grupo ideológico quer.

A melhor resposta que meu curto artigo recebeu simplesmente PREFERE acreditar em Joel APESAR DISSO. O que revela que quando é para ser politicamente correto e agradar os colegas de crença, o suposto interesse em dar uma avaliação imparcial morre rapidinho.

Sobre eu ter escolhido a definição de “construção social” do Paul Boghossian, foi em reconhecimento ao trabalho dele de separar joio de trigo nas alegações de construção social que parecem suficientemente ambíguas para se adequarem à afirmação que for mais conveniente no momento. Definições de “construção social” que aceitam que há também causas biológicas no gênero são anomalias dentro da vasta literatura construtivista, boa parte da qual merece o rótulo de pseudociência, como discutido num volume recente de filosofia da pseudociência editado pelo filósofo Massimo Pigliucci. De qualquer forma, nem faz muito sentido escolher o termo “construção social”, ao pé da letra, se você acredita que o fenômeno em questão é em parte o resultado de fatores biológicos.

Eu uso os termos “sexo” e “gênero” livremente não porque não sei da distinção geralmente feita entre eles. Mas porque rejeito a dicotomia “Nature vs. Nurture” implícita neles, que não é mais adequada.

As críticas justas ao meu texto são essas:
– Curto demais para assunto tão complicado.
– Deveria conter uma definição de trabalho de gênero. Mas eu posso responder que definições completas são teorias e que o propósito de discutir as evidências mais recentes é justamente começar a formar uma ideia mais clara do que é gênero. Conhecimento que as hipóteses de acadêmicos construtivistas estão atrapalhando, por seu compromisso frequente com o pós-modernismo e sua rejeição implícita da navalha de Hume e de facetas da racionalidade como objetividade e imparcialidade, valores indispensáveis na ciência.

Eu considero a comparação que fiz de gênero e castas indianas muito mais adequada para ilustrar que gênero não é construção social enquanto castas o são. Mas por algum motivo a crítica ignorou isso e se focou apenas na comparação com o dinheiro.